Educação

In-Tolerância ! O que a Psicanálise tem a dizer – parte 2

Sob o prisma das relações de alteridade e de responsabilidade, a questão ética nos coloca empaticamente relacionados com o outro em diversos graus

Por Ilana Waingort Novinsky*

A experiência clínica hoje aponta que não podemos limitar o nosso foco apenas à vida intrapsíquica presente e manifesta dos pacientes, sem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor. Para realizarmos o trabalho analítico e lidar com os novos tipos de sofrimento e adoecimento que se apresentam em consultórios, é necessário resgatar os valores que nos colocam em reverência à alteridade, compreendida como matriz de uma ética individual e das relações humanas. Para acolhermos o outro, que é sempre diferente e estranho, é preciso poder reconhecermos que ele é um ser humano como eu.

É a relação com o outro, o pertencer a um grupo, o ser parte de uma comunidade o que constitui a condição fundamental para o nosso vir a ser e para o desenvolvimento da singularidade de cada um. A questão ética aqui se refere às condições necessárias para o acontecer humano, isto é, ao que permite a cada um de nós participar de uma comunidade.

Habitualmente a ética é vista como fruto do aprendizado, de algo que se acrescenta a uma personalidade que estaria se formando, se organizando, daí a importância dada à educação.

Entretanto, o trabalho do psicanalista inglês Donald W. Winnicott nos mostra que a questão ética faz parte da própria condição humana, do modo de ser de uma criança, do que lhe é originário. Há, desde o início da vida, segundo Winnicott, um pressentimento do ético: uma criança que tem a experiência de ser cuidada, recebe desta forma também um saber sobre a ética, um elemento fundante, sobre o qual inúmeros outros elementos psíquicos podem acontecer.

O que caracteriza o cuidado ético é a atitude que se exprime na consideração pelo outro e por suas necessidades. Na ausência desta atitude as ações do cuidar perdem sua motivação ética, se desvalorizam e deterioram. Quando este cuidado ético não acontece, temos a presença de fraturas nos fundamentos da ética da criança, e ocorrem fissuras psíquicas no seu desenvolvimento.

Nossos pacientes são testemunhas dessas fragmentações éticas, com seus inúmeros sofrimentos, como a perda do sentido de si e do contato com os outros. Podem sentir uma profunda solidão, sem alguém que os façam se sentir humanos e pertencendo à comunidade humana, e desenvolver assim uma visão niilista da existência. Aqueles que não experimentaram este cuidado ético fundante tendem a reproduzir comportamentos de violência explícita no nível social, tendências anti-sociais, através da participação em organizações delinquentes, como tentativas de sobrevivência psíquica.

Todo ser humano nasce numa experiência de “nós”, de pertencer a um grupo familiar e precisa viver a experiência de hospitalidade, como experiência fundante, neste seu grupo familiar e humano. Este cuidado é parte fundamental das condições ontológicas da constituição da pessoa humana, e sem ele a dimensão ética é apenas superficial ou impossível de ser acessada. Isto significa que sem a experiência de cuidado não temos como conviver e viver em um mundo hospitaleiro e solidário, com compaixão e tolerância. Cuidar, aqui, implica tolerar o outro: aquele que não foi cuidado, recebido como um outro, tem pouca possibilidade de poder receber também um outro, de tolerar a singularidade do outro.

A criança que encontra apenas figuras que encarnam força, mas que não lhe permitem ter as experiências fundantes aqui apontadas pode desenvolver ideais fantásticos de si mesma, desenraizada da condição humana. Pode também buscar a autoridade pelo negativo, entrando em uma sequência de comportamentos delinquentes na busca de quem a pare, de quem a devolva a uma ética da condição humana. Estas são situações que ocorrem a partir do sofrimento de crianças que viveram a violência e a intolerância.

Hoje, os indivíduos, famílias, grupos e instituições mostram-se incapazes, muitas vezes, de oferecerem estas formas fundamentais de cuidado, pois passam por graves descontinuidades e arcam com certo descrédito.

A proliferação de ideologias e grupos totalitários e a globalização de diferentes formas de intolerância, mais uma vez, atestam as falhas nos dispositivos de acolhimento e reconhecimento disponíveis no mundo contemporâneo. Uma sociedade tecnológica, de competição e da imagem revela, assim, pelo avesso as graves deficiências em mecanismos sociais de reconhecimento dos indivíduos em suas singularidades.

Os fenômenos totalitários chamam a atenção para a intensa demanda de inclusão e da busca de objetos capazes de fornecer sustentação e continência. É justamente a massa de indivíduos, avulsos e desamparados, a que mais se sente atraída pelas promessas de englobamento absoluto, proferidas pelas ideologias totalitárias e seus líderes.

Na questão da tolerância, a meu ver, não se trata de “tolerar, ou ter paciência” com o mais “fraco, infantil ou necessitado”, ou seja, de uma relação de poder. Trata-se de ver, sentir e viver com o Outro, de reconhecer como partilhamos as mesmas necessidades, fragilidades e angústias. Neste contexto a experiência de empatia surge como experiência humana fundamental.

Estamos aqui no campo do entre-nós, onde precisamos acolher o desproporcional, o trágico e o paradoxal, como aspectos inerentes ao nosso campo de experiências, estudos e reflexões. Desta forma, a perspectiva epistemológica usada tanto no estudo sobre a pessoa humana quanto nas relações de tolerância e intolerância, mais do que ser um elemento relacionado à teoria do conhecimento, expressa uma posição ética.

A questão da intolerância/tolerância, sob o prisma das relações de alteridade e da responsabilidade, nos coloca empaticamente relacionados em diversos graus com o Outro.

Quando não podemos mais acompanhar e sermos acompanhados nas nossas necessidades e vocações, estamos em meio à intolerância e em seu extremo, na barbárie: quando o Outro é usado, negado, em nome de objetivos e justificativas os mais variados. Não é apenas a ética que está em suspensão, mas ocorre uma destituição da pessoa humana em níveis tão profundos que a própria capacidade de atuação desaparece e o ser humano perde seu lugar, como ator psíquico e político, como ocorreu durante as perseguições e campos de concentração nazistas.

Uma reflexão psicanalítica sobre a questão da tolerância/intolerância, nos leva à questão das necessidades éticas fundamentais, sem as quais estamos condenados ao adoecimento e à barbárie – à intolerância.

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é a segunda e última parte de um ensaio em que ela discute e intolerância.

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.

 

 

 

Escola e Família: indagações e perplexidades em tempos críticos

De perspectivas diferentes, a Educação e a Psicanálise se ocupam do desenvolvimento humano e o diálogo entre as duas áreas tem se mostrado cada vez mais produtivo. Nos dias atuais, com as novas tecnologias e perspectivas que desafiam todos nós, o papel da família e da escola na educação das crianças vem sofrendo profundas mudanças e gerando questões que necessitam urgente reflexão.

Sobre o tema, vale conferir abaixo a ótima conversa que tivemos com as psicanalistas e membros da SBPSP, Heloisa Ditolvo, Marina Bilenky e Silvia Deroualle, coordenadoras da 5ª Jornada de Psicanálise e Educação, no dia 26/09, na sede da SBPSP. O evento é imperdível tanto para psicanalistas como para educadores atentos às perplexidades da nossa realidade atual.

Por que uma jornada que reúne os temas Psicanálise e Educação?

A psicanálise e a educação são áreas de estudo que abordam questões que possuem intersecções. Partindo de diferentes perspectivas, ambas se interessam pelo desenvolvimento humano e entendem a necessidade de se cuidar e de se criar condições favoráveis para que esse desenvolvimento aconteça.

Quais as principais interfaces entre ambas?

Ambas procuram entender e trabalhar com o ser humano que vive dentro de uma cultura que lhe é própria e ocupam-se em instrumentalizar esse indivíduo para que possa ser reflexivo, crítico, criativo, capaz de utilizar recursos próprios.

Em nosso percurso, nas Jornadas anteriores, fomos constituindo a ideia de que tanto a Educação como a Psicanálise estão comprometidas com a construção de lugares produtores de sentido, de narrativas e, em última análise, com a construção do humano.

Em tempos de rápidas transformações e novos paradigmas, o que muda no papel dos adultos de educarem as crianças? 

A tradição, o conhecimento passado através das gerações, não responde mais às inúmeras indagações que esses novos paradigmas nos propõem. Não possuímos um acervo de conhecimentos que nos auxilie a educar para o uso da internet, por exemplo. Como os problemas são novos, precisamos pensar novas soluções. Somos assaltados por situações no cotidiano que não podemos prever. Os adultos encontram dificuldade de exercer seu papel de autoridade diante de assuntos que não dominam.

Do ponto de vista da construção de conhecimento, como as novas tecnologias podem se tornar aliadas nesse processo? 

As informações são muito acessíveis hoje. Mas é preciso discriminar informação de conhecimento. O conhecimento implica dar um lugar e um sentido para o novo conteúdo. É preciso cuidar para que essas informações não sejam meros dados repetidos ou decorados, para que possam se transformar em material incorporado com significado.

O professor tem esse papel fundamental tanto no sentido de educar para o uso das novas ferramentas, quanto no de construir o conhecimento junto com seu aluno. E a escola pode usar as novas tecnologias para tornar suas ferramentas mais acessíveis aos alunos. O processo fica mais dinâmico, as crianças podem ter maior autonomia com a disponibilidade de informação oferecida.

Com a difusão de tantas informações pela internet e uma maior disseminação de conhecimento, é possível pensarmos em um sistema mais horizontal de educação, em que a criança goze de maior autonomia? (em substituição ao modelo tradicional hierárquico). Isso inclusive já vem acontecendo em algumas escolas que partem de filosofias semelhantes à Escola da Ponte, em Portugal. A questão é se o modelo se tornaria sustentável em escala maior, não apenas em universos pequenos.  

Isso já vem acontecendo em outras partes do mundo também. A Finlândia, cuja educação é considerada uma das melhores do mundo, mudou seu currículo mínimo para atender à nova demanda do mundo globalizado. A ideia é juntar as áreas de conhecimento, que seriam todas estudadas para a realização de projetos interdisciplinares, dando à criança maior autonomia para pesquisar e ênfase no trabalho em conjunto.

O adulto continua exercendo seu papel de autoridade nesse modelo, afinal não podemos negar que existe uma diferença hierárquica entre a criança e o adulto. O adulto precisa servir de referência à criança, orientá-la e ajudá-la a construir o conhecimento. O saber do adulto adquirido ao longo de sua vida é o que dá base para a sua autoridade.

Nossas crianças, as crianças do século 21, já nasceram dentro dos novos paradigmas; ou seja, são crianças com ferramentas digitais, mergulhadas no  mundo virtual da internet. Como fica a criatividade  e o brincar, temas tão caros para psicanalistas e educadores, em termos de construção da identidade dentro dessa nova realidade?

Para nos auxiliar nessa resposta, temos o documentário “Território do Brincar” (atualmente no circuito comercial) que faz uma pesquisa  com crianças de todo o Brasil sobre o brincar. O que essa pesquisa nos mostra é que há preservação de muitas brincadeiras  e que elas são as mesmas tanto para as crianças de “condomínio” das regiões sul e sudeste, como para as crianças do nordeste.
É surpreendente a criatividade das crianças, a preservação do imaginário e a grande habilidade motora. Essa pesquisa nos aponta que a criação, o imaginário, e a liberdade continuam sendo fundamentais na construção da identidade e do humano.
Parece que nossas crianças conseguem se movimentar tanto pelo mundo virtual como nas brincadeiras mais tradicionais que nos são familiares. A utilização das novas tecnologias representa avanços e resultados de desenvolvimento. Porém o excesso no uso ou o risco de uma substituição do real pelo virtual é que podem acarretar prejuízos na construção da identidade.

A existência de um universo virtual exerce que tipo de influência na construção e desenvolvimento de alguns aspectos da identidade? (ex.: ser popular na redes sociais pode contribuir para uma boa autoestima, ou vice-versa). 

O nosso futuro é a utilização cada vez maior do universo virtual. Sob esta perspectiva as crianças e os adolescentes, durante a formação de suas identidades, certamente são influenciados pelas experiências nas redes sociais. Ser aceito ou não como “amigo” no Facebook, receber muitos “likes” ou não receber a quantidade que esperava, sofrer algum tipo de bulling na internet, obter um sucesso meteórico porém fugaz são algumas das situações vividas no mundo virtual e que por vezes escapam ao controle dos jovens. A entrada neste universo volátil e surpreendente precisa ser acompanhada e compartilhada presencialmente por alguém do universo afetivo da criança, que possa orientá-la e educá-la para usar esta ferramenta.

A criança internaliza figuras ao longo de seu desenvolvimento com as quais se identificará.  É importante que sejam verdadeiras e reais e não espetaculares ou idealizadas como é comum encontrarmos no mundo virtual. Estas últimas certamente vão desapontar e frustrar oferecendo elementos não reais mas falseados e enganadores e que se apresentam como modelos impossíveis de serem atingidos..

O tempo de permanência que a criança fica conectada, a qualidade e natureza do material que ela acessa, a potência que os jogos imprimem no passar de fases, preparam a criança para enfrentar um opositor presencialmente?

Temos um instrumento muito poderoso, ferramenta útil, mas que deve ser usado com sabedoria.

A maior complexidade do mundo atual exige de nós mais recursos, do ponto de vista emocional? Ou é apenas uma questão de serem diferentes e outros recursos?

O mundo atual nos pede rapidez nas respostas, eficiência, performance. Com isso as pessoas tendem a agir de modo imediato, sem pensar, para dar conta da pressão. Sim, precisamos desenvolver mais recursos para lidar com tudo isso, para não nos vermos compelidos a agir de forma impensada só para responder às demandas que nos atropelam e pedem por respostas imediatas. Precisamos desenvolver ainda mais uma atitude reflexiva, poder nos dar um tempo para pensar melhor em cada situação de modo a poder ter respostas mais eficientes para aquele momento, mas que também sirvam para o longo prazo. Não precisamos de outros recursos, precisamos de um acervo maior de conhecimento para lidar com as novas situações a que somos expostos.

 

 

 

Ciúmes dos irmãos

Afinal, o que está em jogo quando uma criança pequena depara-se com a chegada de um irmão mais novo? Quais sentimentos podem surgir? Como é possível compreender esse tipo de situação e eventuais conflitos?
Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista Luciana Saddi.

Ciúmes dos irmãos

Por Luciana Saddi*

Quando os irmãos chegam, ou mesmo quando uma criança se sente ameaçada com a vinda de primos e amigos, o que está em jogo é a disputa pelo amor dos pais.

Imagine o que você sentiria se seu marido voltasse do trabalho trazendo outra mulher e lhe dissesse: – meu bem, te amo tanto que resolvi trazer mais uma esposa para casa!

É assim que muitas crianças se sentem diante da vinda de um novo irmão. Sentimentos de raiva, de menos valia e medo de perder o lugar já conquistado prevalecem. Com o passar do tempo sentimentos de amor podem se fazer presentes.

A chegada dos novos rivais não aguça apenas a forte rivalidade infantil, aguça também a ambivalência entre o amor e o ódio, aumentando ainda mais o sofrimento daquele que se viu ameaçado pela perda do amor dos pais.

Por mais raiva que a criança sinta desse pequeno irmão ou grande rival, ela também o ama e também percebe que seus pais esperam dela um sentimento bom e de cuidado para com o recém-chegado.

Fortes conflitos entre o amor e os impulsos agressivos levam ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer alguma compensação por um dano real ou imaginado.

Na vida adulta encontramos essa mistura de sentimentos não apenas em relação aos nossos irmãos, também em nossas relações sociais e no desejo de compensar e reparar tão forte para algumas pessoas. Muitos dos nossos comportamentos são moldados nos padrões infantis, nascidos de conflitos poderosos quando os sentimentos eram vividos de forma absoluta e sem disfarce algum.

*Luciana Saddi é psicanalista e membro da SBPSP.

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.

A Nova Lei da Guarda Compartilhada

Quando um casal se separa, a guarda dos filhos emerge como uma questão central a ser considerada e, infelizmente, em torno da qual nascem os mais difíceis conflitos. No ano passado, uma alteração da nossa legislação tornou regra a guarda compartilhada, prevendo que o casal assuma em conjunto as tarefas e responsabilidades na criação dos filhos. A nova lei, portanto, exige dos pais separados uma postura de maior comprometimento e diálogo constante, algo que pode ser difícil de se alcançar diante da presença de mágoas e frustrações de um casamento que se desfez. O artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Telma Weiss, aborda o assunto com clareza e profundidade. Vale a leitura!

A Nova Lei da Guarda Compartilhada

Por Telma Kutnikas Weiss*

A guarda compartilhada que era uma opção, agora se torna norma.
Em dezembro de 2014 a Presidente sancionou o projeto aprovado pelo Congresso, que torna a guarda compartilhada regra no Brasil. Certamente é um estímulo ao diálogo, evitando um mal maior – a alienação parental: um dos pais, geralmente o que se sente abandonado por aquele que tomou a decisão de pôr fim à relação conjugal, passa a manipular os filhos para que se afastem do que “abandonou” o lar. Mas essas são exceções e não a regra.

Será que o legislador consegue mudar os costumes, as práticas de viver?
O articulista Hélio Schwartsman em um editorial da Folha de São Paulo em 14/01/2015, lembrou um bom ensinamento de Savigny, um dos maiores juristas alemães do século XIX: “Não é a vontade arbitrária do legislador que altera os costumes. Se queremos fazê-lo, melhor tentar a escola”.

O pressuposto dessa lei é permitir aos pais separados assumirem juntos as tarefas e responsabilidades na criação dos filhos. É uma mudança de perspectiva importante: fomentar o diálogo para uma posição mais responsável do ex-casal em relação aos filhos.

Guarda compartilhada não significa morar metade do tempo com a mãe e outra metade com o pai. Significa, principalmente, a participação do pai na educação dos seu filhos, trazendo mais equilíbrio das funções paterna e materna. Para que seja efetiva é fundamental que os pais consigam deixar de lado as mágoas e frustrações do casamento, o que sem dúvida é um desafio bem difícil.

Sendo uma modalidade mais evoluída de guarda, requer um certo grau de responsabilidade de ambos os pais. Mais ainda, exige amadurecimento emocional, assim como exige pensamento e muita reflexão.

O que fazer quando o casal não consegue se entender? Será que a responsabilidade de ser pai e mãe tem que ser convocada legalmente?

A prática clínica mostra que é muito difícil legislar sobre os afetos; que a decisão da guarda não resolve a questão da dor da separação.

Acompanho casos em que o juiz acordou a guarda compartilhada, mas o casal não conseguiu nenhum tipo de entendimento, pois a frustração com o fim do casamento é uma ferida que muitas vezes demora muito para cicatrizar. É uma dor narcísica que, quando não tratada e não cuidada, pode facilmente se transformar em ódio, em vingança.

Para que o ex-casal consiga construir um diálogo embasado no que é desejado – o bem-estar dos seus filhos – sugiro serem acompanhados por um profissional: um mediador, um psicólogo ou um psicanalista.

*Telma Kutnikas Weiss é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e Diretora do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

Vida escolar, crescimento e constituição da subjetividade

A educação dos filhos é um processo complexo e não há fórmulas preconcebidas que ditam um suposto caminho “certo”. Apesar disso, há questões e aspectos sobre os quais podemos e devemos refletir quando testemunhamos – no papel de pais ou de analistas – o desenvolvimento emocional e físico das crianças.
No artigo abaixo, a psicanalista Alicia Lisondo faz exatamente isso, abordando com profundidade o momento de ingresso das crianças numa instituição escolar e os principais fatores implicados nesse processo.

O filho na escola: quando iniciar a inclusão da criança numa instituição escolar? Por que tomar esta decisão? Está na hora?

Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo*

Nossa ciência-arte, a psicanálise, estuda a singularidade do processo de constituição da subjetividade de um ser humano, num ambiente específico e único. O bebê humano não nasce maduro, pelo contrário, muito vulnerável, com potencialidades a realizar graças às funções parentais. Minha intenção não é dar respostas normativas, contrárias ao espírito da psicanálise, mas sim ajudar a pensar.

A creche e/ou escola é uma instituição com cultura e normas próprias. Um espaço diferente do lar. Mas para que a criança vivencie uma certa continuidade entre a família e a escola, os pais podem escolher um lugar em sintonia com seus valores, com sua postura ante o mundo, com condições reais de arcar com a distância geográfica e os custos econômicos, tendo em conta o bom senso. O que seria melhor para esta criança, neste momento de sua vida, com estes pais, nesta família? Qualquer decisão implica enfrentar riscos, lutos por aquilo que não foi escolhido, turbulência diante do novo e do desconhecido.

A instituição escolar precisa ser coerente com seus princípios formativos e pedagógicos. Eles não podem ser palavras vazias, protocolares e sim palavras encarnadas no dia a dia, plenas de sentido. Não ceder às pressões dos pais e da sociedade neste mundo pós-moderno não é tarefa fácil quando, às vezes, a infância é sacrificada e a adolescência sufocada. A aprovação no vestibular, por exemplo, pode tornar-se a única meta a alcançar, limitando atividades artísticas, sociais, esportivas, políticas, procura de eficiência competitiva e um lugar no mercado de trabalho.

CRECHES E ESCOLAS MATERNAIS

Para se desenvolver, o bebê precisa que as funções parentais possam lhe oferecer, por meio de um vínculo real e mental, uma experiência de segurança básica, de continuidade entre a vida pré-natal e pós-natal, um ritmo estável, uma estimulação adequada. Essas funções como “pais suficientemente bons”, no dizer de Winnicott, surgem espontaneamente, tendo a intuição como bússola privilegiada. Os pais modulam as terríveis ansiedades do bebê e são catalizadores semânticos para dar significação às expressões corporais, gestuais e sensoriais do filho por meio da linguagem pré-verbal. Se quando surge o laleio: “Ah!Ah!Ah”, este é escutado e interpretado pelos pais como MAMÃE, PAPAI ou PAPAR, a comunicação não cai no vazio.

Numa profunda relação misteriosa e inconsciente, assim, o bebê constrói seu SER, apropria-se da linguagem, dos valores e ideais da cultura apresentados pelos pais. Realiza as potencialidades presentes no seu repertório tecendo, com os fios do reconhecimento e da valorização do ambiente que festeja cada conquista, a autoestima.

O chute na bola de um toquinho de gente pode ser celebrado como o gol do ídolo. E diante da festa, o filho repete a façanha, uma e outra vez. Também pode aprender, muito além do exercício motor necessário para permitir experimentar distâncias e forças no espaço, a perder, a tolerar frustrações, a esperar a vez de uma próxima tentativa; a potência masculina está presente no acerto festejado e na perda suportada. A criança ganha confiança e segurança no exercício de suas reais possibilidades e o primeiro ano de vida é fundamental para construir os alicerces da personalidade.

A criança pequena precisa construir temporalidade e espacialidade. Então ela não percebe, não realiza a duração do período escolar. Seu frágil psiquismo não pode imaginar o retorno dos pais antes da possibilidade de simbolizar, há como que um desaparecimento dos seres conhecidos, um “nunca mais”, porque não há reversibilidade entre idas e voltas, partidas e chegadas, encontros e despedidas. Quando em sofrimento, um minuto pode ser eterno.

Quando a criança não tem as figuras primordiais introjetadas na sua mente e não pode simbolizar, ou seja, re-criar a presença dessas figuras quando ausentes, a separação dos pais pode ser vivida como um esfacelamento, uma queda sem fim no abismo infernal, uma aniquilação ou fragmentação do ser. A imagem da criança agarrada, colada ao corpo dos cuidadores em desespero evidencia essas agonias primitivas. Diferente da criança capaz de dizer tchau e se despedir, se separar, que segura um objeto acompanhante, “transicional”, que lhe ajuda a realizar a passagem entre o conhecido mundo familiar e o estranho mundo escolar.

Não menos preocupante é a criança que aparenta indiferença, apatia, desinteresse nos contatos humanos, porque se refugia em barreiras de diversas espessuras, fronteiras dos refúgios, como ocorre quando há estados autistas, de gravidade muito variada, em curso.

O bebê bem dotado tem radares para perceber os estados mentais inconscientes das pessoas próximas. Para garantir AMOR pode vir a se sobre-adaptar aos valores e ideais parentais impostos, numa submissão que pode aplastar desejos e manifestações do verdadeiro self. Exemplo em sala de análise: uma menina de 2 anos e 7 meses, hipotônica pela privação da exercitação do corpo no espaço (rastejar, engatinhar, explorar o ambiente, manusear objetos, brincar de jogar objetos de certa altura e ou a certa distância, etc.); quando a mãe a deixou no chão ante minha interpretação, ela olhava para a mãe e logo me olhava como que pedindo permissão para cada movimento que ousava realizar, timidamente. Pensei que minha paciente inibia a exploração motora do novo ambiente para obedecer a normas implícitas que proibiam o movimento, a fim de evitar TODOS os perigos e a ameaça de uma nova convulsão. Só que assim agindo, os pais, inconscientemente, freavam seu crescimento. Além das questões neurológicas, a convulsão era uma explosão da excitação que ela não tinha podido metabolizar.

Adaptação e sobre-adaptação são estados mentais diferentes. O primeiro pode indicar que a criança é capaz de assimilar o NOVO, aprender com as novas experiências, ampliar o mundo com as relações com outras crianças e professores.

Já na sobre-adaptação, no interjogo entre o nível de exigência imposto pelos pais e a qualidade da personalidade em formação, há uma obediência submissa, que deforma ao aplastar o SER. A criança se adapta ou silencia as emoções por que está sobre-adaptada? A criança quando chora, protesta, esperneia diante de cada separação, ou adoece repetidamente, estaria expressando a imaturidade para ingressar/e ou continuar numa escolinha maternal-creche? São conciliáveis: expectativas, exigências, desejos, obrigações, realizações, sonhos da mãe (laborais, profissionais, econômicos, pessoais) com os cuidados psíquicos de um filho na primeira infância? Como?

QUESTÕES PARA PENSAR:
– Quanto menor é a criança, mais ela precisa da convivência num ambiente que propicie o desenvolvimento da personalidade, através das funções parentais maduras.

– Quando necessário, apelar a uma instituição é importante, mesmo que seja por períodos os mais breves possíveis. Quais os critérios para buscar essa instituição escolar?

– No lar é aconselhável que os pais entrem em contato emocional com o filho oferecendo uma atenção qualificada para, espontaneamente, brincar, desenhar, pintar, cantar, dançar, conversar, colocar limites, num vínculo verdadeiro que contemple o amor, o ódio, a ternura, o sofrimento, a alegria. Limitar o uso de TV e aparelhos eletrônicos é necessário para privilegiar os contatos humanos.

– Os pais, como seres humanos, fazem o possível e não podem exigir para si próprios, a perfeição. A culpa é uma má companhia. A superproteção, a pretensão de evitar sofrimentos necessários para o filho, as falsas compensações, as seduções e as chantagens não ajudam a crescer.

– Há sinais que podem revelar o mal-estar psíquico de um filho: doenças frequentes do psicossoma, alteração dos ritmos fisiológicos (sono, alimentação, controle esfincteriano): apatia, tristeza, desinteresse, dificuldades ou recusa nos contatos humanos; exigência de ficar aderido, colado nos cuidadores; terrores noturnos; ataques de pânico ou de raiva prolongados e frequentes sem motivo aparente; impossibilidade de aceitar limites e frustrações dosadas; graves fobias; transtornos no desenvolvimento etc. Então que fazer além de observar, sofrer, insistir?

– Diante da consciência desse mal-estar é oportuno consultar um psicanalista de crianças e adolescentes para investigar a situação. O tempo não resolve perturbações mentais. O tempo pode potencializar fatores patogênicos.

Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas sobre a criança e seus vínculos, convocando os pais a pensarem sobre as transformações necessárias na personalidade do paciente e na família.
Na criança pequena as mudanças podem ser assombrosas pela força de vida do protagonista da consulta. E mais: as configurações que perturbam o desenvolvimento emocional podem não estar cristalizadas. O psicanalista tem a chance de entrar em cena antes das consequências perigosas da cronicidade do quadro.

*Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é psicanalista e membro da SBPSP

“O FINAL DA NOSSA EXPLORAÇÃO É CHEGAR ONDE
INICIAMOS E CONHECER O LUGAR PELA PRIMEIRA VEZ”

T.S. ELIOT.

Pequenos tiranos

Nas férias, o convívio com as crianças é mais intenso. Muitas vezes, não é fácil estabelecer limites, impor restrições e dizer “não”. Mas isso, ao contrário do que muitos pais imaginam, é bem mais importante do que parece, tanto para a educação como para o desenvolvimento emocional da criança. Sobre o tema, vale a leitura do texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Pequenos tiranos

Por Marion Minerbo*

Todos conhecemos crianças que, desde cedo, já são pequenos tiranos. Quando contrariadas, explodem em crises de birra, deixando os pais perplexos e irritados. Estes tentam colocar limites, castigam, perdem a paciência e acabam batendo de frente, num verdadeiro braço de ferro com os pequenos. Exaustos, acabam se submetendo à tirania. Ou, com medo de perder o amor dos filhos, fazem tudo o que eles querem.

Essas atitudes acabam alimentando um círculo vicioso: a criança vai se tornando cada vez mais insuportável e incontrolável. Os pais, com razão, passam a sentir ódio da criança, que, obviamente, percebe e fica aterrorizada. Já não há prazer numa convivência em que todos sofrem. A criança se torna destrutiva e para de brincar, o que indica comprometimento grave no seu desenvolvimento emocional.

É preciso reconhecer que as detestáveis crises de birra são expressões de ódio – o qual, por sua vez, indica claramente a presença de sofrimento psíquico. Sim, mesmo crianças que, aparentemente, “têm de tudo”, podem estar sofrendo. Percebe-se que a palavra “birra” é péssima, porque nos induz a pensar em algum “defeito de caráter” (a criança é birrenta, mimada, má, tem personalidade forte), eximindo o adulto de se questionar de que forma ele pode estar contribuindo, inconscientemente, para gerar o sofrimento que se expressa através das crises de ódio.

A maior razão para o sofrimento psíquico da criança é a impossibilidade de estabelecer uma comunicação emocional profunda com o adulto significativo. Desde que nasce, a criança envia mensagens indicando necessidades emocionais básicas que precisam ser decodificadas e atendidas. Quando o adulto não decodifica, ou quando, em função de suas próprias questões inconscientes, interpreta a mensagem de maneira equivocada, dará respostas inadequadas a essas necessidades.

Ao receber respostas sistematicamente inadequadas, a criança sofre duas vezes: uma, porque aquela necessidade emocional não foi atendida; duas, porque se sente sozinho e abandonado, mesmo na presença do adulto. Há um pesadelo típico que mostra como a impossibilidade de se comunicar com outro ser humano é desesperadora: tentamos pedir ajuda a alguém que está ali perto, mas nossa voz não sai.

A interpretação suficientemente sintônica da mensagem da criança depende da capacidade de empatia dos pais. É preciso que eles consigam se colocar na pele da criança para tentar imaginar como é o mundo visto por ela. Precisam ser capazes de acessar a criança que eles foram, para traduzir o que ela está tentando lhes comunicar – às vezes de maneira muito torta, quase incompreensível. Infelizmente, ainda não há um google translator para nos ajudar a traduzir língua de criança em língua de adulto, e vice-versa.

*Marion Minerbo é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.