Cultura

“Embrace”: o peso silencioso do ódio ao corpo

*Luciana Saddi

Desde sempre, a fotógrafa australiana Taryn Brumfitt sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Ela tem três filhos e chorava de ódio e desespero ao olhar-se no espelho após cada gravidez. Depois de muito lutar contra seu corpo, decidiu se aceitar e abriu mão das dietas. Assim começa o documentário “Embrace”, disponível na Netflix.

Brumfitt postou no Facebook uma foto do antes, quando ainda se sacrificava para obter um corpo perfeito e magro, e do depois, quando fez as pazes consigo mesma e com suas formas arredondadas. A imagem viralizou. Compartilhada por celebridades, virou manchete em revistas e jornais do mundo afora. Era a força que faltava para expor seu sofrimento e com isso investigar a relação de inúmeras mulheres com a imagem corporal. A principal motivação foi a filha. Ela queria que a menina se amasse.

O documentário revela que 91% das mulheres odeiam o próprio corpo. Diante de padrões idealizados de beleza toda mulher sente-se gorda e feia. Esse ódio é explorado pela indústria cosmética, da moda, das dietas, das cirurgias estéticas, das revistas femininas. O filme não investiga a exploração desse ódio pela sociedade patriarcal, pois mulheres oprimidas tendem a aceitar qualquer coisa, principalmente, homens que as maltratem. Tampouco questiona a não transformação da hostilidade em revolta ou libertação.

“Embrace” prefere mostrar mulheres que aprenderam a se amar, recusaram padrões de beleza e superaram preconceitos internos e externos. Magras demais, obesas demais, peludas demais, com queimaduras demais, com defeitos físicos demais ou apenas mulheres que lutaram para sair da perversa equação beleza/magreza/felicidade/juventude. E que fizeram do próprio sofrimento bandeira de luta e afirmação, dando novo sentido às suas vidas.

O documentário ainda expõe a loucura obsessiva e obcecada gerada por sucessivas dietas – prática quase sempre fracassada (é impossível se manter em privação alimentar por muito tempo) – que roubam a capacidade de pensar, de trabalhar, de se divertir e empobrece a vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. O filme mostra que mulheres sentem medo o tempo todo, pois seus corpos podem ser expostos, suas imperfeições reveladas…mulheres se escondem, se envergonham e se humilham por causa do corpo imperfeito, inclusive as belas e jovens.

Nos anos 70, a psicanalista Susie Orbach escreveu um livro de grande sucesso internacional que está na 50ª edição: “Gordura é uma questão feminista”. No Brasil, o título não teve boa aceitação, embora a autora seja best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos. Há poucos anos, ela lançou “Bodies” (2009), livro que trata do crescente ódio ao corpo.

Orbach explora o conceito de mentalidade de dieta que aliena o sujeito dos sinais vitais da alimentação (fome, saciedade, prazer em comer). Considera a epidemia de obesidade e o aumento dos problemas alimentares (anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação) consequência do crescente controle alimentar, por meio das dietas, para alcançar um corpo idealizado. Autonomia alimentar versus opressão dietética. A autora afirma que a mentalidade de dieta é transmitida na família. Diz que os tratamentos dos problemas alimentares baseados em dieta são iatrogênicos, visam aumentar ainda mais o controle e o ódio ao corpo, e agravam os sintomas. Propõe, baseada na psicanálise, trocar a dieta pela autonomia alimentar e os ideais por simples aceitação. Indica mudanças técnicas para conectar (ou reconectar) o sujeito aos sinais vitais do comer para alcançar seus sofrimentos. A forma de pensar a ligação entre o social e o individual ao entrelaçar os níveis sociocultural, intrapsíquico e psicopatológico é a marca deste trabalho.

Em 1930, em “O Mal-Estar na Civilização”, Freud apontara que o progresso civilizatório não traria felicidade ao homem, pelo contrário, por meio da repressão à agressividade – condição civilizada por excelência – haveria um superego cada vez mais severo e violento. Talvez, por isso, o ódio ao próprio corpo não se transforme em rebeldia ou libertação, por estar preso a um círculo vicioso superegóico e masoquista que apenas o agrava.

“Embrace” expõe o opressor peso silencioso do ódio ao corpo, também apresenta mulheres que se libertaram e conseguiram se amar. Toda a opressão se assemelha enquanto a libertação percorre caminho singular.

Aprendi com Fabio Herrmann que a psicanálise apresenta ao homem o absurdo que o constitui e, se possível, ajuda a reconciliar-se com o absurdo e consigo mesmo. O documentário “Embrace” segue nessa trilha.

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados.

Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba) e Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher). Recentemente publicou Educação para Morte (ed. Patuá).

Novos casais – antigos amores

Regina Maria Rahmi

O Dia dos Namorados faz emergir indagações sobre o amor. E como anda o amor, tão cantado em verso e prosa? E a busca pela cara metade?

Freud afirma que a busca do partner evoca, desperta ou ativa algum traço parcial no sujeito das primeiras relações amorosas. A primeira marca de prazer e satisfação. Entre o encanto do reencontro e o desencanto da ausência é o lugar onde convergem os apaixonados.

A ilusão de ter a mesma ilusão… Na parceria amorosa, implica em momentos mágicos onde os dois acreditam terem encontrado aquilo que sonharam. Esse é o território de projeções entrecruzadas, fantasias de continuidade, completude e transcendência. Não seria o “campo virtual”algo inerente à natureza das paixões? Um espaço de sonho e desejo?

“Os enamorados” –  diz William Shakespeare –  “buscam a noite”. Território das idealizações e intensas atrações. A grande questão aparece quando a luz da realidade, a existência do outro, se faz presente.

Qual é o espaço para a alteridade? Para a existência do outro enquanto outro, o diferente? Qual a tolerância para a dor de perceber que o outro não alberga somente nossas projeções? Que o partner existe por si, diferente do que se imagina?

 Na atualidade

A busca pela satisfação instantânea, o abandonar-se aos impulsos, estar em movimento, alta velocidade, uma aventura estimulante…  Nas parcerias, leva por vezes a “amores líquidos”, como se refere Zygmunt Bauman. Laços frágeis que, frente à frustração do não encontro daquilo que almeja, emerge o pesadelo.  A desilusão leva facilmente a rompimentos; sempre está a possibilidade de apertar a tecla e deletar.

Por outro lado, também existem aqueles que têm espaço e recurso interno para lidar com os desencontros e experimentar o desconhecido; a possibilidade de um novo vínculo nasce de um entre dois.  No momento em que o amor se apresenta, o prazer é inerente ao encontro, surge uma esperança.  Há uma inquietação e uma descoberta de quem se apresenta.

O amor vive da incompletude. É a falta, a busca que nos põe em movimento.  O desejo precisa de tempo para germinar, crescer e amadurecer. E no dizer do poeta Arnaldo Antunes: “O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo por conjunção estrelar. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério pela paz que o outro dá ou pelo tormento que provoca”.

 

Regina Maria Rahmi é membro associado da SBPSP, professora dos Seminários de Psicanalise dos vínculos de Família e casal da (Dac), diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP e coordenadora do curso de especialização de Família e casal na atualidade – Instituto Sedes Sapientiae.

Foto: We Heart It

Sobre a vergonha

Por Marina Kon Bilenky*

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias

 

Morre o poeta?

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli *

Cruzava a manhã do domingo quando li que Ferreira Gullar morreu. Onde estão, para onde vão todas as lembranças dos que, como ele, já se foram? Porque o mundo que já acontecia sem ele ainda e mais ainda hoje o mundo é todo sensações que lampejam de seus versos: de cheiro de tangerina (sonho de floresta), de colo de açucena, de espantoso ocre da casa, branco de pedra do piso do banheiro, de alguma coisa dourada na pele, do azul da mancha do quadro de Leonardo (em que parte de mim está?), do guarda sol às três da tarde, o verde erva e poça e olhos e praça. E barulhos: do rumor da cidade ou do silêncio da noite, do latido do cão, de um avião ou de um bater de asas.

Gullar me ilumina em sua arte a questão de vida ou morte: “ O que eu vejo me atravessa como ao ar a ave… e sou então apenas essa rude pedra iluminada ou quase se não fora saber que a vejo.” Não somos pedras, minérios que não sonham, não se espalham no ar como um grito, ou como o cheiro embriagador da fruta. Se pedras somos, elas brilham como diamantes: no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, há guardado um lampejo.

É este brilho, fugaz como espanto de onde brota a humanidade e o poema, aquilo que em nós que se sabe de repente, como recém-chegados em um mundo de maravilhas e angústias. A arte de traduzir uma parte de nós que não é multidão, ninguém. Esse quase nada, quase nunca, que nos faz a consciência que sobrevive à estranheza e à solidão: o poeta Gullar é a criança que nele soluça, mal suportando o peso do amor interminável, acumulado vida afora. No fundo sem fundo, todo o mundo. A idade não o envelheceu, o corpo não cansou de ser enigma. Retirou-se docemente, mas morreu em fúria, ainda em espanto.

O poema, ele o queria nascendo de fruta apodrecendo num prato, não do mármore perene ou de cristal intocável. Ele o queria vivo – se possível em varanda com ruídos da rua, com vozes de pessoas trabalhando. O poema que irrompe donde menos se espera, num cheiro de flor, na janela do ônibus, no moer do silêncio, na poeira dos cabelos, na visão da tarde, soprando por um átimo de tempo. Átimo de átimo que seja, o coração freme e se acende. Pois um simples roçar de mãos comporta imponderáveis toneladas de luz, inquietante é cor de qualquer dia, a tristeza guarda no avesso a alegria ardente .

Hoje, lamentei sua morte. É perda demais para um simples homem, diria ele. Perplexa, lembro com ele que a morte, como a poesia, nos revela a vida que fulgura instantânea: o milagre que a vida traz e zás, ironicamente dissipa. A mesma poesia –brisa que faz do tempo a eternidade, da beleza o infinito.

Flutue ainda, prenhe de poemas. Enquanto isso, suas raízes fundas, poeta, estão já se arrebentando, tão fundas quanto estes céus.

Por ele, que me ajuda a vida a valer a pena.

PS: os trechos de poemas e versos adaptados ao texto são citações dos conhecidos “Dois e dois: quatro” e “Traduzir-se” e principalmente do livro “Barulhos” (1980-1987), José Olímpio Editora, cujo primeiro contato, na mesa da copa da casa de uma amiga, se deu como conviria a Gullar, com inesquecível maravilhamento.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psicanalista e membro associado da SBPSP e da SBPRJ

A política no divã

Por Bernardo Tanis*

Embora a psicanálise seja um poderoso instrumento clínico e contribua para a investigação das motivações humanas, a gênese do processo civilizatório, a instituição das normas e o reconhecimento das poderosas forças que levam à transgressão e ao esgarçamento do pacto social encontra limites face à complexidade dos fenômenos globais (políticos, econômicos, sócias…), que só podem ser abordados com base em um pensamento complexo, como nos diz Edgar Morin. No entanto pode auxiliar na compreensão de por que, em certos contextos, assistimos hoje ao fracasso da virtude e ao apagamento da distinção entre o público e o privado; pode facilitar o entendimento dos motivos pelos quais a razão é colocada a serviço de interesses pessoais e corporativos e a fé é utilizada para justificar as maiores violências contra o indivíduo identificado como diferente.

O comportamento ético que era para Aristóteles o comando das paixões por meio da razão, com o estabelecimento de normas e regras para a vontade, de modo que esta pudesse deliberar corretamente, parece apagado nos nossos dias. O que deveria ser a defesa do cidadão na esfera pública (virtude) e o combate ao crime, é corrompido pela lógica desenfreada de interesses particulares e de corporações; sem ser, de modo algum, prerrogativa exclusiva de um determinado grupo político. O crime é cometido sob o domínio da hybris, uma arrogância que se considera inatacável, invulnerável, blindada.

No contexto global e também no nosso país não é menos gritante o aumento das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Assistimos também ao ressurgimento de movimentos discriminatórios, xenófobos, contrários à aceitação de migrações; concomitantemente, proliferam atos terroristas que, além de acabar com a vida de centenas de indivíduos, criam um clima de insegurança, reforçando o desenvolvimento de Estados policiais, do estado de exceção (Agamben). Nesse cenário, o outro, o estrangeiro, o diferente, é objeto de tamanha hostilidade e transformado num ser tão estranho e odiado que sua exclusão/aniquilamento parece justificado.

A falta de sensibilidade ao sofrimento do outro, a vazão da agressão através do ato que ultrapassa o limite da lei dos homens, é metonímia do abuso, do estupro, dos maus-tratos, da fome, do desemprego, do domínio sádico do outro, da pedofilia, da humilhação perversa, do racismo e da discriminação.

Em “O mal-estar na civilização” Freud fala-nos da intensidade das pulsões e da necessária renúncia à sua satisfação plena na cultura, o preço que todos pagamos pela vida em sociedade. Fala também da agressividade humana e do modo como ela se entrelaça com o narcisismo. Propõe a ideia de narcisismo das pequenas diferenças que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, sua agressividade. Amamos nossos irmãos e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça. Essa relação imanente entre o indivíduo e a cultura é um operador fundamental do pensamento freudiano para a construção dos modelos de pensamento sobre a subjetividade humana. Freud dedica uma vasta e profunda reflexão aos vínculos entre o indivíduo e o poder, o indivíduo e a massa, assim como entre o narcisismo/sexualidade e a formação de nossos ideais, a moral e a ética.

Se retornamos ao termo corrupção, na sua etimologia grega alude a estragar, decompor, perverter, depravar, e guarda sua vinculação com o prefixo co, que alude à necessidade de dois participantes para que esse ato possa acontecer. Mas o que se esgarça, o que se decompõe? A ideia de justiça, a lei, o homem, a representação simbólica de um laço social que se sustenta num pacto simbólico, mas que se degrada e se transforma numa relação de compadrio. O poder se corrompe.

Classicamente a noção de poder remetia ao domínio exercido pelo Estado ou pelo soberano sobre seus súditos, associado ao autoritarismo, à violência praticada contra o outro, à censura. O poder visa exercer um domínio. Para nós, psicanalistas, a ideia de domínio é polissêmica e fundamental na compreensão das forças que movimentam o psiquismo. Comporta dois grandes grupos de sentidos: (a) um voltado para si, para o próprio aparelho psíquico: domínio da força pulsional, dos estímulos que nos invadem – domínio através do recurso ao processo transformativo do sonho, à sublimação, à representação, ao símbolo, à criatividade; (b) outro voltado para o exterior: domínio a partir da descarga e do livre exercício da sexualidade na busca do prazer, mas também exercício de domínio sobre o outro mediante diferentes formas de controle, de sedução, do ato e do sadismo.

Ambos fazem parte do potencial humano e operam em permanente tensão. Na atualidade as formas de poder e de domínio parecem mais difusas, penetram e se infiltram no cotidiano, menos identificado com uma instância, no entanto mais onipresente como meio de controle da subjetividade e das ações dos indivíduos. Até que ponto determinadas formas de poder não chegaram a mutilar subjetividades de modo que o ato emerja como única resposta possível para certos indivíduos ou grupos? Alguns analistas já se debruçaram com muita propriedade sobre esses temas.

Sintetizando os extremos: a ideia do cidadão acima de qualquer suspeita apregoa a noção narcísica do indivíduo que não estaria sujeito aos ditames do coletivo e estaria acima da lei, a corrupção revelando de modo contundente os intrincados jogos de forças entre o Estado, o poder e as paixões humanas; por outro lado, a condição de submissão, opressão e impotência na qual indivíduos, grupos ou nações se encontram conduz sujeitos movidos pela falta de alternativa à utilização consciente ou inconsciente do recurso ao ato muitas vezes devastador.

Pensar e agir eticamente ultrapassa a esfera do eu para nos lançar ao encontro do outro. Nesse contexto, a política cobra seu sentido original à serviço da comunidade, da vida em sociedade e não na sua redutora e corrupta perspectiva do compadrio e obtenção de privilégios. Talvez a psicanálise possa contribuir para reconhecer e desconstruir, na medida do possível, as formas de poder internas e sociais que alienam o cidadão e a subjetividade.

Novos desafios nos interpelam se nos deixamos atingir pela diferença, pela alteridade e o respeito à lei e ao laço social que nos constituem. O imperativo ético da psicanálise, através do reconhecimento da estranheza do desejo inconsciente em nós, nos convoca a reconhecer a estrangeiridade do outro e suas singulares demandas. Sua irremediável estranheza nos estimula à invenção de uma prática e de um discurso coerentes que nos possibilitem conviver melhor com nós mesmos e com o diferente. Seremos capazes?

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

Entrevista – Marion Minerbo

Muito além do divã

Simulando tom ficcional na interlocução com um “jovem colega” imaginário, Marion Minerbo compartilha material clínico e outras experiências em Diálogos sobre a clínica psicanalítica

Autora de Neurose e não neurose e Transferência e contratransferência, ambos da editora Pearson, a psicanalista Marion Minerbo lança seu terceiro livro, Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Editora Blucher), dia 1º de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da Fradique. Mais do que um título para “iniciados”, trata-se de um painel acessível e fascinante sobre a “experiência de transmissão da psicanálise” que Marion vivenciou na última década. Não é um período qualquer. Para muito além da prática e dos estudos com que Freud revolucionou a história da humanidade, o livro, de tom supostamente ficcional, usa a forma de um grande diálogo, com um interlocutor que Marion chama de “jovem colega”, para compartilhar material clínico que convida à reflexão em uma época em que “as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças”, como Marion declara em entrevista exclusiva à Vila Cultural.

Psicanalista, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), doutora em Psicanálise, Marion virou uma “fonte” imediatamente associada a dois temas distantes e de forte apelo midiático: os reality shows e a corrupção. “Os embates teórico-clínico- emocionais de meus interlocutores mais jovens me remetem, naturalmente, ao meu próprio percurso”, escreve, na introdução do livro, cujos diálogos contemplam seis temas: transferência, escuta analítica, trauma e simbolização, pensamento clínico, sofrimento neurótico e sofrimento narcísico. Leia a entrevista da psicanalista.

Vila Cultural. Você gosta de conceder entrevistas?

Marion Minerbo. Não dou entrevistas por telefone ou com gravação de vídeo porque não dá tempo de pensar. Fico inibida com perguntas à queima-roupa. O risco de dizer banalidades é grande. Em compensação, tenho grande prazer em conceder entrevistas por escrito porque mesmo que eu já tenha falado sobre um mesmo tema várias vezes, como BBB ou corrupção, as perguntas sempre me ajudam a pensar coisas novas. Há, claro, alguma vaidade em ser entrevistada, pois é uma forma de reconhecimento do meu trabalho. Mas o que mais me motiva é a oportunidade de compartilhar com um público mais amplo o acesso ao funcionamento mental propiciado pela psicanálise.

VC. Como define o novo livro e que avaliação faz da experiência de escrevê-lo?

MM. É um livro que foi nascendo aos poucos e meio que por acaso. Em 2013, me convidaram para falar sobre “transferência”, um conceito psicanalítico básico supostamente muito conhecido e sobre o qual já se disse muito – inclusive eu, que escrevi um livro sobre isso. Estava quebrando a cabeça para não chover no molhado, até que me veio a inspiração de escrever a um jovem colega transmitindo o essencial sobre o tema em linguagem coloquial e despretensiosa. Afinal, o rigor tem que estar nas ideias, e não na linguagem. A editora do Jornal de Psicanálise, publicação semestral do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise, viu naquele texto o potencial para um projeto editorial com este formato e me convidou a escrever sobre outros temas. Os primeiros diálogos eram mais tímidos, pois havia algo de ficção na criação do personagem jovem colega, e afinal, eu não sou escritora. Mas fui me apropriando dessa semificção e me divertindo com a escrita. Me afeiçoei ao jovem colega e fiquei triste quando me despedi dele. Escrever me serve para metabolizar o que estudei e para, a partir dessas leituras, organizar um pensamento próprio. Para o bem e para o mal, só consigo pensar escrevendo. Minha mãe me dizia: “Se você não consegue escrever com suas palavras, não escreva, significa que você ainda não entendeu o suficiente”. Tenho prazer em transmitir algo que dificilmente o jovem colega vai aprender só nos livros: como pensa um psicanalista – ou melhor, como pensa esta psicanalista! – em sua clínica. Sou generosa, mas também exigente com o leitor: ele não deve esperar concessões ou
simplificações. Acho que o livro é sobretudo útil. É o que tenho de mais valioso para oferecer.

VC. Que critérios usou para definir os seis temas destacados em Diálogos?

MM. Baseada na minha experiência como docente escolhi temas que fossem úteis para a clínica, e usei exemplos – devidamente ficcionalizados – para dar vida às ideias desenvolvidas. Naturalmente, todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a ética profissional. Transferência, como já disse, é básico porque é a manifestação concreta do inconsciente na vida das pessoas e na análise. Eu já tinha escrito um livro sobre esse tema (Transferência e contratransferência, Pearson, 2012), mas este diálogo me deu a oportunidade de abordar outros ângulos e aprofundar certas questões. O inconsciente é uma espécie de cicatriz viva do passado que continua produzindo sofrimento e travando o presente, o que leva certas pessoas a procurar análise. Como reconhecer na clínica esta cicatriz viva e seus efeitos? Através da Escuta analítica, que é o segundo tema. Vou usar uma analogia para explicar o que é isso. Certa vez fui arrebatada pelo desejo de pintar. Frequentei o ateliê de uma artista que não me ensinou a pintar, mas formou o meu olhar, um olhar sensível à dimensão estética da existência. Pois bem: o analista tem um olhar, ou uma escuta, ou uma apreensão, da dimensão inconsciente das relações humanas. Mas assim como a formação do olhar não transforma ninguém em artista, a apreensão da dimensão inconsciente não é suficiente para ser um psicanalista praticante. É preciso desenvolver também a capacidade de pensar analiticamente, quer dizer, articular o universal da teoria dos livros, à singularidade do paciente que está no seu divã. Escrevi, então, o diálogo sobre Pensamento clínico, uma espécie de passo a passo sobre esse “pulo do gato”. O diálogo seguinte, sobre Trauma e simbolização, serve para ajudar o jovem
colega a ter uma visão mais organizada sobre como se “adoece” psiquicamente. Sem uma compreensão razoável sobre como se adoece, é difícil saber em que direção seguir do ponto de vista terapêutico. E por falar em “direção a seguir”, os dois últimos diálogos, Sofrimento neurótico e Sofrimento narcísico, mapeiam os dois grandes territórios do sofrimento psíquico, cujas “paisagens emocionais” diferem radicalmente. A escolha desses temas se deve, de certa forma, à repercussão positiva do meu livro Neurose e não neurose (Pearson, segunda edição 2013). Muitos leitores disseram que a visão de conjunto da psicopatologia psicanalítica, ancorada em exemplos clínicos, foi muito útil.

VC. Quem, na sua opinião, podem ser os leitores potenciais do livro?

MM. Acho que o livro será útil não só para estudantes e jovens colegas, mas para psicanalistas em geral, pois não importa quanta estrada já tenhamos percorrido, estamos sempre estudando para manter o “instrumento psicanalítico” afinado e afiado – caso contrário ele perde o gume. É claro que o público leigo curioso, os estudiosos de humanidades em geral e os próprios “usuários” também poderão curtir e aproveitar os diálogos, já que estão escritos de forma acessível.

VC. Quando alguém procura um analista, é comum a dúvida a respeito sobre a “linha” que ele segue. O que pensa sua sobre isso?

MM. Até meados dos anos de 1970 os psicanalistas se dividiam em tribos, dizendo-se seguidores deste ou daquele autor. No entanto, fosse qual fosse a linha, havia pacientes que “não se encaixavam” nela. Pensando bem, é muito estranho que o paciente tenha que se encaixar, pois o psiquismo singular é sempre mais amplo e complexo do que pode ser apreendido por uma única teoria. A comparação é meio tosca, mas imagine um marceneiro que se limite a trabalhar com um serrote. Pode ser suficiente para serrar tábuas, mas se quiser fazer uma mesa vai precisar de outros instrumentos. Enfim, a nova geração de psicanalistas se deparou com os limites de praticar a psicanálise seguindo uma única “linha”. Instigados por questões colocadas pela clínica, os autores mais criativos passaram a pensar “fora da caixinha”. Todos saíram ganhando. Por isso, hoje é mais ou menos consensual que um psicanalista precisa ter em seu repertório instrumentos conceituais diversificados. Essa é a posição a partir da qual escrevi os Diálogos e trabalho na minha clínica.

VC. Você tem escrito também sobre o sofrimento psíquico ligado a características do mundo contemporâneo. Fala em “miséria simbólica” e relaciona esta condição ao sentimento de tédio e de vazio. Poderia explicar essas ideias?

MM. É um assunto complexo, mas posso tentar. A modernidade foi o momento da civilização ocidental que se caracterizava pela força e solidez das grandes instituições. O sofrimento psíquico tinha a ver com a rigidez com que todos eram obrigados a se encaixar nos valores instituídos, vistos como absolutos, naturais e universais. A diversidade era condenada e excluída. A família patriarcal era o melhor exemplo disso. Hoje, boa parte das grandes instituições está em crise. Em um movimento pendular, passamos de valores e referências extremamente rígidos para a condição pós-moderna, caracterizada pelo relativismo absoluto. As referências de que necessitamos para dar sentido a nossas experiências são pouco nítidas, imprecisas, cambiáveis, vagas, incertas, ralas e movediças. Para o bem e para o mal, ninguém mais acredita em valores universais. A vantagem é que há liberdade para cada um inventar e viver sua própria vida. Se antes a diversidade era excluída, agora é festejada. A diversidade das famílias contemporâneas é um exemplo.

VC. E qual a desvantagem disso?

MM. A descrença absoluta e a fragilidade das referências simbólicas produzem um estado de miséria simbólica: as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças. Muitas vezes ficam perdidas, sem rumo. Sofre-se de um vazio, de um sentimento de irrealidade e de tédio, sintomas da falta de sentido da existência, muitas vezes confundidos com depressão. Esses pacientes nos procuram com queixas vagas, mal formuladas, porque faltam até palavras para descrever essa forma de sofrimento.

VC. Quais os efeitos dessa falta de rumo sobre a sociedade como um todo?

MM. Sintomas socioculturais como a proliferação e adesão a causas radicais – sexistas, alimentares, políticas, terroristas – podem ser entendidos como tentativas de preencher o vazio, “fortalecer” a identidade e dar um sentido à existência. Certo tipo de violência é outro sintoma desse mesmo sofrimento. Venho me perguntando se a emergência de forças conservadoras em vários países não seria uma tentativa de fortalecer – da pior maneira – as instituições atualmente em crise. A grande dificuldade parece ser manter a liberdade conquistada com a relativização de verdades tidas como universais, sem jogar fora o bebê com a água do banho.

VC. De onde vem o seu interesse por temas como a corrupção e os reality shows? Por que decidiu analisar assuntos tão diferentes?

MM. Como sempre, há uma boa dose de acaso nas direções que a vida toma. É possível que tudo tenha começado com meu doutorado na UNIFESP. Escrevi sobre compulsão a comprar porque na época, em 1990, estava atendendo uma paciente que apresentava este sintoma. Eu, que havia estudado medicina, precisei me aventurar em um território completamente novo: a sociedade de consumo, a sociedade do espetáculo, a cultura do narcisismo, a hiper-realidade etc. Tudo isso em paralelo ao meu trabalho no consultório. Passei a me interessar por fenômenos típicos da pós-modernidade que pareciam ter em comum a fragilidade do símbolo. Desde os crimes em família, como o de Suzane Richthofen que matou os pais, e outros em que são os pais que matam os filhos, até um tipo de violência que batizei de reality game – mistura de reality show e de videogame. Em 2007 publiquei meu primeiro artigo sobre reality show na Revista de Psicologia da USP. A partir daí, todos os anos, na época em que começava o BBB, eu era entrevistada sobre o tema. Sem querer, virei uma “especialista”. Com relação à corrupção a coisa foi um pouco diferente. Publiquei em 2000 um primeiro artigo intitulado Que vantagem Maria leva? Um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Continuei desenvolvendo minha tese central em outros textos: pessoas podem ser subornadas, mas o que se corrompe (desnatura, apodrece) são as instituições, até que a própria corrupção se transforma, ela própria, em uma instituição. Depois, quando Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de hotel, escrevi sobre os mecanismos psíquicos que levam o poderoso a “perder a noção”. Mas foi com a Lava Jato que comecei a ser constantemente entrevistada sobre corrupção.

VC. Como lida com o fato de ser convocada com tanta frequência para explicar, digamos, os “mecanismos psíquicos” da corrupção?

MM. Gosto muito do desafio de falar sobre o tema, pois cada jornalista faz perguntas que me obrigam a aprofundar ângulos ou aspectos nos quais eu não tinha pensado. Um exemplo: queriam que eu falasse sobre a “corrupção nossa de cada dia”. Sei que as matérias precisam de chamadas fortes. Então, mesmo não fazendo muito sentido falar nesses termos, aproveitei para mostrar a diferença que existe do ponto de vista psíquico entre a pura e simples transgressão, e atos que se pautam por uma lei paralela, não oficial e implícita. Nesse segundo caso, a pessoa simplesmente não sente que está transgredindo nada. Isso me levou a analisar o “jeitinho brasileiro” e a “lei de Gerson”. São verdadeiras instituições que ignoram a lei oficial e erigem valores que não podem ser transgredidos: respectivamente o ‘favor em nome da amizade’ e a ‘esperteza viril’. Quem não retribui favor, e quem se recusa a levar vantagem, é visto como transgressor dessas “leis” e punido pela coletividade. Eu não teria pensado nada disso sem as entrevistas.

VC. O que mais tem aprendido com seus alunos e pacientes?

MM. A sensibilidade para sintonizar com o funcionamento psíquico dos outros, pacientes e colegas, me ajuda a me colocar na pele deles, a empatizar e me identificar com suas angústias. Isso me ajuda a respeitar e a conviver com pessoas que sentem e pensam de maneira diferente de mim. Naturalmente, não podemos aceitar e concordar com tudo – há atos e atitudes que simplesmente não podem ser tolerados –, mas pelo menos podemos entender as razões e as motivações dos outros. Isso me ajuda a viver melhor.

Como funciona a mente de um corrupto

Coordenadora da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Cibele Maria Moraes di Battista Brandão concedeu uma entrevista de fôlego ao jornal mineiro “Diário de Caratinga”, que propôs a Cibele o desafio de traçar o perfil de quem pratica atos de corrupção, tema que continua como pauta prioritária na imprensa brasileira.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Do ponto de vista da psicanálise, como pode ser interpretada a corrupção?

A corrupção pode ser vista a princípio como um tipo de loucura, de comportamento desviante, antissocial e perigoso. Nesse sentido, o sujeito privilegia só a si, até mesmo em situações em que ele foi escolhido ou eleito para trabalhar pelo bem comum. A corrupção se define pela perversão – ao invés de procurar o bem comum, ele busca tão somente seu enriquecimento e interesses individuais. A corrupção de objetivos não é só um fenômeno social e nem só um fenômeno individual. Podemos pensar no dito popular que diz “a ocasião faz o ladrão”. Precisamos da ocasião e precisamos do ladrão em potencial. Ladrão de que? Ladrão de uma falsa segurança.

O corrupto age motivado por um fator emocional ou ele é extremamente calculista/racional?

As duas coisas. Ele age motivado por um fator emocional que o faz ser calculista. Ele quer alcançar poder, dinheiro, prestígio. Como o “drogadito” que necessita da droga, ele não pensa. Age só em busca de seu objetivo. Ele quer o objeto que imagina lhe trará a solução de todas as suas aspirações narcísicas. Ele apenas quer alcançar seu objeto de desejo por idealizá-lo. A droga trará a solução mágica de tudo, assim como para o corrupto o poder,o dinheiro, o prestígio, o salvarão de todos as dores e inseguranças que o viver traz para qualquer ser humano. Ele não prioriza e nem valoriza o aprender pensar, construir recursos, viver uma vida ética. Esses valores tornam-se para ele pueris e ingênuos. A palavra ética deriva do grego “éthiké”, derivada por sua vez de ethos que significa caráter, hábito, modo de vida. A eticidade constitui-se da formação do caráter de cada indivíduo.

O corrupto tem a consciência de que está cometendo um ato que é amplamente reprovado pela sociedade?

A Psicanálise em sua prática procura compreensão de cada indivíduo como sendo único e exclusivo. Há pessoas que podem ter consciência e outras que absolutamente vivem como sendo natural participar de um esquema vigente. Na base do sempre foi assim e assim será… Se o corrupto vem de um meio que tenha regras sociais que advogam pela ideia da vantagem a consciência fica alterada. Ele passa a viver como sendo natural receber vantagens, sempre. É diferente o processo de conscientização de uma criança cujos pais desde cedo ensinam que o que pertence ao outro, ao coleguinha, é do outro… Os traços anti-sociais de um indivíduo, tais como não entender que seus atos são antiéticos e reprováveis, são resultantes de um déficit na estruturação do superego, instância da mente que tem um papel assimilável ao de um juiz ou censor interno, que tem consciência moral na auto observação, na formação de ideias e princípios. Essa instância constitui-se pela interiorização das exigências e interdições parentais. Esse déficit faz com que a consciência moral e ética não se instalem adequadamente. Não há o medo da autoridade externa, que é entendida como inexistente ou permeável conforme o seu desejo.

As pequenas “trapaças” diárias que usamos como comprar produto pirata ou apresentar um atestado falso podem ser consideradas como atos de corrupção?

A corrupção deve ser considerada não apenas nas investigações que vemos desfilar toda noite na nossa sala de TV, justamente no momento de descanso após exaustivo o dia de trabalho, quando nos sentamos para relaxar. A corrupção não está só nos macro acontecimentos, mas também nos pequenos delitos do cidadão comum, que se desvia da verdade para obter às vezes inúteis vantagens. Precisamos pensar que nessas pequenas situações, se bem conduzidas, trazem sementes de prevenção. É prevenção quando ensinamos um filho a não pagar “propinas” para favorecer trâmites burocráticos. Tendemos a pensar que é corrupto apenas quem recebe a propina e nos esquecemos de quem dá a propina. Destruímos nesse momento a possibilidade de se ter o contato com a verdade, que pode ser difícil, mas traz o germe do fortalecimento quando é enfrentada.

Se compararmos o corrupto que atua individualmente àquele que atua em conjunto (por exemplo, em uma quadrilha) podemos considerar que o comportamento de ambos seja o mesmo?

Em 1930, em seu importante trabalho o Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud descrevia três motivos para o homem ter dificuldade no convívio social e também para a impossibilidade de ser feliz:

1 – Pela fraqueza humana frente às forças da natureza impossíveis de serem dominadas.

2 – Pela fragilidade de nossa constituição física que nos leva a adoecer, envelhecer e morrer.

3 – E por fim, pelo sofrimento advindo da convivência com os outros seres humanos.

Nessa constelação proposta, o ser humano está fadado a conviver com o medo, a insatisfação e a insegurança. O corrupto, seja ação individual ou em conjunto, tenta fugir dessa condição. Mas foge buscando meios mágicos como o enriquecimento ilícito que na verdade o enfraquece e expõe. Em uma vida assim, não há espaço para falarmos em crescimento, transformação ou criação de recursos mentais para lidar com a vida, que não é fácil. A busca pela felicidade tem que passar por algo que não seja só o que venha do externo. Há alguns meses atrás circula no youtube uma belíssima entrevista do ator argentino Ricardo Darin a um repórter da TV espanhola. Esse repórter surpreendeu-se com a recusa de Darin a um trabalho que veio de Hollywood. Darin não quis aceitar só porque poderia ganhar uma soma considerável de dinheiro. Ele queria mais do que tudo voltar para casa e estar com a família, com sua rotina… A entrevista vale a pena ser vista.

Muitas pessoas dizem que não existe político que não seja corrupto, pois ao serem eleitos, acabam “caindo” no sistema. Do ponto de vista da psicanálise, como a senhora analisa essa afirmação?

Como dissemos, a Psicanálise em sua prática tenta aproximar-se para conhecer aquilo que é único e exclusivo para cada pessoa. A Psicanálise não generaliza ou rotula. Não descreve afirmando que o corrupto é assim…. Entende que cada pessoa tem uma estruturação própria. Dizer que não existe político correto seria uma generalização preconceituosa. Em qualquer atividade ou profissão há todo tipo de pessoa. Não estamos aqui dividindo em duas categorias: os mocinhos e os bandidos. Dentro de todo ser humano há uma gama de bondade e maldade, desenvolvimento e decadência, etc., mas muito importante é a direção que se quer dar para a própria evolução. Todas as pessoas estão sob a égide de uma dualidade instintual. Por um lado, estão imbuídas de amor e construtividade e, por outro, mesmo involuntariamente, são constituídas por ódio e destrutividade. O que determinará uma boa evolução será uma interação entre o ambiente propiciador de crescimento e, internamente, seu desejo de se aproveitar do potencial de evolução. Acrescento que um excesso de ambição e desejo de enriquecer muito pode levar o ser humano a um lugar obscuro.

O corrupto acredita que possa ser responsabilizado por seus atos ou ele age pensado na impunidade?

No começo dessa entrevista dissemos que a corrupção é uma espécie de loucura e, como tal, afasta o indivíduo da realidade. Se uma pessoa é “ousada” acima do bem e do mal, podemos dizer que sua consciência é deteriorada. Mas o que dizer de uma realidade vivida até recentemente em que havia a impunidade? E que essa realidade não era um delírio e sim uma constatação que nos fazia afirmar sempre que a cadeia seria somente para pessoas socialmente desfavorecidas.

A corrupção pode ser considerada uma doença?

Sem dúvida nenhuma. E justifico. Tudo aquilo que se afasta da realidade e aproxima do mágico e do idealizado prejudica imensamente a pessoa, que crê, assim, que desse modo estaria encontrando a realização e a felicidade. Penso também ser necessário para responder essa questão que tentássemos definir o que é uma doença do ponto de vista da mente. A psicopatologia é um termo utilizado para designar os distúrbios do psiquismo humano. Uma das causas desses distúrbios originam-se de um sofrimento intenso frente ao qual a pessoa não consegue construir recursos para lidar com a demanda da vida. Porém, não é só isso. O assunto é muito amplo. Há outras causas para os distúrbios da mente, inclusive causas de desequilíbrio bioquímico que necessitam serem medicadas. De qualquer forma, um desequilíbrio leva a uma interrupção do desenvolvimento e evolução da pessoa e essa quebra caracteriza uma doença pois prejudica o indivíduo na sua aquisição de recursos para enfrentar a vida que, a cada etapa, torna-se mais complexa. O propósito fundamental de uma relação terapêutica seria o de ajudar a pessoa que busca esse tratamento a fazer mudanças que lhe possibilitem viver sua vida de modo mais plenamente humano, e que a pessoa possa retomar seu desenvolvimento.

Cibele M. M. Di Battista Brandão é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), membro do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região NPMR) e docente dessas instituições. Atualmente, coordena a Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Desaparecidos: uma história de dor

Por Leopold Nosek*

Nossos olhos recebem a luz de estrelas mortas. Atravessando distâncias abissais, o brilho de corpos celestes que já desapareceram continua a chegar até nós. Assim é a figura de Homero, cujas palavras, inscritas na memória da humanidade, guardam o substrato do que no século IV a. C. culminaria na cultura grega clássica, na qual se desenvolveriam a poesia, o teatro, a filosofia, a ética, enfim, os valores e as práticas que ainda hoje alicerçam as narrativas com as quais desenhamos os trajetos de nossa vida.

Devo dizer que hoje, assombrado pela extensa lista de desaparecidos que as ditaduras latino-americanas impingiram a pais, mães, filhos, irmãos e companheiros, descubro na Ilíada uma beleza peculiar que se apresenta como enigma: por que, como relata Homero, gregos e troianos lutam furiosamente para reaver o corpo de seus mortos? Por que todos os guerreiros se dispõem a morrer pela matéria apodrecida de uma anatomia?

Heitor, príncipe de Troia, mata em combate Pátroclo, companheiro do herói primordial grego, Aquiles. Este, tomado de ira, vinga-se matando Heitor, mas não sem antes disputar com ferocidade a posse do cadáver de Pátroclo – suprema desonra seria abandoná-lo à sanha dos inimigos, aos “cachorros e abutres de Troia”. Cego de dor pela perda do amigo, Aquiles leva o cadáver de Heitor para o acampamento grego e por nove dias exercita-se em humilhá-lo, arrastando-o repetidamente em volta do túmulo de Pátroclo.

Os deuses a tudo observam e se indignam. É por intervenção deles que, embora ultrajado, o corpo do troiano permanece incólume, e é também por ação divina que Príamo, pai enlutado, consegue se aproximar de Aquiles para lhe suplicar de joelhos que o corpo do filho lhe seja devolvido. Aquiles assente e vai além: oferece a Príamo doze dias de trégua, de modo que as exéquias de Heitor sigam o cerimonial devido. Troia pode então chorar seu filho e lhe render homenagem, costume que constitui sintoma de civilização, não importa o grau de violência com que se pratique a guerra.

E assim termina a Ilíada, não no triunfo do célebre e inexistente cavalo de Troia (essa passagem não consta de nenhuma narrativa homérica, como se descobriu), mas no êxito dos rituais de reverência e dor que acompanham o exercício do luto.

Um ensaio de Freud, “Luto e melancolia”, nos ajuda a compreender por que razão, tal como nossos antepassados remotos, precisamos reaver o corpo dos nossos mortos. A premissa é que não, existindo representação da morte no inconsciente, o medo da morte se desloca para outros territórios. Manifesta-se, por exemplo, como sentimento de desamparo, solidão e abandono – lembremos o costume de nos agruparmos como família nos cemitérios, próximos dos que amamos, ou as concepções de vida eterna e reencarnação, tão variadas quanto são as culturas e as religiões.

Contudo, se a ideia da morte nos é insuportável, como se dá o luto? Freud o confronta com o fenômeno da melancolia. Nesta, há uma recusa a abandonar o objeto amado que perdemos; por meio de rememoração contínua, insistimos em mantê-lo presente. A melancolia é essa disfunção do luto que torna o objeto uma presença eterna. Já no processo de luto o objeto que se perdeu no mundo exterior torna-se uma presença no espírito de quem sofreu a perda. O ódio iniciado com a perda se acomoda, desenvolvemos uma identificação com o que perdemos.

Nesse percurso, um paradoxo: o espírito se enriquece, e o faz por via de trajetos trágicos. Necessitamos do corpo para apoiar essa quase impossível tarefa do luto. Como que damos vida ao corpo presente para poder repetir a experiência da perda e nos conformarmos com ela. Para que, libertos da sombra daquele que se foi, a vida possa prosseguir seu trajeto.

Quando o que temos não é o morto, mas o desaparecido, nem sequer a melancolia pode se instaurar. Cria-se um vazio em nós, um buraco negro que, como parasita, atrai para si o pensamento e os afetos, introduz deformações nos caminhos da alma. No plano da cultura e da história ocorrerá a mesma deformação que se abate sobre os destinos individuais. A cultura como que se paralisa, empobrece, pode mesmo gerar monstruosidades.

Hoje, na América Latina, familiares e companheiros dedicam a vida a buscar os restos de um ser cuja existência é recusada no mesmo momento em que se recusa sua morte. Nessa busca, tornam-se testemunhas não só da verdade de um sujeito singular, mas também de um momento trágico da história coletiva.

Não é outro o âmbito desta reflexão, suscitada também por conversas informais com entrevistadores da Comissão da Verdade. Uma das perguntas que afloraram ali foi esta: por que até agora não se produziram no Brasil obras literárias ou cinematográficas relevantes sobre o período da ditadura militar? A nosso juízo, a maioria das obras que já veio a público teria caráter jornalístico ou catártico, o que se explicaria sobretudo por não ter ocorrido uma ruptura real com a ditadura; um acomodamento ignorou os elementos potencialmente traumáticos daquela transição.

Aqueles que a ditadura representou recusaram a dor e a perda. Não quiseram a ruptura e conseguiram escamoteá-la dos que necessitavam dela. Os que se opunham não tiveram força para se fazer valer ou cederam à acomodação – e os nossos desaparecidos ficaram impossibilitados de existir até mesmo como desaparecidos. Tornaram-se sintoma exemplar de um acordo político que se fez impedindo o luto ou mesmo uma possível melancolia. Não se registraram perdas. A história teve de continuar calada. Como não pensar que esses restos autoritários, retrógrados, tingiram os pactos de silêncio que se seguiram e estão na raiz de deformidades que hoje explodem como distopias em nossa sociedade?

Os buracos de pensamento, as maquiagens, as recusas da verdade afetam o conjunto da sociedade. Pode bem ser que essa crise se encaminhe para outras figuras e setores sociais, à espera apenas de uma falência para entrar em cena. Teremos outros movimentos históricos, é certo, mas nossos desaparecidos continuarão a nos assombrar. De modo semelhante, nosso passado escravagista é um fantasma cotidiano que nos assola no mais íntimo dos nossos lares. Recusar a narrativa do trágico da história alimenta inevitavelmente os fantasmas. Aproveitando-se das nossas obscuridades, eles não perderão a oportunidade de reaparecer.

*Leopold Nosek é médico, psicanalista, membro e ex-presidente da SBPSP.

In-Tolerância ! O que a Psicanálise tem a dizer – parte 2

Sob o prisma das relações de alteridade e de responsabilidade, a questão ética nos coloca empaticamente relacionados com o outro em diversos graus

Por Ilana Waingort Novinsky*

A experiência clínica hoje aponta que não podemos limitar o nosso foco apenas à vida intrapsíquica presente e manifesta dos pacientes, sem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor. Para realizarmos o trabalho analítico e lidar com os novos tipos de sofrimento e adoecimento que se apresentam em consultórios, é necessário resgatar os valores que nos colocam em reverência à alteridade, compreendida como matriz de uma ética individual e das relações humanas. Para acolhermos o outro, que é sempre diferente e estranho, é preciso poder reconhecermos que ele é um ser humano como eu.

É a relação com o outro, o pertencer a um grupo, o ser parte de uma comunidade o que constitui a condição fundamental para o nosso vir a ser e para o desenvolvimento da singularidade de cada um. A questão ética aqui se refere às condições necessárias para o acontecer humano, isto é, ao que permite a cada um de nós participar de uma comunidade.

Habitualmente a ética é vista como fruto do aprendizado, de algo que se acrescenta a uma personalidade que estaria se formando, se organizando, daí a importância dada à educação.

Entretanto, o trabalho do psicanalista inglês Donald W. Winnicott nos mostra que a questão ética faz parte da própria condição humana, do modo de ser de uma criança, do que lhe é originário. Há, desde o início da vida, segundo Winnicott, um pressentimento do ético: uma criança que tem a experiência de ser cuidada, recebe desta forma também um saber sobre a ética, um elemento fundante, sobre o qual inúmeros outros elementos psíquicos podem acontecer.

O que caracteriza o cuidado ético é a atitude que se exprime na consideração pelo outro e por suas necessidades. Na ausência desta atitude as ações do cuidar perdem sua motivação ética, se desvalorizam e deterioram. Quando este cuidado ético não acontece, temos a presença de fraturas nos fundamentos da ética da criança, e ocorrem fissuras psíquicas no seu desenvolvimento.

Nossos pacientes são testemunhas dessas fragmentações éticas, com seus inúmeros sofrimentos, como a perda do sentido de si e do contato com os outros. Podem sentir uma profunda solidão, sem alguém que os façam se sentir humanos e pertencendo à comunidade humana, e desenvolver assim uma visão niilista da existência. Aqueles que não experimentaram este cuidado ético fundante tendem a reproduzir comportamentos de violência explícita no nível social, tendências anti-sociais, através da participação em organizações delinquentes, como tentativas de sobrevivência psíquica.

Todo ser humano nasce numa experiência de “nós”, de pertencer a um grupo familiar e precisa viver a experiência de hospitalidade, como experiência fundante, neste seu grupo familiar e humano. Este cuidado é parte fundamental das condições ontológicas da constituição da pessoa humana, e sem ele a dimensão ética é apenas superficial ou impossível de ser acessada. Isto significa que sem a experiência de cuidado não temos como conviver e viver em um mundo hospitaleiro e solidário, com compaixão e tolerância. Cuidar, aqui, implica tolerar o outro: aquele que não foi cuidado, recebido como um outro, tem pouca possibilidade de poder receber também um outro, de tolerar a singularidade do outro.

A criança que encontra apenas figuras que encarnam força, mas que não lhe permitem ter as experiências fundantes aqui apontadas pode desenvolver ideais fantásticos de si mesma, desenraizada da condição humana. Pode também buscar a autoridade pelo negativo, entrando em uma sequência de comportamentos delinquentes na busca de quem a pare, de quem a devolva a uma ética da condição humana. Estas são situações que ocorrem a partir do sofrimento de crianças que viveram a violência e a intolerância.

Hoje, os indivíduos, famílias, grupos e instituições mostram-se incapazes, muitas vezes, de oferecerem estas formas fundamentais de cuidado, pois passam por graves descontinuidades e arcam com certo descrédito.

A proliferação de ideologias e grupos totalitários e a globalização de diferentes formas de intolerância, mais uma vez, atestam as falhas nos dispositivos de acolhimento e reconhecimento disponíveis no mundo contemporâneo. Uma sociedade tecnológica, de competição e da imagem revela, assim, pelo avesso as graves deficiências em mecanismos sociais de reconhecimento dos indivíduos em suas singularidades.

Os fenômenos totalitários chamam a atenção para a intensa demanda de inclusão e da busca de objetos capazes de fornecer sustentação e continência. É justamente a massa de indivíduos, avulsos e desamparados, a que mais se sente atraída pelas promessas de englobamento absoluto, proferidas pelas ideologias totalitárias e seus líderes.

Na questão da tolerância, a meu ver, não se trata de “tolerar, ou ter paciência” com o mais “fraco, infantil ou necessitado”, ou seja, de uma relação de poder. Trata-se de ver, sentir e viver com o Outro, de reconhecer como partilhamos as mesmas necessidades, fragilidades e angústias. Neste contexto a experiência de empatia surge como experiência humana fundamental.

Estamos aqui no campo do entre-nós, onde precisamos acolher o desproporcional, o trágico e o paradoxal, como aspectos inerentes ao nosso campo de experiências, estudos e reflexões. Desta forma, a perspectiva epistemológica usada tanto no estudo sobre a pessoa humana quanto nas relações de tolerância e intolerância, mais do que ser um elemento relacionado à teoria do conhecimento, expressa uma posição ética.

A questão da intolerância/tolerância, sob o prisma das relações de alteridade e da responsabilidade, nos coloca empaticamente relacionados em diversos graus com o Outro.

Quando não podemos mais acompanhar e sermos acompanhados nas nossas necessidades e vocações, estamos em meio à intolerância e em seu extremo, na barbárie: quando o Outro é usado, negado, em nome de objetivos e justificativas os mais variados. Não é apenas a ética que está em suspensão, mas ocorre uma destituição da pessoa humana em níveis tão profundos que a própria capacidade de atuação desaparece e o ser humano perde seu lugar, como ator psíquico e político, como ocorreu durante as perseguições e campos de concentração nazistas.

Uma reflexão psicanalítica sobre a questão da tolerância/intolerância, nos leva à questão das necessidades éticas fundamentais, sem as quais estamos condenados ao adoecimento e à barbárie – à intolerância.

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é a segunda e última parte de um ensaio em que ela discute e intolerância.

Nise – O Coração da Loucura

“Nise – O Coração da Loucura”, Brasil, 2016 – Direção: Roberto Berliner
Por Eleonora Rosset*

Quem será essa senhora de tailleur bordô, coque, salto baixo e bolsa, que bate com delicadeza na porta alta de ferro? Ninguém aparece. E ela, persistente, bate com um pouco mais de força. Nada. Então, com uma força surpreendente, ela esmurra a porta, até que alguém vem abrir.

Esse início do filme apresenta Nise da Silveira (1905-1999) à plateia que ainda não a conhece. Dá para notar que ela é uma pessoa que opta primeiro pela educação mas que, se preciso for, usa até a força para conseguir o que quer.

E foi preciso muita delicadeza e força mescladas para conseguir realizar o trabalho que ela fez no Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, depois que saiu da prisão da ditadura Vargas, acusada de ser comunista, onde ficou de 1934 a 1936.

Era um tempo no qual se confundia hospital psiquiátrico com prisão. Médicos e enfermeiros eram carcereiros e agentes de punição. O medo andava junto com a sujeira e o abandono, nos corredores e enfermarias daquele hospital.

A Dra. Nise (Gloria Pires, magnífica), única mulher entre os psiquiatras, foi logo afastada da prática clínica porque não concordava com lobotomias e eletrochoques. Acabou no lugar menos frequentado do hospital e com quase nada de verba, o STO, Setor de Terapia Ocupacional.

Ao chegar no local, cheio de lixo, ela arregaçou as mangas e começou o seu trabalho com balde e vassoura, ajudada por uma enfermeira de boa vontade.
Tudo limpo, ela convida os clientes (“pacientes somos nós que temos de ser com eles”), que vagam pelo pátio de terra, uns nus, outros vestidos em farrapos, para entrar:

“- Deixa que eles façam o que quiserem”, diz para Ivone, a enfermeira.
Aos palpites repressores do enfermeiro Lima (Augusto Madeira), ela retruca:
“- Cala a boca! O que eles falam aqui é matéria prima de nosso trabalho. Ouça. Observe. E cala a sua boca!”

Incansável, ela pesquisa prontuários e ousa abrir o “cofre”, a solitária onde Lucio, visto como capaz de matar, está encerrado há dias. Traz quem pode para o pátio e um jogo de bola é o início da aproximação entre ela e aquelas pessoas evitadas.

Logo, Nise consegue a ajuda de Almir (Felipe Rocha) que vai sugerir um novo caminho. Traz tintas coloridas e cavaletes com telas e assim começa o que hoje é o legado do Museu de Imagens do Inconsciente, inaugurado no Rio de Janeiro em 1952.

Seguidora de Jung, a quem escreve relatando seu trabalho, Nise acreditava na busca de uma linguagem que pudesse trazer à tona tudo aquilo que jazia no inconsciente de seus clientes. Via nas telas a história de cada um. Do caos inicial surgia o começo de uma integração. As imagens pintadas organizavam o que antes não tinha voz.

Mario Pedrosa (1900-1981), interpretado por Charles Fricks, o maior crítico de arte da época, vê artistas nos clientes de Nise e acontece a exposição “Os Artistas de Engenho de Dentro”.

A Dra. Nise da Silveira, em pessoa e com bom humor, fecha o filme e nos deixa com os olhos marejados.
Alguém do meu lado no cinema diz:
“Ah! Se existissem mais pessoas como ela…”

O excelente roteiro, baseado no livro “Nise – Arqueóloga dos Mares” de Bernardo Horta, a direção inspirada de Roberto Berliner, a trilha sonora brilhante de Jaques Morelembau, a fotografia impecável de André Horta e um elenco harmonioso, ajudam a contar a história dessa grande mulher.
Imperdível.

*Eleonora Rosset é psicanalista, membro da SBPSP e autora do Blog “Uma psicanalista vai ao cinema” (http://www.eleonorarosset.com.br/).