Cultura

Notas Sobre o Tédio

Vera Lamanno-Adamo*                         

No texto Luto e Melancolia, Freud (1915) introduz o termo melancolia como uma forma patológica do luto. Para ele, no trabalho de luto, o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido. Na melancolia, ao contrário, o sujeito se supõe culpado pela morte acontecida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. O eu se identifica com o objeto perdido, a ponto dele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.

A identificação do eu com o objeto perdido acaba gerando apatia, torpor e ausência de sentido à existência, assim como ocorre com um eu dominado pelo tédio. No entanto, no tédio não encontramos lamentos, incriminalização e culpabilização.

O tédio diz respeito à perda do significado pessoal diante da vida, do mundo e da realidade: resulta desta perda sentimentos de vazio, desânimo, falta de vontade de realizar atividades rotineiras e desinteresse pela realidade vivida.

Sob o domínio do tédio, o eu se vê esvaziado de significado pessoal à existência. O tédio revela o tempo que nos arrasta para um mundo desprovido de significação e esvaziado de sentido.  

Vou me valer do segundo episódio da primeira temporada do seriado Black Mirror, intitulado Fifteen Million Merits, para ilustrar a vida e relações de indivíduos sob a égide do tédio.

Quinze Milhões de Méritos

Ambientado em um futuro high-tech, o episódio traz como protagonista o jovem Bing (Daniel Kaluuya), apenas mais um entre milhões de indivíduos autômatos que habitam uma colônia onde nada fazem além de pedalar em bicicletas geradoras de energia.

Energia consumida pela sociedade e pelos próprios “pedaladores”.

A única maneira de se distrair é assistindo a infindáveis programas de TV ou adquirindo novos aplicativos para serem utilizados em seus avatares.

Quanto mais pedalam mais merits conseguem em troca. Todos brigam para ter mais merits, para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento em seus quartos.

O contato interpessoal é praticamente nulo.

Um dia, chega ao local a bela Abi (Jessica Brown Findlay) que, de imediato, chama a atenção de Bing. Ele se sente atraído por ela, mas não chega a conversar, até o dia em que ele a ouve cantar e fica impressionado com sua voz. Então, cria coragem e vai ao seu encontro.

Bing estimula Abi a participar do show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para comprar sua participação. Ele oferece os seus a ela, dando-lhe de presente quinze mil merits.

Ser bem-sucedido em um reality show é a única maneira de sair da colônia, ou seja, parar de pedalar para gerar energia e morar em um quarto maior e mais bem equipado com black mirrors.

Abi consegue ir ao show de talentos, o programa de calouros Hot Shots, que faz lembrar os realities American Idol ou The Voice. Após uma brilhante apresentação, os jurados dizem sarcasticamente que, embora seja muito bonita e capaz de gerar pensamentos maliciosos, sua voz é mediana.

Propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta para reduzir seus gastos e também conseguir ir ao show de calouros. Faz inicialmente uma apresentação de dança e então, aos berros, saca um pedaço de vidro que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto, após um ataque de raiva. Frente ao jurado e à plateia, Bing ameaça se cortar caso não o escutem.

Após discursar de forma incisiva e forte sobre a falta de intimidade, privacidade e a vida controlada da colônia, os jurados oferecem um programa só para ele em um canal da colônia.

Bing se torna uma espécie de herói que expõe críticas sobre o sistema, sempre com o pedaço de vidro nas mãos. Mas o seu discurso, programa após programa, a sua fala estridente e violenta torna-se uma performance.  Não promove reflexão e pensamento. Uma espécie de válvula de escape para a colônia.

Está assim instituído um campo fértil para a proliferação do tédio e de ferramentas poderosas para se livrar dele: extremismo e excitabilidade.

Numa cultura determinada por pura funcionalidade e eficiência, o tédio dominará porque a qualidade do mundo desaparece na visibilidade extrema que tudo engloba. Numa cultura assim, experimentos com sexo e drogas – ou fugas para o nevoeiro de uma nova religião – parecerão tentadores, porque parecem oferecer uma maneira de escapar de uma vida cotidiana penosamente entediante e de descobrir novos horizontes bem mais excitantes. O triste é que esses excessos nunca conseguem satisfazer o anseio de que se originaram (Svendsen, 1999, p.96).

Quinze milhões de Méritos evidencia uma ética contrária à reflexão em um mundo povoado por “pedaladores”. Resulta daí, relações estáticas e estereotipadas que não promovem experiências significativas, gerando cada vez mais esgotamento dos sentidos e indiferença perante a vida.

No entanto, o tédio não é em si um sinal de psicopatologia.

O tédio é um fenômeno tipicamente humano que carrega em seu bojo a noção de subjetividade enquanto manifestação da consciência de si, demandando sentido à vida e significado pessoal à existência.  

Frente à sensação de vacuidade, o tédio estimula a busca de sentido e significado à existência.

Reconhecer o tédio como uma presença não necessariamente insuportável possibilita que o transformemos em fonte de sentido para a vida. Ao tentar anulá-lo a qualquer custo, corre-se o risco de uma existência insignificante, povoada por extremismo e excitabilidade.

Gradativa e penosamente, o tédio pode ser suportado e em função disso ocorrer um reinvestimento no seu par antitético: a curiosidade.

Curiosidade que nos move em busca de conhecer o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos, para dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

 

Referência

Freud, S. (1915) Luto e Melancolia. Standard Edition XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lamanno-Adamo, V. L. C. (2017) Tédio, luto e melancolia. Rev. Bras. Psicanal. vol.51, n. 3 (p.79-90).

Svendsen, L. (1999) Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

Vera Lamanno-Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do GEPCampinas e da SBPSP.

Memórias coloniais

*Olívia Falavina

O livro “Caderno de Memórias Coloniais” da moçambicana Isabela Figueiredo discorre sobre lembranças e acontecimentos ocorridos na Maputo de 1960, durante o processo de descolonização. Filha de pais portugueses que migraram para a África, a autora disseca, em formato de um diário autoficcional, as relações racistas entre europeus e africanos, sob o olhar perturbador e investigativo da criança que era na época. Descrevendo essas tensas e intensas vivências, a garota permanece na cidade até os doze anos, quando é enviada sozinha e repentinamente para Lisboa durante a turbulenta independência de Moçambique. A violência normatizada da convivência cotidiana transparece no fato de que nenhum negro poderia jamais encostar em um branco ou olhá-lo diretamente nos olhos, ou ainda, de que deveria sempre manter uma postura curvada diante de um colonizador. Crianças brancas e negras do mesmo modo não se misturavam – as primeiras têm calçados, brincam trancafiadas em casa e vestem rendas alvas lusitanas, já as segundas vagam soltas, esfarrapadas, à procura de comida e pequenos serviços gerais. Universos intransponíveis, exceto pelas grades que os separam.

“Eu e eles não falávamos a mesma língua. Apenas umas palavras soltas. Olhava-os muito, e eles a mim. Por exemplo, neste momento estou a olhá-los através do tempo, e há uma perplexidade nos seus olhos, um vazio, uma fome, e nos meus uma impotência, uma incompreensão que nenhuma razão poderá explicar.”(Figueiredo, p. 167, 2018)

O ambiente infantil da autora-criança é moldado pelas marcas escravagistas ainda presentes, que ditavam o cenário micropolítico doméstico. Seus registros são um acerto de contas com suas origens, a matriz portuguesa e seu pai, cuja ternura e violência eram imiscuídas na intimidade do lar. O que ouvimos no decorrer do diário é a combinação singular de suas vozes infantil e adulta, provocando uma imersão no leitor em toda a ambiguidade dos afetos humanos. Quem nos escreve é uma menina crescida. Lugar duplo e paradoxal devido também a sua condição de retornada[1], a exilada africana que regressa à pátria sem nunca ter estado lá.

Por meio de memórias sensoriais, conhecemos sua Maputo do solo vermelho e seco, vemos as cores exuberantes e sensuais das roupas femininas, derretemos com o calor escaldante e provamos a inflamante aguardente de cajú. Na geografia da cidade e das pessoas, bem delimitada pela disposição precisa dos corpos negros e brancos nos espaços públicos e privados, a cisão é desde o começo condição e ferramenta fundamental de sobrevivência.

Há uma passagem comovente no diário em que a autora-criança seleciona as mais suculentas mangas de seu quintal e vai para a frente de sua casa vendê-las, atividade reservada exclusivamente às mulheres negras. Essa brincadeira subversiva ganha tons ainda mais interessantes quando descobrimos que o preço das mangas é bastante inferior ao das próprias negras. Ela se coloca, portanto, a ser “explorada”. Em sua brincadeira consegue uma proeza, reunir em si mesma por um momento a culpada colona branca e a aphartada africana negra. A comunhão desses papéis talvez não fosse possível em nenhuma outra circunstância. Ao brincar, torna-se a rapariga de cachos loiros e pele negra. E ri, se diverte e se sente livre por agora estar finalmente na rua, descalça, onde sempre quis estar: do outro lado da grade.

Sua brincadeira pôde, ao menos em fantasia, fazer uma ponte entre mundos antagônicos. Identificações paradoxais, como as de opressor e oprimido, se justapõem e convergem simultaneamente no ato lúdico simbolizante. Em uma tentativa infantil de atravessar abismos vemos em curso uma incipiente elaboração de traumas sociais e íntimos aos quais se encontrava exposta.

Esta contundente obra literária contribui para pensarmos sobre a miséria psíquica daquele que perpetua a violência, pois é também assolado pela cisão que constitui o fenômeno. Este se revela pela incapacidade do indivíduo constituir-se como si mesmo a não ser pela exclusão do outro e de sua fabricação complementar como um inimigo. Se o sofrimento dos colonizadores não é (e não deve ser) comparável ao das vítimas que padecem dos efeitos devastadores do racismo, ele, entretanto, nos aponta novamente como perdemos todos com a barbárie.

Os paralelos com nosso país, e com as outras antigas colônias, são inevitáveis. Moçambique é aqui e agora. Talvez possamos, assim como a autora menina, com suas mangas e cadernos, buscar meios próprios para tratar de nossas cicatrizes. Resta a esperança de que o brincar e a cultura possam continuar sendo meio de expressão e reparação de dores, as da nossa história pessoal e coletiva.

[1]          Como são chamados os filhos de portugueses que regressaram à pátria nos anos 1970.

 

Referências Bibliográficas:

FIGUEIREDO, I. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 1a ed., 2018.

 

Olivia Pala Falavina é psicóloga, psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro filiado do Instituto Durval Marcondes da SBPSP.

 

 

 

Ficção ou realidade: quando a vida imita a arte

* Julio Hirschhorn Gheller

Tomo para reflexão a premiada série americana “The Handmaid’s Tale” (O Conto da Aia), baseada no romance de mesmo nome, lançado em 1985 pela escritora canadense Margareth Atwood.

A história se passa em um futuro distópico, em que os Estados Unidos sofreram um golpe liderado por uma facção fundamentalista cristã, que tomou o poder, matando o presidente e membros do Congresso. Foi instaurado um governo autoritário, a nova República de Gilead, uma ditadura fortemente militarizada, que faz uso da doutrina religiosa para estabelecer um draconiano código de leis e costumes. As punições para dissidentes e infratores são severas: amputação de membros, fuzilamentos, apedrejamentos e enforcamentos. Os corpos dos enforcados permanecem dependurados em praça pública como macabra advertência para toda a população. Tudo é controlado por uma casta de comandantes – todos eles do sexo masculino – que constituem o alto escalão, detentor do poder de legislar, julgar e condenar.

Por força da poluição e degradação do ambiente, a maioria das mulheres ficou infértil, inclusive as esposas dos comandantes. Daí que, para permitir a procriação, as poucas mulheres férteis são sequestradas, separadas de suas famílias e destinadas a servir aos comandantes como fêmeas reprodutoras. São destituídas de seu nome de origem. Tornando-se propriedade do senhor que as fecundará, adotam o nome dele, precedido da palavra of, enfatizando o caráter de pertencimento e submissão do vínculo que os liga.

A protagonista do seriado é a aia Offred. Ela é “posse” de Fred até cumprir o seu papel de engravidar e parir um filho. Depois de dar à luz, será separada do bebê para cumprir a mesma função em outra casa. Mensalmente, no período fértil, repete-se um ritual para lá de bizarro, denominado de “Cerimônia”, o procedimento específico para se alcançar o objetivo pretendido. A aia se deita entre as pernas da esposa do comandante, assumindo a posição em que será por ele penetrada em um verdadeiro estupro, devidamente endossado pela lei e glorificado pela religião por cumprir os “desígnios divinos”. A esposa participa do ato como espectadora do coito, que, se bem-sucedido, resultará em um bebê considerado como uma bênção para o casal.

Interessante notar que todas as mulheres usam vestimentas iguais no modelo e na cor, identificando sua classe social. É um sinal de que desejos e gostos pessoais, indicativos de liberdade individual, devem ser esmagados. As aias usam uma túnica vermelha com chapéu branco de largas abas, dificultando a visão de seus rostos. As mulheres inférteis, as marthas, que trabalham como empregadas domésticas, usam vestido cinza com um lenço da mesma cor na cabeça. As senhoras da elite portam vestidos verdes. Mesmo estas devem permanecer sempre obedientes e discretas, à sombra dos maridos.

Outro personagem de destaque na série, Serena Joy, esposa de Fred, é uma personalidade complexa e multifacetada.  Foi uma das idealizadoras do sistema vigente em Gilead. Sendo dotada de inteligência e sensibilidade, vai, aos poucos, questionando as regras rígidas e inflexíveis. Pensa em revogar a lei que proíbe as mulheres de ler, condenando-as a um estado de permanente inferioridade diante dos homens. Entretanto, será vítima do monstro que ajudou a criar. Defendendo a ideia diante do alto comando, é punida pela ousadia e insurgência com a amputação de um dedo, em decisão corroborada pelo próprio marido.

As ruas são patrulhadas por militares armados, prontos para entrar em ação à menor manifestação de rebeldia, seguindo ordens superiores. Existe ainda a figura do “Olho”, indivíduo treinado para espionar, mesmo entre as altas esferas, com vistas a apontar quem se desvia dos preceitos vigentes. Tudo converge para um clima de paranoia que a todos atinge. A atmosfera das cenas é sempre angustiante, pesada e sufocante, ressaltada por uma iluminação sombria.

É interessante pensar no caminho que levaria a uma situação de tamanha opressão como a descrita. Quais são os ingredientes para o caldo de cultura favorável à instalação de um regime caracterizado por tamanho horror? Não estaremos distantes de uma resposta acertada se elencarmos fatores como o predomínio de estupidez, arrogância, boçalidade, preconceito, misoginia, xenofobia, homofobia e racismo. Tudo isto conflui para uma naturalização da brutalidade e violência destrutivas. Significa o perigo da barbárie vir a derrotar a civilização, um dos aspectos abordados por Freud ao discutir a inclinação do ser humano para a agressão. É algo que a história da humanidade registra de tempos em tempos, em assustadoras proporções, como nas grandes guerras do século passado. Todavia, também está presente em episódios registrados cotidianamente nas páginas dos jornais e na internet, quando não ao nosso redor. Basta olhar para enxergar.

Tendo assistido a alguns episódios da série, não pude deixar de me lembrar do filme “O Ovo da Serpente”, do grande cineasta sueco Ingmar Bergman, ambientado na Alemanha dos anos que antecedem a ascensão do nazismo, e que mostra o recrudescimento do antissemitismo.  Ele ilustra como aspectos perversos e tirânicos, latentes na sociedade, podem ser cultivados e instrumentalizados por líderes messiânicos, que pretendem representar uma promessa de redenção, em geral, ilusória e enganosa. Encontrar um culpado pelas mazelas de uma nação e, em seguida, transformá-lo em inimigo pode, no limite, conduzir à solução de eliminá-lo. Hitler, com suas ideias radicais e seus maneirismos histriônicos, era até ridicularizado pela classe conservadora que o apoiou, imaginando que poderia controlá-lo e manipulá-lo para atender aos seus interesses. Deu no que deu, como bem sabemos.

Para finalizar, vale acrescentar outra referência importante do mundo do cinema. O genial Chaplin, em 1940, fez sua primeira incursão em filmes sonoros com a obra-prima “O Grande Ditador”. Trata-se de uma impiedosa sátira contra o nazismo e o fascismo. Com ironia cáustica focaliza especialmente a figura do “Führer” Hitler, mas não poupa o “Duce” Mussolini, outro tirano da época. O clima de paródia corrosiva percorre o roteiro todo, sendo interrompido no final por um emocionado e comovente discurso em prol da igualdade e democracia.

Já que a vida pode imitar a arte, esperemos que a profecia do “Conto da Aia” não se realize.

Julio Hirschhorn Gheller é psiquiatra, psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Sobre-humanos

*Adriana Rotelli Resende Rapeli

Recebi de meu filho mais novo uma mensagem: ele estava de luto pois Stan Lee, criador de super-heróis da Marvel, havia morrido aos 95 anos. Sei que ele tem gostado mais de Homem -Aranha. Como se fosse o próprio, cruza os prédios da grande cidade nos vertiginosos movimentos que o videogame lhe proporciona. Ele também está na fase de sua vida em que, como Peter Parker, ouve do tio: “Quanto mais poderes, maiores responsabilidades”. Vestir o traje de adulto, lançar suas teias e expandir seus domínios (sair da casa dos pais e da cidade natal, entrar na faculdade, escolher profissão, tirar sua habilitação de motorista, escolher outros amigos, namorar) é mesmo quase sobre-humano.

Os super-heróis de Stan Lee não são mera diversão. São pura diversão, aquela que não nos tira da realidade, mas como boas ficções, nos ligam à nossa realidade interna por outros caminhos. Parábolas para nossos próprias percalços, metáforas de nossa desafiante aventura de viver e de nos apossarmos de nossas capacidades e nossas fraquezas. A aventura de viver e assumir os riscos de existir com sua individualidade, nossa criatividade é a originalidade com que cada um desenvolve o que traz em si potencialmente.

Os heróis humanizados, como qualquer adulto, têm responsabilidades e ações consequentes. Eles são capazes de perder e ganhar, caírem muitas vezes e se levantarem –  talvez por isso, na ideia freudiana de um superego mais integrado, eles são capazes de rir e fazer rir. Eles têm o superpoder do bom humor, de rir de si mesmos, a capacidade de existirem apesar e por causa de suas diferenças: são aranhas, formigas ou panteras, são verdes ou negros, são feitos de pedra ou de ferro, são deste ou de outro planeta, são invisíveis, ou mudam de forma, viram fogo, voam, são estranhos ou são só o Coisa.  A possibilidade de identificação é gigantesca, a inevitável referência com o mundo globalizado que tem em sua sociedade – não só a americana –conflitos e a convivência democrática decorrentes da diversidade social e de raça, gênero e talentos. Ganhos e perdas de uma guerra infinita: o mundo eternamente precisando de salvação.

O dia que Stan Lee morreu foi o dia em que também fui assistir ao “Bohemian Rhapsody”, uma biografia de Freddie Mercury, o músico vocalista da banda de rock Queen. De ascendência paquistanesa – parsis que foram para a Índia – Farrouk Bulsara, nascido na África, estudou em Bombaim, tendo depois fugindo da guerra da Tanzânia e migrado para Inglaterra, para o subúrbio de Londres. Além de talentoso, era gay. São muitas as suas diferenças que Mercury ativamente se coloca e pode viver a excentricidade como talento de falar aos outros, de se mostrar no centro do palco como objeto de identificações.

A voz poderosa, seus gritos e gestos hiperbólicos marcam sua diferença que parece ter sido assumida com a força ativa do querer. Assenhorando-se dela, como majestade, o vôo de Mercury –  como o deus mitológico Hermes/ Mercúrio precisou ser mais rápido que os colegas de sua banda. Estes, também geniais, criativos, mas vindos socialmente de uma maior estabilidade, ingleses que estudavam engenharia, odontologia… Sim, todos eles precisaram pôr os pés na estrada e criaram um mundo em que as diferenças se fertilizam em arte.  É tudo fantasia ou a vida real?

De qualquer modo, fidedigno ou não aos fatos, o que se mostra no filme é que a performance musical da banda não é um escape à realidade. O processo criativo que culmina na música título do filme, por exemplo, é uma aventura que vai da lama criativa à fama. E nos divertimos com a confecção da colcha de retalhos que a música- eclética mistura de rock, ópera e o que mais vier – celebra em sua diversidade rítmica e sonora.  No meio de tudo, um filho que grita o perdão da sua mãe por ter se perdido no início de sua vida, despede-se do passado e encara a verdade.  “Is this real life? Is this just fantasy?”. 

Nosso herói, demasiado humano, sai da epopeia e entra na tragédia. Depois de também, como Peter Parker, ter sua Mary, ser o maior entre os seus, ele vive o drama de perder- se de si mesmo e fazer o penoso caminho de se reencontrar. Então, faz o caminho inverso agora da fama à lama, da adoração ao escárnio, do sucesso planetário à impotência diante de um vírus fatal. Indefeso, sofrendo da falta de imunidade, em sua via crucis, ele morre de seus próprios poderes. Nosso herói, como o nosso Cazuza fez e cantou, morre de overdose do mesmo vigor que lhe fez um rei. Como Freud nos lembra de nossas entidades míticas, Eros e Thânatos nos habitam, aqui e ali travam conflitos mortais.

Quando Queen e Freddie Mercury ficaram conhecidos mundialmente nos anos 1970 e 80, eu própria engatinhava nos passos que hoje meu filho faz e fui embalada pelo maestro da multidão que cantava que éramos todos os campeões. Viver é perigoso, dizia o herói do grande sertão de Guimarães Rosa. Como um homem comum, recuperado em sua humanidade, depois das multidões lhe aclamando, ele só precisa do prêmio de um amigo, de um amor. Afinal,  “é sobre-humano amar, sentir, doer, gozar, sentir, ser feliz”.[1]

[1]  Mais Simples,  canção de José Miguel Wisnick, de 1993, gravação de Zizi Possi, no CD Mais Simples, de 1996.

 

REFERÊNCIAS

  • FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ________ O humor (1927). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ROSA, J.G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra e psicanalista.

 

“Embrace”: o peso silencioso do ódio ao corpo

*Luciana Saddi

Desde sempre, a fotógrafa australiana Taryn Brumfitt sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Ela tem três filhos e chorava de ódio e desespero ao olhar-se no espelho após cada gravidez. Depois de muito lutar contra seu corpo, decidiu se aceitar e abriu mão das dietas. Assim começa o documentário “Embrace”, disponível na Netflix.

Brumfitt postou no Facebook uma foto do antes, quando ainda se sacrificava para obter um corpo perfeito e magro, e do depois, quando fez as pazes consigo mesma e com suas formas arredondadas. A imagem viralizou. Compartilhada por celebridades, virou manchete em revistas e jornais do mundo afora. Era a força que faltava para expor seu sofrimento e com isso investigar a relação de inúmeras mulheres com a imagem corporal. A principal motivação foi a filha. Ela queria que a menina se amasse.

O documentário revela que 91% das mulheres odeiam o próprio corpo. Diante de padrões idealizados de beleza toda mulher sente-se gorda e feia. Esse ódio é explorado pela indústria cosmética, da moda, das dietas, das cirurgias estéticas, das revistas femininas. O filme não investiga a exploração desse ódio pela sociedade patriarcal, pois mulheres oprimidas tendem a aceitar qualquer coisa, principalmente, homens que as maltratem. Tampouco questiona a não transformação da hostilidade em revolta ou libertação.

“Embrace” prefere mostrar mulheres que aprenderam a se amar, recusaram padrões de beleza e superaram preconceitos internos e externos. Magras demais, obesas demais, peludas demais, com queimaduras demais, com defeitos físicos demais ou apenas mulheres que lutaram para sair da perversa equação beleza/magreza/felicidade/juventude. E que fizeram do próprio sofrimento bandeira de luta e afirmação, dando novo sentido às suas vidas.

O documentário ainda expõe a loucura obsessiva e obcecada gerada por sucessivas dietas – prática quase sempre fracassada (é impossível se manter em privação alimentar por muito tempo) – que roubam a capacidade de pensar, de trabalhar, de se divertir e empobrece a vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. O filme mostra que mulheres sentem medo o tempo todo, pois seus corpos podem ser expostos, suas imperfeições reveladas…mulheres se escondem, se envergonham e se humilham por causa do corpo imperfeito, inclusive as belas e jovens.

Nos anos 70, a psicanalista Susie Orbach escreveu um livro de grande sucesso internacional que está na 50ª edição: “Gordura é uma questão feminista”. No Brasil, o título não teve boa aceitação, embora a autora seja best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos. Há poucos anos, ela lançou “Bodies” (2009), livro que trata do crescente ódio ao corpo.

Orbach explora o conceito de mentalidade de dieta que aliena o sujeito dos sinais vitais da alimentação (fome, saciedade, prazer em comer). Considera a epidemia de obesidade e o aumento dos problemas alimentares (anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação) consequência do crescente controle alimentar, por meio das dietas, para alcançar um corpo idealizado. Autonomia alimentar versus opressão dietética. A autora afirma que a mentalidade de dieta é transmitida na família. Diz que os tratamentos dos problemas alimentares baseados em dieta são iatrogênicos, visam aumentar ainda mais o controle e o ódio ao corpo, e agravam os sintomas. Propõe, baseada na psicanálise, trocar a dieta pela autonomia alimentar e os ideais por simples aceitação. Indica mudanças técnicas para conectar (ou reconectar) o sujeito aos sinais vitais do comer para alcançar seus sofrimentos. A forma de pensar a ligação entre o social e o individual ao entrelaçar os níveis sociocultural, intrapsíquico e psicopatológico é a marca deste trabalho.

Em 1930, em “O Mal-Estar na Civilização”, Freud apontara que o progresso civilizatório não traria felicidade ao homem, pelo contrário, por meio da repressão à agressividade – condição civilizada por excelência – haveria um superego cada vez mais severo e violento. Talvez, por isso, o ódio ao próprio corpo não se transforme em rebeldia ou libertação, por estar preso a um círculo vicioso superegóico e masoquista que apenas o agrava.

“Embrace” expõe o opressor peso silencioso do ódio ao corpo, também apresenta mulheres que se libertaram e conseguiram se amar. Toda a opressão se assemelha enquanto a libertação percorre caminho singular.

Aprendi com Fabio Herrmann que a psicanálise apresenta ao homem o absurdo que o constitui e, se possível, ajuda a reconciliar-se com o absurdo e consigo mesmo. O documentário “Embrace” segue nessa trilha.

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados.

Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba) e Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher). Recentemente publicou Educação para Morte (ed. Patuá).

Novos casais – antigos amores

Regina Maria Rahmi

O Dia dos Namorados faz emergir indagações sobre o amor. E como anda o amor, tão cantado em verso e prosa? E a busca pela cara metade?

Freud afirma que a busca do partner evoca, desperta ou ativa algum traço parcial no sujeito das primeiras relações amorosas. A primeira marca de prazer e satisfação. Entre o encanto do reencontro e o desencanto da ausência é o lugar onde convergem os apaixonados.

A ilusão de ter a mesma ilusão… Na parceria amorosa, implica em momentos mágicos onde os dois acreditam terem encontrado aquilo que sonharam. Esse é o território de projeções entrecruzadas, fantasias de continuidade, completude e transcendência. Não seria o “campo virtual”algo inerente à natureza das paixões? Um espaço de sonho e desejo?

“Os enamorados” –  diz William Shakespeare –  “buscam a noite”. Território das idealizações e intensas atrações. A grande questão aparece quando a luz da realidade, a existência do outro, se faz presente.

Qual é o espaço para a alteridade? Para a existência do outro enquanto outro, o diferente? Qual a tolerância para a dor de perceber que o outro não alberga somente nossas projeções? Que o partner existe por si, diferente do que se imagina?

 Na atualidade

A busca pela satisfação instantânea, o abandonar-se aos impulsos, estar em movimento, alta velocidade, uma aventura estimulante…  Nas parcerias, leva por vezes a “amores líquidos”, como se refere Zygmunt Bauman. Laços frágeis que, frente à frustração do não encontro daquilo que almeja, emerge o pesadelo.  A desilusão leva facilmente a rompimentos; sempre está a possibilidade de apertar a tecla e deletar.

Por outro lado, também existem aqueles que têm espaço e recurso interno para lidar com os desencontros e experimentar o desconhecido; a possibilidade de um novo vínculo nasce de um entre dois.  No momento em que o amor se apresenta, o prazer é inerente ao encontro, surge uma esperança.  Há uma inquietação e uma descoberta de quem se apresenta.

O amor vive da incompletude. É a falta, a busca que nos põe em movimento.  O desejo precisa de tempo para germinar, crescer e amadurecer. E no dizer do poeta Arnaldo Antunes: “O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo por conjunção estrelar. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério pela paz que o outro dá ou pelo tormento que provoca”.

 

Regina Maria Rahmi é membro associado da SBPSP, professora dos Seminários de Psicanalise dos vínculos de Família e casal da (Dac), diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP e coordenadora do curso de especialização de Família e casal na atualidade – Instituto Sedes Sapientiae.

Foto: We Heart It

Sobre a vergonha

Por Marina Kon Bilenky*

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias

 

Morre o poeta?

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli *

Cruzava a manhã do domingo quando li que Ferreira Gullar morreu. Onde estão, para onde vão todas as lembranças dos que, como ele, já se foram? Porque o mundo que já acontecia sem ele ainda e mais ainda hoje o mundo é todo sensações que lampejam de seus versos: de cheiro de tangerina (sonho de floresta), de colo de açucena, de espantoso ocre da casa, branco de pedra do piso do banheiro, de alguma coisa dourada na pele, do azul da mancha do quadro de Leonardo (em que parte de mim está?), do guarda sol às três da tarde, o verde erva e poça e olhos e praça. E barulhos: do rumor da cidade ou do silêncio da noite, do latido do cão, de um avião ou de um bater de asas.

Gullar me ilumina em sua arte a questão de vida ou morte: “ O que eu vejo me atravessa como ao ar a ave… e sou então apenas essa rude pedra iluminada ou quase se não fora saber que a vejo.” Não somos pedras, minérios que não sonham, não se espalham no ar como um grito, ou como o cheiro embriagador da fruta. Se pedras somos, elas brilham como diamantes: no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, há guardado um lampejo.

É este brilho, fugaz como espanto de onde brota a humanidade e o poema, aquilo que em nós que se sabe de repente, como recém-chegados em um mundo de maravilhas e angústias. A arte de traduzir uma parte de nós que não é multidão, ninguém. Esse quase nada, quase nunca, que nos faz a consciência que sobrevive à estranheza e à solidão: o poeta Gullar é a criança que nele soluça, mal suportando o peso do amor interminável, acumulado vida afora. No fundo sem fundo, todo o mundo. A idade não o envelheceu, o corpo não cansou de ser enigma. Retirou-se docemente, mas morreu em fúria, ainda em espanto.

O poema, ele o queria nascendo de fruta apodrecendo num prato, não do mármore perene ou de cristal intocável. Ele o queria vivo – se possível em varanda com ruídos da rua, com vozes de pessoas trabalhando. O poema que irrompe donde menos se espera, num cheiro de flor, na janela do ônibus, no moer do silêncio, na poeira dos cabelos, na visão da tarde, soprando por um átimo de tempo. Átimo de átimo que seja, o coração freme e se acende. Pois um simples roçar de mãos comporta imponderáveis toneladas de luz, inquietante é cor de qualquer dia, a tristeza guarda no avesso a alegria ardente .

Hoje, lamentei sua morte. É perda demais para um simples homem, diria ele. Perplexa, lembro com ele que a morte, como a poesia, nos revela a vida que fulgura instantânea: o milagre que a vida traz e zás, ironicamente dissipa. A mesma poesia –brisa que faz do tempo a eternidade, da beleza o infinito.

Flutue ainda, prenhe de poemas. Enquanto isso, suas raízes fundas, poeta, estão já se arrebentando, tão fundas quanto estes céus.

Por ele, que me ajuda a vida a valer a pena.

PS: os trechos de poemas e versos adaptados ao texto são citações dos conhecidos “Dois e dois: quatro” e “Traduzir-se” e principalmente do livro “Barulhos” (1980-1987), José Olímpio Editora, cujo primeiro contato, na mesa da copa da casa de uma amiga, se deu como conviria a Gullar, com inesquecível maravilhamento.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psicanalista e membro associado da SBPSP e da SBPRJ

A política no divã

Por Bernardo Tanis*

Embora a psicanálise seja um poderoso instrumento clínico e contribua para a investigação das motivações humanas, a gênese do processo civilizatório, a instituição das normas e o reconhecimento das poderosas forças que levam à transgressão e ao esgarçamento do pacto social encontra limites face à complexidade dos fenômenos globais (políticos, econômicos, sócias…), que só podem ser abordados com base em um pensamento complexo, como nos diz Edgar Morin. No entanto pode auxiliar na compreensão de por que, em certos contextos, assistimos hoje ao fracasso da virtude e ao apagamento da distinção entre o público e o privado; pode facilitar o entendimento dos motivos pelos quais a razão é colocada a serviço de interesses pessoais e corporativos e a fé é utilizada para justificar as maiores violências contra o indivíduo identificado como diferente.

O comportamento ético que era para Aristóteles o comando das paixões por meio da razão, com o estabelecimento de normas e regras para a vontade, de modo que esta pudesse deliberar corretamente, parece apagado nos nossos dias. O que deveria ser a defesa do cidadão na esfera pública (virtude) e o combate ao crime, é corrompido pela lógica desenfreada de interesses particulares e de corporações; sem ser, de modo algum, prerrogativa exclusiva de um determinado grupo político. O crime é cometido sob o domínio da hybris, uma arrogância que se considera inatacável, invulnerável, blindada.

No contexto global e também no nosso país não é menos gritante o aumento das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Assistimos também ao ressurgimento de movimentos discriminatórios, xenófobos, contrários à aceitação de migrações; concomitantemente, proliferam atos terroristas que, além de acabar com a vida de centenas de indivíduos, criam um clima de insegurança, reforçando o desenvolvimento de Estados policiais, do estado de exceção (Agamben). Nesse cenário, o outro, o estrangeiro, o diferente, é objeto de tamanha hostilidade e transformado num ser tão estranho e odiado que sua exclusão/aniquilamento parece justificado.

A falta de sensibilidade ao sofrimento do outro, a vazão da agressão através do ato que ultrapassa o limite da lei dos homens, é metonímia do abuso, do estupro, dos maus-tratos, da fome, do desemprego, do domínio sádico do outro, da pedofilia, da humilhação perversa, do racismo e da discriminação.

Em “O mal-estar na civilização” Freud fala-nos da intensidade das pulsões e da necessária renúncia à sua satisfação plena na cultura, o preço que todos pagamos pela vida em sociedade. Fala também da agressividade humana e do modo como ela se entrelaça com o narcisismo. Propõe a ideia de narcisismo das pequenas diferenças que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, sua agressividade. Amamos nossos irmãos e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça. Essa relação imanente entre o indivíduo e a cultura é um operador fundamental do pensamento freudiano para a construção dos modelos de pensamento sobre a subjetividade humana. Freud dedica uma vasta e profunda reflexão aos vínculos entre o indivíduo e o poder, o indivíduo e a massa, assim como entre o narcisismo/sexualidade e a formação de nossos ideais, a moral e a ética.

Se retornamos ao termo corrupção, na sua etimologia grega alude a estragar, decompor, perverter, depravar, e guarda sua vinculação com o prefixo co, que alude à necessidade de dois participantes para que esse ato possa acontecer. Mas o que se esgarça, o que se decompõe? A ideia de justiça, a lei, o homem, a representação simbólica de um laço social que se sustenta num pacto simbólico, mas que se degrada e se transforma numa relação de compadrio. O poder se corrompe.

Classicamente a noção de poder remetia ao domínio exercido pelo Estado ou pelo soberano sobre seus súditos, associado ao autoritarismo, à violência praticada contra o outro, à censura. O poder visa exercer um domínio. Para nós, psicanalistas, a ideia de domínio é polissêmica e fundamental na compreensão das forças que movimentam o psiquismo. Comporta dois grandes grupos de sentidos: (a) um voltado para si, para o próprio aparelho psíquico: domínio da força pulsional, dos estímulos que nos invadem – domínio através do recurso ao processo transformativo do sonho, à sublimação, à representação, ao símbolo, à criatividade; (b) outro voltado para o exterior: domínio a partir da descarga e do livre exercício da sexualidade na busca do prazer, mas também exercício de domínio sobre o outro mediante diferentes formas de controle, de sedução, do ato e do sadismo.

Ambos fazem parte do potencial humano e operam em permanente tensão. Na atualidade as formas de poder e de domínio parecem mais difusas, penetram e se infiltram no cotidiano, menos identificado com uma instância, no entanto mais onipresente como meio de controle da subjetividade e das ações dos indivíduos. Até que ponto determinadas formas de poder não chegaram a mutilar subjetividades de modo que o ato emerja como única resposta possível para certos indivíduos ou grupos? Alguns analistas já se debruçaram com muita propriedade sobre esses temas.

Sintetizando os extremos: a ideia do cidadão acima de qualquer suspeita apregoa a noção narcísica do indivíduo que não estaria sujeito aos ditames do coletivo e estaria acima da lei, a corrupção revelando de modo contundente os intrincados jogos de forças entre o Estado, o poder e as paixões humanas; por outro lado, a condição de submissão, opressão e impotência na qual indivíduos, grupos ou nações se encontram conduz sujeitos movidos pela falta de alternativa à utilização consciente ou inconsciente do recurso ao ato muitas vezes devastador.

Pensar e agir eticamente ultrapassa a esfera do eu para nos lançar ao encontro do outro. Nesse contexto, a política cobra seu sentido original à serviço da comunidade, da vida em sociedade e não na sua redutora e corrupta perspectiva do compadrio e obtenção de privilégios. Talvez a psicanálise possa contribuir para reconhecer e desconstruir, na medida do possível, as formas de poder internas e sociais que alienam o cidadão e a subjetividade.

Novos desafios nos interpelam se nos deixamos atingir pela diferença, pela alteridade e o respeito à lei e ao laço social que nos constituem. O imperativo ético da psicanálise, através do reconhecimento da estranheza do desejo inconsciente em nós, nos convoca a reconhecer a estrangeiridade do outro e suas singulares demandas. Sua irremediável estranheza nos estimula à invenção de uma prática e de um discurso coerentes que nos possibilitem conviver melhor com nós mesmos e com o diferente. Seremos capazes?

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

Entrevista – Marion Minerbo

Muito além do divã

Simulando tom ficcional na interlocução com um “jovem colega” imaginário, Marion Minerbo compartilha material clínico e outras experiências em Diálogos sobre a clínica psicanalítica

Autora de Neurose e não neurose e Transferência e contratransferência, ambos da editora Pearson, a psicanalista Marion Minerbo lança seu terceiro livro, Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Editora Blucher), dia 1º de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da Fradique. Mais do que um título para “iniciados”, trata-se de um painel acessível e fascinante sobre a “experiência de transmissão da psicanálise” que Marion vivenciou na última década. Não é um período qualquer. Para muito além da prática e dos estudos com que Freud revolucionou a história da humanidade, o livro, de tom supostamente ficcional, usa a forma de um grande diálogo, com um interlocutor que Marion chama de “jovem colega”, para compartilhar material clínico que convida à reflexão em uma época em que “as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças”, como Marion declara em entrevista exclusiva à Vila Cultural.

Psicanalista, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), doutora em Psicanálise, Marion virou uma “fonte” imediatamente associada a dois temas distantes e de forte apelo midiático: os reality shows e a corrupção. “Os embates teórico-clínico- emocionais de meus interlocutores mais jovens me remetem, naturalmente, ao meu próprio percurso”, escreve, na introdução do livro, cujos diálogos contemplam seis temas: transferência, escuta analítica, trauma e simbolização, pensamento clínico, sofrimento neurótico e sofrimento narcísico. Leia a entrevista da psicanalista.

Vila Cultural. Você gosta de conceder entrevistas?

Marion Minerbo. Não dou entrevistas por telefone ou com gravação de vídeo porque não dá tempo de pensar. Fico inibida com perguntas à queima-roupa. O risco de dizer banalidades é grande. Em compensação, tenho grande prazer em conceder entrevistas por escrito porque mesmo que eu já tenha falado sobre um mesmo tema várias vezes, como BBB ou corrupção, as perguntas sempre me ajudam a pensar coisas novas. Há, claro, alguma vaidade em ser entrevistada, pois é uma forma de reconhecimento do meu trabalho. Mas o que mais me motiva é a oportunidade de compartilhar com um público mais amplo o acesso ao funcionamento mental propiciado pela psicanálise.

VC. Como define o novo livro e que avaliação faz da experiência de escrevê-lo?

MM. É um livro que foi nascendo aos poucos e meio que por acaso. Em 2013, me convidaram para falar sobre “transferência”, um conceito psicanalítico básico supostamente muito conhecido e sobre o qual já se disse muito – inclusive eu, que escrevi um livro sobre isso. Estava quebrando a cabeça para não chover no molhado, até que me veio a inspiração de escrever a um jovem colega transmitindo o essencial sobre o tema em linguagem coloquial e despretensiosa. Afinal, o rigor tem que estar nas ideias, e não na linguagem. A editora do Jornal de Psicanálise, publicação semestral do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise, viu naquele texto o potencial para um projeto editorial com este formato e me convidou a escrever sobre outros temas. Os primeiros diálogos eram mais tímidos, pois havia algo de ficção na criação do personagem jovem colega, e afinal, eu não sou escritora. Mas fui me apropriando dessa semificção e me divertindo com a escrita. Me afeiçoei ao jovem colega e fiquei triste quando me despedi dele. Escrever me serve para metabolizar o que estudei e para, a partir dessas leituras, organizar um pensamento próprio. Para o bem e para o mal, só consigo pensar escrevendo. Minha mãe me dizia: “Se você não consegue escrever com suas palavras, não escreva, significa que você ainda não entendeu o suficiente”. Tenho prazer em transmitir algo que dificilmente o jovem colega vai aprender só nos livros: como pensa um psicanalista – ou melhor, como pensa esta psicanalista! – em sua clínica. Sou generosa, mas também exigente com o leitor: ele não deve esperar concessões ou
simplificações. Acho que o livro é sobretudo útil. É o que tenho de mais valioso para oferecer.

VC. Que critérios usou para definir os seis temas destacados em Diálogos?

MM. Baseada na minha experiência como docente escolhi temas que fossem úteis para a clínica, e usei exemplos – devidamente ficcionalizados – para dar vida às ideias desenvolvidas. Naturalmente, todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a ética profissional. Transferência, como já disse, é básico porque é a manifestação concreta do inconsciente na vida das pessoas e na análise. Eu já tinha escrito um livro sobre esse tema (Transferência e contratransferência, Pearson, 2012), mas este diálogo me deu a oportunidade de abordar outros ângulos e aprofundar certas questões. O inconsciente é uma espécie de cicatriz viva do passado que continua produzindo sofrimento e travando o presente, o que leva certas pessoas a procurar análise. Como reconhecer na clínica esta cicatriz viva e seus efeitos? Através da Escuta analítica, que é o segundo tema. Vou usar uma analogia para explicar o que é isso. Certa vez fui arrebatada pelo desejo de pintar. Frequentei o ateliê de uma artista que não me ensinou a pintar, mas formou o meu olhar, um olhar sensível à dimensão estética da existência. Pois bem: o analista tem um olhar, ou uma escuta, ou uma apreensão, da dimensão inconsciente das relações humanas. Mas assim como a formação do olhar não transforma ninguém em artista, a apreensão da dimensão inconsciente não é suficiente para ser um psicanalista praticante. É preciso desenvolver também a capacidade de pensar analiticamente, quer dizer, articular o universal da teoria dos livros, à singularidade do paciente que está no seu divã. Escrevi, então, o diálogo sobre Pensamento clínico, uma espécie de passo a passo sobre esse “pulo do gato”. O diálogo seguinte, sobre Trauma e simbolização, serve para ajudar o jovem
colega a ter uma visão mais organizada sobre como se “adoece” psiquicamente. Sem uma compreensão razoável sobre como se adoece, é difícil saber em que direção seguir do ponto de vista terapêutico. E por falar em “direção a seguir”, os dois últimos diálogos, Sofrimento neurótico e Sofrimento narcísico, mapeiam os dois grandes territórios do sofrimento psíquico, cujas “paisagens emocionais” diferem radicalmente. A escolha desses temas se deve, de certa forma, à repercussão positiva do meu livro Neurose e não neurose (Pearson, segunda edição 2013). Muitos leitores disseram que a visão de conjunto da psicopatologia psicanalítica, ancorada em exemplos clínicos, foi muito útil.

VC. Quem, na sua opinião, podem ser os leitores potenciais do livro?

MM. Acho que o livro será útil não só para estudantes e jovens colegas, mas para psicanalistas em geral, pois não importa quanta estrada já tenhamos percorrido, estamos sempre estudando para manter o “instrumento psicanalítico” afinado e afiado – caso contrário ele perde o gume. É claro que o público leigo curioso, os estudiosos de humanidades em geral e os próprios “usuários” também poderão curtir e aproveitar os diálogos, já que estão escritos de forma acessível.

VC. Quando alguém procura um analista, é comum a dúvida a respeito sobre a “linha” que ele segue. O que pensa sua sobre isso?

MM. Até meados dos anos de 1970 os psicanalistas se dividiam em tribos, dizendo-se seguidores deste ou daquele autor. No entanto, fosse qual fosse a linha, havia pacientes que “não se encaixavam” nela. Pensando bem, é muito estranho que o paciente tenha que se encaixar, pois o psiquismo singular é sempre mais amplo e complexo do que pode ser apreendido por uma única teoria. A comparação é meio tosca, mas imagine um marceneiro que se limite a trabalhar com um serrote. Pode ser suficiente para serrar tábuas, mas se quiser fazer uma mesa vai precisar de outros instrumentos. Enfim, a nova geração de psicanalistas se deparou com os limites de praticar a psicanálise seguindo uma única “linha”. Instigados por questões colocadas pela clínica, os autores mais criativos passaram a pensar “fora da caixinha”. Todos saíram ganhando. Por isso, hoje é mais ou menos consensual que um psicanalista precisa ter em seu repertório instrumentos conceituais diversificados. Essa é a posição a partir da qual escrevi os Diálogos e trabalho na minha clínica.

VC. Você tem escrito também sobre o sofrimento psíquico ligado a características do mundo contemporâneo. Fala em “miséria simbólica” e relaciona esta condição ao sentimento de tédio e de vazio. Poderia explicar essas ideias?

MM. É um assunto complexo, mas posso tentar. A modernidade foi o momento da civilização ocidental que se caracterizava pela força e solidez das grandes instituições. O sofrimento psíquico tinha a ver com a rigidez com que todos eram obrigados a se encaixar nos valores instituídos, vistos como absolutos, naturais e universais. A diversidade era condenada e excluída. A família patriarcal era o melhor exemplo disso. Hoje, boa parte das grandes instituições está em crise. Em um movimento pendular, passamos de valores e referências extremamente rígidos para a condição pós-moderna, caracterizada pelo relativismo absoluto. As referências de que necessitamos para dar sentido a nossas experiências são pouco nítidas, imprecisas, cambiáveis, vagas, incertas, ralas e movediças. Para o bem e para o mal, ninguém mais acredita em valores universais. A vantagem é que há liberdade para cada um inventar e viver sua própria vida. Se antes a diversidade era excluída, agora é festejada. A diversidade das famílias contemporâneas é um exemplo.

VC. E qual a desvantagem disso?

MM. A descrença absoluta e a fragilidade das referências simbólicas produzem um estado de miséria simbólica: as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças. Muitas vezes ficam perdidas, sem rumo. Sofre-se de um vazio, de um sentimento de irrealidade e de tédio, sintomas da falta de sentido da existência, muitas vezes confundidos com depressão. Esses pacientes nos procuram com queixas vagas, mal formuladas, porque faltam até palavras para descrever essa forma de sofrimento.

VC. Quais os efeitos dessa falta de rumo sobre a sociedade como um todo?

MM. Sintomas socioculturais como a proliferação e adesão a causas radicais – sexistas, alimentares, políticas, terroristas – podem ser entendidos como tentativas de preencher o vazio, “fortalecer” a identidade e dar um sentido à existência. Certo tipo de violência é outro sintoma desse mesmo sofrimento. Venho me perguntando se a emergência de forças conservadoras em vários países não seria uma tentativa de fortalecer – da pior maneira – as instituições atualmente em crise. A grande dificuldade parece ser manter a liberdade conquistada com a relativização de verdades tidas como universais, sem jogar fora o bebê com a água do banho.

VC. De onde vem o seu interesse por temas como a corrupção e os reality shows? Por que decidiu analisar assuntos tão diferentes?

MM. Como sempre, há uma boa dose de acaso nas direções que a vida toma. É possível que tudo tenha começado com meu doutorado na UNIFESP. Escrevi sobre compulsão a comprar porque na época, em 1990, estava atendendo uma paciente que apresentava este sintoma. Eu, que havia estudado medicina, precisei me aventurar em um território completamente novo: a sociedade de consumo, a sociedade do espetáculo, a cultura do narcisismo, a hiper-realidade etc. Tudo isso em paralelo ao meu trabalho no consultório. Passei a me interessar por fenômenos típicos da pós-modernidade que pareciam ter em comum a fragilidade do símbolo. Desde os crimes em família, como o de Suzane Richthofen que matou os pais, e outros em que são os pais que matam os filhos, até um tipo de violência que batizei de reality game – mistura de reality show e de videogame. Em 2007 publiquei meu primeiro artigo sobre reality show na Revista de Psicologia da USP. A partir daí, todos os anos, na época em que começava o BBB, eu era entrevistada sobre o tema. Sem querer, virei uma “especialista”. Com relação à corrupção a coisa foi um pouco diferente. Publiquei em 2000 um primeiro artigo intitulado Que vantagem Maria leva? Um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Continuei desenvolvendo minha tese central em outros textos: pessoas podem ser subornadas, mas o que se corrompe (desnatura, apodrece) são as instituições, até que a própria corrupção se transforma, ela própria, em uma instituição. Depois, quando Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de hotel, escrevi sobre os mecanismos psíquicos que levam o poderoso a “perder a noção”. Mas foi com a Lava Jato que comecei a ser constantemente entrevistada sobre corrupção.

VC. Como lida com o fato de ser convocada com tanta frequência para explicar, digamos, os “mecanismos psíquicos” da corrupção?

MM. Gosto muito do desafio de falar sobre o tema, pois cada jornalista faz perguntas que me obrigam a aprofundar ângulos ou aspectos nos quais eu não tinha pensado. Um exemplo: queriam que eu falasse sobre a “corrupção nossa de cada dia”. Sei que as matérias precisam de chamadas fortes. Então, mesmo não fazendo muito sentido falar nesses termos, aproveitei para mostrar a diferença que existe do ponto de vista psíquico entre a pura e simples transgressão, e atos que se pautam por uma lei paralela, não oficial e implícita. Nesse segundo caso, a pessoa simplesmente não sente que está transgredindo nada. Isso me levou a analisar o “jeitinho brasileiro” e a “lei de Gerson”. São verdadeiras instituições que ignoram a lei oficial e erigem valores que não podem ser transgredidos: respectivamente o ‘favor em nome da amizade’ e a ‘esperteza viril’. Quem não retribui favor, e quem se recusa a levar vantagem, é visto como transgressor dessas “leis” e punido pela coletividade. Eu não teria pensado nada disso sem as entrevistas.

VC. O que mais tem aprendido com seus alunos e pacientes?

MM. A sensibilidade para sintonizar com o funcionamento psíquico dos outros, pacientes e colegas, me ajuda a me colocar na pele deles, a empatizar e me identificar com suas angústias. Isso me ajuda a respeitar e a conviver com pessoas que sentem e pensam de maneira diferente de mim. Naturalmente, não podemos aceitar e concordar com tudo – há atos e atitudes que simplesmente não podem ser tolerados –, mas pelo menos podemos entender as razões e as motivações dos outros. Isso me ajuda a viver melhor.