criança

Erotização precoce, infância roubada

Karin Szapiro     

– Vovó, eu tenho um namorado. Ele se chama João.

Gabriela de 6 anos se aproxima do ouvido da avó e, com a mãozinha na frente, conta baixinho a novidade. A avó acha graça e abre um largo sorriso para a netinha.

Há algo de errado nisso? Não, não há. Para o entendimento da pequena Gabriela, “namorar” é simplesmente brincar e se divertir com o amigo predileto. Como nos contos de fada ou nas histórias infantis, João é o príncipe encantado e ela, a princesa. Suas referências dizem respeito ao universo infantil e nem de longe têm a conotação dos adultos. A malícia, muitas vezes, está nos olhos de quem vê.

Gabriela e João passam a tarde juntos e brincam sem parar. As brincadeiras são inúmeras e transcorrem livremente. Crianças saudáveis são assim: gostam de imitar os adultos, têm amigos imaginários e revestem-se de vários personagens. Brincam de faz de conta, fazem-se de bichos, de super-heróis, príncipe e princesa, mamãe e papai. Quando uma menina pequena brinca com sua boneca, ela imita a mãe com seu bebê. Quando ela experimenta os seus saltos altos e o seu batom, ela simplesmente brinca de ser a figura que lhe é tão admirada. Com a sua imaginação, a criança se transporta para o mundo adulto e depois retorna ao seu estado original, o da curiosidade.

Por que as crianças brincam? Brincam porque gostam e sentem prazer em todo tipo de brincadeira física e emocional. Com o brincar, elas aprendem a lidar com suas angústias, ansiedades e medos. Elas elaboram de maneira lúdica questões subjetivas que lhes surgem ao longo da vida e tornam-se capazes de descobrir a si mesmas e aprender a viver criativamente.

O ser humano é um ser criativo, em um sentido próprio em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que habita. O brincar é, ao mesmo tempo, o elo entre o indivíduo e a realidade interior, e o indivíduo e a realidade exterior compartilhada. A brincadeira é própria da saúde, ajuda o crescimento e facilita a comunicação consigo mesmo e com o grupo.

À medida que crescem, as crianças preparam-se para desafios cada vez maiores e lidam com a sexualidade que surge. Quando tudo corre bem, os conhecimentos sobre si e sobre seu corpo se ampliam aos poucos, dentro de um tempo próprio. Seja sozinha ou em grupo, crianças precisam se sentir livres para brincar tranquilamente, sob a supervisão dos adultos.

Diferente de Gabriela, desde cedo Roberta vivia uma outra realidade. Enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica numa região nobre da cidade, ela era cuidada por seus irmãos mais velhos, filhos de outro pai, em um bairro mais carente. Desde pequena, ela acompanhava os irmãos no baile funk da vizinhança aos finais de semana e seu pai, quando a buscava para passear, a levava a um bar onde bebia noite adentro, acompanhado por todo tipo de gente.

O excesso do mundo adulto erotizado atravessou Roberta desde cedo. A menina “novinha” perdia a inocência da infância enquanto seus pais se distraíam. Roberta foi exposta a cenas, imagens, músicas, histórias e acontecimentos de cunho sexual e erótico inapropriados. A erotização vivida tão precocemente feriu-lhe a alma e a deixou em carne viva e a excitação experimentada foi demasiada. Hoje, aos 12 anos, a menina esconde que está grávida. Uma maternidade que chega fora de hora e compromete sua vida e a chance de um bom futuro.

Apesar de morarem na mesma cidade, as duas vivem em mundos diferentes. Gabriela tem sua infância protegida e cuidada enquanto Roberta vive uma vida solta e exposta a um excesso de estímulos inadequados para a tão pouca idade. O certo é que nenhuma criança está pronta para estas experiências precoces. Roberta viu-se compelida a queimar etapas do seu processo de desenvolvimento. Com a infância roubada, acaba por repetir o destino de sua mãe e engravida prematuramente. Nem mesmo seu corpo está pronto para lidar com esse turbilhão de acontecimentos.

Para Freud, trauma é o acontecimento na vida de uma pessoa que se define por sua intensidade e por sua incapacidade de reagir de forma adequada. É um transtorno, um atropelamento, um “excesso” de efeitos prejudiciais duradouros na organização psíquica do sujeito. Sendo assim, a erotização precoce é um fenômeno de natureza traumática, gerado por situações de acionamento dos impulsos sexuais de maneira inapropriada. Conduz a criança a entrar no mundo sexual adulto muito precocemente, atropelando fases do amadurecimento e desenvolvimento e prejudicando o processo de aprendizagem afetiva dos pequenos.

A sexualidade, entendida como elemento presente em todos os estágios de desenvolvimento da vida do indivíduo, acaba sendo desviada prematuramente para o erótico, o excitante, o sensual, quando na realidade deveria ser canalizada para a construção das emoções, das relações sociais, da experimentação de papéis e do desenvolvimento da afetividade.

A erotização precoce de uma criança rouba a sua infância. Cabe aos pais ou os adultos responsáveis protegerem os seus pequenos.

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

 

 

Amamentação: você tem fome de quê?

Elisabeth Antonelli

Alimento e amor. Disso dependemos para nosso desenvolvimento físico e emocional. “O estômago é, pois, como uma miniatura interna de boa mãe” (Winnicott, 1979, p39). Agosto ficou conhecido como “Agosto Dourado”, simbolizando a luta pelo incentivo à amamentação. O dourado está relacionado ao padrão ouro de qualidade do leite materno. É uma cor toda especial, associada no mundo inteiro ao laço simbólico. São trinta e um dias em que são celebrados a promoção, a proteção e o apoio ao aleitamento, chamando nossa atenção para refletir acerca de um ciclo universal que acompanha gerações.

Quando falamos em amamentação, falamos dos primórdios da constituição do sujeito, momento privilegiado, quando ainda não existe uma separação entre o bebê e a sua mãe. Nascemos indiferenciados e imaturos se comparados, por exemplo, a um filhote de cachorro que, em pouco tempo, adquire sua independência a partir dos reflexos prévios. Por sermos dotados de um sistema de linguagem, não existimos sem o outro. Os cuidados nesse começo da vida são decisivos para o nosso desenvolvimento mental.

O cuidado materno é fundamental para o desenvolvimento do psiquismo do lactente. Junto com o leite, o bebê recebe o amor da sua mãe e, neste mesmo ato, o bebê pode participar do desenvolvimento na mãe da capacidade de decifrar os estados penosos vivenciados por ele.

A alimentação do filhote humano depende de todo o aparato psíquico da mãe, que servirá de suporte para o desenvolvimento do aparato psíquico do bebê. Embora o aleitamento no peito seja o mais desejável, as mesmas condições precisarão ser mantidas no aleitamento na mamadeira. É certo que as mesmas dificuldades brotarão.

Ainda na gravidez, a mãe percebe que uma nova realidade se aproxima: para gerar um filho precisará aprender a lidar com a dependência que a maternidade impõe. Não há preparação anterior quando se trata de gerar uma vida. Do mesmo modo que muito se espera de uma futura mãe, são negadas as condições necessárias para que ela possa sustentar tal papel. Nesse momento, o pai, que pode ou não ser seu marido, precisaria ter asas grandes o suficiente para proteger este ninho que vai ser inaugurado.

Somos seres desamparados que temos crias desamparadas que precisam de nós. Esse fato pode fundar uma tragédia ou pode construir a preciosidade do humano. Winnicott (2000. p401) chama de “Preocupação Materna Primária” o estado que a mãe vivencia perto do parto e nas primeiras semanas a partir do nascimento do bebê. Nesta fase de adaptação ao bebê, a mãe entra num estado muito especial, de uma espécie de retraimento ou dissociação, ou fuga, semelhante a um estado esquizoide. O autor descreve tal estado:gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida”.

Os primeiros momentos da vida de um bebê carecem de toda atenção da mãe que precisaria também contar com a atenção redobrada do marido e demais membros da família. A sociedade deveria ser convocada a acolher as parturientes amamentadoras para que esse processo pudesse ocorrer da melhor forma possível. Estamos falando de dificuldades simples e situações normais. Eventualmente, poderá haver outras questões mais complexas trazidas pelo bebê.

Falar em amamentação necessariamente é uma convocação às condições necessárias para que a mãe possa produzir leite, o que é um ato de amor por excelência!

 

 

Elisabeth Antonelli é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

 

 

Referências bibliográficas

https://www.marinha.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno

Winnicott, D.W:  Da Pediatria à Psicanálise. RJ,Imago Ed.,2000

_____________: Tudo Começa em casa, SP. Martins Fontes, 1989

_____________: A criança e o seu mundo, RJ, Zahar, Ed. 1977

A curiosidade na adoção

Gina Khafif Levinzon

A curiosidade é compreendida, segundo o vértice psicanalítico, como uma função de saúde psíquica. Está associada ao impulso natural para o crescimento, mas depende de condições ambientais para que possa manifestar-se na sua plenitude. Klein (1921) associa a curiosidade ao instinto epistemofílico. Bion (1962) denomina Vínculo K a relação que existe entre um sujeito que busca conhecer um objeto e um objeto que busca ser conhecido. Identificamos já no bebê pequeno a exploração contínua de um mundo a descobrir e consideramos que nas crianças de todas as idades é natural haver perguntas sobre os assuntos mais diversos.

Quando falamos em crianças adotivas encontramos esse mesmo movimento no sentido de desbravar o desconhecido, acrescido de indagações sobre a história de sua família de origem genética. À pergunta: “De onde vim?”, somam-se várias outras: “Por que minha mãe não ficou comigo?”; “Fui amado?”; “Sou o causador da separação?”; “Matei minha mãe com meu nascimento?”; “Quem são meus pais?”; ”O que aconteceu?”…  Explorar esse universo da origem expõe a criança a situações de dor, por vezes de mágoa, e de contato com um campo cheio de lacunas incompreensíveis. Por outro lado, essa investigação permite que o adotado construa de forma sólida um sentimento de identidade, baseado na realidade. De modo geral, quando tudo corre bem, a dor é contrabalançada pela estabilidade e harmonia do lar adotivo. Ao explorar sua história e seus sentimentos, a criança fica livre para explorar o mundo.

Uma das dúvidas e angústias mais frequentes dos pais adotivos é quando e como contar à criança que ela é adotada. Há hoje um consenso geral de que a criança precisa saber de sua condição de adoção. Em geral, isso ocorre a partir das próprias indagações da criança sobre sexualidade, por volta dos três ou quatro anos de idade, quando ela quer saber de onde vêm os bebês. Essa pergunta a remete, assim como aos pais, diretamente à questão de sua origem. Costumamos dizer que o melhor para a criança é ter a ideia de que “sempre soube que era adotada”, que não houve o “dia da revelação”.

A experiência clínica mostra que as perguntas do filho sobre adoção são feitas quando há espaço psíquico para essa investigação.  Pais muito angustiados com relação à sua parentalidade podem reprimir, de forma consciente ou inconsciente, a busca de uma história anterior ou de um sentido para a separação da criança ou do adolescente em relação à sua herança biológica. Quando a esterilidade do casal adotivo não está bem elaborada, conversar com a criança sobre sua origem biológica significa assumir sua impossibilidade de gerar filhos. Nestes casos, há uma ferida narcísica difícil de ser superada, acompanhada pelo sentimento de castração da fantasia de continuidade biológica e da imortalidade dos pais (Levinzon, 2004).

Pesquisas realizadas mostram os prejuízos causados na aprendizagem pela dificuldade em lidar com a investigação sobre a adoção. Como estar aberto para aprender se há portas e janelas importantes fechadas no caminho do conhecimento?

Segundo Winnicott (1955), mais do que informações, as crianças precisam de pais confiáveis, que estejam ao seu lado na busca da verdade e que compreendam sua necessidade de viver as emoções apropriadas às situações reais. Elas têm uma capacidade incrível de descobrir os fatos, que são simplesmente aceitos como fatos. O mistério pode gerar um problema muito maior, e permite a criação de fantasias perturbadoras.

O medo de perder o filho inclui muitas vezes a ideia de que, sabendo de sua história, ele irá procurar os genitores. Afinal, quem são os pais verdadeiros? A insegurança dos pais adotivos não se sustenta na realidade. Os pais verdadeiros são aqueles que criam a criança por toda uma vida, que lhe dão seu nome, suas horas de sono, seus valores, seu amor, seus limites e seus cuidados. Em condições normais, o filho não irá questionar sua importância. Sua investigação servirá para que tenha uma noção mais inteira de si mesmo.

No campo da adoção, a curiosidade pode ser perturbadora para todas as partes da família, mas é essencial na constituição de bases verdadeiras. Nosso trabalho, como analistas, é auxiliar todos neste trajeto precioso que é a apropriação de si mesmo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bion, W. – (1962) O aprender com a experiência. In: Os Elementos da Psicanálise. Trad. Jayme Salomão e Paulo Dias Corrêa.  Rio de Janeiro, Zahar ed., 1966. p.11-117.

Klein, M. – (1921) O desenvolvimento de uma criança. In: _______ Contribuições à Psicanálise.   Trad. Miguel Maillet.  São Paulo, Mestre Jou Ed., 1981. p.15-85.

Levinzon, G. K. –  Adoção. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

Winnicott, D. W. – (1955) A adolescência das crianças adotadas. In: In: Sheferd, R. – D.W.Winnicott- Pensando sobre crianças. Trad. Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997, p. 131- 140.

 

 

Gina Khafif Levinzon é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora em Psicologia Clínica pela USP, professora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da CEPSI-UNIP e autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção” e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. E-mail: ginalevinzon@gmail.com

Paternidade e função paterna

Ricardo T Trinca*

Toda criança ao nascer é órfã. Ter um pai e uma mãe são conquistas e aquisições posteriores, mas que podem não ocorrer. É necessário que o bebê se torne filho de alguém, ou seja, que uma mente possa se dedicar à tarefa de recebê-lo no mundo. Mas, se por um lado o bebê é um órfão, por outro ele nasce com preconcepções do encontro com um seio (Bion, 1962/1991) para o qual se dirigirá, e sobre sua recepção, ou melhor, sobre a presença de alguém a partir do qual poderá haver alguma ancoragem e encontro. Mas a preconcepção pode ser frustrada, dependendo das circunstâncias deste momento inicial, criando dificuldades significativas para os próximos passos do bebê.

Os pais recebem esse bebê, um ilustre desconhecido, que vai – aos poucos – se tornando familiar. A familiaridade é um processo complexo associado com a possibilidade tanto do bebê ser sonhado, quanto do estabelecimento de ritmos orgânicos da sua vida, com improvisações e melodias análogas às de uma banda de jazz. A amamentação, a troca de fraldas, o sono e o mimo são estabelecidos em um ritmo peculiar, relacionado tanto com as características inatas daquele bebê, quanto ao modo como ele é sonhado pelos pais. Ser sonhado significa participar da vida mental do outro; em última instância, existir.

Nesse momento inicial da vida, a função materna é a mais importante: ela é a função psíquica relacionada com a recepção da orfandade de um bebê que é pressentido como absolutamente dependente e que necessita de acolhimento, cuidados e continência. Mas, desde esse momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e se tornam complementares. São funções mentais e não estão relacionadas diretamente com um ou outro gênero sexual, que desempenhe uma ou outra função necessariamente. Uma mãe tem função paterna, assim como um pai tem sua função materna e vice versa. Ser pai, portanto, é poder flutuar em um espectro de possibilidades formado entre essas duas funções. Não é mais novidade um homem ser predominantemente materno, ou um casal homoparental desempenhar, cada um, funções distintas ou ambas as funções. Também uma avó ou um avô pode desempenhar relativamente bem a função paterna ou a função materna. Culturalmente elas tendem a ser associadas ao pai e à mãe.

A função paterna nesse início da vida do bebê relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente. O bebê, neste momento, é o reflexo do desejo dos seus pais, desejo desconhecido, mas que aparentemente se tornou encarnado e vivo; é um ser-para-si (ser para a mãe), carecendo ainda de um mundo pessoal. Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebê, e o reflexo deste investimento libidinal e imaginário. Bebês lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda. O bebê e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe alguma coisa como um bebê independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.

Mas, ao longo do crescimento do bebê, a função paterna passa a ser não mais periférica, assumindo um posto de maior centralidade na vida da mãe (ou daquele que representa a função materna) e, também, da criança. O cuidador do bebê precisa se haver com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebê passa a adquirir paulatinamente maior autonomia. Mas ainda não é, de fato, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida diretamente para o bebê. Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que são feitos naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso. Portanto, a função paterna tem como objetivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.

O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança (Winnicott, 1993/1999), mas é preciso levar em conta que um “sim” da relação desta criança com o mundo já foi, portanto, formado na mente desses pais. O “não” verdadeiro denota a formulação de um “sim” anterior. Esse “sim” é o desejo de que essa criança possa ter um mundo. O “não” passa a ser expressão do desejo de que a criança constitua um mundo, que vá além da relação com a função materna; um mundo relativamente seguro. Essa separação para com a “mãe” ou ampliação do universo da criança pequena é realizado pela função paterna, um verdadeiro ser-para-o-mundo. A função paterna é a função que separa mãe e bebê para poder dar as bases da simbolização, pelo início das relações triangulares, ou a base do pensamento simbólico. A função paterna, desse modo, separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico e da castração. A função paterna, portanto, separa para incluir. E a função paterna melhor consegue fazer isso, quanto mais valorizada é a cultura e a alteridade na mente da mãe; ou o quanto a função paterna está interligada à função materna na sua vida mental.

A presença da função paterna e materna se mantém ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho. Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança, quando elas puderam ser incorporadas como parte da sua personalidade. Quando isso acontece, o filho pode prescindir dos seus pais.

A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho. Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes. Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna. Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações; decididamente a função paterna é uma função associada com o mundo da cultura.

Um filho é tanto algo profundamente pessoal quanto um ser que se transforma em algo da cultura e do mundo. É um modo de presentear a cultura com nosso amor, deixando o filho ser no mundo aquilo que ele está, por alguma razão, destinado a ser além de nós.

 

Referências

Bion, W. R. (1991). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho Original publicado em 1962).

Winnicott, D. W. (1999) Dizer “não”. In D. W. Winnicott, conversando com os pais (2 ed) São Paulo (SP): Martins Fontes (Trabalho Original publicado em 1993).

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

 

O poder enlouquece?

Por Marion Minerbo*

Aqui vai uma pequena ficção sobre a origem do pacto social. Assim que começamos a entender alguma coisa da vida, lá pelos 3 ou 4 anos, assinamos um contrato com aqueles que cuidam de nós: nos comprometemos a renunciar à satisfação absoluta de nossos impulsos sexuais e agressivos; em troca desse sacrifício, as instituições (a começar pela família) garantem o amparo físico e emocional necessário à nossa sobrevivência.

Assinamos não tanto por achar que a relação custo-benefício compensa, mas porque não temos escolha: é isso ou ficar no limbo social. Quem está no limbo não existe para os outros seres humanos. Especialmente para as pessoas que são significativas para nós. Esse é nosso maior pavor.

Chamamos de louco aquele que dá vazão a seus impulsos sem medo do limbo. E se ele não tem medo do limbo é porque, para ele, o contrato social deixou de valer. Ele está fora do jogo. Isso acontece em duas situações.

A primeira é quando o horror de não existir para a comunidade humana já se realizou. Falo dos miseráveis. As instituições, ou seja, nós, não fizemos a nossa parte no trato; abandonamos a pessoa à própria sorte. Nessas condições, ela pode sentir que já não tem nada a perder. E dar vazão aos impulsos sexuais e agressivos sem medo das consequências. São os que enlouqueceram de dor.

Mas há outra situação em que o pacto social deixou de valer. É quando alguém foi excluído do mundo humano por excesso de poder. Assim como o miserável, que está num limbo situado “abaixo” do pacto social, o poderoso também está num limbo, porém “acima” dele, numa espécie de Olimpo. Ele está numa condição que tem mais a ver com a dos deuses do que com a de seus pares – que, querendo ou não, pautam sua vida pelo contrato.

Não nos enganemos: estar no Olimpo é estar fora do jogo humano. É como jogar pôquer com alguém que dispõe de um cacife infinito. A possibilidade de perder, que é a base do jogo, não existe para ele. E como não está no mesmo plano, mesmo que se sente à mesa, seu jogo não conta para nós. Está excluído.

Da mesma forma que a exclusão do miserável, a do poderoso também pode enlouquecê-lo. Se o miserável nada tem a perder porque já perdeu tudo, o poderoso não tem nada a perder porque supõe que nada vai lhe acontecer. Mas se engana. A mitologia nos conta que mesmo os deuses do Olimpo são punidos quando extrapolam.

O que não é tão fácil de perceber é que o poderoso não enlouquece sozinho. A psicanálise mostra que, assim como no caso do miserável, nós contribuímos para que o poderoso enlouqueça. Se ele julga que pode tudo, é porque é levado a sentir que a sociedade jamais o abandonará. E talvez tenha nisso alguma razão. Explico.

Quando estamos diante de alguém que tem poder – qualquer tipo de poder – tendemos a viver esta nova relação com os padrões de uma relação antiga: a da criança com seus pais. É um dos sentidos do conceito de “transferência”. Lembro que a criança depende de forma absoluta dos pais, que para ela são muito poderosos. Quais seriam estes padrões?

Desejamos o amor dos poderosos como desejávamos o amor dos pais: cair nas suas boas graças, ter intimidade, dar e receber favores, gozar de sua proteção.

E também tememos sua ira, que certamente viria caso contrariados. Por exemplo, se tentarmos mostrar a eles, com ações concretas, que a lei vale para todos. Tememos seu ódio e sua vingança como temíamos a nossos pais.

Considerando essa mistura de amor, dependência e medo, quem ousaria levantar a mão contra os próprios pais? E de fato, o poderoso está cercado de pessoas que o veneram como se fosse um deus. Olham para ele com reverência: “você está acima do bem e do mal, as sanções não valem para você”. Prometemos a ele a impunidade. Mas, se ele acreditar nisso, mais cedo ou mais tarde estará perdido.

É assim que, com nossa ajuda, o poderoso pode enlouquecer, isto é, desqualificar o pacto social que funda nossas instituições. Para que isso não aconteça temos de lhe sinalizar constantemente que seu poder tem limites. A psicanálise chama isso de castração: ninguém pode tudo, o tempo todo, impunemente. Acenar com a castração é uma forma de incluir o poderoso no pacto social. De certa forma, ele nos agradecerá. Ou pelo menos, deveria.

 

*Marion Minerbo es psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016).

Entre a Psicanálise e a Medicina

Suzana Grunspun

Como a Psicanálise e a Medicina podem contribuir para a compreensão e aprofundamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na infância?  Este Transtorno, tão habitual nos tempos atuais, é um diagnóstico formulado por médicos que estabelecem que os acometidos apresentam alterações de atenção e/ou do impulso. Segundo Saul Cypel (p.23-30; 73-74), neurologista infantil, o TDAH   ocorre em consequência de múltiplos fatores que precisam de um esclarecimento para se ter uma opção de tratamento. Sua incidência é muito alta: o transtorno atinge de 8% a 10% das crianças e é mais frequente em meninos. É muito intricado se falar de causas do TDAH. Aspectos genéticos e hereditários são correlacionados às disfunções neurobiológicas. Questões emocionais, ambientais e culturais também estão vinculadas ao TDAH.

 

O psicanalista procura entender o grau de sofrimento de cada paciente individualmente, e investiga o seu funcionamento mental. A falta de atenção compromete a capacidade da criança de manter-se concentrada em uma atividade; a impulsividade e/ou hiperatividade expressa-se por reações impensadas, bruscas e imotivadas. Estes sintomas são correlacionados com a baixa tolerância à frustração e a dificuldade em saber esperar – aspectos importantes para o olhar do psicanalista, pois a criança ainda não desenvolveu a capacidade de se conter.

 

É importante conhecer como o paciente em análise experimenta sua desadaptação ao ambiente escolar ou com seus familiares. Estas crianças, muitas vezes, sentem-se confusas entre o que é seu problema e a sobrecarga proveniente do seu mundo exterior. Dentro desta perspectiva, citamos Winnicott (1962,p.51-54), um pediatra inglês que também era psicanalista. Ele propôs uma teoria para se compreender o desenvolvimento da criança a partir da unidade mãe/bebê, salientando que esta dupla interage com uma dinâmica particular desde o nascimento. No TDAH, a questão do ambiente pode ser estudada a partir deste ponto de vista. Assim, se terá uma visão ampliada dos sintomas – que podem ser exclusivos, associados ou decorrentes das relações precoces que se estabeleceram no começo da vida. Tanto a impulsividade como as dificuldades de atenção e foco poderão se instalar nesta fase, sem necessariamente ter um fator neurobiológico que justifique o TDAH. Os sintomas entendidos pela psicanálise refletem conflitos internos ligados às dificuldades vivenciadas pelos acometido pelo TDAH.

 

Nesses casos, é importante que o analista conheça os correlatos biológicos do transtorno para entender o uso de medicamentos. Existem critérios precisos de indicação para crianças com alteração de comportamento intensa e persistente, mesmo depois da abordagem analítica, da orientação dos pais e do contato com a escola. Não se pode esquecer dos riscos que a criança muito agitada corre com seu comportamento – como as graves questões de ameaça de integridade física. É importante lembrar que cada criança deve ser avaliada individualmente.

 

O efeito da medicação tem como mecanismo de ação favorecer uma concentração de neurotransmissores catecolaminérgicos, seja por aumento de sua liberação local ou redução em sua metabolização.

 

Os sintomas que atualmente aparecem na clínica infantil estão correlacionados com mudanças paradigmáticas do mundo atual. Imersas em um mundo veloz, a exigência é que todas as crianças correspondam às expectativas contemporâneas. Nos vemos diante das seguintes perguntas: quando existe uma dificuldade real para alguma criança? E em que momento esta dificuldade é considerada uma não-correspondência das expectativas socioculturais a serem cumpridas? Nós, psicanalistas, temos que ponderar e refletir para mantermos nosso discernimento.

Bibliografia

Cypel, S. – Déficit de Atenção e Hiperatividade e as Funções. Executivas. São Paulo; Lemos Editorial ,2007.

Winnicott W D (1962) –Provisão para a criança na saúde e na crise.  In: O Ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre; Ed. Artes Médicas , 1990,p62-69

 

Suzana Grunspun é médica e psiquiatra, formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com residência médica no Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), é analista de criança e adolescente pela International Psychoanalytical Association (IPA) e docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Foi secretária do curso de Psicanálise de Crianças e Adolescentes no biênio 2015/2016.

Tempo de férias, tempo de brincar, um tempo próprio

Mirian Malzyner

Férias são momento de pausa, como um parêntesis no cotidiano. Tanto para os adultos, como para as crianças pode ser uma oportunidade de resgatar um tempo próprio, em sintonia com os ritmos e necessidades mais básicas de cada um.

Muitas vezes, adaptar-se ao ritmo da agenda de compromissos e atividades, aceleradas pelas urgências do dia a dia, leva a um afastamento do contato mais íntimo com aspectos fundamentais do existir humano. As férias são o momento de marcar essa pausa, esse respiro que proporciona o encontro com o tempo subjetivo.

Proporcionar às crianças o tempo do brincar espontâneo e não dirigido é básico para a renovação contínua do potencial criativo, da curiosidade nas coisas do mundo e na confiança em si mesmo. O excesso de estímulos e as atividades propostas a partir “de fora” restringem as possibilidades da criança inventar e jogar com a imaginação. É importante o tempo de “não fazer nada”. Adam Phillips (1993) disse que o tédio é uma oportunidade de contemplar a vida em vez de fugir dela. E Bertrand Russel (1930), já falava em “monotonia produtiva” alertando para o fato de que uma geração que não suporta a monotonia será uma geração de homens divorciados dos lentos processos da natureza, de homens cujo impulso vital seca lentamente como flores podadas num vaso.

Os ritmos naturais dos processos humanos envolvem alternância de estados de atividades intensas e estados de tranquilidade, desde o início da vida. Ao entregar-se numa condição de total relaxamento após uma mamada feliz, o bebê vive um estado de quietude. Esse descanso dos estímulos do mundo é a base para a capacidade da criança e do adulto sadio experimentar o gesto espontâneo que torna o mundo real e as experiências verdadeiramente pessoais.

É no encontro com o ritmo próprio de cada um que podemos exercer a criatividade, condição essencial para sentir-se vivo. Winnicott, psicanalista inglês que partiu de uma longa experiência em pediatria, pôs em destaque a questão da criatividade primária como intrínseca ao ‘viver’. Ser humano é ser criativo, em um sentido próprio, em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que se vive.

Se tudo correr bem, o encontro do bebê com o mundo dá-se de tal forma que não se coloca a necessidade de decifrar o mistério se ele criou o mundo ou se este já estava lá para ser encontrado. Este é o paradoxo. O encontro dá-se numa atmosfera que inclui uma ‘mágica’ – a ilusão onipotente – a partir da qual a vida subjetiva torna-se possível. Esse veio ‘mágico’ terá desdobramentos ao longo de toda a vida.

A brincadeira infantil vai se transformar encontrando outras formas, mas sempre existindo na possibilidade de “fazer à sua própria maneira”.  Qualquer pessoa em qualquer atividade do cotidiano pode ser criativa. Até mesmo o simples ato de respirar pode ser vivido como único e pessoal, expressão da subjetividade. Uma pausa para respirar pode ser o momento de integrar aspectos do si mesmo e renovar a condição criativa.

Brincar é inventar, exercitar a intuição, descobrir os sentidos do mundo sem pressa e sem hora marcada. A brincadeira amplia o tempo presente, incluindo o ontem e o amanhã; amplia os espaços, expandindo os horizontes.

Importante ressaltar que o tempo de pausa possa ser incluído criativamente para além das férias, no desenrolar das atividades comuns cotidianas.

 

Referências Bibliográficas

Philips, Adam (1993) – “Beijo, Cócegas e Tédio”, Ed Companhia das Letras,1996, SP

Russel, Bertrand (1930) – “A Conquista da Felicidade”, Editora Nova Fronteira, 2017, RJ

 

Mirian Malzyner é psicanalista, didata e membro efetivo da SBPSP, onde coordena seminários sobre Arte e Psicanálise, tendo artigos publicados sobre esse tema. Também desenvolve atividades no campo das artes plásticas, principalmente em ilustração. Nesse ano, escreveu e ilustrou o livro infantil “A Grande Vitória”, publicado pela Editora Aspas.

*A ilustração é de Mirian Malzyner

Dia da Família: alternativa democrática?

*Por Eliana Riberti Nazareth

Algumas escolas já implantaram o Dia da Família (15 de maio) em substituição ao Dia das Mães e ao Dia dos Pais. Outras parecem estar em via de. Alguns justificam tal iniciativa dizendo que, desse modo, mais crianças podem ser incluídas nas comemorações, pois nem todas têm mãe, pai ou ambos, ou provêm de famílias ditas tradicionais. Ligado a isso, outros afirmam ser esta uma maneira mais “democrática”, implicando uma visão menos preconceituosa e menos intolerante, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes pertencentes a famílias que não se compõem por pai-mãe-filhos. Bons argumentos à primeira vista.

A fim de ampliar a reflexão, proponho examinar brevemente tais premissas envolvidas na criação do Dia da Família, isto é, a maior possibilidade de inclusão e o abrandamento do preconceito. Reflexão que, talvez, nos leve a pensar além de consequências mais superficiais para as famílias, tenham elas a estrutura que tiverem. Refiro-me aos pressupostos de tais iniciativas e suas possíveis ressonâncias no imaginário de crianças, adolescentes e suas famílias.

No caso do argumento de que a extinção da comemoração em separado do Dia das Mães e dos Pais (e criação de um único dia, o da Família) permitiria uma maior inclusão, penso que, na sua origem, estaria a tentativa de minorar o sofrimento daquelas crianças que não têm um ou ambos os pais, ou porque nunca os tiveram como figuras presentes emocionalmente em suas vidas, ou porque os perderam por abandono, separação conjugal conflituosa ou morte. Objetivo louvável num primeiro momento. Mas será mesmo que a diminuição do sofrimento da perda se dá dessa maneira?  Será que eliminar essas comemorações levará ao desfazimento dos conflitos, dos traumas, das dores das perdas?

Parece que por trás dessa substituição de comemorações está embutida a crença de que “longe dos olhos, longe do coração”, algo com o qual nós, psicanalistas, lidamos todos os dias. Construção difícil de desmontar, pois diz respeito à ilusão de que, quanto menos contato se tem com a realidade dolorosa, menor o sofrimento. E a cultura, sobretudo a atual, não tem favorecido muito o enfrentamento da realidade. Ao contrário, cada vez mais proliferam os meios de seu tangenciamento e negação, com a criação de simulacros.

A justificativa de que a criação do Dia da Família, em substituição ao Dia das Mães e Dia dos Pais, seria uma alternativa mais democrática e menos preconceituosa implica a intenção de que, desse modo, possa haver uma maior receptividade das diferenças, sobretudo em se tratando de crianças filhas de casais do mesmo sexo.

Aqui também caberiam algumas ponderações. Qual seria a maneira mais adequada de se lidar com o preconceito e a intolerância? Seria extinguindo ou anulando as diferenças? Ou seria mantê-las e ajudar crianças, adolescentes e suas famílias a compreendê-las e elaborá-las descobrindo novas possibilidades do ser, tão complexo, humano?

Ao não se comemorar mais Dia das Mães e Dia dos Pais, pode-se ter a impressão de que as faltas e as diferenças não serão registradas com sua devida importância e singularidade. Tentar tratar o diferente como se não o fosse, tentar tratar as especificidades das mais diversas configurações familiares como não se não fossem peculiares e distintas pode, ao contrário do pretendido, fortalecer preconceitos que ficam invisíveis e aparentemente inertes, mas que podem tomar voz nos nada triviais comportamentos de bulliyng. As diferenças não desaparecem pela simples troca de comemorações.

Levar em consideração as singularidades é o que pode favorecer a compreensão e aceitação da pluralidade das famílias.

Como nos ensina Bion “o desenvolvimento mental saudável parece depender da verdade como o ser vivo depende da comida”.

Que se comemore o Dia da Família, o Dia das Mães e o Dia dos Pais!

*Eliana Riberti Nazareth é membro efetivo da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, coordenadora do Grupo de Estudos das Relações CorpoMente e docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP. Eliana possui especialização em psicoterapia de família e de casal pelo ILEF – México.

 

Melanie Klein: ontem, hoje e amanhã

Elizabeth Lima da Rocha Barros
Elias M da Rocha Barros

Se viva estivesse, Melanie Klein completaria 135 anos no dia 30 de março de 2017. O que devemos comemorar nesta data? Sua figura histórica? O fato de ter sido a criadora da análise de crianças? Ou o caráter vivo de seu pensamento? Este último ponto, que continua a fertilizar o desenvolvimento da Psicanálise Contemporânea, será o eixo de nossa atenção.

Melanie Klein atualmente ganhou autonomia em relação à sua posição dentro do pensamento psicanalítico, limitada historicamente pelo fato de ter sido considerada chefe de uma Escola, para integrar o mundo das ideias psicanalíticas contemporâneas.

Dessa forma, hoje Klein já se libertou da limitação que o adjetivo “Kleiniana” lhe impunha, que por sinal ela sempre rejeitou, por se ver como uma continuadora de Freud. Foi ela quem apresentou o complemento mais importante à teoria freudiana da mente humana depois da fundação da nossa disciplina. É também a autora que gerou um grande número de controvérsias. Hoje sabemos que estas controvérsias deram ensejo a um período muito fértil de discussões, que se revelaram fundamentais, e continuam a dar frutos no que tange ao desenvolvimento do pensamento psicanalítico atual.

A partir deste ângulo, devemos olhar para o pensamento de Melanie Klein como uma obra aberta, que se reinventa a cada contato com o pensamento contemporâneo e o fecunda. Assim, ela continuará a inspirar novas perspectivas e a semear novos conceitos derivados a partir da compreensão profunda de suas ideias.

Conhecer é terapêutico

Correu pelas redes sociais da internet nos últimos tempos uma mensagem com uma foto de Melanie Klein, acompanhada de um pensamento a ela atribuído. O texto dizia: “Quem come do fruto do conhecimento é expulso de algum paraíso.” Esta postagem é emblemática daquilo que comemoramos.

Melanie Klein - quem come do fruto do conhecimento e sempre expulso de algum paraiso

Curiosamente a postagem alude a uma das contribuições mais importantes de Klein: a de que pensar não serve apenas à função de adquirir conhecimento. Ser capaz de pensar as próprias emoções altera profundamente a maneira de o indivíduo estar no mundo. Klein, portanto, introduz na psicanálise a noção de que “conhecer” por meio da libertação e da ampliação da capacidade de pensar é terapêutico, pois promove a integração das experiências emocionais ao cerne de nosso ser, e assim, gera amadurecimento emocional.

O paraíso do qual o indivíduo que conhece é expulso refere-se à libertação de uma falsa segurança baseada num estado de espírito que prima pela superficialidade e pelo descompromisso afetivo em suas relações humanas, sustentado em idealizações. Deixar de ser superficial por meio do aprimoramento de nossa capacidade de reflexão, ser profundo e responsável em nossas relações interpessoais, torna-se fator de saúde mental na concepção da Psicanálise que hoje praticamos. E esta premissa deriva diretamente da obra de Klein.

O desenvolvimento humano, na concepção de nossa autora, não é linear. Ele é dialético e mais próximo de um processo em espiral. Visto que a saúde mental está sempre ameaçada em sua estabilidade, ela deve ser permanentemente reconquistada. A saúde ou o equilíbrio mental não são consequências naturais de um desenvolvimento bem sucedido e, de certa maneira, pré-programado.

Na obra de Klein, o processo de aquisição de conhecimento tornou-se um conceito com estatuto metapsicológico. Esta ideia foi e é nova e, pouco a pouco, se incorporou à maior parte das teorias da psicanálise contemporânea.

A “pulsão para conhecer”

Klein desenvolve sua vocação psicanalítica impelida pelo desejo de compreender os mecanismos da inibição que impedem uma criança de desenvolver plenamente suas capacidades emocionais e cognitivas. Descobre progressivamente que essa criança é vítima de uma tirania imposta por suas fantasias inconscientes destrutivas que a impedem de exercer sua curiosidade sobre o mundo das coisas e das pessoas, inclusive sobre si mesma.

O medo é a base da tirania e gera uma realidade psíquica coercitiva baseada na lei do talião e na violência da pulsão de morte. Só a libertação de nossa capacidade de amar, baseada na compreensão da lógica que subjaz às nossas fantasias inconscientes, pode nos liberar e permitir o pleno florescer de nossas capacidades afetivas e intelectuais. Temos neste começo de suas indagações as raízes de sua concepção daquilo que chamou “instinto epistemofílico” e, depois, “pulsão para conhecer”. Esta ideia deu origem posteriormente à teoria dos elos K e -K na obra de Bion.

Pascal dizia que os instintos são as razões do coração sobre as quais a razão nada sabe. Klein procura decifrar essas razões do coração por meio da compreensão do sentido e significado daquilo que ela caracteriza como fantasias inconscientes. Essas são derivadas e ao mesmo tempo são organizadoras das experiências emocionais, constituindo-se em núcleos geradores de significado. As fantasias inconscientes, ao se constituírem núcleos geradores de significados para a vida psíquica, acabam por moldar e, às vezes, deformar as demais experiências emocionais a elas associadas.  Fantasia inconsciente é, antes de tudo, um modo ativo de pensar inconsciente que adquire certa estabilidade, gerando significados que vão se agrupar em torno de um núcleo atribuidor de significados. Este opera como um organizador da vida psíquica e, assim, cria elos com outras experiências emocionais.

Fantasias inconscientes traumáticas dão forma a uma situação vivida que, num primeiro momento, foi incompreensível ou intolerável.

Em Klein, as emoções passam a ser consideradas, na estrutura psíquica, como algo comparável ao tecido conectivo e operam como elos entre os diversos níveis das instâncias psíquicas e as vivências correspondentes. É Bion, mais uma vez, um dos mais criativos continuadores do pensamento kleiniano, que desenvolverá este aspecto com grande riqueza ao estudar os ataques a estes elos. E hoje sabemos como estes ataques afetam a capacidade de simbolização dos indivíduos.

Para Melanie Klein e seus seguidores, as pessoas não sofrem apenas devido a carências, traumas ou repressões. Elas sofrem também de falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. Nesta perspectiva, não basta que a psicanálise seja efetiva no levantamento de repressões que impedem certos pensamentos ou sentimentos de virem à luz ou propicie um ambiente facilitador, visando reparar situações de carências passadas.

É dentro da perspectiva oferecida pelas contribuições acima descritas que Melanie Klein merece ser lembrada e comemorada.

 

Elias Mallet da Rocha Barros é analista didata da SBPSP, recipiente do prêmio Sigournei, Fellow da Sociedade Britânica de Psicanálise e de seu Instituto, Chair Latino Americano da Força Tarefa para a produção do Dicionário Enciclopédico de Psicanálise a ser publicado pela IPA

Elizabeth L da Rocha Barros é analista didata da SBPSP, Fellow da Sociedade Britânica de Psicanálise e de seu Instituto, DEA em Psicopatologia pela Sorbonne.

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.