criança

(Poder) chorar as dores do mundo

*Eduardo de São Thiago Martins

 

Estupefato com o retrocesso civilizatório que estamos vivendo, mesmo conhecendo o vai-e-vem do pêndulo da História, me peguei imaginando como diria a uma criança de quatro anos (e meio!) – inteligente, corajosa, curiosa e sensível –  o porquê que ela, que será o futuro, ainda não pode agir sobre ele.

Diria assim:

“Sabe, sentir ódio é humano.
Mas pensar sobre o ódio que se sente, sem disseminá-lo, sem partir para a ação violenta, é mais que humano – é o trabalho da civilização.”

Foi assim que saímos da Idade Média, a Era das Trevas. Foi assim que algumas pessoas sobreviveram a guerras terríveis, ao fascismo, ao holocausto, aos ataques atômicos, aos exílios, censuras, torturas e assassinatos das ditaduras militares – sim, tudo isso aconteceu, de verdade. E é por isso, por conseguirmos ir aprendendo a conter as violências e os discursos de ódio, dia após dia, que muitos de nós tivemos o privilégio de não ter de enfrentar nenhum destes terrores.

Tudo aquilo que nós não conhecemos e não dominamos – dentro e fora da gente – dá medo. As doenças, as pobrezas, as violências, os desejos proibidos, e também as pessoas, todos aqueles que são diferentes de nós – seja pelo tom da pele, pelo jeito de amar, pelos hábitos, pelo jeito de pensar, pelo formato do corpo – aqueles que não conseguimos entender; tudo isso pode dar muito medo.

Fobia!

Quando somos crianças e sentimos medo, rapidamente, buscamos a proteção que está mais perto; a proteção de um adulto, que julgamos ser seguro, forte e confiável.

Mas quando nos tornamos adultos, percebemos que esse adulto-herói em quem acreditávamos, era só uma ilusão. Porque agora os adultos somos nós e continuamos sentindo muito medo e insegurança, por nós e por todos que amamos.

Então, se é assim, qual é a diferença entre adultos e crianças?

A diferença é que a criança se assusta e logo chora; sente raiva e logo bate; quando quer alguma coisa, pega logo sem pedir, tanto faz se é dos outros; e quando a criança não quer alguma coisa, quando se incomoda com alguma coisa, ela joga fora, quebra, destrói, pisa em cima. E neste momento, a criança fica com medo até dela mesma, medo do que é capaz de fazer contra os outros.

Por isso, a criança só confia no adulto porque supõe que ele não vai fazer igual. Supõe que ele pode se conter, vai parar para pensar, vai tentar entender e explicar o que está se passando.

Frente ao ódio e ao medo, essa é a diferença entre eles. Fora isso, o adulto continua sentindo tudo o que sentia quando era criança, e quando age com violência e intolerância, quando pega em armas, está sendo apenas uma criança grande.

É por estes motivos que criança não pode votar… E nem se candidatar ao governo. Porque ela ainda acredita na ilusão do superadulto. Ela ainda não consegue pensar sozinha em tudo o que sente, ainda não é capaz de buscar soluções mais elaboradas para os problemas do mundo; aliás, a criança ainda não pensa muito no mundo, pensa mais nela mesma, porque ainda precisa que seja assim.

O poder, nas mãos de quem ainda não pode, é sempre perigoso demais.

Explode.

Democracia, então, é um complicado projeto dos adultos.

Direitos Humanos são frutos de muito trabalho e pensamento, daqueles que, além da própria dor, um dia se viram chorando diferente porque choravam as dores do mundo.

E liberdade é diferente de fazer tudo o que queremos ou exterminar tudo o que não queremos; liberdade é poder sentir, tolerar, pensar bem e, finalmente, – e isso é muito importante – escolher as melhores ações. Poder se posicionar.

Tornar-se civil é aprender a considerar a necessidade do outro, é enxergar e cuidar dos diferentes mundos que cabem num só, por mais estranhos que possam parecer, por mais medo e ódio que possam gerar.

Democracia e Direitos Humanos, sim.

Violência e discriminação, não!

Não mais.

Eduardo de São Thiago Martins é psicanalista e psiquiatra, atual presidente da Associação dos Membros Filiados ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e colaborador do núcleo de psicanálise do serviço de psicoterapia do IPq-HC FMUSP.

Brincar para se tratar

*Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Estava na casa de uns amigos que têm um filhinho de um ano. Lá pelas tantas, quando ele ficou com sono, se deitou de bruços sobre uma mesa de centro revestida de azulejos e ficou se contorcendo de barriga para baixo, como uma minhoca, até adormecer. Os pais disseram que faz uns meses que ele criou este ritual e não dorme sem ele. Achei estranho, pois em geral as crianças escolhem lugares macios e quentinhos para adormecer. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Ele criou um ritual, mas também podemos dizer que criou uma brincadeira. Me lembrei daquela famosa que foi inventada pelo neto de Freud. A brincadeira era a seguinte: ele atirava um carretel para debaixo da cama exclamando “miu”! E depois puxava a linha e o recolhia exclamando “tou”! Freud entendeu que ele estava brincando de sumiu-voltou.

É verdade. Ele fazia isso quando a mãe saía de casa. Começou atirando o carretel, talvez para se livrar do pavor de ficar sozinho, mas depois acabou virando uma brincadeira.

É simplesmente genial. Em vez de sofrer passivamente o sumiço inesperado da mãe, produz seu desaparecimento ativamente. A graça da brincadeira é que, ao atirar o carretel, ele já sabe que este vai voltar. O pavor vai cedendo lugar ao prazer. A repetição acaba “domesticando” o trauma. A criança brinca para se tratar.

Entendo. Ela vai se dando conta de que há uma diferença entre o horror do abandono definitivo e uma simples ausência.

O repertório conceitual e emocional se amplia. Quando estão psiquicamente saudáveis, as crianças inventam continuamente novas brincadeiras para se tratar daquilo que as assombra. O filho dos seus amigos brinca de minhocar numa mesa gelada até dormir. De que “trauma” será que ele está se tratando?

Tenho um palpite. Mas antes, eu queria perguntar o seguinte: como alguém cria uma brincadeira para poder se tratar?

Excelente questão. Obviamente, para o neto do Freud, o carretel representa a mãe. Isto quer dizer que ele transferiualguma característica da mãe para o carretel. E ele escolheu o carretel para fazer esta transferência porque, para ele, ambos têm algo em comum.

Como assim? O que o carretel e a mãe têm em comum?

A mãe some e volta. O carretel também. Graças a esse traço em comum, a criança pode transferir o sumiço/retorno da mãe para o carretel. O carretel se torna um objeto investido transferencialmente como um equivalente da mãe. Nesse contexto afetivo, o carretel interpreta para a criança o que ela está vivendo.

Ah, agora é demais. Um carretel interpreta?

Claro! É por isso que brincar é terapêutico. Ao ser atirado para baixo da cama, o carretel “conta” para o menino que ele está às voltas com o problema do sumiço da mãe. Dessa forma, ele tem a oportunidade de perceber do lado de “fora”, de forma concreta, aquilo que o inquieta e assombra “dentro”. Num primeiro momento, antes dessa concretização, é uma inquietação vaga, sem cara, sem forma, e por isso mesmo, aterrorizante.

Hum. Então, ao ser resgatado, ao reaparecer, o carretel “conta” para o garotinho que, assim como ele voltou, a mãe vai voltar?

Isso. E agora vem o mais importante: é a criatividade psíquica da criança que lhe permite equiparar o carretel à mãe por meio do traço em comum. A criança faz uma associação livre, que é sinal de saúde mental.

Quer dizer que as características reais do carretel são importantes para que ele possa transferir o que precisa ser elaborado?

São. Um ursinho de pelúcia “aceita a transferência” dos aspectos acolhedores da mãe porque é macio e quentinhoJá o lobo mau “aceita a transferência” dos aspectos aterrorizantes da mãe.

Você está usando o conceito de transferência de um jeito diferente daquele que eu aprendi, que é a relação com o analista.

Sim, a transferência para o analista é um caso particular disto que estou descrevendo. Ele se dispõe a aceitar todos os tipos de transferência para que o paciente consiga reconhecer “fora” o que o assombra “dentro”. Mas voltando à situação que você descreveu: o bebê que precisa minhocar sobre a mesa gelada para adormecer.

Eu te disse que tinha um palpite sobre qual poderia ser o “trauma” do qual ele estava se tratando. Ele nasceu com um pequeno cisto na coluna. Com horas de vida fez uma ressonância magnética. E depois outras, até que os médicos decidiram operar. Depois da cirurgia fez novos exames para acompanhar a evolução.

Sempre com a barriga para baixo! Claro, seu palpite tem tudo a ver! Os bebês saem do útero esperando encontrar alguma continuidade do ambiente que conhecem. Mas este encontrou algo duro, liso e frio. Essa experiência sofrida e impossível de ser digerida certamente ficou gravada em sua memória corporal.

Pelo que entendi da sua explicação sobre o jogo do carretel, essas sensações desconhecidas foram traumáticas. Quando ele se deita sobre a mesa de azulejos gelados ele está sendo ativo lá onde antes foi passivo. Está recriando essa situação horrível para conseguir reconhecer “fora” o que ficou inscrito “dentro”, e assim ir se apropriando do que viveu.

“Ir se apropriando” é a expressão exata. A mesa de azulejos “atrai” o traumático porque tem traços em comum com a de ressonância magnética. O frio, duro e liso do passado é transferido para o presente. E por isso mesmo se presta a ajudar a elaborar o que ficou encruado no inconsciente. A mesa de azulejos “interpreta” para ele seu sofrimento inconsciente.

Posso até imaginar o diálogo entre o bebê e a mesa.

Ele: “Esta superfície gelada me dá medo e não sei bem por que. Sinto que é algo de estranhamente familiar.

Ela: Sim, você já viveu isto antes. Na época foi muito sofrido e você não tinha como entender que diabo era aquilo.

Ele: Reconheço vagamente esta sensação. Mas não tenho palavras para descrevê-la.

Ela: Então preste atenção em mim que eu vou te contar: eu sou dura, lisa e fria. Acho que são estas as palavras que você está procurando.

Ele: Ah, então é isso que me assombra desde sempre!

Adorei! Um diálogo dentro do nosso diálogo!

Fiquei com uma dúvida. Você disse que nem todas as crianças conseguem usar este recurso para se tratar.

Exatamente. Um ambiente emocional turbulento prejudica a instalação do chip da capacidade de brincar. E isso desde as primeiras horas de vida.

O quê tornaria esse ambiente emocional difícil para o bebê?

Em duas palavras: o inconsciente dos pais sempre dá trabalho para os filhos. Normal. Mas quando ele transborda demais e há uma “inundação”, a criança tem que gastar muita energia para dar algum destino a esse “material radioativo”. E aí sobra pouca energia para brincar. Podemos até falar mais sobre isso numa próxima conversa.

Com certeza! Muito louco tudo isso!

 

Texto originalmente publicado no blog Loucuras Cotidianas.

 

Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

Internet: pais e filhos confusos entre verdades e mentiras

David Leo Levisky

O Homo Sapiens está vivendo um período complexo na História das Civilizações com mudanças tecnológicas e de valores muito rápidas entre guerras de informação e de contrainformação. Verdades e mentiras confundem-se entre ilusões e fatos produzidos pelos mundos real, subjetivo e virtual. As mídias sociais produzem notícias que adquirem caráter de verdade enquanto verdades são destruídas por grupos interessados em alterar a história, nutrientes da imaginação humana rica em fantasias.

O virtual ao ser tomado como real no imaginário humano pode substituir o factual, afetar e desvirtuar a capacidade crítico-analítica e interferir nos processos de percepção e de elaboração mental. Algumas pessoas investem o imaginário com tal intensidade, transformando-o em uma crença à qual se submetem compulsivamente. É o vício. Condição equivalente às demais formas de adição que podem levar à morte ou ao desespero como foi noticiado à respeito do game “a baleia azul”.

Em nossos consultórios, torna-se cada vez mais frequente a queixa de pais desesperados, pois não conseguem fazer seus filhos, crianças e adolescentes, abrirem mão da excitação causada pela luminosidade da telinha e seus atrativos. A evolução tecnológica, a globalização, uma sociedade liberal, democrática e fluida com o fim das utopias (Bauman, 2001) trouxeram uma nova possibilidade de dependência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, recentemente, que o uso abusivo, inadequado, da TV, videogames e computadores pode levar a um quadro patológico de compulsão. Este distúrbio mental será incluído na 11a. edição do Código Internacional de Doenças (CID) a sair ainda este ano (Saúde, 2018).

Equivalente ao workaholic e outras dependências, o uso abusivo da telinha passa a compor o quadro das “paixões tóxicas” descritas por Freud antes do livro dos sonhos (1900). A partir da dipsomania, ele chegou à paixão pelos jogos e formulou a ideia de uma base aditiva da sexualidade humana. A masturbação era o seu protótipo até chegar à teoria do narcisismo autoerótico, base das paixões tóxicas e das sexualidades aditivas. A toxicomania seria uma forma de defesa contra a depressão e a melancholia (Silva Bento, 2007).

As mídias sociais vêm adquirindo um papel ambíguo de formadoras e de deformadoras da opinião pública por suas mensagens e pela forma de uso que delas se fazem. Elas interferem na estruturação e funcionalidade do sistema nervoso central, em sua relação neuroquímica e psicológica, no aparelho de pensar e na mentalidade social individual e coletiva (Carr, 2011).

A telinha, entre os fanáticos, pode tornar-se uma espécie de devoção religiosa.  Com o mundo em suas mãos, luminosidade, movimentos e aplicativos projetam games e programas que promovem excitação, prazer, gozo e dependência tóxica, pois alteram a homeostasia psíquica, geram estados mentais primitivos que, se cristalizados como defesas irreversíveis, tornam-se traços de carácter, com alto custo para a saúde física e mental dos envolvidos e da sociedade. Estados nos quais emergem fantasias de poder, dominação, destruição, morte, hedonismo que interferem no equilíbrio do ego e das funções narcísicas. A excitação continuada tende a gerar um estado circular de mais excitação e de liberação de substâncias psicoativas até chegar à exaustão de múltiplos sistemas. Seu uso excessivo depende da personalidade, das relações familiares, das pressões do mercado entre outros elementos da cultura.

O seu uso inescrupuloso tende a mecanizar o público. Seduz, impõe, ilude, persuade, condiciona, influi no poder de decisão e no poder de compra do consumidor. Pode conduzir as fantasias e doutrinar o imaginário. Faz com que a pessoa perca a noção e a seletividade de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente, se usada de modo contínuo e descontrolado, pode trazer graves consequências à formação do sujeito, ainda mais uma criança ou adolescente em processo de desenvolvimento. Afeta a capacidade de escolha; o espaço interno torna-se controlado pelos estímulos externos e não pelas manifestações autênticas e espontâneas da pessoa. A compulsão ao uso da telinha pode ter origem em falhas ocorridas no desenvolvimento do objeto transicional, no conjunto das atividades simbólicas e na relação self/objeto primitivo, durante o processo de formação da pele psíquica. Esta, em vez de produzir continência, leva à aderência a objetos idealizados na ilusão de encontrar continência, prazer, coragem e energia frente a um mundo fragmentado (Olievenstein, 1982).

Como psicanalistas, temos vivências clínicas e construímos teorias que, juntamente com as neurociências, nos ajudam a compreender a estruturação, a dinâmica e a economia do aparelho psíquico bem como as características das relações vinculares intrafamiliares e suas relações com os contextos socioculturais. Daí nossa responsabilidade em participar e colaborar no encontro de novos equilíbrios psíquicos, individuais, familiares e sociais.

Defendo a ideia de que tudo que se torna público e repetitivo tem grande probabilidade de se transformar em valor da cultura ao ampliar a massa de consumo, principalmente, entre adolescentes. Estes são mais vulneráveis pela maior fragilidade do ego inerente ao desenvolvimento. Motivados pela busca de experimentos, desafios, desejos de transgressão, revoltas, contestações, influenciados por grupos sociais, não se preocupam com os desdobramentos físicos e mentais. Não pensam ou não querem pensar no futuro. Prazeres imediatos, fantasias onipotentes, negação da realidade, do tempo, formas de transgressão aos pais prevalecem enquanto se escondem de fantasias de rejeição a si mesmos ou de aspectos de sua identidade ou no preenchimento de vazios internos. O gozo presente e eternizado na aparente ausência de medo prevalece com a consequente negação dos limites e da morte, da percepção do irreversível e do pouco valor que se pode dar à vida. Sentimentos de dissabor, de tristeza, de insatisfação para com a própria vida são comuns em meio a vivências de uma relação familiar conturbada. É frequente a presença de um superego punitivo carregado de elementos narcísicos nele projetados. Conluios intrafamiliares inconscientes podem estar presentes no uso indiscriminado das telinhas, não raro em meio a explicações racionais de uso apenas social, para se divertir, falar com amigos ou estudar. Dentro de uma cultura binária e eletrônica do sim e do não, do “enter” e do “delete”, processo sem maiores elaborações e criatividade, o “del” pode ser uma forma de se livrar da situação incômoda para não cair na depressão reflexiva, trabalhosa e que requer energia para se recuperar e dar a volta por cima ao lidar com frustrações.

Soifer (1975) alertou-nos para os riscos do uso inadequado da TV sobre o desenvolvimento das crianças. Levisky (1999) publicou: “The Media: Interference with the Psyche”, usadas pelos pais até como babás eletrônicas ou chupetas. Hoje, a comunidade internacional adquire consciência da necessidade de se tomar providências para atenuar as consequências do uso inadequado dos eletrônicos. Mas, ainda há muito por se fazer.

Bibliografia

BAUMAN, Z., Modernidade líquida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

CARR, N., O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A Geração Superficial, Rio de Janeiro, Agir, 2011.

LEVISKY, D.L., Reflexões psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

LEVISKY,D.L., “The Media: Interference with the Psyche”, Inter. J. Medicine and Health, vol. 11,1999, Freund Publishing House, England, pp. 327-333.

LOURENÇO MARTINS, A.G., 2007, “História Internacional da droga”, publicado em 17 de Dezembro de 2007 21:55, por encod . modificado em 18 de Dezembro de 2007 11:03

OLIEVENSTEIN, C., “A infância do toxicômano” In Olievenstein, C., La vie du toxicomane, Paris, PUF, 1982.

Saúde – iG @ http://saude.ig.com.br/2018-01-03/games-vicio-disturbio-mental.html

SILBA BENTO, V.E., “Para uma semiologia psicanalítica das toxicomanias: adicções e paixões tóxicas no Freud pré-psicanalítico” Revista  Mal-estar e  Subjetividade  – Fortaleza  – Vol . VII – Nº 1 – mar /2007 – p . 89-121.

SOIFER, R.:”A Criança e a TV – uma Visão Psicoanalítica”. Porto Alegre. ArtesMédicas. 1975.

 

David Leo Levisky  é psiquiatra, didata da SBPSP e PhD em História Social pela USP. É autor dos livros: “Adolescência- reflexões psicanálíticas”; “Adolescência e violência  – I, II e III”; “Um monge no diva”; “Entre elos perdidos; A vida? … é logo ali”.

Meu primeiro relógio… meu primeiro celular

* Regina Elisabeth Lordello Coimbra

Nos muitos anos de trabalho psicanalítico com crianças e adolescentes observei um momento bem especial, verdadeiro marco, linha divisória e ritual de passagem para a conquista de novo patamar de desenvolvimento emocional: a hora de ganhar o primeiro relógio.

Era um grande acontecimento, geralmente recebido em festas comemorativas, fazendo parte de um ritual, como presente recebido de uma pessoa com muita importância afetiva dentro da família.

Vi latentes olhares para o primeiro relógio como se estivessem diante de um troféu que os permitiriam ter acesso à passagem do tempo – uma grande conquista!

A partir de então, a percepção do tempo seria compartilhada, favorecendo maior inserção na realidade e consequente diminuição do pensamento mágico.

À semelhança do completar o álbum de figurinhas, o tempo chegava e  propunha novo paradigma, a tolerância pela espera de um suceder de etapas necessárias para o desenvolvimento emocional.

E agora, em tempos atuais, o grande momento é a conquista do primeiro celular. “Qual a melhor idade?”, perguntam os pais. Quem sabe?

Perdeu-se o significado do grande momento, banalizou-se o ritual de passagem como grande conquista do desenvolvimento, qualquer hora é hora!

Como psicanalista aprendi: o desenvolvimento não pula etapas! E agora, estamos todos surpresos, pais e psicanalistas!

Diante da desenvoltura de seus pequenos filhos com as telinhas, os pais não entendem o que se passa com eles e entre eles. Com certeza nem os filhos!

Alguns pais buscam saídas, tentam resgatar o valor do tempo como o senhor das nossas vidas:

  • “Uma hora de celular por dia e livre no final de semana!”.
  • “Na hora em que o boletim chegar, se as notas não forem todas azuis, ficará sem celular!”
  • “Se não tomar banho na hora em que eu mandei, ficará sem celular por uma semana”.

Estamos submetidos ao novo senhor dos tempos: o celular!

 

*Regina Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo, docente e psicanalista de Criança e Adolescente da SBPSP |bethcoimbra07@gmail.com

Erotização precoce, infância roubada

Karin Szapiro     

– Vovó, eu tenho um namorado. Ele se chama João.

Gabriela de 6 anos se aproxima do ouvido da avó e, com a mãozinha na frente, conta baixinho a novidade. A avó acha graça e abre um largo sorriso para a netinha.

Há algo de errado nisso? Não, não há. Para o entendimento da pequena Gabriela, “namorar” é simplesmente brincar e se divertir com o amigo predileto. Como nos contos de fada ou nas histórias infantis, João é o príncipe encantado e ela, a princesa. Suas referências dizem respeito ao universo infantil e nem de longe têm a conotação dos adultos. A malícia, muitas vezes, está nos olhos de quem vê.

Gabriela e João passam a tarde juntos e brincam sem parar. As brincadeiras são inúmeras e transcorrem livremente. Crianças saudáveis são assim: gostam de imitar os adultos, têm amigos imaginários e revestem-se de vários personagens. Brincam de faz de conta, fazem-se de bichos, de super-heróis, príncipe e princesa, mamãe e papai. Quando uma menina pequena brinca com sua boneca, ela imita a mãe com seu bebê. Quando ela experimenta os seus saltos altos e o seu batom, ela simplesmente brinca de ser a figura que lhe é tão admirada. Com a sua imaginação, a criança se transporta para o mundo adulto e depois retorna ao seu estado original, o da curiosidade.

Por que as crianças brincam? Brincam porque gostam e sentem prazer em todo tipo de brincadeira física e emocional. Com o brincar, elas aprendem a lidar com suas angústias, ansiedades e medos. Elas elaboram de maneira lúdica questões subjetivas que lhes surgem ao longo da vida e tornam-se capazes de descobrir a si mesmas e aprender a viver criativamente.

O ser humano é um ser criativo, em um sentido próprio em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que habita. O brincar é, ao mesmo tempo, o elo entre o indivíduo e a realidade interior, e o indivíduo e a realidade exterior compartilhada. A brincadeira é própria da saúde, ajuda o crescimento e facilita a comunicação consigo mesmo e com o grupo.

À medida que crescem, as crianças preparam-se para desafios cada vez maiores e lidam com a sexualidade que surge. Quando tudo corre bem, os conhecimentos sobre si e sobre seu corpo se ampliam aos poucos, dentro de um tempo próprio. Seja sozinha ou em grupo, crianças precisam se sentir livres para brincar tranquilamente, sob a supervisão dos adultos.

Diferente de Gabriela, desde cedo Roberta vivia uma outra realidade. Enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica numa região nobre da cidade, ela era cuidada por seus irmãos mais velhos, filhos de outro pai, em um bairro mais carente. Desde pequena, ela acompanhava os irmãos no baile funk da vizinhança aos finais de semana e seu pai, quando a buscava para passear, a levava a um bar onde bebia noite adentro, acompanhado por todo tipo de gente.

O excesso do mundo adulto erotizado atravessou Roberta desde cedo. A menina “novinha” perdia a inocência da infância enquanto seus pais se distraíam. Roberta foi exposta a cenas, imagens, músicas, histórias e acontecimentos de cunho sexual e erótico inapropriados. A erotização vivida tão precocemente feriu-lhe a alma e a deixou em carne viva e a excitação experimentada foi demasiada. Hoje, aos 12 anos, a menina esconde que está grávida. Uma maternidade que chega fora de hora e compromete sua vida e a chance de um bom futuro.

Apesar de morarem na mesma cidade, as duas vivem em mundos diferentes. Gabriela tem sua infância protegida e cuidada enquanto Roberta vive uma vida solta e exposta a um excesso de estímulos inadequados para a tão pouca idade. O certo é que nenhuma criança está pronta para estas experiências precoces. Roberta viu-se compelida a queimar etapas do seu processo de desenvolvimento. Com a infância roubada, acaba por repetir o destino de sua mãe e engravida prematuramente. Nem mesmo seu corpo está pronto para lidar com esse turbilhão de acontecimentos.

Para Freud, trauma é o acontecimento na vida de uma pessoa que se define por sua intensidade e por sua incapacidade de reagir de forma adequada. É um transtorno, um atropelamento, um “excesso” de efeitos prejudiciais duradouros na organização psíquica do sujeito. Sendo assim, a erotização precoce é um fenômeno de natureza traumática, gerado por situações de acionamento dos impulsos sexuais de maneira inapropriada. Conduz a criança a entrar no mundo sexual adulto muito precocemente, atropelando fases do amadurecimento e desenvolvimento e prejudicando o processo de aprendizagem afetiva dos pequenos.

A sexualidade, entendida como elemento presente em todos os estágios de desenvolvimento da vida do indivíduo, acaba sendo desviada prematuramente para o erótico, o excitante, o sensual, quando na realidade deveria ser canalizada para a construção das emoções, das relações sociais, da experimentação de papéis e do desenvolvimento da afetividade.

A erotização precoce de uma criança rouba a sua infância. Cabe aos pais ou os adultos responsáveis protegerem os seus pequenos.

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

 

 

Amamentação: você tem fome de quê?

Elisabeth Antonelli

Alimento e amor. Disso dependemos para nosso desenvolvimento físico e emocional. “O estômago é, pois, como uma miniatura interna de boa mãe” (Winnicott, 1979, p39). Agosto ficou conhecido como “Agosto Dourado”, simbolizando a luta pelo incentivo à amamentação. O dourado está relacionado ao padrão ouro de qualidade do leite materno. É uma cor toda especial, associada no mundo inteiro ao laço simbólico. São trinta e um dias em que são celebrados a promoção, a proteção e o apoio ao aleitamento, chamando nossa atenção para refletir acerca de um ciclo universal que acompanha gerações.

Quando falamos em amamentação, falamos dos primórdios da constituição do sujeito, momento privilegiado, quando ainda não existe uma separação entre o bebê e a sua mãe. Nascemos indiferenciados e imaturos se comparados, por exemplo, a um filhote de cachorro que, em pouco tempo, adquire sua independência a partir dos reflexos prévios. Por sermos dotados de um sistema de linguagem, não existimos sem o outro. Os cuidados nesse começo da vida são decisivos para o nosso desenvolvimento mental.

O cuidado materno é fundamental para o desenvolvimento do psiquismo do lactente. Junto com o leite, o bebê recebe o amor da sua mãe e, neste mesmo ato, o bebê pode participar do desenvolvimento na mãe da capacidade de decifrar os estados penosos vivenciados por ele.

A alimentação do filhote humano depende de todo o aparato psíquico da mãe, que servirá de suporte para o desenvolvimento do aparato psíquico do bebê. Embora o aleitamento no peito seja o mais desejável, as mesmas condições precisarão ser mantidas no aleitamento na mamadeira. É certo que as mesmas dificuldades brotarão.

Ainda na gravidez, a mãe percebe que uma nova realidade se aproxima: para gerar um filho precisará aprender a lidar com a dependência que a maternidade impõe. Não há preparação anterior quando se trata de gerar uma vida. Do mesmo modo que muito se espera de uma futura mãe, são negadas as condições necessárias para que ela possa sustentar tal papel. Nesse momento, o pai, que pode ou não ser seu marido, precisaria ter asas grandes o suficiente para proteger este ninho que vai ser inaugurado.

Somos seres desamparados que temos crias desamparadas que precisam de nós. Esse fato pode fundar uma tragédia ou pode construir a preciosidade do humano. Winnicott (2000. p401) chama de “Preocupação Materna Primária” o estado que a mãe vivencia perto do parto e nas primeiras semanas a partir do nascimento do bebê. Nesta fase de adaptação ao bebê, a mãe entra num estado muito especial, de uma espécie de retraimento ou dissociação, ou fuga, semelhante a um estado esquizoide. O autor descreve tal estado:gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida”.

Os primeiros momentos da vida de um bebê carecem de toda atenção da mãe que precisaria também contar com a atenção redobrada do marido e demais membros da família. A sociedade deveria ser convocada a acolher as parturientes amamentadoras para que esse processo pudesse ocorrer da melhor forma possível. Estamos falando de dificuldades simples e situações normais. Eventualmente, poderá haver outras questões mais complexas trazidas pelo bebê.

Falar em amamentação necessariamente é uma convocação às condições necessárias para que a mãe possa produzir leite, o que é um ato de amor por excelência!

 

 

Elisabeth Antonelli é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

 

 

Referências bibliográficas

https://www.marinha.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno

Winnicott, D.W:  Da Pediatria à Psicanálise. RJ,Imago Ed.,2000

_____________: Tudo Começa em casa, SP. Martins Fontes, 1989

_____________: A criança e o seu mundo, RJ, Zahar, Ed. 1977

A curiosidade na adoção

Gina Khafif Levinzon

A curiosidade é compreendida, segundo o vértice psicanalítico, como uma função de saúde psíquica. Está associada ao impulso natural para o crescimento, mas depende de condições ambientais para que possa manifestar-se na sua plenitude. Klein (1921) associa a curiosidade ao instinto epistemofílico. Bion (1962) denomina Vínculo K a relação que existe entre um sujeito que busca conhecer um objeto e um objeto que busca ser conhecido. Identificamos já no bebê pequeno a exploração contínua de um mundo a descobrir e consideramos que nas crianças de todas as idades é natural haver perguntas sobre os assuntos mais diversos.

Quando falamos em crianças adotivas encontramos esse mesmo movimento no sentido de desbravar o desconhecido, acrescido de indagações sobre a história de sua família de origem genética. À pergunta: “De onde vim?”, somam-se várias outras: “Por que minha mãe não ficou comigo?”; “Fui amado?”; “Sou o causador da separação?”; “Matei minha mãe com meu nascimento?”; “Quem são meus pais?”; ”O que aconteceu?”…  Explorar esse universo da origem expõe a criança a situações de dor, por vezes de mágoa, e de contato com um campo cheio de lacunas incompreensíveis. Por outro lado, essa investigação permite que o adotado construa de forma sólida um sentimento de identidade, baseado na realidade. De modo geral, quando tudo corre bem, a dor é contrabalançada pela estabilidade e harmonia do lar adotivo. Ao explorar sua história e seus sentimentos, a criança fica livre para explorar o mundo.

Uma das dúvidas e angústias mais frequentes dos pais adotivos é quando e como contar à criança que ela é adotada. Há hoje um consenso geral de que a criança precisa saber de sua condição de adoção. Em geral, isso ocorre a partir das próprias indagações da criança sobre sexualidade, por volta dos três ou quatro anos de idade, quando ela quer saber de onde vêm os bebês. Essa pergunta a remete, assim como aos pais, diretamente à questão de sua origem. Costumamos dizer que o melhor para a criança é ter a ideia de que “sempre soube que era adotada”, que não houve o “dia da revelação”.

A experiência clínica mostra que as perguntas do filho sobre adoção são feitas quando há espaço psíquico para essa investigação.  Pais muito angustiados com relação à sua parentalidade podem reprimir, de forma consciente ou inconsciente, a busca de uma história anterior ou de um sentido para a separação da criança ou do adolescente em relação à sua herança biológica. Quando a esterilidade do casal adotivo não está bem elaborada, conversar com a criança sobre sua origem biológica significa assumir sua impossibilidade de gerar filhos. Nestes casos, há uma ferida narcísica difícil de ser superada, acompanhada pelo sentimento de castração da fantasia de continuidade biológica e da imortalidade dos pais (Levinzon, 2004).

Pesquisas realizadas mostram os prejuízos causados na aprendizagem pela dificuldade em lidar com a investigação sobre a adoção. Como estar aberto para aprender se há portas e janelas importantes fechadas no caminho do conhecimento?

Segundo Winnicott (1955), mais do que informações, as crianças precisam de pais confiáveis, que estejam ao seu lado na busca da verdade e que compreendam sua necessidade de viver as emoções apropriadas às situações reais. Elas têm uma capacidade incrível de descobrir os fatos, que são simplesmente aceitos como fatos. O mistério pode gerar um problema muito maior, e permite a criação de fantasias perturbadoras.

O medo de perder o filho inclui muitas vezes a ideia de que, sabendo de sua história, ele irá procurar os genitores. Afinal, quem são os pais verdadeiros? A insegurança dos pais adotivos não se sustenta na realidade. Os pais verdadeiros são aqueles que criam a criança por toda uma vida, que lhe dão seu nome, suas horas de sono, seus valores, seu amor, seus limites e seus cuidados. Em condições normais, o filho não irá questionar sua importância. Sua investigação servirá para que tenha uma noção mais inteira de si mesmo.

No campo da adoção, a curiosidade pode ser perturbadora para todas as partes da família, mas é essencial na constituição de bases verdadeiras. Nosso trabalho, como analistas, é auxiliar todos neste trajeto precioso que é a apropriação de si mesmo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bion, W. – (1962) O aprender com a experiência. In: Os Elementos da Psicanálise. Trad. Jayme Salomão e Paulo Dias Corrêa.  Rio de Janeiro, Zahar ed., 1966. p.11-117.

Klein, M. – (1921) O desenvolvimento de uma criança. In: _______ Contribuições à Psicanálise.   Trad. Miguel Maillet.  São Paulo, Mestre Jou Ed., 1981. p.15-85.

Levinzon, G. K. –  Adoção. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

Winnicott, D. W. – (1955) A adolescência das crianças adotadas. In: In: Sheferd, R. – D.W.Winnicott- Pensando sobre crianças. Trad. Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997, p. 131- 140.

 

 

Gina Khafif Levinzon é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora em Psicologia Clínica pela USP, professora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da CEPSI-UNIP e autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção” e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. E-mail: ginalevinzon@gmail.com

Paternidade e função paterna

Ricardo T Trinca*

Toda criança ao nascer é órfã. Ter um pai e uma mãe são conquistas e aquisições posteriores, mas que podem não ocorrer. É necessário que o bebê se torne filho de alguém, ou seja, que uma mente possa se dedicar à tarefa de recebê-lo no mundo. Mas, se por um lado o bebê é um órfão, por outro ele nasce com preconcepções do encontro com um seio (Bion, 1962/1991) para o qual se dirigirá, e sobre sua recepção, ou melhor, sobre a presença de alguém a partir do qual poderá haver alguma ancoragem e encontro. Mas a preconcepção pode ser frustrada, dependendo das circunstâncias deste momento inicial, criando dificuldades significativas para os próximos passos do bebê.

Os pais recebem esse bebê, um ilustre desconhecido, que vai – aos poucos – se tornando familiar. A familiaridade é um processo complexo associado com a possibilidade tanto do bebê ser sonhado, quanto do estabelecimento de ritmos orgânicos da sua vida, com improvisações e melodias análogas às de uma banda de jazz. A amamentação, a troca de fraldas, o sono e o mimo são estabelecidos em um ritmo peculiar, relacionado tanto com as características inatas daquele bebê, quanto ao modo como ele é sonhado pelos pais. Ser sonhado significa participar da vida mental do outro; em última instância, existir.

Nesse momento inicial da vida, a função materna é a mais importante: ela é a função psíquica relacionada com a recepção da orfandade de um bebê que é pressentido como absolutamente dependente e que necessita de acolhimento, cuidados e continência. Mas, desde esse momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e se tornam complementares. São funções mentais e não estão relacionadas diretamente com um ou outro gênero sexual, que desempenhe uma ou outra função necessariamente. Uma mãe tem função paterna, assim como um pai tem sua função materna e vice versa. Ser pai, portanto, é poder flutuar em um espectro de possibilidades formado entre essas duas funções. Não é mais novidade um homem ser predominantemente materno, ou um casal homoparental desempenhar, cada um, funções distintas ou ambas as funções. Também uma avó ou um avô pode desempenhar relativamente bem a função paterna ou a função materna. Culturalmente elas tendem a ser associadas ao pai e à mãe.

A função paterna nesse início da vida do bebê relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente. O bebê, neste momento, é o reflexo do desejo dos seus pais, desejo desconhecido, mas que aparentemente se tornou encarnado e vivo; é um ser-para-si (ser para a mãe), carecendo ainda de um mundo pessoal. Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebê, e o reflexo deste investimento libidinal e imaginário. Bebês lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda. O bebê e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe alguma coisa como um bebê independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.

Mas, ao longo do crescimento do bebê, a função paterna passa a ser não mais periférica, assumindo um posto de maior centralidade na vida da mãe (ou daquele que representa a função materna) e, também, da criança. O cuidador do bebê precisa se haver com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebê passa a adquirir paulatinamente maior autonomia. Mas ainda não é, de fato, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida diretamente para o bebê. Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que são feitos naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso. Portanto, a função paterna tem como objetivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.

O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança (Winnicott, 1993/1999), mas é preciso levar em conta que um “sim” da relação desta criança com o mundo já foi, portanto, formado na mente desses pais. O “não” verdadeiro denota a formulação de um “sim” anterior. Esse “sim” é o desejo de que essa criança possa ter um mundo. O “não” passa a ser expressão do desejo de que a criança constitua um mundo, que vá além da relação com a função materna; um mundo relativamente seguro. Essa separação para com a “mãe” ou ampliação do universo da criança pequena é realizado pela função paterna, um verdadeiro ser-para-o-mundo. A função paterna é a função que separa mãe e bebê para poder dar as bases da simbolização, pelo início das relações triangulares, ou a base do pensamento simbólico. A função paterna, desse modo, separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico e da castração. A função paterna, portanto, separa para incluir. E a função paterna melhor consegue fazer isso, quanto mais valorizada é a cultura e a alteridade na mente da mãe; ou o quanto a função paterna está interligada à função materna na sua vida mental.

A presença da função paterna e materna se mantém ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho. Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança, quando elas puderam ser incorporadas como parte da sua personalidade. Quando isso acontece, o filho pode prescindir dos seus pais.

A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho. Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes. Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna. Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações; decididamente a função paterna é uma função associada com o mundo da cultura.

Um filho é tanto algo profundamente pessoal quanto um ser que se transforma em algo da cultura e do mundo. É um modo de presentear a cultura com nosso amor, deixando o filho ser no mundo aquilo que ele está, por alguma razão, destinado a ser além de nós.

 

Referências

Bion, W. R. (1991). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho Original publicado em 1962).

Winnicott, D. W. (1999) Dizer “não”. In D. W. Winnicott, conversando com os pais (2 ed) São Paulo (SP): Martins Fontes (Trabalho Original publicado em 1993).

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

 

O poder enlouquece?

Por Marion Minerbo*

Aqui vai uma pequena ficção sobre a origem do pacto social. Assim que começamos a entender alguma coisa da vida, lá pelos 3 ou 4 anos, assinamos um contrato com aqueles que cuidam de nós: nos comprometemos a renunciar à satisfação absoluta de nossos impulsos sexuais e agressivos; em troca desse sacrifício, as instituições (a começar pela família) garantem o amparo físico e emocional necessário à nossa sobrevivência.

Assinamos não tanto por achar que a relação custo-benefício compensa, mas porque não temos escolha: é isso ou ficar no limbo social. Quem está no limbo não existe para os outros seres humanos. Especialmente para as pessoas que são significativas para nós. Esse é nosso maior pavor.

Chamamos de louco aquele que dá vazão a seus impulsos sem medo do limbo. E se ele não tem medo do limbo é porque, para ele, o contrato social deixou de valer. Ele está fora do jogo. Isso acontece em duas situações.

A primeira é quando o horror de não existir para a comunidade humana já se realizou. Falo dos miseráveis. As instituições, ou seja, nós, não fizemos a nossa parte no trato; abandonamos a pessoa à própria sorte. Nessas condições, ela pode sentir que já não tem nada a perder. E dar vazão aos impulsos sexuais e agressivos sem medo das consequências. São os que enlouqueceram de dor.

Mas há outra situação em que o pacto social deixou de valer. É quando alguém foi excluído do mundo humano por excesso de poder. Assim como o miserável, que está num limbo situado “abaixo” do pacto social, o poderoso também está num limbo, porém “acima” dele, numa espécie de Olimpo. Ele está numa condição que tem mais a ver com a dos deuses do que com a de seus pares – que, querendo ou não, pautam sua vida pelo contrato.

Não nos enganemos: estar no Olimpo é estar fora do jogo humano. É como jogar pôquer com alguém que dispõe de um cacife infinito. A possibilidade de perder, que é a base do jogo, não existe para ele. E como não está no mesmo plano, mesmo que se sente à mesa, seu jogo não conta para nós. Está excluído.

Da mesma forma que a exclusão do miserável, a do poderoso também pode enlouquecê-lo. Se o miserável nada tem a perder porque já perdeu tudo, o poderoso não tem nada a perder porque supõe que nada vai lhe acontecer. Mas se engana. A mitologia nos conta que mesmo os deuses do Olimpo são punidos quando extrapolam.

O que não é tão fácil de perceber é que o poderoso não enlouquece sozinho. A psicanálise mostra que, assim como no caso do miserável, nós contribuímos para que o poderoso enlouqueça. Se ele julga que pode tudo, é porque é levado a sentir que a sociedade jamais o abandonará. E talvez tenha nisso alguma razão. Explico.

Quando estamos diante de alguém que tem poder – qualquer tipo de poder – tendemos a viver esta nova relação com os padrões de uma relação antiga: a da criança com seus pais. É um dos sentidos do conceito de “transferência”. Lembro que a criança depende de forma absoluta dos pais, que para ela são muito poderosos. Quais seriam estes padrões?

Desejamos o amor dos poderosos como desejávamos o amor dos pais: cair nas suas boas graças, ter intimidade, dar e receber favores, gozar de sua proteção.

E também tememos sua ira, que certamente viria caso contrariados. Por exemplo, se tentarmos mostrar a eles, com ações concretas, que a lei vale para todos. Tememos seu ódio e sua vingança como temíamos a nossos pais.

Considerando essa mistura de amor, dependência e medo, quem ousaria levantar a mão contra os próprios pais? E de fato, o poderoso está cercado de pessoas que o veneram como se fosse um deus. Olham para ele com reverência: “você está acima do bem e do mal, as sanções não valem para você”. Prometemos a ele a impunidade. Mas, se ele acreditar nisso, mais cedo ou mais tarde estará perdido.

É assim que, com nossa ajuda, o poderoso pode enlouquecer, isto é, desqualificar o pacto social que funda nossas instituições. Para que isso não aconteça temos de lhe sinalizar constantemente que seu poder tem limites. A psicanálise chama isso de castração: ninguém pode tudo, o tempo todo, impunemente. Acenar com a castração é uma forma de incluir o poderoso no pacto social. De certa forma, ele nos agradecerá. Ou pelo menos, deveria.

 

*Marion Minerbo es psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016).

Entre a Psicanálise e a Medicina

Suzana Grunspun

Como a Psicanálise e a Medicina podem contribuir para a compreensão e aprofundamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na infância?  Este Transtorno, tão habitual nos tempos atuais, é um diagnóstico formulado por médicos que estabelecem que os acometidos apresentam alterações de atenção e/ou do impulso. Segundo Saul Cypel (p.23-30; 73-74), neurologista infantil, o TDAH   ocorre em consequência de múltiplos fatores que precisam de um esclarecimento para se ter uma opção de tratamento. Sua incidência é muito alta: o transtorno atinge de 8% a 10% das crianças e é mais frequente em meninos. É muito intricado se falar de causas do TDAH. Aspectos genéticos e hereditários são correlacionados às disfunções neurobiológicas. Questões emocionais, ambientais e culturais também estão vinculadas ao TDAH.

 

O psicanalista procura entender o grau de sofrimento de cada paciente individualmente, e investiga o seu funcionamento mental. A falta de atenção compromete a capacidade da criança de manter-se concentrada em uma atividade; a impulsividade e/ou hiperatividade expressa-se por reações impensadas, bruscas e imotivadas. Estes sintomas são correlacionados com a baixa tolerância à frustração e a dificuldade em saber esperar – aspectos importantes para o olhar do psicanalista, pois a criança ainda não desenvolveu a capacidade de se conter.

 

É importante conhecer como o paciente em análise experimenta sua desadaptação ao ambiente escolar ou com seus familiares. Estas crianças, muitas vezes, sentem-se confusas entre o que é seu problema e a sobrecarga proveniente do seu mundo exterior. Dentro desta perspectiva, citamos Winnicott (1962,p.51-54), um pediatra inglês que também era psicanalista. Ele propôs uma teoria para se compreender o desenvolvimento da criança a partir da unidade mãe/bebê, salientando que esta dupla interage com uma dinâmica particular desde o nascimento. No TDAH, a questão do ambiente pode ser estudada a partir deste ponto de vista. Assim, se terá uma visão ampliada dos sintomas – que podem ser exclusivos, associados ou decorrentes das relações precoces que se estabeleceram no começo da vida. Tanto a impulsividade como as dificuldades de atenção e foco poderão se instalar nesta fase, sem necessariamente ter um fator neurobiológico que justifique o TDAH. Os sintomas entendidos pela psicanálise refletem conflitos internos ligados às dificuldades vivenciadas pelos acometido pelo TDAH.

 

Nesses casos, é importante que o analista conheça os correlatos biológicos do transtorno para entender o uso de medicamentos. Existem critérios precisos de indicação para crianças com alteração de comportamento intensa e persistente, mesmo depois da abordagem analítica, da orientação dos pais e do contato com a escola. Não se pode esquecer dos riscos que a criança muito agitada corre com seu comportamento – como as graves questões de ameaça de integridade física. É importante lembrar que cada criança deve ser avaliada individualmente.

 

O efeito da medicação tem como mecanismo de ação favorecer uma concentração de neurotransmissores catecolaminérgicos, seja por aumento de sua liberação local ou redução em sua metabolização.

 

Os sintomas que atualmente aparecem na clínica infantil estão correlacionados com mudanças paradigmáticas do mundo atual. Imersas em um mundo veloz, a exigência é que todas as crianças correspondam às expectativas contemporâneas. Nos vemos diante das seguintes perguntas: quando existe uma dificuldade real para alguma criança? E em que momento esta dificuldade é considerada uma não-correspondência das expectativas socioculturais a serem cumpridas? Nós, psicanalistas, temos que ponderar e refletir para mantermos nosso discernimento.

Bibliografia

Cypel, S. – Déficit de Atenção e Hiperatividade e as Funções. Executivas. São Paulo; Lemos Editorial ,2007.

Winnicott W D (1962) –Provisão para a criança na saúde e na crise.  In: O Ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre; Ed. Artes Médicas , 1990,p62-69

 

Suzana Grunspun é médica e psiquiatra, formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com residência médica no Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), é analista de criança e adolescente pela International Psychoanalytical Association (IPA) e docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Foi secretária do curso de Psicanálise de Crianças e Adolescentes no biênio 2015/2016.