correntes de psicanálise

O psicanalista e suas formas de presença

De tempos em tempos, a Psicanálise é convocada a posicionar-se frente a críticas vindas de outros campos do saber ligados ao sofrimento humano no que diz respeito à sua atualidade clínica. Muitas dessas críticas atestam um desconhecimento sobre o movimento psicanalítico e, principalmente, sobre os desenvolvimentos no sentido de responder aos desafios da clínica contemporânea.

Nas últimas décadas, os psicanalistas vêm se debruçando sobre o tema do enquadre (Winnicott, Bleger), convocados pela clínica a inventar novas formas de presença que favoreçam o trabalho junto a pacientes ou situações clínicas nos limites da analisabilidade.

André Green é um psicanalista que nos ajuda a construir metapsicologicamente a necessidade dessas novas possibilidades de presença. Se o trabalho do aparelho psíquico é o da representação, as condições da análise devem ser tais que favoreçam esse trabalho (e não serão as mesmas em diferentes situações).

Em Freud, a clínica e a pesquisa nunca estiveram dissociadas, tendo a primeira sempre provocado investigações que o fizeram reformular a teoria. O lugar do analista nessa linhagem freudiana não poderia ser o de mero reprodutor de teorias bem acabadas, mas, possuidor de um repertório herdado de seus mestres, participar do espírito do seu tempo buscando responder a perguntas pelas quais se deixará tocar. Isso implica uma apropriação crítica e criativa da herança recebida, retrabalho constante em uma psicanálise vitalizada, como pode ser visto mesmo nos movimentos internos à própria obra freudiana.

O trabalho com as neuroses demonstra que a atitude abstinente e mais silenciosa do analista e o uso do divã limitando o polo motor, tal qual o modelo do sonho, favorecem a associação e o processo de simbolização. Diante da angústia despertada na situação analítica, a força pulsional investe as representações que vão, através da cadeia associativa, encontrar vias secundárias de satisfação. O paciente fala, sonha, produz sintomas e o analista se dispõe a um estado de atenção flutuante que o permite acompanhar e atuar nas trilhas que as palavras do paciente puderam deixar. Essa aposta, no caso do funcionamento neurótico, é geralmente bem-sucedida, pois nesses casos podemos contar com as condições para o processo representacional que se encontram construídas e mais ou menos bem preservadas.

Mas nem sempre é assim. Há situações clínicas, ou momentos na análise, em que essas condições de enquadre estabelecidas para favorecer a representação, ao contrário, as dificulta. O excesso de excitação pulsional reavivado na situação transferencial interrompe as cadeias de ligação. Diante de angústias que oscilam entre abandono e intrusão, o silêncio do analista pode ser sentido pelo paciente como mortífero. As falhas do trabalho da representação tais como reveladas na análise denunciam as marcas das condições constitutivas de origem junto ao objeto (invasão e abandono) o que impõe ao analista um manejo diferente para restaurar em certa medida a via associativa. Nessas condições menos favoráveis, o trabalho psíquico do analista é chamado a comparecer, sua própria elaboração imaginativa ganha lugar e o analista buscará encontrar a justa distância que o permita se manter vivo sem se tornar invasivo. Como intervir respeitando essa justa distância? O que faz o trabalho de simbolização falhar em certas condições?

Foi diante destas dificuldades impostas ao trabalho analítico que Green propôs seu projeto para uma psicanálise contemporânea, um projeto coletivo de investigação das condições de representação no enquadre analítico, tomando como matriz clinica as situações nos limites da analisabilidade. O projeto é coletivo, e estamos todos convidados a dele participar.

Algumas das respostas pessoais de André Green a essas perguntas serão trabalhadas no curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, oferecido pela SBPSP.

 

Berta Hoffmann Azevedo é membro filiado ao Instituto de Psicanalise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, docente do curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea” pela SBPSP e autora do Livro Crise Pseudoepiléptica, coleção Clínica Psicanalítica (Ed. Casa do Psicólogo).

bertaazevedo@hotmail.com

Melanie Klein: ontem, hoje e amanhã

Elizabeth Lima da Rocha Barros
Elias M da Rocha Barros

Se viva estivesse, Melanie Klein completaria 135 anos no dia 30 de março de 2017. O que devemos comemorar nesta data? Sua figura histórica? O fato de ter sido a criadora da análise de crianças? Ou o caráter vivo de seu pensamento? Este último ponto, que continua a fertilizar o desenvolvimento da Psicanálise Contemporânea, será o eixo de nossa atenção.

Melanie Klein atualmente ganhou autonomia em relação à sua posição dentro do pensamento psicanalítico, limitada historicamente pelo fato de ter sido considerada chefe de uma Escola, para integrar o mundo das ideias psicanalíticas contemporâneas.

Dessa forma, hoje Klein já se libertou da limitação que o adjetivo “Kleiniana” lhe impunha, que por sinal ela sempre rejeitou, por se ver como uma continuadora de Freud. Foi ela quem apresentou o complemento mais importante à teoria freudiana da mente humana depois da fundação da nossa disciplina. É também a autora que gerou um grande número de controvérsias. Hoje sabemos que estas controvérsias deram ensejo a um período muito fértil de discussões, que se revelaram fundamentais, e continuam a dar frutos no que tange ao desenvolvimento do pensamento psicanalítico atual.

A partir deste ângulo, devemos olhar para o pensamento de Melanie Klein como uma obra aberta, que se reinventa a cada contato com o pensamento contemporâneo e o fecunda. Assim, ela continuará a inspirar novas perspectivas e a semear novos conceitos derivados a partir da compreensão profunda de suas ideias.

Conhecer é terapêutico

Correu pelas redes sociais da internet nos últimos tempos uma mensagem com uma foto de Melanie Klein, acompanhada de um pensamento a ela atribuído. O texto dizia: “Quem come do fruto do conhecimento é expulso de algum paraíso.” Esta postagem é emblemática daquilo que comemoramos.

Melanie Klein - quem come do fruto do conhecimento e sempre expulso de algum paraiso

Curiosamente a postagem alude a uma das contribuições mais importantes de Klein: a de que pensar não serve apenas à função de adquirir conhecimento. Ser capaz de pensar as próprias emoções altera profundamente a maneira de o indivíduo estar no mundo. Klein, portanto, introduz na psicanálise a noção de que “conhecer” por meio da libertação e da ampliação da capacidade de pensar é terapêutico, pois promove a integração das experiências emocionais ao cerne de nosso ser, e assim, gera amadurecimento emocional.

O paraíso do qual o indivíduo que conhece é expulso refere-se à libertação de uma falsa segurança baseada num estado de espírito que prima pela superficialidade e pelo descompromisso afetivo em suas relações humanas, sustentado em idealizações. Deixar de ser superficial por meio do aprimoramento de nossa capacidade de reflexão, ser profundo e responsável em nossas relações interpessoais, torna-se fator de saúde mental na concepção da Psicanálise que hoje praticamos. E esta premissa deriva diretamente da obra de Klein.

O desenvolvimento humano, na concepção de nossa autora, não é linear. Ele é dialético e mais próximo de um processo em espiral. Visto que a saúde mental está sempre ameaçada em sua estabilidade, ela deve ser permanentemente reconquistada. A saúde ou o equilíbrio mental não são consequências naturais de um desenvolvimento bem sucedido e, de certa maneira, pré-programado.

Na obra de Klein, o processo de aquisição de conhecimento tornou-se um conceito com estatuto metapsicológico. Esta ideia foi e é nova e, pouco a pouco, se incorporou à maior parte das teorias da psicanálise contemporânea.

A “pulsão para conhecer”

Klein desenvolve sua vocação psicanalítica impelida pelo desejo de compreender os mecanismos da inibição que impedem uma criança de desenvolver plenamente suas capacidades emocionais e cognitivas. Descobre progressivamente que essa criança é vítima de uma tirania imposta por suas fantasias inconscientes destrutivas que a impedem de exercer sua curiosidade sobre o mundo das coisas e das pessoas, inclusive sobre si mesma.

O medo é a base da tirania e gera uma realidade psíquica coercitiva baseada na lei do talião e na violência da pulsão de morte. Só a libertação de nossa capacidade de amar, baseada na compreensão da lógica que subjaz às nossas fantasias inconscientes, pode nos liberar e permitir o pleno florescer de nossas capacidades afetivas e intelectuais. Temos neste começo de suas indagações as raízes de sua concepção daquilo que chamou “instinto epistemofílico” e, depois, “pulsão para conhecer”. Esta ideia deu origem posteriormente à teoria dos elos K e -K na obra de Bion.

Pascal dizia que os instintos são as razões do coração sobre as quais a razão nada sabe. Klein procura decifrar essas razões do coração por meio da compreensão do sentido e significado daquilo que ela caracteriza como fantasias inconscientes. Essas são derivadas e ao mesmo tempo são organizadoras das experiências emocionais, constituindo-se em núcleos geradores de significado. As fantasias inconscientes, ao se constituírem núcleos geradores de significados para a vida psíquica, acabam por moldar e, às vezes, deformar as demais experiências emocionais a elas associadas.  Fantasia inconsciente é, antes de tudo, um modo ativo de pensar inconsciente que adquire certa estabilidade, gerando significados que vão se agrupar em torno de um núcleo atribuidor de significados. Este opera como um organizador da vida psíquica e, assim, cria elos com outras experiências emocionais.

Fantasias inconscientes traumáticas dão forma a uma situação vivida que, num primeiro momento, foi incompreensível ou intolerável.

Em Klein, as emoções passam a ser consideradas, na estrutura psíquica, como algo comparável ao tecido conectivo e operam como elos entre os diversos níveis das instâncias psíquicas e as vivências correspondentes. É Bion, mais uma vez, um dos mais criativos continuadores do pensamento kleiniano, que desenvolverá este aspecto com grande riqueza ao estudar os ataques a estes elos. E hoje sabemos como estes ataques afetam a capacidade de simbolização dos indivíduos.

Para Melanie Klein e seus seguidores, as pessoas não sofrem apenas devido a carências, traumas ou repressões. Elas sofrem também de falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. Nesta perspectiva, não basta que a psicanálise seja efetiva no levantamento de repressões que impedem certos pensamentos ou sentimentos de virem à luz ou propicie um ambiente facilitador, visando reparar situações de carências passadas.

É dentro da perspectiva oferecida pelas contribuições acima descritas que Melanie Klein merece ser lembrada e comemorada.

 

Elias Mallet da Rocha Barros é analista didata da SBPSP, recipiente do prêmio Sigournei, Fellow da Sociedade Britânica de Psicanálise e de seu Instituto, Chair Latino Americano da Força Tarefa para a produção do Dicionário Enciclopédico de Psicanálise a ser publicado pela IPA

Elizabeth L da Rocha Barros é analista didata da SBPSP, Fellow da Sociedade Britânica de Psicanálise e de seu Instituto, DEA em Psicopatologia pela Sorbonne.

Entrevista – Marion Minerbo

Muito além do divã

Simulando tom ficcional na interlocução com um “jovem colega” imaginário, Marion Minerbo compartilha material clínico e outras experiências em Diálogos sobre a clínica psicanalítica

Autora de Neurose e não neurose e Transferência e contratransferência, ambos da editora Pearson, a psicanalista Marion Minerbo lança seu terceiro livro, Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Editora Blucher), dia 1º de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da Fradique. Mais do que um título para “iniciados”, trata-se de um painel acessível e fascinante sobre a “experiência de transmissão da psicanálise” que Marion vivenciou na última década. Não é um período qualquer. Para muito além da prática e dos estudos com que Freud revolucionou a história da humanidade, o livro, de tom supostamente ficcional, usa a forma de um grande diálogo, com um interlocutor que Marion chama de “jovem colega”, para compartilhar material clínico que convida à reflexão em uma época em que “as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças”, como Marion declara em entrevista exclusiva à Vila Cultural.

Psicanalista, analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBP-SP), doutora em Psicanálise, Marion virou uma “fonte” imediatamente associada a dois temas distantes e de forte apelo midiático: os reality shows e a corrupção. “Os embates teórico-clínico- emocionais de meus interlocutores mais jovens me remetem, naturalmente, ao meu próprio percurso”, escreve, na introdução do livro, cujos diálogos contemplam seis temas: transferência, escuta analítica, trauma e simbolização, pensamento clínico, sofrimento neurótico e sofrimento narcísico. Leia a entrevista da psicanalista.

Vila Cultural. Você gosta de conceder entrevistas?

Marion Minerbo. Não dou entrevistas por telefone ou com gravação de vídeo porque não dá tempo de pensar. Fico inibida com perguntas à queima-roupa. O risco de dizer banalidades é grande. Em compensação, tenho grande prazer em conceder entrevistas por escrito porque mesmo que eu já tenha falado sobre um mesmo tema várias vezes, como BBB ou corrupção, as perguntas sempre me ajudam a pensar coisas novas. Há, claro, alguma vaidade em ser entrevistada, pois é uma forma de reconhecimento do meu trabalho. Mas o que mais me motiva é a oportunidade de compartilhar com um público mais amplo o acesso ao funcionamento mental propiciado pela psicanálise.

VC. Como define o novo livro e que avaliação faz da experiência de escrevê-lo?

MM. É um livro que foi nascendo aos poucos e meio que por acaso. Em 2013, me convidaram para falar sobre “transferência”, um conceito psicanalítico básico supostamente muito conhecido e sobre o qual já se disse muito – inclusive eu, que escrevi um livro sobre isso. Estava quebrando a cabeça para não chover no molhado, até que me veio a inspiração de escrever a um jovem colega transmitindo o essencial sobre o tema em linguagem coloquial e despretensiosa. Afinal, o rigor tem que estar nas ideias, e não na linguagem. A editora do Jornal de Psicanálise, publicação semestral do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise, viu naquele texto o potencial para um projeto editorial com este formato e me convidou a escrever sobre outros temas. Os primeiros diálogos eram mais tímidos, pois havia algo de ficção na criação do personagem jovem colega, e afinal, eu não sou escritora. Mas fui me apropriando dessa semificção e me divertindo com a escrita. Me afeiçoei ao jovem colega e fiquei triste quando me despedi dele. Escrever me serve para metabolizar o que estudei e para, a partir dessas leituras, organizar um pensamento próprio. Para o bem e para o mal, só consigo pensar escrevendo. Minha mãe me dizia: “Se você não consegue escrever com suas palavras, não escreva, significa que você ainda não entendeu o suficiente”. Tenho prazer em transmitir algo que dificilmente o jovem colega vai aprender só nos livros: como pensa um psicanalista – ou melhor, como pensa esta psicanalista! – em sua clínica. Sou generosa, mas também exigente com o leitor: ele não deve esperar concessões ou
simplificações. Acho que o livro é sobretudo útil. É o que tenho de mais valioso para oferecer.

VC. Que critérios usou para definir os seis temas destacados em Diálogos?

MM. Baseada na minha experiência como docente escolhi temas que fossem úteis para a clínica, e usei exemplos – devidamente ficcionalizados – para dar vida às ideias desenvolvidas. Naturalmente, todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a ética profissional. Transferência, como já disse, é básico porque é a manifestação concreta do inconsciente na vida das pessoas e na análise. Eu já tinha escrito um livro sobre esse tema (Transferência e contratransferência, Pearson, 2012), mas este diálogo me deu a oportunidade de abordar outros ângulos e aprofundar certas questões. O inconsciente é uma espécie de cicatriz viva do passado que continua produzindo sofrimento e travando o presente, o que leva certas pessoas a procurar análise. Como reconhecer na clínica esta cicatriz viva e seus efeitos? Através da Escuta analítica, que é o segundo tema. Vou usar uma analogia para explicar o que é isso. Certa vez fui arrebatada pelo desejo de pintar. Frequentei o ateliê de uma artista que não me ensinou a pintar, mas formou o meu olhar, um olhar sensível à dimensão estética da existência. Pois bem: o analista tem um olhar, ou uma escuta, ou uma apreensão, da dimensão inconsciente das relações humanas. Mas assim como a formação do olhar não transforma ninguém em artista, a apreensão da dimensão inconsciente não é suficiente para ser um psicanalista praticante. É preciso desenvolver também a capacidade de pensar analiticamente, quer dizer, articular o universal da teoria dos livros, à singularidade do paciente que está no seu divã. Escrevi, então, o diálogo sobre Pensamento clínico, uma espécie de passo a passo sobre esse “pulo do gato”. O diálogo seguinte, sobre Trauma e simbolização, serve para ajudar o jovem
colega a ter uma visão mais organizada sobre como se “adoece” psiquicamente. Sem uma compreensão razoável sobre como se adoece, é difícil saber em que direção seguir do ponto de vista terapêutico. E por falar em “direção a seguir”, os dois últimos diálogos, Sofrimento neurótico e Sofrimento narcísico, mapeiam os dois grandes territórios do sofrimento psíquico, cujas “paisagens emocionais” diferem radicalmente. A escolha desses temas se deve, de certa forma, à repercussão positiva do meu livro Neurose e não neurose (Pearson, segunda edição 2013). Muitos leitores disseram que a visão de conjunto da psicopatologia psicanalítica, ancorada em exemplos clínicos, foi muito útil.

VC. Quem, na sua opinião, podem ser os leitores potenciais do livro?

MM. Acho que o livro será útil não só para estudantes e jovens colegas, mas para psicanalistas em geral, pois não importa quanta estrada já tenhamos percorrido, estamos sempre estudando para manter o “instrumento psicanalítico” afinado e afiado – caso contrário ele perde o gume. É claro que o público leigo curioso, os estudiosos de humanidades em geral e os próprios “usuários” também poderão curtir e aproveitar os diálogos, já que estão escritos de forma acessível.

VC. Quando alguém procura um analista, é comum a dúvida a respeito sobre a “linha” que ele segue. O que pensa sua sobre isso?

MM. Até meados dos anos de 1970 os psicanalistas se dividiam em tribos, dizendo-se seguidores deste ou daquele autor. No entanto, fosse qual fosse a linha, havia pacientes que “não se encaixavam” nela. Pensando bem, é muito estranho que o paciente tenha que se encaixar, pois o psiquismo singular é sempre mais amplo e complexo do que pode ser apreendido por uma única teoria. A comparação é meio tosca, mas imagine um marceneiro que se limite a trabalhar com um serrote. Pode ser suficiente para serrar tábuas, mas se quiser fazer uma mesa vai precisar de outros instrumentos. Enfim, a nova geração de psicanalistas se deparou com os limites de praticar a psicanálise seguindo uma única “linha”. Instigados por questões colocadas pela clínica, os autores mais criativos passaram a pensar “fora da caixinha”. Todos saíram ganhando. Por isso, hoje é mais ou menos consensual que um psicanalista precisa ter em seu repertório instrumentos conceituais diversificados. Essa é a posição a partir da qual escrevi os Diálogos e trabalho na minha clínica.

VC. Você tem escrito também sobre o sofrimento psíquico ligado a características do mundo contemporâneo. Fala em “miséria simbólica” e relaciona esta condição ao sentimento de tédio e de vazio. Poderia explicar essas ideias?

MM. É um assunto complexo, mas posso tentar. A modernidade foi o momento da civilização ocidental que se caracterizava pela força e solidez das grandes instituições. O sofrimento psíquico tinha a ver com a rigidez com que todos eram obrigados a se encaixar nos valores instituídos, vistos como absolutos, naturais e universais. A diversidade era condenada e excluída. A família patriarcal era o melhor exemplo disso. Hoje, boa parte das grandes instituições está em crise. Em um movimento pendular, passamos de valores e referências extremamente rígidos para a condição pós-moderna, caracterizada pelo relativismo absoluto. As referências de que necessitamos para dar sentido a nossas experiências são pouco nítidas, imprecisas, cambiáveis, vagas, incertas, ralas e movediças. Para o bem e para o mal, ninguém mais acredita em valores universais. A vantagem é que há liberdade para cada um inventar e viver sua própria vida. Se antes a diversidade era excluída, agora é festejada. A diversidade das famílias contemporâneas é um exemplo.

VC. E qual a desvantagem disso?

MM. A descrença absoluta e a fragilidade das referências simbólicas produzem um estado de miséria simbólica: as pessoas são obrigadas a ancorar sua identidade e a inventar seus projetos de vida em bases fluidas e movediças. Muitas vezes ficam perdidas, sem rumo. Sofre-se de um vazio, de um sentimento de irrealidade e de tédio, sintomas da falta de sentido da existência, muitas vezes confundidos com depressão. Esses pacientes nos procuram com queixas vagas, mal formuladas, porque faltam até palavras para descrever essa forma de sofrimento.

VC. Quais os efeitos dessa falta de rumo sobre a sociedade como um todo?

MM. Sintomas socioculturais como a proliferação e adesão a causas radicais – sexistas, alimentares, políticas, terroristas – podem ser entendidos como tentativas de preencher o vazio, “fortalecer” a identidade e dar um sentido à existência. Certo tipo de violência é outro sintoma desse mesmo sofrimento. Venho me perguntando se a emergência de forças conservadoras em vários países não seria uma tentativa de fortalecer – da pior maneira – as instituições atualmente em crise. A grande dificuldade parece ser manter a liberdade conquistada com a relativização de verdades tidas como universais, sem jogar fora o bebê com a água do banho.

VC. De onde vem o seu interesse por temas como a corrupção e os reality shows? Por que decidiu analisar assuntos tão diferentes?

MM. Como sempre, há uma boa dose de acaso nas direções que a vida toma. É possível que tudo tenha começado com meu doutorado na UNIFESP. Escrevi sobre compulsão a comprar porque na época, em 1990, estava atendendo uma paciente que apresentava este sintoma. Eu, que havia estudado medicina, precisei me aventurar em um território completamente novo: a sociedade de consumo, a sociedade do espetáculo, a cultura do narcisismo, a hiper-realidade etc. Tudo isso em paralelo ao meu trabalho no consultório. Passei a me interessar por fenômenos típicos da pós-modernidade que pareciam ter em comum a fragilidade do símbolo. Desde os crimes em família, como o de Suzane Richthofen que matou os pais, e outros em que são os pais que matam os filhos, até um tipo de violência que batizei de reality game – mistura de reality show e de videogame. Em 2007 publiquei meu primeiro artigo sobre reality show na Revista de Psicologia da USP. A partir daí, todos os anos, na época em que começava o BBB, eu era entrevistada sobre o tema. Sem querer, virei uma “especialista”. Com relação à corrupção a coisa foi um pouco diferente. Publiquei em 2000 um primeiro artigo intitulado Que vantagem Maria leva? Um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Continuei desenvolvendo minha tese central em outros textos: pessoas podem ser subornadas, mas o que se corrompe (desnatura, apodrece) são as instituições, até que a própria corrupção se transforma, ela própria, em uma instituição. Depois, quando Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de hotel, escrevi sobre os mecanismos psíquicos que levam o poderoso a “perder a noção”. Mas foi com a Lava Jato que comecei a ser constantemente entrevistada sobre corrupção.

VC. Como lida com o fato de ser convocada com tanta frequência para explicar, digamos, os “mecanismos psíquicos” da corrupção?

MM. Gosto muito do desafio de falar sobre o tema, pois cada jornalista faz perguntas que me obrigam a aprofundar ângulos ou aspectos nos quais eu não tinha pensado. Um exemplo: queriam que eu falasse sobre a “corrupção nossa de cada dia”. Sei que as matérias precisam de chamadas fortes. Então, mesmo não fazendo muito sentido falar nesses termos, aproveitei para mostrar a diferença que existe do ponto de vista psíquico entre a pura e simples transgressão, e atos que se pautam por uma lei paralela, não oficial e implícita. Nesse segundo caso, a pessoa simplesmente não sente que está transgredindo nada. Isso me levou a analisar o “jeitinho brasileiro” e a “lei de Gerson”. São verdadeiras instituições que ignoram a lei oficial e erigem valores que não podem ser transgredidos: respectivamente o ‘favor em nome da amizade’ e a ‘esperteza viril’. Quem não retribui favor, e quem se recusa a levar vantagem, é visto como transgressor dessas “leis” e punido pela coletividade. Eu não teria pensado nada disso sem as entrevistas.

VC. O que mais tem aprendido com seus alunos e pacientes?

MM. A sensibilidade para sintonizar com o funcionamento psíquico dos outros, pacientes e colegas, me ajuda a me colocar na pele deles, a empatizar e me identificar com suas angústias. Isso me ajuda a respeitar e a conviver com pessoas que sentem e pensam de maneira diferente de mim. Naturalmente, não podemos aceitar e concordar com tudo – há atos e atitudes que simplesmente não podem ser tolerados –, mas pelo menos podemos entender as razões e as motivações dos outros. Isso me ajuda a viver melhor.