cinema

O pulso ainda pulsa: “Our souls at night”

Maria Cristina Labate Mantovanini*

Acabou de estrear na Netflix “Our souls at night”, dirigido por Ritesh Batra e estrelado por Jane Fonda e Robert Redford. O filme poderia passar despercebido, como mais uma história de amor “água com açúcar”, para se assistir num domingo à noite, se não fosse por um pequeno, porém relevante, detalhe: a idade de seus protagonistas, ambos beirando os 80 anos.

Outra boa surpresa: os personagens, apesar da idade, não estão morrendo, vítimas de uma doença terminal, e tampouco estão sofrendo de alguma grave demência senil. Em “Our souls at night” o amor na velhice não foi confinado no porão escuro e úmido das memórias fugidias de um passado longínquo, reafirmando a ideia que não há lugar para o amor quando não se é mais jovem. Tampouco, no filme, o amor foi relegado à descrição vil e deprimente do seu fim, causado pela morte, sempre demorada e cruel, de um dos parceiros.

Nessa singela história de amor, Addie  e Louis (Jane Fonda e Robert Redford) são vizinhos, viúvos, sozinhos e com filhos adultos que moram em outras cidades. Os dois se aproximam, se conhecem, tornam-se amigos e namoram.

A ousadia do filme é revelar que amor e erotismo não são exclusividade das pessoas jovens. Addie e Louis vão, aos poucos, tornando-se amigos. Ao narrarem um para o outro seus passados, vão recuperando partes doloridas e sombrias de suas vidas, revisitando tristezas e mágoas, compreendendo melhor suas escolhas, se perdoando.

Não há premência no amor desse novo casal de velhos. Não há pressa em se consumar nada. Há apenas uma vontade de se estar junto, lado a lado, em se perceber não mais tão sozinho. Amor, esse, tão diferente do amor juvenil, sempre vivido velozmente, com urgência, a sugar todo o seu sumo até a última gota.

Addie e Louis passam as noites conversando, rememorando e dormindo. Vão pouco a pouco encantando-se um com outro, acordando, lentamente, algo dentro deles que havia sido esquecido e deixado para trás, provavelmente, ao findar da juventude.

Juntos vão ao cinema, ao restaurante, cuidam do neto de Addie, acampam, viajam, dançam. Assim, ambos são tocados por um pulsar que diz haver vida, vida essa que havia sido esquecida, mas que delicadamente foi reinvestida e renascida.

Para finalizar, acho importante destacar que é muito surpreendente e corajoso, em tempos de culto à eterna juventude do corpo e da alma – em que  ser velho é quase uma falha moral – , um filme mostrar, de forma extremamente elegante, a cena de dois atores velhos, com seus corpos envelhecidos, na cama, se beijando, prestes a ter uma noite de sexo.

 

*Maria Cristina Labate Mantovanini é psicanalista, membro associado da SBPSP e Doutora em Psicologia da Educação pela FEUSP.

Nise – O Coração da Loucura

“Nise – O Coração da Loucura”, Brasil, 2016 – Direção: Roberto Berliner
Por Eleonora Rosset*

Quem será essa senhora de tailleur bordô, coque, salto baixo e bolsa, que bate com delicadeza na porta alta de ferro? Ninguém aparece. E ela, persistente, bate com um pouco mais de força. Nada. Então, com uma força surpreendente, ela esmurra a porta, até que alguém vem abrir.

Esse início do filme apresenta Nise da Silveira (1905-1999) à plateia que ainda não a conhece. Dá para notar que ela é uma pessoa que opta primeiro pela educação mas que, se preciso for, usa até a força para conseguir o que quer.

E foi preciso muita delicadeza e força mescladas para conseguir realizar o trabalho que ela fez no Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, depois que saiu da prisão da ditadura Vargas, acusada de ser comunista, onde ficou de 1934 a 1936.

Era um tempo no qual se confundia hospital psiquiátrico com prisão. Médicos e enfermeiros eram carcereiros e agentes de punição. O medo andava junto com a sujeira e o abandono, nos corredores e enfermarias daquele hospital.

A Dra. Nise (Gloria Pires, magnífica), única mulher entre os psiquiatras, foi logo afastada da prática clínica porque não concordava com lobotomias e eletrochoques. Acabou no lugar menos frequentado do hospital e com quase nada de verba, o STO, Setor de Terapia Ocupacional.

Ao chegar no local, cheio de lixo, ela arregaçou as mangas e começou o seu trabalho com balde e vassoura, ajudada por uma enfermeira de boa vontade.
Tudo limpo, ela convida os clientes (“pacientes somos nós que temos de ser com eles”), que vagam pelo pátio de terra, uns nus, outros vestidos em farrapos, para entrar:

“- Deixa que eles façam o que quiserem”, diz para Ivone, a enfermeira.
Aos palpites repressores do enfermeiro Lima (Augusto Madeira), ela retruca:
“- Cala a boca! O que eles falam aqui é matéria prima de nosso trabalho. Ouça. Observe. E cala a sua boca!”

Incansável, ela pesquisa prontuários e ousa abrir o “cofre”, a solitária onde Lucio, visto como capaz de matar, está encerrado há dias. Traz quem pode para o pátio e um jogo de bola é o início da aproximação entre ela e aquelas pessoas evitadas.

Logo, Nise consegue a ajuda de Almir (Felipe Rocha) que vai sugerir um novo caminho. Traz tintas coloridas e cavaletes com telas e assim começa o que hoje é o legado do Museu de Imagens do Inconsciente, inaugurado no Rio de Janeiro em 1952.

Seguidora de Jung, a quem escreve relatando seu trabalho, Nise acreditava na busca de uma linguagem que pudesse trazer à tona tudo aquilo que jazia no inconsciente de seus clientes. Via nas telas a história de cada um. Do caos inicial surgia o começo de uma integração. As imagens pintadas organizavam o que antes não tinha voz.

Mario Pedrosa (1900-1981), interpretado por Charles Fricks, o maior crítico de arte da época, vê artistas nos clientes de Nise e acontece a exposição “Os Artistas de Engenho de Dentro”.

A Dra. Nise da Silveira, em pessoa e com bom humor, fecha o filme e nos deixa com os olhos marejados.
Alguém do meu lado no cinema diz:
“Ah! Se existissem mais pessoas como ela…”

O excelente roteiro, baseado no livro “Nise – Arqueóloga dos Mares” de Bernardo Horta, a direção inspirada de Roberto Berliner, a trilha sonora brilhante de Jaques Morelembau, a fotografia impecável de André Horta e um elenco harmonioso, ajudam a contar a história dessa grande mulher.
Imperdível.

*Eleonora Rosset é psicanalista, membro da SBPSP e autora do Blog “Uma psicanalista vai ao cinema” (http://www.eleonorarosset.com.br/).

“Kuma, a segunda esposa” e o Édipo transcultural

Kuma, a segunda esposa” e o Édipo transcultural

Por João Baptista Novaes Ferreira França*

Um raro filme do cinema turco chegou até nós, exibido por poucos dias nas telas do Cinesesc, em São Paulo, possibilitando reflexões sobre uma situação de Édipo transcultural.

O complexo de Édipo foi descrito por Freud no contexto da sociedade vienense fin–de-siècle e deu margem a debates com psicólogos e antropólogos do início do século passado; mais tarde autores como Lacan, Klein, Britton e Bion trouxeram contribuições que enriqueceram as ideias de Freud ampliando o conceito para uma configuração edípica mais abrangente, que abria e expandia a visão de Freud.

No filme em questão, produção de 2012 do cineasta Umut Dag, de origem turca e radicado na Áustria, vemos os desdobramentos da cultura de uma família muçulmana oriunda de uma longínqua aldeia da Turquia, se estabelecendo em Viena, trazendo seus costumes e procurando se adaptar ao moderno mundo ocidental.

O tema inclui uma quase bigamia, que deixa o expectador algo perplexo até se inteirar da insólita situação de arranjo no qual a primeira esposa, Fatma, provê uma segunda esposa, a jovem Ayse, para o marido, Mustafa, e mais que isto, uma mãe para a família, uma vez que ela se via ameaçada de morrer brevemente, querendo deixar todos amparados e a família organizada. E a segunda esposa, Ayse, tem apenas 19 anos e poderia ser filha do casal.

Do ponto de vista de Mustafa – primeiro e segundo marido – e de Fatma, como primeira esposa, a situação revela um modelo admissível na cultura em questão. Do ponto de vista dos filhos e também da segunda esposa, Ayse, as configurações edípicas emergem.

As conjecturas apresentadas se referem principalmente à configuração edípica das personagens femininas.

Mal-humorada, sofredora e com um mau casamento, a filha mais velha exibe amor pelo pai e ambivalência acentuada em relação à mãe e, o que era de se esperar, rivalidade e ciúmes com Ayse, a segunda esposa do pai, numa conduta que permanece até o fim.

A filha do meio, adolescente, não aceita Ayse no início, revelando ciúmes e uma má disposição com a “intrusa”, mas acaba se identificando com ela, como libertadora do ethos familiar e rendida pela simpatia e transparência da nova mãe/irmã; e o filho caçula, um menino no período de latência, logo é conquistado por Ayse e mostra inequívoco amor a ela; enquanto que a mãe, Fatma, logo se identifica com aquela que poderia ser sua rival e estabelece com ela uma aliança – idealizada, como vai mostrar o desenrolar dos acontecimentos.

Ayse é bígama, mas apenas no que se refere ao casamento de fachada, situação que fica mascarada; na realidade o casamento é com o pai, enquanto que a relação com o “marido oficial” só vai se esclarecer depois.

Conjecturas poderiam ser feitas ao nível das fantasias. Como seria a configuração edípica de Ayse? Há o desejo de separar-se da primeira configuração familiar da qual pouco sabemos, e a aceitação de um contexto novo e complicado, embora seja ainda um duplo da situação da aldeia, enquanto passagem para uma libertação; fantasias permeiam as mudanças e invariantes.

Ayse é a personagem central do filme, uma mocinha ajuizada, muito simpática e colaboradora; é cumplice da insólita situação, aceitando logo o papel de filha mais velha e sucessora da mãe, em que pese ter que dormir com o pai, sob os olhos aprovadores da mãe.

Uma mudança brusca se dá quando ocorre a inesperada morte do marido; a dinâmica familiar se mantém algum tempo, há adaptações, e Ayse compartilha o leito da mãe, como se fosse filha privilegiada e na verdade amiga e cúmplice, na trama recentemente vivida.

Mas Ayse passa a trabalhar e pode sair da espécie de prisão doméstica; como moça atraente e jovem, acaba se envolvendo com um rapaz de sua idade. A grande confusão, mais trágica do que cômica, se prenuncia quando a família inteira vai ao trabalho onde Ayse se encontra com o namorado e podemos imaginar o que vai acontecer.

A mãe enfurecida quebra a aliança com Ayse e parte para uma terrível agressão.

O filme termina com algum acerto da situação, mas com um desfecho ainda em aberto; mas as mensagens principais, o universo cultural e os aspectos relacionais, a figurabilidade e a beleza artísticas já foram veiculadas.

Duas imagens, duas tomadas de cena, chamam a atenção por sua beleza e expressão; uma quando após a esperada operação de Fatma e a vinda da médica do centro cirúrgico para dar noticias, a imagem se esfumaça e a cena seguinte é a de uma pastagem, como se fosse um trigal, mas que já prenuncia um cemitério e um enterro, este cheio de surpresas.

A segunda cena de belo apelo cinematográfico se apresenta quando Ayse, ferida, recebe socorro da irmã, e está deitada ao lado do seu bebê que se mostra plácido e feliz, mas aos poucos percebe o ambiente perturbado e abre um expressivo choro de desespero.

Ainda destaco a chamada de introdução do filme, a imagem de um espelho que emoldura o rosto das duas personagens principais, a primeira e a segunda esposa; duas mulheres muito bonitas e expressivas.

A arte realiza, expressa e confirma neste filme uma particular e rica vivência relacional, para a qual a psicanálise tem o que agregar.

*João Baptista Novaes Ferreira França é psicanalista e membro da SBPSP