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Protect me from what I want

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Somos feitos de som e fúria, já dizia Sheakespeare. O velho Freud adicionaria que, entre fezes e sangue, nascemos. A verdade é que não somos assim tão puros e limpos como postamos por aí. Embora os filtros virtuais tentem a todo custo disfarçar nossas impurezas, existem desejos inconfessáveis inclusive para nós mesmos: provocam vergonha, são menos civilizados, trazem afetos menos aceitos, mais brutos,  geram culpa, medo e inveja. Embora o desejo nos mova, nem sempre pode ser comunicado às claras.

Muitas vezes é preciso reprimir certos sentimentos para manter determinadas escolhas. Por outro lado, quanto maior essa repressão, maior a força na tentativa de realizá-los. É que nossos instintos costumam ser  persistentes e teimosos. E, nessa tentativa de domínio, o indivíduo sofre. Conclusão: essa luta constante gera uma tensão muito forte – de um lado, uma exigência de satisfação, de outro, as leis, a moral, minhas escolhas.

O desejo nasce num lugar poderoso, uma  instância psíquica inconsciente que recebe o  nome de Id. Este vive em pé de guerra com um outro lado responsável pela censura – que recebe o nome de Superego – , que é igualmente forte e é responsável por representar internamente a moral, as leis vigentes e os valores familiares.

A civilização funciona como uma tentativa de dominar nossos desejos, de freá-los. Sejam os sexuais ou os agressivos, a  sociedade de alguma forma tenta manter uma certa ordem a fim de que a humanidade se preserve de seus próprios instintos. Sabemos que a violência do homem é inerente, tornando-o facilmente presa. Convenhamos, por mais falha que seja a sociedade, o ser humano precisa dela para relativamente se organizar .

Mas existe um lugar onde meu desejo encontra uma possibilidade de existir: os sonhos. Quando sonhamos, estamos com a censura baixa, certas coisas podem aparecer. Mesmo assim algumas são censuradas por nós mesmos – juntando uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico, somando vivências e experiências singulares e individuais, que para cada um tem um significado. Ou seja, certas coisas aparecem de forma disfarçada quando dormimos.

Por isso, dicionário de sonhos  não deve ser levado muito a sério. Para cada pessoa, um símbolo que aparece num sonho tem um significado específico, que só pode ser  decifrado pelo próprio sujeito sonhador. O sonho é o território da realização do desejo. Mesmo que apareça de maneira torta, ele conta sobre um sentimento que, acordado, pode ser muito ameaçador.

É  como se, dormindo, nosso desejo acordasse no sonho e se apresentasse de uma forma mascarada.  Isto é, a fantasia é um dos veículos onde o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. Tudo pode acontecer. E o ato de sonhar, fantasiar, nos possibilita uma tolerância maior à realidade.

Qualquer veículo onde o sonho possa emergir dá voz ao desejo. Arte, literatura, música… Não é raro sabermos de pessoas que suportaram uma condição muito difícil  utilizando-se da imaginação. Anne Frank é um exemplo.  O filme “A vida é bela”, outro.

Precisamos do sonho para dar voz ao nosso desejo e, assim, resgatar a força de lutar para viver.  É como se nos alimentássemos do território do sonho,  o desejo que ali pode aparecer  fica com sua força atenuada e nos ajuda a suportar a realidade com suas chatices.

Por isso sempre me incomodei quando escutei a frase “Isso é apenas uma ilusão”. A palavra apenas desqualifica o lugar onde o sujeito é livre, puro e existe em seu estado bruto.

Em algum lugar é preciso soltar todo nosso som e toda nossa fúria, do contrário a vida vira uma canção  monotemática e empobrecida.

 *Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

Dor psíquica e dor corporal : uma abordagem psicanalítica

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

Ao longo da vida , com frequência enfrentamos situações inesperadas, geradoras de intensas angústias. Se, por um excesso, essas angústias não podem ser digeridas, elas transbordam para o corpo, que adoece.

Na vida adulta, uma doença física pode ser desencadeada por situações de perda, como a morte de um ser amado, a perda do emprego, condição financeira precária, separações ou momentos de impasse. Essas situações remetem à profunda dor mental, e a dificuldade de tolerar a dor leva o indivíduo, muitas vezes, a utilizar seu corpo para se defender dela. Contudo, essas situações só são consideradas traumáticas porque se ligaram, a posteriori, a um trauma anterior, relacionado a perdas significativas na infância.

Uma das importantes aquisições do desenvolvimento psíquico é a capacidade de simbolização. A capacidade de elaborar conflitos por meio de processos psíquicos depende do grau de complexidade que alcançou um indivíduo em sua estruturação emocional. A abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos compreende as doenças físicas e as afecções corporais como medidas defensivas para manter o equilíbrio dessa organização emocional. Quando há falhas nesse processo, porém, isso pode resultar na somatização dos sofrimentos psíquicos. Na ausência do símbolo e da palavra, é no corpo que eles se manifestarão.

Os fenômenos somáticos podem ser considerados uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que são provenientes de experiências traumáticas sofridas em estágios precoces do desenvolvimento da pessoa. Essas vivências precisarão ser nomeadas para, então, serem pensadas e elaboradas, em vez de seguirem sendo derramadas sobre o soma.

Quadros de hipertensão arterial grave, diabetes, dermatites, fibromialgia, doenças autoimunes – como lúpus e vitiligo -, doenças gastrointestinais – como gastrite, retocolite ulcerativa ou doença de Crohn -, entre outras doenças, podem se manifestar em épocas de conflito e depois desaparecer. No entanto, elas podem se instalar como doenças crônicas que geram graus diversos de incapacidade na vida pessoal e profissional do indivíduo, colocando sua vida em risco.

Nessas circunstâncias, o objetivo de um atendimento psicanalítico será, por meio do encontro entre analista e analisando, criar condições favoráveis e necessárias para ampliarmos o repertório psíquico do paciente, de modo que ele possa pensar em seus conflitos em vez de depositá-los em seu corpo. Esse é o campo da psicossomática psicanalítica; ela promove uma abordagem voltada para as patologias decorrentes de falhas do processo de simbolização e da construção de um sólido narcisismo primário.

Pela análise, a capacidade simbólica quase inexistente poderá ser construída, por meio da colocação em palavras de cada afeto não sentido e, portanto, não assimilado mentalmente. Na medida em que o analista constrói com esse indivíduo – cuja dor no corpo grita – novas ligações psíquicas, aquilo que estava inicialmente precário poderá ganhar um novo status: onde houve a falta de uma sustentação da mãe como primeiro objeto o analista apresenta-se como um novo objeto com quem o paciente poderá – talvez pela primeira vez – ser escutado naquilo que, de fato, o corpo denuncia.

Bibliografia :

Steinwurz, D.A. ( 2017). Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In V.R.Béjar ( Org.). Dor psíquica, dor corporal- Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Editora Blucher.

*Denise Aizemberg Steinwurz é membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Diretora de psicologia da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), Prêmio “Avelino Luis Rodrigues”(2012) no concurso ” Psicossomática e Interdisciplinaridade”( IV Congresso Paulista de Psicossomática), membro associado do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

Pedro Malasartes e o duelo com a morte: subjetividade contemporânea e mal-estar na civilização

*Cássia Barreto Bruno

O filme Pedro Malasartes e o Duelo com a Morte, dirigido por Paulo Morelli e estrelado por Jesuíta Barbosa (Pedro Malasartes), Isis Valverde, Julio Andrade e Leandro Hassum, é o primeiro longa-metragem brasileiro com tantos efeitos especiais,  realizados na sede da O2 após quase 30 anos de elaboração por parte de Paulo Morelli. É a realização de um sonho e uma jóia na cinematografia brasileira.

Sua característica é utilizar  os efeitos especiais de um modo totalmente diferente daquele que estamos acostumados a ver em filmes de ação. Traz uma nova linguagem para tais recursos, com os quais  representa o mágico, o belo, o misterioso, o profundo, o reflexivo. O diretor conseguiu juntar reflexão com ação. Criatividade brasileira!

Para comentar o filme escolhi um recorte que leva em conta  duas questões fundantes do ser humano: o embate com a factualidade da morte e a astúcia como forma de driblá-la.

No Ocidente, conhecemos esse recurso desde a mitologia grega e é nessa ambientação que o filme se situa.

As três irmãs Moiras, Cloto, Láquesis e Átropos, são as personagens da mitologia grega**  responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida dos mortais. Cloto é a que tece  o fio da vida, Láquesis é a que distribui entre os homens seus respectivos destinos e Átropos, a que tem o poder de romper o fio da vida com sua tesoura encantada.

Essas três personagens estão representadas no filme em belíssimas imagens, realizadas com efeitos especiais. Os fios da vida, entrelaçados poeticamente, nos enlevam e nos transportam para outro mundo, o mundo dos sonhos. Esse  momento misterioso do tecer a vida e o destino das pessoas é vivo, iluminado, intenso.

O rei do Mundo Inferior, Hades, é apresentado com humor fino: um trapalhão que parece até mesmo cansado e tedioso de seu oficio. Seu desejo é se aposentar e trazer da Terra seu afilhado Pedro Malasartes para substituí-lo. Para realizar essa tarefa, Hades recorre a Átropos, a fim de que esta interfira no fio da vida de Pedro. A situação começa a se complicar no momento em que as Moiras não aprovam essa ideia.

Ora, como Pedro  Malasartes é mortal e, como registrou Homero***, Hades é o deus mais odiado pelos mortais, claro que ele não gostou nada desse presente de grego. Daí resulta a segunda colocação importante do filme: como driblar a morte, isto é, como se defender de Hades, para além da ajuda das Moiras.

Como Pedro é Malasartes, Mal-as artes, das artes más que aprendeu na vida terrena da roça e colocadas de modo gentil  no filme, está posta a questão: Como Pedro vencerá esse duelo? Com  astúcia, claro, com as Mal-artes que é o outro lado do ser humano, o lado não politicamente correto.

Essa questão de driblar a morte  reverbera em muitas situações no filme, repetindo-se em vários níveis de significação, o que dá mais força ao tema. Vamos falar de dois: de um lado, o inexorável da morte certa está representado no patrão explorador que, como o Todo-Poderoso Hades, persegue Pedro Malasartes.         

O filme, nesse momento, se apoia  na antropologia  de nosso homem rural brasileiro, ou seja, que a esperteza ingênua, aprendida na escola da vida, é seu trunfo. É preciso ser esperto nessa vida.

A saída encontrada pelos humanos foi criar narrativas. Fica claro  que a inteligência humana nos provê do mundo da fantasia, essa mágica que remove montanhas, que mata os opressores e que nos devolve o Ser Desejante.           

Nos tempos primordiais, por meio da criação de deuses e da ideia de que a vida continua após a morte, foi possível  driblar  a finitude. Sabemos que a  construção das pirâmides para garantir a eternidade resultou em enorme desenvolvimento da matemática, astrologia, arquitetura,  calendário, agricultura, escrita.

Na Grécia, o mesmo ocorreu com a narrativa dos mitos. Houve um grande desenvolvimento das artes e da filosofia. O homem começou a interrogar sobre a natureza das coisas, do mundo onde estava  inserido.

Isto para dizer que, ao driblar o problema da finitude, o homem criou desenvolvimento e descobriu que, por meio de sua obra, se mantém infinito. É o que Malasartes fará.

A outra questão colocada pelo filme, que envolve a subjetividade do Sujeito, é a relação entre o bem e o mal. Qual a distância entre a astúcia e a maldade?

Vamos encontrar em Homero**** um momento muito especial, em que Ulisses usa de artimanha e  esperteza: diante de Polifemo, rei dos Ciclopes, que lhe pergunta seu nome, Ulisses ardilosamente responde: “Meu nome é Ninguém”. Após algumas peripécias, quando fura o olho do Ciclope para defender a si e a seus marinheiros, e após a chegada dos outros ciclopes, estes perguntam a Polifemo “Quem furou seu olho?” “Foi NINGUÉM.” E com isso Ulisses safou-se de ser morto pelos ciclopes.

No duelo com a morte,  a artimanha. Foi necessária uma boa dose de criatividade e esperteza para que a humanidade se desenvolvesse, a partir desse problema insolúvel por definição. Já que vou morrer, então crio alternativas e, nesse mesmo ato, crio desenvolvimento e imortalidade.

A estranheza do Reino da Morte é mostrada no filme  em  infinitas luzes que se movimentam e representam as almas, belíssima alegoria, num balé encantador. O assustador e desconhecido é transformado em Estética, outra artimanha da mente humana.

Será que Pedro Malasartes, ingênuo e astuto ao mesmo tempo, conseguirá enganar a morte? E como a Moiras poderão ajudá-lo? A conferir.

No filme, conteúdo e forma estão imbricados por essa novidade: os efeitos especiais aqui têm a função de exaltar a vida, a ética e os problemas universais que caracterizam o humano. A ideia de situar a trama no imaginário brasileiro caipira, na roça, cria um clima contemporâneo de valorizar a natureza e as raízes do homem brasileiro, e escapa do cientificismo asséptico.

O filme é um elogio à Natureza, à Ética, à Estética. Em última instância, ao Humano.

 

*Cássia A. Nuevo Barreto Bruno é analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, International Psycloanalitical Society. Coordenadora do livro Distúrbios Alimentares, Uma colaboração da Psicanálise, ed. Imago, 2011.

** Hesíodo, sec. VIII AC, no livro Teogonia, 217
*** Ilíada IX.158
****Odisséia, livro IX,365

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

A Geração Y no mundo do trabalho: dor de crescimento ou opressão sem ganho?

*Renata Zambonelli Nogueira

Com alguma frequência tenho me deparado com situações em que interlocutores de gerações anteriores à minha se queixam das características dos “jovens de hoje em dia”, apelidados de Millennials ou Geração Y. Eles se referem às pessoas nascidas depois de 1990,  que constituem a primeira geração crescida num mundo verdadeiramente globalizado, imersos na onipresença das tecnologias – especialmente da internet e das facilidades materiais -, e cuja chegada ao mundo do trabalho revelou um importante choque geracional.

Os mais velhos os descrevem como egocêntricos, preguiçosos, mimados, “cheios de mimimi”, excessivamente zelosos de sua vida pessoal e, frequentemente, os acusam de desconhecer a realidade, não saber que “é preciso dar duro para se tornar alguém na vida” e querer tudo de mão beijada.

Penso que, embora caracterizado a partir da realidade norte-americana, esse conflito geracional tenha alguma correspondência em certos recortes das cidades brasileiras. Pude observá-lo na Faculdade de Medicina onde me graduei em 2011 e na qual, atualmente, me dedico a atividades didáticas com os alunos. Ali me parece que a estrutura hierárquica que formou tantas gerações de médicos em São Paulo já não exatamente serve às atuais. Falas de professores renomados como a de que “diamantes se fazem sob pressão” são ferozmente atacadas e provocam intenso sofrimento psíquico entre os alunos, marcado por sentimentos de incompreensão e desamparo, em lugar de uma adaptação produtiva. A tradicional cultura médica de investimento total, de valorização da resiliência levada ao limite, do orgulho narcísico de enfrentar bravamente jornadas de 48horas de plantão pode estar com os dias contados sob a gerência dessa nova geração. O que aconteceu?

De imediato, penso que devemos abandonar a pretensão de “explicar” toda uma geração, e vou modestamente oferecer uma das minhas ideias à prova para pensarmos um possível fenômeno em desdobramento na cultura: as estruturas totalizante das instituições perderam o seu sentido, e o sofrimento dentro delas não está mais associado a um crescimento que vale a pena, não é mais significado como uma “dor de crescimento”. Na ausência de sentido, vive-se uma espécie de opressão sem ganho.

Tentarei, então, decupar minha hipótese da perda de sentido na forma de perguntas que nos ajudem a pensar.: Quais seriam as diferenças fundamentais no caldo de cultura em que cresceram esses jovens? Quais os reais efeitos da tecnologia na subjetivação, e como as formas virtuais de se relacionar com o outro interferem na capacidade de sustentar relações reais? O que mais, historicamente, aconteceu no mundo nos últimos anos, e quais as perspectivas desses jovens no nosso momento histórico? Quais tipos de relação de trabalho estão disponíveis para eles? Como a economia e a realidade dos processos de produção e consumo interferem nas dinâmicas subjetivas de funcionamento? Como esses jovens lidam com a espera diante de tantas facilidades materiais?

No meio psicanalítico se discute, hoje, a existência de novas formas de sofrimento na contemporaneidade. Como psicanalistas, sabemos da influência peremptória da cultura sobre os processos de constituição do sujeito, e a ideia corrente a respeito do nosso tempo é a de um momento histórico de desilusão diante de uma suposta falência do projeto moderno, um enfraquecimento das instituições e um sofrer característico da pós-modernidade, marcadamente distinto do sofrimento dos neuróticos analisados por Freud. Eu incluiria nessa análise uma dimensão categoricamente política. Há uma crise social instalada a partir do capitalismo neoliberal levado ao seu extremo: banalização do consumo, superficialidade das relações humanas e precarização das relações de trabalho.

Tentarei descrever o que entendo por sofrimento contemporâneo por meio de uma ilustração. Há poucas semanas assisti ao filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, e saí do cinema como quem sai do consultório após uma longa sequência de sessões difíceis. Mundos mentais áridos, pouco povoados, vivências de tédio, repetição e completa ausência de sentido. “Qualquer experiência é melhor do que nenhuma”, diz uma das personagens. Os cenários são casas amplas, translúcidas, com horizontes infinitos, repletos de nada. Gavetas vazias, relações sem lastro, desejos sem densidade, descontinuidade…

Tudo isso contraposto a uma beleza estética deslumbrante das personagens, dos figurinos e dos cenários arquitetônicos. Seria o filme um retrato onírico da nossa sociedade de consumo? Poderíamos comparar aquela fotografia exuberante à cultura da imagem, dos perfis das redes sociais repletos de selfies e check-ins, da necessidade de promover a si mesmo, de ser visto numa vida de felicidade e plenitude, para que ela se torne minimamente satisfatória, para encobrir com curtidas o mal-estar?

Me remeto a imagens descritas por meus pacientes em análise, buscando uma espécie de “nutrição de verdade” no mundo de hoje: eles procuram por alfaces que não pareçam plástico, frutas que não sejam insossas como aquelas bonitas do mercado, peitos sem silicone… Para além dos seus significados nas análises individuais, me pergunto o que essas experiências sensoriais da contemporaneidade estarão representando.

Hoje nas grandes cidades vive-se um completo desconhecimento dos processos produtivos, e o consumo é fácil e indiscriminado.  Estaria essa dissociação relacionada a um esvaziamento simbólico na cultura? Existirá uma espécie de banalização do acesso a qualquer coisa, de forma a destituir de valor o objeto de desejo? Haverá um processo semelhante no trato com o outro, que, quando fora do aplicativo, de carne e osso, pode se tornar excessivamente falho, frustrante, trabalhoso, intolerável?

Penso que é situando-nos nesse difícil contexto de múltiplos esvaziamentos que podemos nos colocar a pensar as dificuldades dessa geração em realizar e sustentar investimentos libidinais, tolerando as frustrações impostas pelo princípio de realidade. Falo aqui das relações de trabalho, mas acho que o problema também se estende às ligações amorosas. O substrato real não os ajuda em nada nessa tarefa: vagas precarizadas, vínculos informais, carreiras de ensino superior desparecendo do mercado, extinção da aposentadoria, instituições corrompidas, falidas e desacreditadas – e espaços de conhecer gente cada vez mais deslocados ao espaço virtual, onde basta um clique para se desimplicar.

Há um desafio posto às novas gerações. Elas estão sujeitas a reinventar referências, reconstruir a solidez na cultura e restabelecer, à sua maneira, a capacidade de ligação.

*Renata Zambonelli é Psiquiatra e Psicanalista, membro filiada à SBPSP | renatazambonelli.psi@gmail.com

Sobre a Feminilidade

**Anne Lise diMoise S. Scappaticci

Tentarei expor algumas ideias acerca do feminino do ponto de vista mental. Estas linhas refletem o meu modo de pensar a feminilidade como psicanalista e partem da minha experiência de trabalho clínico apoiada nas análises de mulheres das mais diversas faixas etárias que tive a oportunidade de acompanhar.

Penso, tanto em meu trabalho clínico como na vida em geral, na questão de gênero como entrada na vida psíquica, algo maior e não apenas “gênero”, “sexo” ou, ainda, “sexualidade” – em sua acepção mais restrita e literal da palavra. Está ligada a identidade, a busca de si mesmo e, portanto, à “autobiografia” de cada um de nós. De algum modo, a feminilidade está sempre presente em nossos relacionamentos. O feminino não é prerrogativa de gênero – tratar-se de homem ou mulher – , mas, sim, poder pensar com a emoção em algo cuja natureza permanece envolvida no mistério. Não pode ser revelada, somente intuída. Se houver condições, pode ser vivida.

O feminino é, portanto, algo inaugural no psiquismo humano. É, e sempre será, mistério, algo original, origem de cada um, matriz, o que leva à busca de aproximação ao longo de toda a vida, nunca o bastante. Uma condição de infinitude que vai ganhando formas finitas à medida em que descobrimos nosso próprio método de apreensão do real e que podemos, gradualmente, ir descartando a fantasia onipotente de posse do mesmo.

Melanie Klein, psicanalista que investigou profundamente a vida mental infantil, focalizou o mundo primitivo feminino de maneira concreta. Curiosidade e respeito pelo interior do corpo materno constituindo interesse pela descoberta de seu próprio mundo interno, ampliando o sentido de responsabilidade. Assim, uma janela se abre para o infinito, feminilidade.

Por outro lado, descreveu o desejo de possuir e esvaziar o ventre materno, o espaço mental íntimo e sagrado sendo vorazmente profanado, despertando o receio de retaliação. Retrata a Luta para sair da Melancolia e tolerar o Luto pela dor provocada. O preponderar desta dimensão satura o mental de dor não sentida. Luta-dor…

As questões de gênero estão, portanto, relacionadas com a identidade de cada um. Assim, ao descobrir a feminilidade colocamos em evidência a tensão existente entre o feminino e o masculino em nós mesmos, um intercurso psíquico. Nestes momentos, vivenciamos a tensão do contato com o desconhecido, do nunca abordado, o que, de um lado, desperta a curiosidade e, de outro, o medo pelo tumulto que a experiência emocional engendra.

Se a pessoa tem uma noção e uma abertura para a sua vida psíquica, ela se torna um autor, conquista sua própria autoria. Cada “autor” possui profundamente uma noção pessoal da própria verdade, e esta seria a sua janela para o mundo. A feminilidade é a conversa permanente e íntima entre o sentir e o pensar, funções interligadas e nunca completamente satisfeitas. Justamente por unir ambas, cada vez que uma noção de si é atingida, apesar de ser uma sensação de acordo efêmera, ela permanece no psiquismo de maneira profunda. Assinatura da alma?!

Um caso clínico

Cavalgada…

Estou diante de uma mulher que chora um choro sentido e desesperado, que me faz remexer na cadeira sem encontrar conforto.

Suas lágrimas parecem esvaziar seus recursos, seu continente.

Embora siga seu discurso, seu tom de lamento me lança para longe de seu conteúdo. O clima é de desesperança. “A rosa está despedaçada”, ela repete e repete. Olho para ela e paro em seus cabelos. Está deixando-os crescer grisalhos; metade da cabeça é cinza e a outra, preta. É quando, de repente, digo a ela que estou ouvindo uma música. “Roberto Carlos”, eu complemento, “Cavalgada, se intitula”. Ela responde que aquilo parece brega demais e eu concordo com um “sim. Muito!”, mas a música e a situação me emocionam. Canto para ela o trecho que me vem  à  cabeça e depois ouvimos a música juntas.

Vou me agarrar aos seus cabelos/ Pra não cair do seu galope…Sem me importar se neste instante sou dominado ou se domino/ Vou me sentir como um gigante/ Ou nada mais do que um menino…
Estrelas mudam de lugar/ Chegam mais perto só pra ver/ E ainda brilham de manhã/ Depois do nosso adormecer/ E na grandeza deste instante
O amor cavalga sem saber/ E na beleza desta hora/ O sol espera pra nascer”

Despeço-me com o Tema de Alice, interpretada por Adriana Calcanhoto

 Se eu não disser nada
Como é que eu vou saber?
Onde fica a estrada
Do castelo do querer
Qual a resposta?
Me diga, então
Qual é a pergunta?
Se eu não disser nada
Como eu vou saber
Onde fica a chave
Do mistério de viver?

*The room with a view (1985).Reino Unido. Diretor: James Ivory

**Anne Lise diMoise S Scappaticci é psicanalista pelo IPA, professora e didata da  Sociedade Brasileira de Psicanálise e doutora em Saúde Mental pelo Departamento de Psiquiatria da UNIFESP.  | annelisescappaticci@yahoo.it

 

*** O artigo será publicado integralmente pela editora Blucher num livro coordenado por Claudio Castelo e Renato Trachtenberg sobre o Feminino.

Uma reflexão sobre o lixo eletrônico tóxico e seus efeitos no psiquismo

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Diferentemente das pacientes da cena de Viena de Dr. Freud, as meninas de hoje protestam em CAPS LOCK ao invés de mergulharem na repressão e na resignação. Nossas jovens millennials lutam pelo feminismo desde cedo, questionando o papel da mulher. Brigam para serem ouvidas na escola, enfrentando, a seu modo, uma sociedade que emoldura e enfraquece o sexo feminino.

Esse questionamento me parece ter aparecido antes de se sentirem acuadas no papel feminino. Essa reflexão é, hoje, construída junto com a feminilidade, não posteriormente. Ponto para a nova geração!

As meninas de hoje relatam também abusos sofridos em grupos fechados de mulheres nas redes sociais: “Share your pepeka” é um deles, no qual trocam experiências referentes à sexualidade. Há também o #agoraéquesãoelas, um movimento para que revelem em seus perfis virtuais os abusos sofridos.

Em contrapartida, essas mesmas meninas que brigam para serem respeitadas por suas escolhas sexuais entoam canções de funkeiros que são absolutamente desrespeitosos com a figura feminina, por vezes violentos. Os tais “proibidões” são a antítese desse discurso feminista. Colocam a mulher num contexto que banaliza não apenas a sexualidade, como as drogas. Me pergunto se essas jovens que cantam essas canções compreendem, de fato, o que propagam. Se questionam a si mesmas se querem ser tratadas pelos parceiros como as personagens das canções de suas playlists.

Recentemente assisti ao documentário Hot Girls Wanted, que investiga a entrada de jovens meninas no mercado pornográfico. Todas por volta de 18 anos, em busca de dias de glória e glamour. “Já que vou transar, por que não filmar? Já que o nude pode vazar, melhor eu mesma me expor por vontade própria” , relata uma das jovens. São meninas que entram nesse mercado em busca de fama e sucesso às custas de uma exposição violenta e precoce. Uma decisão impulsiva, um acting out em busca de independência.

O espectador acompanha com tristeza a falta de intimidade dessas meninas consigo mesmas, com seus sentimentos, com seu próprio corpo. O olhar assustado e, por vezes, opaco que elas trocam com os parceiros-atores, a violência à qual se submetem, a falta de amor pelo próprio corpo. O filme é uma denuncia triste. Vale assistir para refletir.

Refletir que toda uma geração formará sua sexualidade assistindo a vídeos na internet e esbarrarão nos mais diversos conteúdos. Ouvindo canções repletas de violência e promiscuidade que podem vir a ser a canção-tema de uma noite marcante. O desabrochar dessa fase marca toda uma relação “eu-corpo” que durará por toda a vida. Intimidade não pode ser excluída desse período, como se fosse algo sem valor.

Trata-se de um espaço importante da construção do psiquismo. O fantasiar foi, em alguns aspectos, substituído pelo Google, e muitas vezes o conteúdo digital é assustador. A internet oferece possibilidades diversas, sem que o jovem tenha um aparelho digestivo psíquico suficientemente forte.

Devemos pensar cuidadosamente sobre como as mídias podem ser invasivas, sobre o que é informação e o que é lixo eletrônico tóxico, cujos resíduos ficam marcados permanentemente numa mente em formação.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

 

Big Little Lies – a grande mentira sobre as mulheres

*Marielle Kellermann

Big Little Lies é uma série de uma temporada com 7 episódios produzida pela HBO. Baseada em um romance de mesmo nome da escritora australiana Liane Moriarty, estreou em fevereiro de 2017 e já recebeu ótimas críticas e apreciação do público.

Resumindo de forma rápida, a série começa com um assassinato e se desenvolve com uma trama bem desenhada até o desfecho, quando o espectador descobre quem morreu e quem é o assassino.

Esse é o fio que alinhava cenas repetidas de mães levando seus filhos à escola passando por pontes suspensas em uma pequena e rica cidade da Califórnia. As personagens principais são mulheres que se conhecem por terem seus filhos estudando no mesmo colégio. Reese Witherspoon e Nicole Kidman estão entre as estrelas da série.

As cenas de início de cada episódio são repetidas, mas nem por isso são monótonas. Aliás, talvez por essa razão, carregam cada vez mais em certa tensão que se desfaz apenas no final. Mães em seus carros, levando seus filhos à escola pela manhã, por vezes absortas em pensamentos. Em outros momentos, tentando, em vão, fazer contato com filhos que prestam mais atenção em seus celulares, fones de ouvido e Ipads, as personagens vêm e vão por sobre pontes elevadas na costa do Pacífico. Um vento constante sopra, dando a impressão de que estão todo o tempo à beira de um precipício.

De início o espectador se vê diante de mulheres com as quais é difícil empatizar, pois elas rivalizam entre si, boicotam a festa de aniversário de uma criança só porque não gostam da mãe dela, tomam seus maridos por confidentes de sua competição, invejam e odeiam umas às outras.

Uma personagem sofre por ser uma profissional de sucesso e exagera na decoração e lembrancinhas da festa da filha por temer que as outras mães a considerem relapsa por trabalhar. Outra abandonou uma carreira exitosa e tenta, sem sucesso, convencer-se de que ser exclusivamente mãe e esposa é suficiente. Uma outra tem um caso em segredo com um colega de trabalho e vive uma batalha permanente com o ex-marido e a atual esposa dele, com quem a filha adolescente parece ter mais proximidade e mais afeto. Outra personagem central na trama é uma mãe vítima de estupro que vive o conflito de ver em seu filho a violência do pai/ agressor.

Nicole Kidman ganhou o Emmy e o ator que faz seu marido também levou o prêmio como coadjuvante, não sem mérito. Ambos fazem um casal cuja relação violenta e abusiva se mescla à quase perfeição de suas belezas, das roupas, dos filhos gêmeos e da casa à beira-mar. A personagem de Nicole Kidman maquia os hematomas no corpo e esconde as dores da relação violenta mantendo uma visão idealizada que todos têm de sua família.

A personagem que foi estuprada costuma correr pelos penhascos à beira-mar, flertando com um possível suicídio – a ideia de que todas podem cair a qualquer momento está sempre presente -,  mas uma cena simples parece fundamental para mostrar sobre o que fala Big Little Lies. Essa personagem, mãe, jovem, solteira, vítima de um estupro, corre sempre sozinha. Mas, a partir do momento em que faz amizade com outras duas personagens (Nicole Kidman e Reese Witherspoon) e passa a correr acompanhada, com uma amiga de cada lado, ela não parece mais que pode cair.

Sem spoilers para o final da trama, a descoberta sobre quem morre e quem mata parece nos contar de que grande mentira a série trata. As pequenas mentiras fazem parte das histórias pessoais de cada mulher, a violência, a insegurança, um amante, mas a real big lie talvez seja a ideia – criada, vendida, anunciada – de que elas são rivais, de que estão umas contra as outras, de que se ameaçam.

A última cena se dá na praia, as personagens estão juntas, os filhos brincam. Talvez a maior mentira seja a de que mulheres não podem se apoiar, se admirar, se ajudar. Big Little Lies é, afinal, uma série delicada, bem feita, bem produzida e que, longe de estereótipos feministas ou ideias militantes, conta uma nova versão sobre possíveis relações entre mulheres, que talvez não seja uma versão contada por homens.

Pois como diz Rosa Montero em “A Louca da Casa” (2003): “(…) à medida que nós, mulheres romancistas, formos completando essa descrição de um mundo que antes só existia em nosso interior, tornamos esse mundo um patrimônio de todos.”.

 

*Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado ao Instituto da SBPSP, editora da International Psychoanalytical Studies Organization e fã de carteirinha de séries boas.

 

O pulso ainda pulsa: “Our souls at night”

Maria Cristina Labate Mantovanini*

Acabou de estrear na Netflix “Our souls at night”, dirigido por Ritesh Batra e estrelado por Jane Fonda e Robert Redford. O filme poderia passar despercebido, como mais uma história de amor “água com açúcar”, para se assistir num domingo à noite, se não fosse por um pequeno, porém relevante, detalhe: a idade de seus protagonistas, ambos beirando os 80 anos.

Outra boa surpresa: os personagens, apesar da idade, não estão morrendo, vítimas de uma doença terminal, e tampouco estão sofrendo de alguma grave demência senil. Em “Our souls at night” o amor na velhice não foi confinado no porão escuro e úmido das memórias fugidias de um passado longínquo, reafirmando a ideia que não há lugar para o amor quando não se é mais jovem. Tampouco, no filme, o amor foi relegado à descrição vil e deprimente do seu fim, causado pela morte, sempre demorada e cruel, de um dos parceiros.

Nessa singela história de amor, Addie  e Louis (Jane Fonda e Robert Redford) são vizinhos, viúvos, sozinhos e com filhos adultos que moram em outras cidades. Os dois se aproximam, se conhecem, tornam-se amigos e namoram.

A ousadia do filme é revelar que amor e erotismo não são exclusividade das pessoas jovens. Addie e Louis vão, aos poucos, tornando-se amigos. Ao narrarem um para o outro seus passados, vão recuperando partes doloridas e sombrias de suas vidas, revisitando tristezas e mágoas, compreendendo melhor suas escolhas, se perdoando.

Não há premência no amor desse novo casal de velhos. Não há pressa em se consumar nada. Há apenas uma vontade de se estar junto, lado a lado, em se perceber não mais tão sozinho. Amor, esse, tão diferente do amor juvenil, sempre vivido velozmente, com urgência, a sugar todo o seu sumo até a última gota.

Addie e Louis passam as noites conversando, rememorando e dormindo. Vão pouco a pouco encantando-se um com outro, acordando, lentamente, algo dentro deles que havia sido esquecido e deixado para trás, provavelmente, ao findar da juventude.

Juntos vão ao cinema, ao restaurante, cuidam do neto de Addie, acampam, viajam, dançam. Assim, ambos são tocados por um pulsar que diz haver vida, vida essa que havia sido esquecida, mas que delicadamente foi reinvestida e renascida.

Para finalizar, acho importante destacar que é muito surpreendente e corajoso, em tempos de culto à eterna juventude do corpo e da alma – em que  ser velho é quase uma falha moral – , um filme mostrar, de forma extremamente elegante, a cena de dois atores velhos, com seus corpos envelhecidos, na cama, se beijando, prestes a ter uma noite de sexo.

 

*Maria Cristina Labate Mantovanini é psicanalista, membro associado da SBPSP e Doutora em Psicologia da Educação pela FEUSP.

Frida Sofia: um mito moderno?

Leda Beolchi Spessoto

Durante a tragédia do terremoto que atingiu o México, uma notícia ganhou contornos especiais e milhares de pessoas ao redor do mundo sofreram e se angustiaram na expectativa do resgate de Frida Sofia.

Enquanto muitos lutavam bravamente pelo resgate das vítimas, um desafio foi se impondo: sob os escombros de uma escola, Frida Sofia , uma menina de doze anos,  esperava pelo salvamento.

Com o passar do tempo, as versões da notícia iam se modificando: não seria mais uma menina apenas, mas três… depois cinco; Frida havia mexido a mão etc. Informações errôneas plantadas deliberadamente ou não se alastravam, dados contraditórios e não compatíveis com as buscas se acumulavam: não havia registros na escola de jovem com tal nome, não aprecia a família em nenhum momento,  entre outros.

Finalmente a constatação vem a público: Frida Sofia não existe!

Acusações e a procura dos possíveis responsáveis pela informação errada se tornam o novo alvo das notícias. Além de pessoas que isoladamente admitiram ter contribuído para a criação de Frida Sofia, vale destacar também a observação de uma construção coletiva simultânea, onde “cada um que conta um conto aumenta um ponto”. Se já existe até ditado popular com esta compreensão, provavelmente estamos diante de característica da mente humana que se manifesta nestas circunstâncias.

Em seu livro “Mitos de Guerra”, Marie Bonaparte, já em 1946, chamou a atenção para um fenômeno que denominou “Mitos Modernos”. Estes seriam rumores persistentes que adquirem uma rápida difusão oral e cuja análise de conteúdos latentes indica que servem para assimilar psicologicamente situações de angústia coletiva e os conflitos subjacentes, tendo assim um papel semelhante aos mitos no passado. Posteriormente Marie Langer também usa o mesmo conceito para analisar fenômeno semelhante ocorrido em Buenos Aires e relacionado a aspectos da sexualidade, muito bem apreciados em seu livro Maternidade e Sexo.

Retomo aqui esta abordagem  para nos lembrar de que a construção mitológica não foi somente realizada por antigas culturas. Ela pode também ser vista em operação contínua na mente humana que alcança, por meio desse recurso, uma narrativa  organizadora  atribuindo sentido ao que vivemos, sendo uma forma de lidar com angústias e realizar transformações.

Vista deste modo, Frida Sofia é um pedacinho de todos nós!

Por meio da comoção provocada, do resgate ansiado, o desamparo e o medo claustrofóbico tão primitivos que podem nos invadir,  se expressaram e  encontraram solidariedade e amparo emocional. Segue o desafio para partes soterradas de nossa mente que podem novamente necessitar de ajuda para sobreviver quando aprisionadas em terremotos emocionais que a vida nos traz. Precisamos, talvez mais do que gostaríamos, do gesto que nos ampara e da mente que nos acolhe.

Enquanto a condição sonhante da nossa mente estiver disponível para nos salvar das angústias e transformá-las, possivelmente os mitos estarão sempre se renovando de alguma forma.

Leda Beolchi Spessoto é psiquiatra  e psicanalista, membro efetivo da SBPSP e coordenadora de seminários teóricos do Instituto de Psicanálise  da SBPSP