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Uma autobiografia kleiniana

*Alexandre Socha

O ímpeto em narrar a própria história e dar a ela algum sentido é uma das mais fortes necessidades da natureza humana. Ela assume inúmeras formas, das pinturas rupestres ao diário íntimo, passando pela criação artística e pela função dos testemunhos. Existem aqueles que escrevem suas lembranças para torná-las mais vívidas, resgatá-las da penumbra do esquecimento e da poeira do tempo. Já outros o fazem justamente para conseguir esquecer, fiando-se na permanência do papel e sua concretude externa para delas poder se libertar.

Pouco sabemos sobre o que pode ter levado Melanie Klein, às vésperas de completar 78 anos, a debruçar-se sobre suas memórias em um texto autobiográfico. Sabemos, todavia, tratar-se de um de seus últimos registros, contemporâneo, portanto, a “Sobre o sentimento de solidão”, “Algumas reflexões sobre a Oréstia” e outros trabalhos incompletos. Klein vinha redigindo breves notas sobre sua vida e as reuniu em um texto único, de trinta páginas, no final de 1959, meses antes de seu falecimento.

Em uma espécie de “retorno às origens”, recupera nessas notas o ambiente de sua própria infância e os inícios de sua trajetória psicanalítica. Cenas prosaicas do cotidiano doméstico, da vida escolar, de sua relação com o judaísmo e linhagens familiares, desfilam como paisagens na janela de um trem – ou, por que não, como associações livres feitas no divã da folha em branco. Delas emerge um passado idílico e nostálgico, exigindo do leitor um constante esforço para contextualizar tais reminiscências ao momento em que foram escritas. Pois, assim como ocorre no divã psicanalítico, as lembranças – sejam elas encobridoras ou não – trazem sempre a marca do momento atual. Como assegura o velho ditado, “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”.

Diante do valor documental das notas autobiográficas, disponibilizadas recentemente ao grande público pelo Melanie Klein Trust, acaba de ser publicado o livro “Melanie Klein: Autobiografia comentada” (Blucher)[1]. Além da tradução inédita do texto para o português, cuidadosamente realizada por Elsa Vera Kunze Post Susemihl, a edição conta com quatro comentários feitos por colegas que há décadas se dedicam ao estudo de Klein. R. D. Hinshelwood (Londres), Liana Pinto Chaves (São Paulo), Claudia Frank (Stuttgart) e Izelinda Garcia de Barros (São Paulo) amplificam as ressonâncias da Autobiografia e oferecem novos substratos à sua leitura. Foi também incluído nessa edição o relato de James Gammill sobre sua experiência de supervisão com Melanie Klein, ocorrida, coincidentemente, no mesmo período em que se deu a reunião de suas notas autobiográficas.

Entre a vida e a obra

Não foram poucos os analistas que se dedicaram a escrever suas memórias. Guardariam elas algo de suas concepções teóricas e clínicas? Seria o conteúdo autobiográfico semelhante ao biográfico, frequentemente utilizado pelos pesquisadores para iluminar pontos obscuros de uma obra e revelar os contextos de sua construção?

Toda escrita psicanalítica parece carregar, ainda que involuntariamente, alguma marca autobiográfica. Afinal, sua origem remete sempre a uma relação íntima do analista, tanto com seu paciente, instituição ou fenômeno cultural abordado, quanto consigo próprio e com sua experiência vivida na ocasião. Essa “autobiografia” implícita, a que perpassa o conjunto de uma obra, pode, por vezes, não coincidir plenamente com uma autobiografia stricto sensu do mesmo autor, correndo ambas silenciosamente em paralelo. Um olhar mais detido sobre elas, no entanto, permite encontramos complementariedades em aparentes contradições.

O ensaio memorialístico “Um estudo Autobiográfico” (1925), que Sigmund Freud escreve sob encomenda para uma editora alemã, é um caso emblemático e um contraponto interessante ao texto de Klein. Logo aquele que em tantas ocasiões expôs, aberta ou disfarçadamente, elementos de sua vida privada, sonhos, medos e ambições, apresenta-se em suas memórias “oficiais” claramente reservado e cauteloso. Dez anos depois, no pós-escrito de 1935, Freud explicita seu posicionamento: “em alguns de meus escritos (…) fui mais franco e aberto do que costumam ser as pessoas que narram sua vida para os contemporâneos e os pósteros. Não me foi demonstrada muita gratidão por isso; a experiência me leva a desaconselhar que outros o façam.”

Suas reminiscências nesse texto são equivalentes à própria história da psicanálise e de sua invenção. São, em particular, a história pormenorizada das oposições e difamações enfrentadas pela psicanálise, os custos pessoais para o seu desenvolvimento, o alto preço que pagou por ele e as defesas que se tornaram necessárias erigir. Embora apresente-se como relato objetivo de um percurso científico, a narrativa freudiana transpira de modo sutil a reiteração de uma mitologia pessoal: Freud é aquele que sobreviveu aos ataques e provações para que sua verdade prevalecesse. Rompeu a repressão da era vitoriana com uma revolução que, de fato, até hoje não foi totalmente assimilada: a da sexualidade infantil e seus efeitos na vida psíquica. Tal qual o mito do herói, seu autor sai das inúmeras dificuldades transformado, podendo nos contar então sobre as batalhas vencidas e as marcas que lhe deixaram.

Em que pese as circunstâncias bastante distintas em que foi escrita, a narrativa kleiniana não apresenta, em termos manifestos, praticamente nada sobre suas conquistas, adversidades ou mesmo sobre o desenvolvimento do seu pensamento. Antes, há passagens extensas onde pairam uma visão do infantil, o seu próprio, compondo uma descrição conciliatória de objetos que buscam reestabelecer uma relação amorosa entre si. Mesmo sendo um autorretrato bastante comedido, seria difícil não correlacionar tais perspectivas com aquilo que a autora produziu ao longo de quatro décadas como analista de crianças e adultos.

Ao lado de Helene Deutsch e Karen Horney, Melanie Klein propôs uma visão renovada do feminino dentro da teoria psicanalítica e explorou suas múltiplas latitudes na prática clínica. Suas contribuições, contudo, foram mais além do que as de suas contemporâneas e operaram um verdadeiro deslocamento no eixo gravitacional da metapsicologia freudiana, voltando-se das interdições da figura paterna para a questão da maternidade e das particularidades da relação inicial que se estabelece entre o bebê e sua mãe. Nesse caminho, Klein inaugurou uma perspectiva original dentro do campo psicanalítico, cujo desdobramento ultrapassou as fronteiras do kleinismo e se ramificou por diferentes vias, ainda hoje em desenvolvimento.

Do mesmo modo como em Freud e outros autores, há elementos biográficos sabidos, mais ou menos reconhecíveis, em vários dos principais artigos que Klein publicou em vida. Somada a uma notável perspicácia e capacidade de observação clínica, soube como poucos transformar experiências dolorosas (lutos, ambivalências, perseguições, perdas, rivalidades, etc.) em construções teóricas sofisticadas sobre o funcionamento mental. À percepção de que alguns de seus trabalhos brotaram de um sofrimento pessoal e de sua elaboração, vem somar-se agora este “novo” texto que acaba de completar 60 anos: sua Autobiografia.

*Alexandre Socha é psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

[1] O lançamento do livro será realizado no dia 19 de outubro, às 11 horas, na SBPSP, em reunião aberta e entrada franca.

Bacurau

 O Brasil em potência

* Marielle Kellermann Barbosa

Bacurau, longa metragem, dirigido pelos diretores pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, estreou no fim de agosto de 2019, nos cinemas do Brasil, depois de ter ganho o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e também eleito como o melhor filme do Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, e do 23º Festival de Cinema de Lima, no Peru.

Aos que ainda não assistiram, não se preocupem com spoilers, Bacurau é um filme que mais interessa o “como” do que o “o quê”. Bacurau resistirá a qualquer spoiler.

A palavra que dá nome ao filme é a da cidade na qual a trama se desenrola, situada no interior de Pernambuco, em algum futuro incerto – o fato da história se passar em uma distopia futurista ela se apresenta em sinais delicados ao longo do filme – o nome da cidade é a de um pássaro do sertão, um pássaro forte, que só sai à noite.

Bacurau é pobre, sofre com falta de água, sofre com a ganância comum e conhecida de um político, que distribui comida vencida e livros como se fossem lixo, os moradores não têm a beleza convencional do cinema, peles marcadas pelo sol, chinelos nos pés, insetos voando dentro das casas, suor na testa do professor. Mas Bacurau não é apenas pobre, no começo do longa metragem, uma moça retorna à cidade de origem para o velório de sua avó. Avó negra, morta aos 94 anos, é contada como uma árvore anciã da qual descendem frutos, na voz de seu filho, que conduz o velório, Dona Carmelita teve filhos, netos, netas e bisnetos, médicos, professores, putas, arquitetos, pedreiros. Da avó idosa negra, uma linhagem de filhos negros, netos mestiços que se espalharam pelo Brasil e pelo mundo.

Em Bacurau, há um professor negro, há uma médica lésbica (interpretada por Sônia Braga), as crianças aprendem música, há biblioteca e há museu. A igreja serve de depósito – curiosa escolha a dos roteiristas (que também são os diretores), essa de deixar a igreja fechada.

Lunga, um anti-herói necessário, tido como criminoso e procurado pela justiça, é uma personagem curiosa, espécie de Lampião andrógino, vestido com acessórios dignos de um Mad Max do sertão.

O enredo da trama segue em ritmo diferente do conhecido, até certo ponto adiantado do filme, o telespectador se questiona do que se trata aquela história, porém, mesmo sem entregar às explicações sobre o enredo, o filme se desenrola com uma tensão constante e bem administrada.

Bacurau começa a sofrer ataques, pessoas são mortas. Um casal branco do Sudeste age juntamente a um grupo norte-americano. Em um dos diálogos, digno de clássico Tarantinesco, o casal brasileiro diz ser igual aos americanos: “Nós somos do Sudeste, de uma região rica de colônias alemãs e italianas, somos iguais a vocês”. Iguais? Ri um personagem norte-americano retratado como um red neck (expressão usada para designar caipiras norte-americanos, comumente violentos e pouco instruídos, típicos eleitores de Trump).

O casal de brasileiros brancos chega a Bacurau, os habitantes da cidade são gentis, mas desconfiados, o repentista da cidade nega o dinheiro oferecido pela mulher carioca revelando, por sua música, a arrogância e a prepotência dos brasileiros ricos. Bacurau é sertão pernambucano, é Brasil, mas também é “Game of Thrones”, Idade Média, o repentista – bobo da corte – denuncia, em piada, a suposta superioridade do Sul em relação ao Nordeste. Lunga, o fora da lei, vive em uma “torre”, armado e protegido, os norte-americanos, absolutamente convictos de estarem caçando mais animais do que gente, encarnam a superioridade colonialista opressora em relação às pessoas do terceiro mundo.

E, em meio a esse conjunto de referências, o sertanejo aparece como Euclides da Cunha os nomeou: antes de tudo, um forte.

Os personagens habitantes de Bacurau sorriem, simpáticos, em sua suposta ingenuidade infantil de cidadezinha de mentira. Um morador da cidade, homem negro, conhecedor de ervas e plantas, percebe o ataque eminente e se defende de seus agressores. Da parede do museu da cidade, as armas, da época de lampião, servem como proteção.

A violência, que tem ares de Tarantino, é avaliada pelos próprios personagens. Pacote – personagem central, um anti-herói mais para herói, menos fantasiado que Lunga – pergunta a uma das netas de Dona Carmelita:  Você não acha que Lunga exagerou? Não.

Tampouco sobra, para o espectador, violência sem sentido.

Bacurau é denúncia, é crítica, é suposição. Bacurau é um novo nordestino, potente. É um medo de para onde possamos caminhar. Uma lembrança do que pode voltar a ser.

Em um cortejo no qual o DJ narra nomes de vítimas mortas, os nomes, misturados a outros: Marielle, Marisa Letícia.

Filme oportuno ao momento político presente.

* Marielle Kellermann Barbosa é psicanalista, Membro Filiado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Vice: o poder revela

* Julio Hirschhorn Gheller

Farei algumas considerações a respeito do filme Vice, que narra a trajetória daquele que foi o vice-presidente mais poderoso dos Estados Unidos. Podemos acompanhar como alguém destituído de carisma, um estudante medíocre, dado a bebedeiras e que foi expulso da universidade, chega a uma posição de tamanha relevância.

Observamos o papel essencial de sua esposa Lynne, que injeta ambição em Dick para que ele deixe de ser o que parecia ser um perfeito projeto de fracasso pessoal, um loser em potencial. Após receber um ultimato, em que a mulher ameaça deixá-lo, ele se apruma e vai à luta, conseguindo um estágio que o inicia na carreira política.

A partir da experiência como assessor de Donald Rumsfeld, um mestre a lhe ensinar os segredos dos bastidores da Casa Branca e do Congresso, ele vai se transformando em uma raposa, desejosa de experimentar o gosto do poder. O seu olhar brilha ao comentar o aperto de mão com o presidente Nixon.

Percebemos que ele começa a ser tomado por uma espécie de narcisismo grandioso. A pista é dada pelo seu sogro, quando diz que Dick se acha o “fodão”. Sim, provavelmente, ele anseia por dar a volta por cima e triunfar sobre os fracassos do passado. Este será o combustível a impulsioná-lo daí para a frente.

Vai subindo de posto e chega a ser nomeado chefe de gabinete do presidente Ford, que sucedeu a Nixon depois do escândalo de Watergate. Cada vez mais ele se aprofunda no conhecimento da máquina governamental em seus meandros internos.

O papel decisivo de Lynne como propulsora da campanha de Dick para o Congresso – logo após o primeiro de uma série de infartos – confirma sua importância como a força motriz que liga o botão narcísico de Dick, incentivando-o a crescer. O discurso dela, ao assumir a campanha do marido enfermo, é raso: baseia-se em uma reducionista noção do “certo contra errado”. No entanto, a energia e convicção da comunicação cativam um público conservador e de visão curta, conseguindo eleger Dick.

Ao ocupar o cargo de secretário da Defesa de Bush pai, sexto posto na hierarquia do poder, Dick chega a sonhar com a presidência. Logo cai em si e desiste, pois o fato de ter uma filha lésbica seria explorado contra ele por qualquer adversário.

Depois dos anos Clinton, período em que enriquece como CEO de uma grande petrolífera, é chamado para ser vice de Bush filho, por quem nutre evidente desprezo. Aproveita a fragilidade do futuro presidente e impõe a condição de dividir funções com ele. A reivindicação é atendida e ele vai acabar comandando áreas vitais como segurança, orçamento e política externa. Aliás, desde a tumultuada transição do governo Clinton para o de Bush – com a séria suspeita de fraude na apuração de votos na Flórida – ele já vai manobrando para colocar seus homens de confiança em postos-chave. Inclusive, seu antigo mestre, Rumsfeld, será o novo secretário da Defesa.

Logo, o veremos procedendo como o mandatário do país no fatídico 11/09/2001, dia do ataque às Torres Gêmeas, e daí para a frente será o artífice da campanha antiterrorista e, especialmente, da invasão do Iraque, sob o pretexto de que o líder Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, acusação esta que nunca foi comprovada. Os fabricantes de armas e as indústrias de petróleo agradeceram por seu ímpeto bélico.

O ataque ao Iraque produz grandes perdas, que não resultam em nenhum sinal de arrependimento de sua parte. Assim como no emblemático episódio da caçada, em que ele acerta um tiro em um integrante de seu grupo. Quem se desculpa – por mais incrível que possa parecer – é o indivíduo que levou o tiro, lamentando ter estragado o fim de semana de Cheney.

As críticas à invasão do Iraque aumentam, pedindo sua renúncia. Ele, então, manipula o presidente para que demita Rumsfeld, seu antigo mentor. Rummy lhe diz: eu não sabia que você era “such a cold son of a bitch”.

Quando a campanha de eleição da sua filha mais velha para a Câmara dos Representantes ameaça fracassar, ele a autoriza a condenar expressamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, num esforço para conquistar o eleitorado conservador. Aparece aí o trator que não tem escrúpulos.  Assim como havia feito com Rumsfeld, joga a própria filha caçula aos leões.

Não se arrepende de nada. Diz em entrevista: “Não faço questão de parecer bonzinho. Fiz o que precisava ser feito para proteger o país”.

Podemos deduzir que o exercício do poder revela sua faceta autoritária e truculenta. Ele alcança a satisfação narcísica de derrotar quem quer que venha a se interpor no seu caminho. Trata-se da irresistível experiência de fruição de um gozo embriagador. Refiro-me ao prazer obtido à revelia das interdições, embutindo o escárnio e o desafio da lei. “A lei, ora a lei; a lei é para ser interpretada do jeito que me convém”, deve pensar ele.

Estamos diante de alguém que exibe arrogância, onipotência (posso tudo!), onisciência (sei tudo!) e negação da realidade. São traços indicativos do que pode ser entendido como a parte psicótica da personalidade, existente em todos os indivíduos (até os psiquicamente mais saudáveis), emergindo em certas circunstâncias. Cheney não tem a capacidade de reconhecer erros, admitir os danos por ele causados e sentir culpa. Sendo assim, é incapaz de sequer esboçar uma tentativa de reparação dos males que provocou. A condição de reconhecer culpas e reparar danos indica o amadurecimento de quem não permaneceu fixado na perspectiva maniqueísta do tudo ou nada, do completo bom versus o completo mau.

A trama me leva a pensar na destrutividade tal como discutida por Freud em Mal-estar na Cultura. Ao elaborar o conceito de pulsão de morte, expressa o seu ceticismo em relação ao ser humano. Para que a civilização prevaleça é necessário modular e controlar os instintos sexuais e agressivos, aceitando fazer as necessárias renúncias pulsionais. Freud relembra que o homem é o lobo do próprio homem. O ser humano não é gentil por natureza, pois é evidente sua inclinação para a agressão. Se puder explorar a força de trabalho do outro sem recompensá-lo, ele o fará. Se puder aproveitar-se sexualmente do outro sem seu consentimento, ele o fará. Não se importará em humilhá-lo e tripudiar sobre ele. No seminal artigo de 1930, ele enumera diversos exemplos históricos de barbárie, inclusive aquele que era, na época, o mais recente: a primeira Grande Guerra Mundial de 1914-1918. Ele ainda viveria o terror da segunda Grande Guerra, quando, idoso e doente, teve que fugir da perseguição nazista, indo para Londres, onde veio a falecer.

Sabemos que em 1930 ele já havia perdido uma filha e um neto. Desde 1923 lutava contra um câncer no palato e mandíbula. Ao morrer, em 1939, já havia passado por cerca de 30 cirurgias e falava com muita dificuldade. Ainda assim, continuava produtivo e escrevendo. Era um exemplo de que as forças de vida estão relacionadas à capacidade de pensar, discernir e discriminar os elementos da realidade. E, mais do que tudo, estão na base do empenho em buscar as melhores maneiras de lidar com a realidade, por mais sombria que ela seja.

 

 

*Julio Hirschhorn Gheller, é médico pela Faculdade de Medicina da USP; Residência em Psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da SBPSP.

 

Psychoanalysis.Today

* Marina Kon Bilenky

A resistência ao fluxo migratório na Hungria, a explosão de uma bomba numa boate gay em Orlando, a separação de famílias na fronteira dos Estados Unidos, a divisão na Esplanada dos Ministérios nas manifestações pró e contra o impeachment da presidenta Dilma. É o New York Times? É a Folha de S. Paulo? Não! É a Psychoanalysis.Today, revista eletrônica on-line da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), em parceria com a Federação Europeia de Psicanálise (FEP), a Federação Psicanalítica de América Latina (FEPAL), a Associação Psicanalítica Americana (APsaA) e a Confederação Norte-americana de Psicanálise (NAPsaC).

O que Freud teria pensado se lesse os artigos escritos por psicanalistas do mundo todo e que tratam de questões de nossa contemporaneidade? O pai da psicanálise trabalhou incansavelmente para divulgar suas ideias. Passou dias incontáveis viajando de navio pelos oceanos, esperou semanas para, finalmente, ler as tão ansiadas respostas das cartas que trocava com seus interlocutores de outros países. Hoje, no tempo de um clique, podemos nos comunicar com pessoas de qualquer parte do planeta. As reuniões do Psychoanalysis.Today ocorrem via aplicativo on-line, que conecta os editores que residem nas várias latitudes: Índia, Brasil, Argentina, Alemanha, França e Estados Unidos.

Freud lutou muito para ampliar seu círculo de colaboradores. Comemorou intensamente a entrada de Jung, que representava o avanço das ideias psicanalíticas em direção à Europa central. Essa conquista era tão importante para o movimento psicanalítico da época, que o psicólogo suíço foi designado o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional em 1910, data de sua fundação.

Hoje, pouco mais de um século depois, a psicanálise se espalhou pelos cinco continentes e as ideias freudianas foram de tal forma incorporadas ao nosso mundo, que expressões como “Freud explica” e outros termos psicanalíticos fazem parte do vocabulário corrente da população em geral.  Nosso mundo está interconectado e a tecnologia se desenvolve rapidamente, possibilitando maneiras cada vez mais eficientes de vencer os desafios da distância e do tempo de deslocamento. Isso gera consequências: a aceleração, a necessidade de maior agilidade nos processos de decisão, o excesso de informações e o menor tempo para seu processamento.

É neste contexto que surge a ideia da criação de uma revista eletrônica internacional: uma publicação com a finalidade de desenvolver um senso de comunidade psicanalítica internacional e estimular a troca científica e a discussão entre as diferentes regiões ligadas à IPA. Em agosto de 2013, Stefano Bolognini apresentou essa ideia durante o Congresso de Praga. Os representantes das diferentes confederações, em conjunto com o board da IPA, veem aí a possibilidade de finalmente encontrar um espaço para uma representatividade mais democrática, dentro do movimento psicanalítico internacional, e decidem apoiar o projeto. Psychoanalysis.Today seria equanimemente gerido e financiado pelas regiões (Fepal, APsaA/NAPsaC e EPF) e pela IPA.  Os artigos seriam mais curtos, possibilitando sua leitura em intervalos menores de tempo e a publicação on-line facilitaria o acesso aos conteúdos psicanalíticos. A revista eletrônica seria destinada a psicanalistas mais experientes, mas também ao público geral e jovem, interessado em conhecer as ideias psicanalíticas. Seria um veículo para a difusão da psicanálise.

Em meados de 2015, Psychoanalysis.Today publica sua primeira edição (“A primeira vez”). Sua comissão editorial é composta por oito editores, dois de cada região. A revista eletrônica possui traduções em cinco versões: inglês, francês, espanhol, alemão e português. Com o e-journal, o Brasil conquistou um lugar oficial na IPA e está plenamente representado pela versão em português e conta com um editor brasileiro, responsável por divulgar o pensamento psicanalítico de seu país.

Muitos temas já foram desenvolvidos nas diferentes edições, sempre escolhidos para contemplar assuntos contemporâneos, que estão sendo discutidos no mundo e no universo da psicanálise e à época de sua publicação. Cada artigo desenvolve uma perspectiva, que varia de acordo com o olhar específico de seu autor e que reflete sua herança teórica e cultural e as vivências a que está sujeito, a partir de sua inserção na comunidade que o rodeia.

Você quer pensar a respeito do que foi discutido no último congresso em Londres? Quer conhecer o que pensa um psicanalista japonês sobre a sexualidade? Ou se interessa por acompanhar o raciocínio teórico sobre a diversidade de gênero desenvolvido por um psicanalista francês? Em nossa última edição, “Sexualidades e Diversidade”, você encontra essas e outras abordagens sobre esse tema, que foi debatido vigorosamente no Congresso, realizado em Julho de 2019, que contou com 2.500 participantes provenientes dos cinco continentes e incontáveis painéis e mesas de discussão, revelando um pensamento psicanalítico vivo, rico e estimulante.

Para finalizar, convido a todos para visitar a página, comentar e participar. É só um clique: http://www.psychoanalysis.today/pt-PT/Home.aspx

 

*Marina Kon Bilenky, membro associado da SBPSP, é editora brasileira de Psychoanalysis.Today desde 2017.  Foi presidente da Associação dos Membros Filiados (2003- 2004), membro da comissão editorial da Revista Brasileira de Psicanálise (2005-2014), é psicanalista e supervisora do Ambulatório de Transtornos Somáticos do IPq – FMUSP desde 2011 e autora do livro Vergonha, publicado pela Blucher em 2016.

A Amazônia incendiada e os lacaios da morte

Ricardo Trapé Trinca

Estranho saber que sobrevoa sobre nós um enorme rio de vapor de água, vindo da região amazônica. Mais estranho ainda foi avistá-lo descendo de seu sobrevoo, imensamente pesado e escuro, com a aparência de que despencaria, em uma improvável segunda-feira, à tarde. Vindo de tão longe, parecia nos trazer, incrédulos e despreparados destinatários, os registros de um desastre, como uma carta escura, sem letra alguma, mas que contava desses restos – de árvores, plantas, animais, pássaros, insetos e microorganismos, conhecidos e desconhecidos – carbonizados por gigantescos fornos a céu aberto. Essas partículas sobrevoaram nossa cidade à luz do dia e criaram um obscurecimento radical da luz, como a forma mais apropriada para a revelação desse desastre. Precisávamos do obscurecimento da luminosidade para poder vê-lo. Ainda com espanto percebemos que, em seguida, precipitou-se como uma chuva marrom em alguns pontos da cidade; era uma chuva de mortos.

Nesse dia eu não realizava uma de minhas atividades preferidas: vagar pelas ruas, ver as coisas e, eventualmente, pensar. Não realizava por pura impossibilidade, frequente, a bem da verdade. Essa atividade, bem como realizar ofícios a longo prazo, não costuma ser possível em épocas como a nossa, em que não se pode perder tempo, e é necessário ser pragmático.

Foi como um susto observar o dia obscuro surgir repentinamente, enquanto trabalhava. Parecia uma pintura precisa de nossa época. Posteriormente, um pensamento surgiu: “por quanto tempo conseguiremos pensar em meio aos vestígios dos mortos”?

Nesse mesmo dia, pensei se acaso não exploraríamos a nós mesmos do mesmo modo como exploramos o mundo; e que a atividade predatória e exploratória da vida parece, às vezes, passar de qualquer limite, inclusive da legalidade. Não costumamos reparar, no entanto, como a meta disso é a própria destruição. Digo isso porque se exploramos predatoriamente o mundo e a nós mesmos, agimos como se fôssemos constituídos por objetos nascidos e existentes para esse propósito, o que nos faz trilhar caminhos opostos a qualquer sustentabilidade.

É sempre sofrido observar como podemos nos tratar como um objeto a ser manipulado, de acordo com certa pragmática. Mas não seria essa a lógica da destruição? Enquanto olhava as nuvens negras e o dia absolutamente sem luz, pensava como o pragmatismo destrói a diferença, já que a alteridade e o desconhecido não servem mesmo para ser usados, pois não são manipuláveis. E isso porque não são úteis para se realizar qualquer troca. Eles não podem ser explorados ou vendidos. Penso em uma árvore: sua poética e seu ecossistema não são o mesmo que o carvão. Mas o carvão, por sua vez, é pragmático, bem como a madeira. O carvão e a madeira são objetos, ou melhor, são entificações de um ser e têm a forma de uma qualidade útil. Ao atribuir um predicado a algo desconhecido, aparentemente, eu enriqueço esse ser, mas na verdade tendo a empobrecê-lo, quando o identifico com tal nomeação. Isso porque o ser, na verdade, parece se resguardar em um ainda a mais, nesse espaço de indeterminação, mais do que no nomeado. Poetizar, pensar e psicanalisar é ter esse a mais ao alcance, descobrindo seus aspectos desconhecidos, sem precisar esgotá-lo.

Assim como uma árvore, a vida das pessoas é assim, um mistério. Transformado em objetos a serem manipulados, o mistério desaparece. E é assustador pensar isso com o dia sem luz. Mas como fazer para recuperar a relação com a alteridade e o desconhecido? Lembro-me de uma entrevista com o filósofo Sul-Coreano Byung-Chul Han (2019): “por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, [eu] fazia tudo com as mãos”. Acho muito bonita essa passagem. Ela faz pensar que em nossa época algumas atividades humanas vão se tornando, aos poucos, profundamente desconhecidas para nós, como a participação no processo de produzir um objeto, a contemplação da natureza e o ócio. Essas palavras existem, mas nosso pensar nelas não se adentra. São palavras que vão pouco a pouco se tornando magras e frias (Fenollosa) e talvez tendam a desaparecer.

Uma interessante representação da ideia do progresso está na imagem de Paul Bunyan. Criado pelo jornalista norte-americano James McGillivray e, posteriormente, tornado animação pela Disney (1958), é um personagem baseado no folclore americano de um enorme lenhador, cuja altura atingiria as nuvens. Com seu afiado machado poderia rapidamente derrubar uma floresta inteira e com seus pés afundar o que delas restara para o fundo da terra. Essa força e proeza serviriam para que a agricultura e a pecuária fossem realizadas, para que o homem encontrasse nesse mundo sua próspera morada. Trata-se da imagem de um homem com recursos inimagináveis, com forças sobre-humanas, capacidades quase inesgotáveis de trabalho. Importante notar como a ideia de progresso parece depender de uma imagem assim, absolutamente idealizada do devir humano. Mas é, acima de tudo, uma idealização e que escamoteia a exploração predatória que o homem faz de si mesmo e do mundo.

A racionalidade da relação produtiva não é sustentável, ela parece ser assentada em forças destrutivas, mais do que em forças de vida. Ou como afirma Agnes Heller:

os totalitarismos nos ensinaram que os maus instintos podem matar milhares, dezenas de milhares, mas só a razão pode matar milhões de pessoas, porque a ideologia baseada no pensamento racional estabelece que matar é certo. A maldade pode matar alguns, mas é a persuasão, o apelo à razão, que pode levar a fazer as coisas muito mais terríveis (Altares, 2017).

Podemos dizer, sem titubear, que queimar a floresta é eminentemente uma atividade racional. Mas em que a razão se fundamenta?

A exploração predatória visa à transformação da alteridade como diferença viva e desconhecida para um objeto que tem um objetivo determinado. Queima-se a floresta para fazer um campo aberto. Não se considera a existência viva. Não há o vivo. Quem destrói não sente a existência daquilo que é vivo. E isso é um diferencial simples e fundamental, pois não há como racionalmente convencer alguém que uma árvore é viva. E o que faz com que uma pessoa possa pressentir o vivo? Será que a compreensão e respeito pelo vivo decorre da experiência sobre o que é vivo em si mesmo? Freud (2010/1920) já havia notado como a pulsão de vida era tão somente um lacaio das forças de morte. Mas que consideração realmente temos sobre a verdade e a vida? É preciso saber da morte para compreender a fragilidade da vida e saber do peso nefasto da mentira para apreciar e precisar da verdade.

Nessa imagem de Paul Bunyam, as forças extraordinárias do lenhador mostrariam que não há nenhuma exploração de si mesmo, mas forças dispendiosas, que sobram. Uma potência inesgotável – mas nada mais mentiroso. Mas que lugar de morada seria esse, em que somos compelidos a destruir continuamente para habitar? Não haveria lugar para o homem no mundo que não fosse por meio dessa destruição do mundo? Até que ponto estamos naturalizados com a auto exploração predatória? Segundo Byung-Chul Han: “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. ‘Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo’” (Geli, 2017). Talvez trate-se de mais um capítulo da nossa servidão voluntária (La Boétie), isso porque a destruição da Amazônia e a autoexploração predatória de si mesmo parecem convergir no desprezo pela vida e na objetificação do mundo, segundo o qual o desconhecido é afastado de nosso campo de visão para o uso daquilo que está à mão como fonte de recurso momentâneo. Sim, o desconhecido passa a ser inexistente e o que sobra é braço e a perna para trabalhar, as aldeias para atrapalhar e a madeira para retirar. Enfim, a destruição. A Amazônia queima. Quem a queima? Até quando seremos os lacaios da morte?

Referências

 Geli, C. (2019). Hoje o Indivíduo se explora e acredita que isso é realização [entrevista com Byung-Chul Han]. Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 24 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM

Altares, G. (2017). A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis [entrevista com Agnes Heller] Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 25 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In S. Freud.  obras completas de Sigmund Freud (P.C.Souza, trad., Vol. XIV). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920).

Fenollosa, E. (1977). Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia. In Campos, H. de (org.). Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem. São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em 1936).

 

* Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp).

Queimam as Florestas

Leopold Nosek

Nosso ambiente está em questão, a ecologia se tornou nosso tema.

Os anos após a 1ª guerra mundial gestaram monstros. Em 1940, pouco antes de morrer, Walter Benjamim escreveu as suas famosas teses sobre a História. Lembra num trecho que assolados pelo obscurantismo até os mortos estão em perigo. Alerta também para os perigos do tratamento equivocado dos que se opõem à barbárie, mas se deixam levar por uma temporalidade linear e da visão de um progresso inevitável no horizonte.

Nunca havia pensado que me defrontaria com o risco que os mortos correm e que vi essa cena explicitada na homenagem pública que um torturador mereceu, em ambiente de nossas mais importantes instituições até então democráticas. A aceitação da tortura não apenas é uma violência que se abate sobre sua vítima, sua presença implica na aceitação do projeto de destruir o humano e o pensamento em toda a ecologia social onde esse fato ocorre. Tal projeto foi explicitamente reafirmado no ataque feito a um desaparecido no contexto de um debate com a OAB. Esses fatos que podem ser considerados detalhes são de fato sintomas de algo muito mais amplo e, afinal, nós analistas temos a “mania” de pensar o geral a partir de singularidades.

Enquanto se gestava o Ovo da Serpente, Freud, em meio à sua prosaica vida de médico, em Viena, desenvolvia uma ampliação revolucionária de seu pensamento. Não estava mais como eixo de sua prática a interpretação dos sonhos, mas sim a sua construção. A psicanálise passa, então, a se debruçar sobre a origem e o desenvolvimento do pensamento. Isso se radicaliza nos anos 70 e vemos isso, por exemplo, na obra de Laplanche, nos exemplos da Grade de Bion, também no trajeto de pulsão em suas diferentes camadas de representação explicitados por Green.  A psicanálise se aproxima da literatura e da arte. Contemporânea a esta transformação, Freud se aproxima cada vez mais de temas que, ao mesmo tempo que metaforizam a sua teorização, se refletem em preocupações acerca da sociedade. Em sua vida pessoal, comete um engano trágico como se vê nas suas hesitações em publicar Moisés e o Monoteísmo, quando, explicitamente, afirma confiar nas forças conservadoras e religiosas de que estas se oporiam à barbárie que estava no horizonte. Lembremos como esse texto radicaliza a percepção da violência que entranha as origens da civilização. Freud, no entanto, assiste à entrada triunfal das forças nazistas em Viena, onde são recebidas em delírio pela população local e apenas sobrevive graças aos esforços de Marie Bonaparte. No entanto, suas irmãs têm destino final nos campos de concentração. Temos no nosso passado a diáspora analítica da “mitteleurope” e, recentemente, num plano menor a diáspora argentina no regime militar.

A história não se repetirá, as reminiscências vão requerer um trabalho reflexivo nas novas circunstâncias. Assistimos a transformações assombrosas com o fim das utopias do século XX, a concentração enorme do capital que, muitas vezes, é maior que o recurso de nações e põe em xeque os estados nacionais, a revolução tecnológica e a informação, a mudança de formas de trabalho e tantas outras, que seria impossível desenvolver nesse espaço. Com isso, as formas tradicionais do agir e do pensar se transformam, também se transformam as formas do sofrimento do espírito. A localização social da classe média se desloca e as profissões da saúde ganham novas práticas. Volta à cena o conceito de Durkheim de anomia. Com a ausência de acervo reflexivo, as certezas e as religiões se tornam majoritárias e fruto de frustrações a violência toma espaço. No espaço das transições crescem os monstros. Como analistas, somos também afetados e minha geração é testemunha dessas mudanças e também das incertezas que estão no horizonte do tempo.

Antes de queimar as florestas há que se queimar o pensamento e o desastre ecológico também se abaterá sobre o pensamento. Nós, psicanalistas, somos herdeiros do iluminismo e como nosso objeto são os sonhos. Gosto de pensar que habitamos um reino onde o obscuro e o assombro imperam e nossa ecologia será a de um iluminismo noturno. Dependemos de uma ecologia do livre pensamento, da busca permanente da verdade, somos companheiros da ciência e das artes, nos alimentamos de experiências e de literatura. Isso nos coloca imediatamente dependentes da liberdade e da democracia. Qualquer ferimento desta nos atinge e não temos alternativa de sermos políticos, no mais íntimo de nossa prática. O incêndio da floresta tem no seu horizonte a destruição do pensamento e essa é uma questão psicanalítica, afinal, supostamente estamos preparados para permanecer pensando em meio à fumaça.

*Leopold Nosek

Psicanalista. Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP. Foi Presidente da SBPSP (1993/1994 e 1995/1996), da FEBRAPSI (1991/1993) e da FEPAL (2010/2012). Também integrou o board da International Psychanalitical Association (IPA) e foi chair do Comitê de Psicanálise e Cultura da instituição. Recebeu o prêmio Mary Sigourney Award 2014.

AURORA

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS –

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. 

Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

 Luís Filipe Parrado

 

AURORA

Helena Cunha Di Ciero Mourão

Outro dia mesmo era eu sentada no chão do aeroporto jogando truco, pensei, quando encontrei um bando de adolescentes sentados numa típica viagem escolar, nem aí para a hora do Brasil, na calçada com seus telefones celulares tocando música sertaneja. Sorrindo com leveza, zombando uns dos outros, coloridos pelo viço, pelas tatuagens. “Ei, espere, já fui uma de vocês” – tive vontade de dizer para aquela plateia nada interessada naquela mãe de duas crianças que faziam birra na calçada, exaustas pelas horas de voo. Essa sou eu, constatei.

Foi assim, de repente, que cresci e virei gente grande. Ali no espelho, eu olhei e deixei de ver a adolescente que um dia eu fui. Na verdade, hoje até estranho essa moça que eu vejo nas fotos tão cheia de sonhos, que achava que a vida com ela seria mais doce, menos dura, mais generosa. Tinha algo em mim que achava que a adolescente em mim duraria para sempre, tal qual metal precioso. E tentei mumificar esse ser que um dia eu fui por um tempo, confesso com certo embaraço. Até que, num dado momento, foi preciso fazer uma despedida e assumir que a adulta agora me possuía mais do que nunca. Não foi de propósito; a aurora da minha vida passou e foi embora sem se despedir. Com o final dessa primavera começou a vida de adulto, sem pedir permissão.

É assim que se dá o crescimento; a gente se adapta finalmente a uma situação e ela acaba. E as rugas mapeiam esse anúncio sem dó nem piedade. O tempo se impõe, simplesmente.

Fácil verbalizar isso após os trinta, com quilômetros rodados. Mas há uma tristeza nesse discurso, um luto, uma dor e uma perda. Pois bem, para um adolescente, a mesma sensação se presentifica. O momento é outro, mas é também marcado por uma transformação. Contudo, falta repertório, palavras, sobram angústias e sensações.

A adolescência é a passagem do mundo infantil para o adulto, uma ponte, uma travessia. Tudo isso envolve uma adaptação, e toda adaptação é precedida por uma crise. Aquele corpo de criança se vê invadido por pelos, espinhas, partes que crescem desgovernadamente, uma voz que desafina, hormônios que não existiam. Esses novos habitantes daquele espaço tão gracioso do corpo infantil não chegam de forma harmônica.

Esse processo é marcado por uma sensação de estranhamento, de não pertencimento. Já diziam os Titãs: “Eu não caibo mais na roupa que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria, mas quando me olhei achei tão estranho, a minha barba estava desse tamanho.”

Há ao mesmo tempo uma excitação com a conquista de mais autonomia e também tristeza pelas cobranças do mundo da maturidade. Além da dor da perda do lugar privilegiado da criança.

Os pais, que antes eram um lugar de proteção, tornam-se figuras persecutórias por tentarem colocar limites nas realizações de desejos do jovem. O que traz a estrofe de outra canção: “Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer “.

Nesse período da vida há um luto das figuras parentais idealizadas. Logo, o lugar de herói fica desocupado e por isso, há uma busca por ídolos e novos modelos de identificação. O jovem está desesperado em busca de formar essa nova identidade.

David Leviski (1998) destaca que embora fisicamente o adolescente esteja apto a exercer suas funções, ainda encontra-se diante de forças da cultura e da sociedade e do risco que existem ante os desejos de plena liberação e desenvolvimento dessas funções.

Calligaris,C. (2000) adiciona que apesar da maturação dos corpos a autonomia reverenciada, idealizada por todos como valor supremo, é reprimida, deixada para mais tarde.

É como se tornassem estrangeiros num mundo que sempre lhe foi familiar. Por isso as amizades nessa fase são tão importantes, constroem um muro para proteger aquele Ego frágil em transformação.

Costumo dizer que são como Ferraris com motor de Brasília amarela. Lataria linda, mas o interior precisa de cuidados. O corpo de adulto e a mente infantil são parte de um mesmo indivíduo. E essa mente não é capaz de conter aquele novo corpo em desenvolvimento, numa ardência pulsional. Na crise da adolescência, há uma sexualidade aflorando descontroladamente e torna-se difícil lidar com seus impulsos.

De acordo com o psicanalista Marcelo Viñar (2005) a juventude não pode ser definida como realidade cronológica, e sim como um tempo de mutação que marca um antes e um depois. Isso pois a essência da adolescência é o ímpeto, o movimento. Como se captura o vento ou o fogo quando sua marca é a instabilidade?

Atendo adolescentes há alguns anos no consultório e me sinto bastante privilegiada por receber esses pacientes no momento em que a dança da vida se apresenta para eles. Recebo-os como quem recebe botões de rosa fechados, cheios de esperança, ao mesmo tempo frágeis e cheio de espinhos. E procuro dar-lhes algum contorno. Não é um trabalho fácil, ajudá-los nessa transição. Explicar-lhes que a vida é mesmo contraditória. Que os amores acabam. Falar-lhes sobre leis num país onde elas são constantemente desrespeitadas. Explicar-lhes sobre autoimagem numa cultura de Photoshop. Ajudá-los a compreender que esse corpo que pulsa não pode fazer exatamente aquilo que deseja a despeito de sua intensidade.

Contudo, acredito que um jovem, quando acolhido e compreendido nesse transbordamento emocional, nos sinaliza um futuro mais colorido e cheio de esperança.

Trabalhar com esses pacientes que vêm com a marca da pressa, da urgência, do efêmero do nosso tempo atual pode ser rejuvenescedor. Convidá-los a um momento de pausa e reflexão é quase um ato revolucionário. Pois perceber também o quanto essa geração chegando se alimenta de relações qualitativas, basta haver uma intenção, me faz acreditar num horizonte mais azul. Sim, eles assistem lixo na internet, mas também são capazes de se encantar com um belo poema, um bom filme, quando convidados. Basta estender-lhes a mão nessa passagem.

Devemos ser cuidadosos, como adultos, para continuarmos investindo nos adolescentes, não com um olhar invejoso do jovem que deixamos de ser. É importante dar credibilidade aos sentimentos dos jovens, tentar compreender suas dores e angústias. Oferecer um amparo nesse momento de tempestade. Essa é a aposta esperançosa.

O aumento dos suicídios na adolescência nos denuncia um vazio. Que vazio é esse? Seria o vazio do nosso olhar? Como adultos? Será que estamos preocupados com o legado que estamos deixando para os jovens, em acolher esses seres em transformação?

Ou será que estamos tão preocupados em perpetuar nossa juventude que nos esquecemos de cuidar de nossos jovens? Será que, ao nos conformarmos com nosso lugar de envelhecimento, não podemos lhes oferecer a proteção que necessitam?

Pensa na força dessa corrente.

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão percebeu, no fim da escrita, que fez uma escolha quase sem querer de canções para ilustrar o texto. Renato Russo e Titãs não vieram aleatoriamente, vieram lembrar minha adolescência.

 

Calligaris, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000

Levisky, David Léo Adolescência : reflexões psicanalíticas / David Léo Levisky. – 4. ed. – São Paulo : Zagodoni, 2013.

Vinar . M  (2005)La Juventud en el Mundo de Hoy. Ser Sujeto Adolescente en el tercer milenio. Abril 2005. Soc. Brasilera de Psicología de Sao Paulo.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, especialista em Psicologia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).

 

À flor da pele

Andreza Miranda

Em 24 de junho, assisti a um evento na Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP) intitulado “Diálogo e Humanidades: o autoritarismo e a História do Brasil”. Eventos como esse são verdadeiras provas de resistência para mim: uma mulher negra de origem humilde e que, por um conjunto de fatores e de circunstâncias, surpreendentemente, encontra-se agora neste auditório, na Vila Olímpia.

Há um incômodo que me transporta ao “deslugar“, me sinto “morena”, da mesma forma que ocorria em situações sociais não muito remotas, nas quais pessoas próximas e queridas tentavam suavizar meu tom de pele, gravemente escuro. E assim me angustio: estar aqui seria uma traição aos meus irmãos e ancestrais?

Sinto asco da “coisa preta” que, desde sempre, é branca. E da mulata que pegou um cabo de vassoura e dançou com ou para Juscelino, pouco importam os detalhes do fato, diante da “mulata”, biologicamente estéril, mas sensualíssima. Há muito por dizer, mas sofro repentinamente de uma mudez; a mudez de uma intrusa bem-vinda e que empalidece como uma “camaleoa”

Sofrendo da escuridão à flor da pele, revivendo o trauma ancestral nas palavras do estereotipado narrador, que historicamente oprime, que renarrando herculeamente tenta remover maquiagens branqueadoras – atenuantes – ainda que de forma atabalhoada num ideal antirracista.

Minha sensação é espantosamente a mesma da qual me contam meus parentes sobre lugares que outrora não podiam entrar. Me lembro que sempre protestei com o argumento questionador: “Onde isto estava escrito?”. Agora, entendo que não precisa estar escrito, basta estar sentido.

Eu tropeço em mim mesma quando faço o teste do pescoço e penso em mim construída neste projeto de embranquecimento sumário e genocida. O teste do pescoço é o desolador giro da cabeça para o lado esquerdo e para o direito, no qual você pode comprovar em tempo real a solidão e o desamparo, quando se trata de inclusão racial no Brasil.

Como desconstruir, a partir de tudo o que nos constrói: a pureza do branco, a sujeira escura, o crespo duro e ruim, o liso ideal e bom… discursos constitutivos e resistentes sempre a serviço das pessoas de bem que dominam as belas palavras e que contam a História.

Apesar de me ver no assunto não me sinto totalmente nele. Por instantes sou fragmentos coloridos, disfarces e represento uma falsa ilusão de inclusão. Questiono-me: afinal, de que adianta estar neste lugar de escuta saturada de sentimentos que temem vir à luz?

Mas, ao mesmo tempo, há o alívio de poder divergir, convergindo para o lugar onde sorrateiramente e indulgentemente me conduzem e com o qual não deixo de me identificar, extermínio e enclausuramento.

Somos parte de um mesmo todo, somos capturados pelas mesmas armadilhas da linguagem e das boas maneiras trazidas da mais tenra idade, desde a “lista negra” à “carta branca”, passando pela “mulatice etmologicamente infértil”, até a “alvura virginal”.

E, na vã e inglória tentativa de descobrir de qual lugar devo falar e de que ausência de lugar é essa que parto, sigo e me dou conta de que é preciso respirar e decifrar a estranheza como aquela de quando, pela primeira vez, me descobri e tenho me dito negra.

 

Andreza Miranda é estudante de Psicologia

Um necessário diálogo entre a Psicanálise e as Ciências Humanas

AMF – Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” (George Santayana, The Life foi Reason, 1905)

 

Diante dos recentes discursos de ataques às ciências humanas em nosso país, e suas possíveis consequências, a Associação dos Membros Filiados (AMF) ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), decidiu promover um ciclo de encontros entre a Psicanálise e as Humanidades.

O primeiro diálogo proposto foi entre a Psicanálise e a História, em torno do tema “O Autoritarismo no Brasil”. Recebemos como convidadas a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, da Universidade de São Paulo (USP), e a psicanalista Noemi Moritz Kon, do Instituto Sedes Sapientiae, numa conversa mediada por Flávia Steuer, fonoaudióloga e psicanalista, membro filiado ao Instituto de Psicanálise da SBPSP e do departamento de Psicanálise do Sedes. A escolha destas convidadas, oriundas de diferentes instituições, foi intencional e marca o desejo de que este diálogo abra as fronteiras entre as instituições, a fim de que possamos conversar e nos envolver em uma mobilização conjunta.

Em clima de conversa, Lilia nos trouxe um apanhado de seu recente livro, “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das letras, São Paulo, 2019), e nos apresentou o conceito de “democradura”, para designar um fenômeno em expansão no Brasil e em outros países do mundo, em que as instituições democráticas se vêem ameaçadas.

Nas “democraduras”, o adversário político é transformado em um inimigo a ser combatido, diferentemente do que se espera nas democracias, de fato, onde os adversários são importantes e, jogar com as diferenças, é fundamental para o fortalecimento da democracia. Afinal, numa democracia plena não se espera que as diferenças desapareçam, muito pelo contrário, seu bom funcionamento depende do diálogo e da convivência entre os diferentes.

Lilia fez também uma retomada histórica da constituição do povo brasileiro e do papel da escravidão em nossa cultura. Mostrou como o modelo escravocrata, de domínio e de submissão, preconceituoso e intolerante ao diferente, está presente até hoje e enraizado em nossa cultura, embora durante muito tempo tenhamos nos acreditado um povo tolerante, pacífico e pouco preconceituoso.

Em uma pesquisa realizada na USP, na década de 90, pessoas foram questionadas se elas se consideravam preconceituosas e 99% dos entrevistados responderam que não. A seguir, perguntou-se se conheciam alguém preconceituoso e 97% disseram que sim, e reconheceram pessoas próximas de si como preconceituosas (familiares, amigos, vizinhos). Este é um dado espantoso e revelador de como o brasileiro se sente “uma ilha de democracia cercada de preconceituosos por todos os lados”, como citado por Lilia.

Nas últimas eleições, a intensa polarização se mostrou no jogo do “nós contra eles”, deixando explícita a intolerância de todas as formas, como podemos verificar pelo aumento da violência e da discriminação por cor, raça, gênero e religião. No entanto, este não é um fenômeno recente, mas algo que se repete na história de um país que foi fundado em bases escravocratas e de intensa desigualdade social, de oportunidades e de acesso a educação, saúde, moradia, entre outras.

Noemi entrou na conversa para introduzir em que medida a Psicanálise dialoga com a cultura e com a história do Brasil, e como poderia contribuir para o entendimento e o enfrentamento das intolerâncias em nossa sociedade. A Psicanálise, tanto na clínica quanto na instituição psicanalítica, nos permite revelações. Em nossas clínicas, vemos os efeitos que a história e os acontecimentos sociais do país provocam em cada sujeito, e consequentemente, em nossa cultura. O psicanalista, além de sujeito da própria cultura, tem um papel fundamental de testemunho das marcas que estes acontecimentos deixam no psiquismo de cada um e da coletividade.

A cultura nos veste como uma segunda pele, complementa Lilia, de modo que não a vemos mais, e assim não a percebemos. É papel das ciências humanas em nos auxiliar para iluminá-la.

Em nível institucional, Noemi compartilha que uma aluna do Instituto Sedes Sapientiae denunciou uma fala  racista, durante uma aula, revelando algo que antes estava invisível, e permitindo a abertura de um espaço de reflexão e de produção de conhecimento. A abertura desta escuta levou à formação de um grupo de psicanalistas atentos à questão racial, e à publicação do livro “Racismo e o Negro no Brasil. Questões para a Psicanálise” (Perspectiva, São Paulo, 2017).

Como na aula citada por Noemi, certamente nos deparamos, diariamente, com manifestações preconceituosas, na vida pública e na vida privada. Por vezes, percebemos incomodados que essas manifestações são nossas, como muito ilustrou a conversa com o público presente neste evento, majoritariamente branco. A SBPSP, teve como uma de suas pioneiras Virgínia Leone Bicudo, mulher, socióloga e negra, mas é uma instituição marcada por predominante presença de brancos, com maior poder econômico. O que mais uma vez revela a cultura de nosso país, onde o conhecimento e as instituições de formação ainda não são acessíveis a todos. Em momentos como esse, não cabe nos apegarmos à nossa frágil ideia da ilha de democracia, mas nos darmos conta do esforço constante que é necessário para reconhecermos e cuidarmos do preconceito e da desigualdade, presentes em cada um de nós.

A escuta psicanalítica não está inerte diante dos fatos históricos e sociais, ela é sensível a eles, promovendo assim uma abertura de nossas clínicas e práticas. Muitos trabalhos estão sendo desenvolvidos fora dos consultórios de análise. Trabalhos em diversas instituições que buscam uma conexão com o que pulsa na cultura e na sociedade, para além de nossos muros. O Sedes conta com uma clínica social, assim como instituições acadêmicas como USP e PUC, entre outras. A SBPSP, por meio da Diretora de Atendimento à Comunidade (DAC), possui um Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) com custo acessível, além de parcerias com diversas instituições, junto às quais desenvolve diferentes trabalhos de escuta e intervenção.

Pensamos  num paralelo entre a Antropologia, que se ocupa da história do homem como povo,  e a Psicanálise que se ocupa da história do homem em sua subjetividade, que não deixa de ser marcada pela história do homem antropológico, incluindo suas origens, cultura e costumes, que ao não ser reconhecida, é repetida por todos e cada um de nós, como povo e como indivíduos.

Lilia finaliza sua fala, no evento, citando Guimarães Rosa, que segue ressoando em nós:

“A vida é assim:  esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

 

 

A AMF é a associação que reúne os membros filiados ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Esse grupo conta hoje com 345 integrantes: médicos, psicólogos e outros profissionais, que têm a psicanálise como referencial teórico e instrumento de trabalho clínico.

Pensemos grupo

Any Trajber Waisbich

Nada melhor do que começar essa conversa contando minha experiência de ensinar psicanálise de grupo no Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Primeiro, observo um certo desconforto, cada vez menor devo afirmar, por parte de profissionais em referendar este procedimento, mesmo ao verificarem, por meio da prática, que análise de grupo é uma análise profunda e não distorce o método psicanalítico.

Vale a pena salientar, que este seminário iniciado em agosto de 2017, supre uma demanda reprimida pelo estudo de conteúdos ligados à psicanálise de grupo, que organizasse o trabalho desenvolvido por vários colegas da SBPSP, que trabalham com grupos em instituições espalhadas pelo estado de SP. Análise de grupo, até pouco tempo atrás não era considerada como opção de estudo na SBPSP. Havia um ranço histórico e era vista como terapia menor, distante da psicanálise, além de incorrer no perigo de fomentar situações psicóticas no interior do agrupamento.

Profissionais creditavam ser este um método utilizado como um dos tantos recursos destinados a resolver uma alta demanda por atendimento em instituições, ora por dificuldades puramente econômicas de seus pacientes, ora por ser esta uma técnica menor de alívio e espera por atendimento individualizado. A não sistematização do tema e o pouco conhecimento teórico são fatores impactantes neste contexto. Estamos no universo da ideologia que impede pensamento.[i]

Uma das dificuldades em se ensinar e discutir psicanálise de grupo por um lado e implantar o dispositivo, por outro, em consultório, como em instituições, evidencia o conflito de profissionais ao questionar teoria, aliás, fator fundamental numa ciência que se repensa. Torna-se cada vez mais evidente que psicanálise de grupo é uma teoria e uma prática não conflitante com o método psicanalítico.

Não por acaso nos últimos anos, a DAC (Diretoria de Atendimento à Comunidade) da SBPSP promove e elabora projetos voltados a atendimento institucionais. A SBPSP, por meio de parcerias, faz-se presente naquilo que de mais valioso pode contribuir, isto é, intervenções psicanalíticas.

Volto ao tema, a inclusão de conceitos grupais se impôs no momento em que a intersubjetividade e a noção de vínculo são temas recorrentes[1] para uma parcela do pensamento psicanalítico. Trata-se da articulação deste sujeito formado na intersecção dos processos intrapsíquicos, dos intersubjetivos e dos vinculares.

Como psicanalista, onde quer que desempenhe sua expertise a psicanálise se fará presente. Assim sendo, surge um complicador devido às diferentes formas de se observar a prática dos profissionais fora de seus locais de atendimento. Insisto, fato muitas vezes ligado a ideologias escolásticas e que inviabilizam debates para além de uma clínica estabelecida.

Como conceber a abrangência das teorias psicanalíticas para se trabalhar grupo como método e validado por técnicos e usuários?

Na sala de aula, acompanhamos a apreensão das escolhas teóricas dos alunos ao se depararem com sua prática. Apreender de que forma os autores instrumentalizam profissionais a elaborarem prototeorias a respeito de cada atendimento é fundamental.

Concomitantemente, desvendamos os meandros da clínica de cada psicanalista, o que nos conduziu a uma vivência intrigante.

Como sabemos, a descoberta de processos psíquicos inconscientes desafia o psicanalista. Ensinar teoria e prática de grupo utilizando como material o próprio agrupamento é temerário, já que este pode se desestabilizar. Esta escolha, no entanto, foi necessária para a finalidade desta vertente.

Viver a formação de um grupo abriu novas perspectivas de atuação para seus integrantes. Verificar o que seria um grupo leva a questionar seus trabalhos nas organizações em que atuam. Investigar a influência dos psicanalistas e das instituições leva, inexoravelmente, a questionar o que impregna o grupo. Num outro momento, verificar o que cada sujeito imprime de singular, de plural e de compartilhado dentro de cada grupo elucida conflitos e provoca reações inesperadas.  Enfim, matéria prima de uma teoria e de uma prática preocupada com os movimentos no interno do grupo.

Exemplifico com uma vinheta, ou melhor, um relato.

Na sala de aula, um dos membros cogitou que aquele seminário pudesse continuar a estudar grupo de forma mais perene. Proposta aceita por todos. Posto isto, a coordenadora, eu, sugeriu a inclusão de novos integrantes. Manifestações no grupo! Havia aqueles favoráveis e aqueles que verbalizaram seu descontentamento.

Um                              – Não vai estragar o clima?

Outro                          – Seria até bom, já que, alguns entre nós vamos parar.

Outro ainda                – Não é bem assim, eu não queria parar, mas no próximo semestre está tudo encavalado.

Coordenadora            – Agora peço licença, vamos ver o que acaba de se passar, se vocês me permitirem.

Um deles                     – O que está acontecendo?

Coordenadora            – O que vocês acham?

Risada geral.

Um                              – Ah! Entendi, falei direto que ia estragar o grupo.

Outro                          – Acho que poderíamos abrir sim, está sendo tão importante este lugar que é bom partilhar e fazer ficar maior.

Coordenadora             – Pois é! Vimos o que é aceitar ou não um estrangeiro, ao vivo e a cores.

Agora teoria: tivemos aqui exemplos de porta-voz ou porta-palavra ou emergente grupal, depende do ângulo que privilegiarem. Vimos este movimento de acolhimento e de repulsa verbalizado por alguns de vocês.

 Riso geral, muitas falas, sensações, adensando o conhecimento. No final, concordou-se em se abrir mais vagas.

O pensamento psicanalítico nos leva a ultrapassar fronteiras e questionar paradigmas e porquê não, o método em si. A inclusão das questões observadas e sistematizadas numa configuração grupal para o universo dual supera a oposição entre estas duas instâncias. Insere este sujeito como o sujeito da relação e ilumina a concepção da intersubjetividade e do vínculo. Portanto, o outro passa a não ser reduzido a uma construção pessoal de mundo interno e, sim, por meio da relação estabelecida entre sujeitos numa formação inconsciente de vínculos. Deste modo, a apreensão da subjetividade se configura na intersecção deste sujeito do inconsciente que se forma através do outro e que é outro para si mesmo.

[1]Kaes, R. (2011) Um Singular Plural. – O problema epistemológico do grupo na Psicanálise. São Paulo, Edições Loyola Jesuítas.

[i] Kaes Ideologia

 

* Any Trajber Waisbich é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Coordenadora de seminários temáticos sobre Psicanálise de grupo junto ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP.