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O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

“Ora direis- Interpretar”: Revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado

Audrey Setton Lopes de Souza

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,

enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto……

Olavo Bilac       

Algumas experiências clínicas nos confrontam com dificuldades no processo analítico nas quais as palavras se mostram insuficientes – tanto para os pacientes transmitirem o que precisam, quanto para o analista entender e comunicar a eles alguma forma de compreensão dessas experiências. É preciso encontrar outros modos de escuta e de interpretação.

A noção de interpretação, fundada a partir do trabalho com pacientes neuróticos adultos, apoia-se em certa concepção do funcionamento psíquico: devido ao recalcamento, apareceriam sintomas cuja função seria encobrir e disfarçar aquilo que foi perdido e que agora não pode mais ser conhecido, sob a ameaça de invasão pela angústia. Nesse modelo, a função primordial da interpretação seria tornar o sujeito mais capaz de reencontrar-se com o que foi perdido. A clínica atual nos coloca frequentemente diante de pacientes que demandam não um trabalho com o que foi perdido, mas com o que aparentemente nem chegou a existir, o não representado ou o irrepresentável.

Em “Construções em análise” (1937), Freud já chamava a atenção para a existência de experiências de natureza traumática que não podem ser evocadas pela lembrança e que demandam novas formas de intervenção. Diferentemente do trabalho interpretativo com pacientes neuróticos para os quais a análise opera na linha do “per levare”, estes pacientes necessitam de um trabalho de “per puore”. A questão que se coloca é sobre que tipo de inscrição adquirem estas experiências e como acessá-las em análise.

Como destacou Tanis (2018) “se o modelo freudiano inicial focava na pulsão e o desejo como forças motivadoras que animavam a vida psíquica ele se enriqueceu com a inclusão do objeto, seja no reconhecimento dos modelos identificatórios, das vicissitudes da trama edípica, na constituição das instancias ideais e nos processos de luto”. Ele chama a atenção para teorizações pós-freudianas que passam a introduzir o foco no objeto como elemento regulador das emoções mais arcaicas do infant: seja na perspectiva da revêrie do Bion, do holding de Winnicott ou de Lacan quando nos fala da alienação no desejo do outro. O que Tanis realça é que “tudo isso não deixou incólume o lugar do analista no devir de uma análise, passou a convocá-lo de novas maneiras e assim as formulações sobre contratransferência e o desejo do analista ganharam força ao mesmo tempo em que o analista intérprete cedia, mas sem renunciar a ele, espaço às outras formas de intervenção e presença, o que nos convoca a renovar a reflexão em torno da abstinência e da postura ética do analista” .

Autores como Botella e Botella (2002), Green (2003, 2008, 1993/2010), Marucco (2007), Ogden (2006) e Roussillon (1991/2005) chamam a atenção para os efeitos psíquicos dessas experiências traumáticas que não alcançam qualquer representação – e portanto não podem ser evocadas –, propondo reflexões sobre novas formas de intervenção.

Uma vivência será experimentada como traumática no momento em que o sistema de representações não consegue captá-la, dar sentido ou torná-la simbólica. Essa vivência, quando não transformada, torna-se excesso de energia causando uma fratura, um vazio na trama de representações trazendo novos desafios para a atividade psicanalítica.

Para Marucco (2007), o trabalho com esses pacientes nos coloca mais próximos do caldeirão do id e mais longe do inconsciente reprimido, que aparece como repetições irrepresentáveis, marcas que ele denomina trauma psíquico/pré-psíquico e que escapam a qualquer possível significação. Assim, a ideia de não representação e de aspectos cindidos do ego coloca novos objetivos para a psicanálise, pois são aspectos que o paciente não poderá relembrar, e sim viver pela primeira vez – experiências que não puderam ser abarcadas pelas representações e que trazem reflexos para a técnica psicanalítica. A insuficiência de simbolização, que implica o predomínio de manifestações através do corpo ou do ato, frequentemente confronta o enquadre analítico e seus recursos, como a clássica posição de neutralidade, o silêncio e a inatividade do analista, as regras do setting, etc.

A necessidade de o paciente vivenciar pela primeira vez os conteúdos cindidos significa uma participação diferente do analista. Seu funcionamento mental torna-se importante. É preciso ajudar o paciente a encontrar algo novo, um objeto analítico – que não é de um e não é de outro – que promova ligaduras com potencial transformador da realidade psíquica (Marucco, 2002, 2007).

A noção de trabalho do negativo, de André Green (1993/2010), também vai nessa direção: esse conceito implica a existência de algo mais do que a ausência, uma presença não presente, um registro apresentado pelo elemento psíquico inexistente, uma qualidade psíquica que se registra pelo negativo. Tal condição, de perda de sentido da representação interna, será considerada por Green como constituindo a representação interna do negativo; uma presença da ausência do objeto e da ausência de sentido, criando um buraco representacional e produzindo estados de esvaziamento e de falta de sentido.

Azevedo (2009) aponta que Green parte do conceito de negativo em Winnicott, condição considerada normal no desenvolvimento infantil, ligada a uma qualidade do funcionamento psíquico, que pode alcançar a noção de que tudo o que constitui o não eu (aquilo que não é possuído) é o negativo do eu. Essa condição depende da existência de um objeto transicional que perdure como vivo, apesar de ausente. A falha do objeto externo produz um estado de persecutoriedade intolerável e a morte desse frágil objeto interno; como resultado, haveria uma retirada de catexia do objeto que corresponderia ao que Green denomina de função des/objetivante e que atuaria como contrária à vida.

O que Green (2003) aponta é que tal identificação da vida pulsional com um objeto que jamais irá satisfazer o sujeito levaria a uma reivindicação de autonomia cuja meta seria atingir um estado de separação, independência e autossuficiência que se manifestaria na clínica como reações terapêuticas negativas e vivências de branco sem palavras, exigindo do analista uma maior tolerância a certo modo de atividade psíquica para poder desempenhar o papel de receptor de complementaridade e ser capaz de “apreender o que não se soube ou não se pode dizer e que se exprime, então, nas formas extraverbais” (Green, 2003, p. 481). Esses pacientes demonstram grande dificuldade para tolerar o enquadre clássico e exigem do analista certa margem de manobra.

“Nestas condições, o analista deve abster-se de deixar o paciente viver experiências que terminarão por revelarem-se mais esterilizantes que fecundas, com a análise tornando-se cronicamente traumática. É nestes casos em que aquilo que foi muito a propósito denominado de “presença” do analista, adquire pleno significado” (Green, 2008 pg 115.)

Roussillon (1991/2005) também observa que devemos localizar a raiz dessas dificuldades nas falhas das experiências iniciais mãe-bebê, na elaboração dos paradoxos da destrutividade ou do uso do objeto e do objeto transicional. As manifestações clínicas desses pacientes são reações à revivescência de experiências infantis marcadas pela ausência de respostas maternas e por certa desqualificação de suas necessidades. O lugar da “matriz original do fantasma” é então deixado vazio; as pacientes são confrontadas a um branco, representando a ausência de representações, vivido como uma profunda ferida narcísica. A angústia assim mobilizada só pode ser contida na urgência do adormecimento ou numa hiperatividade que mantém e evacua, ao mesmo tempo, a excitação não ligável. (p. 210)

Ele acrescenta que, assim como Winnicott propõe que devemos ensinar os pacientes a brincar, nessa clínica somos levados, nem sempre de forma consciente, a “presentear” (formular, pôr em forma) uma atividade comparada ao que Bion descreve como a capacidade de rêverie materna.

Roussillon (2007) aponta que com estes pacientes o “analista pode avançar apenas lentamente e segundo o afrouxamento progressivo das defesas, sendo obrigado a encontrar modos de presença e modalidades técnicas de intervenção, que asseguram uma presença ou mesmo um acompanhamento suficiente, mas à distância e sem comprometer a análise da configuração transferencial”.

Em suas teorizações, tanto Green quanto Roussillon destacam as contribuições de Bion na área do pensamento e não pensamento e do conhecimento negativo (Bion, 1959/1988a) e o conceito de identificação projetiva proposto por Klein (1946/1991).

Klein, no seu trabalho com crianças, também nos mostra que o analista defronta-se frequentemente com crianças com dificuldades  de simbolização apontando para os efeitos devastadores da identificação projetivas maciças  que geram uma escotomização da vida psíquica. Suas contribuições abriram caminhos para modificações técnicas que consideram a importância do papel do analista na função de acolher e significar estas identificações projetivas.

Ampliando as concepções de Klein, Bick (1991) destaca a importância das primeiras situações. Segundo ela,  anteriores à posição esquizoparanoide, para a possibilidade de construção de um objeto continente capaz de acolher as identificações projetivas. Cito aqui a descrição da Izelinda Barros deste processo “Antes da introjeção deste objeto continente, isto é, antes da constituição de um continente interno, e das possibilidades comunicativas oferecidas pela identificação projetiva, a segurança do bebê está depositada nas qualidades sensoriais do objeto materno e self e objeto são experimentados como superfícies sensíveis e contíguas. Nesta fase a dependência do objeto é absoluta; a separação é experimentada como a perda de partes do próprio corpo.”

Ela destaca que o bebê, no início de sua vida, graças ao uso da identificação projetiva e às qualidades de rêverie da mãe, vive uma ilusão de continuidade com ela e, portanto, não é confrontado com a realidade da separação. Por outro lado, repetidos descompassos afetivos na dupla trazem à luz, precocemente, a realidade de corpos e mentes separadas entre o bebê e sua mãe; provocam perturbações no desenvolvimento da pele psíquica e podem levar à constituição de uma “segunda pele” por meio da qual “ a dependência do objeto é substituída por uma pseudoindependência, pelo uso inapropriado de certas funções mentais, com o propósito de criar um substituto para esta função de pele continente” … Bick (op.cit. p197).

Devemos a Bion a apropriação do conceito de identificação projetiva e sua dimensão comunicativa, enfatizando a função de rêverie (Bion, 1962/1988b), primordial para o trabalho com o que Bion denominou  elementos beta: experiências sensoriais brutas e não processadas e que são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006).  É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

No trabalho com pacientes psicóticos, Bion questiona a função da interpretação introduzindo a ideia das funções alfa e beta, e da função de metabolização dos afetos; enfatiza, assim, a importância do objeto real (do analista real e da mãe real) nesse processo, colocando o analista na função de acolher e significar experiências. Sua concepção de função alfa evoca a função mental de transformar as impressões sensoriais brutas, denominadas elementos beta, em elementos alfa. A ideia de elementos beta também aponta para o irrepresentável, pois essas experiências sensoriais brutas e não processadas são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006). É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar.

A função de rêverie (Bion, 1962/1988b) torna-se primordial para o trabalho com os elementos beta. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

Os autores citados se propuseram a pensar a clínica dos pacientes-limite, o campo dos pacientes psicossomáticos, borderline, da angústia do vazio e das dificuldades de simbolização. Nesses casos, o analista é convocado a trabalhar para preencher o vazio, suprimindo o vazio imaginativo do paciente e a ausência simbólica da elaboração psíquica que este foi incapaz de realizar. Eles ressaltam como o analista é, de alguma forma, levado a desenhar imagens que correspondam à vida mental do paciente, ajustando suas possibilidades simbólicas às do paciente.

Na construção de uma história analítica, buscamos desenvolver, dentro da relação, um aparato psíquico capaz de pensar e transformar as experiências emocionais vividas pelos dois membros do par e o que introduz a consideração da disponibilidade analítica para suportar as rupturas do enquadre clássico, utilizando-se de sua capacidade de sonhar.

É necessário conceber a análise como um campo de construção de um objeto continente, que possibilite oferecer a experiência de reconhecimento e de esperança que não pôde ser encontrada na relação com os objetos iniciais.

Com estes pacientes, é necessário rever o conceito de interpretação para além do tornar consciente o inconsciente, abandonar o lugar ascético do analista decifrador de enigmas e encontrar novas formas de intervenção para poder alcançar a experiência em curso.(Souza,2016) Do ponto de vista da experiência como analista, torna-se evidente que não se trata de observar e interpretar o que se passa; é necessário viver e sobreviver ao intenso campo emocional que se forma, acolhendo-o com nossa capacidade de rêverie e ajudando nesse processo de sonhar os sonhos não sonhados.

Bibliografia

Azevedo, A. M. A. (2009). Por que Green? Psicanálise: Revista da SBPdePA, 11(2), 233-244.

Barros, I.G. (2013) Os primórdios da estruturação psíquica como se apresentam na clínica. Revista de Psicanálise de Ribeirão Preto- Bergasse 19; vol. IV nº 1

Bick, E. (1991). A experiência da pele em relações de objeto arcaicas. In E. B. Spillius (Ed.), Melanie Klein Hoje (B. H. Mandelbaum, Trad., pp. 194-198). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1967)

Bion, W. R. (1988a). Ataques ao elo de ligação. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 87-100). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1959)

Bion, W. R. (1988b). Uma teoria sobre o processo de pensar. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 101-109). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1962)

Botella, C. & Botella, S. (2002). Irrepresentável: mais além da representação (M. E. Schneider, P. Ramos & V. Dresch, Trads.). Porto Alegre: Criação Humana; Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Ferro, A. (1998). Na sala de análise: emoções, relatos e transformações (M. Justum, Trad.). Rio de Janeiro: Imago.

Green, A. (2003). A crise do entendimento psicanalítico. In A. Green (Org.), Psicanálise contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise, número especial, 2001 (A. Cabral et al., Trads., pp. 477-491). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2008). Orientações para uma psicanálise contemporânea (A. M. R. Rivarola et al., Trads.). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2010). O trabalho do negativo (F. Murad, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1993)

Klein, M. (1991). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In M. Klein, Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) (B. H. Mandelbaum et al., Trads., pp. 17-43). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1946)

Klein, M. (1996). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (A. Cardoso, Trad., pp. 385-412). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1940)

Marucco, N. (2002). De ayer a hoy, de nosotros a los pioneros: qué escuchamos y cómo intervenimos. Trabalho apresentado na Associação Psicanalítica Argentina.

Marucco, N. (2007). Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, 41(1), 121-136.

Ogden, T. (2006). Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e choros interrompidos. In Livro Anual de Psicanálise (Vol. 20, pp. 173-189). São Paulo: Escuta.

Roussillon, R. (2005). Paradoxos e situações limites da psicanálise (P. Neves, Trad.). São Leopoldo: Unisinos. (Trabalho original publicado em 1991)

Souza, A.L.S. (2016). Construindo formas de comunicação: revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado.  Revista Brasileira de Psicanálise, 50(3), 60-75.

Tanis, B. (2017)- Psicanálise e suas clínicas- Plenária Simpósio Bienal- O mesmo e o outro in http://pdf.blucher.com.br.s3-sa-east-1.amazonaws.com/socialsciencesproceedings/isbsbpsp/28.pdf

 

Audrey Setton Lopes de Souza é psicanalista, Membro efetivo da SBPSP; Professora Doutora do IPUSP- SP e Professora do Departamento de psicanálise da criança DO sedes. asetton@uol.com.br

 

 

Freud e a clínica do século XXI

*Claudia Suannes

Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. A frase de Borges, que serve como ponto de partida da biografia escrita por Elisabeth Roudinesco, soa oportuna para se pensar no aniversário de morte de Freud, dia 23 de setembro, e no lastro do pensamento freudiano na clínica dos tempos atuais.

A radicalidade do pensamento de Freud, que tira da consciência o eixo do funcionamento psíquico humano e marca a importância da sexualidade, produz um impacto que o situa como um dos grandes pensadores do século XX, cujo legado se estende para além da disciplina por ele criada.

São muitas as contribuições de Freud para se pensar a cultura, os fenômenos sociais e políticos, além da própria clínica psicanalítica.  Como é próprio a um pensador de sua envergadura, sua teoria também é objeto de crítica, sendo uma delas expressa no questionamento sobre a eficácia do método psicanalítico na clínica do século XXI.

Renato Mezan, no livro O tronco e os ramos, dedica-se ao estudo da história da psicanálise, tendo como eixo de seu estudo a relação entre o pensamento de Freud e seus sucessores. Partindo das diferenças entre as escolas de psicanálise, Mezan indaga-se como a partir de um tronco comum, Freud, as escolas possam ter produzido teorizações tão diferentes entre si, mantendo-se, ainda assim, em um campo que é reconhecidamente o campo da psicanálise.  Uma linha fecunda de análise que o autor nos apresenta, então, é a noção de “matriz clínica”, que consiste na base a partir da qual cada autor lê e indaga o texto freudiano. Dito de outro modo, no exercício de seu ofício, os psicanalistas têm contato com pacientes diferentes e é a partir de suas inquietações clínicas que cada analista/autor vai engendrar sua reflexão teórica, privilegiando, para tanto, aspectos da teoria freudiana que melhor permitem pensar os fenômenos com os quais se deparam.

O que me interessa marcar na citação do trabalho de Mezan é a consideração sobre a noção de matriz clínica como fonte de desenvolvimento do pensamento freudiano. Isto é, a radicalidade do método psicanalítico, que contém em seu bojo a possibilidade de escuta às diferentes expressões de sofrimento psíquico e aos modos particulares de se haver com este sofrimento. O subsequente esforço de teorização sobre esses fenômenos encontra na imagem do tronco e seus ramos a expressão de vigor e de possibilidade de constante renovação. Basta abrir os jornais, sair pelas ruas ou receber um novo paciente para constatamos que o terroir dos dias atuais constitui um terreno fértil para o desenvolvimento da psicanálise.

Em homenagem à sua contribuição para a psicanálise, escrevi breve reflexão sobre a influência de Freud para a clínica no século XXI neste outro artigo, publicado em 2015 no blog da AMF (Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise da SBPSP).

Cláudia Suannes é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Contato: clausuannes@gmail.com

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

Protect me from what I want

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Somos feitos de som e fúria, já dizia Sheakespeare. O velho Freud adicionaria que, entre fezes e sangue, nascemos. A verdade é que não somos assim tão puros e limpos como postamos por aí. Embora os filtros virtuais tentem a todo custo disfarçar nossas impurezas, existem desejos inconfessáveis inclusive para nós mesmos: provocam vergonha, são menos civilizados, trazem afetos menos aceitos, mais brutos,  geram culpa, medo e inveja. Embora o desejo nos mova, nem sempre pode ser comunicado às claras.

Muitas vezes é preciso reprimir certos sentimentos para manter determinadas escolhas. Por outro lado, quanto maior essa repressão, maior a força na tentativa de realizá-los. É que nossos instintos costumam ser  persistentes e teimosos. E, nessa tentativa de domínio, o indivíduo sofre. Conclusão: essa luta constante gera uma tensão muito forte – de um lado, uma exigência de satisfação, de outro, as leis, a moral, minhas escolhas.

O desejo nasce num lugar poderoso, uma  instância psíquica inconsciente que recebe o  nome de Id. Este vive em pé de guerra com um outro lado responsável pela censura – que recebe o nome de Superego – , que é igualmente forte e é responsável por representar internamente a moral, as leis vigentes e os valores familiares.

A civilização funciona como uma tentativa de dominar nossos desejos, de freá-los. Sejam os sexuais ou os agressivos, a  sociedade de alguma forma tenta manter uma certa ordem a fim de que a humanidade se preserve de seus próprios instintos. Sabemos que a violência do homem é inerente, tornando-o facilmente presa. Convenhamos, por mais falha que seja a sociedade, o ser humano precisa dela para relativamente se organizar .

Mas existe um lugar onde meu desejo encontra uma possibilidade de existir: os sonhos. Quando sonhamos, estamos com a censura baixa, certas coisas podem aparecer. Mesmo assim algumas são censuradas por nós mesmos – juntando uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico, somando vivências e experiências singulares e individuais, que para cada um tem um significado. Ou seja, certas coisas aparecem de forma disfarçada quando dormimos.

Por isso, dicionário de sonhos  não deve ser levado muito a sério. Para cada pessoa, um símbolo que aparece num sonho tem um significado específico, que só pode ser  decifrado pelo próprio sujeito sonhador. O sonho é o território da realização do desejo. Mesmo que apareça de maneira torta, ele conta sobre um sentimento que, acordado, pode ser muito ameaçador.

É  como se, dormindo, nosso desejo acordasse no sonho e se apresentasse de uma forma mascarada.  Isto é, a fantasia é um dos veículos onde o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. Tudo pode acontecer. E o ato de sonhar, fantasiar, nos possibilita uma tolerância maior à realidade.

Qualquer veículo onde o sonho possa emergir dá voz ao desejo. Arte, literatura, música… Não é raro sabermos de pessoas que suportaram uma condição muito difícil  utilizando-se da imaginação. Anne Frank é um exemplo.  O filme “A vida é bela”, outro.

Precisamos do sonho para dar voz ao nosso desejo e, assim, resgatar a força de lutar para viver.  É como se nos alimentássemos do território do sonho,  o desejo que ali pode aparecer  fica com sua força atenuada e nos ajuda a suportar a realidade com suas chatices.

Por isso sempre me incomodei quando escutei a frase “Isso é apenas uma ilusão”. A palavra apenas desqualifica o lugar onde o sujeito é livre, puro e existe em seu estado bruto.

Em algum lugar é preciso soltar todo nosso som e toda nossa fúria, do contrário a vida vira uma canção  monotemática e empobrecida.

 *Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

Dor psíquica e dor corporal : uma abordagem psicanalítica

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

Ao longo da vida , com frequência enfrentamos situações inesperadas, geradoras de intensas angústias. Se, por um excesso, essas angústias não podem ser digeridas, elas transbordam para o corpo, que adoece.

Na vida adulta, uma doença física pode ser desencadeada por situações de perda, como a morte de um ser amado, a perda do emprego, condição financeira precária, separações ou momentos de impasse. Essas situações remetem à profunda dor mental, e a dificuldade de tolerar a dor leva o indivíduo, muitas vezes, a utilizar seu corpo para se defender dela. Contudo, essas situações só são consideradas traumáticas porque se ligaram, a posteriori, a um trauma anterior, relacionado a perdas significativas na infância.

Uma das importantes aquisições do desenvolvimento psíquico é a capacidade de simbolização. A capacidade de elaborar conflitos por meio de processos psíquicos depende do grau de complexidade que alcançou um indivíduo em sua estruturação emocional. A abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos compreende as doenças físicas e as afecções corporais como medidas defensivas para manter o equilíbrio dessa organização emocional. Quando há falhas nesse processo, porém, isso pode resultar na somatização dos sofrimentos psíquicos. Na ausência do símbolo e da palavra, é no corpo que eles se manifestarão.

Os fenômenos somáticos podem ser considerados uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que são provenientes de experiências traumáticas sofridas em estágios precoces do desenvolvimento da pessoa. Essas vivências precisarão ser nomeadas para, então, serem pensadas e elaboradas, em vez de seguirem sendo derramadas sobre o soma.

Quadros de hipertensão arterial grave, diabetes, dermatites, fibromialgia, doenças autoimunes – como lúpus e vitiligo -, doenças gastrointestinais – como gastrite, retocolite ulcerativa ou doença de Crohn -, entre outras doenças, podem se manifestar em épocas de conflito e depois desaparecer. No entanto, elas podem se instalar como doenças crônicas que geram graus diversos de incapacidade na vida pessoal e profissional do indivíduo, colocando sua vida em risco.

Nessas circunstâncias, o objetivo de um atendimento psicanalítico será, por meio do encontro entre analista e analisando, criar condições favoráveis e necessárias para ampliarmos o repertório psíquico do paciente, de modo que ele possa pensar em seus conflitos em vez de depositá-los em seu corpo. Esse é o campo da psicossomática psicanalítica; ela promove uma abordagem voltada para as patologias decorrentes de falhas do processo de simbolização e da construção de um sólido narcisismo primário.

Pela análise, a capacidade simbólica quase inexistente poderá ser construída, por meio da colocação em palavras de cada afeto não sentido e, portanto, não assimilado mentalmente. Na medida em que o analista constrói com esse indivíduo – cuja dor no corpo grita – novas ligações psíquicas, aquilo que estava inicialmente precário poderá ganhar um novo status: onde houve a falta de uma sustentação da mãe como primeiro objeto o analista apresenta-se como um novo objeto com quem o paciente poderá – talvez pela primeira vez – ser escutado naquilo que, de fato, o corpo denuncia.

Bibliografia :

Steinwurz, D.A. ( 2017). Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In V.R.Béjar ( Org.). Dor psíquica, dor corporal- Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Editora Blucher.

*Denise Aizemberg Steinwurz é membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Diretora de psicologia da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), Prêmio “Avelino Luis Rodrigues”(2012) no concurso ” Psicossomática e Interdisciplinaridade”( IV Congresso Paulista de Psicossomática), membro associado do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

Pedro Malasartes e o duelo com a morte: subjetividade contemporânea e mal-estar na civilização

*Cássia Barreto Bruno

O filme Pedro Malasartes e o Duelo com a Morte, dirigido por Paulo Morelli e estrelado por Jesuíta Barbosa (Pedro Malasartes), Isis Valverde, Julio Andrade e Leandro Hassum, é o primeiro longa-metragem brasileiro com tantos efeitos especiais,  realizados na sede da O2 após quase 30 anos de elaboração por parte de Paulo Morelli. É a realização de um sonho e uma jóia na cinematografia brasileira.

Sua característica é utilizar  os efeitos especiais de um modo totalmente diferente daquele que estamos acostumados a ver em filmes de ação. Traz uma nova linguagem para tais recursos, com os quais  representa o mágico, o belo, o misterioso, o profundo, o reflexivo. O diretor conseguiu juntar reflexão com ação. Criatividade brasileira!

Para comentar o filme escolhi um recorte que leva em conta  duas questões fundantes do ser humano: o embate com a factualidade da morte e a astúcia como forma de driblá-la.

No Ocidente, conhecemos esse recurso desde a mitologia grega e é nessa ambientação que o filme se situa.

As três irmãs Moiras, Cloto, Láquesis e Átropos, são as personagens da mitologia grega**  responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida dos mortais. Cloto é a que tece  o fio da vida, Láquesis é a que distribui entre os homens seus respectivos destinos e Átropos, a que tem o poder de romper o fio da vida com sua tesoura encantada.

Essas três personagens estão representadas no filme em belíssimas imagens, realizadas com efeitos especiais. Os fios da vida, entrelaçados poeticamente, nos enlevam e nos transportam para outro mundo, o mundo dos sonhos. Esse  momento misterioso do tecer a vida e o destino das pessoas é vivo, iluminado, intenso.

O rei do Mundo Inferior, Hades, é apresentado com humor fino: um trapalhão que parece até mesmo cansado e tedioso de seu oficio. Seu desejo é se aposentar e trazer da Terra seu afilhado Pedro Malasartes para substituí-lo. Para realizar essa tarefa, Hades recorre a Átropos, a fim de que esta interfira no fio da vida de Pedro. A situação começa a se complicar no momento em que as Moiras não aprovam essa ideia.

Ora, como Pedro  Malasartes é mortal e, como registrou Homero***, Hades é o deus mais odiado pelos mortais, claro que ele não gostou nada desse presente de grego. Daí resulta a segunda colocação importante do filme: como driblar a morte, isto é, como se defender de Hades, para além da ajuda das Moiras.

Como Pedro é Malasartes, Mal-as artes, das artes más que aprendeu na vida terrena da roça e colocadas de modo gentil  no filme, está posta a questão: Como Pedro vencerá esse duelo? Com  astúcia, claro, com as Mal-artes que é o outro lado do ser humano, o lado não politicamente correto.

Essa questão de driblar a morte  reverbera em muitas situações no filme, repetindo-se em vários níveis de significação, o que dá mais força ao tema. Vamos falar de dois: de um lado, o inexorável da morte certa está representado no patrão explorador que, como o Todo-Poderoso Hades, persegue Pedro Malasartes.         

O filme, nesse momento, se apoia  na antropologia  de nosso homem rural brasileiro, ou seja, que a esperteza ingênua, aprendida na escola da vida, é seu trunfo. É preciso ser esperto nessa vida.

A saída encontrada pelos humanos foi criar narrativas. Fica claro  que a inteligência humana nos provê do mundo da fantasia, essa mágica que remove montanhas, que mata os opressores e que nos devolve o Ser Desejante.           

Nos tempos primordiais, por meio da criação de deuses e da ideia de que a vida continua após a morte, foi possível  driblar  a finitude. Sabemos que a  construção das pirâmides para garantir a eternidade resultou em enorme desenvolvimento da matemática, astrologia, arquitetura,  calendário, agricultura, escrita.

Na Grécia, o mesmo ocorreu com a narrativa dos mitos. Houve um grande desenvolvimento das artes e da filosofia. O homem começou a interrogar sobre a natureza das coisas, do mundo onde estava  inserido.

Isto para dizer que, ao driblar o problema da finitude, o homem criou desenvolvimento e descobriu que, por meio de sua obra, se mantém infinito. É o que Malasartes fará.

A outra questão colocada pelo filme, que envolve a subjetividade do Sujeito, é a relação entre o bem e o mal. Qual a distância entre a astúcia e a maldade?

Vamos encontrar em Homero**** um momento muito especial, em que Ulisses usa de artimanha e  esperteza: diante de Polifemo, rei dos Ciclopes, que lhe pergunta seu nome, Ulisses ardilosamente responde: “Meu nome é Ninguém”. Após algumas peripécias, quando fura o olho do Ciclope para defender a si e a seus marinheiros, e após a chegada dos outros ciclopes, estes perguntam a Polifemo “Quem furou seu olho?” “Foi NINGUÉM.” E com isso Ulisses safou-se de ser morto pelos ciclopes.

No duelo com a morte,  a artimanha. Foi necessária uma boa dose de criatividade e esperteza para que a humanidade se desenvolvesse, a partir desse problema insolúvel por definição. Já que vou morrer, então crio alternativas e, nesse mesmo ato, crio desenvolvimento e imortalidade.

A estranheza do Reino da Morte é mostrada no filme  em  infinitas luzes que se movimentam e representam as almas, belíssima alegoria, num balé encantador. O assustador e desconhecido é transformado em Estética, outra artimanha da mente humana.

Será que Pedro Malasartes, ingênuo e astuto ao mesmo tempo, conseguirá enganar a morte? E como a Moiras poderão ajudá-lo? A conferir.

No filme, conteúdo e forma estão imbricados por essa novidade: os efeitos especiais aqui têm a função de exaltar a vida, a ética e os problemas universais que caracterizam o humano. A ideia de situar a trama no imaginário brasileiro caipira, na roça, cria um clima contemporâneo de valorizar a natureza e as raízes do homem brasileiro, e escapa do cientificismo asséptico.

O filme é um elogio à Natureza, à Ética, à Estética. Em última instância, ao Humano.

 

*Cássia A. Nuevo Barreto Bruno é analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, International Psycloanalitical Society. Coordenadora do livro Distúrbios Alimentares, Uma colaboração da Psicanálise, ed. Imago, 2011.

** Hesíodo, sec. VIII AC, no livro Teogonia, 217
*** Ilíada IX.158
****Odisséia, livro IX,365

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

A Geração Y no mundo do trabalho: dor de crescimento ou opressão sem ganho?

*Renata Zambonelli Nogueira

Com alguma frequência tenho me deparado com situações em que interlocutores de gerações anteriores à minha se queixam das características dos “jovens de hoje em dia”, apelidados de Millennials ou Geração Y. Eles se referem às pessoas nascidas depois de 1990,  que constituem a primeira geração crescida num mundo verdadeiramente globalizado, imersos na onipresença das tecnologias – especialmente da internet e das facilidades materiais -, e cuja chegada ao mundo do trabalho revelou um importante choque geracional.

Os mais velhos os descrevem como egocêntricos, preguiçosos, mimados, “cheios de mimimi”, excessivamente zelosos de sua vida pessoal e, frequentemente, os acusam de desconhecer a realidade, não saber que “é preciso dar duro para se tornar alguém na vida” e querer tudo de mão beijada.

Penso que, embora caracterizado a partir da realidade norte-americana, esse conflito geracional tenha alguma correspondência em certos recortes das cidades brasileiras. Pude observá-lo na Faculdade de Medicina onde me graduei em 2011 e na qual, atualmente, me dedico a atividades didáticas com os alunos. Ali me parece que a estrutura hierárquica que formou tantas gerações de médicos em São Paulo já não exatamente serve às atuais. Falas de professores renomados como a de que “diamantes se fazem sob pressão” são ferozmente atacadas e provocam intenso sofrimento psíquico entre os alunos, marcado por sentimentos de incompreensão e desamparo, em lugar de uma adaptação produtiva. A tradicional cultura médica de investimento total, de valorização da resiliência levada ao limite, do orgulho narcísico de enfrentar bravamente jornadas de 48horas de plantão pode estar com os dias contados sob a gerência dessa nova geração. O que aconteceu?

De imediato, penso que devemos abandonar a pretensão de “explicar” toda uma geração, e vou modestamente oferecer uma das minhas ideias à prova para pensarmos um possível fenômeno em desdobramento na cultura: as estruturas totalizante das instituições perderam o seu sentido, e o sofrimento dentro delas não está mais associado a um crescimento que vale a pena, não é mais significado como uma “dor de crescimento”. Na ausência de sentido, vive-se uma espécie de opressão sem ganho.

Tentarei, então, decupar minha hipótese da perda de sentido na forma de perguntas que nos ajudem a pensar.: Quais seriam as diferenças fundamentais no caldo de cultura em que cresceram esses jovens? Quais os reais efeitos da tecnologia na subjetivação, e como as formas virtuais de se relacionar com o outro interferem na capacidade de sustentar relações reais? O que mais, historicamente, aconteceu no mundo nos últimos anos, e quais as perspectivas desses jovens no nosso momento histórico? Quais tipos de relação de trabalho estão disponíveis para eles? Como a economia e a realidade dos processos de produção e consumo interferem nas dinâmicas subjetivas de funcionamento? Como esses jovens lidam com a espera diante de tantas facilidades materiais?

No meio psicanalítico se discute, hoje, a existência de novas formas de sofrimento na contemporaneidade. Como psicanalistas, sabemos da influência peremptória da cultura sobre os processos de constituição do sujeito, e a ideia corrente a respeito do nosso tempo é a de um momento histórico de desilusão diante de uma suposta falência do projeto moderno, um enfraquecimento das instituições e um sofrer característico da pós-modernidade, marcadamente distinto do sofrimento dos neuróticos analisados por Freud. Eu incluiria nessa análise uma dimensão categoricamente política. Há uma crise social instalada a partir do capitalismo neoliberal levado ao seu extremo: banalização do consumo, superficialidade das relações humanas e precarização das relações de trabalho.

Tentarei descrever o que entendo por sofrimento contemporâneo por meio de uma ilustração. Há poucas semanas assisti ao filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, e saí do cinema como quem sai do consultório após uma longa sequência de sessões difíceis. Mundos mentais áridos, pouco povoados, vivências de tédio, repetição e completa ausência de sentido. “Qualquer experiência é melhor do que nenhuma”, diz uma das personagens. Os cenários são casas amplas, translúcidas, com horizontes infinitos, repletos de nada. Gavetas vazias, relações sem lastro, desejos sem densidade, descontinuidade…

Tudo isso contraposto a uma beleza estética deslumbrante das personagens, dos figurinos e dos cenários arquitetônicos. Seria o filme um retrato onírico da nossa sociedade de consumo? Poderíamos comparar aquela fotografia exuberante à cultura da imagem, dos perfis das redes sociais repletos de selfies e check-ins, da necessidade de promover a si mesmo, de ser visto numa vida de felicidade e plenitude, para que ela se torne minimamente satisfatória, para encobrir com curtidas o mal-estar?

Me remeto a imagens descritas por meus pacientes em análise, buscando uma espécie de “nutrição de verdade” no mundo de hoje: eles procuram por alfaces que não pareçam plástico, frutas que não sejam insossas como aquelas bonitas do mercado, peitos sem silicone… Para além dos seus significados nas análises individuais, me pergunto o que essas experiências sensoriais da contemporaneidade estarão representando.

Hoje nas grandes cidades vive-se um completo desconhecimento dos processos produtivos, e o consumo é fácil e indiscriminado.  Estaria essa dissociação relacionada a um esvaziamento simbólico na cultura? Existirá uma espécie de banalização do acesso a qualquer coisa, de forma a destituir de valor o objeto de desejo? Haverá um processo semelhante no trato com o outro, que, quando fora do aplicativo, de carne e osso, pode se tornar excessivamente falho, frustrante, trabalhoso, intolerável?

Penso que é situando-nos nesse difícil contexto de múltiplos esvaziamentos que podemos nos colocar a pensar as dificuldades dessa geração em realizar e sustentar investimentos libidinais, tolerando as frustrações impostas pelo princípio de realidade. Falo aqui das relações de trabalho, mas acho que o problema também se estende às ligações amorosas. O substrato real não os ajuda em nada nessa tarefa: vagas precarizadas, vínculos informais, carreiras de ensino superior desparecendo do mercado, extinção da aposentadoria, instituições corrompidas, falidas e desacreditadas – e espaços de conhecer gente cada vez mais deslocados ao espaço virtual, onde basta um clique para se desimplicar.

Há um desafio posto às novas gerações. Elas estão sujeitas a reinventar referências, reconstruir a solidez na cultura e restabelecer, à sua maneira, a capacidade de ligação.

*Renata Zambonelli é Psiquiatra e Psicanalista, membro filiada à SBPSP | renatazambonelli.psi@gmail.com