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Nara: a menina invisível dos olhos fugitivos

Prefácio

Mirian Malzyner, autora e ilustradora deste belo livro para crianças, remete-nos à estória de Nara e nos conduz de forma lúdica a entrar na vida real da autora por meio da imaginação.

Nara enfrenta o estrabismo e a timidez, desafios que a fazem sentir-se diferente de outras crianças. Com belíssimas ilustrações e enredo, os conflitos e a imagem de si mesma vão sendo apresentados. Há uma questão física e uma psicológica. O “olhar fugitivo” – forma brincalhona que Mirian usa para ilustrar o estrabismo – torna-se um problema. O olhar da mãe reflete sua preocupação, o que contribui para a timidez da menina. É quando a busca pela invisibilidade surge como forma de proteção. Por meio dos sonhos e de sua capacidade imaginativa, Nara, que só era colorida pelo lápis vermelho em seu rostinho, descobre como usar outras cores e desenvolve o desejo de tornar-se visível.

Os olhos fugitivos de Nara contam a história de Mirian, que passada a experiência da infância, mergulha na profundidade e complexidade do mundo psíquico do ser humano, pois se torna psicanalista. O tempo passou, mas a imaginação ainda potencializa sua capacidade artística. Usando cores, pintando quadros, escrevendo livros… Criando um universo em que lápis de cor e tintas coloridas apontam para sua vitalidade e visibilidade.

Acompanho Mirian há muitos anos e é visível sua dedicação a tudo que se propõe e ama. Sempre interessada em pintar figuras humanas, com estilo próprio, onírico e singular. Como artista plástica e psicanalista faz uma ótima combinação entre razão e imaginação.

Este livro, além de encantador, pode ser útil, pois possibilita diálogos que fortalecem a autoestima de crianças que vivem numa condição que as difere das demais. A criança pode sentir-se inadequada por ser diferente, tende a se apagar e a tornar-se invisível. Talvez, o lápis vermelho da timidez tenha sido amigo de Nara, já que, mesmo de uma forma difícil, mostrava que algo acontecia dentro dela. Vermelho é cor de emoção e é preciso confiança para permitir que outras cores apareçam.

Quando Nara se torna colorida, pode rir e gargalhar pela “simples” alegria de se sentir viva e visível. Penso que só é possível sentir a felicidade quando a vida ganha sentido e quando a criança pode ser e existir, para si e para o outro.

Marlene Rozenberg

Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Antonin Artaud e a Psicanálise

* Daniel Dimand

Antonin Artaud nasceu em Marselha, em 1896, e morreu em Paris, em 1948. Foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro. Ligado ao movimento surrealista, seus escritos sobre teatro são considerados dos mais influentes sobre o assunto no século XX. As suas correspondências “revelam um homem em terrível estado de sofrimento, falando de sua dor, através de uma escritura mais íntima e espontânea”. Passou os últimos anos de sua vida internado em hospitais psiquiátricos.

Seria impossível abordar de forma abrangente uma vida e obra tão diversa e rica como a de Artaud. Aproveitando que, através de suas cartas, podemos recuperar algo da sua voz, considero que vale a pena apresentar um pequeno recorte delas, tentando uma relação com o olhar psicanalítico.

Na correspondência com Jacques Rivière, editor de uma importante publicação francesa, Artaud busca um interlocutor, alguém que o escute, com quem possa estabelecer uma relação de pessoalidade:

“Minha questão era talvez especial, mas era a você que eu a colocava, a você e a mais ninguém, por causa da sensibilidade extrema, da penetração quase doentia do seu espírito.”

Artaud se oferece de forma íntima e despojada nessa relação e mesmo o interesse literário fica em segundo plano:

“Você colocou o dedo em parte de mim; a literatura propriamente dita não me interessa muito (…)”

 A valorização do mundo interno surge de forma espontânea:

“Sei o tráfico das coisas aqui dentro”, ele declara com simplicidade para Rivière.

A dor da alma tem grande destaque, uma dor que ele não quer deixar de compartilhar:

“Sou um homem que sofreu muito do espírito, e por isso tenho o direito a falar.”

Sofrimento que, como ele enfatiza, também está no corpo, faz parte do seu dia a dia:

“Resta que eles não sofrem e eu sofro, não somente com o espírito, mas na carne e na alma cotidianas.”

O contato com o outro ser humano tem uma grande importância, mas ele não pode se dar de qualquer maneira. Há em suas palavras um clamor por uma escuta que não julgue, não confine, não reduza. Escreve ao editor:

“Eu me ofereci a você como um caso mental, uma verdadeira anomalia psíquica, e você me responde através de um julgamento literário de poemas aos quais eu não me apegava.”

A ideia de uma escuta isenta de julgamentos prévios é consideravelmente relevante. Tanto que reaparece em outra passagem, da mesma forma categórica como a anterior:

“É preciso não se antecipar a julgar os homens, é preciso dar-lhes crédito até no absurdo, até a borra.”

A singularidade do ser humano é também reivindicada. Assim ele se refere a si próprio:

“Esse homem, no entanto, existe. Digo que ele tem uma realidade distinta e que lhe dá um valor. Vamos condená-lo ao nada sob o pretexto de que ele só oferece fragmentos dele mesmo?”

Os escritos de Artaud nos desafiam constantemente a indagar sobre os limites que nos cercam: vida e obra, corpo e alma, palco e plateia, sanidade e loucura…

Esse últimos, assim como a fragmentação que Artaud identifica em si próprio e o conhecimento da própria realidade interna, psíquica, o aproximam novamente da psicanálise. O trecho seguinte de Freud apresenta esses elementos reunidos de uma forma que também desafia os limites preestabelecidos e nos faz questionar sobre as relações entre sanidade e loucura:

“(…) achamo-nos familiarizados com a noção de que a patologia, na medida em que aumenta e torna grosseiro, pode chamar a atenção para condições normais que de outra maneira não perceberíamos. Ali onde ela nos mostra uma ruptura ou uma fenda pode haver normalmente uma articulação. Se lançamos um cristal ao chão, ele se quebra, mas não arbitrariamente; ele se parte conforme suas linhas de separação, em fragmentos cuja delimitação, embora invisível, é predeterminada pela estrutura do cristal. Os doentes mentais são estruturas assim, fendidas e despedaçadas. Também não podemos lhes negar um tanto de temor reverencial que os povos antigos demonstravam para com os loucos. Eles deram as costas à realidade externa, mas justamente por causa disso sabem mais da realidade interna, psíquica, e podem nos revelar coisas que de outro modo nos seriam inacessíveis.”

Bibliografia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonin_Artaud

A perda de si: cartas de Antonin Artaud, Seleção, organização e prefácio: Ana Kiffer; Tradução: Ana Kiffer e Mariana Patrício Fernandes. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Rocco, 2017 (Marginália)

Freud, S. (2006). Novas Conferências Introdutórias Sobre A Psicanálise, Conferência XXXI: A Dissecção da Personalidade Psíquica. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro, Imago, v. XXII [1933 (1932)]

* Daniel Dimand Pereira de Azevedo é médico pela UFSCar, membro filiado ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, voluntário no Serviço de Psicoterapia do IPq-HCFMUSP.

ALGORITMOS = SIGNIFICANTES ENIGMÁTICOS? CONTRIBUIÇÕES DE LAPLANCHE

* Dora Tognolli

O professor  israelense Yuval Harari, autor do best-seller Sapiens, trata da história da humanidade de forma clara e instigante. Um de seus focos é a importância da informação, dos dados e do poder que gravita a seu redor. Explica como os algorítmos nos conduzem a decisões, consumos, escolhas, como se as operações matemáticas que ocorrem nas redes, abastecidas por nós, soubessem de nós o que ainda desconhecemos. Numa recente entrevista no programa Roda Viva, o Prof. Harari dá um exemplo: um sujeito que desconhece seu desejo homoerótico ao se relacionar com as redes fornece inputs que permitem que o algoritmo perceba antes dele esse desejo. Parece assustador, mas ele não oferece nenhuma explicação mística: trata-se de mistérios do algoritmo, que acompanha o passo a passo do qual o sujeito não se dá conta. A matemática explica, a lógica também. E a Psicanálise trata disto: desde sua constituição.

***

Caminho de Laplanche

Laplanche nada mais é do que um grande admirador de Freud, que usa de seu rigor e inteligência para iluminar conceitos que ele coloca no rol dos fundamentos, do que é fundante, que não pode se perder dentre tantos escritos, comunicações e cartas de Freud. Laplanche chega a admitir que pratica uma espécie de “fidelidade infiel” a Freud: ignora certas considerações, enquanto que valoriza ou transforma outras, sempre baseado no próprio Freud, tomando em conta o conceito de tradução, que Freud e ele próprio problematizam.

A partir da correspondência de Freud, da tradução do alemão, do vocabulário de Psicanálise, em parceria com Pontalis, Laplanche tem na mão os roteiros que Freud trilhou e construiu, que merecem ser olhados em toda a dinâmica e complexidade. E os textos de Freud, como todos sabemos, contêm uma potência que permite que a cada leitura nossos sentidos avancem em direções inusitadas ou criem novos circuitos de entendimento.

O salto do Projeto (corpo biológico) para o capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos (corpo erógeno), sem perder o corpo (sexualidade), é considerado um desses fundamentos. Nesses textos vão se estabelecendo a indestrutibilidade do desejo, seus caminhos diversos e o estatuto do inconsciente, um outro em nós, o estranho – Unheimlich, recentemente traduzido como  Infamiliar.

Conceitos interessantes de Freud são retomados, por exemplo, desamparo (Hilflosigkeit), temporalidade em duas fases (Nachträglichkeit que quer dizer, mais ou menos, carregar/trazer, depois; ou acrescentar algo a um escrito ou fala; ou numa outra direção, guardar rancor, não esquecer), tudo a ver com recalcado, resto, retorno do recalcado.

A ideia de situação originária ou fantasia originária, retomada por Laplanche, tem a ver com a origem, fundação, e não causa primeira. Essa situação é o mero confronto do recém-nascido (Hilflos = desamparado, abandonado) com o mundo adulto. Com a introdução do conceito de metábola coloca-se um hiato entre o inconsciente da mãe (que também lhe é estranho e enigmático) e sua cria, momento de fundação, onde se constitui um recalque primário.

Exemplo interessante trazido por Freud nos Três Ensaios, o aleitamento: o seio, que veicula alimento e significados eróticos e sexuais, dos quais nem a mãe se dá conta. Enigmas também para o adulto…

A sexualidade humana é portadora de mensagens enigmáticas para a criança que a recebe e por elas é marcada, e para o adulto que as emite, sem se dar conta do resto que também porta. A criança presente no adulto guarda essa marca do enigma e essa é a matéria-prima de suas mensagens.

Temos um primeiro tempo, anódino, de inscrição, reativado por um segundo tempo: daí o trauma em dois tempos. O segundo trauma ou acontecimento, que encontra o sujeito mais preparado, reativa o primeiro, ressignificado.  Laplanche nos lembra que o ataque vem da lembrança, vem de dentro e não do acontecimento. A transferência, na análise, seria um caso particular dessa revivescência. Em Freud, como bem aponta Laplanche, há sempre uma tensão entre a cena antiga e o roteiro recente: dois tempos.

Na carta de Freud a Fliess, de 21 de setembro de 1897, lemos: “não acredito mais na minha neurótica” – momento marcante, em que Freud coloca em questão os relatos de abusos de crianças por um adulto, muito frequentemente os pais, que surgiam no tratamento das histéricas. Laplanche volta-se a esse momento, em que o sexual está no cerne do conflito: presença marcante  do mundo interno, esse desconhecido produtor de fantasias que borram a realidade, o factual.

Ao tratar do sexual, da pulsional, Freud assumirá a etiologia sexual, subjacente ao conflito humano e ao sintoma, que escapa à compreensão do sujeito. Podemos afirmar, com Freud e Laplanche, que a sexualidade é traumática, deixa restos, em busca de retraduções e coloca em movimento o aparelho precário infantil, que assim se constitui. A figura do outro (mãe, por exemplo), surge para dar sentido, traduzir, incluir na cultura e, também traumatizar, uma vez que esse outro também porta seus próprios significantes enigmáticos. Caminho necessário para a entrada no mundo. De certa forma, saímos da sedução tout court, factual, para uma sedução generalizada, inexorável.

Cabe aqui uma expressão utilizada por Melanie Klein, que a partir do tratamento de crianças muito pequenas e com sua capacidade de observação, percebeu que o corpo infantil é uma espécie de bólido incandescente que no contato com a mãe [adulto] vai progressivamente esfriando.

Fogo, corpo, adulto-criança, trauma, enigmas, prematuridade, infans = sem fala: terreno propício por Laplanche retomar o conceito de sedução, necessário à constituição do psiquismo, e tratar dos significantes enigmáticos, como destino de todos nós. Eis aqui alguns dos fundamentos do psiquismo, que Laplanche toma como pilares, para tecer sua teoria.

Retornando aos algoritmos, medidas externas de nosso estranho, que escapa, Freud percebeu desde cedo que algo em nós tem um quê de estranhamento, de enigmático. E é essa matéria-prima de nosso ofício “impossível”, mas necessário, em especial nos dias atuais, em que o outro é facilmente confundido com o inimigo, que precisa ser aniquilado.

Dora Tognolli é psicóloga e psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

A importância da noção de apoio na teoria freudiana

* Eduardo Zaidan 

Um conceito de suma importância na teoria das pulsões de Freud é o apoio (anaclisis, na tradução de Strachey).

Este conceito aparece nos Três ensaios, quando Freud escreve que: “Assim como a zona labial, a localização da zona anal a torna adequada para favorecer um apoio da sexualidade em outras funções do corpo” (Freud, 1905/2016, p. 91).

Na terceira edição dos Três ensaios, em 1915, Freud afirma que: “No começo, a satisfação da zona erógena estava provavelmente ligada à satisfação da necessidade de alimento. A atividade sexual se apoia primeiro numa das funções que servem à conservação da vida, e somente depois se torna independente dela” (Freud, 1905/2016, p. 85-86). Isto é, inicialmente havia uma necessidade de nutrição, da qual a necessidade de repetir a satisfação sexual se descola (Freud, 1905/2016, p. 86).

Nessa mesma edição, Freud adiciona que uma das características essenciais da manifestação sexual infantil é que “surge apoiando-se numa das funções vitais do corpo […]” (Freud, 1905/2016, p. 87).

No segundo artigo sobre a Psicologia do amor, Freud pontua que: “As pulsões sexuais acham seus primeiros objetos apoiando-se nas avaliações das pulsões do Eu, exatamente como as primeiras satisfações sexuais são experimentadas apoiando-se nas funções corporais necessárias à conservação da vida” (Freud, 1912/2013, p. 349-350).

Freud voltará a discutir a noção de apoio em Introdução ao narcisismo, para apresentar a escolha de objeto por apoio. Neste caso, percebe-se que o sujeito se apoia no objeto das pulsões de autoconservação para a escolha de um objeto de amor (Freud, 1914/2010, p. 31-32). Ou seja, a mãe que nutre e o pai que protege – os objetos das pulsões de autoconservação ou pulsões do Eu – serão os modelos da escolha do objeto de amor (Freud, 1914/2010, p. 36).

Mas qual é, afinal, a importância desse conceito que foi negligenciado por parte significativa da psicanálise pós-freudiana? Laplanche e Pontalis (1967/2001) resgataram o conceito de apoio para assim evitar a ideia de uma sexualidade endógena, natural, uma vez que, com a noção de apoio, se assegura a origem infantil e intersubjetiva da pulsão.

Em outras palavras, a sexualidade se desenvolve na relação com um outro – esta ideia é elementar.

Portanto, não se trata de negar o instinto, nem de que este tem um objeto natural, como por exemplo a fome, mas de que a pulsão, apoiada no instinto, se descola deste. Este é um dos pilares da teoria das pulsões de Freud: a pulsão não tem um objeto a priori, o que significa que o desejo, diferentemente do instinto, não é natural.

Se o desejo não é natural, é porque não está presente no nascimento, mas é animado na vivência de satisfação. O desejo, portanto, corresponde a um impulso psíquico que anseia a repetição da situação da primeira satisfação (Freud, 1900/2019, p. 617-618).

O sexual, no sentido freudiano, por conseguinte, não pode ser confundido com o instinto ou com qualquer função biológica.

Freud revolucionou a concepção de sexualidade ao afirmar o polimorfismo sexual na criança (Freud, 1905/2016, p. 98). Sobre isso, escreve Lacan: “Desde os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Freud pôde colocar a sexualidade como essencialmente polimorfa, aberrante” (Lacan, 1964/2008, p. 174).

Esta revolução na maneira de compreender a sexualidade humana é um verdadeiro novo aporte ético. A concepção científica da sexualidade, no século XVIII, assumia que a sexualidade era o instrumento biológico da propagação das espécies. Para esta concepção, a sexualidade teria uma função biológica (Monzani & Bocca, 2015, p. 22).

A psicanálise freudiana é uma subversão dessa compreensão dita “científica”, na medida em que entende o desejo como um circuito paralelo e independente do biológico. Portanto, a sexualidade humana não tem nada a ver com o instinto reprodutor, com o qual a pulsão pode eventualmente se encontrar, mas não necessariamente (Monzani & Bocca, 2015, p. 41).

É preciso reiterar que a leitura da sexualidade infantil como perversa polimorfa é mais do que um aporte conceitual, é um aporte ético. Isto significa que, na clínica psicanalítica, não há lugar para a patologização do desejo, uma vez que a pulsão é independente de qualquer função biológica.

Este é um dos cernes da clínica psicanalítica: a oposição conceitual e ética a qualquer clínica normatizante do desejo.

 

Referências

Freud, S. (1900). A interpretação dos sonhos. Obras completas, volume 4. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Obras completas, volume 6. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

______. (1912). Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa (Contribuições à psicologia do amor II). Obras completas, volume 9. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

______. (1914). Introdução ao narcisismo. Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Laplanche, J. & Pontalis, J.-B. (1967). Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Monzani, L. & Bocca, F. Novo aporte ético em face da concepção freudiana da sexualidade. Ipseitas, São Carlos, vol. 1, n. 1, p. 21-44, jan-jun, 2015.

 

* Eduardo Zaidan é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

 

 

O psicanalista nas fronteiras

 Entre o sonho e a dor

 * Talya S. Candi

 O limite e a psicanálise contemporânea

A psicanálise contemporânea avança firmemente rumo às fronteiras e nos obriga a debruçarmos sobre o que o psicanalista André Green denominou de metapsicologia dos limites. É o que indicam os múltiplos colóquios e ciclos de conferências organizados pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e pela Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) que abordam este tema.

O conceito de “fronteira” surge em 1975, a partir da noção de “limites da analisabilidade”, (título da revista Nouvelle Revue de Psychanalyse n°10, editada pelo psicanalista J.B Pontalis com a colaboração de A. Green).   A partir deste momento começa a surgir uma  clínica  psicanalítica ampliada dos  estados limites  que  não designa uma nova categoria clínica (o paciente borderline,  não neuróticos ou psicossomático), mas  propõe trabalhar  a partir de uma  nova tópica:  uma tópica  que coloca o trabalho analítico no limite do funcionamento mental do analista,   entre a possibilidade de escuta dele próprio  e  do paciente. Tratam-se, por definição de pacientes, situações, estados, experiências que põem em xeque o método interpretativo psicanalítico clássico e exigem por parte do analista uma   firme implicação afetiva e uma elasticidade técnica.

Percebendo a potência heurística da noção de limite e das áreas fronteiriças, André Green, incorpora, em 1976, a noção de limite ao arsenal metapsicológico freudiano e a transforma num dos conceitos mais fundamentais da psicanálise contemporânea. Diz ele: “Devemos considerar o limite como uma fronteira móvel e flexível, tanto na normalidade quanto na patologia. O limite é, talvez, o conceito mais fundamental da psicanálise contemporânea. Ele não deve ser formulado em termos de representação figurada, mas em termos de processos de transformação de energia e de simbolização” (1976, p. 126).

A metapsicologia dos limites  é  uma quarta dimensão metapsicológica  que se soma à dimensão econômica, topológica e dinâmica, e instrumentaliza o psicanalista para que possa se  debruçar  sobre  as mudanças  psíquicas  e  as transformações  que acontecem entre o Id, Ego e Superego, entre o inconsciente e o consciente, entre o dentro e o fora, tanto do lado paciente quanto do lado  analista.

Entre o sonho e a dor: O duplo limite

Neste novo contexto, a própria concepção do aparelho psíquico começa a ser vista a partir da referência ao limite, pois a funcionalidade do aparelho mental, a sua plasticidade e a sua capacidade de se movimentar, reside em suas duas áreas fronteiriças. A primeira área intersubjetiva permite a delimitação e a interação do mundo de dentro e do mundo de fora, a segunda intrapsíquica  (que pode ser comparada ao pré-consciente) serve de barreira de contato entre os conteúdos conscientes e inconscientes, funcionando como uma pele psíquica porosa para a vida fantasmática do inconsciente e do sonho, na interseção destes dois eixos encontram-se os processos de pensamento[1].

Surge assim um modelo original de um aparelho psíquico contemporâneo formado por um duplo limite (Green, 1982) idealizado pelo A. Green a partir da metapsicologia dos limites.

Sem fronteiras funcionando adequadamente, o psiquismo se estrutura precariamente, mantém-se a impossibilidade de organizar o tempo e o espaço, domina a bidimensionalidade (particularmente no âmbito edípico) e a circularidade temporal. Nesta configuração, a capacidade de sonhar é frágil, o pensamento não consegue se desenvolver como um meio capaz de produzir mudanças psíquicas, transformar a realidade e torna-se uma ruminação interminável, onde predominam afetos fragmentados tais como o isolamento e o ressentimento.

Green insiste repetidamente na necessidade de trabalhar a partir de uma dupla referência ao limite formada por dois polos complementares e antagônicos (uma dupla significância, dupla representância), já que na psicanálise o polo interno ligado ao inconsciente é constitutivo da percepção da realidade e, inversamente os conflitos que vivemos na realidade externa, vai construir nosso inconsciente.

 Novos caminhos para pesquisa psicanalítica contemporânea

Gostaríamos de sugerir que o modelo greeniano do duplo limite aponta para duas direções de pesquisa teórico-clínica, dois campos complementares e antagônicos que não se confundem entre si, mas que trabalham em ressonância e ecoam inevitavelmente entre si.

Por um lado, temos o trabalho na vertente do limite intersubjetivo, dentro e fora, que aponta para a pesquisa da psicanálise extramuros e dos pacientes não-neuróticos. Para realizar tal tipo de pesquisa o analista contemporâneo deve estar preparado para trabalhar em situações concretas de carências e desamparo, trabalhando na comunidade, em parceria com a saúde pública em instituições variadas (creches, escolas, hospitais, presídios), com populações que frequentemente não teriam condições de chegar para o consultório.

Denominamos este tipo de trabalho:  trabalho da dor.  O analista terá que perder a sua identidade e mergulhar nas vivências traumáticas e nas transferências dolorosas para representar o irrepresentável, criar sentido, elaborar a sua impotência e insuflar vida em situações extremas.

Ora este campo intersubjetivo no limite da analisabilidade somente pode percorrer o caminho das transformações se é elaborado pelo limite interno intrapsíquico regido pelo trabalho do sonho, que outorga figurabilidade e representação a dor psíquica.  

Abre-se assim um segundo campo de pesquisa tão importante quanto o primeiro ligada ao limite intrapsíquico que se inaugura na própria análise do analista.  Esta segunda frente de pesquisa teórico-clínico instrumentaliza o analista para lidar com os conflitos internos, ampliando a sua imaginação clínica, a sua capacidade de sentir, viver os afetos catastróficos e perturbadores e de pensar o impensável usando símbolos para sonhar e brincar com as experiências. É a capacidade de sonhar as experiências que permite representar e transformar os afetos agônicos em pensamento, ampliando a espessura do limite pré-consciente e inconsciente.

Somente por meio desta dupla pesquisa, sonho e dor que o analista contemporânea poderá ampliar seu poder de ação e avançar nos territórios dos limites da analisabilidade, usando da transferência para deixar se colocar entre sonho e realidade, dentro e fora, passado e futuro.

O psicanalista nas fronteiras é um sujeito aberto às transformações, que se debruça sobre as vicissitudes das mudanças psíquicas que acontecem nele próprio e no seu paciente.  É a capacidade de sonhar nossas experiências que dá sentido para nossa precária humanidade, através dos múltiplos cortes e suturas que transformam a repetição em memória e viabilizam o desenrolar de criação de sentido da nossa experiência de vida.

Neste novo mundo sem  sentido no qual a concretude ganha cada vez mais espaço, cabe ao psicanalista a difícil tarefa de ter uma identidade fluida, uma escuta polifônica que possibilite  criar um diálogo entre  os nossos anseios  mais internos ligados à nossa fragilidade, desamparo e dor, que caracteriza o humano e as exigências de uma  realidade externa cada vez mais cruel e exigente.

Bibliografia

C, Botella (organizador): Penser les limites:  Ecrit en honneur dAndré Green, Ed Delachaux et niesttle, Paris, 2002

  1. Candi: O Duplo Limite: O aparelho psíquico de André Green, ed. Escuta, 2010
  2. Green, 1982: O duplo limite. in a Loucura privada: psicanálise dos casos limites, Ed Escuta, 2017

 

* Talya Saadia Candi é psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), autora do livro “O Duplo Limite: O Aparelho Psíquico de André Green” e organizadora do livro “Diálogos Psicanalíticos Contemporâneos”, ambos da ed. Escuta.

 [1] Remeto o leitor interessado ao texto de André Green intitulado “O duplo limite”, 1982

A estrada da vida

Luciana Slaviero Pinheiro

 

“O que faz andar a estrada? É o sonho.

Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.

É para isso que servem os caminhos,

para nos fazerem parentes do futuro

(FALA DE TUAHIR)”.

 Mia Couto em “Terra Sonâmbula” (1993).

 

Mia Couto, com sua escrita poética e sensível, relaciona o sonhar com movimento, com um entrelaçamento entre o passado, o presente e o futuro. O sonhar com existir, pertencer, ser e tornar-se, “indispensável para seguir vivendo, mesmo nas condições mais adversas”, como destacado na contracapa de seu livro “Terra Sonâmbula” que fala de guerra, violência, identidade e esperança.

“Os sonhos são importantes. Eles podem ser uma maneira de abrir uma janela, deixando o ar tóxico sair”. Esta frase, do filme “A Cabana (The Shack)” baseado no livro de  William P. Young (2007), que traz o dolorido processo de luto de um pai com a morte da filha, refere-se à importância do sonhar no turbulento processo de luto, que envolve o contato com agonias, fantasmas, deuses e demônios. Com a passagem do tempo, a possibilidade de uma elaboração pode iluminar a escuridão e o momento preciso de onde se está.

Normalmente, associamos o luto à morte de alguém, mas o luto é uma experiência bastante ampla e complexa, presente nas mais diversas situações da vida, desde a infância até a vida adulta.  Envolve mudanças, separações, perdas e transformações, a partir das quais se dá a maturação de nosso desenvolvimento emocional.

Nossa primeira experiência de desamparo e separação (do corpo materno) é o nascimento. Embora o bebê ainda não se perceba separado da mãe, a experiência do nascimento deixa marcas inconscientes, pois introduz mudanças significativas no ritmo vivido durante a gestação: o bebê passa a ter que respirar com os próprios pulmões, sugar o leite materno, além de viver uma mudança gravitacional quando deixa de ser sustentado por todos os lados pelo líquido amniótico para ser sustentado de baixo para cima por quem cuida dele.

Desde bebê, somos convocados a elaborar muitos lutos. Quando ocorre o desmame, no nascimento de um irmãozinho e consequente perda do lugar de “filho único”, na volta dos pais ao trabalho, na pré-escola com a percepção de sermos, apesar de nosso valor, “mais um no grupo”, onde é necessário conviver, compartilhar, esperar, conceder, negociar, conciliar, etc.  Situações que promovem o desenvolvimento de recursos para o enfrentamento da vida.

Um período bastante conhecido de crise, angústia, confusão, escolhas e luto, é a adolescência, transição da infância perdida para a maturidade ainda não atingida em que o adolescente se pergunta: “Quem sou eu?”.

O processo de crescimento e desenvolvimento não é simples e indolor, envolve continência, tolerância, permeabilidade, transformação e expansão, acompanhados de incertezas, múltiplas possibilidades, ganhos e perdas. Como diz Guimarães Rosa: “a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Uma desilusão, uma separação, a morte de alguém querido, a perda do emprego, da liberdade, de habilidades físicas… o processo de luto, conforme destaca Freud, é penoso, sofrido, lento, gradual e necessário, pede delicadeza e vagareza… Envolve tristeza, reclusão e perda de interesse temporária pelo mundo externo, sendo inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele, pois precisa de seu próprio tempo, que é muito particular, para a realização e a aceitação da realidade. O respeito à realidade acontece pouco a pouco e com grande dispêndio de energia e quando o luto é elaborado e concluído, o ego volta a ficar livre outra vez para se abrir para novas ligações e para a vida. E novamente sonhar.

Na melancolia, embora tenha as mesmas causas que o luto, o desamparo e a desesperança vividos envolvem um processo diferente e patológico que pode durar uma vida toda se não cuidado. A melancolia diferencia-se do luto por ser acompanhada de um forte sentimento de desvalor e inferioridade, de uma extrema diminuição da autoestima, de autorrecriminação e autodepreciação, e de uma expectativa delirante de ser culpado e punido. É infrutífero contradizer o melancólico das próprias acusações, sua companhia costuma ser acompanhada de uma “pesada atmosfera”. Em psicanálise costuma-se referir-se à melancolia como um processo onde “a sombra do objeto recai sobre o ego”, retirando toda sua vitalidade. No filme “Melancolia” (2011), aclamado por críticos e foco de controvérsias, Lars Von Trier representa, através da obscura imagem da aproximação e expectativa de colisão do planeta “Melancolia” com o planeta Terra, uma tragédia anunciada: um final apocalíptico quando não é mais possível sonhar.

Na clínica psicanalítica, os sonhos surgem como parte de uma experiência emocional compartilhada que demanda confiança, afrouxamento de defesas, empatia, mutualidade e esperança para que se possa desenvolver recursos e um radar e, assim como os morcegos, sair da caverna e da escuridão e seguir em movimento. Às vezes, nos sentimos mesmo como os morcegos, voando com as mãos, enxergando com os ouvidos e dormindo de cabeça para baixo.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir novamente à peça “A Alma Imoral” (2006), adaptação de Clarice Niskier do livro homônimo do rabino Nilton Bonder, convidada por uma pessoa muito querida, que tenho tido o privilégio de ter como interlocutora, amiga e parceira na estrada da vida. Compartilho um trecho da peça ligado à esperança e à possibilidade de seguir sonhando:

“Todo lugar onde o homem cresceu e se desenvolveu, um dia se torna estreito, nenhum lugar pode ser amplo pra sempre. O ventre materno é o primeiro grande exemplo. E saber entregar-se às contrações do lugar estreito, rumo ao lugar amplo, é um processo, é um processo assustador, avassalador… e mágico!
O que fazer quando os portões do passado se fecham e os do futuro não estão abertos? O corpo experimenta a mais temida das sensações, o pânico de se extinguir. O futuro existe se vocês marcharem, é a resposta de Deus. O futuro está ligado ao presente pela alma. Marchem… a alma guiará o caminho seco através do molhado. O mar vermelho não se abre para o povo hebreu passar. O povo marcha e Deus, comovido com a confiança nele depositada, então oferece passagem entre as águas do mar”.

Referências

Couto, Mia. Terra Sonâmbula (1993). Brasil, Companhia de Bolso (2015).

Freud, Sigmund. Luto e melancolia. In: Freud, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 14. Rio de Janeiro, Imago, 1976, 243-263.

Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas (1956). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Niskier, Clarice. A Alma Imoral (2006). Rio de Janeiro, adaptação do livro homônimo de Milton Bonder, 1998.

 

* Luciana Slaviero Pinheiro é psicanalista, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).


 

João, de Deus?

* Rafael Privatto Tinelli

No dia 25 de julho deste ano, a equipe de sete advogados do famoso médium João de Deus, anunciou que não iria mais trabalhar em sua defesa, abandonando a causa.

João de Deus foi preso, preventivamente, em dezembro de 2018 e desde então, está aguardando julgamento.

A primeira denúncia contra o médium veio de forma midiática por Zahira Mous, em entrevista para um programa de televisão. Na sequência, centenas de mulheres que se sentiram encorajadas por Zahira, vieram a público para também relatar os abusos que sofreram do médium. Foram mais de 300 mulheres que apareceram para compor estas denúncias de abuso sexual e estupro. O Ministério Público de Goiás apresentou 11 denúncias contra ele. Aparentemente, dessas mais de 300 mulheres que se apresentaram, 11 tinham provas suficientemente contundentes para tentarem condenar João de Deus.

Algumas semanas após o escândalo, a jornalista e ativista Sabrina Bittencourt fez acusações por meio de um vídeo na internet, em que diz que João de Deus estava diretamente envolvido com cárcere privado de mulheres que eram forçadas a engravidar para que ele e sua quadrilha vendessem os bebês no mercado internacional. Destas acusações, João só assumiu o porte ilegal de armas, depois que as tais foram encontradas em sua casa, em um armário com fundo falso.

No livro escrito por Heather Cumming e Karen Leffler (2008) sobre a vida de João Teixeira de Faria, o João de Deus, as autoras afirmam que o médium já contribuiu para a cura de mais de oito milhões de pessoas. O currículo apresentado por elas impressiona com um longo histórico de curas para diversos tipos de câncer, paraplegias, cegueiras, dores crônicas e até AIDS.

O livro parece ter várias funções. De início, temos uma pequena biografia do médium e a experiência de dividir algumas refeições com ele durante um dia. Também parece oferecer uma propaganda da Casa, onde são feitos os tratamentos milagrosos em Abadiânia, no Estado de Goiás. Além disso, parece servir como uma espécie de guia de visitação da mesma, trazendo um mapa e algumas dicas importantes sobre os trajes adequados e as condutas esperadas.

De acordo com as autoras, o médium João participou “do começo ao fim” da produção do livro, e “contribuiu com numerosas ideias e detalhes” (p.15). Podemos imaginar quão árdua deve ter sido esta operação para João, que se diz analfabeto a ponto de ser incapaz de preencher um cheque. Sua primeira sugestão, de acordo com as autoras, foi a de incluir um capítulo que narrasse a pobreza na infância e juventude. O caminho do herói.

Aparentemente, a pobre família só dispunha de um pequeno hotelzinho dirigido pela mãe e de uma alfaiataria, que era do pai. Teve que começar a trabalhar cedo. Seus primeiros ganhos como clarividente eram usados para jogar no “salão de sinuca”. Bar? João precisava sustentar sua família e por isto, foi para Brasília oferecer seus serviços de alfaiate para os militares que tinham acabado de tomar o poder. A partir daí, João se tornou o médium dos militares que o acolheram e o promoveram a mestre alfaiate tendo sido “protegido deles por nove anos (p.27).”

Desde então, parece que a vida de João decolou. Apesar de ser incapaz de preencher cheques, João já foi dono de algumas mineradoras de ouro e pedras preciosas, além de ter mais de 600 alqueires de fazendas.

No prefácio do livro, o físico Amit Goswami escreve: João de Deus é mais do que uma pessoa, é um fenômeno científico de suma importância (…) O médium João canaliza a memória quântica de outra pessoa que viveu antes dele e já morreu. Na verdade, enquanto João canaliza, ele transforma abruptamente o seu caráter e passa a irradiar amor incondicional que promove a cura daqueles que precisam dela”

De fato, João de Deus parece compor um fenômeno intrigante. Ele parece nos apresentar com relativa clareza os espectros de Deus e do Diabo na mesma pessoa.

Freud já nos presenteou com a ideia de uma pulsão de vida – Eros – que nos impulsionaria a construção e o desenvolvimento pessoal, e a de uma pulsão de morte – Tânatos – que visaria a desconstrução e a paralisação do crescimento e desenvolvimento (Freud,1920). Neste sentido, poderíamos associar Deus e o Diabo como partes constituintes dos seres humanos. Uma parte construtiva e evolutiva e outra destrutiva e paralisante.

Seria possível que tais pulsões fossem as principais responsáveis por estes comportamentos de João? Da produção de um bem tão grandioso e de um mal igualmente assombroso?

Outra hipótese, talvez se refira mais ao Diabo do que a Deus.

Seria possível que João Teixeira de Faria fosse um psicopata?

Na literatura científica nós temos muitas referências que descrevem tais personalidades com uma grande dificuldade de perceber e conhecer os próprios sentimentos, bem como a incapacidade de sentir empatia e culpa.  Da mesma forma a ausência desses sentimentos seriam compensadas pela tentativa de imitá-los (Hare,1993). Como um ator ruim que imita sentimentos sem de fato senti-los. Talvez, João seja um ótimo ator? Ou mesmo que fosse um ator ruim, seria possível que sua má performance ou características estranhas fossem associadas e percebidas como a manifestação de seus poderes paranormais?

Afinal, o que seria tal mediunidade? O poder de ver o que ninguém mais vê? Ouvir o que ninguém mais ouve? Ter poderes de se comunicar com Deus? Talvez os descrentes pudessem dizer que há semelhanças com uma forma de psicose, não?

E como se explica as milhões de pessoas que acreditaram junto com ele nestes poderes? Mesmo estas centenas que foram abusadas e que levaram anos, por vezes, décadas para se manifestarem? Estariam elas com medo do castigo divino? Castigo que viria de Deus ou do Diabo?

Bem, e se considerássemos que ambos os lados estão sendo verdadeiros?

Ou seja, que João de Deus realmente foi a figura responsável pela cura de milhões de pessoas, e que este mesmo João também tenha sido o estuprador destas outras tantas mulheres.

Ter a si a atribuição de algo que existe dentro do outro…

Ser o bem que o outro precisa que eu seja. Possuir o bem para poder oferecê-lo a quem pedir ou a quem quiser comprar.

Penso que algo parecido com isto é chamado pela psicanálise de Transferência.

Talvez, João de Deus seja Deus para que nós possamos ver Deus. Para que possamos falar com ele e ter com quem reclamar… Será possível que para que nós possamos sentir o amor divino e incondicional, nós criamos João de Deus?

Em nossas clínicas podemos observar o poder das transferências. Doenças que somem em apenas algumas sessões de análise não são incomuns.

Bion traz no termo “preconcepção”, algo que constituiria a mente humana, e utiliza o modelo mãe-bebê para caracterizar a busca do bebê pela mente da mãe, e para que ela então possa conduzi-lo ao seio que o alimentará.

Chuster (2014) descreve: “A preconcepção pode ser definida como uma expectativa vaga de que, no futuro, exista um objeto onipotente e psiquicamente acolhedor capaz de preencher as necessidades e incompletudes humanas” (p.66)

Talvez João de Deus nos ofereça o alívio para esta busca.

Um psicopata, com ótimas habilidades teatrais…

O depositário de uma necessidade de vermos e tocarmos Deus e de assim termos encontrado o paraíso do amor incondicional. O seio que está sempre disponível…

Um homem que faria uso disto para enriquecer e abusar de adolescentes e mulheres…

Um médium com poderes sobrenaturais que canalizaria a energia de espíritos mais evoluídos para curar doenças…

Talvez, João Teixeira de Faria seja tudo isto. Talvez não seja nada disto. De qualquer forma, parece um fenômeno extraordinário e que, possivelmente, fale mais sobre nós como espécie do que de João.

Bibliografia:

Chuster (2014). A Preconcepção, Passagem Pré-humano/Humano: Uma mudança de Paradigma na Psicanálise. In Soares, G. & Trachtenberg, R. W.R. Bion: A Obra Complexa (2014) Porto Alegre. Editora Sulina.

Cumming,H. & Leffler, K. (2008) João de Deus: O Médium de Cura Brasileiro que Transformou a Vida de Milhões. São Paulo. Pensamento.

Freud, S.(1976). Além do Princípio do Prazer. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol18) (pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (trabalho original publicado em 1920)

Hare, R.D. (1993). Without Conscience: The Disturbing World of Psychopaths Among Us. The Guilford Press. New York.

*Rafael Privatto Tinelli é psicoterapeuta psicanalista, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

 

Conversando com Shakespeare e Freud

* Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo

Você conhece Shakespeare? E Freud? Em diferentes instâncias, todos conhecemos um pouco. Em poucas linhas, selecionei apenas alguns aspectos, em função da importância e grandeza desses dois autores. Um é poeta e dramaturgo inglês, o outro, neurologista e psiquiatra austríaco, criador da psicanálise, o pai da psicanálise, como é chamado. Posso assegurar que tão logo qualquer um de nós penetre no universo de suas obras, não sairá mais. Faço aqui um convite e um alerta: somos aos poucos enredados pelo prazer e curiosidade cada vez maior, que ambas as produções vão disparando em nós leitores, estudantes, espectadores.

São fascinantes tanto as peças de Shakespeare, como a teoria psicanalítica que Freud em 40 anos construiu e nos presenteou.

É fácil compreender porque Shakespeare (1564-1616) é tão atual e frequentemente encenado no mundo inteiro. Basta iniciar a leitura. Assim como muitos dos conceitos trazidos por Freud (1856-1939), entraram em nosso vocabulário e definitivamente fazem parte da nossa cultura.

Apenas três peças são originalmente escritas por Shakespeare: Sonho de Uma Noite de Verão (1595), As Alegres Comadres de Windsor (1597-8) e A Tempestade (1611). Todas as outras peças foram retiradas e transformadas a partir de obras já existentes, de diversos autores, onde o Bardo imprime profundidade e dá a elas nova finalização e beleza.

Quando os teatros ingleses foram fechados por dez anos, em função do alastramento da peste negra que dizimou quase um terço da população da Europa, Shakespeare passou a escrever os famosos sonetos. Foram 154 sonetos, em sua maioria, de amor.

Podemos encontrar nossa originalidade nas produções artísticas, assim como podemos encontrar novas formas de expressão e criação, diante do imprevisível, do inusitado. Quero me referir às transformações que sofremos a partir das experiências pelas quais passamos e da nossa própria capacidade exploratória e resiliente.

Freud identificou o processo no qual o homem transforma os estímulos sensoriais em qualidades psíquicas. Shakespeare transformou narrativas ficcionais em arte, por meio de sua imaginação criativa e de seu grande domínio da retórica.

Shakespeare subverte a condição do homem medieval, sujeito às leis e normas da Igreja e reduzido definitivamente a pertencer, ou a ser do bem ou do mal. Ele quebra o maniqueísmo religioso e em suas peças todos os personagens podem ser bons e maus. Surge a possibilidade da reparação e principalmente da interioridade, quando o indivíduo passa a ser constituído por todas as formas e intensidades do sentir, do fantasiar, podendo haver um lugar legítimo para o desejo. Harold Bloom em seu livro Shakespeare: a invenção do humano diz que “as peças nos leem de maneira definitiva”. E vai além, ao afirmar que “os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto recriarem”.

Freud ao assegurar que somos regidos por impulsos inconscientes e não somente por princípios racionais, propõe uma nova ordem para o existir. Ele diz que o “Ego não é rei em sua própria casa”, avisa que somos neuróticos inconformados com nossas limitações e principalmente com a finitude. É muito fácil nos reconhecermos nessas condições, não é? Basta olharmos para nossos medos, desamparos, angústias. O susto frente ao desconhecido.

Humberto Eco, numa visão pancalista do mundo (a visão pancalista entende que tudo no mundo é belo) afirma que “A beleza que é disseminada por Deus é a causa da harmonia e do esplendor de todas as coisas”.

E nós, como ficamos diante dos ideais inatingíveis?

Freud, buscou em Ricardo III, o exemplo da recusa narcísica diante do “feio, imperfeito” para ilustrar seu texto As exceções. Ele certamente, se utilizou da produção shakespeariana para compor sua teoria psicanalítica. Hamlet faz parte da A Interpretação dos sonhos. E em diversos textos se valeu de Otelo, Rei Lear, Macbeth, O mercador de Veneza, entre outras.

Assim como numa experiência analítica, Shakespeare nos coloca diante de nós mesmos, ficamos expostos, através de suas personagens aos mais sublimes e terríveis sentimentos. Aos poucos reconhecemos do que somos feitos. É surpreendente, angustiante, desafiador, apaixonante.

Cada vez mais encurtamos o tempo necessário para vivermos as experiências, senti-las e processá-las. Não há espaço de elaboração, os registros se sobrepõem e quando olhamos para trás, lá se foram as memórias que poderiam ter sido guardadas. Como um balão que escapa da mão, sobe, sobe e desaparece. Não há mais balão. Sentimento de vazio.

A psicanálise oferece, no encontro do analista e analisando, a criação de um campo capaz de favorecer o conhecimento de aspectos reprimidos, obscuros ou ameaçadores, lidar com nossas tragédias internas e tecer uma nova configuração psíquica, onde o indivíduo possa ser mais senhor de seu próprio destino.

Na era medieval, o poder era exercido pelo indivíduo, seguindo uma posição hierárquica e era autorizado político e socialmente, mesmo que ele não tivesse capacidade para esse lugar.

Quando o homem se vê poderoso, outorga-se direitos correspondentes ao cargo que ocupa, sem se dar conta que os cargos podem se esvair e então, o que resta dessa criatura? Despido de todos os símbolos de poder, o ser humano é essencialmente regido por pulsionalidade, amor e ódio, Eros e Tânatos.

Poder, gratidão, inveja, ciúme, ambição, lealdade, traição, amor, ódio, vingança, redenção, fracasso, morte, fazem parte da extraordinária tragédia humana, que Shakespeare nos apresentou entre 1590 e 1613. Quatro séculos se passaram e a história nos é tão familiar e atual.

Somos reféns da nossa natureza que, apesar do imenso avanço científico, tecnológico e filosófico, obedece a primitivos e imperativos desejos de poder e soberania dos desejos individuais. Não aceitamos a incompletude!

O que fazer com nossas insuficiências?

Reparem nesta linda frase, da peça A Tempestade: “Somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

E como somos! Os sonhos que sonhamos dormindo, os sonhos que sonhamos acordados, nossos devaneios, os sonhos que sonhamos a dois, os sonhos sonhados nas sessões de análise pelo analisando e seu analista. O sonho nos constitui.

O universo simbólico e a renúncia ao desejo nos configura como humanos.

Freud afirma que o sonho é a tentativa de elaboração dos conflitos pulsionais, a realização dos desejos infantis. Hoje, vamos além ao entender que o sonho já é a elaboração dos conflitos.

O que seria da humanidade se não houvesse os sonhos? Se não houvesse as artes, o teatro, a literatura, a beleza?

Precisamos de Freud! Precisamos de Shakespeare!

Há 16 anos, faço parte e coordeno o grupo de estudo Conversando com Shakespeare, que se reúne mensalmente na sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Dessa experiência nasce o livro Shakespeare: paixões e psicanálise (Editora Blucher, 2019), composto por alguns integrantes do grupo e todos os profissionais que ao longo dos anos, nos apresentaram o Bardo e sua magistral obra.

 

*Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da International Psychoanalytical Association (IPA), da Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) e da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi). É coordenadora do setor de simpósios, cursos e jornadas da Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP (DAC) e do Grupo de Estudos Conversando com Shakespeare, da SBPSP.

 

 

 

 

 

 

 

Humilhação e ressentimento*

Observatório Psicanalítico – 126/2019
Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*Bernardo Tanis

A humilhação atenta contra a dignidade, contra a representação de si, constrange, encapsula. O sentimento de humilhação resulta de uma ofensa, de um ataque ao ser, à sua condição de existência como indivíduo ou membro de um grupo. Ocasiona múltiplos efeitos na subjetividade, desde o silêncio constrangedor do humilhado, até revoltas e insurreições coletivas.

Hoje irei focar na Humilhação Social. Reconhecemos nesta modalidade de sofrimento determinações sociopolíticas, raciais, econômicas, narcísicas, ancoradas em mecanismos muitas vezes inconscientes. Trata-se de um sentimento que afeta a identidade social, cultural e individual do sujeito. O humilhado é destituído de sua condição de humanidade e jogado a uma condição inferior. Seu corpo, a cor da sua pele, suas crenças, sua religião, sua origem, sua identidade de gênero, sua situação socioeconômica, são tidos como justificativas para atos de discriminação, violência, tortura e rebaixamento.

Muitas vezes, as formas de dominação e opressão (na família, na escola, nos pequenos grupos, no trabalho, nas instituições) estão amparadas em leis e decretos que as legitimam e, ao longo da história, geram inúmeros efeitos subjetivos: psicológicos, somáticos e morais. A humilhação tem como objetivo a intimidação e gera efeitos de enclausuramento, de desprezo por si e pelo semelhante. Pode se dar social e politicamente, fazer uso das questões raciais, dar-se no limite da tortura, como no caso dos mecanismos coloniais de dominação. Espontânea ou premeditada, pode ser pontual, barulhenta ou oferecida em pequenas doses homeopáticas, que vão minando as capacidades e potencialidades do indivíduo e, assim, reduzindo sua imagem de si, sua autoestima, até que se veja como um ser de mera subsistência, pondo em cheque sua existência. A humilhação provém do Outro, que pode ser compreendido como o outro humano com quem interagimos, mas também como Outro, universo da cultura, no qual vigoram normas, leis e crenças. Outro da cultura e da linguagem nas quais nascemos e que nos antecedem.

Embora conheçamos as formas de humilhação social no passado – durante os períodos da escravidão e servidão, da inquisição, nos campos de concentração e extermínio, nos gulags, nos porões das ditaduras, nas exclusões e confinamentos dos guetos – não podemos ignorar os novos mecanismos que hoje, no mundo pós-moderno e tecnológico, oprimem o indivíduo (tema que irei desenvolver em  um futuro ensaio).

Retomemos então um dos tantos efeitos resultantes da humilhação: o ressentimento. Sentimento amargo que perdura e toma conta da existência do humilhado. O ressentimento pode ser definido como a memória enraizada de um abuso, de um insulto particular, do qual se deseja ser vingado. Seu sinônimo é rancor. Esse sentimento pode se articular como vingança, exercida muitas vezes através de comportamentos sádicos como retorno ativo às feridas concretas e narcísicas, revolta pelos danos externos traumáticos que foram experimentados passivamente.

É através da vingança que a relação é revertida: o sujeito ressentido deixa de ser um objeto anterior humilhado, para ser um sujeito da revolta, movido pelo complexo movimento de desforra, mas também de fazer justiça, de recuperar a honra e a dignidade.

Perante o ressentimento, a dor e a humilhação social em todas suas formas, haveria outros caminhos possíveis, distintos dos da vingança ou da transformação de passivo em ativo pelo exercício sádico do acerto de contas? O que segue são algumas considerações, a partir da psicanálise. Convido-os a debater estas ideias não como verdades, mas como hipóteses a serem pensadas.

Poderíamos convocar a diferença,  como já destacara Kancyper, entre a memória viciante do rancor e a memória da dor. Podemos fazê-lo sem covardia, submissão, ou negação dos crimes cometidos pelo abuso de um poder historicamente construído?

A memória do rancor é entrincheirada e nutrida da esperança pela vingança que está por vir. Já a memória da dor é contínua, seguida pelo tempo da elaboração, e exige como condição para sua superação o reconhecimento dos danos recebido e infringido, não podendo jamais ser confundida com a negação destes danos.

Certamente, a memória da dor (na nossa perspectiva psicanalítica e histórica) não se ancora na subestimação do passado, nem na amnésia do acontecimento, nem na imposição de uma absolvição superficial; mas no reconhecimento e admissão por parte do perpetrador do crime, da falta cometida. Na reparação a partir da admissão da responsabilidade. Apenas nesse contexto será concedida ao humilhado a chance de transformar seu ódio e rancor em tristeza.

O trabalho de elaboração de um luto perante a humilhação social não poderá ser apenas um trabalho do humilhado, exige e demanda, em contrapartida, o reconhecimento da responsabilidade da sociedade que o fomentou, sustentou e dele se beneficiou.

A não elaboração coletiva perpetua a memória de rancor. Esta memória não seria regida pelo princípio de prazer / desprazer, nem pelo princípio da realidade, mas pelo princípio do tormento, pois é da ordem do traumático. A compulsão à repetição é a maneira básica de interceptar o futuro, uma limitação à  capacidade de transformação.

Estando o processo de elaboração da escravidão, do colonialismo, da tortura, do racismo, da exploração do trabalho, da criança, da mulher, dos homossexuais impedido de ser feito de modo coletivo pela sociedade, a dimensão traumática da humilhação social vivida se transmite transgeracionalmente, inunda e contamina o tecido social de modo inconsciente, constrói regiões cada vez maiores de subjetividades silenciadas, recalcadas ou clivadas, incapazes de entrar na cadeia do significado simbólico. Esgarça o laço social. O futuro que se constrói nesses contextos é apenas em função da vingança de um passado. No entanto, imperfeita, sofrida, dolorosa e difícil de atingir, resta-nos a memória da dor que admite o passado como experiência traumática, violenta e de dominação, mas que opera para não esquecer, para não repetir, é um sinal de alarme permanente que protege e impede a repetição do mal e que talvez possa dar lugar a uma nova construção, à esperança.

 

* Uma versão deste texto foi apresentada na jornada “Movimentos na fronteira” da Diretoria de Atendimento à Comunidade – DAC, da SBPSP, em outubro, no Fórum sobre Humilhação e Ressentimento, e também postado no site da FEBRAPSI.

** Bernardo Tanis é psicanalista e presidente da SBPSP. 

 

Uma autobiografia kleiniana

*Alexandre Socha

O ímpeto em narrar a própria história e dar a ela algum sentido é uma das mais fortes necessidades da natureza humana. Ela assume inúmeras formas, das pinturas rupestres ao diário íntimo, passando pela criação artística e pela função dos testemunhos. Existem aqueles que escrevem suas lembranças para torná-las mais vívidas, resgatá-las da penumbra do esquecimento e da poeira do tempo. Já outros o fazem justamente para conseguir esquecer, fiando-se na permanência do papel e sua concretude externa para delas poder se libertar.

Pouco sabemos sobre o que pode ter levado Melanie Klein, às vésperas de completar 78 anos, a debruçar-se sobre suas memórias em um texto autobiográfico. Sabemos, todavia, tratar-se de um de seus últimos registros, contemporâneo, portanto, a “Sobre o sentimento de solidão”, “Algumas reflexões sobre a Oréstia” e outros trabalhos incompletos. Klein vinha redigindo breves notas sobre sua vida e as reuniu em um texto único, de trinta páginas, no final de 1959, meses antes de seu falecimento.

Em uma espécie de “retorno às origens”, recupera nessas notas o ambiente de sua própria infância e os inícios de sua trajetória psicanalítica. Cenas prosaicas do cotidiano doméstico, da vida escolar, de sua relação com o judaísmo e linhagens familiares, desfilam como paisagens na janela de um trem – ou, por que não, como associações livres feitas no divã da folha em branco. Delas emerge um passado idílico e nostálgico, exigindo do leitor um constante esforço para contextualizar tais reminiscências ao momento em que foram escritas. Pois, assim como ocorre no divã psicanalítico, as lembranças – sejam elas encobridoras ou não – trazem sempre a marca do momento atual. Como assegura o velho ditado, “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”.

Diante do valor documental das notas autobiográficas, disponibilizadas recentemente ao grande público pelo Melanie Klein Trust, acaba de ser publicado o livro “Melanie Klein: Autobiografia comentada” (Blucher)[1]. Além da tradução inédita do texto para o português, cuidadosamente realizada por Elsa Vera Kunze Post Susemihl, a edição conta com quatro comentários feitos por colegas que há décadas se dedicam ao estudo de Klein. R. D. Hinshelwood (Londres), Liana Pinto Chaves (São Paulo), Claudia Frank (Stuttgart) e Izelinda Garcia de Barros (São Paulo) amplificam as ressonâncias da Autobiografia e oferecem novos substratos à sua leitura. Foi também incluído nessa edição o relato de James Gammill sobre sua experiência de supervisão com Melanie Klein, ocorrida, coincidentemente, no mesmo período em que se deu a reunião de suas notas autobiográficas.

Entre a vida e a obra

Não foram poucos os analistas que se dedicaram a escrever suas memórias. Guardariam elas algo de suas concepções teóricas e clínicas? Seria o conteúdo autobiográfico semelhante ao biográfico, frequentemente utilizado pelos pesquisadores para iluminar pontos obscuros de uma obra e revelar os contextos de sua construção?

Toda escrita psicanalítica parece carregar, ainda que involuntariamente, alguma marca autobiográfica. Afinal, sua origem remete sempre a uma relação íntima do analista, tanto com seu paciente, instituição ou fenômeno cultural abordado, quanto consigo próprio e com sua experiência vivida na ocasião. Essa “autobiografia” implícita, a que perpassa o conjunto de uma obra, pode, por vezes, não coincidir plenamente com uma autobiografia stricto sensu do mesmo autor, correndo ambas silenciosamente em paralelo. Um olhar mais detido sobre elas, no entanto, permite encontramos complementariedades em aparentes contradições.

O ensaio memorialístico “Um estudo Autobiográfico” (1925), que Sigmund Freud escreve sob encomenda para uma editora alemã, é um caso emblemático e um contraponto interessante ao texto de Klein. Logo aquele que em tantas ocasiões expôs, aberta ou disfarçadamente, elementos de sua vida privada, sonhos, medos e ambições, apresenta-se em suas memórias “oficiais” claramente reservado e cauteloso. Dez anos depois, no pós-escrito de 1935, Freud explicita seu posicionamento: “em alguns de meus escritos (…) fui mais franco e aberto do que costumam ser as pessoas que narram sua vida para os contemporâneos e os pósteros. Não me foi demonstrada muita gratidão por isso; a experiência me leva a desaconselhar que outros o façam.”

Suas reminiscências nesse texto são equivalentes à própria história da psicanálise e de sua invenção. São, em particular, a história pormenorizada das oposições e difamações enfrentadas pela psicanálise, os custos pessoais para o seu desenvolvimento, o alto preço que pagou por ele e as defesas que se tornaram necessárias erigir. Embora apresente-se como relato objetivo de um percurso científico, a narrativa freudiana transpira de modo sutil a reiteração de uma mitologia pessoal: Freud é aquele que sobreviveu aos ataques e provações para que sua verdade prevalecesse. Rompeu a repressão da era vitoriana com uma revolução que, de fato, até hoje não foi totalmente assimilada: a da sexualidade infantil e seus efeitos na vida psíquica. Tal qual o mito do herói, seu autor sai das inúmeras dificuldades transformado, podendo nos contar então sobre as batalhas vencidas e as marcas que lhe deixaram.

Em que pese as circunstâncias bastante distintas em que foi escrita, a narrativa kleiniana não apresenta, em termos manifestos, praticamente nada sobre suas conquistas, adversidades ou mesmo sobre o desenvolvimento do seu pensamento. Antes, há passagens extensas onde pairam uma visão do infantil, o seu próprio, compondo uma descrição conciliatória de objetos que buscam reestabelecer uma relação amorosa entre si. Mesmo sendo um autorretrato bastante comedido, seria difícil não correlacionar tais perspectivas com aquilo que a autora produziu ao longo de quatro décadas como analista de crianças e adultos.

Ao lado de Helene Deutsch e Karen Horney, Melanie Klein propôs uma visão renovada do feminino dentro da teoria psicanalítica e explorou suas múltiplas latitudes na prática clínica. Suas contribuições, contudo, foram mais além do que as de suas contemporâneas e operaram um verdadeiro deslocamento no eixo gravitacional da metapsicologia freudiana, voltando-se das interdições da figura paterna para a questão da maternidade e das particularidades da relação inicial que se estabelece entre o bebê e sua mãe. Nesse caminho, Klein inaugurou uma perspectiva original dentro do campo psicanalítico, cujo desdobramento ultrapassou as fronteiras do kleinismo e se ramificou por diferentes vias, ainda hoje em desenvolvimento.

Do mesmo modo como em Freud e outros autores, há elementos biográficos sabidos, mais ou menos reconhecíveis, em vários dos principais artigos que Klein publicou em vida. Somada a uma notável perspicácia e capacidade de observação clínica, soube como poucos transformar experiências dolorosas (lutos, ambivalências, perseguições, perdas, rivalidades, etc.) em construções teóricas sofisticadas sobre o funcionamento mental. À percepção de que alguns de seus trabalhos brotaram de um sofrimento pessoal e de sua elaboração, vem somar-se agora este “novo” texto que acaba de completar 60 anos: sua Autobiografia.

*Alexandre Socha é psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

[1] O lançamento do livro será realizado no dia 19 de outubro, às 11 horas, na SBPSP, em reunião aberta e entrada franca.