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O tempo circular e a marmota eletrônica

*Alexandre Socha

A constatação de que cada pessoa experimenta de maneira muito particular uma situação que se oferece como coletiva e compartilhada pode, à primeira vista, soar demasiado óbvia. Sua complexidade, no entanto, se desdobra na clínica psicanalítica durante a pandemia, quando os modos singulares de se viver e de sobreviver a ela são colocados em evidência. Se as marcadas diferenças sociais e econômicas insistem em nos explicitar que não vivemos todos a mesma pandemia, somam-se aqui também as diferenças de repertório simbólico e de estruturação psíquica de cada um.

Mesmo assim, ao longo dos últimos meses escutei de diferentes pessoas um comentário semelhante, que se repetia aqui e acolá. Trata-se do sentimento incessante de que os dias se repetem, o dia seguinte idêntico ao dia anterior, todos iguais. Não raro utilizam como referência o filme Feitiço do Tempo (1993), para descrever essa espécie de “dia da marmota” ao qual encontram-se aprisionadas. No filme em questão, a passagem do tempo é interrompida e o protagonista acorda sempre no mesmo dia, não importando nada do que tentasse fazer para romper a repetição.

Tal sentimento costuma ser relacionado, pelas pessoas que o relatam, com a perda dos marcadores que lhes permitiam reconhecer uma segunda-feira como segunda-feira, quarta como quarta e domingo como domingo. Trabalho, estudo, lazer e o cuidado com as crianças se intercalam sem as suas usuais distinções espaço-temporais, isso quando não mesmo justapostos. Passado os primeiros meses, alguns puderam criar novas estratégias para medir a passagem do tempo, outros continuam às voltas com a questão. Todos, no entanto, parecem estar lidando com certo acirramento na dissonância entre o tempo do relógio e o tempo vivido. As horas se arrastam lentamente, enquanto o mês passa voando, ou vice-versa.

À repetição dos dias acrescenta-se ainda outro sentimento: o da estranheza de que dentro de casa nada de novo parece acontecer enquanto, simultaneamente, do lado de fora o ritmo dos eventos é frenético. O colapso na saúde pública, as ameaças da necropolítica brasileira, o escalonamento das tensões sociais e institucionais. Tudo ocorre em uma velocidade tal, que basta um dia sem acompanhar o noticiário para tornar-se o ermitão de uma longínqua floresta. É como se, agora, afirmam alguns, tudo acontecesse do lado de fora, onde a urgência e gravidade dos fatos exigem constante atenção. Curiosamente, enquanto os olhos acompanham o movimento ininterrupto pelas telas do celular e do computador, paralisam quando ensaiam, por um instante, retornar a si.

Frente ao contraponto sugerido pela “marmota” e pelo contraste dentro-fora, fui visitado por uma analogia musical.

Uma grande parte da música ocidental que escutamos possui uma forma linear, com começo, meio e fim. A “forma sonata”, largamente utilizada na música de concerto, ou a “forma canção”, explorada pela música popular, são formas orientadas por um senso de narrativa. Saímos do ponto A, passamos pelo B, chegamos ao C, podemos voltar ao A e daí por diante.

Essa temporalidade sequencial é radicalmente distinta da que encontramos em outras tradições musicais, como, por exemplo, em músicas tribais, indígenas, árabes, nas percussões africanas ou em alguns gêneros de música eletrônica. Nessas, não há proposto um caminho narrativo e historicizante. São antes formas circulares, texturas sonoras que instauram um tempo infinito, um eterno agora. Novos elementos podem até ser acrescentados (um instrumento diferente, uma nova frase melódica ou rítmica que é incorporada), mas isso é feito de modo tão sutil que não rompe sua condição circular.

Se as escutamos “de fora”, com ouvidos acostumados à música linear, sua ausência de progressão pode se tornar cansativa e soar monótona. Ao embarcarmos nela, entretanto, o vazio melódico é preenchido por um tecido complexo de ritmos e timbres, criando uma temporalidade capaz de induzir o ouvinte a estados meditativos, de transe ou êxtase.

Mas, o que aconteceria se essa música parecesse não terminar nunca? Como a escutaríamos se ela se arrastasse por dias, meses, indefinidamente, sem que tivéssemos uma previsão clara de seu fim?

Uma segunda analogia pode ser convocada. O psicanalista inglês D. W. Winnicott, ao descrever os momentos iniciais do desenvolvimento humano, propõe como um de seus pilares fundamentais aquilo que chama de continuidade de ser (going-on-being). Esta seria como um fio que perpassa as diferentes situações vivida pelo bebê (o espaço entre a amamentação, o sono, ser banhado, embalado, etc.) reunindo-as na permanência de uma unidade, uma unidade de si mesmo. Temos aqui, implícita, a ideia de que é justamente o movimento entre essas experiências aquilo que cria a sensação de continuidade processual.

A pergunta, então, novamente se coloca: e se não houvesse, para esse bebê winnicottiano, uma discriminação mínima entre os momentos vividos, entre o estar desperto e dormindo, entre sentir fome e saciedade? Poderíamos supor, imaginativamente, que neste caso o tempo para, restando nada além do aprisionamento a um presente estático. Para alguns isso pode se traduzir em tédio, para outros, em ansiedade ou ainda em uma profunda angústia.

Talvez tivesse isso em mente, sem perceber, quando dias atrás um analisando me contava sobre seu comportamento impulsivo de compras durante a pandemia. Havia comprado um pacote de feltros, antes disso uma parafusadeira e antes um jogo de porta-copos. “Nada disso precisava tanto assim”, concluiu. Lembrei de conversas com alguns amigos que diziam estar também comprando pequenos apetrechos mais do que o habitual. Além dos víveres, materiais para bricolagem, acessórios de cozinha e bricabraques diversos.

Com frequência, fica subjacente a ideia de que “quando tal coisa chegar, aí sim vou poder fazer isso ou aquilo outro”. Ou seja, com as panelas novas, a comida certamente ficará mais gostosa, com o aspirador moderno, a casa ficará mais limpa, com o kit de ferramentas, tudo ficará consertado. Obviamente, não é o que acontece. Falta, muitas vezes, o ânimo para cozinhar, o aspirador acaba não alterando o aspecto da casa tanto assim, o conserto não alcança o que foi quebrado e passa-se então ao próximo item.

Ao escutar o analisando que se questionava sobre tais movimentos, tive a impressão de que estávamos diante de algo diferente da habitual compulsão por compras, do preenchimento de um vazio ou do movimento evacuativo de angústias. Na ocasião, disse-lhe que, mais do que o objeto em si, talvez fosse a experiência de esperar por algo, o que estaria sendo procurado e ansiado. Uma ação que lhe fizesse tomar posse do tempo, antecipando o som do interfone que toca, o pacote finalmente nas mãos sendo aberto. Esperar, manter-se em espera e nela sentir-se vivo.

Pensando agora, talvez buscasse a criação de uma chegada, um evento que pudesse romper a circularidade e instaurar novas temporalidades à música de sua quarentena.

*Alexandre Socha é psicanalista, membro associado da SBPSP.

A luz do meio-dia

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

Há alguns anos atendo um paciente que guarda consigo a seguinte lembrança encobridora 1. Ele tem cerca de cinco ou seis anos, e já gosta de dormir até um pouco mais tarde. Sua mãe não tolera essa sua preferência, seja durante os dias de semana quando a rotina da escola se faz presente, seja nos finais de semana, férias ou feriados. Todo santo dia ela entra em seu quarto e escancara as janelas, fazendo a luz entrar de uma só vez por toda a parte. Sua memória é essa, a de acordar atordoado em meio a tamanha claridade.

Não por acaso, a memória se atualiza através da máquina do tempo da transferência. Na maior parte das sessões ele me expõe a um sem fim de informações sobre o seu dia-a-dia, e diante da poluição de estímulos, me vejo como aquela criança desorientada, tendo meus órgãos perceptivos sobrecarregados pelo excesso da “mãe-luz-do-sol-na-janela-escancarada”. Quando eu pergunto sobre essa dinâmica que se impõe sobre nós, ele chega a dizer sobre a ambição de que um dia eu pudesse conhecê-lo por completo. Com esse pano de fundo, chegamos a uma sessão na qual surpreendo a mim mesmo no meu silêncio – estou entoando algum tipo de mantra de algum tipo de espiritualidade de algum país oriental. A repetição muda daquela vogal demonstra ter a capacidade de criar uma película psíquica que pode filtrar a carga de informações despejada pelo paciente. Com isso, depois de muito, muito tempo de repetição, há uma abertura. Dentro de minha nova membrana sinto que ganho um espaço precioso na sala, e este vem acompanhado por um sentimento de alívio e de aguçamento de minha escuta. Por vezes, exagero na meditação e percebo que a película se tornou uma parede acústica – estou me protegendo em excesso. Começo a me pôr questões se todo o fenômeno não seria defensivo, e se o que é solicitado de mim não seria receber por completo a experiência da criança atordoada.

Em meio a isso, o paciente nota que algo mudou em mim. Ele não consegue falar sobre isso e também parece não conseguir me escutar sobre o fato. De qualquer maneira, eu percebo que ele percebeu algo. Pouco a pouco, mesmo que a elaboração não venha se expressando por meio de associações e interpretações formais, a poluição sensorial parece reduzir. Ele, que apesar de ser o dono, sempre foi invadido por sua “empresa-mãe-luz-sem-filtro”, começa a estabelecer protocolos que o protegem do acesso direto aos muitos funcionários com quem convive. Tem início uma reforma do seu lugar de trabalho, que inclui uma sala própria inédita com o isolamento físico e simbólico adequados. Depois, ele começa a criar uma nova rotina de trabalho para si – período em que estará no modo avião, sem sinal para falar com quem quer que seja, para poder refletir sobre a empresa e também para proteger sua criatividade. Se antes ele era atingido diretamente pela torrente de emails e WhatsApp, agora começa a se instalar um tempo de espera, um interlúdio para o seu próprio pensar. Em outras palavras, a película criada durante a experiência contratransferencial estava sendo pouco a pouco introjetada, o que o paciente parecia sentir como um ganho para o seu “estar-no-mundo”.

Sobre a poluição de informações concretas e minha espontânea reação meditativa, penso que existe um interesse não apenas clínico, mas também social. Nessa dinâmica de bombardeamento de dados associada à falta de uma membrana, podemos encontrar uma analogia com a nossa atual sociedade da informação, onde o excesso de luz não tem como fonte o sol, mas as próprias telas de nossos televisores, computadores, tablets e smartphones. Em abril de 2019, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas2 revelou que no Brasil havia 230 milhões de smartphones ativos, ou seja, vivemos em um país onde há mais telefones do que pessoas. Nessa estatística, estamos à frente da média global, onde há uma estimativa de que 67% da população do globo tenha acesso a esse tipo de instrumento de comunicação. É provável que em nosso país cada habitante não tenha de fato o seu próprio smartphone, mas o número explicita uma tendência de nossa comunidade local e global à supercomunicação.

No entanto, a supercomunicação não parece ser causada pelo aumento da quantidade de aparelhos celulares. Pelo contrário, talvez o aumento exponencial desses números apenas explicite um conjunto de forças mais oculto. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han parece captar parte desse fenômeno intra e interpsíquico através de sua chave: excesso de positividade/falta de negatividade. Ele explora esta fórmula em diversos ângulos de nossa existência contemporânea, inclusive no que diz respeito ao âmbito da comunicação e do contato com a realidade. Para se referir à perda da película da negatividade, ele usa a metáfora da perda imunológica de um organismo. Em seu livro No Enxame: Perspectivas do digital (2019), em um capítulo nomeado Cansaço da Informação, ele diz:

Uma defesa imunológica intensa sufoca a comunicação. Quanto menor a barreira imunológica, mais rápida se torna a circulação de informação. Uma barreira imunológica elevada torna a troca de informações mais lenta. Não a defesa imunológica, mas sim o “curtir” promove a comunicação. A rápida circulação de informações acelera também a circulação de capital. Assim, a supressão [da barreira] imunológica cuida para que massas de informação nos adentrem sem colidirem com uma defesa imunológica. A baixa barreira imunológica fortalece o consumo de informações. A massa de informação não filtrada faz, porém, com que a percepção seja embotada. Ela é responsável por alguns distúrbios psíquicos.

Temos aqui uma descrição que evoca rapidamente termos como: Facebook, Instagram, WhatsApp, TikTok, meme, etc. As mídias digitais e as redes sociais, vem se tornando mais e mais especializadas em derrubar os filtros pelos quais a informação transita, o que acarreta no processo de aceleração mencionado. Por exemplo, se você abrir um desses aplicativos e rolar continuamente para baixo o feed de conteúdos, perceberá que ele não tem fim. Você poderia fazê-lo por 24 horas e ainda assim haveria novas informações a cada deslizar dos dedos. Esse recurso foi desenvolvido por engenheiros da era digital, e se chama barra de rolagem infinita. Tal tecnologia desmonta limites, filtros e barreiras, tornando possível que uma quantidade imensa de informação possa adentrar nosso aparelho psíquico sem muita resistência imunológica.

Um outro exemplo deste mesmo fenômeno pode ser encontrado numa mudança recente na Netflix. Até pouco tempo atrás, para assistir um conteúdo do streaming, você deveria escolhê-lo dentro de um rol de opções. Por outro lado, hoje um trailer do filme já começa a ser exibido automaticamente se você não tomar nenhuma medida ativa para barrá-lo. E o mesmo ocorre ao final de um episódio de seriado – o próximo capítulo será iniciado dentro de pouquíssimos segundos, a não ser que você ativamente aperte o botão para interromper o fluxo audiovisual. Muitas vezes, não há tempo para esse gesto de negatividade, e as cenas seguintes invadem nossas telas. O filósofo diz que a consequência mais imediata desse tipo de relação com a informação é o definhar da percepção e o estupor do pensamento. O pensamento justamente é a ação psíquica que necessita deixar de lado toda a percepção que não é essencial ao que está sendo pensado. O pensamento requer a negatividade do filtrar, do esquecer. Ele trabalha para distinguir o essencial do não essencial. O pensamento requer a presença de uma membrana. A informação é inclusiva, cumulativa, enquanto o pensamento é exclusivo. Mais uma vez, temos o excesso de luz (uma luz sem sombra) e a falta de filtro que ofuscam ao invés de esclarecer.

Além desse colapso imunológico da percepção, Han ainda estende seu exame do processo de perda da negatividade ao contato com a realidade do mundo. Ele argumenta que percebemos e sentimos o mundo porque este se contrapõe a nós, ou seja, temos contato com a realidade pela resistência que ela nos oferece em ser conhecida ou dominada. O esforço científico ou psicanalítico trabalha contra esse algo da realidade que resiste, e o conhecimento obtido nessa empreitada é sempre parcial, limitado, incompleto. Tal resistência funciona como uma barreira entre nós e o mundo, de forma a sustentar as saliências, as arestas, a incompletude e o mistério do universo e da vida. Justamente, a nova massa de textos e imagens que jorram pela luz de nossas telas enfraquece a resistência que a realidade nos oferece. Hoje, vivemos as fake news, mentiras que não descrevem a realidade como ela é, mas sim como gostaríamos que ela fosse. As mensagens falsas que recebemos no WhatsApp muitas vezes repõe a falta de sentido, o absurdo do Homem e do Mundo. Dessa forma, o universo perde em segredo, em nuance, em complexidade, para que nosso Eu possa positivá-lo através da crença e do consumo.

Além dos textos distorcidos que enfraquecem tal resistência da realidade, a nossa relação com as imagens também parece caminhar no mesmo sentido. Tiramos inúmeras fotos e a elas aplicamos inúmeros filtros, mas as fotos tiradas começam a escapar da realidade percebida. A vida no Instagram parece mais viva, mais colorida, mais real do que a realidade deficitária resistente. O livro citado ainda nos lembra da síndrome de Paris, afecção psíquica aguda e grave que acomete diversos turistas, caracterizada pelos sintomas de alucinação, desrealização, despersonalização e pânico. O gatilho dos sintomas é a incongruência entre as imagens hiper-reais consumidas previamente sobre a cidade luz e a experiência real de estar andando por Paris. De forma precisa, o sintoma vem para denunciar que as imagens otimizadas anularam a resistência do mundo real deficiente. A desrealização na síndrome de Paris é o início de um tratamento psíquico a partir da quebra da ditadura do imaginário, com a abertura para a precariedade do que é real. Nesse sentido, não nos parece defensivo o tirar compulsivo de fotos, como se quiséssemos destruir as rugas da realidade?

Pouco a pouco vamos trocando o nosso mundo pobre em cores e sentido por um outro melhor, menos feio, menos absurdo. Ao longo dessa substituição podemos observar a perda da negatividade da realidade, ou seja, a perda de uma membrana não apenas dos órgãos psíquicos que recebem a massa de informações, mas sobretudo do universo que nos cerca. Um universo sem membrana é um universo morto, totalmente acessível e consumível. Esse filtro representa aqui a sombra, a vida que não se deixa conhecer, a área que não pode ser iluminada completamente, o escuro que pode formar gradações e matizes com a luz. Sem ela, a positividade do Eu passa a imperar de forma mórbida e desenfreada.

Uma vez que possamos nos familiarizar com tal descrição de nossa vida contemporânea em torno do binômio excesso de positividade do Eu/falta de negatividade do Outro, estaremos em melhores condições para avaliar o impacto da pandemia da doença Covid-19 provocada pelo vírus Sars-Cov-2. Em artigo recente intitulado O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã (2020), o mesmo Byung-Chul Han descreve o lugar do vírus nesse cenário:

Mas há outro motivo para o tremendo pânico. Novamente tem a ver com a digitalização. A digitalização elimina a realidade, a realidade que é experimentada graças à resistência que oferece, e que também pode ser dolorosa. A digitalização, toda a cultura do “like”, suprime a negatividade da resistência. E na época pós-fática das fake news e dos deepfakes surge uma apatia à realidade. Dessa forma, aqui é um vírus real e não um vírus de computador, e que causa uma comoção. A realidade, a resistência, volta a se fazer notar no formato de um vírus inimigo. A violenta e exagerada reação de pânico ao vírus se explica em função dessa comoção pela realidade.

Dessa forma, podemos encontrar no estado de pandemia atual alguma semelhança com a síndrome de Paris. Um turista hipotético teria aplainado as saliências da realidade por meio das imagens melhoradas da capital francesa. O contato com a Paris real faz o império da imagem ruir, resgatando parte das imperfeições do universo. Em escala global, todos nós temos nivelado tais arestas da realidade por meio dos fenômenos descritos acima, substituindo-a por um mundo infiltrado pelo narcisismo excessivo, liso como a tela de nossos smartphones. Nesse cenário surge o Sars-Cov-2, um vírus que restitui a negatividade daquilo que não pode ser conhecido ou controlado completamente. É provável que estejamos todos passando por algum tipo de desrealização, mas uma desrealização específica, a saber, a perda da realidade otimizada que temos construído nos últimos anos com a ajuda da supercomunicação.

  1. Uso o termo para me referir ao processo que Freud descreveu em Lembranças Encobridoras (1899), onde esse tipo de memória surge como uma das formações do inconsciente, num compromisso entre o processo primário e as instâncias de censura.
  1. https://eaesp.fgv.br/sites/eaesp.fgv.br/files/noticias2019fgvcia_2019.pdf .

  

* Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro associado da SBPSP e membro do Núcleo de Psicanálise do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.

Consciência da própria história

*Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo

 

A adoção é uma opção existencial para aqueles que desejam exercer as difíceis funções parentais. Seja o casal heterossexual, homossexual ou monoparental. Será preciso trabalho mental para lidar com as dificuldades, lutos, frustrações, quando não tem sido possível a concepção do próprio filho biológico.

Outras vezes, a decisão de adotar uma criança surge de mandados internos de compaixão, solidariedade, obrigatoriedade. Ou tentativas de reparação por danos fantasiados, fontes de insidiosa culpa.

O “delírio de bondade” (Ahumada, 1999) é também frequente. Os pretendentes à adoção projetam na criança o próprio desamparo e partes carentes da personalidade. Eles, então, assumem uma postura onipotente, poderosa, “livres” da própria pobreza mental.

Uma narrativa frequente é (1): “Nós encontramos você magro, desnutrido, triste no abrigo. Nós cuidamos de você, oferecemos cuidados médicos, escolas, viagens, uma vida de qualidade. Nada lhe faltou e agora você…”.

Para evitar a dor, esse casal deixa de reconhecer o valor do filho, quem lhes deu a possibilidade de serem pais, já que para eles não foi possível a concepção do desejado filho biológico. A esterilidade é negada. Eles depositam a desnutrição psíquica nessa criatura e assim luzem a onipotência.

“Nos sucede esta desilusão porque ele não é nosso filho. ”Para o bebê, a criança e/ou adolescente, quando institucionalizados em abrigos, mesmo quando têm um padrinho voluntário, ou quando vivem em famílias que os acolhem temporariamente, até serem adotados, há uma privação das funções parentais estáveis, em intimidade.

Pais adotantes

Exercer funções parentais suficientemente boas não é tarefa fácil para ninguém; nem para os pais biológicos. Ao dizer “suficientemente boas” nos afastamos dos ideais onipotentes de perfeição, de salvação. Somos apenas  homens, não somos deuses e portanto seres limitados. Claro que transformações sempre são possíveis!

Quando essas funções são adequadas e a criança adotada tem recursos psíquicos e não está gravemente prejudicada pelos traumas sofridos, ela poderá vir a ser um sujeito capaz de brincar, criar, se expressar, conviver, pensar, sonhar.

Os encontros harmônicos, sintonizados, significativos com o filho, que transcendem os cuidados materiais – com moradia, higiene, saúde, alimentação, escolaridade –, promovem o crescimento psíquico.

“Mamãe limpa este bumbum cheio de cocô para você ficar limpinho, perfumado, meu tesouro. O bebê com o olhar fixado no seu rosto dá gargalhadas em quanto flexiona e estica as perninhas. ”Nessa cena do método de observação de bebês, modelo de Esther Bick (3), a observadora é testemunha de uma relação misteriosa e estética entre a mãe e Pedro, de 8 meses. Ambos revelam encantamento recíproco. Ele busca e se encontra refletido no olhar da mãe, espelho vivo. Para essa mãe, seu filho é um tesouro que expressa sua alegria com a movimentação das pernas e as gargalhadas. Ela lhe atribui valor e, assim, a autoestima é construída.

A paternidade brinda a oportunidade de mergulhar na própria história de vida dos progenitores. O bebê, a criança, o adolescente estão presentes no adulto, fazem parte da personalidade total dos pais. Esses registros são evocados. Às vezes, há uma possibilidade de ressignificar esse percurso; outras, há uma repetição compulsiva.

“Eu não quero que Theo sofra o que eu tenho sofrido com o autoritarismo, a arrogância, a estupidez do meu pai, com a pobreza, com a vida dura.”

Às vezes, os pais não têm consciência da própria história de vida e, com a intenção de “mudá-la” com e para o filho, repetem o mesmo script. Ambos vivem a invariância da história, como as duas caras de uma mesma moeda, com múltiplas variações. O filho, que agora é pai, pode continuar aprisionando pelo próprio mundo interno e agora arrasta Theo a seu calvário.

A transmissão psíquica intergeracional permite que elos unam a nova geração com as anteriores. Os valores, o álbum de família, as obras, as condecorações, as receitas dos avós, os tesouros herdados, as relíquias, as histórias narradas estreitam os laços familiares.

O novo ser estranho, desconhecido, às vezes de outra raça, poderá ser enraizado numa árvore genealógica. Na adoção, o filho bem recebido poderá se apropriar dos valores e ideais dos antepassados. Os antecedentes genéticos, orgânicos, podem ser desconhecidos, mas a transmissão psíquica é de outra ordem. Avós, tios, primos, na família ampliada, são, em certas comunidades, muito importantes e podem propiciar ora um ambiente facilitador, ora um ambiente perturbador para o crescimento mental.

A transmissão psíquica permite que os antepassados estejam presentes como modelos indenitários. Enraizar o filho adotivo na árvore genealógica é legitimar seu lugar na família ampliada do casal adotante. Importam a aceitação e a integração verdadeiras do novo integrante na família ampliada. Um berço mítico é construído com o tecido da tradição renovada.

“Eu guardei para uma possível neta o anel de brilhantes de casamento da minha mãe. Agora que ela chegou, esse é nosso presente para Ana.” “Esta avó recebe Ana como sua neta. Ela presenteia a menina com a joia da bisavó, que consagrou seu casamento. Gesto que enlaça Ana aos elos entre as gerações.” Outras vezes a herança é maldita, perturbadora, uma transmissão transgeracional (Kaës & Faimberg, 1996). Nela, o que não foi processado, elaborado pelos avós, pais, pesa sobre a prole como registros ingovernáveis que não podem vir a ser representados, simbolizados, pensados.

Conhecer tanto quanto seja possível a forma como cada progenitor viveu a vida, entrar em contato com os próprios fantasmas e com as potencialidades de transformação são antídotos para a transmissão transgeracional na descendência (Faimberg, 1996; Kaës y Faimberg, 1996; Gampel, 2002, Trachtenberg et al., 2005). A transmissão de fardos, mentiras, segredos, cruzes, dogmas sufoca a mente do infans em formação e pesa mais quando uma criança já foi traumatizada. Uma paciente em análise relata:

“Eu sempre me senti feia, inferior, desajeitada, desvalorizada, meus ombros largos, a cor da minha pele, meu cabelo crespo marcavam minha raça. Eu lembro que, após a missa pelas bodas de ouro de meus avós maternos, o fotógrafo estava tentando acomodar todos na escadaria da igreja. Como sempre, eu estava quase escondida num canto. Ninguém me percebia. Mas o fotógrafo perguntou: Essa menina é dessa família? Tinha gente chegando para um casamento. “Minha vó respondeu: Claro que ela não é dessa família! Você não está percebendo o cabelo bombril? Eu não estou em foto alguma, eu não era querida.”

A mudança do nome

O nome é o berço da identidade, ele condensa desejos, projetos identificatórios, modelos de inspiração dos pais. A mudança do nome da criança adotada revela as dificuldades dos pais para aceitar a própria história e a do bebê. Sua vida não começa ao chegar na família. Ele tem registros sonoros de um nome que o nomeia. A mudança de nome pode aumentar o sentimento de estranheza.

O nome tem tanta importância na formação da subjetividade que quando nasce um bebê e é abandonado no hospital, ao chegar a um abrigo, importa que o cuidador mais encantado, mais próximo emocionalmente ao infans, o batize com o nome de sua preferência, para submergê-lo na cultura e no processo de humanização.

Chamar uma criatura como boneco, E.T., alienígena, pretinho é aliená-lo da condição humana. Quando os pais colocam o nome de um familiar morto há uma cruz a carregar que pode pesar num self já traumatizado.

“Um casal perde um bebê concebido com as técnicas de fertilização assistida (TFA) após várias tentativas aos 2 meses de idade. Não consegue engravidar novamente. Minhas hipóteses sugerem que há um terrível luto não elaborado, um terror que impede implante do embrião. Rapidamente, adotam um bebê quando são chamados pela Vara. Eles substituem o bebê morto “escolhendo” seu nome para o bebê adotado, que é colocado de saída num caminho sombrio.

“Esse nome condensa a história de dor ante as múltiplas perdas, ante uma primogênita não sepultada. Consultam, a pedido do pediatra, por que Luz, de 13 meses, apresentava sinais de transtornos autistas: não olhava nos olhos, não sorria, não brincava, não tinha linguagem pré-verbal, com grave hipotonia, preferia segurar objetos duros nas mãos. Pais enlutados, tristes, desvitalizados não podiam investir com o esforço que uma criatura assustada, isolada, não responsiva exigia deles. Ela estava protegida numa porosa barreira autista. Com a intervenção psicanalítica na família, os pais, o irmão e a paciente, foi possível que Luz saísse de seu refúgio autístico e construísse vínculos emocionais.”

A história da adoção

Quando a adoção não é legitimada pelo processo judicial, as fantasias inconscientes de roubo do bebê estarão potencializadas. Histórias de mentiras e segredos sobre a trama da adoção também podem pesar como fantasmas no infans adotado.

Elas dificultam o exercício da paternidade. Pais inculpados perdem a espontaneidade, a naturalidade, a capacidade intuitiva. Os pais adotantes de Édipo são um exemplo paradigmático. Eles podem interpretar como castigo qualquer atitude do filho que os desagrade. Um clima persecutório pode permear a relação com temores exacerbados sobre a possível perda do filho.

É oportuno também citar, nesse apartado, as frustrações, a dor, o sofrimento, o ressentimento dos pais quando não é possível conceber um filho com as TFA, apesar das múltiplas tentativas.

Muitos fatores podem estar entrelaçados e contribuir para a não formação do embrião, as dificuldades de implantação, os abortos espontâneos etc.

Sem deixar de ter em conta os aportes de outras ciências, cabe destacar que fatores emocionais podem estar presentes e perpetuar a esterilidade enigmática. Quando a adoção de uma criança não foi a primeira opção do casal, mas a saída, quando esgotados os recursos psíquicos para investir novamente nas TFA, a presença mental do sonhado filho biológico idealizado pode estar muito arraigada.

Os pais que não podem pensar nas possibilidades e riscos da adoção podem interpretar os sinais de perturbações emocionais no filho como a evidência da herança genética.

“Ele é impulsivo, agressivo, rebelde, explosivo, pelo sangue ruim. Doutora, isso é genético, está marcado no DNA.” “Analista: Nós não sabemos sobre as marcas no DNA! Quando os senhores relatam que ele quer voltar a este consultório, ele mostra um caminho esperançoso. Muitos fatores podem estar presentes, entrelaçados em Luiz para ele estar assim.”

O desconhecido pode ser muito assustador e perturbador, fonte de fantasmas aterradores. A busca de explicações causais, deterministas X determina Y; a impossibilidade de tolerar incertezas, os dogmas organicistas dificultam as possibilidades de transformação que a Psicanálise pode oferecer.

Estrutura dos ideais

Por que queremos um filho na nossa vida? Freud (1914) sugere que a descendência permite ao ser humano lidar com a própria morte. O filho permite transcender a vida dos pais. É a obra que permanece.

O paradoxo é como continuar essa cadeia de gerações, como levar os apelidos dos pais e, simultaneamente, se diferenciar deles, ser você mesmo e não ficar aprisionado nas garras do narcisismo parental.

Os pais têm projetos identificatórios sobre a descendência, sonhos, desejos que nutrem a vida mental em formação quando bem usados. Um ideal presente seria ter podido gestar e parir o próprio filho biológico mesmo com as TFA.

Outras vezes, os adultos exigem dogmaticamente, impõem ideais como se o filho fosse uma possessão, um troféu, e não um ser humano diferente deles. Não há uma relação de alteridade, e sim de domínio (Lisondo, 2011).

Especificamente na adoção, os pais podem interpretar o filho que dá trabalho: as solicitações de permanente contato corporal, os caprichos, o negativismo, as reivindicações, os transtornos da alimentação e do sono, os problemas escolares, o choro incompreensível, as somatizações, o necessário confronto geracional na adolescência seriam como desagradecimento.

O filho pode estar anos-luz dos ideais parentais que negam o sofrimento da adoção e as demandas emocionais do infans.

Essa distância é fonte de depressão, desilusão, ferida narcísica. Como se as perturbações na prole denunciassem as falhas nas funções parentais, fonte inesgotável de culpa. Os pais podem vir a ser os melhores aliados do analista e apostar no percurso para uma vida com menos sofrimento para todos os envolvidos. O determinismo entre causas e efeitos é obsoleto. Múltiplos fatores entrelaçados podem configurar os transtornos na vida emocional do filho.

O bebê adotado

A maioria dos casais que pretende adotar uma criança opta por um bebê. Essa escolha é humanamente compreensível, porque se o infans é adotado após o nascimento, a institucionalização em abrigos ou famílias acolhedoras pode ser evitada (Levinson,2004).

O trauma pela perda da mãe biológica, pela fratura entre o mundo pré-natal e pós-natal estará presente, mas o bebê poderá vir a construir um vínculo com a mãe adotante (Lebovici, 2004; Lisondo, 2010), mesmo quando ambos sejam estranhos (Freud, 1919).

O bebê perde o conhecido mundo sensorial, a vivência de continuidade. A privação de abrigo num útero mental, no momento da dependência absoluta, provoca angústias catastróficas primitivas de dilaceramento, liquefação, precipitação, fear of breakdown (Winnicott, 1974).

A qualidade dessa relação misteriosa mãe-bebê-família dependerá do encontro entre as expectativas do bebê, seu arsenal genético, as condições do parto, os sinais vitais e o mundo psíquico dos pais. O amparo, continência que a mãe possa receber do pai e da família ampliada, permitirá que ela ganhe confiança e possa exercer com rêverie a nova função.

E quando a adoção não é de um bebê e sim de uma criança mais velha? Além dos traumas já citados, a criança sofre com a institucionalização. Isso porque os abrigos representam um mal necessário. Pela própria estrutura, várias crianças têm um só cuidador e ele não é estável. Em trabalho anterior (Lisondo, 2011), menciono que, pelos diferentes turnos e plantões, uma criança pode vir a ter 11 cuidadores por semana.

Não é possível criar uma relação de intimidade e confiança com cada um deles. A sensorialidade é fundamental no início da vida. Cada funcionário tem um timbre de voz, um vocabulário, uma entonação, um perfume, uma forma de contato corporal. Para o cuidador é muito difícil, salvo exceções, ter um espaço mental singular e único para cada uma das crianças que cuida.

Trabalho do psicanalista

O trabalho entre o psicanalista e os pais para pensar a adoção, em qualquer momento do processo (2), permitirá criar um espaço psíquico para o filho. Ao lidar com as dores da alma, elaborar os lutos ante a esterilidade, a não concepção do sonhado filho biológico, a transmissão genética, os futuros pais podem revitalizar suas potencialidades e criar melhores condições psíquicas para acolher, compreender e promover o desenvolvimento dessa criatura já traumatizada ao invés de perpetuar queixas melancólicas.

Para saber mais:

Complexo fraterno

O ECA (4) sugere que os irmãos não sejam separados, sempre que possível. Nem sempre os pais adotantes têm disponibilidade para adotar toda a confraria.Em famílias disfuncionais os irmãos nem sempre convivem, tendo diferentes pais e/ou mães. Como diz um pai adotante numa entrevista:
“Ninguém pode impor amar por decreto lei.”
Ou seja, a adoção de um filho nasce das entranhas do ser. O inconsciente não respeita regras.

Nesses difíceis complexos fraternos, às vezes laços de irmandade são criados com outras crianças do abrigo. Uma peculiaridade é a culpa por ter sido o escolhido, enquanto o irmão, o coleguinha, continua institucionalizado.

O projeto “Fazendo história”

O projeto desenvolvido em 2019 tem um valor terapêutico em si mesmo. Nele a criança compartilha com um voluntário treinado os recortes significativos de sua vida num caderno: nascimento, chegada ao abrigo, amigos, esportes e brincadeiras preferidas, ídolos, medos, pesadelos, sonhos, projetos… Também dados dos pais biológicos. Essa narrativa é digitalizada e consta no processo no fórum. Os pais adotantes recebem o filho com essa história afetiva e não só com um prontuário médico. A adoção suficientemente boa é a realização da expectativa esperada, o sonho de encontrar uma família, um lar de verdade. Ver gráficos:

 

No Brasil

Dados de 2019 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que existem, aproximadamente, 47 mil crianças e adolescentes em situação de acolhimento no Brasil. Do total, 9,5 mil estão no Cadastro Nacional de Adoção e somente 5 mil estão, efetivamente, disponíveis para adoção. A criança passa a constar da lista de adoção depois de tentativas de reinserção na família de origem falharem, e se não houver formas de a criança ficar com a família extensa – tios e avós, por exemplo.

O método Bick

O método Bick de observação de bebês foi criado em 1948 pela psicanalista britânica Esther Bick, com o objetivo de acompanhar a relação mãe-bebê. Seu principal intuito foi oportunizar aos estudantes uma experiência prática com bebês, reconhecendo o benefício que o método pode trazer à formação clínica.

Referências

Ahumada, J. L. Descobertas e Refutações: a Lógica do Método Psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, Freud, S. Itroducción del Narcisismo. In: Freud, S. Obras Completas, v. 14, p. 65-104. Buenos Aires: Amorrortu,

__________ Lo Ominoso. In: Freud, S. Obras Completas, v. 17, p. 217-252. Buenos Aires: Amorrortu, 1919. Gampel, Y. El Dolor de lo Social. Buenos Aires: Psicoanálisis,

Instituto Fazendo História. Uma nova história de acolhimento. In: Famílias Acolhedoras (), IFH, 2019.
Kaës, R.; Faimberg, H. La Transmisión de la Vida Psíquica entre Generaciones. Buenos Aires: Amorrortu.

Lebovici, S. Diálogo Leticia Solis-Ponton e Serge Lebovici. In: Pereira da Silva, M. C. (Org.). Ser Pai, Ser Mãe. Parentalidade: um Desafio para o Terceiro Milênio. São Paulo: Casa do Psicólogo, Lisondo, A. B. D. Rêverie revisitado. In: Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, n. 4, p. 67-84,

__________ Filiação simbólica ou filiação diabólica? Proferida na I Jornada Brasileira Interdisciplinar sobre Homoparentalidade,

__________ O desamparo catastrófico ante a privação das funções parentais. Na adoção, a esperança ao encontrar o objeto transformador. In: MELLO, R. A. A.; NUNES, W. Des-amparo e a Mente do Analista, p. 193-232. São Paulo: Blucher,
Levinzon, G. K. Adoção. São Paulo: Casa do Psicólogo,
Trachtenberg, A. R. Transgeracionalidade de Escravo a Herdeiro: um Destino entre Gerações. São Paulo: Casa do Psicólogo,
Winnicott, D. W. Fear of breakdown. The International Review of Psycho-Analysis, v. 1, n. 5, p. 103-7,


Alicia Beatriz Dorado de Lisondo
é psicanalista didata, docente, psicanalista de crianças e adolescentes pelo IPA do GEP Campinas e da SBPSP, membro de Alobb, cocoordenadora do Grupo de Adoção e Parentalidade da SBPSP e membro do grupo de Pesquisa Protocolo Prisma na SBPSP.

* Este artigo foi publicado pela revista Psique (número 170).

Border: estranheza e compaixão

*Luciana Saddi

O filme implacavelmente expõe o que é o medonho, o terror. Quem atua no roubo e na mutilação de bebês e crianças? Homens ou monstros? Seriam o ódio e o rancor dos que foram excluídos da sociedade e da humanidade, dos que sofreram impiedosamente a falta de respeito, bem como dos que perderam o amor e o reconhecimento, e daqueles que foram e são tratados sem nenhuma compaixão, explorados até a última gota de sangue que engendram o mal? Ou simplesmente, sem motivo algum, a pulsão de destruição surge e toma conta dos homens. Seja como for, por sofrimento e/ou por gosto, não nos enganemos, pois ambos anunciam com imenso gozo destrutivo o fim do mundo, o eterno fim da nossa civilização. Border, a fronteira entre vida e morte, entre amor e destruição, entre bem e mal. O embrião do fim do mundo foi anunciado, não sabemos como exatamente identificar de onde surge o aniquilamento e como se propaga, mas não podemos negá-lo. É preciso investigar, conhecer o mal e lutar até dizimá-lo.

A protagonista Tina trabalha como policial nas docas de Estocolmo. É guarda de fronteira, tem como atribuição fiscalizar bagagens e passageiros. Sua aparência é estranha, principalmente pelos traços grosseiros, que muitas vezes torna indistinguível a diferenciação entre os gêneros. Atingida por um raio na infância – reza a lenda familiar –, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, que a torna capaz de “ler as pessoas” e detectar mentiras apenas pelo olhar e pelo olfato – o que sempre representa vantagem na sua profissão. Suas suspeitas se mostram invariavelmente corretas após a investigação. Border é o termo que usamos para quem vive na fronteira. Border é a própria fronteira.

Até que Tina identifica um criminoso em potencial, mas não consegue achar provas para justificar sua intuição e passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada pelo suspeito. Ela precisa descobrir qual o segredo de Vore. Inexplicavelmente, ambos possuem características fisionômicas semelhantes e que causam estranheza. A câmera, próxima dos personagens, percorre ângulos incomuns e revela, lentamente, aspectos um pouco animalescos dos protagonistas, que lembram os extintos neandertais.

Dolorosa caminhada

A investigação de Tina resulta em uma jornada, um caminho de descoberta de si mesma, autoconhecimento, e também de Vore. Dolorosa e curiosa caminhada rumo a segredos e verdades – a exemplo do trabalho analítico –, na qual a policial se fortalece no processo de investigação e, ao mesmo tempo, se torna mais empática aos sofrimentos humanos. No interior dessa trama há ainda outra em curso, paralela, da qual Tina é peça fundamental. Trata-se de desvendar uma possível quadrilha de vendedores e/ou abusadores sexuais de crianças e bebês. O prodigioso faro da guarda de fronteiras é recurso fundamental para apanhar os criminosos e descobrir como os crimes são realizados.

Border é um filme que une conteúdo e forma de maneira exemplar. Somos apresentados a personagens estranhos, quase que deformados, com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense. Aparentemente, o único prazer de Tina é “farejar” os maus elementos e os segredos que passam pela fiscalização de passageiros e bagagens. Tina parece ser, em muitos momentos, fria, distante e indiferente. Do tipo que cumpre suas obrigações com rigor, mas nada sente. Poderíamos dizer dela o mesmo que Freud disse, há mais de um século, das histéricas, “belas indiferentes”. Entretanto, beleza não é a palavra para designar as rudes feições da policial.

No início da trama somos apresentados à sua vida doméstica. Um marido autocentrado, preocupado apenas com seus cachorros e prazeres. A relação entre eles é de falsa intimidade. Nenhuma atração ou sexo. É como se Tina tivesse desistido de querer, desejar, amar, e estivesse conformada com as agressões e solidão a dois. A casa malcuidada, quase suja, precária, transmite sensação incômoda de abandono e falta de amor. É, por sinal, a mesma sensação que temos quando a câmera a escrutina: abandono. Além da feiura evidente, há estranheza. Faltam peças. Algo não se encaixa. Sobra mistério. Há também o pai, vivendo num asilo, de quem ela cuida com carinho ainda que com certa formalidade.
 Ao longo do filme descobrimos que ela foi adotada. E Tina irá também buscar a verdade sobre sua adoção. A mentira sobre seu nascimento e adoção nunca havia sido questionada.

Potencial de prazer

Border narra o percurso que vai do conformismo desafetado à autonomia e responsabilidade pela própria vida. A transformação da guarda de fronteiras se dá na relação com Vore. Desse encontro sexual e amoroso – do qual ela continua intrigada – surgem amor-próprio, autoconfiança e um saudável questionamento sobre sua origem familiar. Erotismo e paladar se desenvolvem lado a lado. Um mundo novo se revela. Tina parece estar feliz e se sentir livre pela primeira vez. Ela se delicia com as texturas do corpo, com as potencialidades de prazer que a vida erótica proporciona, com a descoberta de novos alimentos e com a integração à natureza, como se voltasse ao habitat natural. Tina desabrocha, apodera-se de seu desejo e dispensa o antigo relacionamento.

O encontro amoroso com um novo parceiro é, antes, um encontro com si mesma. Desse encontro surge o descobrimento de suas capacidades, independência e autonomia. A apropriação erótica do corpo a leva a uma posição mais ativa no mundo. O repertório pessoal da personagem se expande. A repressão afrouxada provoca novos questionamentos. O filme pode ser visto como metáfora do trabalho psicanalítico. Quanto mais nos conhecemos, mais fortes e livres nos tornamos, e também mais capazes de incomodar e de questionar o status quo. Esse é o movimento de Tina que o diretor nos convida a acompanhar de perto com deslumbre e emoção.

Observa-se, também, o movimento natural dos amantes em direção ao isolamento, decorrente da fantasia universal dos apaixonados que subjaz na crença infantil de serem feitos de matéria especial, diferentes dos demais da espécie humana. Feitos um para o outro, somente. A fusão os torna especiais. Os amantes vivem nas bordas da realidade, são únicos. Tal estado de apaixonamento é descrito por Freud ao tratar do narcisismo. Border, qual a fronteira do amor? Quem amamos quando amamos alguém? O amor ao outro é também amor a si mesmo. Border, na paixão, o eu e o outro se confundem.

Sustentar as próprias verdades, ter voz e autonomia, percorrer caminho paralelo com a investigação edípica: Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Que família é essa? Pertenço ou não pertenço ao meu grupo? Perguntas que crianças e adultos saudáveis se fazem durante a existência sem ter necessariamente respostas. Tina foi adotada e quer respostas sobre sua origem, sobre as marcas em seu corpo e sobre as diferenças entre ela e sua família, diferenças que antes passavam despercebidas pois eram negadas.

A curiosidade da policial também se dirige ao amante e à estranheza excitante que ele causa. Ele tem muito a ensinar e algo a dizer.

Cegueira pulsional

Haverá uma revelação inquietante e assustadora no final do filme. O mistério é a emoção que impregna Border do começo ao fim. A presença de Vore potencializa o mistério. Homem feio, transgressor, que vive de acordo com suas próprias regras, muito diferente de Tina. E que a leva às perguntas fundamentais nos relacionamentos: Quem é você? O que quer de mim? São os eternos questionamentos, ainda que inconscientes, sobre nossos primeiros vínculos de amor. Procuramos desvendar o enigma de nossos pais ou o pensamento sucumbe. Caso a capacidade de pensar e perguntar não seja solapada, o impulso para o conhecimento, a curiosidade da criança pequena sobre seus pais e sobre a sexualidade poderão se transferir para amplos aspectos de sua vida. Ou não, a depender dos processos de familiarização e da dor originada em tais processos.

O processo de familiarização, de aculturação, a que todos somos submetidos desde o nascimento é sempre estranho, violento e bizarro. Implica em cegueira, renúncia e restrição às forças pulsionais. De fato, nascemos num “hospício” e aprendemos suas regras. Tais regras se assemelham a muitas normas culturais que nos rodeiam. Para uma boa parte dos humanos o mundo parece como dado e não pode ser questionado, é assim e pronto. Alguns percebem o “hospício dos outros”. Sempre é mais fácil ver a loucura das regras familiares e culturais fora de nós. Dessa forma, Tina sofreu, como todos nós, uma espécie de “lavagem cerebral” até se tornar mulher adulta, filha carinhosa e esposa submissa. Tal “lavagem”, irremediavelmente, todos sofremos, desde o nascimento, pois em nosso desamparo inicial dependemos inteiramente do outro para nos apresentar à vida e ao mundo. Border, na fronteira entre instinto animal e pulsão. Entre ser e não ser.

Em relação à forma, o filme rompe com os tradicionais gêneros cinematográficos por reunir quase todos os gêneros ao mesmo tempo. Drama, tragédia, comédia, suspense, policial, terror, jornada, autoconhecimento, erotismo e sexualidade. São infinitas as possibilidades de leitura, de camadas de sentido sobrepostas, compostas, condensadas e justapostas que o jovem diretor, Ali Abassi, é capaz de produzir em quase todas as cenas. Além da permanente sensação de estranhamento ao transitar entre a fantasia, o realismo fantástico e o realismo sem se fixar em uma categoria. Border, na fronteira dos vários gêneros consagrados pelo cinema.

 

Categoria inqualificável

Já assistimos a filmes sobre monstros, sobre frankensteins, vampiros, zumbis, king kongs ou até mesmo filmes com heróis mais disformes e indefesos como Homem Elefante ou O Corcunda de Notre Dame. Border, embora traga algo de monstruoso e incômodo pela feiura e esquisitice de seus personagens, vai além. Os personagens principais são inqualificáveis, não há categoria para eles, assim como não há categoria para o próprio filme. Não fica difícil estender o mesmo raciocínio para todos nós. Basta olhar de perto, da forma como a câmera faz, como os psicanalistas fazem diariamente em seus consultórios, para saber que cada ser humano é uma categoria inqualificável, insubstituível, única, singular. Somos mistura, sempre estranha aos outros, de tantas qualidades, características, histórias, dores, detalhes e em constante metamorfose. E Abassi insiste em nos mostrar de perto tais características e suas transformações. Como se apelasse ao público pelo reconhecimento de humanidade naquilo que é quase não humano. E, dessa maneira, provoca um jogo sagaz de identificação e desidentificação no espectador. Viver e ser diferente da norma. Border subverte padrões de comportamento, gênero, biologia e sexualidade em cenas que, algumas vezes, até causam certa aversão.

Ao assistir Border nos permitimos a feiura, vestimos a pele do bizarro e experimentamos como vivem os que sofrem preconceitos em nossa sociedade: homossexuais, obesos, transgêneros, miseráveis, negros, orientais, hermafroditas, refugiados – todos aqueles que são diariamente excluídos e aviltados, para quem não há compaixão. O filme também nos desperta para inquietante questionamento sobre fronteiras. Qual a distância, se é que existe, entre humano e animal? Entre feroz e terno? Homem e mulher? Fronteiras móveis questionam padrões. Border expõe muitas fronteiras pouco delimitadas. O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam, principalmente, sobre nós, os humanos.

Tina: eu não vejo razão no mal.
Vore: então, você quer ser humana?
Tina: eu não quero machucar ninguém. É humano pensar assim?

Essa espécie em cuja fragilidade e ignomínia Border lança luz. Como se perguntasse, implacavelmente, e com argumentos, o que é o belo? O que é humano? Como e onde encontrar o amor e, afinal, é possível o amor permanecer, resistir, mesmo com tanto sofrimento e brutalidade? A personagem Tina, tem a resposta, e é redentora. Não será possível julgá-la pela aparência, o amor é sua maior beleza, como é também o esforço que a humanidade faz, diariamente, para perpetuar a vida.

Autoacusações

No ensaio O Mal-estar na Civilização, Freud (1929) afirmava que o progresso civilizatório e tecnológico exigia alto preço do indivíduo. Cobrava renunciar à sexualidade e, principalmente, à agressividade – como esforço necessário ao desenvolvimento civilizador. Um dos caminhos apontados para dar continuidade à civilização seria formado pela internalização da força agressiva, voltada para dentro, que agrediria o eu, em forma de autoacusações inconscientes, no lugar de se lançar contra o outro, para fora. O preço a pagar, na tentativa de evitar a destruição dos homens e da sociedade, era se tornar refém do sentimento de culpa inconsciente e, portanto, de constante mal-estar, ambos impeditivos da fruição da felicidade.

Freud deixou para os futuros psicanalistas o questionamento relativo aos sofrimentos que surgiriam no futuro pelo fato de a civilização – em constante transformação – impor de maneira permanente ao homem múltiplas coerções pulsionais, estilos de vida e diferentes formas de pensar e adoecer. Embora, ao destacar a pulsão de morte, força destruidora por excelência, o psicanalista tenha se tornado um tanto cético e desalentado. Afinal, civilizações nascem e morrem, em geral, por conta própria, por medidas, ações e escolhas que as mesmas fazem – nem sempre um inimigo é a causa da destruição.

O mal-estar, o sofrimento e a destruição estão presentes em todas as formas de cultura, não apenas na civilização judaico-cristã. Em cada cultura adquirem características peculiares. Na nossa, em função de sua impermanência e movimentação, o mal-estar costuma ser acompanhado por questionamentos. A maior qualidade de nossa cultura é a liberdade de poder questionar seus limites, de interrogar os processos que nos fazem ser como somos, a ponto de expor, até os últimos limites, a construção, o absurdo e a farsa que é ser humano.

Border, o filme, ao entrelaçar expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas, responde de quais maneiras o mal-estar, a força de destruição e o sofrimento estão presentes no homem, nas artes e na sociedade neste início de século XXI. A compaixão pode atravessar as fronteiras e, quem sabe, possibilitar a permanência da nossa civilização. No momento, desconhecemos o desfecho.

Border. Título original: Gräns. Direção: Ali Abassi. Ano de produção: 2018. Países: Suécia/Dinamarca. Duração: 100 min.

 

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica, coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise: “Mal-estar na Civilização e Sofrimentos Contemporâneos”, realizado pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) com apoio da Folha de S.Paulo.

** Uma versão deste artigo foi publicado pela revista Psique (número 170).

De dentro pra fora, de fora pra dentro: reflexões convocadas pelo confinamento

*Maria José Tavares B. Irmã

 “O fato é que estou uma bagunça por dentro e por fora” (Clarice Lispector)

Quantas variáveis estamos experimentando aqui e agora? Isolamento, quarentena, pandemia, confinamento, fique em casa, estas palavras estão sendo proferidas de forma intercambiável na linguagem cotidiana do cenário atual. Todos esses acontecimentos estão mobilizando em nós estranhos avessos.

Diante do inimigo invisível que nos assombra dia e noite, e que nos obriga ao confinamento, não temos outra escolha senão cuidar de nós, dos que amamos e dos que, de longe nem conhecemos como sujeitos e muito menos como realidade social.

Convém, talvez, mencionar o que pode parecer óbvio, que o significado da palavra confinamento é:um estado ou condição do que ou de quem se encontra preso, cercado e impossibilitado de sair”. Logo, nesse estado, somos tomados por uma prevalente angústia, ansiedade e incerteza, aliada a sentimentos como raiva, ódio e tantos outros afetos de natureza tão íntima. Em meio ao confinamento somos tomados por uma invariável sensação de impotência, que vem não somente de dentro, mas também de fora como mencionou um paciente: “a pressão é muito grande e de todos os lados”. A incerteza toma conta de todos nós.

No início de março, quando iniciei meu confinamento, me peguei muito angustiada, ansiosa e solitária. Pouco depois, numa sessão de análise, questionei meu analista a respeito da presença da instituição da qual faço parte. Quis saber por que estavam tão “quietos”, pois não havia visto nenhum texto publicado a respeito da atual situação. Num momento em que, sem sombra de dúvida, estava difícil para qualquer um escrever alguma coisa, pois uma dura realidade havia sido imposta, eu queria sentir algum tipo de acolhimento advindo da instituição. Se é que eu entendi bem, ele me disse que eu queria colocá-los para trabalhar.

Depois dessa conversa eu fiquei pensando que talvez pudesse oferecer algum tipo de trabalho, e não ficar esperando que alguém trabalhe para mim ou por mim. O sentimento de desamparo é comum em todos nós, mas neste tipo de situação ele se exacerba. Foi então que diante da minha solidão de palavras escritas e faladas, solidão de presença e de ausência, encontrei nesta experiência subjetiva coragem para escrever alguma coisa.

A solidão, condição natural do ser humano, faz a gente pensar, o que pode ser de alguma maneira transformador. Enquanto escrevia me recusava a ler os textos escritos por outros colegas, para não me sentir tentada a copiá-los ou a invejá-los, pois a essa altura muitas publicações já haviam sido apresentadas. Mas os li, apesar das minhas exigências. É difícil ser criativo num momento de tanta desorganização e em que nossa liberdade está limitada.

Freud (1917[1915]) ao descrever o luto normal nos diz: “ O luto, de maneira geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. Devaneando em meus pensamentos, andando pelos quatro cantos da casa, inquieta, tentando encontrar um sentido para tais acontecimentos, sento-me à mesa e tento escrever. Vou me dando conta da importância das relações humanas no corpo a corpo, no nosso dia a dia, da falta que faz.

Em O Mal-estar na Civilização (1930[1929]) ao se referir à infelicidade descreve: “O sofrimento nos ameaça a partir de três dimensões: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência, do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro”.

Indubitavelmente o sofrimento que advém dessa última fonte é muito mais penoso, mas sem ele haveríamos de nos sentirmos ainda mais desamparados, pois é na relação com o outro que nos estranhamos e nos reconhecemos, mesmo que de forma inconsciente.

Sobretudo na experiência clínica, é notável o sofrimento que estamos atravessando. Outro dia um paciente me disse: […] “é muita coisa para lidar, é como um peso absurdo de suportar, são muitas dúvidas, incertezas, não tem base sólida”. Outra disse: […] “parece que nós caímos num buraco profundo, a gente não sabe o que tem lá dentro, não sabe o que vai acontecer”. É interessante observar como essas metáforas vão dando um sentido a essas experiências subjetivas, olhar para dentro de si e se dar conta do caos interno e ao mesmo tempo para fora num movimento de profunda confusão, como uma maneira de suportar e quiçá dar nome a acontecimentos tão dolorosos.

Neste cenário confuso, solitário e ao mesmo tempo excessivo, fomos convocados a entrar no mundo virtual e no mundo real. Instala-se um paradoxo entre a falta e o excesso. Estamos sendo bombardeados por inumeráveis informações e convites para atividades virtuais. Nosso corpo a corpo agora é com a máquina, nossos olhos e ouvidos estão ainda mais conectados com a tela dos nossos smartphones e notebooks, é lá fora, do outro lado da tela que nos encontramos com o outro. Em tão pouco tempo tivemos que nos reinventar, aprender tarefas tecnológicas, seguir vivendo apesar de tanta estranheza.

A jovem Anne Frank, que viveu seu confinamento junto com sua família num anexo secreto de um prédio durante o período de 12 de junho de 1942 a 1º de agosto de 1944, na segunda guerra mundial, e que em seu diário pessoal narra os horrores, as tensões e o medo aterrorizante vivenciados durante o período, nos convida a pensar com essa mensagem de esperança.

“É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperança permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonados todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis. No entanto eu me apego a eles, porque eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são realmente boas de coração”. Anne Frank (1942/1945).

Certamente, o contexto histórico vivenciado por Anne Frank se diferencia do nosso por inúmeras razões, mas principalmente porque o inimigo daquela época era de carne e osso e muito barulhento. Se o “fora”, era muito diferente na guerra do que é hoje, o “dentro” de casa e de si pode ser muito parecido. Contudo, apesar da confusão entre o dentro e fora de nós, dos estranhos avessos sonhar pode ser uma valiosa saída.

Referências:

(1930 [1929]) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

(1914 [1917]) Luto e melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Frank, Anne, (1929-1945) O diário de Anne Frank/Anne Frank; Trad. Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: Record, 2007, Título original Het Achterhuis. 

www.dicio.com.br/confinamento/ Dicionário online de português acesso em 16/04/2020.

*Maria José Tavares Barbosa Irmã é psicóloga e psicanalista, membro filiado do Instituto Durval Marcondes (SBPSP). Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública (Faculdade de Saúde Pública/USP).

A psicanálise não será a mesma

* João Baptista N. F. França

Após o pesadelo que se abateu sobre o mundo no início de 2020, a psicanálise não será mais a mesma.

As mudanças que ocorreram no século XXI alcançaram agora um nível de catástrofe, mas questões e acontecimentos dos primeiros vinte anos já se faziam presentes, alguns impactantes, e outros igualmente poderosos no dia a dia da realidade compartilhada e com repercussão na subjetividade de homens e mulheres.

O século XXI começou com o ataque às Torres Gêmeas e a emergência do terrorismo; logo surgiram os movimentos migratórios e conflitos armados locais envolvendo países, etnias, religiões, e ainda outros de difícil caracterização e compreensão complexa.

Assistimos ao surgimento da ferramenta das redes sociais que aos poucos se tornaram virulentas e no campo da política levaram a polarização de ideologias e de governantes.

Os questionamentos de costumes e instituições que já ocorriam nos fins do século passado se acentuaram.

Essas situações constituem temas psicanalíticos como traumas, narcisismo revanchista, projeções da violência, desconsideração com o outro e com a subjetividade, além do ataque à possibilidade de informação verdadeira. Lembramos que Piera Aulagnier diz que o que caracteriza o humano é a capacidade de informação.

Uma situação de menosprezo à verdade e fake news como ataque à informação verdadeira incide sobre o que há de mais precioso na condição humana e a psicanálise, desde Freud, se pautou pela defesa da verdade.

Aprendemos que o ego é a instância encarregada de levar em conta a realidade externa e interna, no adiamento do prazer pulsional e sua adaptação e negociação com a realidade.

As neuroses estudadas por Freud ocorriam em um contexto familiar no qual a criança crescia em um ambiente restrito, com forte relação com as figuras parentais e em terreno propício para a observação de vivências edípicas.

Esta configuração contextual se alterou. Já em 1975, André Green dizia que os quadros clínicos de então já apareciam como novas patologias, donde a importância da figura do analista e questões relacionadas ao setting, requerendo uma reconsideração da técnica analítica.

Com o advento do atendimento não presencial, que já se esboçava nos últimos anos e a adaptação inevitável do momento presente de isolamento sanitário, a possibilidade de um encontro entre analista e paciente, que se pretende seja psicanalítico seguindo as descobertas de Freud, se tornaram problemáticas.

Agora, o encontro analítico ocorre em locais onde os participantes podem estar muito distantes geograficamente um do outro e no qual a questão da intimidade sobressai.

Assim, a psicanálise clínica se depara com um enorme desafio no campo do setting interno do analista, e na vivência do paciente, pela ausência do setting físico ao qual nos habituamos.

Do ponto de vista do intrapsíquico – e penso ser esta focalização o objetivo central da teoria e clínica psicanalíticas – o “eu” abrange o outro, do ponto de vista de uma metapsicologia ampliada. Nesta configuração, a subjetividade se constitui, na qual o “eu” se mescla com os objetos internos, no início as figuras parentais, e ao longo da vida, com as figuras importantes com as quais nos identificamos e ainda na escolha de objetos.

A psicanálise leva em conta o outro do outro na constituição do self; mas o contexto cultural como uma situação mais ampla influi também poderosamente na natureza humana.

E agora? Estamos todos impactados por uma ameaça global à vida e nosso “eu” não se limita à importância dos outros próximos. Somos todos irmãos, sob expectativas, incertezas e temores realistas, que se acrescentam às ansiedades de cada um.

As nuvens ameaçadoras que nos envolvem e sufocam a humanidade incidem poderosamente sobre o objeto da psicanálise e, inevitavelmente, vão levar a técnica e formação psicanalíticas a escrutínio e mudanças.

Passada a pandemia, o mundo não será o mesmo e nem a psicanálise será a mesma.

 

* João Baptista Novaes Ferreira França é analista didata da SBPSP e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

A indiferença do narcisista com o outro

* Silvana Rea

O narcisismo, conceito introduzido na metapsicologia psicanalítica, é fundamental para entender o estabelecimento do eu, que se dá inicialmente pelo amor narcisista

Em entrevista a Benedetto Vecchi (2006), o sociólogo Zygmunt Bauman conta que para a cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa, em Praga, pediram-lhe que escolhesse entre os hinos da Polônia e da Grã-Bretanha. Opção difícil, pois ele se radicara na Grã-Bretanha por meio de uma oferta para lecionar, o que lhe fora proibido na Polônia, seu país natal. Mas, mesmo tendo se naturalizado inglês, na Inglaterra era sempre um estrangeiro; sempre se viu e foi visto como polonês.

Encontrou-se então uma solução em dupla face, inclusiva e com o reconhecimento da diferença: o hino da Europa. O que talvez não fosse possível em tempos de nacionalismos “bem-sucedidos”, que atribuem a verdade exclusivamente ao que se entende por “nós” e relegam os outros à inferioridade, excluindo-os em um perigoso território de não pertencimento e de não direito à existência (Said, 2001).

A questão que surge é a de como reconhecer o outro em sua diferença e humanidade, e de como viver junto, para usar as palavras de Roland (2003).

Vamos voltar ao final do século XIX, quando Freud rompe a fronteira da razão iluminista pela escuta do que estava exilado nos hospícios e manicômios. Ao compreender o sofrimento das pacientes histéricas como conflito, ele estabelece o seu pilar epistemológico: a noção de inconsciente, que propõe a alteridade de nós a nós mesmos, propõe a diferença em nós. Portanto, o campo de conhecimento psicanalítico inaugura-se pela alteridade.

Mas a Psicanálise constitui-se não apenas pela alteridade, mas na alteridade. Porque supõe que as bases da vida humana e seu processo de subjetivação se dão a partir da presença fundante do outro.

No início há o vazio, constitutivo do psiquismo humano por ser origem e matriz de toda possibilidade de simbolização. Na díade mãe- bebê há um reviver do narcisismo parental, agora investido no filho e reeditado em forma de amor pelo outro (Freud, 1914/2010). Há uma “narcisização”, até que aos poucos a criança possa se separar, identificando-se com a mãe e posteriormente com os outros – o que mostra a importância do luto desse primeiro amor para que se possa voltar a amar (Roudinesco, 2018). No início há um corpo físico que se torna erógeno, simbólico; um corpo da cultura, no percurso que inaugura o processo de subjetivação (Kristeva, 1988).

Simbolização

O narcisismo, conceito introduzido na metapsicologia psicanalítica em 1914, é fundamental para entendermos o estabelecimento do eu, que se dá inicialmente pelo amor narcisista. Seguindo por meio de múltiplos lutos dos objetos amados, a formação de si conquista característica de jogos especulares, ampliados em múltiplas identificações. Portanto, igualmente fundamental o movimento identificatório, primeira experiência de laço amoroso com outra pessoa e condição necessária para que o ser humano seja sujeito (Freud, 1921/2011). São esses processos contínuos de luto e identificação que possibilitam a continuidade das ligações amorosas.

Em seguida à publicação de Introdução ao Narcisismo (1914/2010), no pós-Primeira Guerra, Freud escreve Reflexão para os Tempos de Guerra e Morte (1915a/1969) e o belíssimo Sobre a Transitoriedade (1915b/1969). Um debruçar sobre a destrutividade humana, que preparou a guinada teórica dos anos 1920 (Freud, 1920/1969), quando ele reorganiza a sua teoria das pulsões na dualidade pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos).

Presente desde o início, a pulsão de morte é pura potência destrutiva desligada. Como vazio de sentido, ela precisa da força de Eros para efetivar as ligações, compondo diferentes arranjos entre as pulsões, em mesclas singulares.

É pela identificação que começam as primeiras ligações do ser humano, modo como o eu se torna o reservatório de investimento amoroso. O que dá início às construções simbólicas, que, por sua vez, oferecem sustentação narcisista suficiente para que se possa amar o outro, possibilitando a renúncia narcísica. É como cada um de nós se constitui: nesse jogo entre amor e ódio, entre amor de si e amor ao outro (Freud, 1921/2011).

Em 1923, Freud estabelece a distinção entre ideal do eu e eu ideal, definindo relações com a identificação nos processos de luto e de melancolia e com certos destinos do narcisismo (Freud, 1923/1969; 1917/1969).

O ideal do eu se constitui como substituto do narcisismo da infância, quando o próprio eu era ideal. O luto desse narcisismo permite o investimento em alguma aspiração a ser alcançada, algo que transcende o indivíduo, o que leva a uma reorganização narcisista e ao reconhecimento da alteridade.

O eu ideal, por sua vez, é o depositário da idealização da perfeição infantil. Nesse caso, não há renúncia narcísica, pois o objeto perdido não pode ser abandonado, e em seu lugar dá-se uma identificação narcisista com ele. A perda do objeto é transformada em perda do eu – caso da melancolia –, e tem como resultado a negação da alteridade. Aqui, o narcisismo nega qualquer instinto gregário. Não há como viver junto.

Luto

Portanto, essencial o luto pelo próprio narcisismo. O processo identificatório sustentado pelo luto, elaborando um sentimento do eu a partir de seu encontro com o outro, evidencia, em última instância, que nossa singularidade é constituída por outrem. Que para sermos únicos dependemos do outro. Que a alteridade é fundante, a despeito do desejo de ter se construído sozinho. E mais, que tornar-se sujeito é algo que se dá na cultura e pela cultura.

Cabe mencionar outro ponto fundamental: a figurabilidade ou a representabilidade que as vinculações da pulsão de vida estabelecem. Porque as forças pulsionais exercem continuamente pressão, em busca de satisfação. E como a pulsão não pode ser conhecida por si só, faz-se necessário que ela seja transformada em um sistema metafórico, que a insira em uma cadeia de sentido. Sem isso há o risco de ela se expressar diretamente no campo motor (Roussillon, 2011).

Se temos uma organização social onde a cultura está a serviço das ligações de Eros, ela pode funcionar como suporte para essas mediações, criando formas de transformação do narcisismo. Mas ela pode não contemplar essa possibilidade, criando um sentimento de vulnerabilidade narcísica, que leva à necessidade de construir inimigos nos quais se possam depositar temores e descarregar a hostilidade.

A questão é que a construção narcisista, simultaneamente fruto e motor para estabelecermos o mundo das representações simbólicas, é um edifício cheio de fendas por onde a qualquer momento pode vazar a violência da pulsão de morte, cooptando aspectos narcísicos, travestindo-os em ódio e desencadeando a violência não objetal (Kristeva, 1988). Uma sociedade cujo sistema traz dificuldade para que o sujeito construa representações pode provocar o risco de que essa força flua sem limite, como evacuação direta.

Em seu livro visionário, Debord (1997) apresenta a sociedade do espetáculo, constituída pelas relações mediadas por imagens, que passam do diretamente vivido para uma representação. O espetáculo é promotor da falsa consciência, pois se apresenta como a própria sociedade quando, de fato, são duas realidades separadas. E mais, esse “pseudomundo” imagético faz com que o mundo real aspire a ele e tenha a sua legitimidade garantida pelo seu aparecimento como imagem.

O advento da internet democratizou a informação, mas também substituiu a “carnalidade” da experiência por ideias preconcebidas. Borrando os limites entre fato e opinião, ela molda a realidade. Encerrados em comunidades de idênticos com barreiras impenetráveis para o diferente, hoje observamos que o inimigo é a própria diferença, que passou a ser um problema a ser extirpado. Sem troca ou comunicação possível, vivemos em sistema de “micro-apartheids” de iguais, promotor da segregação e da intolerância, que erode o diverso, negando-lhe o estatuto de alteridade e, portanto, sem direito à subjetividade (Kakutani, 2018).

Imaginário social

Soma-se a isso a construção de um imaginário social sustentado pelo medo, criando uma “multidão de paranoicos”, na qual desaparece o abismo da infinitude que sustenta o sujeito (Zizek, 2008).

Para Byung-Chul Han (2017), essa hipervisibilidade virtual promove a desconstrução dos umbrais e passagens que são zonas de mistério, que marcam o outro como o desconhecido a ser conhecido. Condenados a ser imagem, nossos aspectos identitários se tornam líquidos, como diz Bauman. Essa dissolução constrói uma ética permissiva e hedonista, centrada no prazer individual. A cultura do entretenimento e também do hiperconsumo é consonante com a intolerância à frustração, imediatez e a excitação do gozo. No lugar dos jogos especulares dos lutos e das identificações, um espelho cego.

Em 1918, Freud (1918/1969) apresenta o narcisismo das pequenas diferenças, reflexão sobre a intolerância ao diferente baseada no medo. Concebido a partir da ideia de que me é hostil o que eu não conheço, foi considerado um aspecto narcísico protetor, por ser aquilo que resiste ao outro e por estabelecer fronteiras “nós” contra “outros”. Mas, após a revisão de 1920, ele é entendido como meio de ejetar de si a pulsão de morte pela projeção em outrem, a quem se odeia (Freud, 1930/2010). Ou seja, o narcisismo das pequenas diferenças é oportunidade ao exercício da destrutividade.

Diz Umberto Eco (2012) que ter um inimigo é importante para definirmos nossa identidade e para termos um anteparo que funcione como valorização daquilo que é nosso. Se tomarmos essa observação pela lógica narcisista, podemos considerar que o estado de fragilidade narcísica exige do outro a confirmação de si mesmo. Caso contrário, por sua diferença, ele se torna o inimigo a ser eliminado, ou a ser demonizado. Na história da humanidade temos incontáveis exemplos, desnecessário enumerá-los.

Para Bauman e Donskis (2014), a malignidade, atualmente, não está restrita às guerras ou a situações extremas, mas à insensibilidade diária diante do sofrimento do outro, à incapacidade ou à recusa de compreendê-lo que se escondem na vida cotidiana.

Vácuo moral

É a cegueira moral contemporânea ou miopia ética, que trata da posição desumana ou indiferente perante meu diferente, como uma fuga da dor. Dor narcísica, poderíamos completar.

E quanto mais vulneráveis estivermos em nosso narcisismo, mais débil a nossa capacidade de conviver com o outro, e mais feroz será a nossa busca por uma identidade‑fixa, por uma posição impermeável na qual a alteridade é uma ameaça.

Christopher Bollas (2011) também fala do vácuo moral criado por um tipo de funcionamento mental no qual há uma divisão do eu em dois conjuntos funcionais, de modo que em algum momento um “eu-parte” atua como um “eu-inteiro”.

Inevitável notar que tomar a parte pelo todo é função da metonímia. Portanto, nesse estado não há liberdade associativa nem lugar para a metáfora. As palavras, como significantes, perdem a mobilidade para a livre ligação; são determinadas por pseudo-ligações vazias e não simbólicas, puros signos que propiciam um funcionamento de maneira simplificada e, portanto, violenta. Um investimento narcísico na ideia de uma mente que se idealiza como processo de limpeza, e que, por não estabelecer a conexão entre pensamento/ato/sentido, cria o cenário para a negação das qualidades do outro, para a aniquilação do outro.

Aqui estamos nos domínios da pulsão de morte.

Porque quando há amor há compaixão, há ligação; identificado com o outro, a sua dor me dói. A identificação faz um comparecer no outro, insere um na consideração do outro, provoca a abertura em direção ao outro.

Então, em pleno século XXI cabe a atualidade da resposta que Freud oferece a Einstein em Por que a Guerra? (1932/1969): se o homem é habitado pela pulsão de morte, importante investirmos em vínculos emocionais amorosos que utilizem a identificação para estabelecer um equilíbrio entre amor e destrutividade.

Ou seja, investirmos em movimentações de fronteiras onde possamos conhecer o outro em sua alteridade, entendê-lo como uma terra estrangeira a ser respeitada e não um território a ser dizimado.

O desafio é narcísico, porque o outro sempre me interroga na sua diferença. Ele me questiona, me descentra. Quando abro a minha visão a ele, vejo nele o que de mim não reconheço em mim. Ele me apresenta aquilo que me falta, revelando a incompletude que Narciso recusa. Por isso, para alguns é tão difícil tolerar a alteridade.

PARA SABER MAIS

O ILUMINISMO E A IDEIA DA IDENTIDADE INDIVIDUAL

A ideia de indivíduo e da identidade individual centrada no eu se consolidou no século XVIII com o Iluminismo, a formação dos Estados Nacionais e o liberalismo na economia. A partir daí configura-se no imaginário a figura do outro, como Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, ou Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Ao final do século XIX e início do XX ocorre a crise da razão iluminista e da identidade fundada na noção de idêntico. O homem da modernidade é dividido e múltiplo; o emblemático O Médico e o Monstro, de Stevenson. No espírito desse momento histórico, a investigação sobre o inconsciente e sobre representação já fora empreendida pelo filósofo Franz Brentano, cujo curso de Psicologia Freud frequentou a partir de 1874. Ele se interessou pelo pressuposto de Brentano de uma “consciência inconsciente” atuando no psiquismo, mas seguiu outro caminho, levando o seu conceito de inconsciente ao estatuto de alteridade, com leis e lógicas próprias.

O ETERNO CONFLITO ENTRE FORÇA PULSIONAL E POSSIBILIDADE DE REPRESENTAÇÃO

O ser humano encontra-se em um infindável conflito entre a força pulsional e a possibilidade de representação. Freud, em O Mal-Estar na Civilização, de 1930, insiste que os sistemas representacionais de qualquer formação cultural são necessários, mas insuficientes para dar totalmente conta da força pulsional. No mesmo artigo, ele fala do sentimento oceânico, o desejo de ser um com o universo, a ausência de limites, o sentimento da união indissolúvel com o todo – o vestígio de uma experiência muito primitiva da relação de indiferenciação do bebê com sua mãe, que introduz a noção de anacronismo temporal, tão cara à Psicanálise. Em parte, é esse o mal-estar evidenciado pelos artistas das vanguardas modernistas do início do século XX, e que os leva a um retorno aos mitos e ao primitivo em busca de religar o homem às suas origens espirituais. Entre outros, Picasso visita a arte africana e Kandinsky elabora no Cavaleiro Azul um projeto estético espiritualista e antimaterialista. O poeta surrealista André Breton rejeita o mal-estar promovido pelo sacrifício da satisfação pulsional imposto pelo processo civilizatório, retomando o sentimento oceânico pela escrita automática, recurso que conduziria à experiência de ausência de limites.

Referências:

Barthes, R. Como Viver Junto. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Bauman, Z. Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi. São Paulo: Zahar, 2006.

Bauman, Zygmunt; Donskis, Leonidas. Cegueira Moral: a Perda da Sensibilidade na Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

Bollas, Christopher. The structure of evil. In: The Cristopher Bollas Reader, p.155-176. Londres: Routledge, 2011

Debord, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

Eco, U. Construir al Enemigo. Madri: Lumen, 2012.

Freud, S. Introdução ao Narcisismo. In: Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 12, p. 13-50. São Paulo: Companhia das Letras, 1914/2010.

__Reflexão para os Tempos de Guerra e Morte. In: edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, p. 331-339. Rio de Janeiro: Imago, 1915a/1969.

__Sobre a Transitoriedade. In: edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, p. 345-350. Rio de Janeiro: Imago, 1915b/1969.

__O Tabu da Virgindade. In: edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XI, p. 179-196. Rio de Janeiro: Imago, 1918/1969.

__Luto e Melancolia. In: edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, p. 275-291. Rio de Janeiro: Imago, 1917/1969.

__Além do Princípio do Prazer. In: edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII, p. 17-90. Rio de Janeiro: Imago, 1920/1969.

__Psicologia das Massas e Análise do Eu. In: Sigmund Freud Obras Completas. Vol. XV, p. 13-113. São Paulo: Companhia das Letras, 1921/2011.

__O Eu e o Id. In: Sigmund Freud Obras Completas. Vol. XVI, p. 13-74. São Paulo: Companhia das Letras, 1923/2011.

__Mal-Estar na Civilização. In: Sigmund Freud Obras Completas. Vol. XVIII, p. 13-353. São Paulo: Companhia das Letras, 1930/2010.

__Por que a guerra? In: edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXII, p. 241-264. Rio de Janeiro: Imago, 1932/1969.

Han, Byung-Chul. Agonia do Eros. Rio de Janeiro: Vozes, 2017.

Kakutani, Mishiko. A Morte da Verdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

Kristeva, Julia. Histórias de Amor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

Roudinesco, Elizabeth. Diccionario Amoroso del Psicoanalisis. Buenos Aires: Debate, 2018.

Roussillon, René. Primitive Agony and Symbolization. Londres: Karnak, 2011.

Said, Edward W. Reflexões sobre o Exílio e Outros Ensaios. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. Zizek, Slavoj. Violência: Seis Reflexões Laterais. São Paulo: Boitempo, 2008.

* Silvana Rea é membro efetivo e diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, graduada em Cinema e Psicologia, mestre e doutora em Psicologia da Arte pelo IP-USP e autora dos livros Transformatividade: Aproximações entre Psicanálise e Artes Plásticas, Pelos Poros do Mundo e artigos, além de editora da Revista Brasileira de Psicanálise 2016-2017.

** Este artigo foi publicado pela revista Psique de número 169.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A clínica com imigrantes

* Maria Augusta Marsiaj Gomes
* Marcella Monteiro de Souza e Silva

Pela complexidade do tema, essa modalidade demandou um novo modelo de atendimento no qual outras disciplinas, além da Psicanálise, como a Antropologia e a Linguística, foram convocadas.

As figuras do migrante e do refugiado não são exclusivas dos nossos tempos. O processo de deslocamento à procura de segurança é um ato milenar que remonta ao florescimento dos antigos grandes impérios do Oriente Médio. Porém a institucionalização e regulamentação dessa condição, através do Direito Internacional, deram-se somente após a Segunda Guerra Mundial.

Em 1951, a convenção das Nações Unidas definiu como refugiado toda pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo (ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para o Refugiado).

Em 1964, através da Convenção de Cartagena, foram incluídas nessa categoria de refugiado toda pessoa que esteja fugindo graças “a grave e generalizada violação dos direitos humanos e conflitos armados”.

A busca de refúgio é um tipo específico de migração. Esta caracteriza-se por ser um movimento populacional que compreende qualquer deslocamento de pessoas, independentemente da extensão, da composição ou das causas; daí incluir a migração de refugiados, pessoas deslocadas e migrantes econômicos. Pode ainda ser temporária ou definitiva, espontânea ou forçada, interna ou internacional.

A legislação brasileira é considerada excelente pela Organização das Nações Unidas (ONU) dada a sua abrangência e modernidade, uma vez que foi escrita sob a ótica dos direitos humanos e não sob o ângulo do direito penal e, também, por preconizar todos os dispositivos de proteção ao refugiado. Ela determina que toda pessoa refugiada, uma vez no Brasil, pode obter documentos, trabalhar, estudar e exercer os mesmos direitos civis que qualquer cidadão estrangeiro em situação regular no país e prescreve, ainda, que a responsabilidade pela proteção e integração de refugiados no território nacional é primariamente do Estado.

No entanto, na prática, a integração de fato é ainda bastante precária, dada a carência de políticas públicas e de profissionais capacitados formados para o acolhimento e cuidado específico de que essa população precisa. No vácuo de dispositivos de acolhimento ao migrante e refugiado fornecidos pelo Estado, instituições filantrópicas como, por exemplos, Missão Paz e Cáritas ou ONGs como IKMR, dentre outras, se esforçam no sentido de promover o acolhimento e a melhoria de condições de integração dos migrantes e refugiados no Brasil.

A migração é, portanto, um acontecimento social indissociável da história humana. Porém, como nos alerta Moro (2002), o acontecimento migratório é também um acontecimento psíquico, uma vez que “a ruptura com o ambiente externo, de origem, é acompanhada por uma ruptura do quadro cultural internalizado do paciente, que até então lhe oferecia importantes referenciais simbólicos identitários”.

Cada cultura disponibiliza ao sujeito uma multiplicidade de elementos com os quais ele constrói uma chave de leitura do mundo e a partir dos quais confere sentido às suas experiências.

No complexo acontecimento migratório, o sujeito estará exposto à perda desses referenciais internalizados que o ajudam a elaborar suas vivências e será desafiado a enfrentar situações, na maioria das vezes, de vulnerabilidade e precariedade no país de acolhimento. É fácil supor, portanto, que tal acontecimento comporte um grande potencial traumático, pois exigirá do sujeito uma reorganização interna em um contexto no qual se encontram barreiras linguísticas, sociais e culturais significativas, bem como condições de acolhimento nem sempre favoráveis no país de destino (devido principalmente à discriminação e ao racismo). A isso se soma a situação que precede o deslocamento: geralmente marcada por graves conflitos e dificuldades de várias ordens, além de sentimentos de ambivalência e culpa.

Embora a migração faça parte da história da humanidade, a migração atual tem características específicas. São várias suas causas: guerras civis e étnicas, fome, pobreza ou desastres naturais como o terremoto no Haiti.

Clínica Transcultural

A Clínica Transcultural foi criada para propiciar o atendimento psicanalítico à população de migrantes que chega em outro país em situação de deslocamento. A complexidade da situação (diferenças linguísticas e culturais, como modelos familiares, de cuidado, de parentalidade, religião, entre outras) associada à concretude de suas necessidades demandaram um novo modelo clínico no qual outras disciplinas, além da Psicanálise, como a Antropologia e a Linguística, foram convocadas.

A Clínica Transcultural se desenvolveu da etnopsicanálise (disciplina cujos pressupostos provêm da Etnologia, da Psiquiatria e da Psicanálise), criada por Georges Devereux, antropólogo e psicanalista, a partir de seu trabalho com os índios Mohave, dos Estados Unidos. Estudante da disciplina, Marie Rose Moro, psicanalista, é quem cria uma unidade de serviço transcultural para famílias de migrantes em 1985, em Paris: a Clínica Transcultural.

Esse método está assentado em três princípios básicos:

  1. Universalidade psíquica, que supõe que a essência do psiquismo (inconsciente) é comum a todo ser humano.
  2. Complementaridade, que considera não só a compreensão do indivíduo mas também da sociedade e da cultura.
  3. Descentramento: um deslocamento da própria cultura (do analista), permitindo uma atitude empática e ausente de julgamento sobre as representações culturais do paciente.

O descentramento implica em uma atenção especial aos efeitos contratransferenciais, que, no contexto transcultural, se tornam ainda mais complexos, pois nos deparamos com situações culturais que nos causam estranheza e desconforto. Como na Psicanálise tradicional, observar como somos afetados pelo paciente é a melhor maneira de elaborar o impacto que ele tem sobre nós.

Atendemos um casal muçulmano do Sudão que nos impressionou pela grande submissão da moça ao marido. Sua melancolia não recebia o apoio e solidariedade que esperávamos em um modelo de casal tal como concebido por nós. Tivemos que fazer um trabalho interior para acolher que aquela era a maneira como a cultura do casal regulava as relações entre homem e mulher.

Em alguns países africanos, em sociedades coletivistas, os lugares reservados aos homens e às mulheres são muito diferentes dos das culturas ocidentais modernas; determinados assuntos só se falam entre elas, não se conversam com os maridos. Só quando conseguimos colocar nossos preconceitos de lado e ouvi-lo com empatia foi que o casal sentiu-se mais compreendido, adquirindo confiança no grupo terapêutico.

Setting

Existem várias modalidades de atendimento psicológico a migrantes. Em São Paulo, algumas instituições oferecem esse atendimento, dentre elas destacamos o grupo Veredas, o Projeto Ponte, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Ambulatório de Psiquiatria Social e Cultural do Hospital das Clínicas. Aqui centraremos na Clínica Transcultural familiar que temos realizado no Centro de Atendimento da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, inspirada pela experiência de Marie Rose Moro.

Quando uma pessoa ou família nos é encaminhada, fazemos uma avaliação prévia para decidir qual o tratamento mais adequado para aquele determinado grupo familiar ou indivíduo. O setting na clínica transcultural familiar deverá espelhar e fazer funcionar os princípios relatados anteriormente (universalidade, complementaridade e descentramento).

O trabalho se dá com um grupo de terapeutas, sendo que um deles ocupa o papel de coordenador. Um ou dois desses terapeutas se ocupam das crianças, funcionando como interlocutores dos aspectos emocionais que se apresentam por meio dos desenhos e do brincar. Na maioria dos casos, um tradutor também participa do grupo, pois se valoriza a possibilidade de trânsito entre a língua materna e a língua do país de acolhimento. Outro elemento importante é o representante da instituição que encaminhou a família, pois ele faz uma ponte entre a instituição e nós, fundamental em uma situação de tantas rupturas com o contexto dos imigrantes.

A função do grupo de terapeutas é acolher as representações dos pacientes e, abdicando do julgamento, realizar um trabalho interno de continência e rêverie (Bion, 1962), procurando transformar em sonhos as experiências traumáticas relatadas pela família. Esses sonhos/pensamentos alfa (Bion, 1962) são oferecidos ao grupo e transmitidas à família pela terapeuta principal, como se o grupo funcionasse como uma caixa de ressonância para a família.

Consequências psíquicas

Crise de identidade – Em Psicanálise, o trauma diz respeito a uma relação entre estímulo e uma insuficiência na sua elaboração psíquica. Quanto mais intenso for o estímulo, mais importante a qualidade do processo de sonhar ou pensar, que nada mais são do que a transformação dos estímulos que recaem sobre o psiquismo em qualidades psíquicas. Para ordenar o caos que incide no psiquismo é necessária outra subjetividade em relação muito íntima para que essa transformação ocorra. Pensemos no caso do bebê: ele é acometido por uma série de estímulos (fome, sede, calor, frio) aos quais não consegue conferir sentido. Será a mãe, ou alguém que exerça essa função materna, a subjetividade que o ajudará a dar significado a tais estímulos desprazerosos. Ela é nosso primeiro “órgão de elaboração”, transformação; posteriormente, será tudo aquilo a que damos o nome de cultura (Nosek, 2018). O processo de socialização do ser humano acontece por meio de uma incorporação intensa de modos de sentir, pensar e agir transmitidos pela cultura, contribuindo para a construção de um quadro de referência simbólico-identitário interno, que ajudará a pessoa a dar sentido às suas experiências.

Conforme assinalamos, na imigração o enraizamento da cultura de origem se perde, padrões e técnicas de cuidados já estabelecidos se distanciam, acarretando uma ruptura desse quadro interno. Portanto, além das perdas impostas pela própria mudança, a pessoa terá que lidar ainda com a perda das referências internas que a ajudavam a “ler” o mundo e a construir a sua própria identidade. Soma-se a isso o fato de a sobrevivência no país de acolhimento requerer instrumentos desconhecidos. Por essa razão, muitas vezes a imigração vem acompanhada do sentimento de crise identitária. Sendo elas:

a) Questões de gênero – Existem muitas maneiras de ser mulher e de ser homem e esses modelos, construídos ao longo da história, variam de cultura para cultura. Numa situação de migração, é comum as pessoas se depararem com papéis de gênero oferecidos pela sociedade receptora muito diferentes daqueles internalizados, sendo necessária uma “negociação” interna entre eles. Maria, nascida em uma aldeia rural na Colômbia, nos conta como descobriu no Brasil o machismo de seu marido, fato que na sociedade mais conservadora colombiana passava despercebido. Isso a fez questionar não apenas a relação com seu marido, mas também que mulher ela é e gostaria de ser. Jobana Moya, ativista boliviana, nos relata: “É chocante como fora de seu contexto as pessoas às vezes tiram o pior delas e fazem coisas horríveis”, se referindo à maneira como alguns homens bolivianos, submetidos à “violência social” (situações de humilhação, impotência etc.), recorrem à violência dentro de casa como último recurso para sentir-se “potente”, viril. E ainda:

b) Questões de parentalidade – Tornar-se pai ou mãe implica uma passagem que demanda trabalho psíquico do sujeito, pois trata-se de uma reorganização das representações internas de si e de suas relações com os outros (os próprios pais, principalmente). Quando isso tem que ser feito num contexto cultural diferente e em uma situação de instabilidade emocional, pode ser vivido como um episódio muito doloroso.

Algumas mães apresentam um mecanismo de clivagem em relação à sua cultura de origem, “esquecendo” ou desvalorizando suas práticas culturais de acolhimento da criança. Esses mecanismos são defesas para combater o traumatismo migratório (Moro, 2014), mas podem gerar consequências nefastas às crianças, pois sabemos da importância da transmissão do repertório de experiências e vivências maternas para os filhos.

Luto – A grande maioria dos migrantes carrega dentro de si inúmeras perdas e separações: deixa para trás sua casa, família, emprego, pátria, tradições e costumes. A elaboração desses lutos requer tempo e capacidade de renúncia, porém a batalha pela sobrevivência no aqui e agora do país de acolhimento pode dificultar esse processo.

Atendemos uma família venezuelana, mãe e seus dois filhos, que pouco antes de deixar seu país tinham perdido filho e irmão de uma maneira violenta. Ficamos impactados com a tatuagem do nome do irmão na testa de um dos rapazes, em cujo rosto lágrimas, também tatuadas, escorriam. Este irmão morto continuava presente na vida desta família concretamente; um luto impossibilitado de ser processado paralisava a família havia quatro anos. Depois de alguns encontros esta dor pode começar a ser tocada e a história deste drama, a ser narrada, abrindo a possibilidade de alguma elaboração.

Patologização – Conhecimentos e saberes tornam-se duvidosos na nova terra para os migrantes e novas práticas culturais comumente lhes são impostas e muitas mulheres percebem-se sozinhas, perdidas, sem referências, sem suas famílias para lhes dar suporte, vivenciando as novas práticas de cuidado como imposições violentas.

Na Bolívia, por exemplo, há várias práticas culturais carregadas de significações importantes. O parto, por exemplo, em grande parte das vezes, é realizado em casa e a mulher permanece vestida, graças ao enorme pudor com o corpo nu. Ter filho em um hospital, ser obrigada a se despir causam enorme sofrimento para essas mulheres.

É também costume guardar a placenta para ser enterrada perto da porta da casa ou ao lado de uma árvore, pois acredita-se que quando a pessoa morre ela vai embora por este lugar. Aqui, as placentas de seus bebês são jogadas no lixo mesmo com a solicitação das mães.

Tivemos relatos de crianças bolivianas diagnosticadas erroneamente como autistas devido a sua quietude. Os povos andinos são particularmente introvertidos, característica que foi reforçada pela imposição dos colonizadores de se falar somente o espanhol. O quéchua e as outras línguas locais passaram a ser faladas somente em voz muito baixa e sempre dentro de casa.

Transformações subjetivas – O dispositivo psicoterapêutico da Clínica Transcultural, na medida em que busca integrar os níveis coletivo, intersubjetivo e intrapsíquico, tem se mostrado eficaz na promoção de transformações subjetivas relacionadas aos processos de deslocamento.

Faz-se necessário, porém, a ampliação de serviços psicológicos que possam atender essa população, bem como a criação de políticas públicas que levem em conta a complexa questão imigratória. Temos visto muitas situações de discriminação e preconceito por parte de uma sociedade que, de modo geral, é vista como receptiva e hospitaleira, devido, sobretudo, ao desconhecimento de outras culturas, bem como à falta de formação para trabalhar em contextos de cuidado e acolhimento transculturais. O modo como a conflituosa e ambivalente relação com o outro diferente de nós, o estrangeiro, é vivido e pensado ao longo da história do Ocidente nos leva a refletir sobre nossa capacidade de acolher e aceitar as formas de alteridade.

Salvo raros momentos, fonte de utopia, o estrangeiro tem sido representado como inimigo, aquele que merece ser excluído, rejeitado, mesmo exterminado, por ser visto como ameaça à identidade do grupo. Usualmente, no contato com quem vem de fora busca-se “retirar” o caráter de estranheza, de alteridade do objeto, para torná-lo possessão do sujeito. Busca-se a naturalização do estrangeiro: ele perde sua identidade, despojando-se de sua condição de estranho, de unheimlich. “Há um desejo de catequizá-lo, de torná-lo igual a nós, pois o diferente nos assusta e ameaça” (Nosek, 2017).

No século XXI, na era da globalização, da integração econômica e política, a alteridade se coloca como uma questão central, de suma importância. No contexto atual, assistimos a uma tendência à recusa, à negação do outro, do diferente. Hoje, o outro é o refugiado e o migrante.

No Brasil

De acordo com informações da OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), os números de 2018 sobre migração e refúgio no Brasil são os seguintes: entre as principais nacionalidades aparecem venezuelanos, em primeiro, com 61.681 pessoas; haitianos, em segundo, com 7 mil; colombianos, em terceiro, com 2.749; bolivianos, em quarto, com 1.450. Há registro de 774,2 mil imigrantes de 2010 a 2018.

Para saber mais

São 25,9 milhões de refugiados em todo o mundo

De acordo com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para o Refugiado), atualmente estamos testemunhando os maiores níveis de deslocamento já registrados: estima-se que perto de 70,8 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a sair de casa, entre as quais quase 25,9 milhões são refugiados, sendo que mais da metade são menores de 18 anos. Calcula-se que a cada minuto 25 pessoas no mundo são deslocadas a força, em decorrência de conflitos e perseguições. A grande maioria dos migrantes provém de países em desenvolvimento, sendo que 80% dos refugiados vivem em países vizinhos, também em desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

ARAMAYO, Jobana Moya. Ser mãe quéchua em São Paulo: um depoimento. Calibán – Revista Latino-

Americana de Psicanálise, v. 17, n. 1, 2019.

BION, W. R. A theory of thinking. In: BION, W. R. Second Thoughts. Londres: Karnac Books, 1962.

DANTAS, Sylvia. Saúde mental, interculturalidade e imigração. Revista USP, n. 114. Dossiê interculturalidades, p. 55-70, 2017.

MORO, M. R. Os ingredientes da parentalidade. Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, VIII, n. 2, p. 258-273, 2005.

Psicoterapia transcultural da migração. Psicologia USP, v. 26, n. 2, p. 186-192, 2015.

NOSEK, Leopold. A Disposição para o Assombro. São Paulo: Editora Perspectiva, 2017.

Assombro. Federação Brasileira de Psicanálise (Febrasi), ano XVI, RJ, setembro 2018.

 

* Maria Augusta Marsiaj Gomes – Economista, Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, participante da Clínica Transcultural da SBPSP.

* Marcella Monteiro de Souza e Silva – Bióloga, Psicóloga, Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, professora do CEP – Centro de Estudos Psicanalítico, participante da Clínica Transcultural da SBPSP e participante do Projeto de Extensão “Interculturalidade e cuidado na E/I-Migração”, da UNIFESP.

 

** Este artigo foi publicado pela revista Psique de número 168. Clique aqui para fazer o download em PDF.

Isolamento social mobiliza atividade pensante e criativa em psicanalistas da SBPSP

O atravessamento deste período de isolamento social tem mobilizado intensa atividade pensante e criativa em vários psicanalistas da SBPSP. O Blog de Psicanálise publica, hoje, trabalhos recebidos neste período e que compõem um painel das elaborações apresentadas por Ricardo Trapé Trinca, Helena Cunha Di Ciero, Suzzane Gallo, Vanessa Figueiredo Corrêa e Lecy Cabral para os desafios e angústias deste momento.


Visitações Enigmáticas no Tempo do Coronavírus

 

* Ricardo Trapé Trinca

Estamos isolados. É tarde da noite – ou cedo, ninguém sabe. A noite não passa. Lemos passagens do livro Paisagens do Medo, de Yi-Fu Tuan. Uma pequena luz tremeluz por sobre a mesa. É a luz de uma vela que ilumina precariamente nossos rostos e o restante da sala meio vazia. Parou de chover há pouco ou talvez há muito tempo, e ficamos sem luz, e a luz não tem previsão de voltar. A conversa é ela mesma uma tentativa de iluminar, mas envolvida por esse breu.

a:Temos medo do escuro.
b: Do escuro? Não costumo ter. Adoro dormir no escuro, você sabe disso. Uhm… Você está falando de outra coisa?
a: Estou. Gostaria de saber qual estado de mente suporta o escuro. A psicanálise pensou algo sobre isso, você não acha?
b: Talvez tenha pensado mais sobre criar verdades. Alguns tipos de enlouquecimento são exatamente assim. Vide nossos atuais governantes, que criam verdades sem base alguma da realidade. Mas não devemos patologizá-los. Eles merecem responder por irresponsabilidade ou crime.
a: Você tem razão! E como parece fácil desprezar a realidade. Mas acho que é no escuro e a partir dele que produzimos certezas absolutas. Talvez por esse medo do escuro. Mas diria certezas, não verdades.
b: Viver é perigoso. Perigoso demais. Acho que suportar o escuro é caminhar na incerteza. Mas caminhamos rumo a quê? Rumo a algo? Não sei. Como diria Pascal, “nadamos em um meio termo vasto, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um lado para outro. (…) Ardemos de desejo por encontrar uma plataforma firme e uma base última e permanente para sobre ela edificar uma torre…porém, os alicerces ruem e a terra se abre sobre o abismo” . Sempre achei essa passagem linda; verdadeira e poética.
a: É realmente muito linda e verdadeira. Mas caminhamos, sempre. Talvez rumo a algo, mas desconhecido. Uma coisa é ter uma necessidade imperiosa de criar uma certeza, sem dúvidas sobre ela, outra é poder tolerar, ter certa paciência… e esperar. A tarefa da psicanálise é menos revelar e nomear e mais poder garantir que incertezas, mistérios e o inacabado do pensamento possa continuar não só existindo, mas produzindo meias verdades necessárias para a saúde mental. Alguns elementos dispersos quando combinados podem iluminar algo até então desconhecido. Muitas vezes, o conhecimento vem disso, dessa combinação de elementos outrora dispersos. Mas o curioso é como permanecemos como espécie que sente ser necessário sair dessa condição, quando essa condição é fundamental.
b: Qual condição você se refere?
a: Bem, de falta de luz, mas mais radicalmente, da camarilha dos quatro .
b: Não sei sobre o que você fala.
a: Falo sobre a revolução cultural chinesa.
b: A antiga ou a atual?
c: Acho que as duas. Uma destituição para um vir a ser.
b: Deve ser novamente uma imagem figurada.
a: Sim. Mas gostaria de permanecer assim, fazendo analogias e figurações. Caminhando pela incerteza, se possível.
b: Ok, acho que dá para te suportar. Combina com a noite.
a: Obrigado. Você sempre é gentil, o que soa falso, às vezes. Embora saiba também que essa necessidade de suportar não seja em relação a mim. Espero que você se dê conta disso. Essa noite que não passa é quase insuportável. E se falo sobre isso é por pura necessidade.
b: Tudo bem, mas você há de convir que algumas personalidades também são mais claras do que outras. Você aqui está sendo obscuro. E pedante.
a: A tua intolerância – e a minha também, é verdade – em relação ao obscuro é o tema de nossa conversa. O que te açoita, o que te aflige que te faz ir para longe disso?
b: Não sei bem. Mas quando li no jornal que o vírus está matando pessoas também de minha faixa etária e sem histórico de doenças, e que cientistas não sabem ainda se teremos imunidade a esse vírus, mesmo se já tivermos sido contaminados… bom, me encho de insegurança… Mas acho que essa conversa não chegará a nada. Não sei se ficar inseguro levará a alguma coisa.
a: Nada! Essa é uma rica palavra. Ex nihilo nihil fit. Sabe o que significa?
b: Não sei latim.
a: É um provérbio escolástico. Significa: do nada nada vem.
b: Sim. Posso compreender.
a: Talvez não. Talvez não possa. Talvez dizer que dele nada vem signifique querer sair rapidamente correndo dele. Sair correndo desse escuro em que nos encontramos, imaginando justamente isso, que não virá nada. Quando falamos “nada”, apontamos para aquilo que não há, mas também tentamos bordear, mapear ou dar contornos para isso.
b: Pensei que fôssemos falar de psicanálise.
a: E estamos. A psicanálise é um método de investigação e de um progressivo aprendizado por meio das experiências humanas que apontam para uma condição humana fundamental. Acho, pessoalmente, que a psicanálise vislumbra que essa condição seja precária e negativa.
b: Qual condição que estamos tentando figurar? A da camarilha dos quatro?
a: Exatamente!
b: Isso parece uma fala vazia ou teórica demais.
a: Espero, então, que esse vazio possa te visitar; e visitando, deixar-lhe na fronteira entre incerteza e pensamentos.
b: Uma fronteira, nesse sentido, talvez seja uma imagem topológica. Não confunde ainda mais isso?
a: Pode ser. Mas preferiria que você e eu pudéssemos ter alguma experiência com isso. Estamos na incerteza nesse momento. O nada já bateu à nossa porta. Ele é a primeira figura que nos visita hoje. Ele visa o outro, ou melhor, as coisas, por meio das quais nós mesmos nos revelamos. Pelo nada as coisas surgem por meio de sua alteridade.
b: E existem outras figuras?
a: Sim! Outras três. Mas espero que você possa conhecê-las aos poucos.
b: Ok. Mas deixe que eu lhe fale algo. Estou aqui pensando que estamos todos doentes. Ou adoecendo. Enquanto estamos aqui sentados nessa conversa teórica, mas toda incerta, milhões de pessoas são contaminadas e outras milhares morrem nessa pandemia. Você não acha que precisamos realmente de iluminação? Ainda bem que você não é cientista. Os cientistas podem fazer cálculos e trazer segurança, iluminam nossa escuridão. Você não faz nada disso.
a: A história humana é essa. Uma história da fome, uma história da peste, uma história da guerra e de precariedade. Acabamos de ler isso tudo no livro de Yi-Fu Tuan! No entanto, quando fazemos da história uma história de seus vencedores, e esquecemos de nosso sofrimento, de nossa precariedade e insegurança, então ficamos distantes dessa experiência traumática que estamos vivendo agora. Que todos vivemos. Temos também cada vez menos recursos para lidar com essa experiência que, cá entre nós, nem mesmo consegue se tornar experiência. Os vitoriosos vão se tornando imaturos, pois não conseguem aprender com a experiência dos derrotados.
b: E qual seria?
a: Bom, o traumático é uma iminência de desastre. Mas de um desastre que já ocorreu. Não sabermos nem se ficaremos doentes e nem se iremos morrer; por fim, o que acontecerá conosco e com os outros. Não temos controle e previsão sobre o futuro, mas as dores podem estar em perturbações já ocorridas. O corpo se transformou em algo ameaçador, assim como todas as coisas, que podem potencialmente ser depositários do vírus. Estamos tentando dar conta disso agora, neste exato momento e em todos os outros dias dessa quarentena. Há uma revolução cultural em jogo, também com o modo como aprisionaremos nossos corpos. E não há como dar conta disso. Parece ficar girando em falso ou hipercatequizando uma proteção que já se rompeu. A experiência que poderíamos ter diz respeito a essa condição humana insegura e frágil, que não dá conta de muitas das coisas do mundo. Mas agora todos vivemos isso simultaneamente. Há algo, um vírus, que nos traumatiza, mas também que nos lança para uma proximidade incrível com todo mundo. E não só para com as pessoas, mas para com as coisas, para com os seres e para com o futuro. Isso só é possível pela nossa fragilidade.
b: Mas não precisamos nos defender? Você fala como se fosse apenas bom ser frágil. Ser frágil é também se posicionar como aquele que poderá ser vencido. E, sem história, você desaparece. A morte dos vencidos é sempre mais mortífera do que a morte dos vencedores, porque ela é um desaparecimento. É um desaparecimento radical.
a: Sem dúvida. E iremos desaparecer porque somos imensamente frágeis. Estamos com um vírus batendo à nossa porta que nos traz essa mensagem. É uma mensagem válida para todos, ricos e pobres. A nossa fragilidade clama por segurança. Clama por paternidade e clama por um lugar de morada que seja seguro. Talvez a civilização ganhe novamente essa guerra, mas ela vai sair às ruas para festejar? Vamos manter o estado de insegurança que nos aproxima ainda mais do outro ou iremos onipotentemente sentir que somos os reis do mundo? Filhos de Deus…
b: Você falou em paternidade? E quem está falando sobre pai agora? Seu pai não te liga há um mês! O meu já morreu.
a: Eu sei e continuo triste com isso. Mas quero dizer que nascemos órfãos. Essa é uma outra condição humana. A orfandade nos visita. Talvez a necessidade de ter um pai, ou melhor, de adotar um pai, esteja na base de nossa insegurança. É uma dor perceber como a estupidez caminha a passos largos diante dessa necessidade. Como, por exemplo, apoiar líderes políticos que pela força querem transmitir segurança. É uma necessidade de filiação, de adotar um pai. Certamente um pai com o qual se identifica. Parodiando aquela música famosa: “um pai pra chamar de seu… mesmo que seja eu…”.
b: Ainda bem que você não é meu pai… te acho meio pernóstico, às vezes… Iria brigar muito com você! Mas essa condição de ser órfão, talvez tenha relação com a camarilha dos quatro.
a: Sim! É uma visitação.
b: Visitação? Mas será que não estamos falando em desamparo? A psicanálise tem mais a falar disso do que da camarilha dos quatro.
a: Sem dúvida. E muito. Talvez, o desamparo seja um sentimento que aponta para esses registros humanos fundamentais. E Freud foi genial por pensar como a dimensão do desamparo poderia justamente ser o elemento por meio do qual se criaria laço social. Juntos podemos estar menos desamparados.
b: Estou aqui pensando também que os laços sociais dizem respeito às relações. Estar junto com, ser com alguém…ser com você agora e nessa conversa meio filosófica que continuo sem apreciar… talvez, também assim me aprecie menos… quer um vinho?
a: Quero mais um gole. Obrigado. Realmente. É uma dimensão de um acontecer junto, de uma intersubjetividade. Mas que aponta para a dimensão de solidão, que é nosso oposto, pois somos junto às coisas. Nascemos em solidão, órfãos e não temos nada. A solidão nos leva para junto dos outros, para um ser que é em relação. Outra figura que agora nos visita: a solidão fundamental. Ela lança toda a existência em proximidade profunda com todas as coisas, como disse Heidegger.
b: Bom, das quatro figuras da camarilha dos quatro, parece que apenas uma ainda não apareceu. Venha, velha senhora, junte-se a nós! Mas, será que chamá-los de “camarilhas” não seria um pouco ofensivo?
a: Sim, talvez… Elas conspiram uma revolução…mas se esquecem que de sua negatividade advém a positividade de seu oposto. Talvez, para cada figura negativa, sua contraparte positiva já esteja sendo criada. Mas vamos deixar a terceira nos visitar. Não é necessária nenhuma evocação e mais nenhuma provocação. Já temos três ilustres convidados essa noite. Não podemos simplesmente deixá-los rodeando essa mesa em que conversamos. Precisamos ter alguma experiência com eles, você não acha?
b: Mas para quê?
a: Bem, conhecer não é o mesmo que ser, não te parece?
b: Sim, pode ser, acho que faz algum sentido. Mas como é ser negatividade? Parece contraditório!
a: Você é sagaz. Mas não se entusiasme muito. Elas visitam para retirar, antes de oferecer algo. Seu golpe primeiro é pela destituição. Ser destituindo-se, antes de sentir alguma positividade…
b: Ainda bem que estamos em casa.
a: Sente-se segura em casa?
b: Sim! Bastante! Você não?
a: Esse anseio por casa e por uma casa forte me lembra do texto de Henri Bosco.
b: Lindo, não é? Era sobre uma cabana, e quando vinha a tempestade, uma forte tempestade, a cabana parecia agarrar-se ao fundo da terra, e embora o vento a forçasse, inclinasse, batesse e ameaçasse derrubá-la, a cabana permanecia segurando-se firme no solo, e naquele momento o narrador e a cabana pareciam indissociáveis. Eles resistiram até o fim. Acho que ele ainda disse: “A casa apertou-se contra mim, como uma loba, e por momentos senti o seu cheiro descer maternalmente até meu coração” .
a: “Fluctuat nec mergitur”, o mote do brasão das armas de Paris… significa: é sacudida pelas ondas, mas não afunda. Talvez, numa tradução mais livre: castigado pela tempestade, mas não submerso.
b: Tempestade, nesse caso, parece um trauma.
a: Será que esse anseio por uma cabana igual a essa não vem de nosso saber pré-concepcional de ser sem casa? Errantes? Instáveis e sempre estrangeiros?
b: Como assim?
a: Ameaçados pela força de uma natureza selvagem, criamos um ethos, com costumes, hábitos, rotinas, linguagem. A força da natureza que ameaça e a força de nossa própria natureza, disruptiva e instável. Ela ressurge de todos os lados com sua mensagem enigmática, uma mensagem que diz exatamente isso: somos estrangeiros, nascemos na natureza, somos selvagens, somos errantes e instáveis. Em oposição ao ethos, acho que há uma palavra que toca essa condição: desterro.
b: Sem terra.
a: Sim, mas evoca também o anseio por ter uma terra, ou casa, ou lugar. Talvez algo muito próximo da condição de orfandade.
b: Quer dizer, neste momento, estamos sendo novamente visitados pelo último convidado.
a: Sim. E, também e cada vez mais por uma necessidade de coisas, de lugar, de paternidade e de outros com os quais possamos viver junto. Estou vendo que nossos visitantes, o desterro, a orfandade, o nada e a solidão fundamental estão se movimentando mais… talvez queiram falar algo.

Neste momento, os quatro visitantes, que permaneciam de pé e circulavam em volta dos dois, resolvem sentar-se ao lado deles. Os visitantes permanecem calados, sóbrios, tomam uma taça de vinho, esticam seus pés, mas o clima é opressivo. O silêncio é total. E o desejo de que eles possam ir embora vai aumentando a cada instante. Há um clima de angústia no ar. Uma angústia que não se faz representar. É uma angústia de coisa alguma.

b: Quando eles irão embora?
a: Espero que logo. Estou com medo de morrer. Me sinto muito aflito.
b: Espero que o medo da morte traga a vida, traga para mais relevo a vida… E eles? Não falam nada? Não consigo ver o rosto que eles têm.
a: Acho que eles não têm rosto…
b: Nem se são velhos, jovens, mulher ou homem…
a: Eu também não consigo saber… o que eles querem de nós?
b: Não sei! Talvez não queiram nada…
a: Talvez seja o enigma de uma alteridade.
b: Deve ser a falta de luz!
a: Deve ser. E essa luz parece a cada vez mais fraca.
b: Vem aqui do meu lado, estou com medo de que você fique como eles…
a: Você não está falando comigo. Esse não sou eu.
b: O quê?
a: Você está falando com um dos visitantes. Eu sou esse outro aqui…
b: (silêncio) Estou confusa.
a: Acho que estamos nos tornando esses visitantes, porque eu também não sei mais quem é você!
b: Mas a minha vontade por estar perto só cresce. Sinto também falta de minha mãe e… das pessoas.
a: Das pessoas?
b: Sim. E estou tão preocupada com todos. A vida é muito difícil. Eu me sinto como os sem-teto. E me sinto cruel como nunca tinha me percebido antes.
a: Eu estou com tanto medo dessas rachaduras na parede. Precisamos de ajuda…
b: Não sei… não sei mais nada. Olha! Olha! Acho que eles foram embora!
a: Pode ser, mas a luz talvez não volte nunca mais.
b: E agora?
a: Não sei. Talvez comece a amanhecer, quem sabe. Sinto muita falta das pessoas, do mundo, também de beleza.
b: Pelo menos ainda podemos respirar! Pelo menos ainda podemos respirar… uma última coisa: se eles são uma camarilha, quem afinal eles influenciam? De que corte fazem parte?
a: Não sei se é verdade… ouvi falar que da corte de Godot .

Referências Bibliográficas:

1. Pascal, B. (1957/1670).
2. A Camarilha dos Quatro é a designação do grupo de quatro membros do partido comunista chinês responsável pela implementação da Revolução Cultural na China. São eles: Jiang Qing que foi esposa de Tsé-Tung, Zhang Chunqiao, Wang Hongwen e Yao Wenyuan (Wikipedia, 2019). Neste texto a referência é meramente alegórica e representa a destituição da visitação do Real a partir de suas quatro formas básicas, o desterro, a orfandade, o nada e a solidão.
3. Bosco, H. apud Bachelard, 1957/1989, p. 61.
4. Personagem de Samuel Beckett, livro homônimo.

* Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp).

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TUDO RAIA

“Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.”

Cecília Meirelles

*Helena Cunha Di Ciero

As notícias são assustadoras e a iminência de que algo terrível está para acontecer nos assombra.  Dizem que o pico está para chegar, vejo as curvas da pandemia em ascensão e me lembro da Noviça Rebelde subindo a montanha com seus sete enteados fugindo do nazismo. Ela que me acolheu em tantas tardes na infância. Acolhe, hoje, meu terror, quando olho a curva de infectados subindo e penso em Climbing the Mountain tocando de fundo, um horizonte azul se anunciando e a promessa de liberdade. Assim terminava o filme que eu adorava em pequena. Será que isso vem depois do pico da montanha? Do pico da doença? Haverá um horizonte azul?

Não sei, o gráfico sobe e enquanto ele sobe, meu coração pulsa. The Hills are alive with the sound of music, canta a Noviça na primeira cena do filme. As montanhas estão vivas: e eu também. Então, sigo em frente.

Confesso, porém, que abro os olhos já há algumas semanas e repetidamente sopra a canção em pensamento: “Dorme minha pequena, não vale a pena despertar”, cujo título, (enquanto escrevo me dou conta) é: “Acalanto para Helena”. Meu nome. Eis minha canção de acordar, meu autoacalanto. Então eu canto. Afinal eu canto porque o instante existe, assim dizia Cecília Meirelles. Inevitavelmente, desperto, o dia raiou. Nesse instante estou a salvo.

Independente do coronavírus, da Covid-19, doença causada pelo Sars-Cov-2. (palavras que vim conhecer há menos de dois meses, mas que hoje fazem parte do meu vocabulário com mais constância do que nunca) o dia teimoso insiste em raiar. Meus olhos se abriram, mesmo com medo.

As manhãs nos fazem entender o raiar do sol como uma promessa de esperança.  A doença teima em existir, assim como o sol. Marina Lima diria: “Se tudo cair, que tudo caia, pois, tudo raia”. Em “Sobre a Transitoriedade”, Freud nos traz a ideia dos ciclos da vida como sendo parte de sua beleza. Estamos num ciclo de pandemia, mas assim como passou o nazismo, as guerras, a ditadura, a peste negra, isto também vai passar.

Há algum tempo, conheci o artista japonês On Kawara cujo trabalho consistia em mandar, durante muitos anos, telegramas para os amigos e colecionadores com a frase: I am still alive.  Vi essa exposição alguns anos atrás e a força dessa frase me tocou profundamente. I am still alive.

EU AINDA ESTOU VIVO.

Still.

Ainda.

Ainda pode parecer pouco, mas é um lugar seguro nesse instante. Ainda, hoje, é território sagrado.

Caetano também cantou, enquanto exilado: I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo Feel the sound of music banging in my belly know that one day I must die I’m alive.

E em interpretação dos sonhos Freud coloca que a fantasia é o que nos faz tolerar a realidade e que o sonho existe para que o indivíduo consiga suportá-la. Seguirei cantando enquanto tiver voz. Seguirei procurando pelo sonho. Colocando melodia em gráfico de morte. Seguirei procurando pela pulsão de vida. Ainda que a morte bata na porta da minha casa.

Hoje não, Sr. Corona. Hoje, estou ocupada, hoje não posso te atender.

*Helena Cunha Di Ciero é psicanalista, membro associado da SBPSP, especialista em Psicologia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).

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Reflexos do Processo Primário no Atendimento Online

* Suzanne Gallo

Fenômeno novo. Vejo reflexos pela casa toda. Reflexos que não sabia que existiam. Quando me dei conta disso, no meio de uma sessão de análise telefônica, demorei um pouco em uma coisa que nem sabia estar a ver…olha só! No quadro que está pendurado à minha frente, um pouco à minha direita, vejo o reflexo do final da minha rua. Mas como? De onde estou sentada não vejo isso, estaria até de costas para essa ponta da rua, se não existisse a parede atrás de mim. Mas o vidro do quadro me deixa ver o fim da rua e umas árvores que não conhecia deste ângulo. Essas árvores do reflexo são diferentes das que vejo pela janela. Nunca tinha reparado. Só agora, nestes dias em que o quarto da TV se transformou em meu consultório, conheci esse aspecto da rua e aquelas árvores. A TV é grande e preta. Vejo nela um vago reflexo de mim, meio lúgubre, lá no fundo da tela. Quando me vejo sentada mais ou menos, não muito bem composta, me ajeito no sofá, no meio da sessão.

Passo a me demorar nos reflexos durante as sessões. Eles me distraem. Passo, aos poucos, no transcorrer dos dias, a levá-los a sério. Penso que deve ser reflexo do confinamento. Uma maneira que meu cérebro encontrou de ampliar os limites das paredes. Cada quarto da casa é maior do que parece… Ao me deixar levar pelos reflexos, começo a notar também que tanto os pacientes quanto eu, ouvimos ruídos novos. Muitos dos meus pacientes comentam que escutam o som dos passarinhos. Quando está calor, a janela do quarto fica aberta. A rua está deserta. A árvore cheia de passarinhos cujo trinar vai até a mente dos pacientes junto com a voz da analista. Às vezes, é hora do panelaço na Vila Madalena, mas aqui no meu bairro não tem panelaço. O panelaço chega até a mente da analista junto à voz do analisando.

Continuo observando os reflexos. Na hora do lanche, o chão de cerâmica preta da cozinha reflete o céu muito azul e nuvens brancas. Como pode ser? O chão é preto! Assim mesmo, vejo o céu azul refletido nele. Volto para atender no quarto da TV.

O homem que atendo por FaceTime usa óculos. Aos poucos começo a reparar, refletidas na lente dos óculos dele, umas imagens que penso serem da tela do computador que está à frente dele. Ele está muito desesperado, falando de algo que considera trágico. Um pouco teatral, mas a coisa é séria mesmo. Fico aprisionada no relato até o momento em que me deixo levar pelo reflexo nas lentes de seus óculos. Falo algo que inclui a minha fantasia do que estou vendo na tela do meu iphone. O que vejo é o reflexo de um show de rock de uns caras de cabelos compridos indo de um lado para outro do palco. O paciente fica desarvorado, diz que na verdade as lentes dos óculos dele são diferentes para não dar reflexo, me mostra imediatamente que não está com outra tela ativa a não ser a da nossa sessão no iphone, faz um gesto e me mostra o notebook dele com a tampa abaixada bem na nossa frente. Hmmmm…sei, sei… Deixo passar, não tenho coragem de ir adiante no trabalho analítico, agora. Não gosto de trabalhar assim. Saudade do meu consultório de verdade. Será que fui invasiva? Será que o comentário foi prematuro? Mas eu já estava atenta a esse reflexo desde a sessão anterior… Sei lá… vamos juntando imagens, notando o processo primário da maneira estranha que temos neste pandemônio. Muitos demônios devem ter me feito reparar tanto nesses reflexos do inconsciente.

Gostaria de ter em casa meu volume do Freud 1911, com “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”, para me escorar nele. Ficou lá no consultório. É o que temos para hoje…

* Suzanne Robell Gallo é psicanalista, membro associado da SBPSP e mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP.

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O Amor nos Tempos do Coronavírus

* Vanessa Corrêa

Hoje, me lembrei de quando eu tinha 12 anos: de um dia em que fui ligar para uma amiga da escola e tal foi a minha surpresa ao perceber que o telefone estava mudo. Perguntei para minha mãe o que tinha acontecido e ela disse que, provavelmente, a conta não tinha sido paga e haviam cortado o sinal do telefone.

Eu ouvia constantemente meus pais dizerem que era feio não pagar as contas e nunca nenhuma companhia tinha cortado nada em casa, então tive que pensar sozinha e pela primeira vez, percebi que minha mãe estava doente, havia meses que estava deprimida e meu pai não estava conseguindo cuidar de todas as coisas que precisava.

Foi quando entendi que eles não resolveriam tudo sempre, que as coisas que para mim pareciam óbvias (como ter as contas pagas) demandavam trabalho e ações; que em muitos momentos as pessoas responsáveis por tais ações poderiam estar indisponíveis. Mesmo que o dinheiro estivesse disponível, precisaria sempre das pessoas cuidando e cuidando. E que ter luz, água, comida, roupas, escola e poder me comunicar ao telefone não eram fatos naturais. Assim, consequentemente, eu também vislumbrava que em algum momento eu teria que cuidar das pessoas.

Hoje, ao me observar desdobrada entre atendimentos virtuais e a tarefa de administrar a matéria escolar para o meu filho de sete anos, preocupada com a saúde de todos ao meu redor e com medo das perdas possíveis, percebo que muitas das minhas contas também não estão sendo pagas: muito da gentileza e do amor disponível em mim não está chegando em quem deveria chegar e eu sinto muitíssimo por isso.

 

*Vanessa Figueiredo Corrêa é médica psiquiatra, membro filiado ao Instituto da SBPSP e membro do Grupo de Estudos de Psicanálise de São José do Rio Preto e Região (GEP Rio Preto e Região).

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Hoje é 20 de março de 2020

*Lecy Cabral

Ainda na penumbra do amanhecer, desperto com o ruído de um toc-toc na janela do meu quarto. Percebo o farfalhar das folhas.
O que será esse ruído?
Abro a janela e deparo-me com um lindo pica-pau com um penacho amarelo no alpendre da minha varanda.
Alegro-me ao vê-lo!
O visitante madrugador toca a janela com seu bico
Como a me chamar para a vida lá fora
Como a querer mostrar
Que a alegria ainda vive lá fora mesmo escondida em cantos para os quais nunca temos tempo de olhar…
Minha mente vagueia diante da beleza da majestade imponente com seu penacho amarelo.
Já é outono e o céu mostra-se com pinceladas de um suave azul pastel.
O vento já sopra mais forte e vejo as folhas caídas com tons esmaecidos de amarelo, castanho e vermelho.
Esse recorte de mundo que minha janela me dá,
Parece desenhado pelas mãos de um artista
O outono chegou!
Teremos, aos poucos noites mais longas e dias mais curtos.
Hoje é 20 de março de 2020
Estamos na quarentena
As noites mais longas?
Creio que os dias também serão mais longos…
Tempos de  solidão e incertezas.
Medo do não saber o que virá.
Medo do coronavírus,
Medo de perder os que amamos,
Medo da morte?
Estamos todos isolados.
Prisioneiros em nossas próprias casas.
Como se fôssemos ostras fechadas na concha.
Falta o contato…
Falta o toque, o abraço…
Falta o carinho da troca…
Hoje é 20 de março de 2020
A ruas desertas sem viva alma
Alguns ainda perambulam pelas ruas como almas penadas
Devastação!
Desamparo
Tempos difíceis chegam junto com o outono
Ainda ouço o toc-toc do pica-pau para alegrar um pouco esse momento.
A origem da palavra outono vem do latim autumnus, que significa amadurecer.
Almejamos que a mudança de estação traga humanidade e compaixão.
Que os braços da justiça e de solidariedade nos propicie o tempo da estação do amadurecimento.
E que de nossa intimidade possa surgir uma trama que propicie ao outro o calor que necessita para sobreviver.
Hoje é 20 de março de 2020
Antes do século XVI o outono representava a época das colheitas. Creio que para nós, hoje, representa o período do cultivo.
O cultivo da relações.
O cultivo dos afetos.
O cultivo do compartilhar.
O cultivo do olhar para as necessidades do outro.
Só o cultivo dessa trama pode nos oferecer a saúde física e mental.
Só o cultivo dos aspectos humanos pode propiciar o bem estar dos nossos irmãos no mundo.
Que de dentro de nossas casas sejamos cada um uma rica semente.
Que espera o tempo do crescimento para depois explodir em fruto!
Na mitologia grega – As Horas são as Deusas que representam as estações do ano e a divisão do tempo.
Estamos no Hemisfério Sul, hoje é outono.
No Hemisfério no Norte, hoje é Primavera.
Lá as flores desabrocham de alegria, mas os
corações sangram de dor.
Hoje é 20 de março de 2020
Desejamos que as flores da primavera,
do outro lado do mundo, desabrochem e que todos voltemos a sorrir sem medo.
Do lado de lá do mundo, do lado de cá…
Do lado de lá da janela, do lado de cá da nossa solidão…
Que os frutos do outono,
Do lado de cá do mundo, amadureçam, e nos tornem seres melhores.
Mais compreensivos.
Mais solidários.
Mais humanos.
Que essa força de vida una os povos em suas polaridades .
Apesar das diferentes estações: do germinar ao desabrochar.
Desabrochar para o amor e respeito ao outro e a si mesmo.
Germinar as sementes para um mundo mais compreensivo e de Paz!
Que consigamos ouvir sempre  o toc-toc do pica-pau em nossos corações.
Hoje é 20 de março de 2020

* Maria Aparecida Cabral (Lecy Cabral) é psicanalista, membro associado da SBPSP.

Um novo Admirável mundo novo*?

* Marilsa Tafarel

Quando, no filme sobre a vida de Elizabeth II, ela, ainda menina, recebeu a notícia de que como seria a próxima rainha não poderia socializar com qualquer pessoa, a intérprete “interpretou” tristeza em seu semblante.

Nós, que talvez não seremos nada além do que já somos, pós-Covid-19, recebemos a notícia de que não podemos mais socializar com NINGUÉM. Só virtualmente. Estamos no momento mais incerto jamais vivido de uma pandemia.

A primeira morte próxima me trouxe para a realidade da peste. Este impacto surgiu quando fiquei sabendo que Naomi Munakata, a maestrina que regeu por duas décadas o Coro da Osesp, morreu. Ah! Sim, ela tinha saúde frágil, ouvi dizer. Um argumento um tanto defensivo. A grande maestrina Naomi Munakata morreu, é isso que importa. “(…) quanto vale essa vida em percentual de desemprego ou do PIB?”, comentou Aimar Labaki, diretor e dramaturgo.

E todos que morrerão serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima, como ela. Não queria dizer que todos que morrerem serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima. Mas disse.

Não seria, no mínimo curioso, a maestrina ter nascido em Hiroshima? A cidade “da rosa radioativa, estúpida e inválida” como escreveu o poeta Vinicius de Moraes sobre a primeira bomba atômica da história, que arrasou Hiroshima (e depois Nagasaki), no período final da segunda grande guerra. Bomba lançada por um avião americano. Cento e quarenta e cinco mil pessoas se desintegraram, principalmente, crianças e mulheres. Teria sido esse o custo para derrotar o Eixo, o pacto entre Itália, Alemanha e o Império Japonês.

Alguns, mais velhos, viveram a guerra fria e seu pânico prolongado de um final do planeta para os humanos com a ameaça da guerra atômica. Outros, mais jovens, foram poupados disso. Puderam ou não se esquivar do final triste da Primavera de Praga, com a invasão massacrante dos tanques do Pacto de Varsóvia (1968), da crueldade inédita reeditada com o agente laranja, herbicida cancerígeno jogado pelos aviões americanos, que devastou boa parte das matas do Vietnã e deixou milhares de futuras crianças vietnamitas absurdamente deformadas. Tivemos depois a queda da União Soviética que derrubou a esperança de um socialismo melhor e assim seguimos…com outras primaveras que tornaram-se invernos…com a Bósnia…com a Síria…com os emigrados em massa.

Corre por vários canais a ideia de que o novo coronavírus não permitirá virar facilmente a página desse tempo. Uma das hipóteses é cairmos num mundo verdadeiramente orwelliano e huxleyniano, na medida, entre outras coisas, em que poderemos ser obrigados a aceitar um passaporte digital sob a forma de um nanochip, com todos nossos dados de vacinas etc. Teríamos implantados em nós um panóptico digital, na expressão de Pepe Escobar, que retoma Foucault em Vigiar e Punir. No entanto, tudo poderá seguir noutra direção.

O fato é que, nesse momento, estamos solitariamente, sem nenhuma atitude heroica, sentindo-nos, às vezes, mais como anti-heróis. Cuidando da casa, acompanhando as notícias das evoluções dos protocolos, sofrendo com a incerteza. E, atendendo os pacientes por plataformas da internet que dificultam, a meu ver, nossa escuta analítica porque alteram nosso olhar que precisa ser também flutuante. Mesmo assim, temos a surpresa de análises que ganharam muito na abertura para o desejo. Procuramos, por outro lado, lutar um pouco, talvez muito pouco, pela distribuição menos desigual das chances de vida na pandemia.

Contudo, podemos usar essa angústia da urgência para investigações que nos concernem, o que vem sendo feito, aliás.

Parece um bom momento para nos perguntarmos o que nos levou a reconstruir, depois da primeira grande guerra, depois da bomba, dos campos de concentração e extermínio etc, a mesma estrutura social em que cada um colocou seu tijolinho. E assim mantivemos o que Ailton Krenak, em seu livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, chama de “clube da humanidade”. Do qual 70% dos habitantes do planeta estão totalmente excluídos, tratados como a sub-humanidade.

Pesquisadores, médicos da linha de frente e biólogos e epidemiologistas e infectologistas que fazem um trabalho multicêntrico, apesar dos desmandos dos interesses da chamada necropolítica, põem a ciência a favor da vida. Como escreve A. Huxley, refletindo duas décadas depois do lançamento de seu livro “Admirável Mundo Novo”, poderemos ter uma ciência a favor do homem e não necessariamente apenas um mundo distópico.

O filósofo Slavoj Zizek, em um texto sobre a Covid-19, em janeiro desse ano, chama atenção para o fato de que o termo viral tão aplicado nos últimos tempos para ameaças na esfera da internet voltou a designar o que anteriormente designava, esse elemento que não é e é um ser vivo.

A caracterização do que, afinal, é um vírus é ainda controversa. Hoje, no entanto, os biólogos tendem a classificá-lo como ser vivo. Os vírus são capazes de evoluir e, graças ao genoma, transmitir suas características a seus descendentes. São unidades acelulares degeneradas com capacidade de interagir com a estrutura celular do hospedeiro. Porém, a definição mais forte que encontrei é: são seres mortos que ganham vida ao interagir com a célula hospedeira. Uma espécie de zumbi?

O verdadeiro admirável mundo novo, com nova economia redistributiva, com uma nova política, uma nova ética mundial, uma ciência não dominada pelos interesses econômicos dos Big Pharma…uma sociedade não utópica, mas livre poderia passar a existir para além da pandemia, se algo em nós, de fato, encontrasse a chave que se conecta com o desejo de uma ordem nova e “viralizasse”. Tal como o vírus, mas em direção oposta, que, por possuir a chave de conexão, pode ficar morto por milênios e voltar à vida ao encontrar uma célula de um ser vivo.

Krenak se pergunta, em seu livro citado acima, por que durante três mil anos nossas instituições construíram e alimentaram uma concepção de ser humano e de planeta que só limitam “nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade? “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida.” Estamos criando, escreve ele ainda, uma espécie de humanidade zumbi que não tolera a fruição da vida. (pg. 26/27)

A psicanalista argentina Marian Alizade inventou um conceito que permanece tendo valor. Concebeu um narcisismo terciário que nos levaria a investir libidinalmente pessoas para além das que nos cercam imediatamente, daquelas que pertencem ao “clube da humanidade”. Seríamos, então, levados a investir fortemente aqueles que se situam social e economicamente muito aquém de nós. Assim romperíamos com uma máxima do capitalismo selvagem: tudo que importa somos nós e nossa família.

Pergunto: não haverá em nós um desejo de solidariedade fundado em investimentos desejantes que vão, desde o início da vida, para além da família, que se dariam sob a forma rizomática e não arborizante, no dizer de Deleuze e Guattari?

Desejo negado que só vem à consciência, quando vem, em situações de urgência social, aquelas situações que provocam uma ruptura com nosso quotidiano e com nosso narcisismo habitual que estreita nossa subjetividade?

Nota – Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa), romance escrito em 1931 pelo escritor inglês Aldous Huxley e publicado em 1932.

* Marilsa Tafarel é psiquiatra e psicanalista. Membro e professora da SBPSP. Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Autora de inúmeros artigos, capítulos em livros e do livro “Isaías Melsohn: a Psicanálise e a Vida”, em coautoria com Bela Sister.