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A clínica com imigrantes

* Maria Augusta Marsiaj Gomes
* Marcella Monteiro de Souza e Silva

Pela complexidade do tema, essa modalidade demandou um novo modelo de atendimento no qual outras disciplinas, além da Psicanálise, como a Antropologia e a Linguística, foram convocadas.

As figuras do migrante e do refugiado não são exclusivas dos nossos tempos. O processo de deslocamento à procura de segurança é um ato milenar que remonta ao florescimento dos antigos grandes impérios do Oriente Médio. Porém a institucionalização e regulamentação dessa condição, através do Direito Internacional, deram-se somente após a Segunda Guerra Mundial.

Em 1951, a convenção das Nações Unidas definiu como refugiado toda pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer fazer uso da proteção desse país ou, não tendo uma nacionalidade e estando fora do país em que residia como resultado daqueles eventos, não pode ou, em razão daqueles temores, não quer regressar ao mesmo (ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para o Refugiado).

Em 1964, através da Convenção de Cartagena, foram incluídas nessa categoria de refugiado toda pessoa que esteja fugindo graças “a grave e generalizada violação dos direitos humanos e conflitos armados”.

A busca de refúgio é um tipo específico de migração. Esta caracteriza-se por ser um movimento populacional que compreende qualquer deslocamento de pessoas, independentemente da extensão, da composição ou das causas; daí incluir a migração de refugiados, pessoas deslocadas e migrantes econômicos. Pode ainda ser temporária ou definitiva, espontânea ou forçada, interna ou internacional.

A legislação brasileira é considerada excelente pela Organização das Nações Unidas (ONU) dada a sua abrangência e modernidade, uma vez que foi escrita sob a ótica dos direitos humanos e não sob o ângulo do direito penal e, também, por preconizar todos os dispositivos de proteção ao refugiado. Ela determina que toda pessoa refugiada, uma vez no Brasil, pode obter documentos, trabalhar, estudar e exercer os mesmos direitos civis que qualquer cidadão estrangeiro em situação regular no país e prescreve, ainda, que a responsabilidade pela proteção e integração de refugiados no território nacional é primariamente do Estado.

No entanto, na prática, a integração de fato é ainda bastante precária, dada a carência de políticas públicas e de profissionais capacitados formados para o acolhimento e cuidado específico de que essa população precisa. No vácuo de dispositivos de acolhimento ao migrante e refugiado fornecidos pelo Estado, instituições filantrópicas como, por exemplos, Missão Paz e Cáritas ou ONGs como IKMR, dentre outras, se esforçam no sentido de promover o acolhimento e a melhoria de condições de integração dos migrantes e refugiados no Brasil.

A migração é, portanto, um acontecimento social indissociável da história humana. Porém, como nos alerta Moro (2002), o acontecimento migratório é também um acontecimento psíquico, uma vez que “a ruptura com o ambiente externo, de origem, é acompanhada por uma ruptura do quadro cultural internalizado do paciente, que até então lhe oferecia importantes referenciais simbólicos identitários”.

Cada cultura disponibiliza ao sujeito uma multiplicidade de elementos com os quais ele constrói uma chave de leitura do mundo e a partir dos quais confere sentido às suas experiências.

No complexo acontecimento migratório, o sujeito estará exposto à perda desses referenciais internalizados que o ajudam a elaborar suas vivências e será desafiado a enfrentar situações, na maioria das vezes, de vulnerabilidade e precariedade no país de acolhimento. É fácil supor, portanto, que tal acontecimento comporte um grande potencial traumático, pois exigirá do sujeito uma reorganização interna em um contexto no qual se encontram barreiras linguísticas, sociais e culturais significativas, bem como condições de acolhimento nem sempre favoráveis no país de destino (devido principalmente à discriminação e ao racismo). A isso se soma a situação que precede o deslocamento: geralmente marcada por graves conflitos e dificuldades de várias ordens, além de sentimentos de ambivalência e culpa.

Embora a migração faça parte da história da humanidade, a migração atual tem características específicas. São várias suas causas: guerras civis e étnicas, fome, pobreza ou desastres naturais como o terremoto no Haiti.

Clínica Transcultural

A Clínica Transcultural foi criada para propiciar o atendimento psicanalítico à população de migrantes que chega em outro país em situação de deslocamento. A complexidade da situação (diferenças linguísticas e culturais, como modelos familiares, de cuidado, de parentalidade, religião, entre outras) associada à concretude de suas necessidades demandaram um novo modelo clínico no qual outras disciplinas, além da Psicanálise, como a Antropologia e a Linguística, foram convocadas.

A Clínica Transcultural se desenvolveu da etnopsicanálise (disciplina cujos pressupostos provêm da Etnologia, da Psiquiatria e da Psicanálise), criada por Georges Devereux, antropólogo e psicanalista, a partir de seu trabalho com os índios Mohave, dos Estados Unidos. Estudante da disciplina, Marie Rose Moro, psicanalista, é quem cria uma unidade de serviço transcultural para famílias de migrantes em 1985, em Paris: a Clínica Transcultural.

Esse método está assentado em três princípios básicos:

  1. Universalidade psíquica, que supõe que a essência do psiquismo (inconsciente) é comum a todo ser humano.
  2. Complementaridade, que considera não só a compreensão do indivíduo mas também da sociedade e da cultura.
  3. Descentramento: um deslocamento da própria cultura (do analista), permitindo uma atitude empática e ausente de julgamento sobre as representações culturais do paciente.

O descentramento implica em uma atenção especial aos efeitos contratransferenciais, que, no contexto transcultural, se tornam ainda mais complexos, pois nos deparamos com situações culturais que nos causam estranheza e desconforto. Como na Psicanálise tradicional, observar como somos afetados pelo paciente é a melhor maneira de elaborar o impacto que ele tem sobre nós.

Atendemos um casal muçulmano do Sudão que nos impressionou pela grande submissão da moça ao marido. Sua melancolia não recebia o apoio e solidariedade que esperávamos em um modelo de casal tal como concebido por nós. Tivemos que fazer um trabalho interior para acolher que aquela era a maneira como a cultura do casal regulava as relações entre homem e mulher.

Em alguns países africanos, em sociedades coletivistas, os lugares reservados aos homens e às mulheres são muito diferentes dos das culturas ocidentais modernas; determinados assuntos só se falam entre elas, não se conversam com os maridos. Só quando conseguimos colocar nossos preconceitos de lado e ouvi-lo com empatia foi que o casal sentiu-se mais compreendido, adquirindo confiança no grupo terapêutico.

Setting

Existem várias modalidades de atendimento psicológico a migrantes. Em São Paulo, algumas instituições oferecem esse atendimento, dentre elas destacamos o grupo Veredas, o Projeto Ponte, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Ambulatório de Psiquiatria Social e Cultural do Hospital das Clínicas. Aqui centraremos na Clínica Transcultural familiar que temos realizado no Centro de Atendimento da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, inspirada pela experiência de Marie Rose Moro.

Quando uma pessoa ou família nos é encaminhada, fazemos uma avaliação prévia para decidir qual o tratamento mais adequado para aquele determinado grupo familiar ou indivíduo. O setting na clínica transcultural familiar deverá espelhar e fazer funcionar os princípios relatados anteriormente (universalidade, complementaridade e descentramento).

O trabalho se dá com um grupo de terapeutas, sendo que um deles ocupa o papel de coordenador. Um ou dois desses terapeutas se ocupam das crianças, funcionando como interlocutores dos aspectos emocionais que se apresentam por meio dos desenhos e do brincar. Na maioria dos casos, um tradutor também participa do grupo, pois se valoriza a possibilidade de trânsito entre a língua materna e a língua do país de acolhimento. Outro elemento importante é o representante da instituição que encaminhou a família, pois ele faz uma ponte entre a instituição e nós, fundamental em uma situação de tantas rupturas com o contexto dos imigrantes.

A função do grupo de terapeutas é acolher as representações dos pacientes e, abdicando do julgamento, realizar um trabalho interno de continência e rêverie (Bion, 1962), procurando transformar em sonhos as experiências traumáticas relatadas pela família. Esses sonhos/pensamentos alfa (Bion, 1962) são oferecidos ao grupo e transmitidas à família pela terapeuta principal, como se o grupo funcionasse como uma caixa de ressonância para a família.

Consequências psíquicas

Crise de identidade – Em Psicanálise, o trauma diz respeito a uma relação entre estímulo e uma insuficiência na sua elaboração psíquica. Quanto mais intenso for o estímulo, mais importante a qualidade do processo de sonhar ou pensar, que nada mais são do que a transformação dos estímulos que recaem sobre o psiquismo em qualidades psíquicas. Para ordenar o caos que incide no psiquismo é necessária outra subjetividade em relação muito íntima para que essa transformação ocorra. Pensemos no caso do bebê: ele é acometido por uma série de estímulos (fome, sede, calor, frio) aos quais não consegue conferir sentido. Será a mãe, ou alguém que exerça essa função materna, a subjetividade que o ajudará a dar significado a tais estímulos desprazerosos. Ela é nosso primeiro “órgão de elaboração”, transformação; posteriormente, será tudo aquilo a que damos o nome de cultura (Nosek, 2018). O processo de socialização do ser humano acontece por meio de uma incorporação intensa de modos de sentir, pensar e agir transmitidos pela cultura, contribuindo para a construção de um quadro de referência simbólico-identitário interno, que ajudará a pessoa a dar sentido às suas experiências.

Conforme assinalamos, na imigração o enraizamento da cultura de origem se perde, padrões e técnicas de cuidados já estabelecidos se distanciam, acarretando uma ruptura desse quadro interno. Portanto, além das perdas impostas pela própria mudança, a pessoa terá que lidar ainda com a perda das referências internas que a ajudavam a “ler” o mundo e a construir a sua própria identidade. Soma-se a isso o fato de a sobrevivência no país de acolhimento requerer instrumentos desconhecidos. Por essa razão, muitas vezes a imigração vem acompanhada do sentimento de crise identitária. Sendo elas:

a) Questões de gênero – Existem muitas maneiras de ser mulher e de ser homem e esses modelos, construídos ao longo da história, variam de cultura para cultura. Numa situação de migração, é comum as pessoas se depararem com papéis de gênero oferecidos pela sociedade receptora muito diferentes daqueles internalizados, sendo necessária uma “negociação” interna entre eles. Maria, nascida em uma aldeia rural na Colômbia, nos conta como descobriu no Brasil o machismo de seu marido, fato que na sociedade mais conservadora colombiana passava despercebido. Isso a fez questionar não apenas a relação com seu marido, mas também que mulher ela é e gostaria de ser. Jobana Moya, ativista boliviana, nos relata: “É chocante como fora de seu contexto as pessoas às vezes tiram o pior delas e fazem coisas horríveis”, se referindo à maneira como alguns homens bolivianos, submetidos à “violência social” (situações de humilhação, impotência etc.), recorrem à violência dentro de casa como último recurso para sentir-se “potente”, viril. E ainda:

b) Questões de parentalidade – Tornar-se pai ou mãe implica uma passagem que demanda trabalho psíquico do sujeito, pois trata-se de uma reorganização das representações internas de si e de suas relações com os outros (os próprios pais, principalmente). Quando isso tem que ser feito num contexto cultural diferente e em uma situação de instabilidade emocional, pode ser vivido como um episódio muito doloroso.

Algumas mães apresentam um mecanismo de clivagem em relação à sua cultura de origem, “esquecendo” ou desvalorizando suas práticas culturais de acolhimento da criança. Esses mecanismos são defesas para combater o traumatismo migratório (Moro, 2014), mas podem gerar consequências nefastas às crianças, pois sabemos da importância da transmissão do repertório de experiências e vivências maternas para os filhos.

Luto – A grande maioria dos migrantes carrega dentro de si inúmeras perdas e separações: deixa para trás sua casa, família, emprego, pátria, tradições e costumes. A elaboração desses lutos requer tempo e capacidade de renúncia, porém a batalha pela sobrevivência no aqui e agora do país de acolhimento pode dificultar esse processo.

Atendemos uma família venezuelana, mãe e seus dois filhos, que pouco antes de deixar seu país tinham perdido filho e irmão de uma maneira violenta. Ficamos impactados com a tatuagem do nome do irmão na testa de um dos rapazes, em cujo rosto lágrimas, também tatuadas, escorriam. Este irmão morto continuava presente na vida desta família concretamente; um luto impossibilitado de ser processado paralisava a família havia quatro anos. Depois de alguns encontros esta dor pode começar a ser tocada e a história deste drama, a ser narrada, abrindo a possibilidade de alguma elaboração.

Patologização – Conhecimentos e saberes tornam-se duvidosos na nova terra para os migrantes e novas práticas culturais comumente lhes são impostas e muitas mulheres percebem-se sozinhas, perdidas, sem referências, sem suas famílias para lhes dar suporte, vivenciando as novas práticas de cuidado como imposições violentas.

Na Bolívia, por exemplo, há várias práticas culturais carregadas de significações importantes. O parto, por exemplo, em grande parte das vezes, é realizado em casa e a mulher permanece vestida, graças ao enorme pudor com o corpo nu. Ter filho em um hospital, ser obrigada a se despir causam enorme sofrimento para essas mulheres.

É também costume guardar a placenta para ser enterrada perto da porta da casa ou ao lado de uma árvore, pois acredita-se que quando a pessoa morre ela vai embora por este lugar. Aqui, as placentas de seus bebês são jogadas no lixo mesmo com a solicitação das mães.

Tivemos relatos de crianças bolivianas diagnosticadas erroneamente como autistas devido a sua quietude. Os povos andinos são particularmente introvertidos, característica que foi reforçada pela imposição dos colonizadores de se falar somente o espanhol. O quéchua e as outras línguas locais passaram a ser faladas somente em voz muito baixa e sempre dentro de casa.

Transformações subjetivas – O dispositivo psicoterapêutico da Clínica Transcultural, na medida em que busca integrar os níveis coletivo, intersubjetivo e intrapsíquico, tem se mostrado eficaz na promoção de transformações subjetivas relacionadas aos processos de deslocamento.

Faz-se necessário, porém, a ampliação de serviços psicológicos que possam atender essa população, bem como a criação de políticas públicas que levem em conta a complexa questão imigratória. Temos visto muitas situações de discriminação e preconceito por parte de uma sociedade que, de modo geral, é vista como receptiva e hospitaleira, devido, sobretudo, ao desconhecimento de outras culturas, bem como à falta de formação para trabalhar em contextos de cuidado e acolhimento transculturais. O modo como a conflituosa e ambivalente relação com o outro diferente de nós, o estrangeiro, é vivido e pensado ao longo da história do Ocidente nos leva a refletir sobre nossa capacidade de acolher e aceitar as formas de alteridade.

Salvo raros momentos, fonte de utopia, o estrangeiro tem sido representado como inimigo, aquele que merece ser excluído, rejeitado, mesmo exterminado, por ser visto como ameaça à identidade do grupo. Usualmente, no contato com quem vem de fora busca-se “retirar” o caráter de estranheza, de alteridade do objeto, para torná-lo possessão do sujeito. Busca-se a naturalização do estrangeiro: ele perde sua identidade, despojando-se de sua condição de estranho, de unheimlich. “Há um desejo de catequizá-lo, de torná-lo igual a nós, pois o diferente nos assusta e ameaça” (Nosek, 2017).

No século XXI, na era da globalização, da integração econômica e política, a alteridade se coloca como uma questão central, de suma importância. No contexto atual, assistimos a uma tendência à recusa, à negação do outro, do diferente. Hoje, o outro é o refugiado e o migrante.

No Brasil

De acordo com informações da OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), os números de 2018 sobre migração e refúgio no Brasil são os seguintes: entre as principais nacionalidades aparecem venezuelanos, em primeiro, com 61.681 pessoas; haitianos, em segundo, com 7 mil; colombianos, em terceiro, com 2.749; bolivianos, em quarto, com 1.450. Há registro de 774,2 mil imigrantes de 2010 a 2018.

Para saber mais

São 25,9 milhões de refugiados em todo o mundo

De acordo com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para o Refugiado), atualmente estamos testemunhando os maiores níveis de deslocamento já registrados: estima-se que perto de 70,8 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a sair de casa, entre as quais quase 25,9 milhões são refugiados, sendo que mais da metade são menores de 18 anos. Calcula-se que a cada minuto 25 pessoas no mundo são deslocadas a força, em decorrência de conflitos e perseguições. A grande maioria dos migrantes provém de países em desenvolvimento, sendo que 80% dos refugiados vivem em países vizinhos, também em desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

ARAMAYO, Jobana Moya. Ser mãe quéchua em São Paulo: um depoimento. Calibán – Revista Latino-

Americana de Psicanálise, v. 17, n. 1, 2019.

BION, W. R. A theory of thinking. In: BION, W. R. Second Thoughts. Londres: Karnac Books, 1962.

DANTAS, Sylvia. Saúde mental, interculturalidade e imigração. Revista USP, n. 114. Dossiê interculturalidades, p. 55-70, 2017.

MORO, M. R. Os ingredientes da parentalidade. Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, VIII, n. 2, p. 258-273, 2005.

Psicoterapia transcultural da migração. Psicologia USP, v. 26, n. 2, p. 186-192, 2015.

NOSEK, Leopold. A Disposição para o Assombro. São Paulo: Editora Perspectiva, 2017.

Assombro. Federação Brasileira de Psicanálise (Febrasi), ano XVI, RJ, setembro 2018.

 

* Maria Augusta Marsiaj Gomes – Economista, Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, participante da Clínica Transcultural da SBPSP.

* Marcella Monteiro de Souza e Silva – Bióloga, Psicóloga, Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, professora do CEP – Centro de Estudos Psicanalítico, participante da Clínica Transcultural da SBPSP e participante do Projeto de Extensão “Interculturalidade e cuidado na E/I-Migração”, da UNIFESP.

 

** Este artigo foi publicado pela revista Psique de número 168. Clique aqui para fazer o download em PDF.

Isolamento social mobiliza atividade pensante e criativa em psicanalistas da SBPSP

O atravessamento deste período de isolamento social tem mobilizado intensa atividade pensante e criativa em vários psicanalistas da SBPSP. O Blog de Psicanálise publica, hoje, trabalhos recebidos neste período e que compõem um painel das elaborações apresentadas por Ricardo Trapé Trinca, Helena Cunha Di Ciero, Suzzane Gallo, Vanessa Figueiredo Corrêa e Lecy Cabral para os desafios e angústias deste momento.


Visitações Enigmáticas no Tempo do Coronavírus

* Ricardo Trapé Trinca

Estamos isolados. É tarde da noite – ou cedo, ninguém sabe. A noite não passa. Lemos passagens do livro Paisagens do Medo, de Yi-Fu Tuan. Uma pequena luz tremeluz por sobre a mesa. É a luz de uma vela que ilumina precariamente nossos rostos e o restante da sala meio vazia. Parou de chover há pouco ou talvez há muito tempo, e ficamos sem luz, e a luz não tem previsão de voltar. A conversa é ela mesma uma tentativa de iluminar, mas envolvida por esse breu.

a:Temos medo do escuro.
b: Do escuro? Não costumo ter. Adoro dormir no escuro, você sabe disso. Uhm… Você está falando de outra coisa?
a: Estou. Gostaria de saber qual estado de mente suporta o escuro. A psicanálise pensou algo sobre isso, você não acha?
b: Talvez tenha pensado mais sobre criar verdades. Alguns tipos de enlouquecimento são exatamente assim. Vide nossos atuais governantes, que criam verdades sem base alguma da realidade. Mas não devemos patologizá-los. Eles merecem responder por irresponsabilidade ou crime.
a: Você tem razão! E como parece fácil desprezar a realidade. Mas acho que é no escuro e a partir dele que produzimos certezas absolutas. Talvez por esse medo do escuro. Mas diria certezas, não verdades.
b: Viver é perigoso. Perigoso demais. Acho que suportar o escuro é caminhar na incerteza. Mas caminhamos rumo a quê? Rumo a algo? Não sei. Como diria Pascal, “nadamos em um meio termo vasto, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um lado para outro. (…) Ardemos de desejo por encontrar uma plataforma firme e uma base última e permanente para sobre ela edificar uma torre…porém, os alicerces ruem e a terra se abre sobre o abismo” . Sempre achei essa passagem linda; verdadeira e poética.
a: É realmente muito linda e verdadeira. Mas caminhamos, sempre. Talvez rumo a algo, mas desconhecido. Uma coisa é ter uma necessidade imperiosa de criar uma certeza, sem dúvidas sobre ela, outra é poder tolerar, ter certa paciência… e esperar. A tarefa da psicanálise é menos revelar e nomear e mais poder garantir que incertezas, mistérios e o inacabado do pensamento possa continuar não só existindo, mas produzindo meias verdades necessárias para a saúde mental. Alguns elementos dispersos quando combinados podem iluminar algo até então desconhecido. Muitas vezes, o conhecimento vem disso, dessa combinação de elementos outrora dispersos. Mas o curioso é como permanecemos como espécie que sente ser necessário sair dessa condição, quando essa condição é fundamental.
b: Qual condição você se refere?
a: Bem, de falta de luz, mas mais radicalmente, da camarilha dos quatro .
b: Não sei sobre o que você fala.
a: Falo sobre a revolução cultural chinesa.
b: A antiga ou a atual?
c: Acho que as duas. Uma destituição para um vir a ser.
b: Deve ser novamente uma imagem figurada.
a: Sim. Mas gostaria de permanecer assim, fazendo analogias e figurações. Caminhando pela incerteza, se possível.
b: Ok, acho que dá para te suportar. Combina com a noite.
a: Obrigado. Você sempre é gentil, o que soa falso, às vezes. Embora saiba também que essa necessidade de suportar não seja em relação a mim. Espero que você se dê conta disso. Essa noite que não passa é quase insuportável. E se falo sobre isso é por pura necessidade.
b: Tudo bem, mas você há de convir que algumas personalidades também são mais claras do que outras. Você aqui está sendo obscuro. E pedante.
a: A tua intolerância – e a minha também, é verdade – em relação ao obscuro é o tema de nossa conversa. O que te açoita, o que te aflige que te faz ir para longe disso?
b: Não sei bem. Mas quando li no jornal que o vírus está matando pessoas também de minha faixa etária e sem histórico de doenças, e que cientistas não sabem ainda se teremos imunidade a esse vírus, mesmo se já tivermos sido contaminados… bom, me encho de insegurança… Mas acho que essa conversa não chegará a nada. Não sei se ficar inseguro levará a alguma coisa.
a: Nada! Essa é uma rica palavra. Ex nihilo nihil fit. Sabe o que significa?
b: Não sei latim.
a: É um provérbio escolástico. Significa: do nada nada vem.
b: Sim. Posso compreender.
a: Talvez não. Talvez não possa. Talvez dizer que dele nada vem signifique querer sair rapidamente correndo dele. Sair correndo desse escuro em que nos encontramos, imaginando justamente isso, que não virá nada. Quando falamos “nada”, apontamos para aquilo que não há, mas também tentamos bordear, mapear ou dar contornos para isso.
b: Pensei que fôssemos falar de psicanálise.
a: E estamos. A psicanálise é um método de investigação e de um progressivo aprendizado por meio das experiências humanas que apontam para uma condição humana fundamental. Acho, pessoalmente, que a psicanálise vislumbra que essa condição seja precária e negativa.
b: Qual condição que estamos tentando figurar? A da camarilha dos quatro?
a: Exatamente!
b: Isso parece uma fala vazia ou teórica demais.
a: Espero, então, que esse vazio possa te visitar; e visitando, deixar-lhe na fronteira entre incerteza e pensamentos.
b: Uma fronteira, nesse sentido, talvez seja uma imagem topológica. Não confunde ainda mais isso?
a: Pode ser. Mas preferiria que você e eu pudéssemos ter alguma experiência com isso. Estamos na incerteza nesse momento. O nada já bateu à nossa porta. Ele é a primeira figura que nos visita hoje. Ele visa o outro, ou melhor, as coisas, por meio das quais nós mesmos nos revelamos. Pelo nada as coisas surgem por meio de sua alteridade.
b: E existem outras figuras?
a: Sim! Outras três. Mas espero que você possa conhecê-las aos poucos.
b: Ok. Mas deixe que eu lhe fale algo. Estou aqui pensando que estamos todos doentes. Ou adoecendo. Enquanto estamos aqui sentados nessa conversa teórica, mas toda incerta, milhões de pessoas são contaminadas e outras milhares morrem nessa pandemia. Você não acha que precisamos realmente de iluminação? Ainda bem que você não é cientista. Os cientistas podem fazer cálculos e trazer segurança, iluminam nossa escuridão. Você não faz nada disso.
a: A história humana é essa. Uma história da fome, uma história da peste, uma história da guerra e de precariedade. Acabamos de ler isso tudo no livro de Yi-Fu Tuan! No entanto, quando fazemos da história uma história de seus vencedores, e esquecemos de nosso sofrimento, de nossa precariedade e insegurança, então ficamos distantes dessa experiência traumática que estamos vivendo agora. Que todos vivemos. Temos também cada vez menos recursos para lidar com essa experiência que, cá entre nós, nem mesmo consegue se tornar experiência. Os vitoriosos vão se tornando imaturos, pois não conseguem aprender com a experiência dos derrotados.
b: E qual seria?
a: Bom, o traumático é uma iminência de desastre. Mas de um desastre que já ocorreu. Não sabermos nem se ficaremos doentes e nem se iremos morrer; por fim, o que acontecerá conosco e com os outros. Não temos controle e previsão sobre o futuro, mas as dores podem estar em perturbações já ocorridas. O corpo se transformou em algo ameaçador, assim como todas as coisas, que podem potencialmente ser depositários do vírus. Estamos tentando dar conta disso agora, neste exato momento e em todos os outros dias dessa quarentena. Há uma revolução cultural em jogo, também com o modo como aprisionaremos nossos corpos. E não há como dar conta disso. Parece ficar girando em falso ou hipercatequizando uma proteção que já se rompeu. A experiência que poderíamos ter diz respeito a essa condição humana insegura e frágil, que não dá conta de muitas das coisas do mundo. Mas agora todos vivemos isso simultaneamente. Há algo, um vírus, que nos traumatiza, mas também que nos lança para uma proximidade incrível com todo mundo. E não só para com as pessoas, mas para com as coisas, para com os seres e para com o futuro. Isso só é possível pela nossa fragilidade.
b: Mas não precisamos nos defender? Você fala como se fosse apenas bom ser frágil. Ser frágil é também se posicionar como aquele que poderá ser vencido. E, sem história, você desaparece. A morte dos vencidos é sempre mais mortífera do que a morte dos vencedores, porque ela é um desaparecimento. É um desaparecimento radical.
a: Sem dúvida. E iremos desaparecer porque somos imensamente frágeis. Estamos com um vírus batendo à nossa porta que nos traz essa mensagem. É uma mensagem válida para todos, ricos e pobres. A nossa fragilidade clama por segurança. Clama por paternidade e clama por um lugar de morada que seja seguro. Talvez a civilização ganhe novamente essa guerra, mas ela vai sair às ruas para festejar? Vamos manter o estado de insegurança que nos aproxima ainda mais do outro ou iremos onipotentemente sentir que somos os reis do mundo? Filhos de Deus…
b: Você falou em paternidade? E quem está falando sobre pai agora? Seu pai não te liga há um mês! O meu já morreu.
a: Eu sei e continuo triste com isso. Mas quero dizer que nascemos órfãos. Essa é uma outra condição humana. A orfandade nos visita. Talvez a necessidade de ter um pai, ou melhor, de adotar um pai, esteja na base de nossa insegurança. É uma dor perceber como a estupidez caminha a passos largos diante dessa necessidade. Como, por exemplo, apoiar líderes políticos que pela força querem transmitir segurança. É uma necessidade de filiação, de adotar um pai. Certamente um pai com o qual se identifica. Parodiando aquela música famosa: “um pai pra chamar de seu… mesmo que seja eu…”.
b: Ainda bem que você não é meu pai… te acho meio pernóstico, às vezes… Iria brigar muito com você! Mas essa condição de ser órfão, talvez tenha relação com a camarilha dos quatro.
a: Sim! É uma visitação.
b: Visitação? Mas será que não estamos falando em desamparo? A psicanálise tem mais a falar disso do que da camarilha dos quatro.
a: Sem dúvida. E muito. Talvez, o desamparo seja um sentimento que aponta para esses registros humanos fundamentais. E Freud foi genial por pensar como a dimensão do desamparo poderia justamente ser o elemento por meio do qual se criaria laço social. Juntos podemos estar menos desamparados.
b: Estou aqui pensando também que os laços sociais dizem respeito às relações. Estar junto com, ser com alguém…ser com você agora e nessa conversa meio filosófica que continuo sem apreciar… talvez, também assim me aprecie menos… quer um vinho?
a: Quero mais um gole. Obrigado. Realmente. É uma dimensão de um acontecer junto, de uma intersubjetividade. Mas que aponta para a dimensão de solidão, que é nosso oposto, pois somos junto às coisas. Nascemos em solidão, órfãos e não temos nada. A solidão nos leva para junto dos outros, para um ser que é em relação. Outra figura que agora nos visita: a solidão fundamental. Ela lança toda a existência em proximidade profunda com todas as coisas, como disse Heidegger.
b: Bom, das quatro figuras da camarilha dos quatro, parece que apenas uma ainda não apareceu. Venha, velha senhora, junte-se a nós! Mas, será que chamá-los de “camarilhas” não seria um pouco ofensivo?
a: Sim, talvez… Elas conspiram uma revolução…mas se esquecem que de sua negatividade advém a positividade de seu oposto. Talvez, para cada figura negativa, sua contraparte positiva já esteja sendo criada. Mas vamos deixar a terceira nos visitar. Não é necessária nenhuma evocação e mais nenhuma provocação. Já temos três ilustres convidados essa noite. Não podemos simplesmente deixá-los rodeando essa mesa em que conversamos. Precisamos ter alguma experiência com eles, você não acha?
b: Mas para quê?
a: Bem, conhecer não é o mesmo que ser, não te parece?
b: Sim, pode ser, acho que faz algum sentido. Mas como é ser negatividade? Parece contraditório!
a: Você é sagaz. Mas não se entusiasme muito. Elas visitam para retirar, antes de oferecer algo. Seu golpe primeiro é pela destituição. Ser destituindo-se, antes de sentir alguma positividade…
b: Ainda bem que estamos em casa.
a: Sente-se segura em casa?
b: Sim! Bastante! Você não?
a: Esse anseio por casa e por uma casa forte me lembra do texto de Henri Bosco.
b: Lindo, não é? Era sobre uma cabana, e quando vinha a tempestade, uma forte tempestade, a cabana parecia agarrar-se ao fundo da terra, e embora o vento a forçasse, inclinasse, batesse e ameaçasse derrubá-la, a cabana permanecia segurando-se firme no solo, e naquele momento o narrador e a cabana pareciam indissociáveis. Eles resistiram até o fim. Acho que ele ainda disse: “A casa apertou-se contra mim, como uma loba, e por momentos senti o seu cheiro descer maternalmente até meu coração” .
a: “Fluctuat nec mergitur”, o mote do brasão das armas de Paris… significa: é sacudida pelas ondas, mas não afunda. Talvez, numa tradução mais livre: castigado pela tempestade, mas não submerso.
b: Tempestade, nesse caso, parece um trauma.
a: Será que esse anseio por uma cabana igual a essa não vem de nosso saber pré-concepcional de ser sem casa? Errantes? Instáveis e sempre estrangeiros?
b: Como assim?
a: Ameaçados pela força de uma natureza selvagem, criamos um ethos, com costumes, hábitos, rotinas, linguagem. A força da natureza que ameaça e a força de nossa própria natureza, disruptiva e instável. Ela ressurge de todos os lados com sua mensagem enigmática, uma mensagem que diz exatamente isso: somos estrangeiros, nascemos na natureza, somos selvagens, somos errantes e instáveis. Em oposição ao ethos, acho que há uma palavra que toca essa condição: desterro.
b: Sem terra.
a: Sim, mas evoca também o anseio por ter uma terra, ou casa, ou lugar. Talvez algo muito próximo da condição de orfandade.
b: Quer dizer, neste momento, estamos sendo novamente visitados pelo último convidado.
a: Sim. E, também e cada vez mais por uma necessidade de coisas, de lugar, de paternidade e de outros com os quais possamos viver junto. Estou vendo que nossos visitantes, o desterro, a orfandade, o nada e a solidão fundamental estão se movimentando mais… talvez queiram falar algo.

Neste momento, os quatro visitantes, que permaneciam de pé e circulavam em volta dos dois, resolvem sentar-se ao lado deles. Os visitantes permanecem calados, sóbrios, tomam uma taça de vinho, esticam seus pés, mas o clima é opressivo. O silêncio é total. E o desejo de que eles possam ir embora vai aumentando a cada instante. Há um clima de angústia no ar. Uma angústia que não se faz representar. É uma angústia de coisa alguma.

b: Quando eles irão embora?
a: Espero que logo. Estou com medo de morrer. Me sinto muito aflito.
b: Espero que o medo da morte traga a vida, traga para mais relevo a vida… E eles? Não falam nada? Não consigo ver o rosto que eles têm.
a: Acho que eles não têm rosto…
b: Nem se são velhos, jovens, mulher ou homem…
a: Eu também não consigo saber… o que eles querem de nós?
b: Não sei! Talvez não queiram nada…
a: Talvez seja o enigma de uma alteridade.
b: Deve ser a falta de luz!
a: Deve ser. E essa luz parece a cada vez mais fraca.
b: Vem aqui do meu lado, estou com medo de que você fique como eles…
a: Você não está falando comigo. Esse não sou eu.
b: O quê?
a: Você está falando com um dos visitantes. Eu sou esse outro aqui…
b: (silêncio) Estou confusa.
a: Acho que estamos nos tornando esses visitantes, porque eu também não sei mais quem é você!
b: Mas a minha vontade por estar perto só cresce. Sinto também falta de minha mãe e… das pessoas.
a: Das pessoas?
b: Sim. E estou tão preocupada com todos. A vida é muito difícil. Eu me sinto como os sem-teto. E me sinto cruel como nunca tinha me percebido antes.
a: Eu estou com tanto medo dessas rachaduras na parede. Precisamos de ajuda…
b: Não sei… não sei mais nada. Olha! Olha! Acho que eles foram embora!
a: Pode ser, mas a luz talvez não volte nunca mais.
b: E agora?
a: Não sei. Talvez comece a amanhecer, quem sabe. Sinto muita falta das pessoas, do mundo, também de beleza.
b: Pelo menos ainda podemos respirar! Pelo menos ainda podemos respirar… uma última coisa: se eles são uma camarilha, quem afinal eles influenciam? De que corte fazem parte?
a: Não sei se é verdade… ouvi falar que da corte de Godot .

Referências Bibliográficas:

1. Pascal, B. (1957/1670).
2. A Camarilha dos Quatro é a designação do grupo de quatro membros do partido comunista chinês responsável pela implementação da Revolução Cultural na China. São eles: Jiang Qing que foi esposa de Tsé-Tung, Zhang Chunqiao, Wang Hongwen e Yao Wenyuan (Wikipedia, 2019). Neste texto a referência é meramente alegórica e representa a destituição da visitação do Real a partir de suas quatro formas básicas, o desterro, a orfandade, o nada e a solidão.
3. Bosco, H. apud Bachelard, 1957/1989, p. 61.
4. Personagem de Samuel Beckett, livro homônimo.

* Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp).

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TUDO RAIA

“Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.”

Cecília Meirelles

*Helena Cunha Di Ciero

As notícias são assustadoras e a iminência de que algo terrível está para acontecer nos assombra.  Dizem que o pico está para chegar, vejo as curvas da pandemia em ascensão e me lembro da Noviça Rebelde subindo a montanha com seus sete enteados fugindo do nazismo. Ela que me acolheu em tantas tardes na infância. Acolhe, hoje, meu terror, quando olho a curva de infectados subindo e penso em Climbing the Mountain tocando de fundo, um horizonte azul se anunciando e a promessa de liberdade. Assim terminava o filme que eu adorava em pequena. Será que isso vem depois do pico da montanha? Do pico da doença? Haverá um horizonte azul?

Não sei, o gráfico sobe e enquanto ele sobe, meu coração pulsa. The Hills are alive with the sound of music, canta a Noviça na primeira cena do filme. As montanhas estão vivas: e eu também. Então, sigo em frente.

Confesso, porém, que abro os olhos já há algumas semanas e repetidamente sopra a canção em pensamento: “Dorme minha pequena, não vale a pena despertar”, cujo título, (enquanto escrevo me dou conta) é: “Acalanto para Helena”. Meu nome. Eis minha canção de acordar, meu autoacalanto. Então eu canto. Afinal eu canto porque o instante existe, assim dizia Cecília Meirelles. Inevitavelmente, desperto, o dia raiou. Nesse instante estou a salvo.

Independente do coronavírus, da Covid-19, doença causada pelo Sars-Cov-2. (palavras que vim conhecer há menos de dois meses, mas que hoje fazem parte do meu vocabulário com mais constância do que nunca) o dia teimoso insiste em raiar. Meus olhos se abriram, mesmo com medo.

As manhãs nos fazem entender o raiar do sol como uma promessa de esperança.  A doença teima em existir, assim como o sol. Marina Lima diria: “Se tudo cair, que tudo caia, pois, tudo raia”. Em “Sobre a Transitoriedade”, Freud nos traz a ideia dos ciclos da vida como sendo parte de sua beleza. Estamos num ciclo de pandemia, mas assim como passou o nazismo, as guerras, a ditadura, a peste negra, isto também vai passar.

Há algum tempo, conheci o artista japonês On Kawara cujo trabalho consistia em mandar, durante muitos anos, telegramas para os amigos e colecionadores com a frase: I am still alive.  Vi essa exposição alguns anos atrás e a força dessa frase me tocou profundamente. I am still alive.

EU AINDA ESTOU VIVO.

Still.

Ainda.

Ainda pode parecer pouco, mas é um lugar seguro nesse instante. Ainda, hoje, é território sagrado.

Caetano também cantou, enquanto exilado: I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo Feel the sound of music banging in my belly know that one day I must die I’m alive.

E em interpretação dos sonhos Freud coloca que a fantasia é o que nos faz tolerar a realidade e que o sonho existe para que o indivíduo consiga suportá-la. Seguirei cantando enquanto tiver voz. Seguirei procurando pelo sonho. Colocando melodia em gráfico de morte. Seguirei procurando pela pulsão de vida. Ainda que a morte bata na porta da minha casa.

Hoje não, Sr. Corona. Hoje, estou ocupada, hoje não posso te atender.

*Helena Cunha Di Ciero é psicanalista, membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), especialista em Psicologia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).

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Reflexos do Processo Primário no Atendimento Online

* Suzanne Gallo

Fenômeno novo. Vejo reflexos pela casa toda. Reflexos que não sabia que existiam. Quando me dei conta disso, no meio de uma sessão de análise telefônica, demorei um pouco em uma coisa que nem sabia estar a ver…olha só! No quadro que está pendurado à minha frente, um pouco à minha direita, vejo o reflexo do final da minha rua. Mas como? De onde estou sentada não vejo isso, estaria até de costas para essa ponta da rua, se não existisse a parede atrás de mim. Mas o vidro do quadro me deixa ver o fim da rua e umas árvores que não conhecia deste ângulo. Essas árvores do reflexo são diferentes das que vejo pela janela. Nunca tinha reparado. Só agora, nestes dias em que o quarto da TV se transformou em meu consultório, conheci esse aspecto da rua e aquelas árvores. A TV é grande e preta. Vejo nela um vago reflexo de mim, meio lúgubre, lá no fundo da tela. Quando me vejo sentada mais ou menos, não muito bem composta, me ajeito no sofá, no meio da sessão.

Passo a me demorar nos reflexos durante as sessões. Eles me distraem. Passo, aos poucos, no transcorrer dos dias, a levá-los a sério. Penso que deve ser reflexo do confinamento. Uma maneira que meu cérebro encontrou de ampliar os limites das paredes. Cada quarto da casa é maior do que parece… Ao me deixar levar pelos reflexos, começo a notar também que tanto os pacientes quanto eu, ouvimos ruídos novos. Muitos dos meus pacientes comentam que escutam o som dos passarinhos. Quando está calor, a janela do quarto fica aberta. A rua está deserta. A árvore cheia de passarinhos cujo trinar vai até a mente dos pacientes junto com a voz da analista. Às vezes, é hora do panelaço na Vila Madalena, mas aqui no meu bairro não tem panelaço. O panelaço chega até a mente da analista junto à voz do analisando.

Continuo observando os reflexos. Na hora do lanche, o chão de cerâmica preta da cozinha reflete o céu muito azul e nuvens brancas. Como pode ser? O chão é preto! Assim mesmo, vejo o céu azul refletido nele. Volto para atender no quarto da TV.

O homem que atendo por FaceTime usa óculos. Aos poucos começo a reparar, refletidas na lente dos óculos dele, umas imagens que penso serem da tela do computador que está à frente dele. Ele está muito desesperado, falando de algo que considera trágico. Um pouco teatral, mas a coisa é séria mesmo. Fico aprisionada no relato até o momento em que me deixo levar pelo reflexo nas lentes de seus óculos. Falo algo que inclui a minha fantasia do que estou vendo na tela do meu iphone. O que vejo é o reflexo de um show de rock de uns caras de cabelos compridos indo de um lado para outro do palco. O paciente fica desarvorado, diz que na verdade as lentes dos óculos dele são diferentes para não dar reflexo, me mostra imediatamente que não está com outra tela ativa a não ser a da nossa sessão no iphone, faz um gesto e me mostra o notebook dele com a tampa abaixada bem na nossa frente. Hmmmm…sei, sei… Deixo passar, não tenho coragem de ir adiante no trabalho analítico, agora. Não gosto de trabalhar assim. Saudade do meu consultório de verdade. Será que fui invasiva? Será que o comentário foi prematuro? Mas eu já estava atenta a esse reflexo desde a sessão anterior… Sei lá… vamos juntando imagens, notando o processo primário da maneira estranha que temos neste pandemônio. Muitos demônios devem ter me feito reparar tanto nesses reflexos do inconsciente.

Gostaria de ter em casa meu volume do Freud 1911, com “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”, para me escorar nele. Ficou lá no consultório. É o que temos para hoje…

* Suzanne Robell Gallo é psicanalista, membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP.

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O Amor nos Tempos do Coronavírus

* Vanessa Corrêa

Hoje, me lembrei de quando eu tinha 12 anos: de um dia em que fui ligar para uma amiga da escola e tal foi a minha surpresa ao perceber que o telefone estava mudo. Perguntei para minha mãe o que tinha acontecido e ela disse que, provavelmente, a conta não tinha sido paga e haviam cortado o sinal do telefone.

Eu ouvia constantemente meus pais dizerem que era feio não pagar as contas e nunca nenhuma companhia tinha cortado nada em casa, então tive que pensar sozinha e pela primeira vez, percebi que minha mãe estava doente, havia meses que estava deprimida e meu pai não estava conseguindo cuidar de todas as coisas que precisava.

Foi quando entendi que eles não resolveriam tudo sempre, que as coisas que para mim pareciam óbvias (como ter as contas pagas) demandavam trabalho e ações; que em muitos momentos as pessoas responsáveis por tais ações poderiam estar indisponíveis. Mesmo que o dinheiro estivesse disponível, precisaria sempre das pessoas cuidando e cuidando. E que ter luz, água, comida, roupas, escola e poder me comunicar ao telefone não eram fatos naturais. Assim, consequentemente, eu também vislumbrava que em algum momento eu teria que cuidar das pessoas.

Hoje, ao me observar desdobrada entre atendimentos virtuais e a tarefa de administrar a matéria escolar para o meu filho de sete anos, preocupada com a saúde de todos ao meu redor e com medo das perdas possíveis, percebo que muitas das minhas contas também não estão sendo pagas: muito da gentileza e do amor disponível em mim não está chegando em quem deveria chegar e eu sinto muitíssimo por isso.

 

*Vanessa Figueiredo Corrêa, é médica psiquiatra, membro Filiado ao Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP) e membro do Grupo de Estudos de Psicanálise de São José do Rio Preto e Região (GEP Rio Preto e Região).

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Hoje é 20 de março de 2020

*Lecy Cabral

Ainda na penumbra do amanhecer, desperto com o ruído de um toc-toc na janela do meu quarto. Percebo o farfalhar das folhas.
O que será esse ruído?
Abro a janela e deparo-me com um lindo pica-pau com um penacho amarelo no alpendre da minha varanda.
Alegro-me ao vê-lo!
O visitante madrugador toca a janela com seu bico
Como a me chamar para a vida lá fora
Como a querer mostrar
Que a alegria ainda vive lá fora mesmo escondida em cantos para os quais nunca temos tempo de olhar…
Minha mente vagueia diante da beleza da majestade imponente com seu penacho amarelo.
Já é outono e o céu mostra-se com pinceladas de um suave azul pastel.
O vento já sopra mais forte e vejo as folhas caídas com tons esmaecidos de amarelo, castanho e vermelho.
Esse recorte de mundo que minha janela me dá,
Parece desenhado pelas mãos de um artista
O outono chegou!
Teremos, aos poucos noites mais longas e dias mais curtos.
Hoje é 20 de março de 2020
Estamos na quarentena
As noites mais longas?
Creio que os dias também serão mais longos…
Tempos de  solidão e incertezas.
Medo do não saber o que virá.
Medo do coronavírus,
Medo de perder os que amamos,
Medo da morte?
Estamos todos isolados.
Prisioneiros em nossas próprias casas.
Como se fôssemos ostras fechadas na concha.
Falta o contato…
Falta o toque, o abraço…
Falta o carinho da troca…
Hoje é 20 de março de 2020
A ruas desertas sem viva alma
Alguns ainda perambulam pelas ruas como almas penadas
Devastação!
Desamparo
Tempos difíceis chegam junto com o outono
Ainda ouço o toc-toc do pica-pau para alegrar um pouco esse momento.
A origem da palavra outono vem do latim autumnus, que significa amadurecer.
Almejamos que a mudança de estação traga humanidade e compaixão.
Que os braços da justiça e de solidariedade nos propicie o tempo da estação do amadurecimento.
E que de nossa intimidade possa surgir uma trama que propicie ao outro o calor que necessita para sobreviver.
Hoje é 20 de março de 2020
Antes do século XVI o outono representava a época das colheitas. Creio que para nós, hoje, representa o período do cultivo.
O cultivo da relações.
O cultivo dos afetos.
O cultivo do compartilhar.
O cultivo do olhar para as necessidades do outro.
Só o cultivo dessa trama pode nos oferecer a saúde física e mental.
Só o cultivo dos aspectos humanos pode propiciar o bem estar dos nossos irmãos no mundo.
Que de dentro de nossas casas sejamos cada um uma rica semente.
Que espera o tempo do crescimento para depois explodir em fruto!
Na mitologia grega – As Horas são as Deusas que representam as estações do ano e a divisão do tempo.
Estamos no Hemisfério Sul, hoje é outono.
No Hemisfério no Norte, hoje é Primavera.
Lá as flores desabrocham de alegria, mas os
corações sangram de dor.
Hoje é 20 de março de 2020
Desejamos que as flores da primavera,
do outro lado do mundo, desabrochem e que todos voltemos a sorrir sem medo.
Do lado de lá do mundo, do lado de cá…
Do lado de lá da janela, do lado de cá da nossa solidão…
Que os frutos do outono,
Do lado de cá do mundo, amadureçam, e nos tornem seres melhores.
Mais compreensivos.
Mais solidários.
Mais humanos.
Que essa força de vida una os povos em suas polaridades .
Apesar das diferentes estações: do germinar ao desabrochar.
Desabrochar para o amor e respeito ao outro e a si mesmo.
Germinar as sementes para um mundo mais compreensivo e de Paz!
Que consigamos ouvir sempre  o toc-toc do pica-pau em nossos corações.
Hoje é 20 de março de 2020

* Maria Aparecida Cabral (Lecy Cabral) é psicanalista, membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Um novo Admirável mundo novo*?

* Marilsa Tafarel

Quando, no filme sobre a vida de Elizabeth II, ela, ainda menina, recebeu a notícia de que como seria a próxima rainha não poderia socializar com qualquer pessoa, a intérprete “interpretou” tristeza em seu semblante.

Nós, que talvez não seremos nada além do que já somos, pós-Covid-19, recebemos a notícia de que não podemos mais socializar com NINGUÉM. Só virtualmente. Estamos no momento mais incerto jamais vivido de uma pandemia.

A primeira morte próxima me trouxe para a realidade da peste. Este impacto surgiu quando fiquei sabendo que Naomi Munakata, a maestrina que regeu por duas décadas o Coro da Osesp, morreu. Ah! Sim, ela tinha saúde frágil, ouvi dizer. Um argumento um tanto defensivo. A grande maestrina Naomi Munakata morreu, é isso que importa. “(…) quanto vale essa vida em percentual de desemprego ou do PIB?”, comentou Aimar Labaki, diretor e dramaturgo.

E todos que morrerão serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima, como ela. Não queria dizer que todos que morrerem serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima. Mas disse.

Não seria, no mínimo curioso, a maestrina ter nascido em Hiroshima? A cidade “da rosa radioativa, estúpida e inválida” como escreveu o poeta Vinicius de Moraes sobre a primeira bomba atômica da história, que arrasou Hiroshima (e depois Nagasaki), no período final da segunda grande guerra. Bomba lançada por um avião americano. Cento e quarenta e cinco mil pessoas se desintegraram, principalmente, crianças e mulheres. Teria sido esse o custo para derrotar o Eixo, o pacto entre Itália, Alemanha e o Império Japonês.

Alguns, mais velhos, viveram a guerra fria e seu pânico prolongado de um final do planeta para os humanos com a ameaça da guerra atômica. Outros, mais jovens, foram poupados disso. Puderam ou não se esquivar do final triste da Primavera de Praga, com a invasão massacrante dos tanques do Pacto de Varsóvia (1968), da crueldade inédita reeditada com o agente laranja, herbicida cancerígeno jogado pelos aviões americanos, que devastou boa parte das matas do Vietnã e deixou milhares de futuras crianças vietnamitas absurdamente deformadas. Tivemos depois a queda da União Soviética que derrubou a esperança de um socialismo melhor e assim seguimos…com outras primaveras que tornaram-se invernos…com a Bósnia…com a Síria…com os emigrados em massa.

Corre por vários canais a ideia de que o novo coronavírus não permitirá virar facilmente a página desse tempo. Uma das hipóteses é cairmos num mundo verdadeiramente orwelliano e huxleyniano, na medida, entre outras coisas, em que poderemos ser obrigados a aceitar um passaporte digital sob a forma de um nanochip, com todos nossos dados de vacinas etc. Teríamos implantados em nós um panóptico digital, na expressão de Pepe Escobar, que retoma Foucault em Vigiar e Punir. No entanto, tudo poderá seguir noutra direção.

O fato é que, nesse momento, estamos solitariamente, sem nenhuma atitude heroica, sentindo-nos, às vezes, mais como anti-heróis. Cuidando da casa, acompanhando as notícias das evoluções dos protocolos, sofrendo com a incerteza. E, atendendo os pacientes por plataformas da internet que dificultam, a meu ver, nossa escuta analítica porque alteram nosso olhar que precisa ser também flutuante. Mesmo assim, temos a surpresa de análises que ganharam muito na abertura para o desejo. Procuramos, por outro lado, lutar um pouco, talvez muito pouco, pela distribuição menos desigual das chances de vida na pandemia.

Contudo, podemos usar essa angústia da urgência para investigações que nos concernem, o que vem sendo feito, aliás.

Parece um bom momento para nos perguntarmos o que nos levou a reconstruir, depois da primeira grande guerra, depois da bomba, dos campos de concentração e extermínio etc, a mesma estrutura social em que cada um colocou seu tijolinho. E assim mantivemos o que Ailton Krenak, em seu livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, chama de “clube da humanidade”. Do qual 70% dos habitantes do planeta estão totalmente excluídos, tratados como a sub-humanidade.

Pesquisadores, médicos da linha de frente e biólogos e epidemiologistas e infectologistas que fazem um trabalho multicêntrico, apesar dos desmandos dos interesses da chamada necropolítica, põem a ciência a favor da vida. Como escreve A. Huxley, refletindo duas décadas depois do lançamento de seu livro “Admirável Mundo Novo”, poderemos ter uma ciência a favor do homem e não necessariamente apenas um mundo distópico.

O filósofo Slavoj Zizek, em um texto sobre a Covid-19, em janeiro desse ano, chama atenção para o fato de que o termo viral tão aplicado nos últimos tempos para ameaças na esfera da internet voltou a designar o que anteriormente designava, esse elemento que não é e é um ser vivo.

A caracterização do que, afinal, é um vírus é ainda controversa. Hoje, no entanto, os biólogos tendem a classificá-lo como ser vivo. Os vírus são capazes de evoluir e, graças ao genoma, transmitir suas características a seus descendentes. São unidades acelulares degeneradas com capacidade de interagir com a estrutura celular do hospedeiro. Porém, a definição mais forte que encontrei é: são seres mortos que ganham vida ao interagir com a célula hospedeira. Uma espécie de zumbi?

O verdadeiro admirável mundo novo, com nova economia redistributiva, com uma nova política, uma nova ética mundial, uma ciência não dominada pelos interesses econômicos dos Big Pharma…uma sociedade não utópica, mas livre poderia passar a existir para além da pandemia, se algo em nós, de fato, encontrasse a chave que se conecta com o desejo de uma ordem nova e “viralizasse”. Tal como o vírus, mas em direção oposta, que, por possuir a chave de conexão, pode ficar morto por milênios e voltar à vida ao encontrar uma célula de um ser vivo.

Krenak se pergunta, em seu livro citado acima, por que durante três mil anos nossas instituições construíram e alimentaram uma concepção de ser humano e de planeta que só limitam “nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade? “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida.” Estamos criando, escreve ele ainda, uma espécie de humanidade zumbi que não tolera a fruição da vida. (pg. 26/27)

A psicanalista argentina Marian Alizade inventou um conceito que permanece tendo valor. Concebeu um narcisismo terciário que nos levaria a investir libidinalmente pessoas para além das que nos cercam imediatamente, daquelas que pertencem ao “clube da humanidade”. Seríamos, então, levados a investir fortemente aqueles que se situam social e economicamente muito aquém de nós. Assim romperíamos com uma máxima do capitalismo selvagem: tudo que importa somos nós e nossa família.

Pergunto: não haverá em nós um desejo de solidariedade fundado em investimentos desejantes que vão, desde o início da vida, para além da família, que se dariam sob a forma rizomática e não arborizante, no dizer de Deleuze e Guattari?

Desejo negado que só vem à consciência, quando vem, em situações de urgência social, aquelas situações que provocam uma ruptura com nosso quotidiano e com nosso narcisismo habitual que estreita nossa subjetividade?

Nota – Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa), romance escrito em 1931 pelo escritor inglês Aldous Huxley e publicado em 1932.

* Marilsa Tafarel é psiquiatra e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É professora da SBPSP. Autora de inúmeros artigos, capítulos em livros e do livro “Isaías Melsohn: a Psicanálise e a Vida”, em coautoria com Bela Sister.

Excesso de realidade

*Magda Guimarães Khouri

No mundo da globalização, o filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu ensaio Sociedade do Cansaço, aponta que há um excesso de positividade, que faz surgir novas formas de violência que, pela superprodução, superdesempenho ou supercomunicação, provocam a exaustão, o esgotamento e o sufocamento frente à demasia. Nesse contexto, guerrearemos contra nós mesmos e não contra um inimigo externo, sendo, por exemplo, a depressão uma das fortes manifestações emocionais observadas na atualidade. O autor, que, há 10 anos, curiosamente desenvolveu a tese de que o século XX foi uma época bacteriológica, com o seu fim a partir da descoberta do antibiótico.

A esta época, que o filósofo denominou de imunológica, se estabeleceu uma divisão nítida entre o dentro e o fora, amigo e inimigo. Acrescenta que o paradigma imunológico foi dominado pelo vocabulário da Guerra Fria: mesmo que o estranho não represente nenhum perigo, ele será eliminado devido a sua alteridade. Assim, o princípio da negatividade regeria a imunização, no sentido que a violência viria do outro, de um vírus a ser atacado.

Seguindo esse modelo de pensamento, numa sociedade de um excesso de igual, aparentemente sem fronteiras pelo alcance das redes sociais, a Covid-19 surge como um novo inimigo a ser derrotado, reestabelecendo uma reação imunitária, que se caracteriza por criar cercas, barreiras e muros.

Na nossa era virtual, que nos posiciona de forma mais passiva diante do bombardeamento de informações, o vírus surge como um golpe radical de realidade. O psicanalista Fabio Herrmann, em suas reflexões sobre a teoria da crença, escreve que quando a continuidade do cotidiano se quebra e somos capturados por questionamentos inesperados, rompe-se o campo das representações, daí vive-se um estado provisório de não-representabilidade.

Difícil nomear o que está se passando. Pouco se sabe. Em um primeiro momento parece que estamos vivendo aquilo que chamam de realidade paralela. De tão real parece ficção.

Todos nós no isolamento social, temos certa liberdade em flutuar entre os campos da ficção e da realidade, escapes até podem ser criados para as angústias geradas pela incerteza, pelo perigo da doença. Experiências sobre as mais variadas formas para atravessar as dores da crise, não cessam de serem relatadas. Ora perturbador, ora paralisante, tudo merece atenção e espaço de compartilhamento entre os grupos.

Em outro território estão os profissionais de saúde que vivem o excesso de realidade, de situações muitas vezes incontornáveis. O depoimento de um médico, da linha de frente ao combate da Covid-19, que infelizmente no Brasil ainda se encontra no seu início, demonstra o trágico da experiência: vive um pesadelo, quer acordar, quer sair e não consegue.

De acordo com um estudo publicado pela American Medical Association, os autores destacam fatores que geram sofrimento psíquico para os profissionais de saúde durante a pandemia, tais como, alto risco de exposição, medo de ser infectado, cargas extremas de trabalho, dilemas morais, exigência de práticas que diferem das que estão acostumados, sobrecarga de tarefas.

Entre as demandas, ainda está lidar com a família. Durante a internação cabe aos profissionais se isolarem com seus pacientes e barrar os familiares do contato com os parentes. Além da experiência de ver uma pessoa entrar no hospital e ao morrer é como se os corpos desaparecessem: caixão lacrado, sem nenhum ritual, sem despedidas, sem espaço de luto. Um processo que coisifica a vida.

A todos esses profissionais de saúde que se dirigem as várias plataformas de atendimento formadas no país, como uma grande demonstração de solidariedade. A Sociedade Brasileira de Psicanálise se une a esse movimento por meio do programa Rede SBPSP: Escuta psicanalítica aos profissionais de saúde, que oferece atendimentos online, gratuitos e pontuais.  O projeto se estende também aos membros das equipes, tais como vigias, motoristas, agentes de apoio, entre outros. A proposta é cuidar de quem está numa situação de alto risco, dar suporte emocional para quem cuida da população.

A escuta psicanalítica pode construir um momento de introspecção, de recuo da linha de frente, ao gerar uma conversa, que pode dar expressão à angústia subjacente a toda essa circunstância. E se a impotência atual é de todos nós, quem sabe se dê uma cura a dois.

Saindo do campo da urgência a que esses profissionais estão submetidos sem cessar, de alguma maneira que se recupere a possibilidade de sustentar a estranheza e dar brechas a busca de sentidos. E que tudo isso acabe logo.

 

Referências bibliográficas:

Han, Byung-Chul. (2015). Sociedade do Cansaço. (Trad. Enio Paulo Giachini) Petrópolis, RJ: Vozes.

Byung-Chul Han. La emergencia viral y el mundo de mañana, (Publicado no El País 22 de março de 2020) in Sopa de Wuhan – Pensamento Contemporâneo em Tempos de Pandemia. P. 97-111.

http://tiempodecrisis.org/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf

Recuperado em 16 de abril de 2020.

Herrmann, F. Andaimes do Real: Psicanálise da crença. 1ªed. (2007). São Paulo, Casa do Psicólogo,

Downloaded From: https://jamanetwork.com/ on 04/12/2020

Understanding and Addressing Sources of Anxiety Among Health Care Professionals During the COVID-19 Pandemic

JAMA Published online April 7, 2020

Tait Shanafelt, Jonathan Ripp, Mickey Trockel

 

*Magda Guimarães Khouri é psicanalista, membro associado e diretora de Atendimento à Comunidade  da SBPSP. Organizadora com Bernardo Tanis do livro A Trama das Cidades, Ed. Casa do Psicólogo.

A Psicanálise em tempos difíceis

* Anne Lise Scappaticci

Temos vivenciado dias difíceis, ultimamente, nos quais nossa rotina mudou, sem pré-aviso. Perdemos nossos hábitos, algo que nos estruturava, nossa segurança, nossas referências estão desaparecendo. Visto que ao nosso redor o mundo inteiro está sem respostas, as autoridades vão tateando por tentativas, acerto e erro, a cada notícia provamos assombro, perplexidade. Inundados de informações permanecemos na obscuridade. O inimigo é invisível! O contexto que vivemos pode ser sentido como o nosso pior pesadelo. Diante de tanta angústia, vulnerabilidade, qual é a contribuição da psicanálise? O que os psicanalistas teriam a dizer?

A psicanálise não é um mero instrumento externo destinado a incrementar a capacidade de adaptação do indivíduo, como um aparato da psicologia comportamental. Mas, ao contrário, consiste no despertar de uma abertura, uma abertura para o psíquico promovendo um contato consigo mesmo, a psicanálise dentro de cada um. Este período é de tumulto, “too much”, assim, pelo excesso, pela violência, nossa condição humana de desamparo, solidão, dependência e incerteza é despertada. O temor de morrer, o entrar em contato com nossa finitude, é a “raspa de tacho” de nossa alma que está exposta, é tanta dor e frustração. É possível estar consigo mesmo? É possível acompanhar-se? Ter acesso à psicanálise dentro de nós mesmos?  Quando não é possível entrar em contato com estes sentimentos, com a experiência emocional, instala-se uma dinâmica psíquica de ameaça e persecutoriedade. A pessoa acaba evadindo-se, fugindo da própria existência, “des-existindo”…A dor é insuportável e assim, recorre às defesas que se interpõe à experiência de estar consigo mesma, a mente permanece paralisada, ocupada pela onipotência, arrogância, negação… Tomada pelo estado de guerra, as referências internas ficam perdidas…

“Fluctuat nec mergitur” é o mote de Paris que tanto encantou Freud, “Açoitado pela tempestade, mas não submerso”.  O psicanalista é uma pessoa real que, portanto, sente, sofre seus sentimentos. Nós, psicanalistas, assim como nossos pacientes tememos permanecer envoltos na turbulência tempestuosa das ansiedades primitivas que o sentir convoca diante da ameaça que estamos vivendo; afinal, na pandemia o real e o imaginário parecem que coincidem, algo assustador. “Não se espera que um oficial esteja inconsciente de uma situação aterrorizadora e perigosa; espera-se, no entanto, que ele seja capaz de continuar pensando caso se encontre em uma posição em que surja o pânico, o medo…” (Bion, 1979, p. 171). E, para isto, complementaria, é necessário que ele esteja em sua própria companhia.

Nesta pequena contribuição decidi minha escrita a partir do que sinto e então, do que consigo pensar: arrisco diante de algo inusitado para mim, para todos nós. Acho de fundamental importância para o psicanalista fazê-lo, visto os ataques que temos sofrido a nossa capacidade de pensar. É procurar expandir nossa solidariedade propiciando nesta conversa uma interlocução interna, única e preciosa para cada um. Afinal, o isolamento físico não precisa ser psíquico ou, como dizia meu primeiro analista, muitos anos atrás, a pior solidão é não estar acompanhado de si mesmo. Por outro lado, penso que nós, que tivemos o privilégio de ter tido contato mais profundo com a psicanálise, precisamos eticamente oferecer nosso depoimento exercendo nossa cidadania em tempos tão difíceis como este!

 

* Anne Lise Sandoval Silveira Scappaticci é psicanalista, membro Efetivo Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Doutora e Mestre em Psicologia Médica pelo Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). Psicóloga clínica formada pela PUC-SP e pela Università degli Studi La Sapienza di Roma. Terapeuta familiar pela Scuola Romana di Terapia familiare e Psicanalista Infantil pela Tavistock.

Precisamos estar mais próximos de nós mesmos

Luiz Tenório Oliveira Lima mantém, em sua mesinha de cabeceira, um tomo de (ou sobre) Sigmund Freud, o pai da psicanálise, outro do francês Marcel Proust e um terceiro do poeta inglês W. H. Auden – porque, para ele, “razão e emoção não são incompatíveis”. Nestes tempos de isolamento social forçado pelo coronavírus, ambas precisam se equilibrar. Psicanalista, médico psiquiatra, escritor, professor e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Tenório também pode ser visto na Casa do Saber – não neste momento de quarentena. Lá, ele já ministrou cursos a respeito de a razão e a emoção andarem juntas, para que as pessoas possam enfrentar o presente distópico, o futuro freudiano e… a melancolia, a doença da bile negra, segundo Hipócrates. O remédio para a sensação de vazio e de estar em busca de um tempo perdido? Manter uma rotina de cuidados com a mente (“Tom Jobim aguçava a imaginação lavando a louça”) e disciplina – “a mesma que muita gente tem quando faz exercícios por conta própria”, afirma.

Tenório defende que aqueles que estão em análise continuem por vias digitais, como o WhatsApp, por exemplo, com o qual vem atendendo seus pacientes. A histeria, em muitos casos, parece investir sobre pessoas menos conectadas às suas emoções. “Essa falta de conexão leva à sensação de onipotência, e quando uma pessoa assim se vê confrontada com a realidade de estar só, geralmente entra em pânico”.

Auden, o poeta, perguntou certa vez: “O que fará o homem capaz de assobiar na solidão?”. Pois o freudiano Luiz Tenório tem algumas respostas. Aqui vão trechos da entrevista.

Como combater a angústia que surge em momentos como este, forçados a uma quarentena e com medo do novo coronavírus?
Em um momento como este, as angústias são ativadas em todos nós. Angústias antigas, de desamparo, de medo, de medo da morte. Grande parte das pessoas têm algum tipo de convivência, de contato, com essas angústias. Mas muitas outras não têm. São pessoas cujas angústias estão postas de lado, como se fossem negadas, em nome, talvez, de um sentimento de que a pessoa é inexpugnável. Essas pessoas, sem treino com a própria angústia, quando se encontram em situações como atual, assumem uma proporção, às vezes, histérica, excessiva. Excessiva no sentido de que a pessoa não percebe que a fatalidade existe, e que as limitações podem existir de maneira inexorável.

Essas limitações desencadeiam um certo desequilíbrio entre razão e emoção?
A questão que precisa ser posta é que razão e emoção não precisam ser incompatíveis. Se a razão aceita as emoções, se aceita o coração, como se diz, então se estabelece um contato com essas emoções. Quando a razão não aceita a emoção, então, por trás dessa razão, se esconde um sentimento terrível, que é o da onipotência. Quando uma pessoa que se imagina onipotente se vê confrontando a realidade, ela geralmente entra em pânico.

As pessoas estão em pânico por estarem enclausuradas ao mesmo tempo que não conseguem prever o futuro ou não?
Uma explicação possível diz respeito a isso, sim. A pessoa não tem o devido treino com as próprias emoções. O que significa isso? Para usar uma linguagem comum, o treino com a emoção acontece quando a pessoa, todos os dias, entra em contato com essa emoção, com os seus sentimentos – para que a razão, isto é, todo o aspecto racional dessa pessoa, possa acolher esses sentimentos. O que vemos em momentos como este é que um grande número de pessoas não tem esse treino e acaba “perdendo” o sentimento de onipotência, de invulnerabilidade. E isso é muito crítico.

Por quê?
Porque a pessoa acaba ficando alheada de si mesma, que é o pior tipo de alheamento. Você pode ser alheio a tudo, mas não de si mesmo. Caso contrário, esse feixe de emoções que cada um carrega fica sujeito, em determinadas situações, ao pânico. Em uma situação como esta da covid-19, que é muito grave, pelas consequências econômicas e pessoais, desestabiliza as pessoas. Se você não tem dentro de si algo estável, fatalmente vai se desesperar.

Tem mantido seus pacientes com sessões virtuais?
Estou trabalhando com quase todos os meus clientes por WhatsApp, cada um na sua casa. E esse contato faz todo o sentido. As pessoas estão com medo. E, quando estamos com medo, esse contato é fundamental. Estar em contato garante uma espécie de consciência de si próprio.

Como o senhor encara o seu trabalho, quando atende pessoas incapazes de entrar em contato com as próprias emoções?
Infelizmente, isso ocorre com frequência, ou com mais frequência do que se imagina. Muitas pessoas dizem “mas eu sou analisado”, “eu fiz análise tantos anos”. Mas isso não significa que desenvolveram o contato com as emoções. Porque uma terapia pode contribuir para o restabelecimento de uma pessoa em situação de crise pessoal, por exemplo. Mas, dependendo do caso, isso pode até reforçar nela o sentimento de onipotência, a menos que continue na análise. Isso eu posso dizer pela minha experiência, pelo tempo de trabalho. Análise não é coisa fácil, requer disciplina, requer que a pessoa se comprometa a ir às sessões. E nem sempre ela quer ir.

Só funciona quando o cliente/paciente passa a gostar da terapia?
Quando ele percebe que seus esforços estão enriquecendo sua experiência, quando ele se interessa pela análise, passa a se interessar também pela própria mente. Por exemplo: neste momento de confinamento, de isolamento, uma pessoa que tem a capacidade de conviver com a própria mente tem muito mais ferramentas para se proteger.

É como o trabalho do personal trainer para as pessoas que querem entrar em forma?
Essa é uma analogia muito boa. O personal te ajuda, há contato seu com os movimentos e o dinamismo do seu corpo, a flexibilidade e tudo mais. Com a terapia é a mesma coisa. Corpo são é sempre bom, mas a mente precisa de muito mais cuidados do que o corpo.

Como encarar este momento de quarentena?
É tudo questão de disciplina. Funciona para o corpo e funciona para a mente. E ter as ferramentas mentais certas. Por exemplo, em uma das últimas entrevistas do Tom Jobim, na casa dele, um jornalista perguntou como era seu ritual para compor. Ele respondeu: “Olha, uma das coisas de que mais gosto é lavar louça. Quando preciso de ideias, vou para a pia da cozinha. Começo a lavar alguns pratos e a minha imaginação voa”. Ou seja, se a pessoa tem o recurso mental, se valoriza a própria mente, imediatamente ela vai ser criativa, vai ter devaneios, vai usar a imaginação. Isso é possível para qualquer um de nós, contanto que tenhamos essa condição. Lembro-me de que o jornalista ficou um pouco desapontado, porque esperava que o Tom respondesse com poesia. Mas não. Bastavam algumas bolhas de detergente.

O ferramental ajuda, não?
Principalmente para evitar a histeria, o pânico, que são frutos do sentimento de onipotência. Que também é uma sensação de desamparo. Essa palavra é perfeita. Todos somos desamparados quando nascemos, mas recebemos amparo dos nossos pais, da família, das pessoas em torno. Então, nossas angústias encontram acolhimento. Quando crescemos, o desamparo se torna bem maior, porque não tem mais pai, não tem mais mãe. Podem estar vivos, mas não estão mais lá para nos acolher, pois nossas questões se tornaram por demais pessoais, e acabamos nos sentindo sozinhos.

Daí a necessidade do treino da mente e da terapia?
É preciso aprender a aceitar a dor, a amar a dor. Caso contrário, você se torna vítima do desamparo. Porque você não suporta, você tende a achar que a dor lhe é imposta de fora, por uma circunstância, pelo vírus, por exemplo. Não é o vírus que impõe às pessoas a dor mental, essa dor está presente o tempo todo na nossa mente.  O vírus está deixando muita gente sem dormir, com medo do desemprego e da paralisação da economia.

O que é fundamental para o ser humano?
O sono. Aliás, hoje isso é consensual entre os próprios médicos: o sono é a base, porque é a partir do sono que se sonha, e o sonho tem uma função mental importantíssima para estabilizar a pessoa, ou seja, tem uma base química também.

A mídia tem ajudado as pessoas nesse período difícil?
Acho que sim. Tenho visto muitas entrevistas com infectologistas, epidemiologistas, gestores da área de saúde, psicólogos, todas muito boas. Porque há muita necessidade de informação e ela precisa chegar às pessoas com uma linguagem que seja inteligível.

As pessoas hoje, ante as redes sociais, estão mais distantes de si mesmas?
Cada vez mais distantes. E a questão é que todos nós precisamos (ou precisaríamos) estar mais próximos de nós mesmos. Toda tecnologia, com as redes sociais, distancia a pessoa dela mesma. E isso é muito ruim. Não tem a ver com egoísmo, mas com sanidade, proteção. Uma pessoa só se é capaz de enxergar a outra quando consegue enxergar a si mesma.

Foto: Casa do Saber

Psicanálise em tempos de coronavírus

* Dora Tognolli

  • The storm will pass … and… each one of us?

Torna-se bastante difícil escrever algo no auge da pandemia, no auge da semana em que novas práticas estão nos desafiando. Inexoravelmente, somos “bypassados” pela dinâmica dos fatos externos e de nossas próprias elaborações que não param de nos invadir, pelo bem e pelo mal, mesmo porque muitos pensamentos ativados pela situação traumática não acabam sendo boas companhias…

Nesse momento, tenho o privilégio de estar acompanhada de outros pensamentos, de psicanalistas, jornalistas, escritores, economistas, humoristas, cronistas, familiares, amigos frequentes e atuais, e os que retornaram das nuvens dos tempos em busca de contato. Minha reflexão não é só minha: fruto de uma colagem que está sendo útil, fazendo boa companhia.

  • Isolados…mas não sozinhos!

Curioso o nome que demos a essa temporada forjada pelo Covid-19: isolamento. Cada um no seu pedaço, comprometido em não disseminar a peste, não transmitir e nem ser alvo da transmissão, mas muito conectados, em uso pleno das modernas tecnologias de redes. Alguns de nós reconhecemos que estamos usufruindo bastante, dos dias calmos, da parada da desmesura e do excesso, das paisagens desertas e silentes. Tudo parou: será? Se alguém pudesse capturar o movimento das nuvens e ondas de transmissão, teríamos um espetáculo colorido e pulsante sobre nossas cabeças.

  • Fazer nada … não parece uma boa escolha…

Ficar em casa, sem sair, com todo o tempo para si… pode ser perigoso…Pode convocar o pecado da preguiça no seu sentido mais nefasto: cansaço psíquico, apatia, desinteresse… melancolia…Não estamos em férias, portanto, há trabalho. Não o trabalho na estreita acepção capitalista, atrelado à produtividade, grana, ambição, acúmulo, competição. O sentido freudiano de trabalho cabe bem aqui: trabalho do sonho; trabalho da memória: alude a um processo interno intangível, que põe em movimento o sistema psíquico, em conversa dentro, fora, consciente, inconsciente, presente, passado, fantasia, realidade, o eu e o outro. Momento de uso criativo de ferramentas que estavam adormecidas em nós, muitas vezes, massacradas pela visão estreita de trabalho que nos acompanha. Convite a cozinhar, ler, arrumar a casa, dialogar, contar estórias, exercitar os músculos, tocar piano, aprender um idioma online, atender pacientes etc.

  • Não estamos em tempos normais… estamos em regime de exceção…

Sim: exceção tem parentesco com trauma, com estímulos de magnitude e tempo de existência incomensuráveis. Racionalmente, ok: somos obedientes, marcados por solidariedade e cidadania, mas essa insegurança deixa restos enigmáticos, que não entram na corrente de ideias e se manifestam de formas insidiosas. Angústia, sim: muita angústia. Angústia que busca expressão, vira medo: medo de falir, de deprimir, de não ter comida em casa, de perder nossos pacientes, de contaminar os mais idosos de nossas famílias, do Bolsonaro, dos generais, do Trump, do Posto Ypiranga, do desgoverno, anterior ao vírus…

Desamparo. Ódio. Depressão. Juntos e amalgamados. Com certa dose de esperança e calma, não podemos esquecer…

Nesse momento, parece que a solidão não é uma boa companhia: pode chegar com seus polos de onipotência (Não conto com ninguém! Nem preciso!) ou de impotência, em que o desamparo dá sinal de vida. Em conjunto, em comunhão, parece que unimos nossos conhecimentos dispersos e fragmentados, e que podem propiciar uma organização social, ares civilizatórios diante do caráter implacável da natureza: agora do vírus e de certos representantes do poder que não participam desse possível refúgio civilizatório.

O filme “Melancolia”, de Lars von Trier, é aqui lembrado: curiosamente, o personagem mais racional, mais informado, o geômetra, diante do caos, sucumbe: acaba se suicidando, deixando a fortaleza segura onde vivia com sua família. Nosso lado onírico, mais louco e caótico, pode nos fazer bem, num momento onde os instrumentos tradicionais de controle falham…

  • Esquecer/ neutralizar a ignorância e o obscurantismo

Em se tratando de Brasil, além do vírus, nosso outro inimigo está encalacrado no Governo, na figura do Presidente, que nos apresenta outra classe de vírus, cujos sintomas são o obscurantismo, o ódio, o desrespeito, a irresponsabilidade. Parece que estamos sendo criativos, na medida do possível, e coletivamente, manifestando nas varandas, nos panelaços, nossa desobediência e protesto diante de uma figura que não merece nosso respeito. Vamos continuar nossos levantes, contando que outros representantes políticos ignorem cada vez mais este ser abjeto, derretendo seu lugar e decretando simbolicamente sua inexistência. Onipotente, essa ideia, mas esperançosa: levantes são assim…

  • Ao trabalho

Muitos de nós precisamos trabalhar, queremos trabalhar, em todos os sentidos, e estão pedindo nosso trabalho. Em outros moldes, outro setting, outra dinâmica. E agora, José? Mais uma vez, estamos sendo convidados a nos reinventar e permanecer com nossas ferramentas ativas. Por todas as questões anteriores, nossa profissão tem utilidade pública, nossa conversa acessa os mais recônditos lugares de desamparo e angústia. Muitos colegas já trabalhavam em modo virtual, e sua experiência pode nos ajudar a repensar as práticas. Porém, este momento tem um ar especial, porque não se trata de escolha, mas a única forma de não paralisar o trabalho das análises. Hoje, na cidade de São Paulo, o Estádio do Pacaembu, bem como o Parque Anhembi estão se transformando em “hospitais de campanha”, metáfora interessante, onde as condições ideais não podem estar presentes, mas a iniciativa garante que médicos trabalhem e pacientes sejam atendidos, num espaço de acolhimento, ética e respeito.

As instituições possuem protocolos e normas que pautam os ofícios. No caso da nossa Instituição, é a IPA que rege essas normas, às quais estamos todos submetidos. Mas, por se tratar de um momento de exceção, a manutenção da prática, a meu ver, deverá ser propiciada por uma conversa em tempo real entre profissionais e órgãos reguladores. O analista experiente, numa época de exceção, talvez não seja apenas o mais velho, mais titulado e reconhecido: esse também precisará dialogar com seus pares, na tentativa de manter o atendimento sem prejuízos do ponto de vista da ética e da confiabilidade.

Além do método psicanalítico (livre associação – atenção flutuante, que depende de dois na sala, física ou virtual), ferramenta que aprendemos a cultivar e aperfeiçoar, o momento nos convida a pensar com cuidado nos dispositivos de segurança que precisaremos usar, e também que nossos pacientes utilizarão.

Estas semanas serão um grande laboratório para todos nós, em que definiremos os horários, as plataformas (Skype, WhatsApp – voz apenas, ou imagem e voz, Zoom, Hangouts, telefone celular ou comum) e se há resistências intransponíveis de certos pacientes, e de certos analistas, diante desse novo setting virtual.

  • Tem adulto na sala…

Gostaria de compartilhar algumas experiências bem recentes: quando meu consultório se transformou em virtual, uma vez que encerrei os atendimentos presenciais no dia 18 de março, experimentei um enorme cansaço, após um dia de trabalho virtual, em modalidades variadas: voz, imagem, ambas, troca durante o atendimento por falha na transmissão. Algumas questões surgiram: a necessidade de espaçar mais os horários e flexibilizar opções para pacientes que estão em casa como eu. Alguns, com dificuldades enormes em manter um espaço privado, em função de suas pequenas moradias, e presença da família o tempo todo em conjunto. Eis aí uma questão operacional, nem tão difícil de resolver, que merece tempo e atenção.

A outra questão diz respeito ao momento em si, traumático e assustador para os dois: paciente e analista. Notei que foi um tanto quanto difícil sair do tema da pandemia, e possibilitar o estranhamento necessário ao encontro analítico, acessando os lados mais enigmáticos do paciente. Na pandemia, nos irmanamos, nos solidarizamos, nos familiarizamos com o paciente, e assim, ficamos mais distantes do dispositivo do método. Enredados nas conversas que ambos ouvimos, ficamos duas crianças na sala, desamparadas, em busca de um adulto, não necessariamente o “sujeito suposto saber”, mas aquele que acompanha a longa jornada ao mundo interno, que muitas vezes não tem as respostas nem as certezas, mas propicia a viagem.

Outra experiência significativa foi o apoio em redes de colegas, em reuniões virtuais, onde pudemos falar da experiência recente, numa espécie de supervisão horizontal, colocar nossas angústias num espaço ético e colaborativo.

A conversa continua, a pulsão não sossega, exige trabalho…

Dora Tognolli é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Quando tudo isso passar, vai precisar de um outro carnaval!

Mariangela O. Kamnitzer Bracco

Com essa frase bem humorada Alice se despediu de mim. Durante a sessão havíamos combinado de começar nossa quarentena analítica e prosseguir, se possível, online. Uma experiência nova para nossa dupla antiga. O tom alegre da despedida me animou, e me senti cheia de boas perspectivas; não só para o prosseguimento dessa análise, como também para os dias vindouros, que até então me pareciam totalmente sinistros e sombrios.

A necessidade de recolhimento exigida pelo coronavírus implicou em inúmeras mudanças em um ano que já começava a tomar ritmo. E assim, semana passada, vi-me despedindo também de outros pacientes, de colegas de seminário, de grupos de trabalho, de familiares e amigos. E, last but not least, do meu analista. Ainda que o mundo virtual acenasse promissor, tudo aconteceu de forma rápida e avassaladora. E essa, penso ser a crueldade desse vírus; a velocidade e a forma insidiosa com que se espalha e que não dá tempo. Tempo para que os doentes sejam tratados e não se acumulem nos hospitais. Tempo, essa matéria prima fundamental no trabalho psíquico.

Nessa semana caótica, terminei uma sessão dizendo para meu analista: sem surto e sem surtar. E esse seria o mantra a ser entoado. Outra medida protetiva foi refugiar em meu narcisismo e me acalmar pensando que não pertencia ao grupo de risco. Mas vi em mim, em meus pacientes e em todos ao meu redor, fortes angústias emergirem. Angústias despertadas pelos ameaçadores fatos recentes que, de alguma forma, reavivavam angústias passadas, da história pessoal e coletiva.

Assolada por meus fantasmas persecutórios, recorri aos diários de Helene Lilly, minha avó judia-alemã.  Em 1938, morando em São Luís do Maranhão, ela escreveu com muita precisão e perspicácia sobre a crescente brutalidade dos nazistas, que tanto sofrimento infligiram também a nossa família. Depois dessa leitura, e, inspirada em Helene, desejei uma serenidade lúcida e decretei: não, não se trata de uma terceira guerra mundial – o vírus com todas mazelas sociais que promete acarretar, não vai ser tão devastador. Mas, metáforas de guerra, de hecatombes, de zumbis vagando pelas ruas povoavam o imaginário. Bruno Profeta, nosso colega, desabafou no grupo de WhatsApp da DC: “só rindo pra aguentar esse clima de mistura entre o Ensaio sobre a Cegueira e The Walking Dead…” Sim, o humor poderia ser um precioso aliado.

Minha angústia depressiva se manifestou quando corajosamente decidi sair do meu bunker para resgatar no consultório minhas plantas, alguns livros e o álcool gel que, no movimento de fuga, haviam ficado para trás. O prédio vazio, com apenas dois carros na garagem, me encheu de tristeza, não vi ninguém. Tudo muito unheimlich! Voltando para casa me senti mais aliviada, pois havia vida e uma família reorganizando sua rotina, com novos tempos, novos espaços.

Assim, com a ajuda da análise pessoal, com a confiança de ser neta de Helene, e no compartilhamento com os colegas e amigos, fui acalmando minhas angústias e tecendo uma narrativa para esse acontecimento inédito, chamado por muitos de peste. Outro ponto de apoio fundamental tem sido as supervisões com Sandra Schaffa, onde vemos que não bastam os cuidados sanitários, pois o vírus insidioso também pode vir de dentro. Fortalecida, penso estar trabalhando com muita disposição e desenvoltura no meu novo consultório/casa-online.

Hoje, Alice compareceu a sua segunda sessão nesse novo ambiente. Bastante alegre contou que ontem arriscou fazer um passeio e, na padaria, encontrou um andarilho que já havia visto algumas vezes antes. Ele se vestia de boiadeiro, com chapéu de cowboy e tudo. Ficou intrigada, quis conversar com ele, mas limitou-se a observar. Ele recebeu o pingado e o pão na chapa que pedira ao dono do estabelecimento. É uma figura popular, muito querida. Conversamos sobre a liberdade desse homem de vaguear e viver seu personagem sem constrangimento, numa cidade asfaltada e sem boiadas.  Alice que gosta de escrever e escreve lindamente, pensa deixar o emprego na empresa da família e lançar-se como escritora. Falamos sobre sua liberdade de escrever, de ser como esse andarilho muito bem acolhido pelo seu entorno. Mas, ao contrário dele, verteria suas fantasias em personagens e enredos a serem compartilhados.

Na sequência, Alice falou com apreensão de seus pais que ainda estão nos Estados Unidos, e com dificuldade de retornar ao Brasil. O seguro-saúde deles não cobre pandemias e a volta possível, requer um pernoite em Nova Iorque, hoje, a cidade-epicentro da doença, cujo sistema de saúde ameaça colapsar. A alternativa seria permanecer na cidade onde estão, na casa de uma irmã da igreja – mas aí havia o desconforto de ficar um longo tempo em casa alheia. Bela metáfora, e lhe digo minha percepção do seu impasse, entre ficar abrigada e protegida num lugar que não é seu (a empresa) ou voltar para o território em que se reconhece e se sente confortável: a escrita.  Contudo teria que passar por uma zona de risco, para a qual não havia proteção (cobertura do plano de saúde). Toda essa conversa se deu num contexto de muita soltura e mobilidade, dela e minha, no divã online. Penso que Alice já fez sua escolha. Agora é aguardar.

O que posso afirmar é que eu fiz a minha: sair da zona de conforto, abandonar o terreno dos grandes autores e publicar esse texto muito intimista. Quanto risco !

Antes de encerrar, relato aqui parte da conversa fluida e alegre que ocorreu via WhatsApp por ocasião da interrupção do seminário de Lacan. Havia pedido ao nosso colega e poeta Ricardo Biz, que nos enviasse um poema inspirador para os dias que se seguiriam. E, após algum tempo, ele respondeu: “Aceitei o desafio. Aí vai:”

O Agora é um alambrado

Que aprisiona meu vento,

Um vento nunca rumado,

Sem fim e sem nascimento.

Marilsa Taffarel, nossa querida coordenadora, que habilmente nos conduz por meio dos instigantes labirintos de Lacan, reagiu: “Ricardo, inspiração à prova de coronavírus!” E sem perder o gingado lacaniano acrescentou: “Bons tempos em que corona era uma marca de chuveiro! Lembra?”.  Ymara Victolo, por sua vez, concluiu: “Boa, Ricardo! Não aprisionou a liberdade de criar e pensar!”

Eu termino meu texto, desejando que esse período de recolhimento seja de muita libidinização e vitalidade. As próximas semanas serão muito duras. Precisamos reforçar nossa imunidade com fortes laços coletivos para resistir.  Resistir, não só ao vírus, mas também a toda uma politica ensandecida que não valoriza a vida humana. É hora de convocarmos Eros e realizar um pacto civilizatório, onde prevaleça a justiça e a fraternidade. Agora, juntos, cantemos o refrão: “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte!”

Quero citar as outras colegas que compõem o precioso grupo de Lacan: Alice Paes de Arruda Barros, Ana Maria Rosenzvaig, Fernanda C. S. Colonnese e Maria da Penha Lanzoni. Quero expressar também minha gratidão para a Ana Maria, que foi generosa interlocutora na realização desse texto. Sem seu incentivo, eu não o teria escrito.

 

* Mariangela O. Kamnitzer Bracco é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

Caros Membros da SBPSP e Membros Filiados ao Instituto

Estamos vivendo um momento pleno de incertezas e inseguranças em múltiplos aspectos de nossas vidas. As medidas práticas tomadas por governos, estados, autoridades embora importantes e necessárias atendem a uma parte das demandas necessárias para conter a vertiginosa velocidade de contágio da pandemia que nos assola.

Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas. Estamos acompanhando de perto o esforço dos colegas analistas e também dos analisandos no Brasil e no mundo, para manter as condições de escuta e de trabalho psicanalítico nas condições que a cada um lhe é possível.

O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico. Acredito que todos nós estamos cientes da importância de estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance.

Reconhecemos que em momentos como estes surgem dúvidas e inseguranças no modo de conduzir nossa tarefa analítica. Muitos nunca praticaram análises remotas, outros se interrogam sobre a possibilidade e dificuldade do trabalho com crianças nestas condições as perguntas são muitas.

Todos nós temos colegas e amigos analistas com quem podemos compartilhar as experiências, intercambiar ideias, manter um diálogo sincero e exercer um pensamento analítico vivo. O importante é que estejamos unidos como grupo e instituição, embora isolados fisicamente, de modo algum o estamos emocionalmente.

A solidariedade entre todos e para com o conjunto da sociedade são fundamentais para enfrentar o sofrimento psíquico, físico e econômico ao qual estamos todos sujeitos.

Um afetuoso e solidário abraço a todos,

 

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pandemia do coronavírus, epidemia de pânico e a evolução da humanidade

Observatório Psicanalítico – 150/2020  

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*José Martins Canelas Neto

 

A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é de saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição. (Sigmund Freud, O mal-estar na civilização, 1930)

​Vivemos uma epidemia de pânico desencadeada pela grave pandemia do coronavírus. Diante da angústia de morte e das incertezas quanto à doença, o pânico aparece entre as pessoas e as reações são as mais variadas. Uma delas é a negação do problema. Vemos isso em todos os países, nos quais as pessoas minimizam o problema e não tomam os cuidados recomendados pelos especialistas e pelos sistemas de saúde, frequentando lugares com aglomeração de pessoas como bares, restaurantes, cinemas, shows, manifestações públicas, etc. De forma semelhante vemos reações de rebeldia, violência, segregação de pessoas que poderiam estar infectadas.

Já entramos numa crise mundial desencadeada por essa pandemia que apesar disso, paradoxalmente, pode nos ajudar a pensar e, quem sabe, começar a mudar nossa visão sobre esse mundo em que vivemos hoje.

Atravessamos um momento histórico sombrio da humanidade, no qual certas políticas e ideologias discriminatórias estão em ascensão; o conhecimento e a ciência são atacados, mesmo após as importantes lições que outras epidemias, o holocausto e outros genocídios nos deram.

Esse quadro é particularmente grave no Brasil onde observamos uma enorme regressão no que concerne nossa consideração e reconhecimento do outro como nosso semelhante, manifestações violentas, desqualificativas e de descaso e ódio em relação aos mais desfavorecidos e àqueles diferentes de nós.

Agora fica claro o que Freud já mostrou quando, a partir de 1920, no pós-Primeira Guerra Mundial, reformulou sua teoria das pulsões, introduzindo o novo dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. No texto Psicologia das massas e análise do Ego, e em outros textos, nos mostrou o quanto o ser humano tem nele, em seu âmago mais profundo, a possibilidade de destruição de si mesmo e dos seus semelhantes.

Todos nós estamos sendo forçados a aprender que só sobreviveremos enquanto espécie se realmente levarmos em consideração o outro. Não só o outro ser humano, mas os outros seres vivos e nossa mãe Terra. A ganância e o egoísmo, fomentados pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, estão nos levando para a real possibilidade de destruição de nosso planeta e de nossa espécie.

Quando vemos no Brasil e em vários países as pessoas apresentando um comportamento, estimulado pelo pânico da morte, de completa desconsideração pelo ser humano próximo, enchendo os carrinhos nos supermercados de maneira irracional, tentando a todo custo levar vantagem sobre os outros, ficamos tristes e muito preocupados com o nosso futuro enquanto espécie. Mas talvez essa pandemia nos propicie indiretamente a oportunidade de refletir com nosso coração e exercer nossa capacidade de amar a vida e respeitar cada ser vivo.

A ameaça à vida pela pandemia não faz distinções de classe, de cor, de gênero, enfim das singularidades de cada um. Todos estamos ameaçados. Mesmo as classes mais favorecidas, num piscar de olhos, poderão se tornar discriminadas, por exemplo se não houver mais leitos de UTI nos melhores hospitais privados. De nada adianta estocar papel higiênico se o sistema de saúde não conseguir dar conta do atendimento das pessoas que necessitarem, sejam elas ricas ou pobres, homens ou mulheres, qualquer que seja seu gênero, cor ou outra singularidade.

Nossa sociedade baseada no individualismo, no lucro desenfreado, no consumismo sem limites, por vezes de produtos extremamente fúteis, essa sociedade será obrigada a ver que a natureza é mais forte, que um simples ser vivo como um vírus pode acabar com nossas vidas rapidamente. Esse é o momento em que será preciso mais do que nunca desenvolver nosso senso do coletivo, nossa solidariedade e nossa civilidade. Cada vida é um milagre precioso e deveríamos honrá-la e ter responsabilidade e respeito com ela.

No mundo atual, no qual a tecnologia nos permite conseguir tantos progressos, passamos mais tempo nos celulares, mergulhados em nosso universo narcísico individual, do que no cuidado com o outro, com o afeto e o amor pelo ser humano próximo.

Precisamos refletir como dispomos de nosso tempo. Que escolhas fazemos para usufruir de nossa vida. Paradoxalmente agora, com essa pandemia, só poderemos nos relacionar pelos meios virtuais. A necessidade premente do isolamento social vai nos mostrar, assim espero, o quanto o outro humano é importante. Será que conseguiremos aprender a fundamental lição de que o respeito e a responsabilidade pelos outros são essenciais para nosso futuro e o do planeta?

Espero que sim! Mas nada é certo. Estamos em um momento de profunda incerteza e precisamos aprender a lidar com ela. É preciso respirar profundamente e acolher uma nova maneira de pensar e ser criativo diante dessas limitações cotidianas que nos estão sendo impostas, podendo transformar então nossa organização da vida e das relações. O vírus nos mata pela impossibilidade de respirar, mas também pela nossa dificuldade de enxergar o outro em sua semelhança e humanidade, nos tornando irracionais e propagadores da morte. É o momento de nos elevarmos enquanto seres de luz e razão e não sucumbirmos ao que há de mais baixo em nós!

O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé. […] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (Elias Canetti, Massa e poder, 1960)

 

*José Martins Canelas Neto é psicanalista; membro e secretário geral da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.