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AURORA

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS –

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. 

Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

 Luís Filipe Parrado

 

AURORA

Helena Cunha Di Ciero Mourão

Outro dia mesmo era eu sentada no chão do aeroporto jogando truco, pensei, quando encontrei um bando de adolescentes sentados numa típica viagem escolar, nem aí para a hora do Brasil, na calçada com seus telefones celulares tocando música sertaneja. Sorrindo com leveza, zombando uns dos outros, coloridos pelo viço, pelas tatuagens. “Ei, espere, já fui uma de vocês” – tive vontade de dizer para aquela plateia nada interessada naquela mãe de duas crianças que faziam birra na calçada, exaustas pelas horas de voo. Essa sou eu, constatei.

Foi assim, de repente, que cresci e virei gente grande. Ali no espelho, eu olhei e deixei de ver a adolescente que um dia eu fui. Na verdade, hoje até estranho essa moça que eu vejo nas fotos tão cheia de sonhos, que achava que a vida com ela seria mais doce, menos dura, mais generosa. Tinha algo em mim que achava que a adolescente em mim duraria para sempre, tal qual metal precioso. E tentei mumificar esse ser que um dia eu fui por um tempo, confesso com certo embaraço. Até que, num dado momento, foi preciso fazer uma despedida e assumir que a adulta agora me possuía mais do que nunca. Não foi de propósito; a aurora da minha vida passou e foi embora sem se despedir. Com o final dessa primavera começou a vida de adulto, sem pedir permissão.

É assim que se dá o crescimento; a gente se adapta finalmente a uma situação e ela acaba. E as rugas mapeiam esse anúncio sem dó nem piedade. O tempo se impõe, simplesmente.

Fácil verbalizar isso após os trinta, com quilômetros rodados. Mas há uma tristeza nesse discurso, um luto, uma dor e uma perda. Pois bem, para um adolescente, a mesma sensação se presentifica. O momento é outro, mas é também marcado por uma transformação. Contudo, falta repertório, palavras, sobram angústias e sensações.

A adolescência é a passagem do mundo infantil para o adulto, uma ponte, uma travessia. Tudo isso envolve uma adaptação, e toda adaptação é precedida por uma crise. Aquele corpo de criança se vê invadido por pelos, espinhas, partes que crescem desgovernadamente, uma voz que desafina, hormônios que não existiam. Esses novos habitantes daquele espaço tão gracioso do corpo infantil não chegam de forma harmônica.

Esse processo é marcado por uma sensação de estranhamento, de não pertencimento. Já diziam os Titãs: “Eu não caibo mais na roupa que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria, mas quando me olhei achei tão estranho, a minha barba estava desse tamanho.”

Há ao mesmo tempo uma excitação com a conquista de mais autonomia e também tristeza pelas cobranças do mundo da maturidade. Além da dor da perda do lugar privilegiado da criança.

Os pais, que antes eram um lugar de proteção, tornam-se figuras persecutórias por tentarem colocar limites nas realizações de desejos do jovem. O que traz a estrofe de outra canção: “Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer “.

Nesse período da vida há um luto das figuras parentais idealizadas. Logo, o lugar de herói fica desocupado e por isso, há uma busca por ídolos e novos modelos de identificação. O jovem está desesperado em busca de formar essa nova identidade.

David Leviski (1998) destaca que embora fisicamente o adolescente esteja apto a exercer suas funções, ainda encontra-se diante de forças da cultura e da sociedade e do risco que existem ante os desejos de plena liberação e desenvolvimento dessas funções.

Calligaris,C. (2000) adiciona que apesar da maturação dos corpos a autonomia reverenciada, idealizada por todos como valor supremo, é reprimida, deixada para mais tarde.

É como se tornassem estrangeiros num mundo que sempre lhe foi familiar. Por isso as amizades nessa fase são tão importantes, constroem um muro para proteger aquele Ego frágil em transformação.

Costumo dizer que são como Ferraris com motor de Brasília amarela. Lataria linda, mas o interior precisa de cuidados. O corpo de adulto e a mente infantil são parte de um mesmo indivíduo. E essa mente não é capaz de conter aquele novo corpo em desenvolvimento, numa ardência pulsional. Na crise da adolescência, há uma sexualidade aflorando descontroladamente e torna-se difícil lidar com seus impulsos.

De acordo com o psicanalista Marcelo Viñar (2005) a juventude não pode ser definida como realidade cronológica, e sim como um tempo de mutação que marca um antes e um depois. Isso pois a essência da adolescência é o ímpeto, o movimento. Como se captura o vento ou o fogo quando sua marca é a instabilidade?

Atendo adolescentes há alguns anos no consultório e me sinto bastante privilegiada por receber esses pacientes no momento em que a dança da vida se apresenta para eles. Recebo-os como quem recebe botões de rosa fechados, cheios de esperança, ao mesmo tempo frágeis e cheio de espinhos. E procuro dar-lhes algum contorno. Não é um trabalho fácil, ajudá-los nessa transição. Explicar-lhes que a vida é mesmo contraditória. Que os amores acabam. Falar-lhes sobre leis num país onde elas são constantemente desrespeitadas. Explicar-lhes sobre autoimagem numa cultura de Photoshop. Ajudá-los a compreender que esse corpo que pulsa não pode fazer exatamente aquilo que deseja a despeito de sua intensidade.

Contudo, acredito que um jovem, quando acolhido e compreendido nesse transbordamento emocional, nos sinaliza um futuro mais colorido e cheio de esperança.

Trabalhar com esses pacientes que vêm com a marca da pressa, da urgência, do efêmero do nosso tempo atual pode ser rejuvenescedor. Convidá-los a um momento de pausa e reflexão é quase um ato revolucionário. Pois perceber também o quanto essa geração chegando se alimenta de relações qualitativas, basta haver uma intenção, me faz acreditar num horizonte mais azul. Sim, eles assistem lixo na internet, mas também são capazes de se encantar com um belo poema, um bom filme, quando convidados. Basta estender-lhes a mão nessa passagem.

Devemos ser cuidadosos, como adultos, para continuarmos investindo nos adolescentes, não com um olhar invejoso do jovem que deixamos de ser. É importante dar credibilidade aos sentimentos dos jovens, tentar compreender suas dores e angústias. Oferecer um amparo nesse momento de tempestade. Essa é a aposta esperançosa.

O aumento dos suicídios na adolescência nos denuncia um vazio. Que vazio é esse? Seria o vazio do nosso olhar? Como adultos? Será que estamos preocupados com o legado que estamos deixando para os jovens, em acolher esses seres em transformação?

Ou será que estamos tão preocupados em perpetuar nossa juventude que nos esquecemos de cuidar de nossos jovens? Será que, ao nos conformarmos com nosso lugar de envelhecimento, não podemos lhes oferecer a proteção que necessitam?

Pensa na força dessa corrente.

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão percebeu, no fim da escrita, que fez uma escolha quase sem querer de canções para ilustrar o texto. Renato Russo e Titãs não vieram aleatoriamente, vieram lembrar minha adolescência.

 

Calligaris, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000

Levisky, David Léo Adolescência : reflexões psicanalíticas / David Léo Levisky. – 4. ed. – São Paulo : Zagodoni, 2013.

Vinar . M  (2005)La Juventud en el Mundo de Hoy. Ser Sujeto Adolescente en el tercer milenio. Abril 2005. Soc. Brasilera de Psicología de Sao Paulo.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, especialista em Psicologia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).

 

À flor da pele

Andreza Miranda

Em 24 de junho, assisti a um evento na Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP) intitulado “Diálogo e Humanidades: o autoritarismo e a História do Brasil”. Eventos como esse são verdadeiras provas de resistência para mim: uma mulher negra de origem humilde e que, por um conjunto de fatores e de circunstâncias, surpreendentemente, encontra-se agora neste auditório, na Vila Olímpia.

Há um incômodo que me transporta ao “deslugar“, me sinto “morena”, da mesma forma que ocorria em situações sociais não muito remotas, nas quais pessoas próximas e queridas tentavam suavizar meu tom de pele, gravemente escuro. E assim me angustio: estar aqui seria uma traição aos meus irmãos e ancestrais?

Sinto asco da “coisa preta” que, desde sempre, é branca. E da mulata que pegou um cabo de vassoura e dançou com ou para Juscelino, pouco importam os detalhes do fato, diante da “mulata”, biologicamente estéril, mas sensualíssima. Há muito por dizer, mas sofro repentinamente de uma mudez; a mudez de uma intrusa bem-vinda e que empalidece como uma “camaleoa”

Sofrendo da escuridão à flor da pele, revivendo o trauma ancestral nas palavras do estereotipado narrador, que historicamente oprime, que renarrando herculeamente tenta remover maquiagens branqueadoras – atenuantes – ainda que de forma atabalhoada num ideal antirracista.

Minha sensação é espantosamente a mesma da qual me contam meus parentes sobre lugares que outrora não podiam entrar. Me lembro que sempre protestei com o argumento questionador: “Onde isto estava escrito?”. Agora, entendo que não precisa estar escrito, basta estar sentido.

Eu tropeço em mim mesma quando faço o teste do pescoço e penso em mim construída neste projeto de embranquecimento sumário e genocida. O teste do pescoço é o desolador giro da cabeça para o lado esquerdo e para o direito, no qual você pode comprovar em tempo real a solidão e o desamparo, quando se trata de inclusão racial no Brasil.

Como desconstruir, a partir de tudo o que nos constrói: a pureza do branco, a sujeira escura, o crespo duro e ruim, o liso ideal e bom… discursos constitutivos e resistentes sempre a serviço das pessoas de bem que dominam as belas palavras e que contam a História.

Apesar de me ver no assunto não me sinto totalmente nele. Por instantes sou fragmentos coloridos, disfarces e represento uma falsa ilusão de inclusão. Questiono-me: afinal, de que adianta estar neste lugar de escuta saturada de sentimentos que temem vir à luz?

Mas, ao mesmo tempo, há o alívio de poder divergir, convergindo para o lugar onde sorrateiramente e indulgentemente me conduzem e com o qual não deixo de me identificar, extermínio e enclausuramento.

Somos parte de um mesmo todo, somos capturados pelas mesmas armadilhas da linguagem e das boas maneiras trazidas da mais tenra idade, desde a “lista negra” à “carta branca”, passando pela “mulatice etmologicamente infértil”, até a “alvura virginal”.

E, na vã e inglória tentativa de descobrir de qual lugar devo falar e de que ausência de lugar é essa que parto, sigo e me dou conta de que é preciso respirar e decifrar a estranheza como aquela de quando, pela primeira vez, me descobri e tenho me dito negra.

 

Andreza Miranda é estudante de Psicologia

Um necessário diálogo entre a Psicanálise e as Ciências Humanas

AMF – Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” (George Santayana, The Life foi Reason, 1905)

 

Diante dos recentes discursos de ataques às ciências humanas em nosso país, e suas possíveis consequências, a Associação dos Membros Filiados (AMF) ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), decidiu promover um ciclo de encontros entre a Psicanálise e as Humanidades.

O primeiro diálogo proposto foi entre a Psicanálise e a História, em torno do tema “O Autoritarismo no Brasil”. Recebemos como convidadas a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, da Universidade de São Paulo (USP), e a psicanalista Noemi Moritz Kon, do Instituto Sedes Sapientiae, numa conversa mediada por Flávia Steuer, fonoaudióloga e psicanalista, membro filiado ao Instituto de Psicanálise da SBPSP e do departamento de Psicanálise do Sedes. A escolha destas convidadas, oriundas de diferentes instituições, foi intencional e marca o desejo de que este diálogo abra as fronteiras entre as instituições, a fim de que possamos conversar e nos envolver em uma mobilização conjunta.

Em clima de conversa, Lilia nos trouxe um apanhado de seu recente livro, “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das letras, São Paulo, 2019), e nos apresentou o conceito de “democradura”, para designar um fenômeno em expansão no Brasil e em outros países do mundo, em que as instituições democráticas se vêem ameaçadas.

Nas “democraduras”, o adversário político é transformado em um inimigo a ser combatido, diferentemente do que se espera nas democracias, de fato, onde os adversários são importantes e, jogar com as diferenças, é fundamental para o fortalecimento da democracia. Afinal, numa democracia plena não se espera que as diferenças desapareçam, muito pelo contrário, seu bom funcionamento depende do diálogo e da convivência entre os diferentes.

Lilia fez também uma retomada histórica da constituição do povo brasileiro e do papel da escravidão em nossa cultura. Mostrou como o modelo escravocrata, de domínio e de submissão, preconceituoso e intolerante ao diferente, está presente até hoje e enraizado em nossa cultura, embora durante muito tempo tenhamos nos acreditado um povo tolerante, pacífico e pouco preconceituoso.

Em uma pesquisa realizada na USP, na década de 90, pessoas foram questionadas se elas se consideravam preconceituosas e 99% dos entrevistados responderam que não. A seguir, perguntou-se se conheciam alguém preconceituoso e 97% disseram que sim, e reconheceram pessoas próximas de si como preconceituosas (familiares, amigos, vizinhos). Este é um dado espantoso e revelador de como o brasileiro se sente “uma ilha de democracia cercada de preconceituosos por todos os lados”, como citado por Lilia.

Nas últimas eleições, a intensa polarização se mostrou no jogo do “nós contra eles”, deixando explícita a intolerância de todas as formas, como podemos verificar pelo aumento da violência e da discriminação por cor, raça, gênero e religião. No entanto, este não é um fenômeno recente, mas algo que se repete na história de um país que foi fundado em bases escravocratas e de intensa desigualdade social, de oportunidades e de acesso a educação, saúde, moradia, entre outras.

Noemi entrou na conversa para introduzir em que medida a Psicanálise dialoga com a cultura e com a história do Brasil, e como poderia contribuir para o entendimento e o enfrentamento das intolerâncias em nossa sociedade. A Psicanálise, tanto na clínica quanto na instituição psicanalítica, nos permite revelações. Em nossas clínicas, vemos os efeitos que a história e os acontecimentos sociais do país provocam em cada sujeito, e consequentemente, em nossa cultura. O psicanalista, além de sujeito da própria cultura, tem um papel fundamental de testemunho das marcas que estes acontecimentos deixam no psiquismo de cada um e da coletividade.

A cultura nos veste como uma segunda pele, complementa Lilia, de modo que não a vemos mais, e assim não a percebemos. É papel das ciências humanas em nos auxiliar para iluminá-la.

Em nível institucional, Noemi compartilha que uma aluna do Instituto Sedes Sapientiae denunciou uma fala  racista, durante uma aula, revelando algo que antes estava invisível, e permitindo a abertura de um espaço de reflexão e de produção de conhecimento. A abertura desta escuta levou à formação de um grupo de psicanalistas atentos à questão racial, e à publicação do livro “Racismo e o Negro no Brasil. Questões para a Psicanálise” (Perspectiva, São Paulo, 2017).

Como na aula citada por Noemi, certamente nos deparamos, diariamente, com manifestações preconceituosas, na vida pública e na vida privada. Por vezes, percebemos incomodados que essas manifestações são nossas, como muito ilustrou a conversa com o público presente neste evento, majoritariamente branco. A SBPSP, teve como uma de suas pioneiras Virgínia Leone Bicudo, mulher, socióloga e negra, mas é uma instituição marcada por predominante presença de brancos, com maior poder econômico. O que mais uma vez revela a cultura de nosso país, onde o conhecimento e as instituições de formação ainda não são acessíveis a todos. Em momentos como esse, não cabe nos apegarmos à nossa frágil ideia da ilha de democracia, mas nos darmos conta do esforço constante que é necessário para reconhecermos e cuidarmos do preconceito e da desigualdade, presentes em cada um de nós.

A escuta psicanalítica não está inerte diante dos fatos históricos e sociais, ela é sensível a eles, promovendo assim uma abertura de nossas clínicas e práticas. Muitos trabalhos estão sendo desenvolvidos fora dos consultórios de análise. Trabalhos em diversas instituições que buscam uma conexão com o que pulsa na cultura e na sociedade, para além de nossos muros. O Sedes conta com uma clínica social, assim como instituições acadêmicas como USP e PUC, entre outras. A SBPSP, por meio da Diretora de Atendimento à Comunidade (DAC), possui um Centro de Atendimento Psicanalítico (CAP) com custo acessível, além de parcerias com diversas instituições, junto às quais desenvolve diferentes trabalhos de escuta e intervenção.

Pensamos  num paralelo entre a Antropologia, que se ocupa da história do homem como povo,  e a Psicanálise que se ocupa da história do homem em sua subjetividade, que não deixa de ser marcada pela história do homem antropológico, incluindo suas origens, cultura e costumes, que ao não ser reconhecida, é repetida por todos e cada um de nós, como povo e como indivíduos.

Lilia finaliza sua fala, no evento, citando Guimarães Rosa, que segue ressoando em nós:

“A vida é assim:  esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

 

 

A AMF é a associação que reúne os membros filiados ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Esse grupo conta hoje com 345 integrantes: médicos, psicólogos e outros profissionais, que têm a psicanálise como referencial teórico e instrumento de trabalho clínico.

Pensemos grupo

Any Trajber Waisbich

Nada melhor do que começar essa conversa contando minha experiência de ensinar psicanálise de grupo no Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Primeiro, observo um certo desconforto, cada vez menor devo afirmar, por parte de profissionais em referendar este procedimento, mesmo ao verificarem, por meio da prática, que análise de grupo é uma análise profunda e não distorce o método psicanalítico.

Vale a pena salientar, que este seminário iniciado em agosto de 2017, supre uma demanda reprimida pelo estudo de conteúdos ligados à psicanálise de grupo, que organizasse o trabalho desenvolvido por vários colegas da SBPSP, que trabalham com grupos em instituições espalhadas pelo estado de SP. Análise de grupo, até pouco tempo atrás não era considerada como opção de estudo na SBPSP. Havia um ranço histórico e era vista como terapia menor, distante da psicanálise, além de incorrer no perigo de fomentar situações psicóticas no interior do agrupamento.

Profissionais creditavam ser este um método utilizado como um dos tantos recursos destinados a resolver uma alta demanda por atendimento em instituições, ora por dificuldades puramente econômicas de seus pacientes, ora por ser esta uma técnica menor de alívio e espera por atendimento individualizado. A não sistematização do tema e o pouco conhecimento teórico são fatores impactantes neste contexto. Estamos no universo da ideologia que impede pensamento.[i]

Uma das dificuldades em se ensinar e discutir psicanálise de grupo por um lado e implantar o dispositivo, por outro, em consultório, como em instituições, evidencia o conflito de profissionais ao questionar teoria, aliás, fator fundamental numa ciência que se repensa. Torna-se cada vez mais evidente que psicanálise de grupo é uma teoria e uma prática não conflitante com o método psicanalítico.

Não por acaso nos últimos anos, a DAC (Diretoria de Atendimento à Comunidade) da SBPSP promove e elabora projetos voltados a atendimento institucionais. A SBPSP, por meio de parcerias, faz-se presente naquilo que de mais valioso pode contribuir, isto é, intervenções psicanalíticas.

Volto ao tema, a inclusão de conceitos grupais se impôs no momento em que a intersubjetividade e a noção de vínculo são temas recorrentes[1] para uma parcela do pensamento psicanalítico. Trata-se da articulação deste sujeito formado na intersecção dos processos intrapsíquicos, dos intersubjetivos e dos vinculares.

Como psicanalista, onde quer que desempenhe sua expertise a psicanálise se fará presente. Assim sendo, surge um complicador devido às diferentes formas de se observar a prática dos profissionais fora de seus locais de atendimento. Insisto, fato muitas vezes ligado a ideologias escolásticas e que inviabilizam debates para além de uma clínica estabelecida.

Como conceber a abrangência das teorias psicanalíticas para se trabalhar grupo como método e validado por técnicos e usuários?

Na sala de aula, acompanhamos a apreensão das escolhas teóricas dos alunos ao se depararem com sua prática. Apreender de que forma os autores instrumentalizam profissionais a elaborarem prototeorias a respeito de cada atendimento é fundamental.

Concomitantemente, desvendamos os meandros da clínica de cada psicanalista, o que nos conduziu a uma vivência intrigante.

Como sabemos, a descoberta de processos psíquicos inconscientes desafia o psicanalista. Ensinar teoria e prática de grupo utilizando como material o próprio agrupamento é temerário, já que este pode se desestabilizar. Esta escolha, no entanto, foi necessária para a finalidade desta vertente.

Viver a formação de um grupo abriu novas perspectivas de atuação para seus integrantes. Verificar o que seria um grupo leva a questionar seus trabalhos nas organizações em que atuam. Investigar a influência dos psicanalistas e das instituições leva, inexoravelmente, a questionar o que impregna o grupo. Num outro momento, verificar o que cada sujeito imprime de singular, de plural e de compartilhado dentro de cada grupo elucida conflitos e provoca reações inesperadas.  Enfim, matéria prima de uma teoria e de uma prática preocupada com os movimentos no interno do grupo.

Exemplifico com uma vinheta, ou melhor, um relato.

Na sala de aula, um dos membros cogitou que aquele seminário pudesse continuar a estudar grupo de forma mais perene. Proposta aceita por todos. Posto isto, a coordenadora, eu, sugeriu a inclusão de novos integrantes. Manifestações no grupo! Havia aqueles favoráveis e aqueles que verbalizaram seu descontentamento.

Um                              – Não vai estragar o clima?

Outro                          – Seria até bom, já que, alguns entre nós vamos parar.

Outro ainda                – Não é bem assim, eu não queria parar, mas no próximo semestre está tudo encavalado.

Coordenadora            – Agora peço licença, vamos ver o que acaba de se passar, se vocês me permitirem.

Um deles                     – O que está acontecendo?

Coordenadora            – O que vocês acham?

Risada geral.

Um                              – Ah! Entendi, falei direto que ia estragar o grupo.

Outro                          – Acho que poderíamos abrir sim, está sendo tão importante este lugar que é bom partilhar e fazer ficar maior.

Coordenadora             – Pois é! Vimos o que é aceitar ou não um estrangeiro, ao vivo e a cores.

Agora teoria: tivemos aqui exemplos de porta-voz ou porta-palavra ou emergente grupal, depende do ângulo que privilegiarem. Vimos este movimento de acolhimento e de repulsa verbalizado por alguns de vocês.

 Riso geral, muitas falas, sensações, adensando o conhecimento. No final, concordou-se em se abrir mais vagas.

O pensamento psicanalítico nos leva a ultrapassar fronteiras e questionar paradigmas e porquê não, o método em si. A inclusão das questões observadas e sistematizadas numa configuração grupal para o universo dual supera a oposição entre estas duas instâncias. Insere este sujeito como o sujeito da relação e ilumina a concepção da intersubjetividade e do vínculo. Portanto, o outro passa a não ser reduzido a uma construção pessoal de mundo interno e, sim, por meio da relação estabelecida entre sujeitos numa formação inconsciente de vínculos. Deste modo, a apreensão da subjetividade se configura na intersecção deste sujeito do inconsciente que se forma através do outro e que é outro para si mesmo.

[1]Kaes, R. (2011) Um Singular Plural. – O problema epistemológico do grupo na Psicanálise. São Paulo, Edições Loyola Jesuítas.

[i] Kaes Ideologia

 

* Any Trajber Waisbich é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Coordenadora de seminários temáticos sobre Psicanálise de grupo junto ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP. 

Freud na casa de Adélia – uma conversa entre “Luto e melancolia” e o poema “Leitura”

Vanessa Figueiredo Corrêa 

Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado 

 

No livro Literacura – Psicanálise como forma literária, de Fernanda Sofio, a autora sugere que o leitor reproduza o texto literário em sua mente e assim “distorça-o” e o recrie de acordo com a experiência subjetiva. Dessa forma, a leitura de uma obra literária pelo vértice psicanalítico pode ter características de um diálogo e não de uma análise. Aqui, além do exercício teórico, deseja-se sobretudo convidar o leitor a sentir em si o poema, ou seja, percebê-lo por meio dos sentidos.

Os dois textos, “Luto e melancolia”, de Freud, e o poema “Leitura”, de Adélia Prado, dialogam por meio da temática que têm em comum: as perdas e os possíveis caminhos para se lidar com elas.

Já que se trata de uma conversa, vem ao caso o contexto em que os autores produziram esses escritos. Adélia ficou órfã de mãe aos 15 anos, em 1950. Teve uma relação próxima com o pai, que faleceu em 1972, sendo que o poema “Leitura” foi mandado para a editora em 1975, ou seja, três anos depois.

Freud escreveu “Luto e melancolia” em 1915, e publicou em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, num momento em que, contra a sua vontade, dois de seus filhos se apresentaram de forma voluntária para o serviço militar e combateram na linha de frente.

Num exercício imaginativo, pode-se supor que as perdas, ou ameaças reais de perda, na vida desses dois autores foram usadas de maneira criativa e contribuíram para que as duas obras fossem escritas.

Em “Luto e melancolia”, é postulado que a perda de um objeto de amor (que não se restringe à morte de um ente querido) leva a um estado inicial de “desânimo doloroso profundo, falta de interesse no mundo externo, perda da capacidade de amor, inibição de toda atividade” (Freud). A obra, então, explora dois possíveis caminhos que a mente percorre após o dano: o primeiro seria o luto normal – um trabalho psicológico processual que “absorve, enquanto dura, todas as energias do Eu”. Mas, “a cada uma das recordações e expectativas que mostram a libido ligada ao objeto perdido, a realidade traz o veredicto de que o objeto não mais existe, e o Eu (…) é convencido a romper seu vínculo com o objeto perdido” (Freud). Ao final do processo, o indivíduo aceita a morte do objeto e segue o movimento de sua própria vida.

O segundo caminho seria o da melancolia: o indivíduo se torna incapacitado de fazer o trabalho psicológico do luto, pois fica identificado com o objeto perdido, e não consegue aceitar a perda. O melancólico sente que foi abandonado pelo objeto amado e o sentimento de abandono provoca ódio. No entanto, o objeto perdido ainda é o alvo de amor, e o ódio gera culpa, acabando por voltar-se para o próprio Eu daquele que perdeu, o que leva a uma ambivalência paralisante entre amor e ódio. Tal conflito está condensado na famosa frase de Freud:  “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Usando uma expressão poética, dir-se-ia que essa pessoa não pode ficar ensolarada, nem iluminada pelos objetos da realidade, está impedida de sentir alegria de viver. Preso na interação com a sombra (inanimada) do que foi o objeto amado, não há espaço para que o Eu volte a ligar a libido a objetos vivos.

Convém lembrar que em “Luto e melancolia” Freud toca pela primeira vez na noção de objeto interno, o que faz dessa obra um divisor de águas para a psicanálise (Ogden).

Caminhando dentro do poema: luto ou melancolia?

O título do poema de Adélia Prado, “Leitura”, entre outras possibilidades, pode ser pensado como uma preparação do terreno para uma “interpretação”, uma leitura dos fatos que serão apresentados.

O primeiro verso, “Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras”, descreve um ambiente fechado e ensombrado, sugerindo a existência de aspectos melancólicos em que, como discutido, “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Mas em seguida:

As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.

Surgem sinais de que há vida frutífera dentro dos muros. As maçãs são temporãs e, por isso, ainda mais desejadas, criando uma expectativa de prazer, reforçada pela construção “gosto caprichado”.

Ao longo do muro eram talhas de barros

As “talhas”, vasos de barro onde se guarda a água, combinadas com a palavra “vinho”, que está no terceiro verso, remetem à passagem bíblica em que Jesus realiza o milagre da transformação da água das talhas em vinho, nas bodas de Caná. O que faz sentido, levando em consideração a profunda influência de elementos bíblicos na obra de Adélia.

Então o leitor é convidado a experimentar sensações gustativas prazerosas:

“Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Aparece aí a oposição entre “dentro” e “fora”, que remete à existência de “objetos internos”. No poema, a paralisação está fora e não dentro, há um mundo interno povoado de movimento e de objetos vivos. Preparando o terreno para a alegria que surge nos próximos versos:

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido
por isso ria – sentia prazer em estar vivo
os lábios de novo e a cara circulados de sangue
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?”

São versos “circulados” pela alegria simples e cotidiana do pai, “joie de vivre”. Este é descrito como alguém desejante e o eu-lírico, após narrar o encontro com esse pai que lhe “fez festa”, conclui:

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
.”

A palavra “sonho”, por si só, dentro da leitura freudiana, tem múltiplas camadas de sentido e já sugere que foi realizado um trabalho de elaboração. Aqui, abre-se a perspectiva de todo o poema ser lido como um sonho: a realização de um desejo.

Portanto, o poema não segue pelo caminho da melancolia. Nesses quatro versos, está formulado o processo de transformação, da realização verdadeira do trabalho do luto. Do retorno cíclico e da aceitação da natureza: a morte adubando a vida.

Formulação rica para o uso na clínica psicanalítica e na vida.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. FREUD, S., Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 170-94 (Luto e Melancolia – 1917 [1915]).
  2. OGDEN, T. H., “’Luto e Melancolia’” de Freud e as origens da teoria de relações de objeto”. In: ______, Leituras criativas: ensaios sobre obras analíticas seminais. São Paulo: Escuta, 2014, p. 33-60.
  3. PRADO, A., Poesia reunida, 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 22 (Leitura).
  4. SOFIO, F., Psicanálise como forma literária. São Paulo: FAP-Unifesp, 2015.

 

* Vanessa Figueiredo Corrêa, psiquiatra, membro filiado ao Instituto da SBPSP e membro do GEP São José do Rio Preto e Região.

O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

“Ora direis- Interpretar”: Revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado

Audrey Setton Lopes de Souza

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,

enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto……

Olavo Bilac       

Algumas experiências clínicas nos confrontam com dificuldades no processo analítico nas quais as palavras se mostram insuficientes – tanto para os pacientes transmitirem o que precisam, quanto para o analista entender e comunicar a eles alguma forma de compreensão dessas experiências. É preciso encontrar outros modos de escuta e de interpretação.

A noção de interpretação, fundada a partir do trabalho com pacientes neuróticos adultos, apoia-se em certa concepção do funcionamento psíquico: devido ao recalcamento, apareceriam sintomas cuja função seria encobrir e disfarçar aquilo que foi perdido e que agora não pode mais ser conhecido, sob a ameaça de invasão pela angústia. Nesse modelo, a função primordial da interpretação seria tornar o sujeito mais capaz de reencontrar-se com o que foi perdido. A clínica atual nos coloca frequentemente diante de pacientes que demandam não um trabalho com o que foi perdido, mas com o que aparentemente nem chegou a existir, o não representado ou o irrepresentável.

Em “Construções em análise” (1937), Freud já chamava a atenção para a existência de experiências de natureza traumática que não podem ser evocadas pela lembrança e que demandam novas formas de intervenção. Diferentemente do trabalho interpretativo com pacientes neuróticos para os quais a análise opera na linha do “per levare”, estes pacientes necessitam de um trabalho de “per puore”. A questão que se coloca é sobre que tipo de inscrição adquirem estas experiências e como acessá-las em análise.

Como destacou Tanis (2018) “se o modelo freudiano inicial focava na pulsão e o desejo como forças motivadoras que animavam a vida psíquica ele se enriqueceu com a inclusão do objeto, seja no reconhecimento dos modelos identificatórios, das vicissitudes da trama edípica, na constituição das instancias ideais e nos processos de luto”. Ele chama a atenção para teorizações pós-freudianas que passam a introduzir o foco no objeto como elemento regulador das emoções mais arcaicas do infant: seja na perspectiva da revêrie do Bion, do holding de Winnicott ou de Lacan quando nos fala da alienação no desejo do outro. O que Tanis realça é que “tudo isso não deixou incólume o lugar do analista no devir de uma análise, passou a convocá-lo de novas maneiras e assim as formulações sobre contratransferência e o desejo do analista ganharam força ao mesmo tempo em que o analista intérprete cedia, mas sem renunciar a ele, espaço às outras formas de intervenção e presença, o que nos convoca a renovar a reflexão em torno da abstinência e da postura ética do analista” .

Autores como Botella e Botella (2002), Green (2003, 2008, 1993/2010), Marucco (2007), Ogden (2006) e Roussillon (1991/2005) chamam a atenção para os efeitos psíquicos dessas experiências traumáticas que não alcançam qualquer representação – e portanto não podem ser evocadas –, propondo reflexões sobre novas formas de intervenção.

Uma vivência será experimentada como traumática no momento em que o sistema de representações não consegue captá-la, dar sentido ou torná-la simbólica. Essa vivência, quando não transformada, torna-se excesso de energia causando uma fratura, um vazio na trama de representações trazendo novos desafios para a atividade psicanalítica.

Para Marucco (2007), o trabalho com esses pacientes nos coloca mais próximos do caldeirão do id e mais longe do inconsciente reprimido, que aparece como repetições irrepresentáveis, marcas que ele denomina trauma psíquico/pré-psíquico e que escapam a qualquer possível significação. Assim, a ideia de não representação e de aspectos cindidos do ego coloca novos objetivos para a psicanálise, pois são aspectos que o paciente não poderá relembrar, e sim viver pela primeira vez – experiências que não puderam ser abarcadas pelas representações e que trazem reflexos para a técnica psicanalítica. A insuficiência de simbolização, que implica o predomínio de manifestações através do corpo ou do ato, frequentemente confronta o enquadre analítico e seus recursos, como a clássica posição de neutralidade, o silêncio e a inatividade do analista, as regras do setting, etc.

A necessidade de o paciente vivenciar pela primeira vez os conteúdos cindidos significa uma participação diferente do analista. Seu funcionamento mental torna-se importante. É preciso ajudar o paciente a encontrar algo novo, um objeto analítico – que não é de um e não é de outro – que promova ligaduras com potencial transformador da realidade psíquica (Marucco, 2002, 2007).

A noção de trabalho do negativo, de André Green (1993/2010), também vai nessa direção: esse conceito implica a existência de algo mais do que a ausência, uma presença não presente, um registro apresentado pelo elemento psíquico inexistente, uma qualidade psíquica que se registra pelo negativo. Tal condição, de perda de sentido da representação interna, será considerada por Green como constituindo a representação interna do negativo; uma presença da ausência do objeto e da ausência de sentido, criando um buraco representacional e produzindo estados de esvaziamento e de falta de sentido.

Azevedo (2009) aponta que Green parte do conceito de negativo em Winnicott, condição considerada normal no desenvolvimento infantil, ligada a uma qualidade do funcionamento psíquico, que pode alcançar a noção de que tudo o que constitui o não eu (aquilo que não é possuído) é o negativo do eu. Essa condição depende da existência de um objeto transicional que perdure como vivo, apesar de ausente. A falha do objeto externo produz um estado de persecutoriedade intolerável e a morte desse frágil objeto interno; como resultado, haveria uma retirada de catexia do objeto que corresponderia ao que Green denomina de função des/objetivante e que atuaria como contrária à vida.

O que Green (2003) aponta é que tal identificação da vida pulsional com um objeto que jamais irá satisfazer o sujeito levaria a uma reivindicação de autonomia cuja meta seria atingir um estado de separação, independência e autossuficiência que se manifestaria na clínica como reações terapêuticas negativas e vivências de branco sem palavras, exigindo do analista uma maior tolerância a certo modo de atividade psíquica para poder desempenhar o papel de receptor de complementaridade e ser capaz de “apreender o que não se soube ou não se pode dizer e que se exprime, então, nas formas extraverbais” (Green, 2003, p. 481). Esses pacientes demonstram grande dificuldade para tolerar o enquadre clássico e exigem do analista certa margem de manobra.

“Nestas condições, o analista deve abster-se de deixar o paciente viver experiências que terminarão por revelarem-se mais esterilizantes que fecundas, com a análise tornando-se cronicamente traumática. É nestes casos em que aquilo que foi muito a propósito denominado de “presença” do analista, adquire pleno significado” (Green, 2008 pg 115.)

Roussillon (1991/2005) também observa que devemos localizar a raiz dessas dificuldades nas falhas das experiências iniciais mãe-bebê, na elaboração dos paradoxos da destrutividade ou do uso do objeto e do objeto transicional. As manifestações clínicas desses pacientes são reações à revivescência de experiências infantis marcadas pela ausência de respostas maternas e por certa desqualificação de suas necessidades. O lugar da “matriz original do fantasma” é então deixado vazio; as pacientes são confrontadas a um branco, representando a ausência de representações, vivido como uma profunda ferida narcísica. A angústia assim mobilizada só pode ser contida na urgência do adormecimento ou numa hiperatividade que mantém e evacua, ao mesmo tempo, a excitação não ligável. (p. 210)

Ele acrescenta que, assim como Winnicott propõe que devemos ensinar os pacientes a brincar, nessa clínica somos levados, nem sempre de forma consciente, a “presentear” (formular, pôr em forma) uma atividade comparada ao que Bion descreve como a capacidade de rêverie materna.

Roussillon (2007) aponta que com estes pacientes o “analista pode avançar apenas lentamente e segundo o afrouxamento progressivo das defesas, sendo obrigado a encontrar modos de presença e modalidades técnicas de intervenção, que asseguram uma presença ou mesmo um acompanhamento suficiente, mas à distância e sem comprometer a análise da configuração transferencial”.

Em suas teorizações, tanto Green quanto Roussillon destacam as contribuições de Bion na área do pensamento e não pensamento e do conhecimento negativo (Bion, 1959/1988a) e o conceito de identificação projetiva proposto por Klein (1946/1991).

Klein, no seu trabalho com crianças, também nos mostra que o analista defronta-se frequentemente com crianças com dificuldades  de simbolização apontando para os efeitos devastadores da identificação projetivas maciças  que geram uma escotomização da vida psíquica. Suas contribuições abriram caminhos para modificações técnicas que consideram a importância do papel do analista na função de acolher e significar estas identificações projetivas.

Ampliando as concepções de Klein, Bick (1991) destaca a importância das primeiras situações. Segundo ela,  anteriores à posição esquizoparanoide, para a possibilidade de construção de um objeto continente capaz de acolher as identificações projetivas. Cito aqui a descrição da Izelinda Barros deste processo “Antes da introjeção deste objeto continente, isto é, antes da constituição de um continente interno, e das possibilidades comunicativas oferecidas pela identificação projetiva, a segurança do bebê está depositada nas qualidades sensoriais do objeto materno e self e objeto são experimentados como superfícies sensíveis e contíguas. Nesta fase a dependência do objeto é absoluta; a separação é experimentada como a perda de partes do próprio corpo.”

Ela destaca que o bebê, no início de sua vida, graças ao uso da identificação projetiva e às qualidades de rêverie da mãe, vive uma ilusão de continuidade com ela e, portanto, não é confrontado com a realidade da separação. Por outro lado, repetidos descompassos afetivos na dupla trazem à luz, precocemente, a realidade de corpos e mentes separadas entre o bebê e sua mãe; provocam perturbações no desenvolvimento da pele psíquica e podem levar à constituição de uma “segunda pele” por meio da qual “ a dependência do objeto é substituída por uma pseudoindependência, pelo uso inapropriado de certas funções mentais, com o propósito de criar um substituto para esta função de pele continente” … Bick (op.cit. p197).

Devemos a Bion a apropriação do conceito de identificação projetiva e sua dimensão comunicativa, enfatizando a função de rêverie (Bion, 1962/1988b), primordial para o trabalho com o que Bion denominou  elementos beta: experiências sensoriais brutas e não processadas e que são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006).  É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

No trabalho com pacientes psicóticos, Bion questiona a função da interpretação introduzindo a ideia das funções alfa e beta, e da função de metabolização dos afetos; enfatiza, assim, a importância do objeto real (do analista real e da mãe real) nesse processo, colocando o analista na função de acolher e significar experiências. Sua concepção de função alfa evoca a função mental de transformar as impressões sensoriais brutas, denominadas elementos beta, em elementos alfa. A ideia de elementos beta também aponta para o irrepresentável, pois essas experiências sensoriais brutas e não processadas são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006). É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar.

A função de rêverie (Bion, 1962/1988b) torna-se primordial para o trabalho com os elementos beta. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

Os autores citados se propuseram a pensar a clínica dos pacientes-limite, o campo dos pacientes psicossomáticos, borderline, da angústia do vazio e das dificuldades de simbolização. Nesses casos, o analista é convocado a trabalhar para preencher o vazio, suprimindo o vazio imaginativo do paciente e a ausência simbólica da elaboração psíquica que este foi incapaz de realizar. Eles ressaltam como o analista é, de alguma forma, levado a desenhar imagens que correspondam à vida mental do paciente, ajustando suas possibilidades simbólicas às do paciente.

Na construção de uma história analítica, buscamos desenvolver, dentro da relação, um aparato psíquico capaz de pensar e transformar as experiências emocionais vividas pelos dois membros do par e o que introduz a consideração da disponibilidade analítica para suportar as rupturas do enquadre clássico, utilizando-se de sua capacidade de sonhar.

É necessário conceber a análise como um campo de construção de um objeto continente, que possibilite oferecer a experiência de reconhecimento e de esperança que não pôde ser encontrada na relação com os objetos iniciais.

Com estes pacientes, é necessário rever o conceito de interpretação para além do tornar consciente o inconsciente, abandonar o lugar ascético do analista decifrador de enigmas e encontrar novas formas de intervenção para poder alcançar a experiência em curso.(Souza,2016) Do ponto de vista da experiência como analista, torna-se evidente que não se trata de observar e interpretar o que se passa; é necessário viver e sobreviver ao intenso campo emocional que se forma, acolhendo-o com nossa capacidade de rêverie e ajudando nesse processo de sonhar os sonhos não sonhados.

Bibliografia

Azevedo, A. M. A. (2009). Por que Green? Psicanálise: Revista da SBPdePA, 11(2), 233-244.

Barros, I.G. (2013) Os primórdios da estruturação psíquica como se apresentam na clínica. Revista de Psicanálise de Ribeirão Preto- Bergasse 19; vol. IV nº 1

Bick, E. (1991). A experiência da pele em relações de objeto arcaicas. In E. B. Spillius (Ed.), Melanie Klein Hoje (B. H. Mandelbaum, Trad., pp. 194-198). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1967)

Bion, W. R. (1988a). Ataques ao elo de ligação. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 87-100). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1959)

Bion, W. R. (1988b). Uma teoria sobre o processo de pensar. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 101-109). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1962)

Botella, C. & Botella, S. (2002). Irrepresentável: mais além da representação (M. E. Schneider, P. Ramos & V. Dresch, Trads.). Porto Alegre: Criação Humana; Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Ferro, A. (1998). Na sala de análise: emoções, relatos e transformações (M. Justum, Trad.). Rio de Janeiro: Imago.

Green, A. (2003). A crise do entendimento psicanalítico. In A. Green (Org.), Psicanálise contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise, número especial, 2001 (A. Cabral et al., Trads., pp. 477-491). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2008). Orientações para uma psicanálise contemporânea (A. M. R. Rivarola et al., Trads.). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2010). O trabalho do negativo (F. Murad, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1993)

Klein, M. (1991). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In M. Klein, Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) (B. H. Mandelbaum et al., Trads., pp. 17-43). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1946)

Klein, M. (1996). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (A. Cardoso, Trad., pp. 385-412). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1940)

Marucco, N. (2002). De ayer a hoy, de nosotros a los pioneros: qué escuchamos y cómo intervenimos. Trabalho apresentado na Associação Psicanalítica Argentina.

Marucco, N. (2007). Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, 41(1), 121-136.

Ogden, T. (2006). Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e choros interrompidos. In Livro Anual de Psicanálise (Vol. 20, pp. 173-189). São Paulo: Escuta.

Roussillon, R. (2005). Paradoxos e situações limites da psicanálise (P. Neves, Trad.). São Leopoldo: Unisinos. (Trabalho original publicado em 1991)

Souza, A.L.S. (2016). Construindo formas de comunicação: revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado.  Revista Brasileira de Psicanálise, 50(3), 60-75.

Tanis, B. (2017)- Psicanálise e suas clínicas- Plenária Simpósio Bienal- O mesmo e o outro in http://pdf.blucher.com.br.s3-sa-east-1.amazonaws.com/socialsciencesproceedings/isbsbpsp/28.pdf

 

Audrey Setton Lopes de Souza é psicanalista, Membro efetivo da SBPSP; Professora Doutora do IPUSP- SP e Professora do Departamento de psicanálise da criança DO sedes. asetton@uol.com.br

 

 

Freud e a clínica do século XXI

*Claudia Suannes

Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. A frase de Borges, que serve como ponto de partida da biografia escrita por Elisabeth Roudinesco, soa oportuna para se pensar no aniversário de morte de Freud, dia 23 de setembro, e no lastro do pensamento freudiano na clínica dos tempos atuais.

A radicalidade do pensamento de Freud, que tira da consciência o eixo do funcionamento psíquico humano e marca a importância da sexualidade, produz um impacto que o situa como um dos grandes pensadores do século XX, cujo legado se estende para além da disciplina por ele criada.

São muitas as contribuições de Freud para se pensar a cultura, os fenômenos sociais e políticos, além da própria clínica psicanalítica.  Como é próprio a um pensador de sua envergadura, sua teoria também é objeto de crítica, sendo uma delas expressa no questionamento sobre a eficácia do método psicanalítico na clínica do século XXI.

Renato Mezan, no livro O tronco e os ramos, dedica-se ao estudo da história da psicanálise, tendo como eixo de seu estudo a relação entre o pensamento de Freud e seus sucessores. Partindo das diferenças entre as escolas de psicanálise, Mezan indaga-se como a partir de um tronco comum, Freud, as escolas possam ter produzido teorizações tão diferentes entre si, mantendo-se, ainda assim, em um campo que é reconhecidamente o campo da psicanálise.  Uma linha fecunda de análise que o autor nos apresenta, então, é a noção de “matriz clínica”, que consiste na base a partir da qual cada autor lê e indaga o texto freudiano. Dito de outro modo, no exercício de seu ofício, os psicanalistas têm contato com pacientes diferentes e é a partir de suas inquietações clínicas que cada analista/autor vai engendrar sua reflexão teórica, privilegiando, para tanto, aspectos da teoria freudiana que melhor permitem pensar os fenômenos com os quais se deparam.

O que me interessa marcar na citação do trabalho de Mezan é a consideração sobre a noção de matriz clínica como fonte de desenvolvimento do pensamento freudiano. Isto é, a radicalidade do método psicanalítico, que contém em seu bojo a possibilidade de escuta às diferentes expressões de sofrimento psíquico e aos modos particulares de se haver com este sofrimento. O subsequente esforço de teorização sobre esses fenômenos encontra na imagem do tronco e seus ramos a expressão de vigor e de possibilidade de constante renovação. Basta abrir os jornais, sair pelas ruas ou receber um novo paciente para constatamos que o terroir dos dias atuais constitui um terreno fértil para o desenvolvimento da psicanálise.

Em homenagem à sua contribuição para a psicanálise, escrevi breve reflexão sobre a influência de Freud para a clínica no século XXI neste outro artigo, publicado em 2015 no blog da AMF (Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise da SBPSP).

Cláudia Suannes é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Contato: clausuannes@gmail.com

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae