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O Mal-Estar na Adolescência: Dos Sofrimentos do Jovem Werther à Baleia Azul

Ana Maria Stucchi Vannucchi

“Eu tenho medo de morrer sem ter vivido”

 Joana, 16 anos

 

Qual seria a tarefa do adolescente? Em que turbilhão se move? Temos que multiplicar por mil as observações de Freud sobre o sofrimento humano, o conflito entre o indivíduo e a cultura e sobretudo, o confronto entre impulsos de vida e morte, para nos aproximarmos das vivências do adolescente em seu processo de vir a ser  e de construir-se como pessoa. Que tarefa difícil! Quantos caminhos e descaminhos encontramos!

Temos primeiramente as mudanças corporais, que apontam a necessidade de considerar o emergir da sexualidade e da agressividade. Neste momento, o adolescente precisa construir uma nova mente, elaborando as perdas das vivências e do corpo infantil. Esta tarefa não é fácil, envolve muito sofrimento e muitas inseguranças, além de muitas aventuras e experiências novas, que geralmente implicam um perigoso limite entre vida e morte.

Quem não viveu situações limite entre a vida e a morte? Quem não viveu sonhos delirantes de mudar o mundo? Quem não pensou em desistir de tudo e morrer? Quem não pensou que o amor poderia  salvar o mundo? Quem não “tomou todas” para esquecer as mágoas? Estas experiências são fundamentais para que possamos aproximar-nos desta ponte longa e estreita, sem corrimão, que descreve a travessia adolescente. Como acompanhar alguém sem segurá-lo ou empurrá-lo? Como conversar com alguém que parou no meio da ponte e tem medo de continuar? Ou que quer se jogar da ponte para sumir desta vida? Como criar uma conversa possível, mesmo com a distância  geracional que nos separa?

Vou deter-me em três situações clínicas, ficcionalizadas por razões de sigilo e ética, para poder expressar meu pensamento e minha maneira de trabalhar com jovens.

Bárbara (22 anos) tem sua vida afetiva gravitando em torno da mãe morta, evidenciando profunda melancolia e culpa por estar viva e ter sobrevivido à mãe. Ana (15 anos) odeia os humanos e vive em guerra com todos, família, colegas, embora sinta-se muito só e excluída. Quando não suporta mais a dor mental, refugia-se no “quarto branco”, expressão suprema de desobjetalização. Luna (18 anos), ambiciosa e orgulhosa, vê-se estraçalhada  e feita em pedaços  depois de ser reprovada no vestibular. Sente que a vida perdeu o sentido e começa a “namorar a morte”.

Acredito que nestas travessias, estamos mais intensamente às voltas com o binômio morte/vida, como vemos nestes casos clínicos que menciono. Acredito que não se trata de algo próprio da contemporaneidade, mas sim próprio deste momento de mudança catastrófica em que o Ego desorganiza-se e fragiliza-se para acolher novas identificações, que lhe facultam des-envolver-se da mente infantil, e aproximar-se do  que Freud chamava de Principio de Realidade (1911). Como recuperar a esperança ao lidar com as questões do binômio ilusão desilusão? Como facilitar o surgimento de uma esperança realista, ligada à capacidade de enfrentar as dificuldades da vida?

Do meu ponto de vista, esta questão não é contemporânea, mas vem desde a Antiga Grécia, com Sófocles, em ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’, com Sheakspeare em ‘Hamlet’,  com Goethe em ‘Os sofrimentos do Jovem Werther’, com Salinger, em ‘O apanhador no Campo de Centeio’, etc..Clássicos protagonizados por adolescentes que nos mostram como o trágico é constitutivo da adolescência.

Considero que a possibilidade do jovem ter um analista,  um terapeuta  ou mesmo alguém que o acompanhe nestes momentos de sofrimento, faz enorme  diferença, pois mitiga a solidão e oferece  uma oportunidade de encontro e vinculação afetiva.  Além disso, permite outros vértices de observação da experiência vivida, ampliando a capacidade de  sonhar/pensar, conter e transformar as emoções e recuperar o prazer de viver.

Ana Maria Stucchi Vannucchi é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

 

Paternidade e função paterna

Ricardo T Trinca*

Toda criança ao nascer é órfã. Ter um pai e uma mãe são conquistas e aquisições posteriores, mas que podem não ocorrer. É necessário que o bebê se torne filho de alguém, ou seja, que uma mente possa se dedicar à tarefa de recebê-lo no mundo. Mas, se por um lado o bebê é um órfão, por outro ele nasce com preconcepções do encontro com um seio (Bion, 1962/1991) para o qual se dirigirá, e sobre sua recepção, ou melhor, sobre a presença de alguém a partir do qual poderá haver alguma ancoragem e encontro. Mas a preconcepção pode ser frustrada, dependendo das circunstâncias deste momento inicial, criando dificuldades significativas para os próximos passos do bebê.

Os pais recebem esse bebê, um ilustre desconhecido, que vai – aos poucos – se tornando familiar. A familiaridade é um processo complexo associado com a possibilidade tanto do bebê ser sonhado, quanto do estabelecimento de ritmos orgânicos da sua vida, com improvisações e melodias análogas às de uma banda de jazz. A amamentação, a troca de fraldas, o sono e o mimo são estabelecidos em um ritmo peculiar, relacionado tanto com as características inatas daquele bebê, quanto ao modo como ele é sonhado pelos pais. Ser sonhado significa participar da vida mental do outro; em última instância, existir.

Nesse momento inicial da vida, a função materna é a mais importante: ela é a função psíquica relacionada com a recepção da orfandade de um bebê que é pressentido como absolutamente dependente e que necessita de acolhimento, cuidados e continência. Mas, desde esse momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e se tornam complementares. São funções mentais e não estão relacionadas diretamente com um ou outro gênero sexual, que desempenhe uma ou outra função necessariamente. Uma mãe tem função paterna, assim como um pai tem sua função materna e vice versa. Ser pai, portanto, é poder flutuar em um espectro de possibilidades formado entre essas duas funções. Não é mais novidade um homem ser predominantemente materno, ou um casal homoparental desempenhar, cada um, funções distintas ou ambas as funções. Também uma avó ou um avô pode desempenhar relativamente bem a função paterna ou a função materna. Culturalmente elas tendem a ser associadas ao pai e à mãe.

A função paterna nesse início da vida do bebê relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente. O bebê, neste momento, é o reflexo do desejo dos seus pais, desejo desconhecido, mas que aparentemente se tornou encarnado e vivo; é um ser-para-si (ser para a mãe), carecendo ainda de um mundo pessoal. Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebê, e o reflexo deste investimento libidinal e imaginário. Bebês lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda. O bebê e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe alguma coisa como um bebê independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.

Mas, ao longo do crescimento do bebê, a função paterna passa a ser não mais periférica, assumindo um posto de maior centralidade na vida da mãe (ou daquele que representa a função materna) e, também, da criança. O cuidador do bebê precisa se haver com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebê passa a adquirir paulatinamente maior autonomia. Mas ainda não é, de fato, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida diretamente para o bebê. Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que são feitos naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso. Portanto, a função paterna tem como objetivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.

O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança (Winnicott, 1993/1999), mas é preciso levar em conta que um “sim” da relação desta criança com o mundo já foi, portanto, formado na mente desses pais. O “não” verdadeiro denota a formulação de um “sim” anterior. Esse “sim” é o desejo de que essa criança possa ter um mundo. O “não” passa a ser expressão do desejo de que a criança constitua um mundo, que vá além da relação com a função materna; um mundo relativamente seguro. Essa separação para com a “mãe” ou ampliação do universo da criança pequena é realizado pela função paterna, um verdadeiro ser-para-o-mundo. A função paterna é a função que separa mãe e bebê para poder dar as bases da simbolização, pelo início das relações triangulares, ou a base do pensamento simbólico. A função paterna, desse modo, separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico e da castração. A função paterna, portanto, separa para incluir. E a função paterna melhor consegue fazer isso, quanto mais valorizada é a cultura e a alteridade na mente da mãe; ou o quanto a função paterna está interligada à função materna na sua vida mental.

A presença da função paterna e materna se mantém ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho. Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança, quando elas puderam ser incorporadas como parte da sua personalidade. Quando isso acontece, o filho pode prescindir dos seus pais.

A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho. Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes. Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna. Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações; decididamente a função paterna é uma função associada com o mundo da cultura.

Um filho é tanto algo profundamente pessoal quanto um ser que se transforma em algo da cultura e do mundo. É um modo de presentear a cultura com nosso amor, deixando o filho ser no mundo aquilo que ele está, por alguma razão, destinado a ser além de nós.

 

Referências

Bion, W. R. (1991). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho Original publicado em 1962).

Winnicott, D. W. (1999) Dizer “não”. In D. W. Winnicott, conversando com os pais (2 ed) São Paulo (SP): Martins Fontes (Trabalho Original publicado em 1993).

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

 

CRACOLÂNDIA – DIVERSÃO OU REFÚGIO?

A discussão em torno do tema cracolândia tem ganhado visibilidade nos últimos dias por conta das ações realizadas pela Prefeitura de São Paulo no local, notoriamente conhecido por reunir usuários e traficantes que consomem e vendem drogas a céu aberto. Com o tema em voga, acabam vindo à tona histórias diversas de pessoas que vivem no local e, muitas vezes, fogem do estereótipo do craqueiro . Mas o que leva alguém a chegar ao ponto de se abrigar em um ambiente como o da cracolândia? Diversão? Prazer?

Confira abaixo o artigo da psicanalista Maria de Lurdes Zemel sobre o tema:

A CRACOLÂNDIA SERIA UM LUGAR DE DIVERSÃO OU UM REFÚGIO?

Ao fazer a divisão da palavra crack-lândia podemos associá-la à Disney-lândia – o que leva a pensar sobre o uso de droga estar associado somente ao prazer. Decorre daí a certeza que esse é um lugar que abriga pessoas que vivem só do prazer. Pessoas irresponsáveis, que não querem trabalhar, não respeitam leis, não sabem viver em grupos sociais, etc.

Sim, todos buscamos a droga para obter prazer e é isso que ela nos oferece. Sabemos isso usando adequadamente qualquer droga. A questão passa a se complicar quando a relação com a droga se inverte, isto é: quando ela dirige a relação, como se fosse um tirano a nos dominar. Isso é assim também com o crack.

O crack é a cocaína inalada. Tem um efeito rápido, vai direto à corrente sanguínea por inalação. Seu efeito também passa rápido. Rapidamente causa tolerância, síndrome de abstinência e dependência.

O usuário de crack de terno e gravata, aquele que vem ao nosso consultório, usa crack eventualmente e não frequenta a “cracolândia”. Ele é uma pessoa diferente do “craqueiro” que está lá na “cracolândia” em andrajos ou escondido por um cobertor. No entanto, ambos são seres humanos e merecem respeito e compreensão.

O frequentador da “cracolândia” está submetido à lei social do tráfico, lei rígida e que demanda obediência servil. O tráfico tem palavra: é cumprir ou morrer. É possível que ele obedeça a esse tipo de lei por não ter tido interdição paterna, por ter se perdido dentro da família e por estar num grupo social sem lei, onde nada do que é dito é cumprido.

O frequentador da “cracolândia” tem urgência – fuma uma pedra atrás da outra. Procura na latinha uma pouco de calor na boca, mesmo que a queime. Beija a boca de qualquer um ou aceita qualquer sexo somente para sentir um corpo junto ao dele, um corpo sem nojo, igual ao dele. Envolve-se num cobertor para sentir um limite na própria pele, para se sentir único no meio da multidão de semelhantes. Cada um tem seu cobertor. O cobertor é sagrado; assim como nosso corpo é sagrado para nós e nossa mente é única.

O cobertor esconde muitas histórias. Muitas misérias e muitas dores não poderiam ser suportadas sem a presença dele. Abortos, estupros, surras, mortes, abandonos, violências de toda qualidade. Estamos do lado de fora do cobertor, não sabemos dos sofrimentos daqueles que ali se escondem.

Um bebê substitui a ausência de sua mãe por um “paninho”. Um “craqueiro” precisa de um cobertor para suportar a ausência de vida que existe em sua própria vida. A morte se faz constantemente presente; a morte é fria.

O cobertor nos protege de ver tanta tristeza. Talvez fosse insuportável para nós enxergar o que o cobertor encobre. Talvez seja insuportável para o craqueiro também.

O craqueiro precisa da “cracolândia” para se refugiar e se proteger de nós, que temos medo da precariedade psíquica escancarada por ele.

*Maria de Lurdes de S. Zemel é coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas do Setor de Parcerias e Convênios da Diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP

*Revisão de Luciana Saddi – membro da SBPSP

Reflexões sobre identidade sexual

**Por Maria Thereza de Barros França

Desde inícios do século XX Freud nos apresentou suas teorias acerca da sexualidade infantil. Certamente organizou observações que já vinham sendo feitas por outros autores da época, entretanto inovou e propôs pensarmos a sexualidade em termos de libido – algo que transcende em muito a experiência do ato sexual. Nossa identidade sexual se firma na adolescência, mas desde muito cedo o processo de seu desenvolvimento está em andamento.

Freud nos colocou em contato com a bissexualidade presente em todos os seres humanos e ressaltou sua força na tenra infância. É um longo processo de amadurecimento emocional a ser percorrido, para que possamos transformar aspectos onipotentes da nossa mente infantil e nos tornarmos adultos, encontrando formas de compor dentro de nós nossos aspectos femininos e masculinos, os quais nunca deixarão de existir: o que se passa é que o desenvolvimento promove o predomínio e a identificação com uma dessas vertentes.

Neste sentido as relações afetivas, especialmente com mãe, pai e familiares, modelos que são para nossa constituição, são de extrema importância. Os bebês humanos não nascem prontos: nossos corpos continuam se constituindo após o nascimento; o mesmo se dá com nossa mente e também com nossos cérebros: as experiências emocionais esculpem nosso Sistema Nervoso, como demonstra Iole Cunha em seus interessantes trabalhos.

Certamente há muita distância entre nosso sexo biológico e a sexualidade psíquica. A desarmonia mente/corpo leva a sofrimentos intensos. Muitas vezes para lidarmos com dor, mobilizamos mecanismos de defesa em que idealizamos situações nas quais estaríamos livres de sofrimento. O que se passa, entretanto, é que apenas iremos gerar outros tipos de angústia.

Para lidar com nossas crianças e jovens às voltas com desarmonias em sua relação mente/corpo, não basta nomeá-los transgêneros, conforme fez o programa Fantástico. Sabemos que rótulos muitas vezes trazem algum alívio. Mas e o que isso quer dizer? Aceitar e respeitar é importante, mas NÃO BASTA! É fundamental que possamos buscar o entendimento amplo sobre os profundos processos inconscientes que se dão em nossas mentes, muitas vezes desconsiderados pelos desenvolvimentos científicos.

Winnicott há muito já dizia que a humanidade paga um preço muito caro por desconsiderar as pesquisas psicanalíticas.

 

** Maria Thereza de Barros França é psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da SBPSP, especialista em psicanálise de crianças e adolescentes pela IPA, docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, coordenadora do CINAPSIA, integrante da Secretaria de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da SBPSP.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Como é ser mãe de uma criança pequena

Falar em criança pequena é falar de um ser humano em continuo processo de desenvolvimento e transformação. Sabemos o quão fundamental é o princípio da vida e a relação de dependência do bebê com a mãe e com o ambiente. A criança passa por vários estágios que levam ao seu crescimento e integração, e necessita que os pais acompanhem e ofereçam segurança, confiança e que possam atender suas necessidades para que ela possa caminhar e alcançar sua autonomia. Viver a vida de forma que suas capacidades e potencialidades se realizem é o que faz sentido a ela. Só assim se realizarão como pessoa.

Ser mãe, na maioria das vezes, é sentir-se encantada com o ser que gestou. Esse encantamento faz com que o bebê sinta que tem um valor e importância para alguém. Mas não é só isto.

Ser mãe é se dispor a vivenciar, junto com seu filho, emoções, sentimentos, angústias, medos, sonhos, desejos e vivências corporais intensas.  Sua vida, a partir da gestação, se modifica radicalmente. A mãe grávida tem um relacionamento com seu bebê, sente seus movimentos, sente amor (ou não) embora tenha seus desconfortos e ansiedades. Seus sonhos em relação a este ser que está sendo gestado, a impulsiona e seu desejo (ou não) de ter este bebê o marcará de forma significativa.

A mãe vive um processo de profundas emoções que acordam vivências primordiais de sua própria história de vida. Suas fantasias, suas dificuldades e realizações estão continuamente presentes. Ter um filho pequeno, adolescente ou adulto requer que a mãe (incluindo o pai) se reveja a todo instante em sua vida emocional. As crianças vão denunciando, não propositadamente, as falhas, fragilidades, limites e capacidades, o que pode enriquecer o conhecimento de si mesmo e do outro. Pode ser tranquilizador e surpreendente para uma mãe ver que sua criança é capaz de enfrentar situações que para ela foram difíceis. Assim, vai se diferenciando dela e conhecendo esta nova personalidade se formando.

Ser mãe não é ser técnica de cuidados, é estar viva, envolvida, presente e se dispor como pessoa que enxerga, ouve e se interessa por seu filho em suas particularidades.

Ter um filho é se dispor a uma carga de trabalho intensa já que o bebê depende completamente dos cuidados dela. Assim que nasce a relação entre os dois é de tal intensidade que a m           ãe se oferece devotadamente ao seu bebê. Inicialmente é como se fossem um só, a mãe oferece seu corpo, sustenta  e apresenta o mundo a ele. Sua intuição e capacidade de identificação com a criança favorecerá sua compreensão e conhecimento deste pequeno ser. A mãe sente que sua presença é fundamental e que é ela quem vai dando significados ao que este experimenta. O bebê, inicialmente, não sabe que depende dela. Para ele, a mãe é criação dele e aos poucos vai percebendo que ela é uma pessoa separada dele. Ocupar este lugar de não ser reconhecida como pessoa separada requer uma capacidade amorosa, o que não quer dizer que não possa sentir ambivalência de sentimentos pela exaustão que experimenta.

Sim, amor e ódio fazem parte desta relação e esses conflitos fazem parte da vida de relação. A criança também precisa desenvolver sua capacidade de odiar e isso é importante para sua vida, é esse sentimento que cria a alteridade, a capacidade de perceber o outro como outro. O sentimento de ódio poderá ser negado e atuado de forma impulsiva, o que não será saudável para a criança. Esses conflitos são inerentes à vida e cabe a mãe elaborá-los. Se há confiança nos sentimentos de amor, se a mãe não tiver dificuldades narcísicas ou alguma perturbação psíquica, não se assustará com o fato destes sentimentos existirem. Assim como receber os ataques da criança, também é importante para que sua agressividade não seja inibida, perdendo assim a vitalidade.

Ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança que começa a andar, que vai ganhando autonomia e que vai se separando dela. No início, a dependência é quase total, mas a criança anseia por crescer, e a mãe também vai aprendendo a viver separada do seu filho. As separações vão fazendo parte da vida, mas a criança precisa de segurança e confiança para ser ela mesma. A mãe percebe e sente essas mudanças e oferece objetos, brinquedos já que a criança precisa de objetos intermediários para elaborar suas vivências, através do brincar e de sua criatividade. A atividade do brincar dá à criança uma condição de elaborar seus conflitos e, com isso, evoluir e ter suas vivências, expandindo sua imaginação.

A cada estágio surgem novas surpresas. Sabemos que a criança está desenvolvendo sua identidade e que poderá ser muito diferente do que seus pais sonharam para ela. Estes precisarão se conhecer e lidar com suas frustrações. Ser mãe é oferecer um ambiente razoavelmente estável, considerar o tempo de seu filho, que é algo fundamental para que ele possa se desenvolver e fazer uso de fantasias, sonhos e tolerar a realidade externa.

Quando falamos de mãe, não estamos excluindo o pai ou substituto, que é quem está presente, junto com a mãe nessa caminhada. Inicialmente não reconhecido como um terceiro, aos poucos vai sendo requisitado pela criança para que possa lidar com a triangularidade edipiana que é um momento de muitas elaborações identitárias e que lhe darão lugar para ser quem é. As questões sexuais se manifestam, a saúde e maturação requerem que mãe e pai estejam disponíveis para auxiliar seu filho nesta caminhada. Para isso, serão mobilizados nas próprias questões sexuais pessoais.

No consultório temos oportunidade de observar algumas dificuldades e patologias graves de crianças onde detecta-se falhas no atendimento dos pais ou da família às necessidades da criança. Vemos paradas no desenvolvimento da criança que vem buscar auxílio terapêutico onde a família apresenta desestruturações que muitas vezes não são sequer percebidas.

*Marlene Rozenberg é membro efetivo e analista didata da SBPSP

Sobre a depressão

Maria Tereza Labate Mantovanini

 

Chama atenção a frequência com que chegam à clínica psicanalítica pessoas com diagnóstico de depressão, encaminhadas por médicos psiquiatras que reconhecem na intervenção terapêutica um valioso complemento da medicação ministrada.

 

Outro fenômeno que chama a atenção e surpreende é o número de pacientes que, mesmo sem a chancela médica, apresentam-se como depressivos. A reincidência desses casos faz pensar: qual seria o sentido de um leigo diagnosticar-se dessa forma?

 

São inúmeros os significados e geralmente aparecem entrelaçados. O primeiro deles parece estar relacionado ao uso do termo depressão ou depressivo pelo senso comum, para identificar estados de abatimento, desesperança e desinteresse pela vida.

 

A segunda possibilidade, que não exclui a anterior, seria usar a patologia para precisar, a priori, a razão de um sofrimento particular, expresso por um mal-estar, uma falta de vitalidade, uma desesperança, cuja origem o paciente ignora.  Nesses casos, a utilização do termo depressão mostra-se uma estratégia não só para aludir a algo que se desconhece, como também para localizá-lo em um campo e em um grau. Nomear o sofrimento resulta, portanto, em uma forma de apropriação.

 

Seja o uso do termo depressão derivado de avaliação médica ou de um autodiagnóstico, o certo é que a investigação psicanalítica não pode ater-se a ele, ainda que deva, sem dúvida, levá-lo em conta. Ao analista cabe, sobretudo, concentrar-se nas particularidades do sofrimento de cada paciente.

 

Entretanto, parece haver uma característica semelhante, que aproxima os casos de depressão. Trata-se de uma perda do sentido do viver, que se manifesta num desligamento afetivo. Este serve como defesa contra o sofrimento. Porém, ao se buscar não sofrer, todas as demais vivências  emocionais experimentam uma espécie de “desbotamento”.

Nas situações depressivas, a dor parece estar predominantemente ligada a um distanciamento do que se é e uma aproximação a modelos de perfeição idealizada. As pessoas sofrem por não estarem à altura de ideais construídos.

 

Apesar de buscarem na terapia um espaço para respirar e existir, encontram um obstáculo interno, que as devolve para o mesmo lugar de desalento. A esperança advém da possibilidade de transformação e atualização dessa crença de que não estão à altura dos ideais construídos.

 

Maria Tereza Labate Mantovanini. é psicóloga, mestre em Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise/SBPSP.

DEPRESSÃO

Com sintomas de depressão e tristeza, muitos adolescentes tem sido vítimas do “jogo” Baleia Azul, cujo fim culmina com o suicídio do participante. Depressão não é facilmente detectável, principalmente em crianças e adolescentes e, por essa razão, é preciso se informar a respeito e procurar ajuda quando necessário. A psicanalista Maria Thereza Barros França discute o tema no artigo “Depressão“, publicado originalmente no blog da SBPSP em 2014 e hoje mais atual do que nunca.

Blog de Psicanálise

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja…

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A psicanálise e o caso José Mayer

assedio

 Vírus nas redes: vacina para relações de poder?

Uma visão psicanalítica sobre o caso José Mayer

*Por Susana Muszkat

Vimos surgir nas últimas semanas, na esteira do #AgoraEQueSaoElas, mais uma manifestação de indignação e repúdio por parte de um grupo de mulheres: #MexeuComUmaMexeuComTodas.

Este hashtag visa denunciar mais uma de um sem-número de situações de desigualdade nas relações de gênero, manifesta por atos que traduzem o desejo de manutenção de uma determinada ordem nas relações de poder.   Neste caso vemos como, uma somatória de pressupostos paradigmáticos, levou um ator-celebridade a se sentir autorizado a assediar, no espaço de trabalho, uma moça bonita e jovem, sua subordinada.

O que são esses pressupostos paradigmáticos a que me refiro? São ideias que circulam entre nós, tendo o estatuto de ‘normalidade’. Sendo assim, costumam ser aceitas como fazendo parte da ordem natural das coisas, ainda que não nos agradem.

Por exemplo:

  • O predomínio em nossa cultura da ideia de que homens têm, por direito, deliberar sobre o destino das mulheres. Em outras palavras, subjaz um pressuposto de que aos homens cabe ocuparem lugares de decisão e de comando.

Vide, por exemplo, homens que matam companheiras pelo simples motivo de elas não mais os quererem como companheiros.  O inverso é muito raramente o caso.

Ou ainda, a proibição imposta às mulheres de terem liberdade de decidir sobre a própria vida e corpo no que diz respeito ao aborto.  A hierarquização entre homens e mulheres baseada no gênero visa garantir a perpetuação de Relações de Poder que são confundidas como normais ou a norma. Evidencia, ainda, como esse tipo de hierarquização é posta a serviço do preconceito e da discriminação.

  • Além da questão de gênero, vemos aqui uma outra ordem de abuso de lugares hierárquicos uma vez que se trata de um patrão famoso e poderoso e uma funcionária jovem cujo trabalho está subordinado ao dele. Confunde-se aí subordinação trabalhista com subjugação do outro.

Mas por que um homem educado, famoso, poderoso, que parece ter tudo, praticaria um tipo de violência contra alguém em posição de menor força?

Pois é, parece ter tudo…  No entanto…

Freud, nos esclarece a respeito da condição básica de desamparo em que nós, seres humanos, nascemos. Necessitamos, desde o primeiro momento de nossa existência, de um outro adulto que nos deseje e se dedique a cuidar de nós amorosamente para que possamos sobreviver.  O problema é que o temor em não sermos plenos e o desejo de nos livrarmos de nossa incompletude humana não termina na infância, mas ao contrário, continua pela vida toda!

Então, de que forma essas duas situações se interligam?

– De um lado temos a cultura que autoriza ou ensina aos homens (e às mulheres também!) que eles têm direitos sobre o desejo das mulheres, fazendo-os pensar que seu desejo é soberano.

– De outro, o temor do desamparo, de sentir-se frágil, não ter tudo.

A ilusão, portanto, de muitos homens, é a de que, por serem homens estarão autorizados a que seu desejo prevaleça sobre o das mulheres. É o desamparo disfarçado de força. É a ilusão respaldada pela cultura de machismo hegemônico, fazendo com que homens acreditem que de fato são mais poderosos. O risco é sempre a confusão da ilusão com a realidade. Pois a realidade revelada expõe a falácia da ilusão, trazendo à tona a reação violenta. A violência contra a mulher que frustra visa encontrar um culpado a fim de poder tolerar que o que parecia realidade era mera ilusão: ninguém pode tudo. Todos somos frágeis. Todos estamos sujeitos ao desamparo.

Mentalidades têm mudado, vêm mudando, e mulheres vêm se mobilizando mais e mais, inclusive, é importante que se diga, com apoio de muitos homens. Essas mudanças buscam estabelecer relações mais equitativas, respeitosas, onde o gênero não seja mais o fator determinante dos lugares que cada um de nós ocupa.

Como última nota: a cultura muda, mas sempre de forma muito lenta. No entanto, a internet e as redes sociais aceleraram construção de redes de apoio e de divulgação jamais imaginadas ou possíveis.  Essa velocidade que reúne tantas pessoas em torno de algo em tão pouco tempo, vem criando efeitos marcantes no fiel da balança, alternado as relações de poder. É a isso que assistimos quando algo é ‘viralizado’, e milhares ou milhões de pessoas passam a reproduzir e divulgar uma mesma ideia num tempo comprimido. Isso definitivamente tem repercussões nos ritmos de mudanças de mentalidades e consequentemente da cultura. A Internet e as redes sociais parecem ser o novo poder prevalente.  É, sem dúvida, um recurso novo e poderoso.

Deve, contudo, ser usado com cautela, pois vírus podem salvar-nos de doenças através de vacinas ou podem eliminar povos ou contagiá-los de forma irreversível.

*Susana Muszkat é psicanalista, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É psicanalista em consultório particular de adolescentes, adultos, casais e famílias. É mestre em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP, e autora do livro Violência e Masculinidade(2011) ed. Casa do Psicólogo e Violência Familiar (co-autora),  (2016) ed. Blucher, que faz parte da coleção O que fazer?, da qual é uma das coordenadoras editoriais.  

Sobre a vergonha

Por Marina Kon Bilenky*

Quem nunca sentiu vergonha na vida? Com intensidade que varia desde o mais leve rubor até um forte sentimento de vexame, a experiência da vergonha é a vivência de uma emoção que pode ser profunda, dolorosa e universal, com efeitos duradouros.

Sentimento eminentemente humano, a vergonha tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nosso mundo.

A vergonha nem sempre aparece de forma direta e é preciso identificar seus diferentes disfarces para que se possa lidar com ela. A arrogância, a solicitude extrema e o isolamento podem ser maneiras de lidar com esse sentimento, formas que escondem a vergonha por trás de uma máscara e que dificultam o processo de enfrentá-la.

O problema com a vergonha é o comportamento quase instintivo de ocultá-la. Mas e se procurarmos fazer o inverso? O aparecimento da vergonha é uma oportunidade para nos conhecermos melhor. Prestar atenção a seus sinais e não simplesmente se render a eles, poder receber a vergonha sem imediatamente tentar escondê-la, considerar a vergonha e procurar entender a que ela se refere, pode ser um caminho para entrar em contato consigo e perceber o próprio funcionamento.  Ao conhecer as forças que nos dominam, podemos modificar as condições em que vivemos.

*Membro da SBPSP, Marina Kon Bilenky é autora do livro “Vergonha” (Blucher), da série “O que fazer?”, coordenada por Luciana Saddi, Sonia Soicher Terepins, Susana Muszkat e Thais Blucher. O texto acima está no livro lançado recentemente e disponível nas livrarias