arte

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

Sobre “Educação para a Morte”

Marielle Kellermann Barbosa

O livro fala de cachorro, chocolate, champagne, pássaros brigando por frutas no quintal. Fala de pai, de mãe, de sexo, de dores inimagináveis e de mortes sombrias. É engraçado e, ao mesmo tempo, emocionante.

Segundo Hanna Segal, o prazer estético causado por uma obra de arte se dá pela identificação do expectador com a obra como um todo e também com a constelação mental do artista representado na tal obra (Segal 1952/1982). O que ocorre da seguinte maneira: o artista tem um mundo interno destruído como eu o tenho, no entanto, tem coragem de enfrentá-lo e faço o mesmo com ele. Na obra de arte, compõe um mundo unificado e completo e, portanto, saio reintegrado e enriquecido.

É tentador sugerir que isto ocorre porque em uma grande obra de arte o nível da negação do instinto de morte é menor do que em qualquer outra atividade humana, que o instinto de morte é reconhecido, tão plenamente como pode ser suportado. É expresso e aprisionado para as necessidades do instinto de vida e da criação (Segal, 1952/1982, p. 270).

Em posição depressiva, reintegrado e enriquecido é como se sai ao emergir do lado de lá da contracapa do livro da colega Luciana Saddi, “Educação para a Morte”, editado pela Patuá e publicado neste ano, de 2017.

É um livro de contos e estes têm um ritmo de linguagem como um trote leve e macio- há um conto sobre o amor de uma menina por cavalos, um cavalo, em especial – a leitura flui pelas linhas e um conto se alinhava ao outro em histórias muito particulares, de épocas passadas e em cenários atuais, que tocam questões de todos nós.

Os contos são independentes, mas não são, vão criando uma imagem de certa personagem, que pouco a pouco se define pelas diferentes notícias que vamos recebendo dela. A voz infantil da personagem de alguns contos tem aquela força que sentimos no jeito de contar da Clarice (Lispector), quando esta escreve que um pepino parece uma coisa inventada e que a fulana saberia que sua felicidade seria sempre clandestina. É a economia das palavras, condensando seu valor. Se não me falha a memória, em um livro da Clarice, a personagem diz: “Se eu fosse eu mesma, onde eu teria escondido…”.

Poderíamos dizer, em companhia da grande dama da nossa literatura, assim: se o escritor fosse ele mesmo, e se fosse escrever algo de verdade, o que escreveria? Parafraseando Clarice: se eu fosse eu mesma, o que eu escreveria? Esse parece ter sido o ponto de partida de Luciana Saddi para escrever esses contos.

 

Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado. Não é crítica literária, apenas leitora

 

Morre o poeta?

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli *

Cruzava a manhã do domingo quando li que Ferreira Gullar morreu. Onde estão, para onde vão todas as lembranças dos que, como ele, já se foram? Porque o mundo que já acontecia sem ele ainda e mais ainda hoje o mundo é todo sensações que lampejam de seus versos: de cheiro de tangerina (sonho de floresta), de colo de açucena, de espantoso ocre da casa, branco de pedra do piso do banheiro, de alguma coisa dourada na pele, do azul da mancha do quadro de Leonardo (em que parte de mim está?), do guarda sol às três da tarde, o verde erva e poça e olhos e praça. E barulhos: do rumor da cidade ou do silêncio da noite, do latido do cão, de um avião ou de um bater de asas.

Gullar me ilumina em sua arte a questão de vida ou morte: “ O que eu vejo me atravessa como ao ar a ave… e sou então apenas essa rude pedra iluminada ou quase se não fora saber que a vejo.” Não somos pedras, minérios que não sonham, não se espalham no ar como um grito, ou como o cheiro embriagador da fruta. Se pedras somos, elas brilham como diamantes: no fundo do olhar, no mais fundo, detrás de todo o amargor, há guardado um lampejo.

É este brilho, fugaz como espanto de onde brota a humanidade e o poema, aquilo que em nós que se sabe de repente, como recém-chegados em um mundo de maravilhas e angústias. A arte de traduzir uma parte de nós que não é multidão, ninguém. Esse quase nada, quase nunca, que nos faz a consciência que sobrevive à estranheza e à solidão: o poeta Gullar é a criança que nele soluça, mal suportando o peso do amor interminável, acumulado vida afora. No fundo sem fundo, todo o mundo. A idade não o envelheceu, o corpo não cansou de ser enigma. Retirou-se docemente, mas morreu em fúria, ainda em espanto.

O poema, ele o queria nascendo de fruta apodrecendo num prato, não do mármore perene ou de cristal intocável. Ele o queria vivo – se possível em varanda com ruídos da rua, com vozes de pessoas trabalhando. O poema que irrompe donde menos se espera, num cheiro de flor, na janela do ônibus, no moer do silêncio, na poeira dos cabelos, na visão da tarde, soprando por um átimo de tempo. Átimo de átimo que seja, o coração freme e se acende. Pois um simples roçar de mãos comporta imponderáveis toneladas de luz, inquietante é cor de qualquer dia, a tristeza guarda no avesso a alegria ardente .

Hoje, lamentei sua morte. É perda demais para um simples homem, diria ele. Perplexa, lembro com ele que a morte, como a poesia, nos revela a vida que fulgura instantânea: o milagre que a vida traz e zás, ironicamente dissipa. A mesma poesia –brisa que faz do tempo a eternidade, da beleza o infinito.

Flutue ainda, prenhe de poemas. Enquanto isso, suas raízes fundas, poeta, estão já se arrebentando, tão fundas quanto estes céus.

Por ele, que me ajuda a vida a valer a pena.

PS: os trechos de poemas e versos adaptados ao texto são citações dos conhecidos “Dois e dois: quatro” e “Traduzir-se” e principalmente do livro “Barulhos” (1980-1987), José Olímpio Editora, cujo primeiro contato, na mesa da copa da casa de uma amiga, se deu como conviria a Gullar, com inesquecível maravilhamento.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psicanalista e membro associado da SBPSP e da SBPRJ

“Kuma, a segunda esposa” e o Édipo transcultural

Kuma, a segunda esposa” e o Édipo transcultural

Por João Baptista Novaes Ferreira França*

Um raro filme do cinema turco chegou até nós, exibido por poucos dias nas telas do Cinesesc, em São Paulo, possibilitando reflexões sobre uma situação de Édipo transcultural.

O complexo de Édipo foi descrito por Freud no contexto da sociedade vienense fin–de-siècle e deu margem a debates com psicólogos e antropólogos do início do século passado; mais tarde autores como Lacan, Klein, Britton e Bion trouxeram contribuições que enriqueceram as ideias de Freud ampliando o conceito para uma configuração edípica mais abrangente, que abria e expandia a visão de Freud.

No filme em questão, produção de 2012 do cineasta Umut Dag, de origem turca e radicado na Áustria, vemos os desdobramentos da cultura de uma família muçulmana oriunda de uma longínqua aldeia da Turquia, se estabelecendo em Viena, trazendo seus costumes e procurando se adaptar ao moderno mundo ocidental.

O tema inclui uma quase bigamia, que deixa o expectador algo perplexo até se inteirar da insólita situação de arranjo no qual a primeira esposa, Fatma, provê uma segunda esposa, a jovem Ayse, para o marido, Mustafa, e mais que isto, uma mãe para a família, uma vez que ela se via ameaçada de morrer brevemente, querendo deixar todos amparados e a família organizada. E a segunda esposa, Ayse, tem apenas 19 anos e poderia ser filha do casal.

Do ponto de vista de Mustafa – primeiro e segundo marido – e de Fatma, como primeira esposa, a situação revela um modelo admissível na cultura em questão. Do ponto de vista dos filhos e também da segunda esposa, Ayse, as configurações edípicas emergem.

As conjecturas apresentadas se referem principalmente à configuração edípica das personagens femininas.

Mal-humorada, sofredora e com um mau casamento, a filha mais velha exibe amor pelo pai e ambivalência acentuada em relação à mãe e, o que era de se esperar, rivalidade e ciúmes com Ayse, a segunda esposa do pai, numa conduta que permanece até o fim.

A filha do meio, adolescente, não aceita Ayse no início, revelando ciúmes e uma má disposição com a “intrusa”, mas acaba se identificando com ela, como libertadora do ethos familiar e rendida pela simpatia e transparência da nova mãe/irmã; e o filho caçula, um menino no período de latência, logo é conquistado por Ayse e mostra inequívoco amor a ela; enquanto que a mãe, Fatma, logo se identifica com aquela que poderia ser sua rival e estabelece com ela uma aliança – idealizada, como vai mostrar o desenrolar dos acontecimentos.

Ayse é bígama, mas apenas no que se refere ao casamento de fachada, situação que fica mascarada; na realidade o casamento é com o pai, enquanto que a relação com o “marido oficial” só vai se esclarecer depois.

Conjecturas poderiam ser feitas ao nível das fantasias. Como seria a configuração edípica de Ayse? Há o desejo de separar-se da primeira configuração familiar da qual pouco sabemos, e a aceitação de um contexto novo e complicado, embora seja ainda um duplo da situação da aldeia, enquanto passagem para uma libertação; fantasias permeiam as mudanças e invariantes.

Ayse é a personagem central do filme, uma mocinha ajuizada, muito simpática e colaboradora; é cumplice da insólita situação, aceitando logo o papel de filha mais velha e sucessora da mãe, em que pese ter que dormir com o pai, sob os olhos aprovadores da mãe.

Uma mudança brusca se dá quando ocorre a inesperada morte do marido; a dinâmica familiar se mantém algum tempo, há adaptações, e Ayse compartilha o leito da mãe, como se fosse filha privilegiada e na verdade amiga e cúmplice, na trama recentemente vivida.

Mas Ayse passa a trabalhar e pode sair da espécie de prisão doméstica; como moça atraente e jovem, acaba se envolvendo com um rapaz de sua idade. A grande confusão, mais trágica do que cômica, se prenuncia quando a família inteira vai ao trabalho onde Ayse se encontra com o namorado e podemos imaginar o que vai acontecer.

A mãe enfurecida quebra a aliança com Ayse e parte para uma terrível agressão.

O filme termina com algum acerto da situação, mas com um desfecho ainda em aberto; mas as mensagens principais, o universo cultural e os aspectos relacionais, a figurabilidade e a beleza artísticas já foram veiculadas.

Duas imagens, duas tomadas de cena, chamam a atenção por sua beleza e expressão; uma quando após a esperada operação de Fatma e a vinda da médica do centro cirúrgico para dar noticias, a imagem se esfumaça e a cena seguinte é a de uma pastagem, como se fosse um trigal, mas que já prenuncia um cemitério e um enterro, este cheio de surpresas.

A segunda cena de belo apelo cinematográfico se apresenta quando Ayse, ferida, recebe socorro da irmã, e está deitada ao lado do seu bebê que se mostra plácido e feliz, mas aos poucos percebe o ambiente perturbado e abre um expressivo choro de desespero.

Ainda destaco a chamada de introdução do filme, a imagem de um espelho que emoldura o rosto das duas personagens principais, a primeira e a segunda esposa; duas mulheres muito bonitas e expressivas.

A arte realiza, expressa e confirma neste filme uma particular e rica vivência relacional, para a qual a psicanálise tem o que agregar.

*João Baptista Novaes Ferreira França é psicanalista e membro da SBPSP

 

Psicanálise em cena

O diálogo da Psicanálise com a arte está na raiz do próprio pensamento freudiano que, ao formular suas teorias, fez uso de mitos e tragédias para costurar conceitos e formular hipóteses de compreensão da psique. No texto a seguir, a psicanalista Silvana Rea fala sobre duas óperas que serão encenadas em São Paulo e aproveita para contextualizar e explicar a tragédia de Édipo Rei e sua importância na teoria freudiana.

Psicanálise em cena

Por Silvana Rea*

Nos últimos dois fins de semana de novembro, o Teatro São Pedro, em São Paulo, apresentará em uma única récita duas óperas poucas vezes encenadas: Oedipus Rex de Igor Stravinsky com libreto de Jean Cocteau e O Homem dos Crocodilos, de Arrigo Barnabé com libreto de Alberto Muñoz.

Oportunidade única para assistir a duas obras primas, mas também oportunidade para assistir a fundamentos e conceitos psicanalíticos em cena.

Vamos começar com Oedipus Rex, ressaltando a importância do mito e da tragédia de Édipo Rei como organizador do pensamento de Freud e que culmina na formulação do complexo de Édipo, o fio que costura a teoria psicanalítica.

Mas antes de pensarmos em termos de complexo, é preciso lembrar que Édipo Rei é um mito grego que foi transportado da tradição oral para a forma de tragédia no teatro de Sófocles. Trata-se de uma narrativa que todos devem conhecer – o filho que, sem o saber, mata o pai e desposa a mãe.

Freud, em seu esforço para construir uma estrutura teórica que desse conta dos fenômenos que observava em sua clínica, apoiou-se neste mito grego para pensar as questões do desejo e da sexualidade humana. Em carta a seu amigo Fliess, em outubro de 1897, ele faz a primeira menção explicita a Édipo, considerando que a paixão pela mãe e os sentimentos hostis pelo pai descobertos em sua autoanálise, pudessem ser comuns a todos. Isto se confirmaria na força avassaladora que a encenação da peça provoca nos espectadores.

Mas Freud só vai pensar no mito como um complexo a partir de 1910. Para aqui chegar, precisou antes elaborar suas ideias sobre a sexualidade infantil e sobre a repressão, ou recalcamento.

Vamos então caminhar um pouco para trás. Em 1895, Freud, juntamente com Breuer, nota que a resistência das pacientes histéricas em lembrar aquilo que as afligia, indicava que certas ideias eram separadas da consciência e era esse desconhecimento (ou não lembrança) que gerava os sintomas. Ele começa a elaborar um tratamento que visa a recuperação e integração à consciência dessas ideias, inicialmente pela hipnose, posteriormente pela sugestão e por fim, pela associação livre.

Ou seja, as pacientes histéricas levam Freud à ideia de que uma força ativa fez com que essas ideias e lembranças fossem retiradas da consciência. Portanto, pensa ele, se há um resistência em lembrar, houve uma pressão que fez esquecer. Conclui, então, pela existência de uma resistência que exerce a força que reprime ou recalca. E mais, que há um mundo reprimido inconsciente.

Postular a existência de um inconsciente ativo dá sustentação à sua tese sobre a sexualidade infantil, formulada a partir de seu trabalho com pacientes histéricas e que provocou escândalo nos meios científicos do fim do século 19.

Sim, porque Freud passa a considerar que a histeria tem uma etiologia sexual, ligada a experiências infantis traumáticas que foram reprimidas. E como nota, contrariando sua hipótese inicial de que seriam vivências factuais, as pacientes fantasiam cenas e situações a partir de seu desejos sexuais; desejos infantis os quais, em última instância tem como objeto um de seus genitores. Isto o leva a postular que no inconsciente não há diferença entre realidade ou fantasia.

Agora sim, podemos começar a falar no Complexo de Édipo.

O que é um complexo? Trata-se de um conjunto de representações parcial ou totalmente inconscientes, relativas a situações infantis e que se organizam em função de desejos amorosos, de ódio e agressividade. O complexo de Édipo portanto, refere a uma rede de desejos que se expressam em fantasias ligadas ao parricídio e ao incesto.

Tomando como metáfora o mito e a tragédia de Sófocles, o Complexo de Édipo tem importância fundamental na teoria freudiana por seu valor estruturante da sexualidade e do psiquismo. Ele introduz a questão da alteridade e é o conceito instaurador do superego, da lei e da civilização. Fundamental na constituição da subjetividade, é o principal eixo de referência a partir do qual os sujeitos encontram suas diferentes formas de ser.

O modo de ser do Édipo de Stravinsky e Cocteau é o de um personagem, em parte buscando a verdade de suas origens a qualquer preço, em parte ocultando-a, desafiando o destino ao qual acaba submetido.

Vamos agora conhecer o modo de ser d’ O Homem dos Crocodilos, uma livre adaptação do caso clínico de Freud “História de uma neurose infantil”, conhecido como o Homem dos Lobos.

Dentro de um consultório psicanalítico, a narrativa da ópera desenvolve-se em uma, ou várias sessões de análise do compositor Antônio da Ponte, atormentado pela ideia de que um piano lhe cortará fora as mãos. A partir deste mote, traça uma viagem onírica pelos sonhos, fantasias e associações do paciente e da analista.

A análise de Serguei Pankejeff, o nobre russo apelidado de Homem dos Lobos, centra-se em um sonho: o sonho dos sete lobos brancos, que Freud relaciona com a cena primária. O que reafirma, para ele, o papel da sexualidade infantil na formação das neuroses. E como Pankejeff, Antônio passa por diversas análises sem sucesso, o que introduz a noção freudiana de compulsão a repetição.

Ou seja, a ideia aqui é a de que fantasias recalcadas infantis e ligadas ao Complexo de Édipo, experiências traumáticas que não podem ser recordadas, ressurgem de maneira disfarçada. Para Freud, aquilo que está reprimido – e portanto não lembrado – é expresso por uma atuação, repetidamente. Cada paciente começará sua análise movido por uma repetição desse tipo, que será vivenciada na relação com o analista naquilo que Freud denominou de transferência. Um fenômeno de atualização de experiências passadas à pessoa do analista, em busca de elaboração e ressignificação. Sem isso, repete-se.

Com a noção de compulsão a repetição, O Homem dos crocodilos também se configura como uma tragédia clássica. Antônio da Ponte sofre por algo que desconhece e contra o qual ele luta, mas que guia o seu destino. Aqui, não são os deuses, mas a força do inconsciente e a tendência do aparelho psíquico a repetir.

Bom espetáculo a todos.

 

*Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pelo Instituto de Psicologia da USP (IP-USP), editora da Revista Brasileira de Psicanálise.