Adolescência

Meu primeiro relógio… meu primeiro celular

* Regina Elisabeth Lordello Coimbra

Nos muitos anos de trabalho psicanalítico com crianças e adolescentes observei um momento bem especial, verdadeiro marco, linha divisória e ritual de passagem para a conquista de novo patamar de desenvolvimento emocional: a hora de ganhar o primeiro relógio.

Era um grande acontecimento, geralmente recebido em festas comemorativas, fazendo parte de um ritual, como presente recebido de uma pessoa com muita importância afetiva dentro da família.

Vi latentes olhares para o primeiro relógio como se estivessem diante de um troféu que os permitiriam ter acesso à passagem do tempo – uma grande conquista!

A partir de então, a percepção do tempo seria compartilhada, favorecendo maior inserção na realidade e consequente diminuição do pensamento mágico.

À semelhança do completar o álbum de figurinhas, o tempo chegava e  propunha novo paradigma, a tolerância pela espera de um suceder de etapas necessárias para o desenvolvimento emocional.

E agora, em tempos atuais, o grande momento é a conquista do primeiro celular. “Qual a melhor idade?”, perguntam os pais. Quem sabe?

Perdeu-se o significado do grande momento, banalizou-se o ritual de passagem como grande conquista do desenvolvimento, qualquer hora é hora!

Como psicanalista aprendi: o desenvolvimento não pula etapas! E agora, estamos todos surpresos, pais e psicanalistas!

Diante da desenvoltura de seus pequenos filhos com as telinhas, os pais não entendem o que se passa com eles e entre eles. Com certeza nem os filhos!

Alguns pais buscam saídas, tentam resgatar o valor do tempo como o senhor das nossas vidas:

  • “Uma hora de celular por dia e livre no final de semana!”.
  • “Na hora em que o boletim chegar, se as notas não forem todas azuis, ficará sem celular!”
  • “Se não tomar banho na hora em que eu mandei, ficará sem celular por uma semana”.

Estamos submetidos ao novo senhor dos tempos: o celular!

 

*Regina Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo, docente e psicanalista de Criança e Adolescente da SBPSP |bethcoimbra07@gmail.com

A Geração Y no mundo do trabalho: dor de crescimento ou opressão sem ganho?

*Renata Zambonelli Nogueira

Com alguma frequência tenho me deparado com situações em que interlocutores de gerações anteriores à minha se queixam das características dos “jovens de hoje em dia”, apelidados de Millennials ou Geração Y. Eles se referem às pessoas nascidas depois de 1990,  que constituem a primeira geração crescida num mundo verdadeiramente globalizado, imersos na onipresença das tecnologias – especialmente da internet e das facilidades materiais -, e cuja chegada ao mundo do trabalho revelou um importante choque geracional.

Os mais velhos os descrevem como egocêntricos, preguiçosos, mimados, “cheios de mimimi”, excessivamente zelosos de sua vida pessoal e, frequentemente, os acusam de desconhecer a realidade, não saber que “é preciso dar duro para se tornar alguém na vida” e querer tudo de mão beijada.

Penso que, embora caracterizado a partir da realidade norte-americana, esse conflito geracional tenha alguma correspondência em certos recortes das cidades brasileiras. Pude observá-lo na Faculdade de Medicina onde me graduei em 2011 e na qual, atualmente, me dedico a atividades didáticas com os alunos. Ali me parece que a estrutura hierárquica que formou tantas gerações de médicos em São Paulo já não exatamente serve às atuais. Falas de professores renomados como a de que “diamantes se fazem sob pressão” são ferozmente atacadas e provocam intenso sofrimento psíquico entre os alunos, marcado por sentimentos de incompreensão e desamparo, em lugar de uma adaptação produtiva. A tradicional cultura médica de investimento total, de valorização da resiliência levada ao limite, do orgulho narcísico de enfrentar bravamente jornadas de 48horas de plantão pode estar com os dias contados sob a gerência dessa nova geração. O que aconteceu?

De imediato, penso que devemos abandonar a pretensão de “explicar” toda uma geração, e vou modestamente oferecer uma das minhas ideias à prova para pensarmos um possível fenômeno em desdobramento na cultura: as estruturas totalizante das instituições perderam o seu sentido, e o sofrimento dentro delas não está mais associado a um crescimento que vale a pena, não é mais significado como uma “dor de crescimento”. Na ausência de sentido, vive-se uma espécie de opressão sem ganho.

Tentarei, então, decupar minha hipótese da perda de sentido na forma de perguntas que nos ajudem a pensar.: Quais seriam as diferenças fundamentais no caldo de cultura em que cresceram esses jovens? Quais os reais efeitos da tecnologia na subjetivação, e como as formas virtuais de se relacionar com o outro interferem na capacidade de sustentar relações reais? O que mais, historicamente, aconteceu no mundo nos últimos anos, e quais as perspectivas desses jovens no nosso momento histórico? Quais tipos de relação de trabalho estão disponíveis para eles? Como a economia e a realidade dos processos de produção e consumo interferem nas dinâmicas subjetivas de funcionamento? Como esses jovens lidam com a espera diante de tantas facilidades materiais?

No meio psicanalítico se discute, hoje, a existência de novas formas de sofrimento na contemporaneidade. Como psicanalistas, sabemos da influência peremptória da cultura sobre os processos de constituição do sujeito, e a ideia corrente a respeito do nosso tempo é a de um momento histórico de desilusão diante de uma suposta falência do projeto moderno, um enfraquecimento das instituições e um sofrer característico da pós-modernidade, marcadamente distinto do sofrimento dos neuróticos analisados por Freud. Eu incluiria nessa análise uma dimensão categoricamente política. Há uma crise social instalada a partir do capitalismo neoliberal levado ao seu extremo: banalização do consumo, superficialidade das relações humanas e precarização das relações de trabalho.

Tentarei descrever o que entendo por sofrimento contemporâneo por meio de uma ilustração. Há poucas semanas assisti ao filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, e saí do cinema como quem sai do consultório após uma longa sequência de sessões difíceis. Mundos mentais áridos, pouco povoados, vivências de tédio, repetição e completa ausência de sentido. “Qualquer experiência é melhor do que nenhuma”, diz uma das personagens. Os cenários são casas amplas, translúcidas, com horizontes infinitos, repletos de nada. Gavetas vazias, relações sem lastro, desejos sem densidade, descontinuidade…

Tudo isso contraposto a uma beleza estética deslumbrante das personagens, dos figurinos e dos cenários arquitetônicos. Seria o filme um retrato onírico da nossa sociedade de consumo? Poderíamos comparar aquela fotografia exuberante à cultura da imagem, dos perfis das redes sociais repletos de selfies e check-ins, da necessidade de promover a si mesmo, de ser visto numa vida de felicidade e plenitude, para que ela se torne minimamente satisfatória, para encobrir com curtidas o mal-estar?

Me remeto a imagens descritas por meus pacientes em análise, buscando uma espécie de “nutrição de verdade” no mundo de hoje: eles procuram por alfaces que não pareçam plástico, frutas que não sejam insossas como aquelas bonitas do mercado, peitos sem silicone… Para além dos seus significados nas análises individuais, me pergunto o que essas experiências sensoriais da contemporaneidade estarão representando.

Hoje nas grandes cidades vive-se um completo desconhecimento dos processos produtivos, e o consumo é fácil e indiscriminado.  Estaria essa dissociação relacionada a um esvaziamento simbólico na cultura? Existirá uma espécie de banalização do acesso a qualquer coisa, de forma a destituir de valor o objeto de desejo? Haverá um processo semelhante no trato com o outro, que, quando fora do aplicativo, de carne e osso, pode se tornar excessivamente falho, frustrante, trabalhoso, intolerável?

Penso que é situando-nos nesse difícil contexto de múltiplos esvaziamentos que podemos nos colocar a pensar as dificuldades dessa geração em realizar e sustentar investimentos libidinais, tolerando as frustrações impostas pelo princípio de realidade. Falo aqui das relações de trabalho, mas acho que o problema também se estende às ligações amorosas. O substrato real não os ajuda em nada nessa tarefa: vagas precarizadas, vínculos informais, carreiras de ensino superior desparecendo do mercado, extinção da aposentadoria, instituições corrompidas, falidas e desacreditadas – e espaços de conhecer gente cada vez mais deslocados ao espaço virtual, onde basta um clique para se desimplicar.

Há um desafio posto às novas gerações. Elas estão sujeitas a reinventar referências, reconstruir a solidez na cultura e restabelecer, à sua maneira, a capacidade de ligação.

*Renata Zambonelli é Psiquiatra e Psicanalista, membro filiada à SBPSP | renatazambonelli.psi@gmail.com

Uma reflexão sobre o lixo eletrônico tóxico e seus efeitos no psiquismo

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Diferentemente das pacientes da cena de Viena de Dr. Freud, as meninas de hoje protestam em CAPS LOCK ao invés de mergulharem na repressão e na resignação. Nossas jovens millennials lutam pelo feminismo desde cedo, questionando o papel da mulher. Brigam para serem ouvidas na escola, enfrentando, a seu modo, uma sociedade que emoldura e enfraquece o sexo feminino.

Esse questionamento me parece ter aparecido antes de se sentirem acuadas no papel feminino. Essa reflexão é, hoje, construída junto com a feminilidade, não posteriormente. Ponto para a nova geração!

As meninas de hoje relatam também abusos sofridos em grupos fechados de mulheres nas redes sociais: “Share your pepeka” é um deles, no qual trocam experiências referentes à sexualidade. Há também o #agoraéquesãoelas, um movimento para que revelem em seus perfis virtuais os abusos sofridos.

Em contrapartida, essas mesmas meninas que brigam para serem respeitadas por suas escolhas sexuais entoam canções de funkeiros que são absolutamente desrespeitosos com a figura feminina, por vezes violentos. Os tais “proibidões” são a antítese desse discurso feminista. Colocam a mulher num contexto que banaliza não apenas a sexualidade, como as drogas. Me pergunto se essas jovens que cantam essas canções compreendem, de fato, o que propagam. Se questionam a si mesmas se querem ser tratadas pelos parceiros como as personagens das canções de suas playlists.

Recentemente assisti ao documentário Hot Girls Wanted, que investiga a entrada de jovens meninas no mercado pornográfico. Todas por volta de 18 anos, em busca de dias de glória e glamour. “Já que vou transar, por que não filmar? Já que o nude pode vazar, melhor eu mesma me expor por vontade própria” , relata uma das jovens. São meninas que entram nesse mercado em busca de fama e sucesso às custas de uma exposição violenta e precoce. Uma decisão impulsiva, um acting out em busca de independência.

O espectador acompanha com tristeza a falta de intimidade dessas meninas consigo mesmas, com seus sentimentos, com seu próprio corpo. O olhar assustado e, por vezes, opaco que elas trocam com os parceiros-atores, a violência à qual se submetem, a falta de amor pelo próprio corpo. O filme é uma denuncia triste. Vale assistir para refletir.

Refletir que toda uma geração formará sua sexualidade assistindo a vídeos na internet e esbarrarão nos mais diversos conteúdos. Ouvindo canções repletas de violência e promiscuidade que podem vir a ser a canção-tema de uma noite marcante. O desabrochar dessa fase marca toda uma relação “eu-corpo” que durará por toda a vida. Intimidade não pode ser excluída desse período, como se fosse algo sem valor.

Trata-se de um espaço importante da construção do psiquismo. O fantasiar foi, em alguns aspectos, substituído pelo Google, e muitas vezes o conteúdo digital é assustador. A internet oferece possibilidades diversas, sem que o jovem tenha um aparelho digestivo psíquico suficientemente forte.

Devemos pensar cuidadosamente sobre como as mídias podem ser invasivas, sobre o que é informação e o que é lixo eletrônico tóxico, cujos resíduos ficam marcados permanentemente numa mente em formação.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

 

Uma abordagem psicanalítica do filme ‘O Minimo para Viver’

Cássia A.N.Barreto Bruno

O fato é que vivemos num mundo onde os fenômenos surgem tão rapidamente que não temos tempo de assimilá-los e ficamos sem saber o que fazer diante do novo. Esse é o caso das novas doenças da alma, como diz Piera Aulagnier.

O filme ‘To the Bone’, do diretor Marti Noxon, realizado em 2017,  trata o tema  anorexia do ponto de vista da pessoa anoréxica, isso é, com a  indiferença afetiva que a caracteriza. Nesse sentido, não faz apologia  do mau relacionamento com a mãe e nem das dificuldades com a sexualidade, jargões que caminham juntos nesta questão.

Devemos entender que não estamos  preparados psicologicamente para os sofrimentos da alma, tais como sofrer o medo, a autoexigência, a inveja, a alegria, o amor. Temos medo desses sentimentos e recusamo-nos a vê-los e aceitá-los. É difícil  perceber que estamos apaixonados ou que estamos competindo com a mãe. Ficamos constrangidos, no mínimo.

É nesse contexto que o filme mostra uma jovem que, ao não poder elaborar situações complexas da vida, desenvolve recursos de sobrevivência psíquica utilizando o próprio corpo. Encarna no corpo e torna palpável aquele  afeto que na vida real não consegue enfrentar: controla o sistema digestivo, tomado na sua maior concretude, de tubo de entrada e saída de alimento, ali, onde o afeto não é digerido, é expelido para o corpo sem deixar marca psíquica.

Não tendo aparato mental que consiga fazer frente aos desafios do seu nível de exigência de ser a melhor profissional, de ser o ideal grego de beleza, já que ideal é por definição algo não atingível, a decepção consigo é repetidamente vivida no corpo, entre comer e vomitar, controlando severamente  e castigando seu corpo nos exercícios doloridos, para conseguir um pouco de paz mental.

Implícita está a fantasia inconsciente de que, ao exigir de seu corpo o impossível com os exercicios (quase um castigo), e privar-se dos alimentos (fonte da vida), seu ideal imaginário de perfeição será alcançado. Que perfeição é essa a ser alcançada? Em última instância, esta perfeição seria o encontro consigo mesma.

É poder ser verdadeira ao experimentar os afetos que são humanos: amor, ódio, conhecimento. Parece simples, mas afetos humanos são aterrorizantes, e exigem aprendizado de negociação com o real e também desenvolvimento de  vocabulário afetivo, o que implica em ambiente externo facilitador e amoroso, condição necessária para aprendizagem.

Nem sempre a  familia  é um ambiente facilitador de aprendizagens afetivas. Como é muito claro no filme, as angústias do grupo familiar  são projetadas na mocinha: ela é a doente, e as questões desse grupo sólido e assustado diante do mundo ficam  aglutinadas na jovem. Ela é a  expressão das angústias  culturais do grupo familiar.

Nesse caso, os pais ao não saberem  o que fazer porque também não têm vocabulário afetivo, não voltam sua atenção para dentro do grupo familiar e passam a  encarar o grito afetivo-corporal da adolescente como um problema só da filha e daí o passo seguinte e mais asséptico é a medicalização.

Ora, não existe uma parte separada do todo. No filme, isso é bem retratado. Quando a família interna a adolescente, o problema fica bem longe, bem circunscrito, na filha, e não na dinâmica familiar, “que alívio, não precisamos nos questionar”.

Lá, ela  encontra seus pares e, por meio da figura de um rapaz afetivo, verdadeiro nas suas idiossincrasias, verdadeiro consigo próprio antes de tudo,  ela encontra o  ambiente facilitador que é respeitar o ser humano como ele é, na sua verdade particular, no lugar de ficar exigindo que ele seja outra pessoa que não si proprio, ou pior, que seja um ideal de ego. Porque esse, nem com todo exercício do mundo será atingido. É um ideal. Só isso.

O humano é imperfeito, é real e não ideal. Se não amamos nossas imperfeições, estamos condenados a esse castigo de Tântalo.

O chefe da clínica, personagem de Keanu Reeves, trata a jovem como ser humano a ser preparado para o confronto entre afeto e real, entre processo primário e secundário, dirá Freud. O trabalho terapêutico por ele realizado é o de continência afetiva, de introdução ao processo civilizatório do vocabulário afetivo. Na clínica há um ambiente facilitador.

Uma última palavra: a anorexia atinge todas as idades e gêneros, casos muito graves devem ser tratados com equipes multiprofissionais, casos mais leves são bem tratados pela psicanálise. Há uma gradação de gravidade e o que vamos privilegiar na psicanálise é que a pessoa possa ter acesso a si própria com confiança. Que possa respeitar a sua verdade particular e amá-la.

 

Cássia Barreto Bruno é analista didata e docente da SBPSP, IPA. Organizadora do livro “Distúrbios Alimentares, uma contribuição da Psicanálise”. ed Imago.2011.

 

O Mal-Estar na Adolescência: Dos Sofrimentos do Jovem Werther à Baleia Azul

Ana Maria Stucchi Vannucchi

“Eu tenho medo de morrer sem ter vivido”

 Joana, 16 anos

 

Qual seria a tarefa do adolescente? Em que turbilhão se move? Temos que multiplicar por mil as observações de Freud sobre o sofrimento humano, o conflito entre o indivíduo e a cultura e sobretudo, o confronto entre impulsos de vida e morte, para nos aproximarmos das vivências do adolescente em seu processo de vir a ser  e de construir-se como pessoa. Que tarefa difícil! Quantos caminhos e descaminhos encontramos!

Temos primeiramente as mudanças corporais, que apontam a necessidade de considerar o emergir da sexualidade e da agressividade. Neste momento, o adolescente precisa construir uma nova mente, elaborando as perdas das vivências e do corpo infantil. Esta tarefa não é fácil, envolve muito sofrimento e muitas inseguranças, além de muitas aventuras e experiências novas, que geralmente implicam um perigoso limite entre vida e morte.

Quem não viveu situações limite entre a vida e a morte? Quem não viveu sonhos delirantes de mudar o mundo? Quem não pensou em desistir de tudo e morrer? Quem não pensou que o amor poderia  salvar o mundo? Quem não “tomou todas” para esquecer as mágoas? Estas experiências são fundamentais para que possamos aproximar-nos desta ponte longa e estreita, sem corrimão, que descreve a travessia adolescente. Como acompanhar alguém sem segurá-lo ou empurrá-lo? Como conversar com alguém que parou no meio da ponte e tem medo de continuar? Ou que quer se jogar da ponte para sumir desta vida? Como criar uma conversa possível, mesmo com a distância  geracional que nos separa?

Vou deter-me em três situações clínicas, ficcionalizadas por razões de sigilo e ética, para poder expressar meu pensamento e minha maneira de trabalhar com jovens.

Bárbara (22 anos) tem sua vida afetiva gravitando em torno da mãe morta, evidenciando profunda melancolia e culpa por estar viva e ter sobrevivido à mãe. Ana (15 anos) odeia os humanos e vive em guerra com todos, família, colegas, embora sinta-se muito só e excluída. Quando não suporta mais a dor mental, refugia-se no “quarto branco”, expressão suprema de desobjetalização. Luna (18 anos), ambiciosa e orgulhosa, vê-se estraçalhada  e feita em pedaços  depois de ser reprovada no vestibular. Sente que a vida perdeu o sentido e começa a “namorar a morte”.

Acredito que nestas travessias, estamos mais intensamente às voltas com o binômio morte/vida, como vemos nestes casos clínicos que menciono. Acredito que não se trata de algo próprio da contemporaneidade, mas sim próprio deste momento de mudança catastrófica em que o Ego desorganiza-se e fragiliza-se para acolher novas identificações, que lhe facultam des-envolver-se da mente infantil, e aproximar-se do  que Freud chamava de Principio de Realidade (1911). Como recuperar a esperança ao lidar com as questões do binômio ilusão desilusão? Como facilitar o surgimento de uma esperança realista, ligada à capacidade de enfrentar as dificuldades da vida?

Do meu ponto de vista, esta questão não é contemporânea, mas vem desde a Antiga Grécia, com Sófocles, em ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’, com Sheakspeare em ‘Hamlet’,  com Goethe em ‘Os sofrimentos do Jovem Werther’, com Salinger, em ‘O apanhador no Campo de Centeio’, etc..Clássicos protagonizados por adolescentes que nos mostram como o trágico é constitutivo da adolescência.

Considero que a possibilidade do jovem ter um analista,  um terapeuta  ou mesmo alguém que o acompanhe nestes momentos de sofrimento, faz enorme  diferença, pois mitiga a solidão e oferece  uma oportunidade de encontro e vinculação afetiva.  Além disso, permite outros vértices de observação da experiência vivida, ampliando a capacidade de  sonhar/pensar, conter e transformar as emoções e recuperar o prazer de viver.

Ana Maria Stucchi Vannucchi é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

 

Sexo anatômico e identidade sexual

Não é exclusividade de nossos tempos a existência de pessoas que sofrem do sentimento de incompatibilidade entre o seu sexo anatômico e a sua identidade sexual. A crescente liberdade sexual conquistada pelas sociedades ocidentais – impulsionada sobretudo pela mudança da posição da mulher na sociedade – tem contribuído para uma maior aceitação e visibilidade de práticas sociais e sexuais que se afastam dos conceitos tradicionais e de sofrimentos que até então tinham pouco espaço para se manifestar.

A legalização do casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo têm estimulado o questionamento das noções tradicionais de gênero e tornado possível a manifestações de diversas identidades sexuais.

Transgeneralidade é um termo que abarca as pessoas que ultrapassam as normas de gênero baseada na equivalência pênis – macho – homem – masculino e vagina – fêmea- mulher – feminina.  Entre eles podemos citar os travestis, drag queens, drag kings, crossdressings e os transexuais. Denominamos de transexuais aqueles que se identificam com o sexo oposto àquele de seu nascimento. Nessa entrevista concedida ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Marcella Monteiro de Souza e Silva* fala sobre os dilemas entre sexo anatômico e identidade sexual, questão despertada principalmente na adolescência, e o papel dos pais, da família e do processo terapêutico nessa jornada que envolve profundas mudanças psíquicas.

Como a Psicanálise vê a questão do sentimento de inadequação entre o sexo biológico e a identidade sexual?

Freud, no início do século XX, provoca uma revolução na ideia de sexualidade vigente na sua época, afirmando não só a existência da sexualidade infantil como também apontando para o fato de que possuímos uma bissexualidade originária. Com isso, ele queria dizer que apesar de nascermos com um sexo anatômico definido, temos, inicialmente, uma disposição bissexual e só nos constituímos como homens ou mulheres através de um longo processo de identificação com as pessoas significativas com as quais nos relacionamos. Com essa colocação Freud inclui a dimensão social e psicológica na formação da nossa identidade sexual que passa a ser vista como uma construção, não se reduzindo e, portanto, nem sempre coincidindo com o nosso sexo biológico. Em 1964, o psicanalista Robert Stoller contribuiu para a discussão do assunto introduzindo a noção de “gênero” ou “identidade de gênero” na psicanálise. Com isso, ele propõe pensarmos a masculinidade e a feminilidade como aspectos psicológicos, sociais e históricos diferenciando-as do sexo no sentido biológico. Assim, vemos que a teoria psicanalítica já aponta para o fato de que a identidade sexual não se encontra soldada ao sexo biológico

 Os indícios do desejo de mudança de sexo costumam manifestar-se em que idade?

É importante termos em mente que não existe “o transexual” como uma categoria única, pois cada pessoa (seja ela transexual ou não) é um ser humano singular que vive e sofre a sua própria maneira. Daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade das histórias vividas pelos adolescentes ou adultos que desejam a “mudança de sexo”.

Muitas pessoas que sofrem com o sentimento de inadequação de seu sexo anatômico e sua identidade de gênero afirmam que desde muito cedo, ainda crianças, sentiam-se desconfortáveis com seu sexo biológico e identificavam-se com o sexo oposto ao seu de nascimento. Porém, é geralmente na adolescência, quando há uma segunda eclosão da sexualidade (sendo a primeira na infância, na época do complexo de Édipo), que esse sentimento de fato “ganha corpo”e que, geralmente, surge a vontade de “mudança de sexo”.

Vale lembrar que até mesmo o tratamento cirúrgico, chamado cirurgia de redesignação sexual, não altera efetivamente o sexo da pessoa, uma vez que ela não altera o material genético do indivíduo (XX nas mulheres e XY nos homens). Atualmente, a cirurgia, possível de ser realizada a partir dos 21 anos de idade no Brasil, só é indicada após um processo psicoterapêutico de alguns anos no qual essa decisão possa ser pensada e elaborada.

Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual.  Esse método consiste na administração de progesterona e estrógeno para as transexuais com identidade de gênero feminina e testosterona para os transexuais com identidade de gênero masculina.

Essas duas possibilidades oferecidas pela medicina nos dias de hoje – a intervenção cirúrgica ou o tratamento hormonal – tornam possível a minimização do sofrimento de pessoas que sentem incongruência entre seu sexo anatômico e a sua identidade de gênero. Com esses recursos, o transexual pode ser ajudado na tentativa de adaptar seu corpo ao seu sentimento de identidade de gênero, ou seja, ao gênero ao qual sente que pertence.

Quais os principais dilemas de um adolescente que quer mudar de sexo?

A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais e esforços de adaptação a elas. No caso de um adolescente que não se identifica com o seu sexo anatômico os desafios são ainda maiores.

Geralmente, nessa época os adolescentes sentem muito intensamente o desejo de reconhecimento segundo o gênero que eles próprios sentem ser o seu. Ou seja, eles desejam serem designados na escola e na família, segundo o gênero que lhes corresponde psicologicamente. Assim, muitos deles lutam por mudar o nome social, na lista de chamada da escola, por exemplo, e na família.

Embora os pais e as escolas estejam cada vez mais conscientes e sensíveis ao assunto, ainda é muito grande a resistência que os adolescentes encontram nessa área. Surgem receios de como serão vistos e aceitos pela comunidade e de como será sua vida afetiva e sexual.

Como os pais podem apoiar e se preparar para esse processo?

O apoio dos pais é fundamental para o adolescente que deseja “mudar de sexo”. Quanto mais os pais podem suportar e acolher o desejo do filho, maior será a possibilidade de o adolescente entrar em contato com seu desejo e tentar elaborá-lo de maneira a tomar as decisões que mais lhe convêm. E caso opte, de fato, pela cirurgia ou tratamento hormonal, ele poderá enfrentar as dificuldades da mudança corporal e dos desdobramentos emocionais que elas trarão.

Alguns pais podem ter dificuldade em aceitar o filho que manifesta tais desejos, vendo-o muito distante daquele filho que eles gostariam de ter. É importante que os pais possam elaborar o luto pelo filho desejado para que possam acompanhar o filho real na descoberta da pessoa que ele é. Muitas vezes o acompanhamento psicoterapêutico dos pais pode ajudá-los a estar mais próximo ao filho nesse processo.

Muitos pais inicialmente sentem-se culpados, atribuindo algum erro na sua criação do filho como determinante do desejo dele pela mudança de gênero. É importante que os pais possam ter em mente que a vida mental, psíquica é de tal complexidade que não é um fator exclusivo que determina nossos desejos e necessidades e sim uma série de elementos que, conjuntamente, nos fazem ser quem somos. O sentimento de culpa dos pais pode ser um entrave para a aceitação do filho.

E a escola, amigos e sociedade? Qual o papel desses relacionamentos nesse contexto?

Qualquer mudança corporal, seja ela apenas de aparência ou fruto do tratamento hormonal, tem uma repercussão psíquica muito grande no adolescente, por isso, a importância de ambiente de parceria entre a escola, a família e o adolescente.

A escola costuma ser o ambiente público mais importante do adolescente. É fundamental que ele possa sentir que neste lugar ele é respeitado e aceito segundo a designação que ele deseja. Assim, ser chamado pelo nome social na chamada escolar, pelos professores, por exemplo, pode significar muito para o adolescente. É importante também a escola estar atenta de como a comunidade escolar aceita e respeita o aluno e dá espaço para ele existir de acordo com o gênero que deseja.

O principal desejo do adolescente neste contexto é o reconhecimento e o sentimento de pertencimento.

De que forma a análise poderia ajudar o adolescente e/ou família nesse processo nesse momento?

Uma vez que todas as nossas manifestações psicológicas têm como base elementos conscientes e inconscientes, uma análise pode beneficiar muitíssimo tanto a família quanto o próprio adolescente ou criança que se sente desconfortável com a sua identidade de gênero.

Para o adolescente, a análise pode auxiliá-lo a discriminar se o que ele sente é um real desejo de mudança de gênero ou apenas uma enorme admiração pelo sexo oposto, pois muitas vezes essas duas coisas encontram-se imbricadas e de difícil discriminação sem um trabalho analítico. Este processo de autoconhecimento é muito importante pois muitas vezes pode-se definir precocemente que se trata de uma questão identitária enquanto o que está em jogo é somente uma fase da construção de identidade de gênero que, como vimos, passa pelos caminhos identificatórios do indivíduo. Por isso, pode ser temerária uma definição e intervenção em crianças, por exemplo.

O processo analítico pode contribuir também para desvendar fantasias que muitas vezes estão em jogo. Alguns indivíduos idealizam a mudança de gênero, acreditando que com ela estarão livres de sofrimentos que muitas vezes são inerentes à condição humana. Por isso, o trabalho sobre as expectativas em relação à mudança de gênero é importante.

Por propiciar um contato maior do indivíduo com ele mesmo, a análise pode ajudá-lo a fazer escolhas e tomar decisões mais conscientes para, inclusive, poder lidar com as consequências dessas escolhas como o autorreconhecimento no gênero escolhido, o processo de inserção social e ainda a relação com o próprio corpo.

A família pode ser beneficiada pela análise uma vez que essa pode ajudá-la a rever seus próprios valores, crenças e certezas e assim poder acompanhar o adolescente de maneira mais próxima e livre de preconceitos.

 

 

 

Marcella Monteiro de Souza e Silva é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de psicologia no Colégio Oswald de Andrade.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Como é ser mãe de um adolescente?

Karin Szapiro

Um antigo ditado judaico diz: “Filhos pequenos, problemas pequenos. Filhos grandes, problemas grandes”. Talvez o principal motivo seja porque quando os filhos crescem, novas questões surgem e a complexidade da vida aumenta. A chegada da adolescência e da puberdade põem um fim na criança que nossos filhos sabiam ser. Abre-se um novo ciclo de vida quando os jovens tornam-se estrangeiros para si mesmos e faz-se necessário a busca de uma nova identidade.  O caminho em direção ao mundo adulto que se percorre, com freqüência, é cheio de medos, conflitos e turbulências.

Afinal, como é ser mãe de um adolescente? Como lidar com esse momento desafiador quando os filhos entram em um novo ciclo de transformações? Muitas mães vivem a adolescência dos filhos como se elas próprias fossem expulsas de algum paraíso pois esse período vem com estranhamentos, sofrimento e angústias. Quando os filhos são pequenos, sua presença é fundamental. Elas conhecem tudo sobre suas crianças, participam ativamente de suas vidas, das conversas e festinhas. Quando eles crescem, a relação se transforma e as mães passam a ser bem menos requisitadas e necessárias. Por esse motivo, algumas mulheres chegam a ficar bastante ressentidas pois, de certo modo, se sentem sem lugar.

Pois bem, o tempo passou e chegou a hora dos filhos abandonarem o lugar da infância e, para tanto, é preciso se desgarrar e sair de baixo das asas dos pais que passam a ser vistos como ultrapassados e incapazes de compreendê-los.  É comum que os jovens desvalorizem seus conselhos e ajam com resistência e oposição. Esse é um momento de difícil enfrentamento onde a autoridade é testada ao limite. Simbolicamente, é o modo dos filhos viverem o tortuoso caminho da separação. E convenhamos, deixar a infância para trás e abrir mão da proteção dos pais em direção ao mundo adulto é um processo doloroso para todos os envolvidos. Doloroso, porém necessário.

Á medida que se aproxima a idade adulta, a sexualidade entra em ebulição, os jovens entram em contato com seus novos desejos, suas fantasias e conflitos. É natural que prefiram os seus pares para compartilhar a intimidade e dividir suas primeiras experiências sexuais e amorosas já que todos estão passando pelas mesmas fases. Ser acompanhado pelo grupo de amigos é reconfortante e fundamental pois dá uma sentimento de pertencimento que ajuda bastante e tem um valor inestimável.

Diante das mudanças irremediáveis que a passagem do tempo traz, os pais se perguntam como podem saber mais dos seus filhos e como é possível protegê-los. Para tanto, é preciso lembrar que uma relação é construída desde os primórdios e a cumplicidade entre pais e filhos acontece em um longo caminho. O respeito e a confiança são uma conquista delicada, resultados de uma convivência harmoniosa que se inicia desde o nascimento e se leva para toda a vida. A forma de se relacionar entre pais e filhos se transforma, por vezes se distancia, mas alguns pilares permanecem intactos. Pilares que foram construídos desde que os filhos vieram ao mundo, que incluem os valores transmitidos e tudo aquilo que foi aprendido no convívio até então.

Afinal, como lidar com os filhos que estão caminhando para a vida adulta? Sugiro responder com outra pergunta: Como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles? A presença dos pais na adolescência dos filhos é muito importante, mas não deve ser sufocante. É preciso traquejo, bom senso e um bom manejo para ir soltando as rédeas aos poucos. Como numa dança, é preciso ajustá-las, apertá-las, soltá-las mais um pouco, apertá-las novamente, abrir os olhos, deixá-los semicerrados, deixar passar algumas coisas, outras não, pente fino, pente grosso, errar, acertar, reparar os erros, aparar as arestas. Uma das vantagens é que esse percurso vai se dando numa transformação paulatina. Assim, dá tempo de todos aprenderem juntos. Para saber mais sobre os filhos, nada melhor do que se aproximar deles, chamá-los para uma conversa, observá-los, olhar nos seus olhos e usar a intuição. O contato, a comunicação, a empatia e o respeito são imbatíveis e sempre serão os melhores caminhos.

Quando os filhos crescem, as mães naturalmente são convidadas a ocupar um novo lugar: não mais serão as mães da infância, mas sim mães de jovens. Elas estarão sempre presentes nas suas vidas, mesmo que à distância. Adolescência, cuja etimologia vem do latim, onde ad = “para” e olescere = “crescer”, significa literalmente “crescer para”. Sendo assim, este novo ciclo torna-se uma boa oportunidade para mães e filhos crescerem juntos e abrirem novas possibilidades para si e para suas vidas.

 

Karin Szapiro é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, atende jovens e adultos em consultório particular.

O incesto e o abuso sexual

Por Claudio Castelo Filho *

Trabalho como psicanalista em meu próprio consultório há 32 anos. E já há algum tempo fui convidado pelo ilustre colega e amigo, grande pioneiro neste campo, o professor doutor Claudio Cohen, a colaborar, como supervisor convidado, com o Centro de Estudos e Atendimento Relativo ao Abuso Sexual (CEARAS) do Instituto Oscar Freire na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É onde acontece um extenso trabalho de pesquisa e psicoterapia com famílias incestuosas (pais com filhas/filhos, irmãos entre eles, mãe/filhos/filhas, avós/netas/netos, padrastos/madrastas/enteados, tios etc.), que revela o quanto a situação é ampla na sociedade, das classes mais baixas às mais privilegiadas. No trabalho feito com famílias encaminhadas por fóruns de justiça e que estão, portanto, sendo acompanhadas juridicamente, tratamos do grupo (família), que percebemos como “um indivíduo”, assim como no consultório analítico também podemos entender que uma pessoa é um “grupo de entidades”. Neste trabalho do CEARAS, em que a dimensão psíquica da situação é a prioridade, não é possível, por exemplo, haver uma “discriminação simplificada” entre vítima e algoz, pois o que se verifica é uma questão dinâmica de todo o grupo, em que a capacidade para pensar e simbolizar em geral é muito precária (o que não implica obviamente na desresponsabilização dos adultos envolvidos). O trabalho é focado na captação dessa problemática, na sua exposição e possível conscientização, para que se possa desenvolver alguma possibilidade de ela ser pensada e elaborada, visto que admoestações morais e repressão policial podem ser muito úteis e importantes para o grupo manter sua organização social, mas insuficientes e quase sempre inúteis para uma efetiva realização por parte da família e de seus membros do significado psíquico desse tipo de atuação.

Freud, Klein e Bion perceberam o aspecto fundamental da existência do tabu sobre o incesto, intrinsecamente associado ao desenvolvimento da capacidade para reconhecer e lidar com frustração, o que implica no crescimento da capacidade para pensar dos seres humanos, algo essencial no processo civilizatório. Sem isso, em pouco ou nada nos diferenciamos dos outros mamíferos superiores ou das feras selvagens, que permanecem sempre potenciais dentro de nós. Não obstante, o que se verifica é que essa capacidade civilizatória e para pensar é muito mais incipientemente desenvolvida do que se costuma acreditar. O que se observa, na prática, é que os aspectos mais primevos encontram pouco equipamento mental para elaborá-los e o incesto e o abuso sexual (além de toda a violência que observamos no cotidiano, o que não é novidade na história de nossa espécie) são muito mais comuns do que o tabu que os envolve leva a crer.

* Psicólogo formado pela Universidade de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Claudio Castelo Filho é membro efetivo e analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP. Castelo Filho é autor do de “O Processo Criativo: Transformação e Ruptura” (Ed. Blucher, 2015) e produziu este texto como parte da apresentação que fará na “I Jornada Sobre Abuso Sexual – Consequências para a subjetividade – Prevenção”, que a SBPSP realiza nos dias 1 e 2 de abril de 2016.

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.