Adolescência

O Mal-Estar na Adolescência: Dos Sofrimentos do Jovem Werther à Baleia Azul

Ana Maria Stucchi Vannucchi

“Eu tenho medo de morrer sem ter vivido”

 Joana, 16 anos

 

Qual seria a tarefa do adolescente? Em que turbilhão se move? Temos que multiplicar por mil as observações de Freud sobre o sofrimento humano, o conflito entre o indivíduo e a cultura e sobretudo, o confronto entre impulsos de vida e morte, para nos aproximarmos das vivências do adolescente em seu processo de vir a ser  e de construir-se como pessoa. Que tarefa difícil! Quantos caminhos e descaminhos encontramos!

Temos primeiramente as mudanças corporais, que apontam a necessidade de considerar o emergir da sexualidade e da agressividade. Neste momento, o adolescente precisa construir uma nova mente, elaborando as perdas das vivências e do corpo infantil. Esta tarefa não é fácil, envolve muito sofrimento e muitas inseguranças, além de muitas aventuras e experiências novas, que geralmente implicam um perigoso limite entre vida e morte.

Quem não viveu situações limite entre a vida e a morte? Quem não viveu sonhos delirantes de mudar o mundo? Quem não pensou em desistir de tudo e morrer? Quem não pensou que o amor poderia  salvar o mundo? Quem não “tomou todas” para esquecer as mágoas? Estas experiências são fundamentais para que possamos aproximar-nos desta ponte longa e estreita, sem corrimão, que descreve a travessia adolescente. Como acompanhar alguém sem segurá-lo ou empurrá-lo? Como conversar com alguém que parou no meio da ponte e tem medo de continuar? Ou que quer se jogar da ponte para sumir desta vida? Como criar uma conversa possível, mesmo com a distância  geracional que nos separa?

Vou deter-me em três situações clínicas, ficcionalizadas por razões de sigilo e ética, para poder expressar meu pensamento e minha maneira de trabalhar com jovens.

Bárbara (22 anos) tem sua vida afetiva gravitando em torno da mãe morta, evidenciando profunda melancolia e culpa por estar viva e ter sobrevivido à mãe. Ana (15 anos) odeia os humanos e vive em guerra com todos, família, colegas, embora sinta-se muito só e excluída. Quando não suporta mais a dor mental, refugia-se no “quarto branco”, expressão suprema de desobjetalização. Luna (18 anos), ambiciosa e orgulhosa, vê-se estraçalhada  e feita em pedaços  depois de ser reprovada no vestibular. Sente que a vida perdeu o sentido e começa a “namorar a morte”.

Acredito que nestas travessias, estamos mais intensamente às voltas com o binômio morte/vida, como vemos nestes casos clínicos que menciono. Acredito que não se trata de algo próprio da contemporaneidade, mas sim próprio deste momento de mudança catastrófica em que o Ego desorganiza-se e fragiliza-se para acolher novas identificações, que lhe facultam des-envolver-se da mente infantil, e aproximar-se do  que Freud chamava de Principio de Realidade (1911). Como recuperar a esperança ao lidar com as questões do binômio ilusão desilusão? Como facilitar o surgimento de uma esperança realista, ligada à capacidade de enfrentar as dificuldades da vida?

Do meu ponto de vista, esta questão não é contemporânea, mas vem desde a Antiga Grécia, com Sófocles, em ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’, com Sheakspeare em ‘Hamlet’,  com Goethe em ‘Os sofrimentos do Jovem Werther’, com Salinger, em ‘O apanhador no Campo de Centeio’, etc..Clássicos protagonizados por adolescentes que nos mostram como o trágico é constitutivo da adolescência.

Considero que a possibilidade do jovem ter um analista,  um terapeuta  ou mesmo alguém que o acompanhe nestes momentos de sofrimento, faz enorme  diferença, pois mitiga a solidão e oferece  uma oportunidade de encontro e vinculação afetiva.  Além disso, permite outros vértices de observação da experiência vivida, ampliando a capacidade de  sonhar/pensar, conter e transformar as emoções e recuperar o prazer de viver.

Ana Maria Stucchi Vannucchi é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

 

Sexo anatômico e identidade sexual

Não é exclusividade de nossos tempos a existência de pessoas que sofrem do sentimento de incompatibilidade entre o seu sexo anatômico e a sua identidade sexual. A crescente liberdade sexual conquistada pelas sociedades ocidentais – impulsionada sobretudo pela mudança da posição da mulher na sociedade – tem contribuído para uma maior aceitação e visibilidade de práticas sociais e sexuais que se afastam dos conceitos tradicionais e de sofrimentos que até então tinham pouco espaço para se manifestar.

A legalização do casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo têm estimulado o questionamento das noções tradicionais de gênero e tornado possível a manifestações de diversas identidades sexuais.

Transgeneralidade é um termo que abarca as pessoas que ultrapassam as normas de gênero baseada na equivalência pênis – macho – homem – masculino e vagina – fêmea- mulher – feminina.  Entre eles podemos citar os travestis, drag queens, drag kings, crossdressings e os transexuais. Denominamos de transexuais aqueles que se identificam com o sexo oposto àquele de seu nascimento. Nessa entrevista concedida ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Marcella Monteiro de Souza e Silva* fala sobre os dilemas entre sexo anatômico e identidade sexual, questão despertada principalmente na adolescência, e o papel dos pais, da família e do processo terapêutico nessa jornada que envolve profundas mudanças psíquicas.

Como a Psicanálise vê a questão do sentimento de inadequação entre o sexo biológico e a identidade sexual?

Freud, no início do século XX, provoca uma revolução na ideia de sexualidade vigente na sua época, afirmando não só a existência da sexualidade infantil como também apontando para o fato de que possuímos uma bissexualidade originária. Com isso, ele queria dizer que apesar de nascermos com um sexo anatômico definido, temos, inicialmente, uma disposição bissexual e só nos constituímos como homens ou mulheres através de um longo processo de identificação com as pessoas significativas com as quais nos relacionamos. Com essa colocação Freud inclui a dimensão social e psicológica na formação da nossa identidade sexual que passa a ser vista como uma construção, não se reduzindo e, portanto, nem sempre coincidindo com o nosso sexo biológico. Em 1964, o psicanalista Robert Stoller contribuiu para a discussão do assunto introduzindo a noção de “gênero” ou “identidade de gênero” na psicanálise. Com isso, ele propõe pensarmos a masculinidade e a feminilidade como aspectos psicológicos, sociais e históricos diferenciando-as do sexo no sentido biológico. Assim, vemos que a teoria psicanalítica já aponta para o fato de que a identidade sexual não se encontra soldada ao sexo biológico

 Os indícios do desejo de mudança de sexo costumam manifestar-se em que idade?

É importante termos em mente que não existe “o transexual” como uma categoria única, pois cada pessoa (seja ela transexual ou não) é um ser humano singular que vive e sofre a sua própria maneira. Daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade das histórias vividas pelos adolescentes ou adultos que desejam a “mudança de sexo”.

Muitas pessoas que sofrem com o sentimento de inadequação de seu sexo anatômico e sua identidade de gênero afirmam que desde muito cedo, ainda crianças, sentiam-se desconfortáveis com seu sexo biológico e identificavam-se com o sexo oposto ao seu de nascimento. Porém, é geralmente na adolescência, quando há uma segunda eclosão da sexualidade (sendo a primeira na infância, na época do complexo de Édipo), que esse sentimento de fato “ganha corpo”e que, geralmente, surge a vontade de “mudança de sexo”.

Vale lembrar que até mesmo o tratamento cirúrgico, chamado cirurgia de redesignação sexual, não altera efetivamente o sexo da pessoa, uma vez que ela não altera o material genético do indivíduo (XX nas mulheres e XY nos homens). Atualmente, a cirurgia, possível de ser realizada a partir dos 21 anos de idade no Brasil, só é indicada após um processo psicoterapêutico de alguns anos no qual essa decisão possa ser pensada e elaborada.

Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual.  Esse método consiste na administração de progesterona e estrógeno para as transexuais com identidade de gênero feminina e testosterona para os transexuais com identidade de gênero masculina.

Essas duas possibilidades oferecidas pela medicina nos dias de hoje – a intervenção cirúrgica ou o tratamento hormonal – tornam possível a minimização do sofrimento de pessoas que sentem incongruência entre seu sexo anatômico e a sua identidade de gênero. Com esses recursos, o transexual pode ser ajudado na tentativa de adaptar seu corpo ao seu sentimento de identidade de gênero, ou seja, ao gênero ao qual sente que pertence.

Quais os principais dilemas de um adolescente que quer mudar de sexo?

A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais e esforços de adaptação a elas. No caso de um adolescente que não se identifica com o seu sexo anatômico os desafios são ainda maiores.

Geralmente, nessa época os adolescentes sentem muito intensamente o desejo de reconhecimento segundo o gênero que eles próprios sentem ser o seu. Ou seja, eles desejam serem designados na escola e na família, segundo o gênero que lhes corresponde psicologicamente. Assim, muitos deles lutam por mudar o nome social, na lista de chamada da escola, por exemplo, e na família.

Embora os pais e as escolas estejam cada vez mais conscientes e sensíveis ao assunto, ainda é muito grande a resistência que os adolescentes encontram nessa área. Surgem receios de como serão vistos e aceitos pela comunidade e de como será sua vida afetiva e sexual.

Como os pais podem apoiar e se preparar para esse processo?

O apoio dos pais é fundamental para o adolescente que deseja “mudar de sexo”. Quanto mais os pais podem suportar e acolher o desejo do filho, maior será a possibilidade de o adolescente entrar em contato com seu desejo e tentar elaborá-lo de maneira a tomar as decisões que mais lhe convêm. E caso opte, de fato, pela cirurgia ou tratamento hormonal, ele poderá enfrentar as dificuldades da mudança corporal e dos desdobramentos emocionais que elas trarão.

Alguns pais podem ter dificuldade em aceitar o filho que manifesta tais desejos, vendo-o muito distante daquele filho que eles gostariam de ter. É importante que os pais possam elaborar o luto pelo filho desejado para que possam acompanhar o filho real na descoberta da pessoa que ele é. Muitas vezes o acompanhamento psicoterapêutico dos pais pode ajudá-los a estar mais próximo ao filho nesse processo.

Muitos pais inicialmente sentem-se culpados, atribuindo algum erro na sua criação do filho como determinante do desejo dele pela mudança de gênero. É importante que os pais possam ter em mente que a vida mental, psíquica é de tal complexidade que não é um fator exclusivo que determina nossos desejos e necessidades e sim uma série de elementos que, conjuntamente, nos fazem ser quem somos. O sentimento de culpa dos pais pode ser um entrave para a aceitação do filho.

E a escola, amigos e sociedade? Qual o papel desses relacionamentos nesse contexto?

Qualquer mudança corporal, seja ela apenas de aparência ou fruto do tratamento hormonal, tem uma repercussão psíquica muito grande no adolescente, por isso, a importância de ambiente de parceria entre a escola, a família e o adolescente.

A escola costuma ser o ambiente público mais importante do adolescente. É fundamental que ele possa sentir que neste lugar ele é respeitado e aceito segundo a designação que ele deseja. Assim, ser chamado pelo nome social na chamada escolar, pelos professores, por exemplo, pode significar muito para o adolescente. É importante também a escola estar atenta de como a comunidade escolar aceita e respeita o aluno e dá espaço para ele existir de acordo com o gênero que deseja.

O principal desejo do adolescente neste contexto é o reconhecimento e o sentimento de pertencimento.

De que forma a análise poderia ajudar o adolescente e/ou família nesse processo nesse momento?

Uma vez que todas as nossas manifestações psicológicas têm como base elementos conscientes e inconscientes, uma análise pode beneficiar muitíssimo tanto a família quanto o próprio adolescente ou criança que se sente desconfortável com a sua identidade de gênero.

Para o adolescente, a análise pode auxiliá-lo a discriminar se o que ele sente é um real desejo de mudança de gênero ou apenas uma enorme admiração pelo sexo oposto, pois muitas vezes essas duas coisas encontram-se imbricadas e de difícil discriminação sem um trabalho analítico. Este processo de autoconhecimento é muito importante pois muitas vezes pode-se definir precocemente que se trata de uma questão identitária enquanto o que está em jogo é somente uma fase da construção de identidade de gênero que, como vimos, passa pelos caminhos identificatórios do indivíduo. Por isso, pode ser temerária uma definição e intervenção em crianças, por exemplo.

O processo analítico pode contribuir também para desvendar fantasias que muitas vezes estão em jogo. Alguns indivíduos idealizam a mudança de gênero, acreditando que com ela estarão livres de sofrimentos que muitas vezes são inerentes à condição humana. Por isso, o trabalho sobre as expectativas em relação à mudança de gênero é importante.

Por propiciar um contato maior do indivíduo com ele mesmo, a análise pode ajudá-lo a fazer escolhas e tomar decisões mais conscientes para, inclusive, poder lidar com as consequências dessas escolhas como o autorreconhecimento no gênero escolhido, o processo de inserção social e ainda a relação com o próprio corpo.

A família pode ser beneficiada pela análise uma vez que essa pode ajudá-la a rever seus próprios valores, crenças e certezas e assim poder acompanhar o adolescente de maneira mais próxima e livre de preconceitos.

 

 

 

Marcella Monteiro de Souza e Silva é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de psicologia no Colégio Oswald de Andrade.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Como é ser mãe de um adolescente?

Karin Szapiro

Um antigo ditado judaico diz: “Filhos pequenos, problemas pequenos. Filhos grandes, problemas grandes”. Talvez o principal motivo seja porque quando os filhos crescem, novas questões surgem e a complexidade da vida aumenta. A chegada da adolescência e da puberdade põem um fim na criança que nossos filhos sabiam ser. Abre-se um novo ciclo de vida quando os jovens tornam-se estrangeiros para si mesmos e faz-se necessário a busca de uma nova identidade.  O caminho em direção ao mundo adulto que se percorre, com freqüência, é cheio de medos, conflitos e turbulências.

Afinal, como é ser mãe de um adolescente? Como lidar com esse momento desafiador quando os filhos entram em um novo ciclo de transformações? Muitas mães vivem a adolescência dos filhos como se elas próprias fossem expulsas de algum paraíso pois esse período vem com estranhamentos, sofrimento e angústias. Quando os filhos são pequenos, sua presença é fundamental. Elas conhecem tudo sobre suas crianças, participam ativamente de suas vidas, das conversas e festinhas. Quando eles crescem, a relação se transforma e as mães passam a ser bem menos requisitadas e necessárias. Por esse motivo, algumas mulheres chegam a ficar bastante ressentidas pois, de certo modo, se sentem sem lugar.

Pois bem, o tempo passou e chegou a hora dos filhos abandonarem o lugar da infância e, para tanto, é preciso se desgarrar e sair de baixo das asas dos pais que passam a ser vistos como ultrapassados e incapazes de compreendê-los.  É comum que os jovens desvalorizem seus conselhos e ajam com resistência e oposição. Esse é um momento de difícil enfrentamento onde a autoridade é testada ao limite. Simbolicamente, é o modo dos filhos viverem o tortuoso caminho da separação. E convenhamos, deixar a infância para trás e abrir mão da proteção dos pais em direção ao mundo adulto é um processo doloroso para todos os envolvidos. Doloroso, porém necessário.

Á medida que se aproxima a idade adulta, a sexualidade entra em ebulição, os jovens entram em contato com seus novos desejos, suas fantasias e conflitos. É natural que prefiram os seus pares para compartilhar a intimidade e dividir suas primeiras experiências sexuais e amorosas já que todos estão passando pelas mesmas fases. Ser acompanhado pelo grupo de amigos é reconfortante e fundamental pois dá uma sentimento de pertencimento que ajuda bastante e tem um valor inestimável.

Diante das mudanças irremediáveis que a passagem do tempo traz, os pais se perguntam como podem saber mais dos seus filhos e como é possível protegê-los. Para tanto, é preciso lembrar que uma relação é construída desde os primórdios e a cumplicidade entre pais e filhos acontece em um longo caminho. O respeito e a confiança são uma conquista delicada, resultados de uma convivência harmoniosa que se inicia desde o nascimento e se leva para toda a vida. A forma de se relacionar entre pais e filhos se transforma, por vezes se distancia, mas alguns pilares permanecem intactos. Pilares que foram construídos desde que os filhos vieram ao mundo, que incluem os valores transmitidos e tudo aquilo que foi aprendido no convívio até então.

Afinal, como lidar com os filhos que estão caminhando para a vida adulta? Sugiro responder com outra pergunta: Como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles? A presença dos pais na adolescência dos filhos é muito importante, mas não deve ser sufocante. É preciso traquejo, bom senso e um bom manejo para ir soltando as rédeas aos poucos. Como numa dança, é preciso ajustá-las, apertá-las, soltá-las mais um pouco, apertá-las novamente, abrir os olhos, deixá-los semicerrados, deixar passar algumas coisas, outras não, pente fino, pente grosso, errar, acertar, reparar os erros, aparar as arestas. Uma das vantagens é que esse percurso vai se dando numa transformação paulatina. Assim, dá tempo de todos aprenderem juntos. Para saber mais sobre os filhos, nada melhor do que se aproximar deles, chamá-los para uma conversa, observá-los, olhar nos seus olhos e usar a intuição. O contato, a comunicação, a empatia e o respeito são imbatíveis e sempre serão os melhores caminhos.

Quando os filhos crescem, as mães naturalmente são convidadas a ocupar um novo lugar: não mais serão as mães da infância, mas sim mães de jovens. Elas estarão sempre presentes nas suas vidas, mesmo que à distância. Adolescência, cuja etimologia vem do latim, onde ad = “para” e olescere = “crescer”, significa literalmente “crescer para”. Sendo assim, este novo ciclo torna-se uma boa oportunidade para mães e filhos crescerem juntos e abrirem novas possibilidades para si e para suas vidas.

 

Karin Szapiro é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, atende jovens e adultos em consultório particular.

O incesto e o abuso sexual

Por Claudio Castelo Filho *

Trabalho como psicanalista em meu próprio consultório há 32 anos. E já há algum tempo fui convidado pelo ilustre colega e amigo, grande pioneiro neste campo, o professor doutor Claudio Cohen, a colaborar, como supervisor convidado, com o Centro de Estudos e Atendimento Relativo ao Abuso Sexual (CEARAS) do Instituto Oscar Freire na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É onde acontece um extenso trabalho de pesquisa e psicoterapia com famílias incestuosas (pais com filhas/filhos, irmãos entre eles, mãe/filhos/filhas, avós/netas/netos, padrastos/madrastas/enteados, tios etc.), que revela o quanto a situação é ampla na sociedade, das classes mais baixas às mais privilegiadas. No trabalho feito com famílias encaminhadas por fóruns de justiça e que estão, portanto, sendo acompanhadas juridicamente, tratamos do grupo (família), que percebemos como “um indivíduo”, assim como no consultório analítico também podemos entender que uma pessoa é um “grupo de entidades”. Neste trabalho do CEARAS, em que a dimensão psíquica da situação é a prioridade, não é possível, por exemplo, haver uma “discriminação simplificada” entre vítima e algoz, pois o que se verifica é uma questão dinâmica de todo o grupo, em que a capacidade para pensar e simbolizar em geral é muito precária (o que não implica obviamente na desresponsabilização dos adultos envolvidos). O trabalho é focado na captação dessa problemática, na sua exposição e possível conscientização, para que se possa desenvolver alguma possibilidade de ela ser pensada e elaborada, visto que admoestações morais e repressão policial podem ser muito úteis e importantes para o grupo manter sua organização social, mas insuficientes e quase sempre inúteis para uma efetiva realização por parte da família e de seus membros do significado psíquico desse tipo de atuação.

Freud, Klein e Bion perceberam o aspecto fundamental da existência do tabu sobre o incesto, intrinsecamente associado ao desenvolvimento da capacidade para reconhecer e lidar com frustração, o que implica no crescimento da capacidade para pensar dos seres humanos, algo essencial no processo civilizatório. Sem isso, em pouco ou nada nos diferenciamos dos outros mamíferos superiores ou das feras selvagens, que permanecem sempre potenciais dentro de nós. Não obstante, o que se verifica é que essa capacidade civilizatória e para pensar é muito mais incipientemente desenvolvida do que se costuma acreditar. O que se observa, na prática, é que os aspectos mais primevos encontram pouco equipamento mental para elaborá-los e o incesto e o abuso sexual (além de toda a violência que observamos no cotidiano, o que não é novidade na história de nossa espécie) são muito mais comuns do que o tabu que os envolve leva a crer.

* Psicólogo formado pela Universidade de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Claudio Castelo Filho é membro efetivo e analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP. Castelo Filho é autor do de “O Processo Criativo: Transformação e Ruptura” (Ed. Blucher, 2015) e produziu este texto como parte da apresentação que fará na “I Jornada Sobre Abuso Sexual – Consequências para a subjetividade – Prevenção”, que a SBPSP realiza nos dias 1 e 2 de abril de 2016.

A Psicanálise de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias

Por Maria Thereza de Barros França [1], Regina Elizabeth Lordello Coimbra [2] e Ligia Todescan Lessa Mattos [3]

É mais fácil atender crianças em análise do que adultos? Existe atendimento psicanalítico para bebês? E adolescentes, é difícil atendê-los? Vamos nos lembrar de uma popular cantiga de roda que serviu de inspiração para este texto: 

Ciranda, cirandinha

vamos todos cirandar

vamos dar a meia-volta

volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes

era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas

era pouco e se acabou.

Por isso, Dona Fulana

faz favor de entrar na roda,

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá-se embora.

O “cirandar” nos remete ao trabalho psicanalítico com crianças, no qual precisamos (re)aprender a brincar, entrar e sair da roda, lidar com interação, amor, desamor, individuação, possibilidade ou não de reparação, separação, movimento, regressão, desenvolvimento.

É comum a ideia de que é “mais fácil” atender crianças já que são mais espontâneas, menos defendidas e que seria simples estabelecer um contato lúdico com elas, recorrendo às nossas próprias experiências infantis, ou de contato com crianças dos nossos relacionamentos. É essa ideia que leva muitos jovens começarem sua vida profissional atendendo crianças.

No trabalho com a criança uma questão se coloca: “infante” é aquele que não fala. Então, como é que a criança fala? E como é que é possível falar com a criança?

O campo é repleto de variáveis e exige do analista, antes de tudo, condições pessoais, não apenas emocionais, mas entusiasmo, disposição para brincar, (já que o brincar é a fala da criança), interesse genuíno e prazer de desfrutar do contato analítico com crianças. Essas condições, é claro, não dispensam os conhecimentos acerca do desenvolvimento emocional infantil, dos fatores que o favorecem, aqueles que o prejudicam, das patologias decorrentes e das questões técnicas ligadas à especificidade do trabalho.

Ao longo dos anos, a psicanálise vem acumulando conhecimentos sobre o desenvolvimento inicial das crianças, a partir da observação de bebês e de sua interação com suas mães. Hoje já se fazem atendimentos interessantes que têm como foco a relação pais-bebê e que permitem que precocemente sejam detectados sinais de riscos ao desenvolvimento. Um trabalho preventivo torna-se então possível.

Por sua vez, a infância, a puberdade e, particularmente, a adolescência, são períodos de transformações que exigem do analista conhecimento, sensibilidade e disponibilidade para lidar com as demandas emocionais de cada um desses momentos do desenvolvimento humano.

Essas características do trabalho do psicanalista de crianças e adolescentes vêm, cada vez mais, impondo também a necessidade do atendimento aos pais que procuram ajuda para seus filhos. Esse atendimento se inicia desde o momento de recebê-los e acolhê-los e se prolonga ao longo de uma construção conjunta do entendimento das dificuldades que enfrentam com seus filhos.

Considerando toda a complexidade do atendimento de crianças e adolescentes, um grupo de psicanalistas formados na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pensou em oferecer um espaço aberto a jovens psicólogos, pediatras, psiquiatras infantis, profissionais da educação (e de áreas afins) para o estudo e o entendimento desse período do desenvolvimento do ser humano, do nascimento à adolescência.

Assim como os jovens profissionais que iniciam suas carreiras atendendo crianças, esses psicanalistas também fizeram sua trajetória começando pela psicanálise de crianças e adolescentes e permaneceram nesse campo ao longo dos anos.

O CURSO

A SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade, que tem entre suas finalidades a difusão da psicanálise para a sociedade, encamparam a ideia e ofereceram respaldo para a criação do curso CINAPSIA – Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico de Crianças e Adolescentes.

A sigla CINAPSIA faz alusão à palavra “sinapse” que nos remete ao sistema nervoso, aos pontos de contato entre as terminações das células nervosas, os neurônios. Do significado da palavra sinapse destaca-se o de união, aspecto que orienta o curso, pelo importante papel que os vínculos afetivos e elos de ligação de várias ordens desempenham no processo de desenvolvimento psíquico.

O CINAPSIA não se propõe a formar psicanalistas, mas sim desenvolver uma atitude: o olhar e a escuta psicanalíticos voltados ao bebê, à criança, ao adolescente e seus pais. As aulas abordarão o processo de desenvolvimento, partindo da família que aguarda o bebê, a chegada do mesmo, seu crescimento, as características da latência, as transformações da adolescência, as perturbações que podem afetar esse processo e sua abordagem terapêutica. O curso abre também espaço para que os alunos, em pequenos grupos, exponham suas experiências e discutam com os professores que coordenam a atividade.

O CINAPSIA irá oferecer ocasião singular para estudo, reflexão e debates científicos sobre o atendimento psicanalítico de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias, contando para tanto, além do seu corpo docente (relacionado abaixo), com alguns analistas convidados, brasileiros e estrangeiros.

[1] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, coordenadora do CINAPSIA.

[2] Membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes e psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA, diretora da DAC – Diretoria de Atendimento à Comunidade.

[3] Membro efetivo e didata da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes, assessora da diretora da DAC.

 

 

 

Adolescência

A adolescência é um período de transição da vida infantil para a fase adulta. Trata-se de um momento crítico do desenvolvimento, no qual – além das mudanças físicas definitivas – o indivíduo vai construir novos valores e vivenciar experiências afetivas e sociais que necessitam outros e recém adquiridos recursos psíquicos. A formação de uma identidade adulta e o enfrentamento de conflitos gerados pela perda da infância e o ingresso em uma nova etapa são aspectos centrais dessa fase. Também para os pais o momento é crucial. Reconhecer que os filhos cresceram e estão prontos (ou quase prontos) para seguir adiante não é um processo fácil. Sobre o tema, vale ler o ótimo artigo do psicanalista e membro da SBPSP, David Levisky.

Adolescência

Por David Levisky*

A adolescência é um fenômeno universal, presente desde o surgimento do homem simbólico. Trata-se de um período crítico do desenvolvimento humano por ocasião da passagem da vida infantil para a vida adulta. Ela decorre das transformações hormonais revolucionárias responsáveis pelo crescimento e manifestações da sexualidade adulta com o inicio da puberdade, que gera mudanças primárias e secundárias da sexualidade. As primárias, com o surgimento da menstruação – fruto da capacidade de ovulação e seu ciclo na menina e da ejaculação com a produção de espermatozoides no menino. As secundárias se caracterizam pela distribuição dos pelos, gorduras, seios, pênis, mudanças de voz, peso e estatura.

O fenômeno central da adolescência é a busca da identidade adulta. Nesse processo de transição há uma crise oriunda de conflitos gerados pelas perdas da vida infantil, do corpo infantil e dos pais da infância até a aquisição de novos objetos de amor, de múltiplas experiências afetivas, intelectuais e sociais. Renovação de valores, de ideais de si, da autoestima e de recursos para lidar com as realidades internas e externas e maior tolerância às frustrações fazem parte desse porvir. Vivem ambivalências e contradições e tentam integrá-las em um sentimento de si, para serem capazes de conter indecisões, dúvidas, incertezas que requerem tempo e experiência de vida na busca de maior autonomia.

Eles atravessam fases depressivas, impulsivas, explosivas, passivas, hiperativas, momentos de onipotência, de negação da realidade, de inconsequência e baixo teor de responsabilidade até que uma sucessão de experiências exitosas e negativas contribuem para a construção de recursos psíquicos para desenvolver uma percepção mais clara de suas possibilidades e limites. A configuração de uma boa autoestima é fator fundamental na elaboração e evolução da personalidade e da identidade. Necessitam incorporar em seu eu aspectos masculinos e femininos da personalidade; tarefa complexa que depende de fatores intrínsecos dos jovens e de suas relações com os pais e sociedade durante a vida.

O tempo de duração e término da adolescência dependem de fatores múltiplos e implicam requisitos impostos pela sociedade para considerar um indivíduo como adulto. Nas culturas indígenas, por exemplo, era necessário – uma vez atingida a maturidade reprodutora –, ser capaz de enfrentar os ritos de passagem que definiriam as condições de ser adulto para aquela sociedade e cultura como: saber caçar, pescar, cultivar, cozinhar, lutar, defender sua família e território.

Nas sociedades contemporâneas os ritos de passagem estão diluídos entre os múltiplos recursos a serem desenvolvidos para fazer parte da vida adulta. Não é suficiente alcançar a capacidade reprodutora e ter uma profissão. É necessário aprender a dirigir carro ou moto, passar no vestibular, aprender línguas, fazer mestrado e, se possível doutorado e pós-doc. Tudo isso faz com que o período de transição se alargue, podendo chegar tardiamente. Alguns atingirão a plena maturidade somente após os 35 anos, constituindo o que alguns autores chamam de “geração canguru”. São jovens que não querem e não precisam abandonar a casa dos pais para terem uma vida afetiva, social, profissional autônomas. Vivem uma independência relativa às suas conveniências. Conservam os privilégios da vida adolescente e querem usufruir das vantagens da vida adulta. O alargamento do tempo de vida dos pais tende a criar condições facilitadoras para a permanência dos filhos em casa. Pais e filhos podem formar um conluio inconsciente que protela a entrada dos filhos na plenitude da vida adulta.

Pode-se afirmar que o término da adolescência é variável e dependente de fatores psicológicos, sociais, econômicos, culturais, religiosos, políticos e históricos de cada sociedade dentro de sua cultura.

A adolescência é um período de transição sempre turbulento – crise da adolescência – tanto para os jovens quanto para as famílias. A turbulência dos jovens advém não só das transformações orgânicas, mas, também, dos processos de mudanças psicológicos, sociais, econômicos, políticos, religiosos e históricos que interferem na constituição do aparelho psíquico, da vida afetiva e social.

Ao se desvencilharem do corpo infantil, dos pais da infância e do seu próprio modo de funcionamento enquanto crianças necessitam assimilar novas experiências afetivas com a descoberta de novos objetos de gratificação amorosa e sexual, definição da identidade sexual, capacidades intelectuais e da vida em geral. Processos que os capacitam a lidar com recursos criativos para lidar com incertezas, dúvidas, frustrações e decisões ao enfrentarem novos desafios.

Durante essa fase de transição, há um enfraquecimento do ego, isto é, das funções que administram as relação do jovem com ele mesmo e com a vida exterior. Neste período o jovem se torna vulnerável à emergência de quadros comportamentais que lembram desvios (patologias), visto que ficam impulsivos, prepotentes, tendem a negar a realidade, não medem adequadamente as consequências de seus atos e são, por natureza, instáveis, insaciáveis e pouco responsáveis. A intensidade desses fenômenos se agrava quanto mais complexo e sofrido tiverem sido os primeiros anos de vida.

Com o enfraquecimento do ego – das capacidades de administrar os vários elementos psíquicos que o compõe – há uma tendência a que tais conflitos do passado interfiram na organização dos sentimentos, na forma de ser, sentir, pensar e agir. A adolescência é considerada como um segundo nascimento – uma oportunidade para reconfigurar e reordenar valores, formas de lidar com as angústias, projetos e recursos para alcançar formas de realização. A primeira oportunidade para o desenvolvimento adequado da atividade psíquica começa no início da vida e até antes mesmo da criança nascer, no imaginário dos pais.

Na adolescência, o jovem tem condições para adquirir novos valores e desenvolver a capacidade de ser continente de seus afetos, sonhos, desejos, fantasias, frustrações e realizações. São também capazes de reparar, refazer erros cometidos e escolhas inadequadas de caminhos. Para isso é fundamental que sua autoestima seja preservada e revitalizada. Sua inserção social é significativamente diferente quando eles se sentem úteis, valorizados e participativos da vida social.

Há aspectos na adolescência que se modificam tão rapidamente como a moda e o linguajar. Outros, se modificam lentamente como valores, ideais, filosofias de vida, modos de lidar com o sofrimento psíquico e formas de se defender ou de enfrentar situações. Há, ainda, mudanças tão lentas que parecem imutáveis, mas que se transformam no longuíssimo tempo como a elaboração do Édipo. A metabolização das relações triangulares entre filhos, (mãe) funções maternas e (pai) funções paternas tendem a ser muito lentas.

As famílias também passam por um grau de transtorno diante das necessidades de se desvencilharem do filho da infância até que possam reconhecer o desenvolvimento do filho(a) e incorporar que ele(a) não necessita mais dos cuidados dos pais da infância.

A delinquência na adolescência é reflexo de falhas precoces nas relações afetivas do início da vida e que emergem nos comportamentos inconscientes durante a crise da adolescência.

Uma sociedade na qual a desfaçatez e a corrupção são normas de convivência, elas servem de modelo de identificação para jovens em plena reestruturação de sua personalidade. A delinquência pode ser um grito de alerta para aqueles que a escutam como “eu existo, eu quero ser considerado, alguém me tirou esse direito e condição”. Nestes jovens a ferida da autoestima vem de longa data e se transforma em um modo de ser no mundo. Surge uma dose de esperança quando medidas psicosocioeducativas são tomadas com vistas à reinserção psicossocial.

Quando se vive num país carente de pai e mãe simbólicos, onde os elementos internos e externos reguladores da vida social são fracos ou ausentes, autoriza-se as várias formas de violência.

A democracia interna e social dependem da eterna vigilância. Entenda-se, da eterna consciência necessária e desejável para se alcançar o equilíbrio entre os elementos construtivos e destrutivos que estão sempre presentes em todos nós. É na adolescência que se pode ter vivências que facilitam o aprender com as experiências no intuito de simbolizar, sublimar e de modular os impulsos para a inserção no convívio psicossocial.

Onde há um adolescente é necessário que haja um adulto (pai, mãe, professor, tio, padrinho, amigo) mais experiente que o confronte no sentido de refletir e ponderar sobre seus atos impulsivos. É da existência do conflito que o jovem desenvolverá pontos internos de referência para analisar e modular suas ações e valores. O adolescente contribui para o desenvolvimento dos pais e da sociedade adulta por ser a parte mais ativa e renovadora da sociedade. Crescemos com as confrontações dos jovens que nos fazem ver e pensar diferentemente do que estamos acostumados ao introduzirem novas formas de ser, sentir, pensar e agir. Simetrias e assimetrias nas relações, limites entre público e privado, noções de liberdade versus responsabilidades estão presentes e colocam os jovens em confronto consigo mesmos, com seus pais e a sociedade da qual fazem parte. São energias que mobilizam e dão sentido ao viver criativo.

* David Levisky é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e tem especialização nas áreas da Infância e da Adolescência. É PhD em História Social (USP).