Adolescência

Quarta-feira de manhã

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

           

            – Oi.

            – Oi.

            – Essa noite eu tive aquele sonho de novo.

Eu o conheço, já nos vimos algumas vezes, mas, apesar do meu esforço, ainda não consigo me lembrar de sua história ou de seu sonho repetido.

            – Você me conta o sonho de novo?

            – Eu sonhei que estava preso aqui mesmo, na Fundação [Casa], e eles tinham comprado espelhos pra pôr nos quartos. Mas quando eu me olhava, eu não tinha um rosto. Fiquei assustado e acordei.

Qual a prioridade desse rapaz ao me ver novamente depois de um mês? Falar sobre o seu sintoma? Sobre a medicação? Sobre as terríveis condições de sua internação? Sobre sua realidade socioeconômica, um pesadelo desperto? Sobre seus crimes, seu envolvimento com facções criminosas? Nada disso. Sua prioridade é me abraçar e me contar um sonho. O efeito da narração é imediato, a imagem que tenho dele se torna um tanto mais consistente e uma série de memórias sobre sua história passam a emergir dentro de mim. Respondo a partir do local onde fui colocado:

      – Agora eu me lembrei do seu sonho. Por que você acha que ele se repete tantas vezes?

      -Sei lá, talvez ele esteja me mandando alguma mensagem.

      -Qual mensagem?

      – Não sei… (algum tempo em silêncio). Essa semana eu estava vendo de novo uns episódios daquele seriado que eu gosto, aquele dos tronos, sabe? Então, tem uma parte que eu gosto bastante, é sobre uma menina que perde os pais e tem que se virar sozinha, esqueci o nome dela. Ela encontra uma grupo de assassinos que dão casa e comida pra ela, e que começam a treinar ela pra ser uma assassina também. Eles acreditam no Deus de Muitas Faces, que é um deus da morte. No treinamento, ela tem que esquecer que ela é ela, que ela tem um nome, que ela tinha pais, que ela tinha irmãos e amigos. Ela tem que se tornar Ninguém pra depois poder se disfarçar com qualquer identidade que ela queira. Esse é o melhor jeito pra poder se aproximar dos outros e matar quem precisa ser morto. Nesse treinamento, o mestre dela fica perguntando: “Qual é seu nome?”; ela responde: “Eu não tenho nome”. Daí, se ele acha que ela não acredita no que está dizendo, ele a espanca e diz que ela ainda acredita que é Alguém. E daí…doutor, posso tirar minha blusa, tô com calor…

    – Sim, claro.

Nos outros ambientes da Fundação ele não pode tirar a blusa, deve ficar uniformizado com o moletom azul comum a todos os adolescentes. Do meu ponto de vista, tal uniformização contribui bastante com o Deus de Muitas Faces. Ele tira a blusa e por baixo veste uma camiseta de mangas curtas. Tem braços fortes e os apoia sobre a mesa, na minha direção. Suas tatuagens se fazem presente ao meu olhar.

      – Você tem muitas tatuagens.

      – Ah, é verdade, quer saber o que elas significam?

      – Sim.

Ele começa a descrever os significados das tatuagens, uma a uma, e penso que elas poderiam ser reunidas em dois grupos diferentes. O primeiro grupo representa o processo de despersonalização. Tornar-se Ninguém, ser eficiente dentro de um grupo criminoso, adorar o deus da morte. Ele fala, um tanto desafetado:

      – Essa aqui significa que sou membro do grupo P. Essa aqui significa que um policial está cercado por quatro bandidos e que ele vai morrer. Essa aqui significa paciência para que o crime possa ser premeditado com frieza. Essa aqui significa que a vida é só um jogo, como um jogo de cartas ou de dados, então tanto faz viver ou morrer. Essa aqui significa o tráfico de drogas. Essa aqui…não, essa aqui deixa pra lá. Essa outra aqui significa…

       – Espera, por que você pulou essa aí?

       – Ah, é porque essa é triste, essa é pra lembrar de um amigo meu de infância que morreu no crime. A gente era muito parça [parceiro].

Ele se entristece, seus olhos ficam marejados. Ele tenta engolir o choro e continua a falar sobre o primeiro grupo de tatuagens. Tenta fazer a raiva triunfar sobre a tristeza mas já não consegue, começa a chorar bastante. A tatuagem do luto de seu parça é representante do segundo grupo. São tatuagens que erguem um espelho diante de si e lhe mostram que ele ainda acredita ser Alguém. Também nesse grupo estão tatuados: o nome de sua filha, o nome da sua mãe, o nome da sua avó, o nome das suas irmãs e irmãos (não há o nome do pai, e também nunca houve um pai), uma estrela que representa a mulher que ama (ele não sabe que ainda a ama, ficou revoltado com o afastamento dela depois de seu terceiro crime, mas fala dela quase o tempo todo quando conversamos), o time de coração (aquele que sabe ser o mesmo time de seu avô materno), uma lágrima tatuada logo abaixo do seu olho que significa a tristeza provocada em quem está lá fora.

O tempo da consulta já se esgotou há muito tempo, ouço vozes do lado de fora que estão interrogando sobre meu atraso. Apesar da pressão, sustento o espaço para que meu paciente possa elaborar um pouco mais em silêncio. Enquanto isso, reflito sobre o longo caminho que percorremos até aqui. De início, meses e meses diante de graves sintomas psiquiátricos e repetidas atuações autodestrutivas, até que um sonho pudesse ser constituído. Dali, mais uma travessia até hoje, quando o sonho repetido ganha significados que possam ser falados e escutados. E daí em diante não sei, veremos. Mas quando se sonha ser Ninguém, já não se é Ninguém. Neste momento, ele é Alguém que sonha ser Ninguém, e aqui se apresenta uma das potencialidades fundamentais do trabalho psicanalítico. A possibilidade da Fundação de uma Casa psíquica.

 

Este texto é um recorte do artigo “Quarta-feira de manhã”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise [Volume 51, n. 4, 107-21 · 2017]. O autor trabalhou por alguns anos como psiquiatra de adolescentes internados em diversas unidades da Fundação Casa. Invadido e pressionado por memórias daquele período, o trabalho da escrita se mostrou útil para elaborar suas experiências

 

Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP e supervisor de médicos residentes em psiquiatra no estágio de psicoterapia.

 

O primeiro sutiã…a gente nunca esquece!

Karin Szapiro*

Quem viu, lembra. A famosa campanha publicitária de Washington Olivetto para a marca Valisere em 1987. Trata-se de uma menina de uns 12 anos que ganha seu primeiro sutiã. Ela chega no quarto e surpreende-se com uma caixa de presentes deixada sobre a cama. Ao abrir a caixa, fica maravilhada com seu primeiro sutiã. Veste-se delicadamente, olha-se com encanto e poesia e suspira: “Como é lindo! Como esse sutiã me deixa feminina!”

Já vestida com seu sutiã, a menina então desfila na rua pela primeira vez, um tanto deslumbrada e ao mesmo tempo acanhada com sua entrada no mundo adulto. O filme é inesquecível, e passados 30 anos dessa campanha premiadíssima, o encanto de tornar-se mulher continua o mesmo. Afinal, não se nasce mulher, torna-se.

É um devir delicado e cheio de contradições. A menina que brincou todo o tempo de ser a mocinha, que sonhou com esse momento mágico, é tomada de emoção ao perceber que seus mamilos crescem, os seios despontam, seu bumbum esta cada vez mais arredondado e seu quadril mais volumoso.

Chega a menarca, a primeira menstruação, ela experimenta então o primeiro absorvente. É um turbilhão de sensações que acompanham tantas transformações e novidades do seu corpo. Era uma vez uma menina. Agora, abre-se o lugar para uma mulher que vai surgindo.

A menina da propaganda se encanta com o novo, mas também se assusta na rua ao se perceber admirada por um rapaz. Logo esconde seus seios por detrás de um caderno. O mundo é algo a ser descoberto, encanta, excita e amedronta ao mesmo tempo.

Nem sempre crescer é prazeroso, por vezes, é sofrido. Quando aparecem as espinhas que cobrem o delicado rosto, quando vêm as infindáveis angústias e indagações dessa fase e assim por diante.

E o primeiro beijo? Quando virá?

Será que vou ser admirada e desejada?”

Como vou lidar com tantas sensações novas que surgem dentro de mim?

Como vou conter tantas excitações que me tiram do prumo?

Como serão os primeiros passos para fora do universo que eu conheço?

Eu quero e temo, tudo ao mesmo tempo.”

Nem tudo é encanto como no filme da Valisere, nem sempre é fácil. São anos de transformações, dramas, distanciamentos, estranhamentos, aproximações e reaproximações. Inevitavelmente, uma revolução doméstica se dá e todos precisam se haver com tantas mudanças.

A adolescência tem um caráter transitório. É uma fase caótica, de comportamentos estranhos que estariam fadados a desaparecer logo ao despertar do adulto, é como uma vivência onírica que se desmancha ao longo do tempo. A menina fica para trás e surge a mulher.

Esta passagem da infância à idade adulta envolve as perdas das identificações infantis, é a entrada para um mundo social mais amplo, a novos agrupamentos sociais, à iniciação sexual e a novos vínculos afetivos. É a construção de um novo “eu”, uma nova identidade, dessa vez afastada do mundo mágico e protegido da infância.

 

Referências:

Favilli, Myrna Pia. O agir criativo: o adolescente que se faz adulto.  Boletim do Núcleo de Psicanálise de Campinas e Região, v.8, n.13, Edição comemorativa, p. 41-50, 2005.  ( Apresentado em: Jornada de Psicanálise da Criança e do Adolescente, 1; Campinas, 24 Set. 2005).

 

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

Por que os jovens bebem tanto?

Luciana Saddi e Maria de Lurdes Zemel

 

É tempo de carnaval!  “É tempo de encher a cara até desmaiar”.

Hoje a justificativa é essa. Amanhã pode ser o futebol, a balada ou a despedida de solteiro de um amigo.  Sempre haverá justificativas para encher a cara até desmaiar, afinal não faltam ocasiões festivas em nossas vidas. Supomos que sempre há tempo de modificar esse padrão, que sempre é possível beber menos ou parar de beber.

Quando somos jovens, temos a sensação de que nada vai nos acontecer – é a onipotência juvenil manifestando-se. Nunca vamos ficar doentes, não vamos morrer e muito menos vamos perder o controle só porque bebemos quatro latinhas de cerveja no bar, na sexta-feira.

É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acredita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou. O tempo de se cuidar é o futuro.

A juventude, como sabemos, pode ser um período de vida bastante complexo e conflituoso. Período de formação e sofrimento. Marcado por conflito entre dependência e independência e pela dificuldade em se responsabilizar por si. É quando, muitas vezes, autonomia confunde-se com transgressão e limites precisam ser constantemente desafiados.

Os jovens fazem experimentações, querem saber quem são, como são, o que gostam, o que aguentam. Podem recorrer a drogas, sexo, força física e intelectual nessas experiências, chegando a correr riscos. Nessa fase da vida, a impulsividade é bastante elevada, o que os torna vulneráveis. Mas a força juvenil reside, justamente, na curiosidade e na impulsividade. As mesmas características que expressam a grande vitalidade da juventude podem causar prejuízos. Contradições como essas são diariamente vividas pelos jovens.

É na juventude que o álcool entra em nossas vida.  Parece “facilitar” o contato com o grupo. É um elemento conhecido, pois, em geral, é usado em casa. Está ligado à diversão e ao relaxamento, embora, muitas vezes, os pais abusem da bebida. Então, devido à familiaridade, os perigos não são considerados.

A interação com o álcool pode ser prazerosa e recreativa, mas, também pode tornar-se muito destrutiva. O álcool é uma droga como outra qualquer, atua no sistema nervoso central, é uma substância química, por isso, nesse texto e em nossos estudos, atribuímos importância ao sujeito que interage com a droga. A questão é procurar compreender o sujeito, o sujeito que bebe, como bebe, quanto bebe e quando bebe. De que maneira o álcool entra e permanece em sua vida.

Quem de nós encontra no álcool uma resposta, quem o usa para preencher vazios, amenizar angústias, driblar dificuldades como vergonha, medo, insegurança corre risco de desenvolver uso abusivo ou dependência. A juventude, por muitas razões, falaremos de algumas a seguir, está mais vulnerável, pois as mudanças corporais, os processos de transformação psíquica e física causam angústias constantes. A intensificação do desejo e da curiosidade sexual, bem como o medo de se relacionar apontam para inseguranças e conflitos intensos. O jovem está em processo de desenvolvimento, busca criar recursos para lidar com essa enormidade de questões, mas esses recursos nem de longe estão consolidados. Então, ele se vale de pensamentos mágicos, fantasias, racionalismos vazios, drogas e ações de fuga de problemas. Freud, ao se referir à adolescência, usava a imagem de um túnel sendo escavado por ambos os lados ao mesmo tempo, dando a entender os altos riscos de desmoronamento.

Não bastasse todas essas dificuldades, o jovem ainda precisa percorrer o caminho de se tornar adulto e se desvencilhar do âmbito protetor da família. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e modas. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, com as instituições e com o poder consolidado, mas dizem sim e submetem-se aos seus grupos de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares.

Em sociedades diferentes das nossas, nas quais as culturas permaneceram estáveis, o adolescente é submetido a rituais de iniciação e passagem; obrigado a enfrentar desafios, ao ultrapassar obstáculos, ingressa no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos.  Em nossa cultura não há rituais previamente definidos pela tradição, mesmo assim, observamos que começar a beber e fumar parece ser uma forma de introdução do jovem ao mundo adulto. Às vezes, essa introdução, quando precoce, o expõe a agressões.

Além, da falta de rituais sociais e familiares para ingressar no mundo adulto, há a dificuldade em identificar e nomear os sofrimentos; pouco falamos sobre nossas angústias, medos e incertezas. Somos muito exigidos e o adolescente se exige mais ainda devido às idealizações próprias da fase. Ele se sente obrigado a ser magro, bonito, alto, musculoso, eficiente, então, o álcool pode se tornar seu único amigo, pode lhe salvar do mundo de exigências, inseguranças e medos. Pode silenciar a dor no peito provocada pela angústia, fazer adormecer as vozes que não param de cobrar as coisas impossíveis de fazer e ser, calar os medos que nunca cessam e, lenta ou rapidamente, anestesiar o tormento até o sono ou a morte chegar.

A Organização Mundial de Saúde diz que, de cada 100 jovens que experimentam álcool, de 12 a 15 desenvolverão o alcoolismo.

Em nossa clínica é frequente escutar o jovem aos gritos dizer: “sim, vou beber no carnaval e vou beber muitas vezes até que você fale comigo de forma que eu possa entender sem me julgar…até eu encontrar meu caminho.”

Tomara que tenha tempo para esse encontro!

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP. Em coautoria com Maria de Lurdes Zemel escreveu: “Alcoolismo –série o que fazer?” (ed. Blucher). Autora dos livros: “O amor leva a um liquidificador” (ed. Casa do Psicólogo), “Perpétuo Socorro” (ed. Jaboticaba) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Maria de Lurdes Zemel é psicanalista da SBPSP, membro da ABRAMD, membro da ABPCF, coautora dos livros: “Liberdade é poder decidir sobre drogas” (FTD) e “Alcoolismo – série o que fazer?” (ed. Blucher).

 

Internet: pais e filhos confusos entre verdades e mentiras

David Leo Levisky

O Homo Sapiens está vivendo um período complexo na História das Civilizações com mudanças tecnológicas e de valores muito rápidas entre guerras de informação e de contrainformação. Verdades e mentiras confundem-se entre ilusões e fatos produzidos pelos mundos real, subjetivo e virtual. As mídias sociais produzem notícias que adquirem caráter de verdade enquanto verdades são destruídas por grupos interessados em alterar a história, nutrientes da imaginação humana rica em fantasias.

O virtual ao ser tomado como real no imaginário humano pode substituir o factual, afetar e desvirtuar a capacidade crítico-analítica e interferir nos processos de percepção e de elaboração mental. Algumas pessoas investem o imaginário com tal intensidade, transformando-o em uma crença à qual se submetem compulsivamente. É o vício. Condição equivalente às demais formas de adição que podem levar à morte ou ao desespero como foi noticiado à respeito do game “a baleia azul”.

Em nossos consultórios, torna-se cada vez mais frequente a queixa de pais desesperados, pois não conseguem fazer seus filhos, crianças e adolescentes, abrirem mão da excitação causada pela luminosidade da telinha e seus atrativos. A evolução tecnológica, a globalização, uma sociedade liberal, democrática e fluida com o fim das utopias (Bauman, 2001) trouxeram uma nova possibilidade de dependência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, recentemente, que o uso abusivo, inadequado, da TV, videogames e computadores pode levar a um quadro patológico de compulsão. Este distúrbio mental será incluído na 11a. edição do Código Internacional de Doenças (CID) a sair ainda este ano (Saúde, 2018).

Equivalente ao workaholic e outras dependências, o uso abusivo da telinha passa a compor o quadro das “paixões tóxicas” descritas por Freud antes do livro dos sonhos (1900). A partir da dipsomania, ele chegou à paixão pelos jogos e formulou a ideia de uma base aditiva da sexualidade humana. A masturbação era o seu protótipo até chegar à teoria do narcisismo autoerótico, base das paixões tóxicas e das sexualidades aditivas. A toxicomania seria uma forma de defesa contra a depressão e a melancholia (Silva Bento, 2007).

As mídias sociais vêm adquirindo um papel ambíguo de formadoras e de deformadoras da opinião pública por suas mensagens e pela forma de uso que delas se fazem. Elas interferem na estruturação e funcionalidade do sistema nervoso central, em sua relação neuroquímica e psicológica, no aparelho de pensar e na mentalidade social individual e coletiva (Carr, 2011).

A telinha, entre os fanáticos, pode tornar-se uma espécie de devoção religiosa.  Com o mundo em suas mãos, luminosidade, movimentos e aplicativos projetam games e programas que promovem excitação, prazer, gozo e dependência tóxica, pois alteram a homeostasia psíquica, geram estados mentais primitivos que, se cristalizados como defesas irreversíveis, tornam-se traços de carácter, com alto custo para a saúde física e mental dos envolvidos e da sociedade. Estados nos quais emergem fantasias de poder, dominação, destruição, morte, hedonismo que interferem no equilíbrio do ego e das funções narcísicas. A excitação continuada tende a gerar um estado circular de mais excitação e de liberação de substâncias psicoativas até chegar à exaustão de múltiplos sistemas. Seu uso excessivo depende da personalidade, das relações familiares, das pressões do mercado entre outros elementos da cultura.

O seu uso inescrupuloso tende a mecanizar o público. Seduz, impõe, ilude, persuade, condiciona, influi no poder de decisão e no poder de compra do consumidor. Pode conduzir as fantasias e doutrinar o imaginário. Faz com que a pessoa perca a noção e a seletividade de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente, se usada de modo contínuo e descontrolado, pode trazer graves consequências à formação do sujeito, ainda mais uma criança ou adolescente em processo de desenvolvimento. Afeta a capacidade de escolha; o espaço interno torna-se controlado pelos estímulos externos e não pelas manifestações autênticas e espontâneas da pessoa. A compulsão ao uso da telinha pode ter origem em falhas ocorridas no desenvolvimento do objeto transicional, no conjunto das atividades simbólicas e na relação self/objeto primitivo, durante o processo de formação da pele psíquica. Esta, em vez de produzir continência, leva à aderência a objetos idealizados na ilusão de encontrar continência, prazer, coragem e energia frente a um mundo fragmentado (Olievenstein, 1982).

Como psicanalistas, temos vivências clínicas e construímos teorias que, juntamente com as neurociências, nos ajudam a compreender a estruturação, a dinâmica e a economia do aparelho psíquico bem como as características das relações vinculares intrafamiliares e suas relações com os contextos socioculturais. Daí nossa responsabilidade em participar e colaborar no encontro de novos equilíbrios psíquicos, individuais, familiares e sociais.

Defendo a ideia de que tudo que se torna público e repetitivo tem grande probabilidade de se transformar em valor da cultura ao ampliar a massa de consumo, principalmente, entre adolescentes. Estes são mais vulneráveis pela maior fragilidade do ego inerente ao desenvolvimento. Motivados pela busca de experimentos, desafios, desejos de transgressão, revoltas, contestações, influenciados por grupos sociais, não se preocupam com os desdobramentos físicos e mentais. Não pensam ou não querem pensar no futuro. Prazeres imediatos, fantasias onipotentes, negação da realidade, do tempo, formas de transgressão aos pais prevalecem enquanto se escondem de fantasias de rejeição a si mesmos ou de aspectos de sua identidade ou no preenchimento de vazios internos. O gozo presente e eternizado na aparente ausência de medo prevalece com a consequente negação dos limites e da morte, da percepção do irreversível e do pouco valor que se pode dar à vida. Sentimentos de dissabor, de tristeza, de insatisfação para com a própria vida são comuns em meio a vivências de uma relação familiar conturbada. É frequente a presença de um superego punitivo carregado de elementos narcísicos nele projetados. Conluios intrafamiliares inconscientes podem estar presentes no uso indiscriminado das telinhas, não raro em meio a explicações racionais de uso apenas social, para se divertir, falar com amigos ou estudar. Dentro de uma cultura binária e eletrônica do sim e do não, do “enter” e do “delete”, processo sem maiores elaborações e criatividade, o “del” pode ser uma forma de se livrar da situação incômoda para não cair na depressão reflexiva, trabalhosa e que requer energia para se recuperar e dar a volta por cima ao lidar com frustrações.

Soifer (1975) alertou-nos para os riscos do uso inadequado da TV sobre o desenvolvimento das crianças. Levisky (1999) publicou: “The Media: Interference with the Psyche”, usadas pelos pais até como babás eletrônicas ou chupetas. Hoje, a comunidade internacional adquire consciência da necessidade de se tomar providências para atenuar as consequências do uso inadequado dos eletrônicos. Mas, ainda há muito por se fazer.

Bibliografia

BAUMAN, Z., Modernidade líquida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

CARR, N., O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A Geração Superficial, Rio de Janeiro, Agir, 2011.

LEVISKY, D.L., Reflexões psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

LEVISKY,D.L., “The Media: Interference with the Psyche”, Inter. J. Medicine and Health, vol. 11,1999, Freund Publishing House, England, pp. 327-333.

LOURENÇO MARTINS, A.G., 2007, “História Internacional da droga”, publicado em 17 de Dezembro de 2007 21:55, por encod . modificado em 18 de Dezembro de 2007 11:03

OLIEVENSTEIN, C., “A infância do toxicômano” In Olievenstein, C., La vie du toxicomane, Paris, PUF, 1982.

Saúde – iG @ http://saude.ig.com.br/2018-01-03/games-vicio-disturbio-mental.html

SILBA BENTO, V.E., “Para uma semiologia psicanalítica das toxicomanias: adicções e paixões tóxicas no Freud pré-psicanalítico” Revista  Mal-estar e  Subjetividade  – Fortaleza  – Vol . VII – Nº 1 – mar /2007 – p . 89-121.

SOIFER, R.:”A Criança e a TV – uma Visão Psicoanalítica”. Porto Alegre. ArtesMédicas. 1975.

 

David Leo Levisky  é psiquiatra, didata da SBPSP e PhD em História Social pela USP. É autor dos livros: “Adolescência- reflexões psicanálíticas”; “Adolescência e violência  – I, II e III”; “Um monge no diva”; “Entre elos perdidos; A vida? … é logo ali”.

Meu primeiro relógio… meu primeiro celular

* Regina Elisabeth Lordello Coimbra

Nos muitos anos de trabalho psicanalítico com crianças e adolescentes observei um momento bem especial, verdadeiro marco, linha divisória e ritual de passagem para a conquista de novo patamar de desenvolvimento emocional: a hora de ganhar o primeiro relógio.

Era um grande acontecimento, geralmente recebido em festas comemorativas, fazendo parte de um ritual, como presente recebido de uma pessoa com muita importância afetiva dentro da família.

Vi latentes olhares para o primeiro relógio como se estivessem diante de um troféu que os permitiriam ter acesso à passagem do tempo – uma grande conquista!

A partir de então, a percepção do tempo seria compartilhada, favorecendo maior inserção na realidade e consequente diminuição do pensamento mágico.

À semelhança do completar o álbum de figurinhas, o tempo chegava e  propunha novo paradigma, a tolerância pela espera de um suceder de etapas necessárias para o desenvolvimento emocional.

E agora, em tempos atuais, o grande momento é a conquista do primeiro celular. “Qual a melhor idade?”, perguntam os pais. Quem sabe?

Perdeu-se o significado do grande momento, banalizou-se o ritual de passagem como grande conquista do desenvolvimento, qualquer hora é hora!

Como psicanalista aprendi: o desenvolvimento não pula etapas! E agora, estamos todos surpresos, pais e psicanalistas!

Diante da desenvoltura de seus pequenos filhos com as telinhas, os pais não entendem o que se passa com eles e entre eles. Com certeza nem os filhos!

Alguns pais buscam saídas, tentam resgatar o valor do tempo como o senhor das nossas vidas:

  • “Uma hora de celular por dia e livre no final de semana!”.
  • “Na hora em que o boletim chegar, se as notas não forem todas azuis, ficará sem celular!”
  • “Se não tomar banho na hora em que eu mandei, ficará sem celular por uma semana”.

Estamos submetidos ao novo senhor dos tempos: o celular!

 

*Regina Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo, docente e psicanalista de Criança e Adolescente da SBPSP |bethcoimbra07@gmail.com

A Geração Y no mundo do trabalho: dor de crescimento ou opressão sem ganho?

*Renata Zambonelli Nogueira

Com alguma frequência tenho me deparado com situações em que interlocutores de gerações anteriores à minha se queixam das características dos “jovens de hoje em dia”, apelidados de Millennials ou Geração Y. Eles se referem às pessoas nascidas depois de 1990,  que constituem a primeira geração crescida num mundo verdadeiramente globalizado, imersos na onipresença das tecnologias – especialmente da internet e das facilidades materiais -, e cuja chegada ao mundo do trabalho revelou um importante choque geracional.

Os mais velhos os descrevem como egocêntricos, preguiçosos, mimados, “cheios de mimimi”, excessivamente zelosos de sua vida pessoal e, frequentemente, os acusam de desconhecer a realidade, não saber que “é preciso dar duro para se tornar alguém na vida” e querer tudo de mão beijada.

Penso que, embora caracterizado a partir da realidade norte-americana, esse conflito geracional tenha alguma correspondência em certos recortes das cidades brasileiras. Pude observá-lo na Faculdade de Medicina onde me graduei em 2011 e na qual, atualmente, me dedico a atividades didáticas com os alunos. Ali me parece que a estrutura hierárquica que formou tantas gerações de médicos em São Paulo já não exatamente serve às atuais. Falas de professores renomados como a de que “diamantes se fazem sob pressão” são ferozmente atacadas e provocam intenso sofrimento psíquico entre os alunos, marcado por sentimentos de incompreensão e desamparo, em lugar de uma adaptação produtiva. A tradicional cultura médica de investimento total, de valorização da resiliência levada ao limite, do orgulho narcísico de enfrentar bravamente jornadas de 48horas de plantão pode estar com os dias contados sob a gerência dessa nova geração. O que aconteceu?

De imediato, penso que devemos abandonar a pretensão de “explicar” toda uma geração, e vou modestamente oferecer uma das minhas ideias à prova para pensarmos um possível fenômeno em desdobramento na cultura: as estruturas totalizante das instituições perderam o seu sentido, e o sofrimento dentro delas não está mais associado a um crescimento que vale a pena, não é mais significado como uma “dor de crescimento”. Na ausência de sentido, vive-se uma espécie de opressão sem ganho.

Tentarei, então, decupar minha hipótese da perda de sentido na forma de perguntas que nos ajudem a pensar.: Quais seriam as diferenças fundamentais no caldo de cultura em que cresceram esses jovens? Quais os reais efeitos da tecnologia na subjetivação, e como as formas virtuais de se relacionar com o outro interferem na capacidade de sustentar relações reais? O que mais, historicamente, aconteceu no mundo nos últimos anos, e quais as perspectivas desses jovens no nosso momento histórico? Quais tipos de relação de trabalho estão disponíveis para eles? Como a economia e a realidade dos processos de produção e consumo interferem nas dinâmicas subjetivas de funcionamento? Como esses jovens lidam com a espera diante de tantas facilidades materiais?

No meio psicanalítico se discute, hoje, a existência de novas formas de sofrimento na contemporaneidade. Como psicanalistas, sabemos da influência peremptória da cultura sobre os processos de constituição do sujeito, e a ideia corrente a respeito do nosso tempo é a de um momento histórico de desilusão diante de uma suposta falência do projeto moderno, um enfraquecimento das instituições e um sofrer característico da pós-modernidade, marcadamente distinto do sofrimento dos neuróticos analisados por Freud. Eu incluiria nessa análise uma dimensão categoricamente política. Há uma crise social instalada a partir do capitalismo neoliberal levado ao seu extremo: banalização do consumo, superficialidade das relações humanas e precarização das relações de trabalho.

Tentarei descrever o que entendo por sofrimento contemporâneo por meio de uma ilustração. Há poucas semanas assisti ao filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, e saí do cinema como quem sai do consultório após uma longa sequência de sessões difíceis. Mundos mentais áridos, pouco povoados, vivências de tédio, repetição e completa ausência de sentido. “Qualquer experiência é melhor do que nenhuma”, diz uma das personagens. Os cenários são casas amplas, translúcidas, com horizontes infinitos, repletos de nada. Gavetas vazias, relações sem lastro, desejos sem densidade, descontinuidade…

Tudo isso contraposto a uma beleza estética deslumbrante das personagens, dos figurinos e dos cenários arquitetônicos. Seria o filme um retrato onírico da nossa sociedade de consumo? Poderíamos comparar aquela fotografia exuberante à cultura da imagem, dos perfis das redes sociais repletos de selfies e check-ins, da necessidade de promover a si mesmo, de ser visto numa vida de felicidade e plenitude, para que ela se torne minimamente satisfatória, para encobrir com curtidas o mal-estar?

Me remeto a imagens descritas por meus pacientes em análise, buscando uma espécie de “nutrição de verdade” no mundo de hoje: eles procuram por alfaces que não pareçam plástico, frutas que não sejam insossas como aquelas bonitas do mercado, peitos sem silicone… Para além dos seus significados nas análises individuais, me pergunto o que essas experiências sensoriais da contemporaneidade estarão representando.

Hoje nas grandes cidades vive-se um completo desconhecimento dos processos produtivos, e o consumo é fácil e indiscriminado.  Estaria essa dissociação relacionada a um esvaziamento simbólico na cultura? Existirá uma espécie de banalização do acesso a qualquer coisa, de forma a destituir de valor o objeto de desejo? Haverá um processo semelhante no trato com o outro, que, quando fora do aplicativo, de carne e osso, pode se tornar excessivamente falho, frustrante, trabalhoso, intolerável?

Penso que é situando-nos nesse difícil contexto de múltiplos esvaziamentos que podemos nos colocar a pensar as dificuldades dessa geração em realizar e sustentar investimentos libidinais, tolerando as frustrações impostas pelo princípio de realidade. Falo aqui das relações de trabalho, mas acho que o problema também se estende às ligações amorosas. O substrato real não os ajuda em nada nessa tarefa: vagas precarizadas, vínculos informais, carreiras de ensino superior desparecendo do mercado, extinção da aposentadoria, instituições corrompidas, falidas e desacreditadas – e espaços de conhecer gente cada vez mais deslocados ao espaço virtual, onde basta um clique para se desimplicar.

Há um desafio posto às novas gerações. Elas estão sujeitas a reinventar referências, reconstruir a solidez na cultura e restabelecer, à sua maneira, a capacidade de ligação.

*Renata Zambonelli é Psiquiatra e Psicanalista, membro filiada à SBPSP | renatazambonelli.psi@gmail.com

Uma reflexão sobre o lixo eletrônico tóxico e seus efeitos no psiquismo

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Diferentemente das pacientes da cena de Viena de Dr. Freud, as meninas de hoje protestam em CAPS LOCK ao invés de mergulharem na repressão e na resignação. Nossas jovens millennials lutam pelo feminismo desde cedo, questionando o papel da mulher. Brigam para serem ouvidas na escola, enfrentando, a seu modo, uma sociedade que emoldura e enfraquece o sexo feminino.

Esse questionamento me parece ter aparecido antes de se sentirem acuadas no papel feminino. Essa reflexão é, hoje, construída junto com a feminilidade, não posteriormente. Ponto para a nova geração!

As meninas de hoje relatam também abusos sofridos em grupos fechados de mulheres nas redes sociais: “Share your pepeka” é um deles, no qual trocam experiências referentes à sexualidade. Há também o #agoraéquesãoelas, um movimento para que revelem em seus perfis virtuais os abusos sofridos.

Em contrapartida, essas mesmas meninas que brigam para serem respeitadas por suas escolhas sexuais entoam canções de funkeiros que são absolutamente desrespeitosos com a figura feminina, por vezes violentos. Os tais “proibidões” são a antítese desse discurso feminista. Colocam a mulher num contexto que banaliza não apenas a sexualidade, como as drogas. Me pergunto se essas jovens que cantam essas canções compreendem, de fato, o que propagam. Se questionam a si mesmas se querem ser tratadas pelos parceiros como as personagens das canções de suas playlists.

Recentemente assisti ao documentário Hot Girls Wanted, que investiga a entrada de jovens meninas no mercado pornográfico. Todas por volta de 18 anos, em busca de dias de glória e glamour. “Já que vou transar, por que não filmar? Já que o nude pode vazar, melhor eu mesma me expor por vontade própria” , relata uma das jovens. São meninas que entram nesse mercado em busca de fama e sucesso às custas de uma exposição violenta e precoce. Uma decisão impulsiva, um acting out em busca de independência.

O espectador acompanha com tristeza a falta de intimidade dessas meninas consigo mesmas, com seus sentimentos, com seu próprio corpo. O olhar assustado e, por vezes, opaco que elas trocam com os parceiros-atores, a violência à qual se submetem, a falta de amor pelo próprio corpo. O filme é uma denuncia triste. Vale assistir para refletir.

Refletir que toda uma geração formará sua sexualidade assistindo a vídeos na internet e esbarrarão nos mais diversos conteúdos. Ouvindo canções repletas de violência e promiscuidade que podem vir a ser a canção-tema de uma noite marcante. O desabrochar dessa fase marca toda uma relação “eu-corpo” que durará por toda a vida. Intimidade não pode ser excluída desse período, como se fosse algo sem valor.

Trata-se de um espaço importante da construção do psiquismo. O fantasiar foi, em alguns aspectos, substituído pelo Google, e muitas vezes o conteúdo digital é assustador. A internet oferece possibilidades diversas, sem que o jovem tenha um aparelho digestivo psíquico suficientemente forte.

Devemos pensar cuidadosamente sobre como as mídias podem ser invasivas, sobre o que é informação e o que é lixo eletrônico tóxico, cujos resíduos ficam marcados permanentemente numa mente em formação.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

 

Uma abordagem psicanalítica do filme ‘O Minimo para Viver’

Cássia A.N.Barreto Bruno

O fato é que vivemos num mundo onde os fenômenos surgem tão rapidamente que não temos tempo de assimilá-los e ficamos sem saber o que fazer diante do novo. Esse é o caso das novas doenças da alma, como diz Piera Aulagnier.

O filme ‘To the Bone’, do diretor Marti Noxon, realizado em 2017,  trata o tema  anorexia do ponto de vista da pessoa anoréxica, isso é, com a  indiferença afetiva que a caracteriza. Nesse sentido, não faz apologia  do mau relacionamento com a mãe e nem das dificuldades com a sexualidade, jargões que caminham juntos nesta questão.

Devemos entender que não estamos  preparados psicologicamente para os sofrimentos da alma, tais como sofrer o medo, a autoexigência, a inveja, a alegria, o amor. Temos medo desses sentimentos e recusamo-nos a vê-los e aceitá-los. É difícil  perceber que estamos apaixonados ou que estamos competindo com a mãe. Ficamos constrangidos, no mínimo.

É nesse contexto que o filme mostra uma jovem que, ao não poder elaborar situações complexas da vida, desenvolve recursos de sobrevivência psíquica utilizando o próprio corpo. Encarna no corpo e torna palpável aquele  afeto que na vida real não consegue enfrentar: controla o sistema digestivo, tomado na sua maior concretude, de tubo de entrada e saída de alimento, ali, onde o afeto não é digerido, é expelido para o corpo sem deixar marca psíquica.

Não tendo aparato mental que consiga fazer frente aos desafios do seu nível de exigência de ser a melhor profissional, de ser o ideal grego de beleza, já que ideal é por definição algo não atingível, a decepção consigo é repetidamente vivida no corpo, entre comer e vomitar, controlando severamente  e castigando seu corpo nos exercícios doloridos, para conseguir um pouco de paz mental.

Implícita está a fantasia inconsciente de que, ao exigir de seu corpo o impossível com os exercicios (quase um castigo), e privar-se dos alimentos (fonte da vida), seu ideal imaginário de perfeição será alcançado. Que perfeição é essa a ser alcançada? Em última instância, esta perfeição seria o encontro consigo mesma.

É poder ser verdadeira ao experimentar os afetos que são humanos: amor, ódio, conhecimento. Parece simples, mas afetos humanos são aterrorizantes, e exigem aprendizado de negociação com o real e também desenvolvimento de  vocabulário afetivo, o que implica em ambiente externo facilitador e amoroso, condição necessária para aprendizagem.

Nem sempre a  familia  é um ambiente facilitador de aprendizagens afetivas. Como é muito claro no filme, as angústias do grupo familiar  são projetadas na mocinha: ela é a doente, e as questões desse grupo sólido e assustado diante do mundo ficam  aglutinadas na jovem. Ela é a  expressão das angústias  culturais do grupo familiar.

Nesse caso, os pais ao não saberem  o que fazer porque também não têm vocabulário afetivo, não voltam sua atenção para dentro do grupo familiar e passam a  encarar o grito afetivo-corporal da adolescente como um problema só da filha e daí o passo seguinte e mais asséptico é a medicalização.

Ora, não existe uma parte separada do todo. No filme, isso é bem retratado. Quando a família interna a adolescente, o problema fica bem longe, bem circunscrito, na filha, e não na dinâmica familiar, “que alívio, não precisamos nos questionar”.

Lá, ela  encontra seus pares e, por meio da figura de um rapaz afetivo, verdadeiro nas suas idiossincrasias, verdadeiro consigo próprio antes de tudo,  ela encontra o  ambiente facilitador que é respeitar o ser humano como ele é, na sua verdade particular, no lugar de ficar exigindo que ele seja outra pessoa que não si proprio, ou pior, que seja um ideal de ego. Porque esse, nem com todo exercício do mundo será atingido. É um ideal. Só isso.

O humano é imperfeito, é real e não ideal. Se não amamos nossas imperfeições, estamos condenados a esse castigo de Tântalo.

O chefe da clínica, personagem de Keanu Reeves, trata a jovem como ser humano a ser preparado para o confronto entre afeto e real, entre processo primário e secundário, dirá Freud. O trabalho terapêutico por ele realizado é o de continência afetiva, de introdução ao processo civilizatório do vocabulário afetivo. Na clínica há um ambiente facilitador.

Uma última palavra: a anorexia atinge todas as idades e gêneros, casos muito graves devem ser tratados com equipes multiprofissionais, casos mais leves são bem tratados pela psicanálise. Há uma gradação de gravidade e o que vamos privilegiar na psicanálise é que a pessoa possa ter acesso a si própria com confiança. Que possa respeitar a sua verdade particular e amá-la.

 

Cássia Barreto Bruno é analista didata e docente da SBPSP, IPA. Organizadora do livro “Distúrbios Alimentares, uma contribuição da Psicanálise”. ed Imago.2011.

 

O Mal-Estar na Adolescência: Dos Sofrimentos do Jovem Werther à Baleia Azul

Ana Maria Stucchi Vannucchi

“Eu tenho medo de morrer sem ter vivido”

 Joana, 16 anos

 

Qual seria a tarefa do adolescente? Em que turbilhão se move? Temos que multiplicar por mil as observações de Freud sobre o sofrimento humano, o conflito entre o indivíduo e a cultura e sobretudo, o confronto entre impulsos de vida e morte, para nos aproximarmos das vivências do adolescente em seu processo de vir a ser  e de construir-se como pessoa. Que tarefa difícil! Quantos caminhos e descaminhos encontramos!

Temos primeiramente as mudanças corporais, que apontam a necessidade de considerar o emergir da sexualidade e da agressividade. Neste momento, o adolescente precisa construir uma nova mente, elaborando as perdas das vivências e do corpo infantil. Esta tarefa não é fácil, envolve muito sofrimento e muitas inseguranças, além de muitas aventuras e experiências novas, que geralmente implicam um perigoso limite entre vida e morte.

Quem não viveu situações limite entre a vida e a morte? Quem não viveu sonhos delirantes de mudar o mundo? Quem não pensou em desistir de tudo e morrer? Quem não pensou que o amor poderia  salvar o mundo? Quem não “tomou todas” para esquecer as mágoas? Estas experiências são fundamentais para que possamos aproximar-nos desta ponte longa e estreita, sem corrimão, que descreve a travessia adolescente. Como acompanhar alguém sem segurá-lo ou empurrá-lo? Como conversar com alguém que parou no meio da ponte e tem medo de continuar? Ou que quer se jogar da ponte para sumir desta vida? Como criar uma conversa possível, mesmo com a distância  geracional que nos separa?

Vou deter-me em três situações clínicas, ficcionalizadas por razões de sigilo e ética, para poder expressar meu pensamento e minha maneira de trabalhar com jovens.

Bárbara (22 anos) tem sua vida afetiva gravitando em torno da mãe morta, evidenciando profunda melancolia e culpa por estar viva e ter sobrevivido à mãe. Ana (15 anos) odeia os humanos e vive em guerra com todos, família, colegas, embora sinta-se muito só e excluída. Quando não suporta mais a dor mental, refugia-se no “quarto branco”, expressão suprema de desobjetalização. Luna (18 anos), ambiciosa e orgulhosa, vê-se estraçalhada  e feita em pedaços  depois de ser reprovada no vestibular. Sente que a vida perdeu o sentido e começa a “namorar a morte”.

Acredito que nestas travessias, estamos mais intensamente às voltas com o binômio morte/vida, como vemos nestes casos clínicos que menciono. Acredito que não se trata de algo próprio da contemporaneidade, mas sim próprio deste momento de mudança catastrófica em que o Ego desorganiza-se e fragiliza-se para acolher novas identificações, que lhe facultam des-envolver-se da mente infantil, e aproximar-se do  que Freud chamava de Principio de Realidade (1911). Como recuperar a esperança ao lidar com as questões do binômio ilusão desilusão? Como facilitar o surgimento de uma esperança realista, ligada à capacidade de enfrentar as dificuldades da vida?

Do meu ponto de vista, esta questão não é contemporânea, mas vem desde a Antiga Grécia, com Sófocles, em ‘Édipo em Colono’ e ‘Antígona’, com Sheakspeare em ‘Hamlet’,  com Goethe em ‘Os sofrimentos do Jovem Werther’, com Salinger, em ‘O apanhador no Campo de Centeio’, etc..Clássicos protagonizados por adolescentes que nos mostram como o trágico é constitutivo da adolescência.

Considero que a possibilidade do jovem ter um analista,  um terapeuta  ou mesmo alguém que o acompanhe nestes momentos de sofrimento, faz enorme  diferença, pois mitiga a solidão e oferece  uma oportunidade de encontro e vinculação afetiva.  Além disso, permite outros vértices de observação da experiência vivida, ampliando a capacidade de  sonhar/pensar, conter e transformar as emoções e recuperar o prazer de viver.

Ana Maria Stucchi Vannucchi é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

 

Sexo anatômico e identidade sexual

Não é exclusividade de nossos tempos a existência de pessoas que sofrem do sentimento de incompatibilidade entre o seu sexo anatômico e a sua identidade sexual. A crescente liberdade sexual conquistada pelas sociedades ocidentais – impulsionada sobretudo pela mudança da posição da mulher na sociedade – tem contribuído para uma maior aceitação e visibilidade de práticas sociais e sexuais que se afastam dos conceitos tradicionais e de sofrimentos que até então tinham pouco espaço para se manifestar.

A legalização do casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo têm estimulado o questionamento das noções tradicionais de gênero e tornado possível a manifestações de diversas identidades sexuais.

Transgeneralidade é um termo que abarca as pessoas que ultrapassam as normas de gênero baseada na equivalência pênis – macho – homem – masculino e vagina – fêmea- mulher – feminina.  Entre eles podemos citar os travestis, drag queens, drag kings, crossdressings e os transexuais. Denominamos de transexuais aqueles que se identificam com o sexo oposto àquele de seu nascimento. Nessa entrevista concedida ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Marcella Monteiro de Souza e Silva* fala sobre os dilemas entre sexo anatômico e identidade sexual, questão despertada principalmente na adolescência, e o papel dos pais, da família e do processo terapêutico nessa jornada que envolve profundas mudanças psíquicas.

Como a Psicanálise vê a questão do sentimento de inadequação entre o sexo biológico e a identidade sexual?

Freud, no início do século XX, provoca uma revolução na ideia de sexualidade vigente na sua época, afirmando não só a existência da sexualidade infantil como também apontando para o fato de que possuímos uma bissexualidade originária. Com isso, ele queria dizer que apesar de nascermos com um sexo anatômico definido, temos, inicialmente, uma disposição bissexual e só nos constituímos como homens ou mulheres através de um longo processo de identificação com as pessoas significativas com as quais nos relacionamos. Com essa colocação Freud inclui a dimensão social e psicológica na formação da nossa identidade sexual que passa a ser vista como uma construção, não se reduzindo e, portanto, nem sempre coincidindo com o nosso sexo biológico. Em 1964, o psicanalista Robert Stoller contribuiu para a discussão do assunto introduzindo a noção de “gênero” ou “identidade de gênero” na psicanálise. Com isso, ele propõe pensarmos a masculinidade e a feminilidade como aspectos psicológicos, sociais e históricos diferenciando-as do sexo no sentido biológico. Assim, vemos que a teoria psicanalítica já aponta para o fato de que a identidade sexual não se encontra soldada ao sexo biológico

 Os indícios do desejo de mudança de sexo costumam manifestar-se em que idade?

É importante termos em mente que não existe “o transexual” como uma categoria única, pois cada pessoa (seja ela transexual ou não) é um ser humano singular que vive e sofre a sua própria maneira. Daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade das histórias vividas pelos adolescentes ou adultos que desejam a “mudança de sexo”.

Muitas pessoas que sofrem com o sentimento de inadequação de seu sexo anatômico e sua identidade de gênero afirmam que desde muito cedo, ainda crianças, sentiam-se desconfortáveis com seu sexo biológico e identificavam-se com o sexo oposto ao seu de nascimento. Porém, é geralmente na adolescência, quando há uma segunda eclosão da sexualidade (sendo a primeira na infância, na época do complexo de Édipo), que esse sentimento de fato “ganha corpo”e que, geralmente, surge a vontade de “mudança de sexo”.

Vale lembrar que até mesmo o tratamento cirúrgico, chamado cirurgia de redesignação sexual, não altera efetivamente o sexo da pessoa, uma vez que ela não altera o material genético do indivíduo (XX nas mulheres e XY nos homens). Atualmente, a cirurgia, possível de ser realizada a partir dos 21 anos de idade no Brasil, só é indicada após um processo psicoterapêutico de alguns anos no qual essa decisão possa ser pensada e elaborada.

Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual.  Esse método consiste na administração de progesterona e estrógeno para as transexuais com identidade de gênero feminina e testosterona para os transexuais com identidade de gênero masculina.

Essas duas possibilidades oferecidas pela medicina nos dias de hoje – a intervenção cirúrgica ou o tratamento hormonal – tornam possível a minimização do sofrimento de pessoas que sentem incongruência entre seu sexo anatômico e a sua identidade de gênero. Com esses recursos, o transexual pode ser ajudado na tentativa de adaptar seu corpo ao seu sentimento de identidade de gênero, ou seja, ao gênero ao qual sente que pertence.

Quais os principais dilemas de um adolescente que quer mudar de sexo?

A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais e esforços de adaptação a elas. No caso de um adolescente que não se identifica com o seu sexo anatômico os desafios são ainda maiores.

Geralmente, nessa época os adolescentes sentem muito intensamente o desejo de reconhecimento segundo o gênero que eles próprios sentem ser o seu. Ou seja, eles desejam serem designados na escola e na família, segundo o gênero que lhes corresponde psicologicamente. Assim, muitos deles lutam por mudar o nome social, na lista de chamada da escola, por exemplo, e na família.

Embora os pais e as escolas estejam cada vez mais conscientes e sensíveis ao assunto, ainda é muito grande a resistência que os adolescentes encontram nessa área. Surgem receios de como serão vistos e aceitos pela comunidade e de como será sua vida afetiva e sexual.

Como os pais podem apoiar e se preparar para esse processo?

O apoio dos pais é fundamental para o adolescente que deseja “mudar de sexo”. Quanto mais os pais podem suportar e acolher o desejo do filho, maior será a possibilidade de o adolescente entrar em contato com seu desejo e tentar elaborá-lo de maneira a tomar as decisões que mais lhe convêm. E caso opte, de fato, pela cirurgia ou tratamento hormonal, ele poderá enfrentar as dificuldades da mudança corporal e dos desdobramentos emocionais que elas trarão.

Alguns pais podem ter dificuldade em aceitar o filho que manifesta tais desejos, vendo-o muito distante daquele filho que eles gostariam de ter. É importante que os pais possam elaborar o luto pelo filho desejado para que possam acompanhar o filho real na descoberta da pessoa que ele é. Muitas vezes o acompanhamento psicoterapêutico dos pais pode ajudá-los a estar mais próximo ao filho nesse processo.

Muitos pais inicialmente sentem-se culpados, atribuindo algum erro na sua criação do filho como determinante do desejo dele pela mudança de gênero. É importante que os pais possam ter em mente que a vida mental, psíquica é de tal complexidade que não é um fator exclusivo que determina nossos desejos e necessidades e sim uma série de elementos que, conjuntamente, nos fazem ser quem somos. O sentimento de culpa dos pais pode ser um entrave para a aceitação do filho.

E a escola, amigos e sociedade? Qual o papel desses relacionamentos nesse contexto?

Qualquer mudança corporal, seja ela apenas de aparência ou fruto do tratamento hormonal, tem uma repercussão psíquica muito grande no adolescente, por isso, a importância de ambiente de parceria entre a escola, a família e o adolescente.

A escola costuma ser o ambiente público mais importante do adolescente. É fundamental que ele possa sentir que neste lugar ele é respeitado e aceito segundo a designação que ele deseja. Assim, ser chamado pelo nome social na chamada escolar, pelos professores, por exemplo, pode significar muito para o adolescente. É importante também a escola estar atenta de como a comunidade escolar aceita e respeita o aluno e dá espaço para ele existir de acordo com o gênero que deseja.

O principal desejo do adolescente neste contexto é o reconhecimento e o sentimento de pertencimento.

De que forma a análise poderia ajudar o adolescente e/ou família nesse processo nesse momento?

Uma vez que todas as nossas manifestações psicológicas têm como base elementos conscientes e inconscientes, uma análise pode beneficiar muitíssimo tanto a família quanto o próprio adolescente ou criança que se sente desconfortável com a sua identidade de gênero.

Para o adolescente, a análise pode auxiliá-lo a discriminar se o que ele sente é um real desejo de mudança de gênero ou apenas uma enorme admiração pelo sexo oposto, pois muitas vezes essas duas coisas encontram-se imbricadas e de difícil discriminação sem um trabalho analítico. Este processo de autoconhecimento é muito importante pois muitas vezes pode-se definir precocemente que se trata de uma questão identitária enquanto o que está em jogo é somente uma fase da construção de identidade de gênero que, como vimos, passa pelos caminhos identificatórios do indivíduo. Por isso, pode ser temerária uma definição e intervenção em crianças, por exemplo.

O processo analítico pode contribuir também para desvendar fantasias que muitas vezes estão em jogo. Alguns indivíduos idealizam a mudança de gênero, acreditando que com ela estarão livres de sofrimentos que muitas vezes são inerentes à condição humana. Por isso, o trabalho sobre as expectativas em relação à mudança de gênero é importante.

Por propiciar um contato maior do indivíduo com ele mesmo, a análise pode ajudá-lo a fazer escolhas e tomar decisões mais conscientes para, inclusive, poder lidar com as consequências dessas escolhas como o autorreconhecimento no gênero escolhido, o processo de inserção social e ainda a relação com o próprio corpo.

A família pode ser beneficiada pela análise uma vez que essa pode ajudá-la a rever seus próprios valores, crenças e certezas e assim poder acompanhar o adolescente de maneira mais próxima e livre de preconceitos.

 

 

 

Marcella Monteiro de Souza e Silva é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de psicologia no Colégio Oswald de Andrade.