Autor: m2press

Como é ser mãe de uma criança pequena

Falar em criança pequena é falar de um ser humano em continuo processo de desenvolvimento e transformação. Sabemos o quão fundamental é o princípio da vida e a relação de dependência do bebê com a mãe e com o ambiente. A criança passa por vários estágios que levam ao seu crescimento e integração, e necessita que os pais acompanhem e ofereçam segurança, confiança e que possam atender suas necessidades para que ela possa caminhar e alcançar sua autonomia. Viver a vida de forma que suas capacidades e potencialidades se realizem é o que faz sentido a ela. Só assim se realizarão como pessoa.

Ser mãe, na maioria das vezes, é sentir-se encantada com o ser que gestou. Esse encantamento faz com que o bebê sinta que tem um valor e importância para alguém. Mas não é só isto.

Ser mãe é se dispor a vivenciar, junto com seu filho, emoções, sentimentos, angústias, medos, sonhos, desejos e vivências corporais intensas.  Sua vida, a partir da gestação, se modifica radicalmente. A mãe grávida tem um relacionamento com seu bebê, sente seus movimentos, sente amor (ou não) embora tenha seus desconfortos e ansiedades. Seus sonhos em relação a este ser que está sendo gestado, a impulsiona e seu desejo (ou não) de ter este bebê o marcará de forma significativa.

A mãe vive um processo de profundas emoções que acordam vivências primordiais de sua própria história de vida. Suas fantasias, suas dificuldades e realizações estão continuamente presentes. Ter um filho pequeno, adolescente ou adulto requer que a mãe (incluindo o pai) se reveja a todo instante em sua vida emocional. As crianças vão denunciando, não propositadamente, as falhas, fragilidades, limites e capacidades, o que pode enriquecer o conhecimento de si mesmo e do outro. Pode ser tranquilizador e surpreendente para uma mãe ver que sua criança é capaz de enfrentar situações que para ela foram difíceis. Assim, vai se diferenciando dela e conhecendo esta nova personalidade se formando.

Ser mãe não é ser técnica de cuidados, é estar viva, envolvida, presente e se dispor como pessoa que enxerga, ouve e se interessa por seu filho em suas particularidades.

Ter um filho é se dispor a uma carga de trabalho intensa já que o bebê depende completamente dos cuidados dela. Assim que nasce a relação entre os dois é de tal intensidade que a m           ãe se oferece devotadamente ao seu bebê. Inicialmente é como se fossem um só, a mãe oferece seu corpo, sustenta  e apresenta o mundo a ele. Sua intuição e capacidade de identificação com a criança favorecerá sua compreensão e conhecimento deste pequeno ser. A mãe sente que sua presença é fundamental e que é ela quem vai dando significados ao que este experimenta. O bebê, inicialmente, não sabe que depende dela. Para ele, a mãe é criação dele e aos poucos vai percebendo que ela é uma pessoa separada dele. Ocupar este lugar de não ser reconhecida como pessoa separada requer uma capacidade amorosa, o que não quer dizer que não possa sentir ambivalência de sentimentos pela exaustão que experimenta.

Sim, amor e ódio fazem parte desta relação e esses conflitos fazem parte da vida de relação. A criança também precisa desenvolver sua capacidade de odiar e isso é importante para sua vida, é esse sentimento que cria a alteridade, a capacidade de perceber o outro como outro. O sentimento de ódio poderá ser negado e atuado de forma impulsiva, o que não será saudável para a criança. Esses conflitos são inerentes à vida e cabe a mãe elaborá-los. Se há confiança nos sentimentos de amor, se a mãe não tiver dificuldades narcísicas ou alguma perturbação psíquica, não se assustará com o fato destes sentimentos existirem. Assim como receber os ataques da criança, também é importante para que sua agressividade não seja inibida, perdendo assim a vitalidade.

Ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança que começa a andar, que vai ganhando autonomia e que vai se separando dela. No início, a dependência é quase total, mas a criança anseia por crescer, e a mãe também vai aprendendo a viver separada do seu filho. As separações vão fazendo parte da vida, mas a criança precisa de segurança e confiança para ser ela mesma. A mãe percebe e sente essas mudanças e oferece objetos, brinquedos já que a criança precisa de objetos intermediários para elaborar suas vivências, através do brincar e de sua criatividade. A atividade do brincar dá à criança uma condição de elaborar seus conflitos e, com isso, evoluir e ter suas vivências, expandindo sua imaginação.

A cada estágio surgem novas surpresas. Sabemos que a criança está desenvolvendo sua identidade e que poderá ser muito diferente do que seus pais sonharam para ela. Estes precisarão se conhecer e lidar com suas frustrações. Ser mãe é oferecer um ambiente razoavelmente estável, considerar o tempo de seu filho, que é algo fundamental para que ele possa se desenvolver e fazer uso de fantasias, sonhos e tolerar a realidade externa.

Quando falamos de mãe, não estamos excluindo o pai ou substituto, que é quem está presente, junto com a mãe nessa caminhada. Inicialmente não reconhecido como um terceiro, aos poucos vai sendo requisitado pela criança para que possa lidar com a triangularidade edipiana que é um momento de muitas elaborações identitárias e que lhe darão lugar para ser quem é. As questões sexuais se manifestam, a saúde e maturação requerem que mãe e pai estejam disponíveis para auxiliar seu filho nesta caminhada. Para isso, serão mobilizados nas próprias questões sexuais pessoais.

No consultório temos oportunidade de observar algumas dificuldades e patologias graves de crianças onde detecta-se falhas no atendimento dos pais ou da família às necessidades da criança. Vemos paradas no desenvolvimento da criança que vem buscar auxílio terapêutico onde a família apresenta desestruturações que muitas vezes não são sequer percebidas.

*Marlene Rozenberg é membro efetivo e analista didata da SBPSP

In-Tolerância – O que a psicanálise tem a dizer?

 

 Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, construindo valores e projetos,  é o único caminho para instaurar a tolerância entre os homens.

Por Ilana Waingort Novinsky *

Observamos todos os dias nos jornais, nas redes sociais ou na TV, conflitos, atentados e guerras causados pelos mais diversos tipos de intolerância  –xenofobia, racismo,antissemitismo, nacionalismos, homofobia–, que muitas vezes nos surpreendem por sua violência. No dia a dia, também experimentamos “pequenas” intolerâncias no trânsito, com vizinhos ou com nossos familiares. Todas estas situações causam angústia, insegurança, sofrimento e preocupação.

Como a psicanálise pode ajudar a compreender estas diversas demontrações de intolerância?

Sigmund Freud, com a criação da psicanálise, mudou para sempre a experiência humana. Seu legado representa uma força e uma abertura para que nos tornemos conscientes de nossa precariedade, das ambiguidades da existência humana e especialmente mais livres frente ao destino. Durante toda a vida e através de sua obra, Freud lutou contra a discriminação, a hipocrisia, contra a intolerância social ou política. Lutou sobretudo pela liberdade humana.

Os tempos sombrios em que viveu, sua trajetória pessoal, assim como o trabalho clínico com suas primeiras e mais importantes pacientes – as histéricas, foram as três vertentes fundamentais da formulação das teorias  freudianas.

Nestas três facetas encontramos experiências de intolerância: em sua história de vida, Schlomo Sigismund Freud sofreu, por sua origem judaica, inúmeras experiências de preconceito e discriminação;  no trabalho de construção da psicanálise, com as teorias sobre o inconsciente – o estranho e o inacessível em nós – e por sua visão da sexualidade foi, por muito tempo, duramente combatido.

A própria origem da psicanálise está repleta de experiências de perseguição e de intolerância, tanto por parte de uma moral hipócrita da época – que a rejeitava – quanto dos governos totalitários, como o nazismo e o stalinismo, que proibiram os estudos psicanalíticos e queimaram seus livros.

Por tudo isso podemos dizer que a psicanálise não apenas está apta a contribuir para a compreensão da intolerância, mas também tem, junto com outros campos de saber, um grande compromisso com esta questão.

Os mais de cem anos de prática psicanalítica hoje nos contam uma história de lutas pela tolerância com o Outro, pelo reconhecimento do estrangeiro que vive em cada um de nós, e para manter viva a psicanálise como prática não totalizadora, sempre aberta ao desconhecido.

Freud descreveu em seus textos teóricos e meta-psicológicos as bases do psiquismo na psicanálise, e o reconhecimento e a aceitação  – ou não – do outro, pelo que nos é estranho ou diferente. Já nos alertava, entretanto, que algo sempre permanecerá misterioso em nós, que o mal estar na cultura é o mal radical, inerente à condição humana, do qual não podemos nos livrar, apesar de tentarmos transformá-lo pela construção da civilização.

Como dizia Freud, o “narcisismo das pequenas diferenças” permite alguma satisfação “conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão, através da qual a coesão entre os membros da comunidade torna-se mais fácil” (S. Freud, O Mal Estar na Civilização-1930, Imago Editora, 1969, p.136). Cita como exemplo a animosidade entre populações que habitam regiões próximas como os alemães do norte e os do sul, os ingleses e os escoceses, os portugueses e os espanhóis ou mesmo os  argentinos e os brasileiros. Esta é também a base de muitas formas de intolerância que vivemos cotidianamente.

De acordo com Freud, as relações de intolerância nos remetem às relações de agressividade primeva, “essa pulsão agressiva que é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo”. (Freud, 1930) Na espécie humana há, para Freud, uma constante luta entre uma pulsão de vida e outra de destruição e, portanto, “a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida”.

Criamos leis e regras na tentativa de controlar nosso desejo de causar dano ao outro, num processo a serviço de Eros, “cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, mais tarde, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”. (Freud, 1930).

Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, e a partir dessas práticas construir valores e projetos, é o único caminho que pode instaurar a tolerância entre os homens.

Ainda hoje estamos compreendendo o enorme legado de Freud e todas as implicações de suas descobertas.  A psicanálise criou uma nova definição do destino humano, colocando em nossas mãos os meios que permitem transformar situações antes consideradas irremediáveis.

Freud apontou que não precisamos ser vítimas do passado, ou do meio em que vivemos. Fez surgir um novo tipo de liberdade, ideia que era seu valor fundamental.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que contribuiu, através da psicanálise, para a modernidade e para a construção do homem moderno, Freud teve vida e obra marcadas pelas perseguições e pelo nazismo, frutos deste mesmo mundo que ele ajudou a criar.

Os psicanalistas, seus herdeiros, têm como missão levar adiante seu legado, através do estudo e da crítica tanto da própria prática clínica, quanto do mundo em que vivemos.  Ao desconfiar das respostas fechadas, simplistas e reducionistas muitas vezes dadas aos fenômenos humanos, podemos procurar contribuir para compreender a crescente complexidade do mundo com estranhas e dolorosas manifestações como a intolerância.

 

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é  Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é primeira parte de um ensaio em que discute e intolerância.

 

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

Rituais e manias, em alguma medida, fazem parte do nosso dia a dia e o ideal é que sejam formas de nos ajudar com a organização da rotina, das nossas tarefas, ou mesmo no trabalho. Mas pode não ser sempre assim. A partir do momento em que tais comportamentos tornam-se imperativos e controlam a vida do indivíduo, causando sofrimento e prejuízo em sua vida social e emocional, podemos estar diante de um transtorno grave, que requer tratamento. Confira na sequência mais informações sobre transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e sinta-se à vontade para deixar comentários e dúvidas.

Transtorno Obsessivo-compulsivo: rituais, manias e aprisionamento.

O Transtorno Obsessivo Compulsivo, mais conhecido como TOC, é um Transtorno  Mental caracterizado pela presença de ideias estranhas e incontroláveis que atormentam incessantemente o sujeito, e pela constante luta contra esses pensamentos. Há também compulsão a realizar atos indesejáveis, rituais esconjuratórios e um modo de pensar ruminante. Pensamentos mágicos e dúvidas que levam à inibição do pensamento e da ação, também fazem parte do quadro (esses pensamentos dominam as ações da pessoa e impedem que ela se comporte livremente).

Segundo a psicanalista Luciana Saddi, membro da SBPSP, nas primeiras iniciativas de se estudar os transtornos mentais, entre 1894 e 1895, a neurose obsessiva foi isolada por Freud de outros sintomas psiquiátricos. Naquele momento, Freud compreendeu-a como um quadro psiquiátrico autônomo e independente, pertencente à família das psiconeuroses. Na época, os médicos consideravam que era uma degeneração e que o quadro era incurável.

De acordo com ela, atualmente, na Psicanálise, fala-se em uma estrutura mental obsessiva ou em traços obsessivos de personalidade e a formação dos sintomas ocorre quando conflitos irremediáveis, recheados de afetos intensos e simultâneos de amor e ódio surgem e, por algum motivo, não se resolvem. Diante disso, nasce a necessidade de controlar a vida pulsional e desviar a sexualidade e a agressividade para fins aceitáveis. Mas, como é característico das formações sintomáticas, o ‘tiro sai pela culatra’ e a defesa se torna adoecimento. No caso desse transtorno, os mecanismos de defesa mais evidentes são: o deslocamento de afetos para ideias distantes das que originaram o conflito e o isolamento, que quebra as conexões do pensamento, e desliga o sujeito de sua própria história e de seus afetos.

Segundo a psiquiatra e psicanalista Suzana Grunspun, esse é um dos transtornos mais prevalentes na população e considera-se que sua variabilidade clínica e diversidade de sintomas são fatores complicadores de diagnóstico. Isso preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS), pois o TOC é considerado uma doença incapacitante.

Desde a década de 50 a Associação Psiquiátrica Americana publica o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, cujo objetivo é fornecer uma fonte segura e científica para fundamentar a pesquisa e a prática clínica. A psiquiatria preconiza a identificação de sintomas, segundo as normas estabelecidas pelo manual DSM V, para fins de diagnóstico e para o tratamento dos pacientes. A psiquiatria não se dedica tanto, como a psicanálise, à compreensão dos aspectos emocionais que podem estar subjacentes ao quadro estabelecido.

No DSM V, o TOC é descrito pela presença de obsessões, compreendidas como pensamentos repetitivos e persistentes, imagens ou impulsos e/ou compulsões que são comportamentos com rituais repetitivos ou atos mentais, nos quais a pessoa se vê obrigada a fazer em resposta a uma obsessão. O psiquiatra, baseando-se na presença quantificada  de obsessões e/ou compulsões e a partir de critérios estabelecidos, proporá o diagnóstico. Atualmente, existem medicamentos indicados para o tratamento, que devem ser prescritos com rigor e que ajudam no alívio dos sintomas. Isso reduz a carga de sofrimento do indivíduo e propicia uma melhora em sua qualidade de vida.

Mas como a Psicanálise compreende o TOC?

Como se sabe, a noção de inconsciente é fundamental na Psicanálise e, segundo Luciana Saddi, no núcleo desse sofrimento e desse conjunto de sintomas está a imperativa necessidade inconsciente de controlar. Controlar afetos indesejados, ideias que podem surgir de repente causando desordem ao sujeito e impulsos de natureza sexual ou hostil que perturbam a ordem estabelecida. Se juntarmos a necessidade de controle com o pensamento mágico e acrescentarmos, nessa equação, a confusão entre desejo e ação, teremos todos os ingredientes para a estrutura mental obsessiva.

Além do tratamento com medicamentos, também a análise pode contribuir para a melhora dos sintomas. Analista e analisando trabalham no sentido do surgimento de um saber singular sobre o sujeito em análise. Trata-se, assim, de identificar as entranhas que dão suporte aos sintomas, aquilo que está na base dessas defesas. Procurar eventuais explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos que geram os sintomas não é, na Psicanálise, o foco do tratamento. O discurso do paciente revela uma verdade intrínseca a ele e o trabalho de análise oferece uma oportunidade única: o analisando pode ser escutado por alguém que não participa de sua vida familiar e que não deseja lhe impor nenhuma verdade ou saber pronto. O analisando pode falar e se escutar ou se calar. O espaço é livre de obrigações e performances, e a ideia é que, por meio de trocas e experiências que só dizem respeito àquela dupla, seria possível chegar aos núcleos inconscientes que mantém os sintomas ativos.

Em relação à cura, sim, ela pode ser alcançada em muitos casos. Em outros, trabalha-se em busca do abrandamento dos sintomas, para que o sujeito possa seguir com sua vida, sem tantos prejuízos. O importante é que as pessoas busquem ajuda, pois existe sim tratamento, tanto do ponto de vista psiquiátrico como psicanalítico. Se vai haver a supressão total da sintomatologia, ou apenas seu abrandamento, é impossível saber de antemão. O que se sabe é que atualmente as ciências da área da saúde dispõem de recursos que se complementam e que não só podem como devem ser utilizados em conjunto, buscando o alívio do sofrimento e a recuperação da energia de vida que os transtornos mentais subtraem dos indivíduos.

Fontes:

Luciana Saddi – mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Suzana Grunspun – psiquiatra, psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). 

 

 

 

Quando a análise chega ao fim?

A psicanálise é, muitas vezes, tida como um processo longo e interminável. Quando saber que um processo analítico chegou ao fim? Em que momento se pode considerar que o analisando está curado? Faz sentido falar em “cura”, em psicanálise? Tais questões, complexas, são o objeto do artigo a seguir, da psicanalista e membro da SBPSP, Yeda Saigh. Sem colocar um ponto final nessa reflexão, a autora nos abre caminho para compreender o que significa o término de um processo analítico.

Por Yeda Acide Saigh*

Minha intenção ao escrever esse artigo é refletir não apenas sobre o término de análise como processo, mas também sobre a dificuldade de desligamento entre analista e analisando. O analisando que não consegue desvincular-se do analista parece não ter ainda um objeto interno com o qual possa contar para exercer a função analítica. Desse modo, podemos ver a análise como um aprendizado, que consiste na introjeção, pelo analisando, da função analítica; ou como uma tentativa de o paciente conviver com uma dependência de seus aspectos infantis em relação ao objeto provedor (analista). Se a sua dependência for aterrorizante, o analisando exigirá um objeto idealizado, um analista fantástico. Se a dependência puder ser controlada, se o analisando aceitar conviver com suas carências, suas dependências, se tiver algum objeto com o qual possa lidar, não-idealizado, mas que o ajude a dar conta da situação de dependência, ele não regredirá tanto. Em um certo momento, espera-se que possa superar tal situação e continuar a caminhada sozinho.

Trata-se de avaliar como o analisando se relaciona com a sua vida mental – e isso é limitado –, pois não se espera que o analisando saia “curado”, que saia sem “atuar”. Não é esta a idéia. O objetivo da análise é ajudar o analisando a ganhar uma maior familiaridade com o seu mundo interno, com o seu universo psíquico. Nesse sentido, a análise é interminável, não há interrupção. O que termina é a relação analista-analisando, a situação de análise. A análise terminaria, assim, quando analista e analisando deixassem de encontrar-se para a sessão analítica. Na minha experiência, uma análise termina geralmente quando o paciente está muito mais apto emocionalmente para começá-la; é uma pena! Porém, a vida não é só análise. O analista e o analisando que se dão conta desse tempo, que é um dos aspectos que delimita o processo analítico, poderão elaborar de maneira mais satisfatória quando deverá se dar o término da análise. Para tudo, no entanto, sempre haverá um tempo certo, não-datado, não-estabelecido, que dependerá da história de cada análise.

 

*Yeda Acide Saigh é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, diretora financeira da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, doutora em psicologia clínica na Universidade de São Paulo é membro da Budget & Finance Committee – International Psychoanalytical Association.

Grifes e autoestima

Até que ponto a definição daquilo que somos passa por aquilo que temos? Na sociedade de consumo, ser e ter tornaram-se categorias que se retroalimentam. Nesse contexto, as grifes têm um papel fundamental: elas atestam o valor do indivíduo e servem como medida de prestígio social. É sobre esse tema o interessante artigo “Grifes e autoestima”, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Grifes e autoestima

Marion Minerbo

A sociedade de consumo é como um organismo vivo que tem por objetivo sobreviver, se possível, para sempre. Como qualquer sistema cultural, forma o pano de fundo da nossa vida psíquica: lemos o mundo por meio dos significados que esse sistema nos oferece. Um desses significados é a grife. Ela funciona como um distintivo – como o dos xerifes, ou os brasões de famílias nobres – de prestígio social.

O distintivo distingue. Você pode não estar nem aí com a marca das roupas que veste, mas ser um publicitário que adoraria ter no seu portfólio clientes importantes. Se for um estudante, não medirá esforços para entrar – e contar que entrou –  em uma faculdade “de marca”.

A equivalência entre o valor da pessoa e seu prestígio social é completamente arbitrária, mas nem por isso menos eficaz. É que aprendemos a ler os signos de prestígio da mesma maneira como aprendemos a língua materna. Por isso, a grife tem o poder de nos dizer quem somos e acabam por influir diretamente em nossa autoestima.

Como se pode perceber, o fascínio pelas grifes é, até certo ponto, normal e inevitável. Muitas pessoas recorrem a um banho de loja quando estão se sentindo pra baixo. E esse comportamento pode se tornar patológico, originando, por exemplo, a compulsão a comprar. Isto acontece quando a pessoa não tem outras fontes de autoestima além das grifes.

Sabemos de nós e do nosso valor por meio dos vínculos que estabelecemos. O primeiro, naturalmente, é o da criança com a sua mãe. Com a participação do pai e depois das outras instituições, constroem-se as bases da autoestima, que podem ser mais ou menos sólidas. É com elas que iremos enfrentar a vida.

A autoestima, contudo, é uma construção contínua. Nosso sentimento de ser e de existir dependerá sempre, em alguma medida, de como as coisas que fazemos, criamos e realizamos são lidas e valorizadas por nós e pelas pessoas com as quais convivemos.

Por esse motivo, pessoas que não conseguem realizar coisas que considerem valiosas ou tenham medo de que não sejam valorizadas pelas pessoas significativas podem se tornar presas fáceis da sociedade de consumo. Esses indivíduos acabam assinando uma espécie de contrato, que chamamos de contrato narcísico. A pessoa se obriga a comprar, garantindo a sobrevivência da sociedade de consumo. Esta, em troca, lhe garante, ainda que de maneira efêmera, o sentimento de ser, de existir e de ter valor.

Ideias de Thomas Ogden e André Green são tema de colóquio na SBPSP

Na próxima semana acontece, entre os dias 1º e 03 de agosto, na sede da SBPSP, o colóquio “Diálogos Psicanalíticos Contemporâneos”, que discutirá alguns conceitos fundamentais do pensamento de dois psicanalistas: André Green e Thomas Ogden.

Ambos, Green e Ogden, deixaram sua marca na história da Psicanálise e figuram, sem dúvida, entre seus principais pensadores.

André Green foi um psiquiatra e psicanalista francês, cuja obra é reconhecida pelo volume de suas publicações em livros, artigos e conferências, pela diversidade e originalidade dos temas tratados e pelo rigor à teoria freudiana.

Em seus trabalhos teóricos e clínicos, Green aprofundou-se na metapsicologia freudiana, abordando temas como afeto, os casos-limite, a clínica do vazio, a teoria do negativo, o narcisismo negativo, a alucinação negativa, a psicose branca, o irrepresentável e a pulsão de morte e a mãe em todos os seus estados – mãe morta, mãe fálica, mãe negra.

Sob influência de Donald W. Winnicott, Melanie Klein, Wilfred Bion e da psicanálise francesa, André Green foi um clínico atuante, membro titular da Sociedade Psicanalítica de Paris e presidente da instituição, em 1987.

Trabalhou ativamente até pouco tempo antes de falecer, em janeiro de 2012.

Thomas Ogden, ainda vivo, é também psiquiatra e fez sua formação em psicanálise na cidade de São Francisco, no San Francisco Psychoanalytic Institute, nos Estados Unidos, onde nasceu. Posteriormente, Ogden continuou os seus estudos na Tavistock Clinic, em Londres.

Em seus anos de estudos, Ogden dedicou-se aos grandes temas da psicanálise, sendo a sua principal contribuição os conceitos de terceiro analítico e de posição autista-contígua.

O terceiro analítico é um conceito que explica o processo analítico a partir de um novo olhar e de uma visão dialética entre o sujeito e o objeto, ressaltando-se a intersubjetividade. De acordo com esse constructo teórico, os sujeitos da análise – analista e analisando – criam-se mutuamente, um não existe sem o outro, embora permaneçam intocados os contornos de suas individualidades.

Nesse processo, não se trata de conceber o analisando *apenas* como sujeito da investigação; ou o analista como um mero observador dos esforços do analisando. Ambos atuam como sujeitos e objetos no processo e é dessa inter-relação entre as subjetividades que se produz o terceiro analítico.

Já o conceito de posição autista-contígua refere-se às organizações psicológicas mais primitivas da mente humana, ainda anteriores às posições esquizo-paranóide e depressiva, propostas por Melanie Klein.

Essa posição é pré-simbólica, vivida no plano sensorial e responsável pelas primeiras experiências de self. Quando o desenvolvimento se dá da forma esperada, essa posição é o pano de fundo e o delimitador sensorial para as experiências posteriores da vida psíquica.

Entre suas principais referências estão Sigmund Freud, Melanie Klein, Wilfred Bion e Donald W. Winnicott.

 

 

 

Realidades e Ficções

Entre os dias 03 e 06 de setembro acontece o 30º Congresso Latino-americano de Psicanálise, organizado pela FEPAL, na cidade de Buenos Aires, Argentina.

O evento é aberto para o público em geral e as inscrições podem ser feitas pelo site:

http://congreso2014.fepal.org/es/index.phpFEPAL

Neste ano, os trabalhos apresentados, os debates e as conferências vão girar em torno do tema “realidades e ficções”.

Alguns convidados internacionais como os psicanalistas Leopoldo Bleger, Stefano Bolognini (atual Presidente da IPA), Antonino Ferro e Yolanda Gampel já confirmaram presença no congresso. 

PSICOLOGIA, PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA

PSICOLOGIA/PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA

É comum as pessoas confundirem os profissionais das áreas “psi”. E muitas vezes não ficam claras as diferenças entre a formação, as funções e as atividades do psicólogo, do psicanalista e do psiquiatra – termos que indicam modalidades de atendimentos com características próprias. Vamos entender melhor o que cada um deles faz?

PSICÓLOGO

Com formação superior em psicologia, o psicólogo é um profissional apto para tratar desordens psicológicas e comportamentais. Seu foco, portanto, é o indivíduo. Este profissional tem um amplo campo de atuação, podendo trabalhar tanto no atendimento clínico em consultório ou clínica, como na área de Recursos Humanos de empresas, orientação vocacional, hospitais e psicologia escolar, entre outros.

A graduação em Psicologia tem duração de 4 anos para obtenção dos títulos de bacharelado e licenciatura, e de 5 anos, para obtenção do título de psicólogo. Somente com o título de psicólogo é que o profissional poderá atuar na área clínica.

Após a graduação, o psicólogo poderá complementar sua formação em abordagens teóricas específicas, tais como: psicologia comportamental, Gestalt-terapia, psicologia analítica (mais conhecida como Jungiana), fenomenologia e psicanálise.

O psicólogo pode auxiliar no tratamento de problemas decorrentes de crises como estresses, traumas de todos os tipos, luto, depressão, e ansiedade. A duração do tratamento será determinada pelas necessidades expostas ao longo das sessões. O método de trabalho irá depender de sua formação e da abordagem teórica em que se especializou.

PSICANALISTA

O psicanalista é o profissional que possui formação em psicanálise. Não se trata de um curso de graduação. Para fazer a formação e tornar-se psicanalista é preciso já ter concluído a graduação em psicologia ou medicina. Ou seja: a formação em psicanálise será posterior a um curso superior.

A Psicanálise nasceu a partir do trabalho do médico neurologista austríaco Sigmund Freud, no final do século 19, quando ele percebeu que algumas pacientes apresentavam sintomas físicos sem explicação ou causa orgânica. Passou a investigar a origem desses sintomas. Se não eram causados por disfunções orgânicas, de onde surgiam?

Em suas pesquisas, aspectos inconscientes da mente apareceram como possíveis respostas. A partir daí, passou a dedicar-se ao estudo do inconsciente e de suas manifestações patológicas e não-patológicas.

Não é tão simples definir o que é a psicanálise nem o que faz o psicanalista. O que podemos afirmar é que a psicanálise se constitui numa abordagem terapêutica que parte do pressuposto de que a psique humana é determinada, em grande medida, por aspectos inconscientes. Seu método baseia-se na interpretação dos sonhos, das associações livres, e da transferência, algo que se passa entre analista e analisando. O tempo de duração do tratamento psicanalítico dependerá de cada processo individual.

A duração da formação em psicanálise dependerá da instituição formadora. Por exemplo: a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, ligada à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), oferece formação psicanalítica em que é exigida análise pessoal com, no mínimo, cinco anos de duração, além da parte teórica e das supervisões.

PSIQUIATRA

O psiquiatra é um profissional da medicina que após concluir sua graduação e formar-se médico opta pela especialização em Psiquiatria. Ou seja, o psiquiatra é um médico que se especializou nessa área

A Psiquiatria, que abrange conhecimentos de neurologia, psicofarmacologia e noções de psicologia, lida com prevenção, diagnóstico, atendimento e tratamento de diferentes formas de sofrimento mental, tanto de origem orgânica como de origem psíquica, como por exemplo a dependência química, os transtornos obsessivo-compulsivos, a bipolaridade, a depressão e ansiedades.

Assim como o psicólogo e o psicanalista, o psiquiatra também tem como meta o alívio do sofrimento psíquico dos pacientes, mas somente o psiquiatra possui conhecimentos e autorização para prescrever o uso de medicações que auxiliarão no tratamento dessas enfermidades.

 

 

 

 

Brasil e Alemanha: apenas um jogo?

Uma derrota como a do Brasil para a Alemanha no jogo da última terça-feira desperta uma série de questionamentos que vão além dos aspectos técnicos do futebol. Para a analista Marion Minerbo, membro da SBPSP, além de uma derrota em campo, o fato escancara a perplexidade do povo também em relação à política. Confira a opinião da psicanalista, publicada na página 2 do jornal O Estado de S. Paulo dessa quinta-feira, dia 10/07:

“Uma derrota de 7 x 1 não é mais um fato esportivo, e sim um fato político. A perplexidade dos jogadores em campo, enquanto tomavam um gol atrás do outro, mimetiza e denuncia a perplexidade do povo, que vem tomando um escândalo atrás do outro, por parte de governantes que jogam como se fossem nossos adversários – interessados apenas na própria vitória. Primeiro foi a marcação cerrada do governo em cima de Joaquim Barbosa, o nosso Neymar, que vinha tendo um desempenho notável em campo. Depois, ele teve vários de seus gols anulados. Por fim, com a coluna vertebral do Judiciário quebrada, afastou-se do jogo político. Afinal, tem algo de errado num país em que um jogador de futebol se sente mais responsável em servir ao seu povo que seus governantes. Quando perguntaram a Felipão de quem é a responsabilidade por esta derrota, assumiu com tristeza e dignidade: “é minha”.  Não consigo imaginar Dilma ou sua equipe assumindo a responsabilidade pelo desastre que está aí.”

MARION MINERBO, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Neurose e Não-Neurose” (Casa do Psicólogo)

E você? O que acha?

Falando sobre adoção…

Com organização da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP acontece, dia 09 de agosto, na sede da SBPSP (Av. Cardoso de Melo, 1450, Vila Olímpia), a 1ª Jornada de Adoção e Contemporaneidade, que tem como público-alvo psicanalistas, psicólogos, médicos, juristas e interessados pelo assunto. Durante o evento serão discutidas questões importantes relacionadas ao processo de adoção, tais como os aspectos jurídicos, os sentimentos de pais e filhos adotivos, a adoção inter-racial, a preparação para adoção, o panorama das mães biológicas detentas, entre outros. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas pela página da SBPSP, no link http://tinyurl.com/o8sgqnl.
Para conhecer um pouco mais sobre o assunto, o Blog de Psicanálise conversou com as psicanalistas Gina Levinzon e Alicia Lisondo, organizadoras da jornada e membros da SBPSP. Confira abaixo a entrevista completa:

1. Por que uma jornada para discutir o tema da adoção?
O tema da adoção é essencial para a sociedade porque trata das necessidades mais básicas do ser humano que são prover uma família para uma criança e, ao mesmo tempo, um filho para aqueles que desejam exercer seu papel de pais, em situações em que os vínculos não podem ser biológicos. Estudar os diversos ângulos que permeiam o processo de adoção permite que se criem condições para o estabelecimento de relações saudáveis e sintônicas nas famílias que se formam.
Nossa Jornada sobre Adoção na SBPSP visa contribuir com esse olhar, ao levar o vértice Psicanalítico aos profissionais envolvidos com o tema, às instituições, aos pais adotantes e à comunidade de modo geral. Entendemos que a Psicanálise nos dá ferramentas valiosas para melhor compreensão do ser humano, e especialmente no campo da adoção compreender o que se passa com a criança e os pais é primordial. A Jornada tratará de temas como: os sentimentos de pais e filhos adotivos, a adoção inter-racial, os aspectos jurídicos do processo de adoção, a preparação para adoção, o panorama das mães biológicas detentas e a adoção em Israel e na Europa.

2. Quais os sofrimentos psíquicos mais recorrentes entre pais adotantes e filhos adotivos? Como preveni-los?
Do ponto de vista da criança, há de início o trauma da separação dos pais biológicos, as situações de desamparo e abandono, e a vida em abrigos onde esperam por pais que possam cuidar delas. O filho adotado teme reviver o trauma da rejeição. A insegurança nos vínculos de filiação pode ser potencializada ou elaborada segundo a função parental. Dizer à criança: “Você será devolvido ao abrigo” aumenta a insegurança. Por outro lado, a mensagem: “Eu sou tua mãe, seja o que for que aconteça” ajuda a criar um vínculo de segurança.
Do lado dos pais há as motivações para a adoção que precisam ser elaboradas. Frequentemente encontramos situações de esterilidade. Muitas vezes há uma longa espera para receber o filho, assim como a adaptação a uma criança que não foi acompanhada por eles desde o início de sua vida. Os pais necessitam conciliar o “filho imaginado” ao “filho real”, com toda a sua história anterior.
Muitas vezes os pais temem que o filho seja ou apresente problemas. Na verdade, dificuldades existem com qualquer filho, adotado ou não, e não podem ser interpretadas tendo como causa única a adoção. Outras vezes o filho é recebido como um herói, ou como “coitadinho”, e os pais o superprotegem ao invés de colocar os limites necessários para seu desenvolvimento emocional.
A preparação dos pais para a adoção é um dos pontos-chave para o sucesso deste tipo de filiação. Estar em contato com seus sentimentos, expectativas e temores, saber o que se pode esperar e refletir sobre como lidar com os desafios que vão surgindo contribui muito para isso. Não há fórmulas, pois as questões humanas são complexas. A prevenção é sempre um bom caminho a ser percorrido. Quanto mais cedo se possa intervir, com acompanhamento psicológico aos pais e à criança, melhores as possibilidades de desenvolvimento. Entendemos que a Psicanálise oferece ferramentas valiosas para este tipo de trabalho.
Também consideramos importante que as instituições que abrigam as crianças à espera de adoção possam contar com o auxílio de um analista. É fundamental para os cuidadores ter um espaço para refletir e compreender a configuração psíquica das crianças do abrigo. Estas instituições são os berços de vida e de desenvolvimento mental. Seu papel é fundamental para estimular o investimento afetivo nas crianças, e para propiciar que a criança seja agente, autor, que aprenda a tomar decisões. Sugere-se que sejam estimulados jogos, brincadeiras, representações teatrais. Da mesma forma, construir a história de vida e registrar em álbuns e filmes os colegas do abrigo, do quarto compartilhado, da equipe permite que a criança sinta que tem uma existência que vale ser lembrada. Acontecimentos importantes como aniversários ou primeiro dia de escola podem ser registrados. Assim, quando adotada, a criança levará, além do prontuário médico, uma história de sua vida. O que a ajudará no desenvolvimento de seu sentimento de dignidade, auto respeito e autoestima.

3. Recomenda-se algum tipo de preparo psicológico antes da adoção, para pais e eventuais irmãos?
A Nova Lei de Adoção (Lei n. 12.010/09) estabelece que os futuros pais devem se preparer para a adoção. Frequentar grupos organizados pelos próprios fóruns não é obrigatório, mas é aconselhável. Para os pais, esses grupos funcionam como os cursos pre¬paratórios que as gestantes e seus companheiros.
Além desses grupos, é importante também o trabalho psicanalítico com os futuros pais adotantes. O psicanalista tem compromisso ético com o sigilo e a intimidade. Não julga nem avalia. E ajudará os pais na tomada de consciência da rede de emoções, fantasmas, projetos identificatórios, sonhos, expectativas e o lugar desse filho na história da família, de modo a lidar melhor com os diversos passos do processo. Os irmãos também necessitam de preparação para a chegada do irmão. Muitas vezes vão buscar o irmão adotivo junto com os pais no abrigo.
Crianças maiores necessitam de um período de convivência e preparação até que a adoção seja efetivada, já que até então, sua família era constituída pelos profissionais do abrigo. Laços que foram criados terão que ser desfeitos.

4. Existe um perfil psicológico das pessoas que buscam adotar uma criança?

Os pais podem apresentar uma situação de esterilidade por motivos fisiológicos, em alguns casos psicológicos ou por doenças diagnosticadas. Podem ter tentado métodos de fertilização assistida sem resultado, com o sofrimento potencializado ante reiteradas frustrações. Com as atuais mudanças na família, encontramos também entre os adotantes casais homossexuais e famílias monoparentais. Há ainda quem não esteja mais em idade de procriar biologicamente e aqueles que optam por criar um filho adotado mesmo sem problemas para engravidar.

5. De que maneira a psicanálise pode ajudar famílias com filhos adotivos?
A psicanálise pode atuar nos diversos momentos do processo de adoção:
– Na preparação dos pais para adoção;
– No acompanhamento aos pais depois de realizada a adoção. Eles expõem suas dúvidas e angústias e encontram um espaço para pensar em conjunto com o psicanalista;
– No trabalho com a criança em psicoterapia, quando necessário;
– No trabalho com os pais em psicoterapia, quando necessário;
– No trabalho psicoterapêutico com a família ou com os irmãos, quando necessário.

6. Do ponto de vista psicológico, é importante para a criança saber que ela é adotada? Em que momento isso deve vir a tona?
É essencial a criança saber que é adotada. Ela tem o direito de saber sua origem para construir um sentimento de identidade baseado na verdade. Afinal, se fechados os olhos para sua própria história, fecha-se também a possibilidade de aprender o que vem de fora.
Normalmente a conversa sobre a adoção acontece quando a criança começa a se interessar sobre de onde vêm os bebês. A pergunta “como nasci” leva diretamente ao tema “de que mãe nasci”…
A verdade pode ser compartilhada entre pais e filhos como um gesto espontâneo e não como obrigação moral. A conversa sobre a adoção surge quando os pais estão abertos a essas questões e permitem que os filhos tenham curiosidade e desejem investigar. Os pais precisam estar seguros quanto ao seu papel: eles é que são os verdadeiros pais.

7. Como lidar com a vontade do filho adotado de conhecer os pais biológicos?
Nem todos os filhos adotados desejam conhecer seus pais biológicos. Quando manifestam esse desejo, os pais devem apoiar o filho nesta busca, desde que ele já tenha idade para isso. É aconselhável que se espere a entrada na vida adulta, para que o adotado tenha condições de lidar melhor com a situação. A busca pelos pais biológicos é um passo na busca da construção de um sentimento de identidade própria. Conhecê-los não significa de modo algum renegar os pais adotivos.
Cada caso tem sua singularidade e especificidade. É preciso saber a verdadeira disponibilidade interna dos pais adotantes para esse encontro. Também é indicado avaliar se há um desejo legítimo dos filhos adotados, porque esta questão pode ser usada como ameaça, chantagem, ou confronto na crise do adolescente diante de pais adotantes inseguros, assustados e temerosos de vir a perder o lugar de pais. Também é importante pensar com bom senso e não perder o contato com a realidade. Nem sempre é possível encontrar os pais biológicos sofridos que não tiveram a chance de cuidar do próprio filho…

ALICIA DORADO LISONDO
Psicanalista Didata, Membro Efetivo da SBPSP. Psicanalista de Crianças e Adolescentes da SBPSP. Psicanalista Didata do GEP de Campinas. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Adoção da SBPSP. Docente na SBPSP.

GINA KHAFIF LEVINZON
Psicanalista, Membro Efetivo da SBPSP. Doutora em Psicologia Clínica – USP. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Adoção da SBPSP. Autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção”, e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. Docente na SBPSP.