Autor: sociedadedepsicanalise

Quebrando a costela de Adão

* Miriam Chnaiderman

 1. Linn da quebrada, a bixa travesty

Eu quebrei a costela de Adão     

Muito prazer, sou a nova Eva

Filha das trevas, obra das trevas

Não comi do fruto do que é bom e do que é mal

Mas dechavei suas folhas e fumei sua erva.”

Essa é a letra de uma canção, entre muitas outras, que a maravilhosa e provocativa Linn da Quebrada nos apresenta no portentoso documentário BixaTravesty, dirigido por Cláudia Priscila e Kiko Goifman. Aliás, é preciso acentuar, o roteiro é assinado pelos dois diretores e por Linn da Quebrada. É sempre o olhar de Linn que está presente e as escolhas são dos três.

Não é docemente que a mulher nasce de Adão. É irrompendo, esfacelando, quebrando. Já um tremendo esforço de visibilidade e de existência. A mulher é obra das trevas. Do demônio?

O devir-mulher se explicita em sua violência desde o início do filme, quando em um programa de rádio que apresenta junto com Jup do Bairro, sua querida Bebete, Linn afirma:

“Nós vamos aprender as suas técnicas e nós vamos melhorá-las, nós vamos aprimorá-las e vamos usar entre nós. Vamos aprender a lutar, vamos pegar em armas, vamos pegar nos nossos corpos como armas e aí o jogo vai virar pra vocês. Eu não queria estar na pele de vocês”.É um discurso raivoso de mulher que luta por seus direitos. É um discurso feminista acentuado.

No programa, Linn se apresenta como Linn do Bairro e apresenta Jup como Jup da Quebrada. “Qual é bixa? Qual é veada?” Afirma Linn:“Porque antes eu era um traveco, agora sou mulher, sim…”.

Ou então: “Eu, quando alguém me aponta o dedo e fica gritando que sou veado, alguém faz alguma piada, eu penso: gente, será que eu tava tentando disfarçar? Será que eles acham que precisam me lembrar disso?(..) Eles acham que nós deveríamos curvar nossas cabeças e então atender essas expectativas. Então, se você quer ser mulher, tenha peito. Se você quer ser mulher, seja magra. Então, se você quer ser mulher, então você tem no mínimo que atender às expectativas do que é ser mulher…Não necessariamente… Pode até ser se você quiser, se eu quiser…Às vezes, eu fico com um pouco de vontade… Vou confessar que, às vezes, eu quero mas aí eu nunca tenho certeza do quanto eu quero, se eu quero ter peito, se eu ter dois… se eu quero tirar o pelos…”.

Em outro momento, Linn brinca: “Eu não tenho lugar de fala porque eu tenho passabilidade trans mas na verdade eu sou uma mulher cis”. Depois, rindo, pede que essa sua brincadeira não vá ao ar…  É marota com o binarismo de gênero… Pode ser qualquer coisa…

Em quase uma defesa da indiscriminação ou do desmanchamento de qualquer lógica aristotélica, Linn é bixa travesty. A lógica identitária não é a de Linn! Em entrevista à revista Cult (Trói ,2017), Linn conta que leu e lê Foucault, Preciado, Butler. Define o queer, conceito de Judith Butler para definir o corpo bizarro, o corpo abjeto, como inominável, como aquilo que não pode ser fixo. Citando Linn na entrevista: “O queer é a dúvida, a incerteza, é uma atitude em relação ao próprio corpo, não identidade”.

Essas reflexões, despertadas pelo documentário, remetem ao meu texto, “É possível ser gender fucker?”(Chnaiderman, 2018), escrito em 2017 e publicado em 2018. Essa interrogação que dá nome ao texto é a fala de Dudu Bertholini ao final do documentário “De gravata e unha vermelha (2014)”, que dirigi.  Reproduzo aqui o início desse meu ensaio:

“Ao final do filme que dirigi “De gravata e unha vermelha” (CHNAIDERMAN, 2014), Dudu Bertholini, um dos personagens do documentário,  em lindas vestes e brincos vistosos,  declara: “Eu sou o que as pessoas classicamente chamam de um gender fucker… então, eu sou a pessoa que não quer o estereótipo do masculino, não quer o estereótipo do feminino… eu quero  muito mais é descobrir uma maneira única e minha de ser”.

A radicalidade dessa frase chama a atenção. Ser um gender fucker explode qualquer lógica identitária e questiona o binarismo de gênero. Ser um gender fucker é não estar nem aí para o gênero, não se adequar ao que o nosso mundo oferece como possibilidades para viver o desejo.

Esse final do documentário ocorre depois de oitenta e quatro minutos onde vamos assistindo aos mais diversos modos de viver a sexualidade – sem qualquer estereótipo, vão emergindo desejos homos, desejos trans, brincadeiras as mais esdrúxulas: trans-mulheres que menstruam, trans-homens que engravidam, Rogérias que continuam Astolfos, Neys que adoram ser homens mas não suportam se restringir a qualquer espaço que limite o desejo, gays que adoram ter pelos e adoram casamentos pomposos com vestidos de princesa…”(p. 10) ( aqui termina a citação do artigo meu que cito… será que não seria bom deixar isso mais claro? Fazendo uma margem mais acentuada a esquerda ou letra menos, não sei…)

Quando fui convidada para participar do Colóquio Internacional Psicanálise, Gêneros e Feminismos, esse texto foi a minha fala na mesa “Transgressões” (24 de outubro de 2018).  Ao final, depois de uma elaboração teórica que passava por Lacan,Pommier e NathalieZaltzmann,  eu concluía que “Somos todos gender fuckers”, pois todo corpo seria bizarro, na medida em que “ninguém vive bem com seu corpo”(NathalieZaltzman) e que o objeto do desejo é sempre fantasioso.

Em conversa com Patrícia Porchat, uma das organizadoras do evento juntamente com Nelson Silva, fui bastante criticada. O argumento era o quanto, nesse momento em que vivemos, é importante manter a questão do gênero como batalha política. Patrícia se referia à necessidade de um movimento feminista que denunciasse a violência e os cânones da submissão que vigoram no mundo contemporâneo.  Como se o conceito de gender fucker abalasse a luta feminista, ou a bandeira da defesa de gênero.

Em conversa pessoal, Patrícia me explicou que sua questão seria com a generalização do conceito de gender fucker. Transcrevo sua mensagem para mim: “A luta feminista, a violência de gênero, a opressão e a subordinação das mulheres fala de pessoas e de um lugar que não explode identidade e que, infelizmente, funciona na lógica do idêntico e do diferente do um”. O conceito de gender fucker inviabilizaria essa questão. Penso que não. Pois o gender fucker toma vários rostos e caminhos. É isso que Linn nos mostra.

Dudu Bertholini, autor da frase no filme, trabalhou com Fernanda Lima no programa da Globo “Amor e Sexo”, onde deram voz a vários trans e onde Fernanda como mulher e, por ser mulher sexuada, foi considerada louca. Viralizou nas redes sociais a fala de Fernanda Lima:

“Chamam de louca a mulher que desafia as regras e não se conforma. Chamam de louca a mulher cheia de erotismo, vida e tesão. Chamam de louca a mulher que resiste. Chamam de louca a mulher que diz sim e que diz não. Não importa o que façamos, nos chamam de loucas. Se levamos a fama, vamos sim deitar na cama, vamos sabotar as engrenagens deste sistema de opressão. Vamos sabotar as engrenagens desse sistema homofóbico, racista, patriarcal, machista e misógino. Vamos jogar na fogueira as camisas de força da submissão, da tirania e da repressão. Vamos libertar todas nós! E todos vocês! Nossa luta está apenas começando, preparem-se porque esta revolução não tem volta. Vamos sabotar tudo isso?”.

Parece que aceitar a possibilidade dos mil sexos, entre eles, o da mulher, é uma posição antes de mais nada, política.Chamou-me a atenção em Linn da Quebrada, que se define bixa travesty, o feminismo exacerbado. Um feminismo lutado em alguém que não fez a cirurgia de redesignação sexual e que não escolheu se hormonizar, vivendo muitas dúvidas em relação a isso. “Esse lugar que eu to, essa invenção, é o lugar que eu chamo de bixa travesty, que é travesty, é feminino, mas também tem o lugar de bixa, que não é uma mulher que eu sou, é esse lugar que é bixa travesty. E as gays, elas gostam de boy, de homens – não é um espaço que eles cultivam pelo feminino…”.

Linn é mulher e é bixa.  Esse lugar que é gay também e gosta de homens. Como homem ou como mulher?  Ou isso não importa? Gender fucker? De qualquer forma, é como bixa travesty que Linn vai delineando um feminismo radical, afirmando que os homens apontam o dedo para as mulheres: “…o dedo do homem que adora apontar prás coisas e dizer

Mulher – lixo – casa. Dar nome, né, adora dar nome, dar sentido a essas coisas. Então eu pensei – porque é que eu não posso fazer isso também. Eu fiz a minha música justamente como arma, pensando que o primeiro alvo era eu…”.

É como travesty que o lugar da mulher ganha um questionamento radical: “Antes era impensável se pensar no corpo da travesti sem que ela estivesse extremamente ligada ao padrão do travesti… Tanto que as manos estavam muito mais sujeitas ao lance do silicone industrial, se sujeitando ao lance do silicone industrial e a hormonização.  Eu acho que hoje a gente consegue pensar na travestilidade ou na feminilidade sem, por exemplo, ter que estar ligada à depilação. Sem ter que estar ligado a trejeitos extremamente femininos…

… eu fico querendo entender como seria meu corpo com um pouco mais de feminilidade…”.

Para Linn, o menosprezo pelo trans é o mesmo que pelo feminino. Como se no trans, o feminino se exacerbasse.  E não porque o trans acentua o que é do binarismo, mas porque ele confunde… E o feminino confunde.  Em entrevista à revista Cult, Linn afirma que no sistema, no cis-tema “…só valoriza os saberes heterossexuais… Foi cultuado um repúdio e aversão às pessoas trans, um menosprezo pelo feminino.” Linn conta que é na música que desconstrói seu desejo.

Assim, Rafael Cossi, no dossiê da Revista Cult “Femininsmos e femininos” ( Cossi, 2018) fala de Luce Irigaray: “Escrever mulher e escrever como mulher, autoafetar-se, lançando mão de um regime de diferença não previsto pela binaridade implícita à mobilidade da linguagem  –  uma diferença que não se sustente na oposição entre dois termos substancializados, um a submeter o outro, tal como o pensamento ocidental se orientaria, a se dar a ver em pares de opostos como natureza/cultura e céu/inferno, e que se expande à relação intrínseca ao dipolo homem/mulher .  Se só A e não A – a mulher como negativo do homem, sua exclusão constitutiva -, Irigaray elucubra outra lógica a ser acionada por uma escrita que deturpe os códigos linguísticos, as regras sintáticas e a gramática da cultura que silencia o feminino.” (p. 34)

É o que Linn quer fazer. Linn canta: Tô vendo de camarote o fim do seu reinado, rindo muito da sua cara… (…) quando tiver que ir embora não esqueça, deixa seu pau encima da mesa… Bixa travesty de um peito só, o cabelo arrastando no chão e no meio sangrando um coração”.

Marie Claire Booms, no ensaio “Da sedução entre os homens e as mulheres: umaabordagem lacaniana” (Booms, M. C. 1987),mostra como nossa cultura vem colocando a mulher fora da possibilidade do simbólico. Afirma: “… pois numa sociedade que se funda sobre a rejeição para fora do simbólico do feminino nãohá significante de mulher. Há apenas o significante fálico e sua função para significar a diferença, dividindo ahumanidade falante em metade masculina e metade feminina,segundo a maneira como cada sujeito seinscreveu em relação à castração que esta função designa.” (Booms, p. 92) A metade masculina tem o acesso ao simbólico bem garantida. Na outra metade, a nomeada como feminina, haveria um gozo que escaparia à castração, sendo então portadora de umsegredo sempre inviolado. Nessa metade, o acesso ao simbólico permanece problemático.

Marie Claire Booms, como feminista, mostra como essa estrutura se dá a partir do falo, sendo o feminino verdadeiramente rejeitado para a esfera do enigma, de um enigma detentor de um gozo ao qual os ditos “masculinos” não têm acesso. Enquanto bixa travesty Linn vive tudo isso radicalmente.

2. Armadilhas psicanalíticas

É tocante a cena onde Linn e sua mãe tomam banho juntas. Com doçura, uma ensaboa a outra. Essa cena acontece depois de Linn, Leniker (com quem mora) e mais uma trans conversarem na cozinha com a mãe de Linn, fazendo um estrogonofe.  Nessa conversa, surge o tema da religião. E Linn é radical. Há um momento em que Linn pega nos seios de Leniker e fala que tem mais carne do que a que está na panela, e que viveram momentos duros, de fome e de pegar pizza na lata de lixo. A mãe afirma que devem agradecer, pois Deus deve ter feito assim para que eles aprendam a valorizar o que têm. Linn ironiza, diz que esse é um jeito conformista de lidar com a realidade. Nessa cena tão caseira, há um momento em que a mãe, falando de Linn, fala do talento “dele”. Linn pergunta: “Dele quem?”.  A mãe embaraçada, tenta se corrigir. Linn afirma que vai tatuar um ELA na testa, para que a mãe nunca mais se confunda. E é o que faz ao final do filme.

A cena do banho é tocante. Linn ensaboa as dobras do corpo envelhecido de sua mãe. Conversam sobre o corpo, conversam sobre nada. Apenas se ensaboam. Linn massageia sua mãe, com imensa gratidão. Linn ensaboa a mãe que ensaboa Linn…Não é uma cena edípica. É uma cena de ternura, como se a dureza da história de Linn guerreira pudesse, naquele momento, viver uma cena de ternura e repouso. E, acarinha sua mãe, que é empregada doméstica e cuida de duas crianças brancas. A vida foi dura. Linn já foi Lino e já foi Lara. A construção daquilo que é se dá minuto a minuto.

Depois, no final do filme, Linn tatua na testa ELA. Para que sua mãe não se distraia e não esqueça de que não é mais um homem.  Porque dói quando sua mãe a trata como um menininho. Mas, o papo na banheira é sobre como lavar o “pintinho” de uma criança.

É uma cena infantil.  Que poderia levar qualquer psicanalista a falar em uma sexualidade não genitalizada, infantilizada. Diferentemente do “La Luna”, de L. Bertolucci, onde a realização edípica entre os personagens é o grande tema do filme.

Sérgio Rizzo(Rizzo, 2016), apresentando o lançamento do DVD de La Luna assim fala:“O cineasta italiano Bernardo Bertolucci conta que uma das imagens mais fortes guardadas por ele da primeira infância, talvez a mais antiga, é a de um passeio de carro. O bebê quedepois dirigiria ‘O Último Tango em Paris’ (1972) estava no colo da mãe, entre ela e o volante, de costas para a estrada. Lá em cima, a Lua. ‘Lembro que o jovem rosto de minha mãe se confundia com o velho rosto da Lua. Interpreto essa lembrança como um sonho’, diz Bertolucci no documentário incluído no material extra da edição especial em DVD de “La Luna” (1979). A cena é recriada no início do filme, com uma bicicleta no lugar do carro (São Paulo, domingo, 19 de março de 2006). Rizzo nos lembra como a mãe lambe o mel que escorre pelo corpo do filho ainda um bebê. Depois, o choro do bebê vendo o prazer da mãe dançando com “outro”.  É diferente do que acontece com Linn.

Linn pergunta desafiadoramente à mãe se ela sente “tesão” por alguém. A mãe demora a entender. Diante da insistência de Linn, responde que sentiu pelo pai de Linn. Linn abraça a mãe rindo e esse abraço dá início à cena do banho.  É como se Linn se indiscriminasse da mãe como um bebezinho. A entrega de Linn e da mãe é de uma ternura tocante. Mas, ninguém precisa satisfazer ninguém, não há qualquer “fissura enlouquecida”. Diferentemente da mãe do La Luna que, segundo Sérgio Rizzo, “chega a satisfazer sexualmente o filho adolescente para aplacar a dor do garoto que busca mais e mais cocaína”.

Mas, ao final do filme, cumprindo a ameaça que fizera à mãe na conversa de cozinha, quando ela se refere à filha como “ele”, Linn tatua ELA na testa.  Esse ELA na testa, mais do que um sinal de ligação materna, é também um tapa na cara do mundo que quer “mulheres sem pinto”e “sem pelo”. Seria bastante fácil falar de uma ligação com a mãe levando à uma identificação primária, a uma bolha da primeira infância onde os corpos de indiscriminariam.

Ou ligar a transexualidade a uma sexualidade infantilizada não genital, que se evidenciaria tanto na cena do banho com a mãe como na cena em que Jup e Linn estão na sauna e falam dos corpos. Aliás, a relação de Linn com Jup acontece sempre ludicamente, dançarinamente. Jup é uma mulher trans, gorda e desajeitada.  As duas falam do esforço que fazem para não serem apenas engraçadas.  Reduzir a sexualidade trans ao pré-genital seria patologizar uma escolha que não obedece à anatomia. Seria fazer o que o DMS fez e faz, ou seja, considerar o transexualismo como doença a ser curada. Como fazem no Iran, onde matam homossexuais e operam transexuais para curá-los.

Em Linn e Jup, nos seus jogos, no humor, nas coreografias, o que vemos é uma sexualidade regida pelo Sexual, termo que Laplanche (Laplanche, 2015) conceitua como sendo aquilo que, para Freud,  é anterior “à diferença dos sexos, para não dizer à diferença de gêneros”(p. 157) . Citando Freud, Laplanche afirma que o Sexual poderia ser definido como “o que é condenado pelo adulto”. (p. 157).  E, a seguir, afirma Laplanche: “… creio que, mesmo nos dias de hoje, a sexualidade infantil propriamente dita, é o que mais repugna para a visão do adulto”(p. 158).

Há um momento do filme em que Linn encontra uma amiga querida,Núbia, que fotografou e filmou momentos íntimos. Vemos Linn ainda homem, vemos Linn urinando em uma praça como uma estátua barroca, vemos seus jogos com o pênis/batom. São jogos onde o corpo vai sendo conhecido através de lindo jogo erótico. Em uma transa no banho, Linn comenta de como viviam se agarrando, Linn e Núbia, e de como “tem coisas que não mudam”. É quando ficamos sabendo que Linn teve um câncer. É mais uma cena tocante: em um espelho de hospital, Linn vai puxando suas madeixas e o cabelo vai caindo, lentamente. Depois, na cama, com os lábios pintados de rosa pink, uma camisolinha azulão com pássaros que voam, Linn conta como aprendeu sobre o corpo a partir do câncer. Disruptora, de salto alto, Núbia filma cenas de autoerotismo no hospital. É com vida que se rebate a morte.

3. Descubram os corpos escondidos em cada um de nós

Em um dos programas de rádio, Jup conta a Linn que tinha resolvido vir de taxi, fazer algo diferente. E o taxista perguntou: “Prá onde o senhor vai?”. Esse é o diálogo de Jup com Linn:

Linn :Fui explicar prá o taxistaque nem toda mulher tem…

Jup: Barba, mas é o meu caso…

Linn: Nem toda mulher tem xuxu, mas eu tenho

Linn: Mas tem mulher que tem…

Jup: Pinto…

Linn: Olha que novidade!!!

Linn: Descubram novos corpos que se escondem entre vocês!

Jup: Vai vasculhando que vai dar.

Linn relaciona seu corpo com a produçãode saberes periféricos. Fala em “produção de saberes marginais”: “Tem essa questão geográfica , mas acho que eu penso meu próprio corpo como esse território geográfico, como esse território a ser explorado, como essas quebradas, ainda pensando o corpo como essa arqueologia, como esse processo de escavação, de descoberta de territórios que modificam as coisas e as transformam, que me fazem outra mesmo.E as possibilidades de encontros e desencontros vão se multiplicando ao infinito, pois “tem bixa que trava por medo de trava(…) e tem trava que trava-línguas e tem trava”.

Linn é de uma lucidez cortante: “Eu acho que eu sou a trava que tem medo do escuro. Eu acho que é disso que eu tenho medo. Tenho medo do escuro, tenho medo de ficar sozinho. Medo de não pertencer. Eu acho que pelo medo de não pertencer eu acabei inventando prá mim, prá que eu pertencesse pelo menos a mim. Já que não tem um lugar que me cabe então que inventasse esse espaço, um espaço que me coubesse. Mas que também é temporário. Não quer dizer que eu vou caber aqui prá sempre. Logo eu acho que eu vou precisar estar indo prá outros lugares”.

Aqui, Linn desconstrói qualquer leitura moralizante de sua sexualidade e jeito de estar no mundo. Afinal, todos temos que nos reinventar para caber naquilo que é o nosso desejo. Bixa Travesty deixa claro o não-lugar que constitui toda e qualquer sexualidade. Assim, Linn é mais feminista do que muitas mulheres, pois vive na pele a humilhação e o preconceito.  Sua luta política é pelo amor: “…eu acho que é político a gente ser amado, é um dever, é um dever meu ser feliz, é um dever meu ter dignidade, estar contente com a nossa vida, nós travestis, mulheres pretas e travestis, mulheres brancas e travetys, bixa sapatão, bixa travesty, é um dever nosso estar bem, ser feliz, ser amada. Prá isso que eu sinto que eu vivo mesmo, é prá ser feliz”.

Linn, como Laplanche, afirma o Sexual, como oposição ao sexo e ao gênero. Por isso incomoda tanto. Desvela o que o mundo adulto não pode ver. Desvela o que a sexualidade adulta recalcou.  Desvela o que, em“Três Ensaios sobre a sexualidade”, Freud mostrou de uma pulsão plástica e sem objeto pré-determinado. O nome que isso venha a ter – polimorficamente perverso, trans, bixa, etc, pouco importa.  Importa, sim, afirmar, com Linn, que amar é um ato político.

Referências Bibliográficas:

BOOMS, M. C. – “Da sedução entre homens e mulheres: uma abordagem lacaniana inHomem Mulher, abordagens sociais e psicanalíticas, org. Carmen Da Poian; R.J., Livraria Taurus Editora, 1987, pp 89-106.

CHNAIDERMAN, M – “É possível ser gender fucker” in Corpo: ficção, saver, verdade, vol.2, Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n.50, vol. 2, janeiro/junho 2018, pp 9-22.

COSSI, Rafael Kalaf – “Lacan não sem o feminismo” in Revista Cult 238, ano 21, setembro 2018, pp 33-35.

LAPLANCHE, J. – “O gênero, o sexo e o Sexual” in Sexual A sexualidade ampliada no sentido freudiano –Porto Alegre, Fondation Jean Laplanche/ Dublinense2000 2006, pp 154-189.

RIZZO, S – Lançamento do dvd La Luna, São Paulo, “Folha Ilustrada“ in Folha de São Paulo, 19 de março de 2006

TRÓI, Marcelo de – “Linn da Quebrada: Ficou insustentável fingir que nós não existimos”, Revista Cult, 8 de agosto de 2017.

Miriam Chnaiderman é psicanalista e cineasta, ensaísta e escritora. Possui vários artigos publicados sobre psicanálise, cinema e teatro, bem como dois livros sobre a relação entre arte e psicanálise: “O hiato convexo: literatura e psicanálise” (Brasiliense, 1989) e “Ensaios de psicanálise e semiótica” (Escuta, 1989).

Memórias de Infância: um nó entre literatura e psicanálise

* Cristiana Tiradentes Boaventura

Nas ciências humanas, há um extenso campo que se debruça sobre os usos da memória e o estudo de como ela se constitui. Na literatura, alguns escritores se dedicaram mais de perto a esse tema e fazem da sua obra um importante espaço para reflexão sobre a memória, o testemunho e a autobiografia, espaço que o campo psicanalítico também ocupa. Escrever, pensar, falar sobre nossas próprias memórias é debruçarmos sobre nós mesmos. E parece claro que alguns autores literários conseguiram chegar perto, de modo rico e profundo, dessas arquiteturas psíquicas.

Graciliano Ramos faz isso muito bem. Costura com rigor o narrador no seu presente, no seu passado. No final do primeiro capítulo de seu livro Infância, por exemplo, em que perseguido pela “impertinência” da lembrança de um conto, que a mãe proseava com insistência, ele tenta lidar com os nós da memória. O teor desse texto nos remete à representação de uma violência destruidora, vingativa, e surge como memória problemática, saturada de dilemas, que o narrador insiste em marcar num jogo entre esquecer e lembrar. Assistimos a um conflito do adulto entre a tentativa de afastamento da lembrança e o esforço de resgatá-la.

O leitor toma conhecimento da temática de sofrimento e violência que se esboça na história oral quando ela é resumida pelo narrador. O enredo é basicamente o seguinte: um menino é adotado por um padre que tinha uma amante. Para não se comprometer e não ter sua história revelada pelo rapaz, o padre lhe ensinou signos linguísticos distintos para designar algumas palavras, de forma que se o pequeno falasse algo ninguém o entenderia. Com o tempo, o padre e a amante começaram a maltratá-lo, certos de que não seriam delatados. Acontece que, um dia, o menino decidiu vingar-se e coloca fogo na casa, escapulindo, gritando versos na linguagem que havia aprendido com o padre. Seguem-se, então, comentários do narrador vinculados aos sentimentos de infância:

Não se mencionou o gênero dos maus tratos, mas calculei que deviam assemelhar-se aos que meus pais me infligiam: bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelhas. Acostumaram-me a isto muito cedo — e em consequência admirei o menino pobre, que, depois de numerosos padecimentos, realizou feito notável. (RAMOS, 2009, p. 19)

É muito interessante observar como os versos da história, aos poucos, adquirem sentido e como o narrador atribuirá a eles um significado para o presente. O necessário é para o agora, que parece passar pela dificuldade em expor sentimentos ambivalentes, visto a insistência em esquecer, em evitar mostrar desejos que o envergonhavam no passado, em falar do tema violência. Mas, paradoxalmente, o narrador fixa-se nesses sentimentos e os expõe, apontando para uma construção narrativa corajosa em que vergonhas e constrangimentos de outros tempos se apresentam. De modo bidirecional, opera com a revisão desse passado:

Esta obra de arte popular até hoje se conservou inédita, creio eu. Foi uma dificuldade lembrar-me dela, porque a façanha do garoto me envergonhava talvez e precisei extingui-la. Ouvindo a modesta epopeia, com certeza desejei exibir energia e ferocidade. Infelizmente não tenho jeito para violência. Encolhido e silencioso, aguentando cascudos, limitei-me a aprovar a coragem do menino vingativo. (RAMOS, 2009, p. 19)

Essa revelação evidencia que o narrador não se propõe à construção de um passado limpo, ligado somente a sentimentos dignos e justos. A lembrança não vem sem sofrimento. E a relutância de lembrar ocorre porque é preciso admitir ali atitudes que para ele são condenáveis, principalmente a confissão de sua admiração pelo menino que age violentamente e do desejo de capacitar-se com a coragem e a ferocidade da personagem.

Esse pequeno exemplar da literatura oral serviu para uma reflexão sobre esse passado e para que agora possa se ver outro – ele não é mais aquele, há um caminho entre o menino e o adulto. Parece funcionar também como uma ferramenta de reterritorialização do presente, por onde o tom às vezes irônico alcançará caminho para lidar com o conceito de masculinidade daquela sociedade patriarcal em que cresceu.

A literatura, a narrativa ficcional, estaria funcionando aqui como mediadora entre a violência e o narrador. Ela interpõe-se entre os dois e serve como instrumento de elaboração. É pela narrativa que se dá a transformação. E ela cria o espaço devido para uma crítica da violência, crítica essa só possível pelo distanciamento do tempo, feita com uma escrita combativa àquela ordem social violenta.

Algumas construções discursivas foram necessárias no processo de reconstrução da história, como a fragmentação, a repetição e a resistência ao narrar, muito identificadas a situações de traumas, de modo que a interpretação do passado se aproxima do próprio processo de funcionamento da memória, com seus vazios e lacunas.

É ao escrever essa história, portanto, que Graciliano constrói para si um sentido entre esse conto e sua experiência, na medida em que criou uma relação interpretativa desse mundo do passado e o seu mundo como narrador-escritor. Esse movimento dialético possibilita a construção de uma “identidade narrativa” (RICOEUER). Afinal, para analisar o “homem psicanalítico” (HERMANN) muitas vezes é preciso acionar recursos da ficção literária. Nesse sentido, literatura e psicanálise se aproximam. E articulam experiências amalgamadas pela memória e pela narrativa.

Referências:

HERMANN, Fabio. A infância de Adão e outras ficções freudianas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

RAMOS, Graciliano. Infância.  44ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009.

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas, SP: Papirus, 1991.

Cristiana Tiradentes Boaventura é psicanalista, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela USP. É membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e vinculada ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/USP).

 

AMAMENTAÇÃO TEM ALGO A VER COM SEXUALIDADE?¹

* Denise de Sousa Feliciano

Quando uma menina percebe que seus botões mamilares incham, envergonha-se. O pudor se instaura no símbolo que o nascer do seio representa: torna-se aos poucos uma mulher. Em geral, vem acompanhado da menarca e dos demais sinais que transformam o corpo de menina no de uma mulher. E com ele será capaz de gerar um filho. O seio, então, é tanto o prenúncio quanto a própria consolidação de sua vida adulta.

A menina, agora adolescente, sente-se invadir por complexas emoções, sensações e um novo olhar dirigido à ela. Percebe que em sua nova roupagem captura os olhos masculinos de admiração e desejo. Um misto de incômodo e vaidade.

De símbolo, o seio aos poucos passa a fazer parte de sua vida sexual. As sensações no mamilo são fortes aliadas na excitação genital. O mesmo seio no qual o bebê vai mamar.

Amamentar por sua vez está associado à nutrição e também ao aconchego, ao carinho, à ternura e a outros adjetivos que denotam o relacionamento afetivo da mãe com seu bebê. E essa fusão entre as necessidades fisiológicas e emocionais torna essa – e todas as demais – experiências do corpo carregadas de significados e representações mentais que vão marcando a vida psíquica de cada pessoa.

As terminações nervosas do mamilo não mudam nas duas situações. Mas a mulher se vê diante de todo o engendramento mental que vai permitir que ela transforme psiquicamente as sensações de prazer genital de seus seios em uma experiência também prazerosa de ternura e amor. Não é um mecanismo mental simples. A condição de que essa organização flua está relacionada à sua história e à constituição de sua sexualidade. Soma-se à essa bagagem a dinâmica e história com o pai dessa criança e sua concepção. Marcas que ela nem mesmo pode acessar conscientemente, mas que são fatores importantes no modo como o lugar da criança e da amamentação vão se consolidar.

Um processo semelhante acontece com o homem, que precisará ver no mesmo seio erótico que o cativa, a fonte de nutrição e aconchego para seu filho, marca primária do prazer para o bebê, que nessa experiência inaugura a sua própria sexualidade.

Freud (1905)  em um de seus artigos mais importantes – Três ensaios para a teoria da sexualidade infantil –, apresentou-nos a construção da sexualidade humana que se inicia no prazer de mamar para o bebê. A boca, sua primeira zona erógena pela sensibilidade exacerbada nos primeiros meses, favorece que ele tenha grande satisfação ao mamar, garantindo a sua sobrevivência. Zona erógena para a Psicanálise está ligada à energia vital ou libido.

Na compreensão psicanalítica, sexualidade não se restringe à atividade genital e abrange um sistema complexo que envolve o corpo, as relações interpessoais e toda a cadeia de representações que constitui a vida psíquica do ser humano. É vital.

O prazer compartilhado e dual da mãe e do bebê na amamentação é sexualidade. Mas tem diferenças importantes do ponto de vista do bebê e  da mãe.

A sexualidade infantil tem características próprias de um psiquismo em constituição. Não é a mesma dos adultos. De qualquer modo, a finalidade é a mesma: o prazer, que é o motor da vida mental saudável e precisa ser experimentado pelo indivíduo desde o nascimento, mas dentro do caráter próprio de cada fase do desenvolvimento psicoemocional.

Libido, que no senso comum tornou-se sinônimo do desejo sexual da vida adulta, em termos psíquicos é o que garante a ligação das pessoas  com seus interesses e as mantém em movimento vital. Um bebê para ser saudável precisa ser libidinizado por seus pais, sendo para eles o centro de suas atenções e interesses durante a primeira etapa de vida. Isso funda na criança a capacidade de amar e se vincular.

Com base nessas premissas fundamentais, o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott desenvolveu sua Teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo, atribuindo fundamental importância ao psiquismo da mãe e às vivencias psicoemocionais da dupla, com o suporte afetivo do pai, como fatores intrínsecos à saúde global do indivíduo.

Para Winnicott (1968/1994), é uma grande riqueza a amamentação vivida tanto pela mãe quanto pelo bebê de forma plena e prazerosa. Ao entregar uma parte de seu corpo ao contato da mucosa bucal do bebê, a mãe favorece uma experiência de união e intimidade sem igual.

Para a psicanalista inglesa Melanie Klein (1936/1997), no prazer experimentado pelo bebê pela estimulação em sua mucosa bucal no ato de sugar o seio materno estariam as raízes da sexualidade. As sensações de desequilíbrio interno provocadas pela fome ocupariam lugar de primazia nesta primeira fase da infância. O bebê pequeno estabeleceria com a mãe um contato parcial através do seio tomando o seio gratificante – portador do alimento que sacia a fome -, como bom e o que frustra, como mau. Essa ambigüidade de sentimentos dessa relação com o seio-mãe seria responsável pelas diversas fantasias inconscientes que vão consolidando as relações do bebê com seus pais, e que posteriormente servirão de protótipo aos demais relacionamentos.

Apesar das variações no enfoque de cada autor, é unânime a afirmação de que o cerne da constituição do psiquismo estaria fundamentado na vivência de prazer compartilhado na primeira infância. A amamentação como o ícone dessa etapa de vida pode ser a pedra fundamental desse percurso.

O pai tem importante papel na sustentação da dupla mãe-bebê, que vive essa intensa experiência compartilhada. É importante que ele próprio não esteja excessivamente incomodado e impossibilitado de tolerar ser excluído dessa dualidade, para que aos poucos se construa uma nova relação triangular que lhe inclua. Nesse momento, suas próprias vivências infantis serão o esteio no qual ele se apoiará ou não para esse lugar primordial na relação com sua família atual.

É comum os homens sentirem-se enciumados da relação do filho com sua esposa, seja porque se sente excluído do prazer que percebe haver entre eles, seja porque precisa temporariamente abster-se da sexualidade genital do casal, que fica ofuscada ante à temporária substituição do prazer erótico genital da mulher pela plenitude que a ternura ocupa em sua sexualidade. Entretanto, esse período precisa terminar e a mulher afastar-se um pouco dessa espécie de fusão com seu filho e voltar-se também para o casal parental. Esse afastamento gradual que tem seu apogeu no desmame permite ao bebê o espaço de desenvolvimento psíquico necessário, ainda que seja um período de dor e luto para todos. É a vivencia de luto que permite ao bebê se constituir como pessoa.

[1] Título inspirado no artigo de André Green “Sexualidade tem algo a ver com Psicanálise?” (1995) Livro Anual de Psicanálise, 1995; v.11 p.217-29 São Paulo : Escuta, 1997.

REFERÊNCIAS

Freud, S. (1969). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J.Salomão, trad.,Vol. VII). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905)

Klein, M ( 1997). O desmame In Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1936)

Winnicott, DW. (1994). A amamentação como forma de comunicação In Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1968).

Denise de Sousa Feliciano é psicóloga e psicanalista, mestre e doutora pelo IPUSP-SP em pesquisas sobre amamentação e psiquismo, membro associado da SBPSP.

Imagem: Obra “Maternity”, de Pablo Picasso

 

Atualidades pedagógicas: o pensamento de vanguarda de Junior Bolsonaro

* Luciana Saddi

Como cantou Vinicius de Morais “hay dias que no sé lo que passa…”, e me pergunto o que teria em mente Bolsonaro Jr. no momento que utilizou redes sociais para ordenar (sic) o final do “ensino” do feminismo nas escolas. Difícil entender. Há nas escolas a disciplina “Feminismo”? Junior é especialista em currículos? É surpreendente! Junior pretendeu propor apenas a supressão do substantivo masculino (ironia) – que significa ampliar e aprimorar o papel e os direitos das mulheres na sociedade – no ambiente escolar?  Ou pretendeu estender os seus domínios para eliminar a palavra, censurar seus sinônimos em dicionários, sites, blogs e redes sociais? É possível censurar a palavra, mas não acredito que seja possível censurar seu significado. Imagino, se é que captei o sentido da ação, que Junior considere feminismo alguma anomalia e causa direta da violência contra as mulheres. Ou Junior não aprecia mulheres?

É público e notório, o feminismo – entre outras contribuições – provoca ou estimula 135 estupros diários e 12 assassinatos por dia *, além de incontáveis agressões, lesões e sofrimento psíquico.  O feminismo está na etiologia destas ocorrências. Basta, portanto, que seja eliminado como palavra e ideia nas escolas para queda natural, e inevitável, destes índices. É só não ensinar nada sobre feminismo que os índices desaparecerão. Junior, nunca suspeitei, encontrou a solução. Gênio das ciências sociais e do comportamento humano, comprometido com o enfrentamento da violência familiar – que assola os brasileiros independente de extrato ou renda – de pronto, sem meias medidas, solucionou um problema tão grave.

Foi muito além dos que desperdiçam tempo nas Universidades do país, nas áreas de saúde e assistência social, consumindo recursos preciosos e finitos. Junior foi ao ponto. A nítida má vontade de Junior e família com a Universidade se deve ao simples fato de que a investigação destes problemas pode ser descartada, sem prejuízo à sociedade. Junior sabe como resolver. Se a palavra desaparecer de todas as bocas, sumir das escolas e das ruas, as mulheres não serão mais agredidas, estupradas, humilhadas e mortas. O responsável direto por tais atrocidades é essa maldita coisa chamada feminismo.

Caríssimas, obedeçam, é mais seguro. Inclinem a cabeça, olhem para o chão, trabalhem fora para pagar as contas da família, cozinhem, limpem, lavem e passem, criem os filhos e os protejam das agressões e violações, e ao cumprir tal tarefa, como prêmio, podem, talvez, escapar do estupro e assassinato. Percebem como é simples? Vocês conseguem!

Comove testemunhar jovem congressista, emblema da renovação, comprometido com tal causa e, mais, propondo soluções. Surpreende que um moço jovem, forte, bonito, bem-nascido tenha se interessado, justamente, pela causa do feminismo. Ele se porta como um herói nacional. Junior nunca testemunhou ou viveu problemas vulgares de ameaça à vida da mulher, por ela querer terminar a relação. Totalmente desinteressado, mas, sentindo a dor dos que sofrem, procurou usar seu enorme poder para melhorar a vida das mulheres brasileiras. Junior é um altruísta!

Ainda me pergunto o que mais Junior pretende ao indicar a eliminação do “ensino” do feminismo? Porque, afinal, ao decretar a extinção do tema no Enem e no vestibular, ele aborda um dos problemas da educação: a diferença entre o exigido em provas e o ensinado em sala de aula, que leva ao desinteresse do aluno e evasão escolar. Mais uma preocupação de Junior que toca o nosso coração. O congressista demonstra interesse nos problemas da educação e aprendizagem do Brasil. Quem diria que um dia teríamos alguém tão importante, de notório saber, dando sua contribuição para solucionar os problemas do país.

Entendo que Junior como representante da população no legislativo não poderia atuar tão incisivamente nas diretrizes do Ministério da Educação, seara do Poder Executivo, mas, quando a causa é nobre – a propósito de seu pronunciamento fundamental e demonstração de responsabilidade para com a saúde física e psíquica das mulheres brasileiras -, vale quebrar as regras da república e embaralhar os três poderes.

É bem possível que Junior, ao enfrentar o espelho, perceba-se príncipe ou futuro regente. O primeiro na linha de sucessão ao trono, nas democracias modernas, muito pode. Vejam o príncipe Charles, príncipe de Gales e Duque da Cornualha, educado na Escócia e em Cambridge, portanto, menos afortunado que Junior, também cultiva o hábito de dar conselhos sobre ensino e temas de exames ao ministro da Educação do Reino Unido. No momento, dedica-se à missão de indicar, à primeira ministra, providências relativas a caça à raposa na primavera e arranjos florais adequados aos rigores do clima nos castelos do Atlântico Norte.

Mas, voltemos às contribuições de Junior ao país, constata-se ausência de manifestações contra o ensino do machismo, que deve, portanto, permanecer prestigiado nos currículos e constante nos exames vestibulares.

Junior, obrigada. Essa é a sociedade justa que desejamos. Agora temos norte!

* dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2017

Luciana Saddi é psicanalista e escritora, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, diretora de cultura e comunidade da SBPSP e autora dos livros “Alcoolismo” (ed. Blucher) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Imagem: Freepik

Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Entre heteros, homos, cis, x e trans…

*Cecília Orsini

Caro leitor, você sabia que esta verdadeira revolução dos costumes na sociedade ocidental, no que diz respeito às opções sexuais, começa em fins do século XIX, com Freud?

Bem, seria um tanto restritivo atribuir somente a Freud o início dessa revolução, já que muitas coisas concorreram para isso. Um pensador recolhe os elementos de época, os articula e os coloca na vanguarda de uma transformação que virá. Portanto, vou me ater a expor como a questão da sexualidade humana é captada, recolhida e transformada radicalmente a partir de Freud.

Como essa história começa? Corria no meio médico de meados do século 19 que a masturbação infantil era uma das fontes privilegiadas da loucura. Foi um século prolífico em tratados sobre os “desvios” sexuais. Em contrapartida, também se dizia à boca pequena que as histéricas (que respondiam pela maior parte dos casos de neurose) adoeciam por falta de relações sexuais normais. Enfim, sexo estava na cabeça dos puritanos da era vitoriana.

A partir da instauração da escuta analítica no tratamento das neuroses, Freud passa a dar importância aos relatos de qualquer natureza, sobretudo aqueles que davam passagem aos conteúdos inconscientes, motores da neurose: sonhos, atos falhos e rememorações da infância. Enfim, o lado avesso da vida de vigília… De um lado Freud tinha essa ferramenta em mão, mais o caldo de cultura referente à preocupação com a sexualidade e sua repressão. Por outro lado, observava-se a exigência de relações sexuais normais para que não se adoecesse. Tudo isso somado concorreu para que Freud escutasse a neurose a partir desse lugar. Assim, surgiam nos relatos os mais diferentes tipos de manisfestação sexual, incluindo a infância, em pacientes insuspeitos de uma conduta sexual “desviante”.

Assim, para dar conta desse fenômeno, Freud vai elaborar uma nova e revolucionária teoria da sexualidade humana. Num golpe de gênio, Freud descola a libido, ou pulsão sexual – concebida como a expressão psíquica da energia sexual – de qualquer objeto de satisfação pré-determinado. Ou seja, não há nada no ser humano que garanta a heterossexualidade e nem a fidelidade a um mesmo parceiro como um padrão biológico da espécie. Aliás, Freud vai demonstrar que não existe um instinto sexual que oriente as opções sexuais.

Para dar conta dessa tese, Freud monta seu argumento de maneira radical e sagaz, na obra seminal “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”. Ele começa por fazer um inventário de variações sexuais, como homossexualidade, pedofilia, zoofilia, fetichismo.  Com isso vai desmontando a exclusividade de um objeto sexual convencionado como o correto, ou seja, o sexo oposto. Radicalizando ao máximo, Freud vai apelar para as mais repulsivas atividades sexuais, a necrofilia ou lamber excrementos, para demonstrar quão longe vai a distância da pulsão sexual em relação à heterossexualidade. A necrofilia seria o argumento decisivo onde se constata que a sexualidade pode abrigar objetos surpreendentes. E mais, ou o mais importante, é que as diferenças em relação à norma são encontráveis em pessoas comuns, em nada diferentes dos demais seres humanos, no que diz respeito a outros aspectos de seu comportamento. Freud convida o leitor a constatar a legitimidade das diferentes práticas sexuais que variam de acordo com a cultura, como a aceitação da homossexualidade na Grécia clássica. Ou da zoofilia no campo. Nos povos tutsis, o recém-nascido é recebido na comunidade numa cerimônia em que se serve uma refeição ritual preparada com as fezes do bebê…

O relativismo cultural, somado à constatação da variedade de escolhas, separa radicalmente libido e objeto de satisfação. Do ponto de vista da psicanálise, toda e qualquer atividade sexual é legítima, ainda que seja vista como imoral e condenável juridicamente, a depender dos valores éticos que cada sociedade estabelece (como a pedofilia ou a homossexualidade que até há pouco era criminalizada juridicamente). Para a psicanálise, dirá Freud, qualquer conduta está sujeita a explicações no interior de uma análise, até mesmo a escolha exclusiva de um parceiro do sexo oposto. A moralidade é uma convenção que se estabelece no contrato social, mas ela não elimina as peculiaridades do desejo humano. A libido é uma força plástica e elástica, capaz até de ser sublimada em atividades valorizadas pela cultura em tela. Colocam o bebezinho para manusear areia ou massinha, substituindo as fezes que costumam ser sua diversão.  E o bebê pode crescer e tornar-se um ceramista ou um escultor.

A questão é que – e esta é a outra face do argumento – o desejo tem uma história singular que começa no nascimento. É o que Freud vai chamar de sexualidade infantil, ou seja, a sexualidade não começa na puberdade. O que encontramos em nível do desejo sexual, são práticas cujo mapa da mina, ou do tesouro que é o prazer, encontram-se marcadas pela experiência da criança no encontro com o desejo daqueles que dela cuidam. O prazer acompanha as atividades de mamar, no primeiro ano de vida, que perduram no beijo e no sexo oral. Depois, no segundo ano de vida, reforça-se o interesse prazenteiro pelos movimentos esfincterianos, que perduram nos rituais de evacuação e no sexo anal. Vem a seguir, a partir de dois ou três anos, a  masturbação dos genitais que perduram no sexo solitário e, na criança, vinculam-se a  fantasias ligadas aos genitores, alvos das paixões da criança, que serão reprimidas pela educação e recalcadas no inconsciente. Essas chamadas fases do desenvolvimento psicossexual não são exatamente passagens de uma fase a outra, onde a anterior é eliminada. Pelo contrário, elas coexistem colorindo a sexualidade. De outro lado – e este aspecto é revolucionário e perturbador: o adulto cuidador traz as marcas de seu próprio desejo e lida com o corpo da criança orientado pelas mesmas. É desse encontro singular que se constrói a sexualidade, em conflito e na estreita dependência daquilo que é aceito socialmente.

Embora até a década de 70 a opção heterossexual fosse a única legítima, a revolução dos costumes foi se impondo.  Esse descolamento entre libido e escolha de objeto foi crucial. Foi revelado, construído como argumento e assim legitimado pela psicanálise. Na sua radicalidade, leva ao ponto em que estamos: pessoas que não querem definir-se nem sexualmente, nem enquanto gênero, instaurando o gênero neutro. Países que não colocam o gênero da criança em seu registro civil, creches em países escandinavos que usam o gênero neutro em suas práticas, como banheiros unissex com portas abertas. Como também se observa o aumento do número de pais que dão nomes unissex aos seus filhos.

No entanto, curiosamente, ou nem tanto, aquele que abriu as comportas dessa revolução, em seu tempo capitulou: afinal, porque na maioria casamos com alguém do sexo oposto e fazemos filhos? Para surpresa do leitor, Freud, nos seus “Três ensaios”, responde: pela necessidade biológica da espécie humana de “crescer e se multiplicar”… Era demais exigir que um único pensador, na alvorada do século 20, sustentasse sozinho uma revolução coletiva, que só viria a acontecer plenamente 120 anos depois…

Cecília Orsini é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de Freud no Instituto de Psicanálise da SBPSP.

(Imagem: Haafiz Shahimi – Confused Sexuality)

Sobre o Ressentimento

*Nilde J. Parada Franch

Tenho observado nos muitos anos de experiência clínica que o ressentimento é um fator bastante presente nas situações de parada e fixação em certas etapas do desenvolvimento emocional.

Os efeitos devastadores do rancor consequente ao ressentimento já foram assinalados há 25 séculos por Heráclito de Éfeso (540 AC): “Há que mostrar maior rapidez em acalmar um ressentimento do que em apagar um incêndio, pois as consequências do primeiro são infinitamente mais perigosas do que os resultados do último”.

O ressentimento provoca a permanência em um tempo de ruminação indigesta de uma ofensa que não cessa, de um luto que não se consegue elaborar, podendo trazer consigo a sede de vingança. Por outro lado, o ressentimento também pode abrigar uma esperança de o indivíduo lutar para instalar ou reinstalar o sentido da dignidade ferida.

O rancor pode mobilizar fantasias e ideias destrutivas, mas também favorecer o aparecimento de uma rebeldia e de um trabalho psíquico sublimatório que poderiam levar a restaurar as feridas provenientes de situações traumáticas.

Sándor Márai, escritor húngaro, aborda em seus livros temas sobre amor, segredos, ofensas, traições, perdão, vingança, compaixão e também ressentimento. Em “As Brasas”, conta-nos o último encontro de dois homens de mais de 75 anos, amigos inseparáveis na juventude. Depois de um afastamento de 41 anos, em consequência da traição do amigo com sua esposa, encontram-se para uma última conversa. Desde o momento da ruptura, interpuseram-se na linha do tempo as memórias do rancor e da dor, sem que pudessem falar sobre a situação. A traição da amizade, a infelicidade e o desconhecimento em relação à verdade fizeram com que Henrik, o ressentido, o desejante de vingança, aquele que se refugiava no rancor e na dor, permanecesse sequestrado por um ressentimento interminável, habitado por lutos patológicos que detiveram a passagem do tempo e o retiveram numa posição de reclamante litigioso, queixoso e reivindicativo. Não podia olhar para frente; seus olhos estavam como que “em sua nuca”, olhando apenas para a ofensa passada.

A grande amizade que os unira no passado mantinha alguma esperança de entendimento entre eles.

Márai e outros autores, como o filósofo Agamben e o escritor Octavio Paz, destacam a amizade como importantíssimo sentimento que marca a sensação de ser e de existir. ,

Através da memória da traição, do desapontamento, a pessoa permanece atada a situações traumáticas. Os sentimentos permanecem no campo do automatismo de repetição, sem poder reviver os afetos, integrando-os numa nova estrutura. O passado assombra e não há espaço para uma perspectiva diferente, para um futuro a ser construído. A pessoa vive em estado de precariedade, pois falta-lhe o sentimento de pertinência e de confiança. Não consegue estabelecer vínculos confiáveis e estáveis, já que está sempre presente o pavor de um novo trauma. Não consegue viver em paz. “Sinto-me como alguém que foi atirado em uma cela, como vítima, pois não fui consultado, não escolhi isso. Tenho que esperar o tempo de cumprir a pena” – são palavras que revelam o sofrimento e a consciência do tempo que leva à elaboração de tantos sentimentos contraditórios!

A memória da dor não implica a desvalorização do passado, nem a amnésia do traumático, nem mesmo a absolvição superficial do traumatizador, mas sim a aceitação com pena, ódio e dor pela situação imodificável, pela perda sofrida, pela frustração vivida, o que possibilitaria o processamento de um luto normal. Entretanto, a pulsão de vida, pode utilizar o não esquecimento como algo estruturante, como aprendizado para proteger o sujeito e evitar situações que poderiam ser evitadas. O passado pode ser transformado em uma experiência de aprendizado.

Aprender o quê? O mais importante, de meu ponto de vista, é o aprendizado sobre a presença de um outro, diferente e singular – e, portanto, não necessariamente disponível para atender às nossas expectativas, necessidades e desejos. Como se costuma dizer: aprender que “os olmos não dão peras” é necessário, ainda que muito sofrido, desidealizar o outro e aceitar suas limitações… Difícil trabalho diante de tanta dor!

Milan Kundera, em “A Brincadeira”, coloca-nos diante do personagem que, conseguindo perpetrar sua vingança, pergunta-se o que fará agora de sua vida, como preencherá o espaço que durante anos foi ocupado pelo ressentimento e alimentado por ideais de vingança. Passara anos de sua vida imaginando como fazer o outro sofrer o que havia sofrido, e agora?

Na clínica, enfrentamos situações bastante difíceis e dolorosas. O paciente sofre de um ressentimento absolutamente compreensível por expectativas não cumpridas. Como evitar o conluio culpabilizador e propiciador de estagnação na situação vitimizante, sem desqualificar o enorme sofrimento, as vivências de falta, o ódio?

Outra dificuldade frequente é a desconfiança sempre presente, como que à espera onipresente do momento de outra traição, incompreensão ou maus tratos.  Da idealização possível, quando o paciente se sente bem tratado e compreendido, rapidamente um buraco pode abrir-se quando há momentos de incompreensão ou falha do analista. E, nesse processo que vai passo a passo, sessão por sessão, momento a momento, a dupla vai caminhando na esperança de poder encontrar possibilidades de elaboração do luto, de encontrar palavras para dizer o ainda não dito, emoções que possam ser pensadas e que indiquem o caminho a seguir.

Nilde Parada Franch é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, analista de crianças, adolescentes e adultos.

O Desamparo na Cidade

* Adriana Casagrande e Rita Andréa Alcântara de Mello

Como descrever uma cidade? Como descrever uma experiência com a cidade?

Vem à cabeça a personagem de Saint-Preux em A nova Heloisa, de Rousseau, quando narra sua experiência com uma cidade grande pela primeira vez: “Eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante dos meus olhos, eu vou ficando aturdido…perturbam meus sentimentos, de modo a fazer com que eu esqueça o que sou e qual o meu lugar”.

Essa vivência pode ocorrer quando nos defrontamos com qualquer metrópole como Tóquio, Deli, Nova York, Cidade do México ou Pequim. Segundo a ONU, a previsão para 2050 é que seremos cerca de 9,8 bilhões de habitantes no planeta e, nas próximas décadas, as principais cidades terão mais de 10 milhões de habitantes.

Na década de 60, quando comecei a conhecer São Paulo, a cidade possuía aproximadamente quatro milhões de habitantes. Hoje, em um pouco mais de meio século, a população e a cidade mais que triplicaram, multiplicando, e muito, os seus problemas.

A cidade, com suas referências históricas, cedeu lugar a conglomerados indiferenciados. O espaço coletivo foi diminuindo, favorecendo o anonimato de pessoas e lugares. O crescimento, desordenado e desenfreado, favoreceu o rompimento das possibilidades de troca, de construções e de elaboração no tecido cultural da cidade.

Com esses problemas, como deixar de associar condições da vida urbana com condições de humanidade da população?

A cidade foi mudando para dar mais mobilidade e escoamento em suas vias. Surgiram grandes avenidas, marginais e calçadões dificultando o contato, a troca e a noção de individualidade; transformamo-nos em uma grande massa compactada, onde o tempo é sempre escasso, a correria é cotidiana, as pessoas são anônimas e os lugares sem narrativa.

O coração de São Paulo foi se transformando em um lugar frio e vazio, e essa “desordenação” deu lugar a uma cidade fragmentada, quebrando elos de comunicação e gerando grupos de pessoas isoladas, que sobrevivem num meio cultural empobrecido.

No último século, a cidade, relativamente segura, passou a ser relacionada a um lugar perigoso.  Os sociólogos B. Diken e C. Laustsen chegam a sugerir que o milenar “vínculo entre civilização e barbárie se inverteu. A vida urbana se transformou num estado de natureza caracterizado pelo domínio do terror, acompanhado pelo medo onipresente”.

Quando a cidade deixa de exercer sua função geradora e organizadora de sentidos, há a possibilidade de uma desagregação da rede simbólica que sustenta as trocas intersubjetivas, voltando a modos de funcionamento primitivos, formando aglomerações instáveis, desestabilizadoras e refratárias nas relações entre seus habitantes.

A cidade é o palco dos nossos dramas cotidianos; podemos fazer um paralelo dessa cidade fria, vazia, insegura e assustadora com os sentimentos despertos no morador da megalópole – a vivência do drama do vazio, da falta de sentido, do medo e do desamparo.

Em uma entrevista recente, o sociólogo Danilo Lima fala da cidade como ‘pessoa’; se a cidade é uma pessoa, que pessoa nossa cidade se tornou? Caótica, violenta, sem história, culturalmente empobrecida, sem condições de acolher seus filhos-cidadãos. Uma cidade em crise que espelha a crise que estamos vivendo psiquicamente.

Através de Winnicott conhecemos a mãe suficientemente boa, que oferece ao bebê condições para desenvolver seu potencial de vida. Sim, nascemos com um potencial e necessitamos de um espaço, onde possamos dar continuidade a esse desenvolvimento. Esse espaço é conquistado na relação mãe-bebê, mas não podemos esquecer que se faz necessária a presença de objetos e experiências culturais significativas para o amadurecimento. Se houver a ausência dessas experiências tão necessárias, o desamparo pode se instalar.

Voltando ao personagem de Nova Heloisa, que traz o contraste entre a pureza da vida – em contato com a natureza – e a corrupção da sociedade urbana; Rousseau apresenta o sentimento de embriaguez de Saint-Preux ao se defrontar, pela primeira vez, com a agitação e tumulto de Paris. Por vezes somos invadidos por esse sentimento frente ao ritmo alucinado da “cidade que nunca dorme” e da violência presente em seu dia a dia. Cotidianamente, vamos mantendo uma relação desumanizada com a cidade, tornando-nos desconectados das pessoas, do meio e de nós mesmos. O desamparo que experimentamos com essa desconexão pode nos paralisar. Passamos a sobreviver, e não mais viver todo o nosso potencial de vida.

Será que assim como Saint-Preux, estamos perto de esquecer quem somos, ou qual é o nosso lugar?

 

Adriana Casagrande é membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em Psicoterapia Psicanalítica pelo CEPSI

Rita Andréa Alcântara de Mello é membro filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Sobre-humanos

*Adriana Rotelli Resende Rapeli

Recebi de meu filho mais novo uma mensagem: ele estava de luto pois Stan Lee, criador de super-heróis da Marvel, havia morrido aos 95 anos. Sei que ele tem gostado mais de Homem -Aranha. Como se fosse o próprio, cruza os prédios da grande cidade nos vertiginosos movimentos que o videogame lhe proporciona. Ele também está na fase de sua vida em que, como Peter Parker, ouve do tio: “Quanto mais poderes, maiores responsabilidades”. Vestir o traje de adulto, lançar suas teias e expandir seus domínios (sair da casa dos pais e da cidade natal, entrar na faculdade, escolher profissão, tirar sua habilitação de motorista, escolher outros amigos, namorar) é mesmo quase sobre-humano.

Os super-heróis de Stan Lee não são mera diversão. São pura diversão, aquela que não nos tira da realidade, mas como boas ficções, nos ligam à nossa realidade interna por outros caminhos. Parábolas para nossos próprias percalços, metáforas de nossa desafiante aventura de viver e de nos apossarmos de nossas capacidades e nossas fraquezas. A aventura de viver e assumir os riscos de existir com sua individualidade, nossa criatividade é a originalidade com que cada um desenvolve o que traz em si potencialmente.

Os heróis humanizados, como qualquer adulto, têm responsabilidades e ações consequentes. Eles são capazes de perder e ganhar, caírem muitas vezes e se levantarem –  talvez por isso, na ideia freudiana de um superego mais integrado, eles são capazes de rir e fazer rir. Eles têm o superpoder do bom humor, de rir de si mesmos, a capacidade de existirem apesar e por causa de suas diferenças: são aranhas, formigas ou panteras, são verdes ou negros, são feitos de pedra ou de ferro, são deste ou de outro planeta, são invisíveis, ou mudam de forma, viram fogo, voam, são estranhos ou são só o Coisa.  A possibilidade de identificação é gigantesca, a inevitável referência com o mundo globalizado que tem em sua sociedade – não só a americana –conflitos e a convivência democrática decorrentes da diversidade social e de raça, gênero e talentos. Ganhos e perdas de uma guerra infinita: o mundo eternamente precisando de salvação.

O dia que Stan Lee morreu foi o dia em que também fui assistir ao “Bohemian Rhapsody”, uma biografia de Freddie Mercury, o músico vocalista da banda de rock Queen. De ascendência paquistanesa – parsis que foram para a Índia – Farrouk Bulsara, nascido na África, estudou em Bombaim, tendo depois fugindo da guerra da Tanzânia e migrado para Inglaterra, para o subúrbio de Londres. Além de talentoso, era gay. São muitas as suas diferenças que Mercury ativamente se coloca e pode viver a excentricidade como talento de falar aos outros, de se mostrar no centro do palco como objeto de identificações.

A voz poderosa, seus gritos e gestos hiperbólicos marcam sua diferença que parece ter sido assumida com a força ativa do querer. Assenhorando-se dela, como majestade, o vôo de Mercury –  como o deus mitológico Hermes/ Mercúrio precisou ser mais rápido que os colegas de sua banda. Estes, também geniais, criativos, mas vindos socialmente de uma maior estabilidade, ingleses que estudavam engenharia, odontologia… Sim, todos eles precisaram pôr os pés na estrada e criaram um mundo em que as diferenças se fertilizam em arte.  É tudo fantasia ou a vida real?

De qualquer modo, fidedigno ou não aos fatos, o que se mostra no filme é que a performance musical da banda não é um escape à realidade. O processo criativo que culmina na música título do filme, por exemplo, é uma aventura que vai da lama criativa à fama. E nos divertimos com a confecção da colcha de retalhos que a música- eclética mistura de rock, ópera e o que mais vier – celebra em sua diversidade rítmica e sonora.  No meio de tudo, um filho que grita o perdão da sua mãe por ter se perdido no início de sua vida, despede-se do passado e encara a verdade.  “Is this real life? Is this just fantasy?”. 

Nosso herói, demasiado humano, sai da epopeia e entra na tragédia. Depois de também, como Peter Parker, ter sua Mary, ser o maior entre os seus, ele vive o drama de perder- se de si mesmo e fazer o penoso caminho de se reencontrar. Então, faz o caminho inverso agora da fama à lama, da adoração ao escárnio, do sucesso planetário à impotência diante de um vírus fatal. Indefeso, sofrendo da falta de imunidade, em sua via crucis, ele morre de seus próprios poderes. Nosso herói, como o nosso Cazuza fez e cantou, morre de overdose do mesmo vigor que lhe fez um rei. Como Freud nos lembra de nossas entidades míticas, Eros e Thânatos nos habitam, aqui e ali travam conflitos mortais.

Quando Queen e Freddie Mercury ficaram conhecidos mundialmente nos anos 1970 e 80, eu própria engatinhava nos passos que hoje meu filho faz e fui embalada pelo maestro da multidão que cantava que éramos todos os campeões. Viver é perigoso, dizia o herói do grande sertão de Guimarães Rosa. Como um homem comum, recuperado em sua humanidade, depois das multidões lhe aclamando, ele só precisa do prêmio de um amigo, de um amor. Afinal,  “é sobre-humano amar, sentir, doer, gozar, sentir, ser feliz”.[1]

[1]  Mais Simples,  canção de José Miguel Wisnick, de 1993, gravação de Zizi Possi, no CD Mais Simples, de 1996.

 

REFERÊNCIAS

  • FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ________ O humor (1927). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ROSA, J.G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra e psicanalista.

 

PENSAMENTOS SELVAGENS

*João Carlos Braga

Como muitos conceitos e formulações, a expressão pensamentos selvagens é encontrada tanto sendo utilizada como parte do pensamento psicanalítico quanto em linguagem leiga. Em ambas utilizações, o significado da expressão é convergente, mas há especificidades em seu uso como um referente em Psicanálise. Será este último o enquadre do que se segue.

 A) COLOCANDO EM PERSPECTIVA.

A contribuição de Wilfred R. Bion (1897-1978) à Psicanálise pode ser resumida na proposta de estudar o papel do pensar e dos pensamentos na teoria e na prática psicanalítica. Para isso, delimita a atividade do analista à observação e formulação da experiência que vive com seu (sua) analisando(a) na sessão analítica; ou seja, o campo de formação, captação e operacionalização de pensamentos, assim como os processos do pensar.

Em sua teoria do pensar (1962), Bion propôs uma inversão na forma tradicional de compreendermos os pensamentos e sua gênese: os pensamentos existem antes do pensar e é sua existência que cria a necessidade de desenvolvermos um “aparelho para pensar”. Esta teoria limita-se aos pensamentos formados a partir da experiência do indivíduo, ou seja, os pensamentos de um pensador.

Após fazer expansões em sua visão da mente com a teoria das transformações (1965), Bion propõe um novo parâmetro para os pensamentos, possivelmente apoiando-se em Gotlob Frege (1918): pensamentos existem independentemente dos pensadores. São realidades com existência própria e cabe ao pensador deixar-se acessar por eles. Mais uma vez, uma inversão na perspectiva tradicional.

Refere-se a esta visão de pensamentos sem pensador em poucos trabalhos subsequentes. Dentre estes, em um momento de livre pensar, gravado em fita cassete ao se preparar para os seminários que iria fazer em Roma (1977), faz uma espécie de classificação dos pensamentos sem pensador: pensamentos extraviados, pensamentos com nome e endereço do autor e pensamentos selvagens.

B) PENSAMENTOS SELVAGENS

Em Domesticando pensamentos selvagens [1977 (2016), p.39] descreve os pensamentos selvagens como a nomeação de uma conjunção constante que reúne um grupo de pensamentos com as seguintes características: i) para os quais não há possibilidade  de traçar de imediato qualquer tipo de propriedade (autor) e ii) para os quais não há possibilidade de se tomar conhecimento da genealogia deste pensamento.

Além destas características descritas por Bion, gostaria de acrescentar que são pensamentos que irrompem na mente subvertendo a camada de pensamentos organizados (civilizados, então), advindos de um contato direto com a realidade ou do funcionamento somático-fisiológico do indivíduo (mente primordial), provocando estranhamento, estados de repulsa, de medo ou mesmo de terror.

Em Psicanálise, o pensamento pensamentos selvagens permanece sem uma conceituação suficiente para reivindicar um valor científico. Penso que foi uma tentativa de Bion de abarcar, em um nível de maior abstração, diferentes manifestações diretas de pensamentos sem pensador. Penso também que o curto período em que esta concepção aparece em suas formulações (maio de 1977 a abril de 1978), deixa entrever o pequeno interesse do autor por ela. Por exemplo, não identifiquei registros de que ele a tenha utilizado, explicitamente, em supervisões em 1978, em São Paulo. Pode, porém, deliberadamente, tê-la deixado obscura, evitando conceituá-la para não a engessar, como nos apontou em várias passagens sobre cuidados na apropriação de pensamentos com características não simbólicas; ou que não identificou nela um maior potencial para explorações psicanalíticas. De fato, a aquisição de uma condição científica tornaria esta concepção pouco útil na prática clínica voltada ao tornar-se a realidade, embora seja útil para a comunicação entre psicanalistas – a dimensão do conhecer, pois.

Há três concepções de pensamentos selvagens que podemos deduzir convivendo nesta conjectura de Bion:

  1. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador capturados por um pensador – ou que capturam o pensador – sem história prévia de fazer parte do campo de conhecimento humano. Neste sentido, psicanálise, ao ser concebida e formulada por Freud, seria um exemplo. Situações clínicas em sessões analíticas, próprias a um evento único, seriam outros exemplos.
  2. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador que se extraviaram na dimensão do conhecer, que ainda não foram domesticados pelo indivíduo que os captura (ou que por eles é capturado), embora já tenham sido anteriormente domesticados e formulados por autores conhecidos pelo pensador. O próprio pensamento pensamento selvagem pode ser um bom exemplo desta compreensão: um pensamento sem pensador extraviado, com proprietário (Bion) e endereço (Domesticando pensamentos selvagens, 1977), mas que é selvagem para o indivíduo que ainda não tomou conhecimento desta formulação.
  3. Pensamentos selvagens são pensamento sem um pensador que se extraviaram e que aparecem no campo do conhecer, sem que nele tenham adquirido um pensador ou que por este ainda não tenham sido adquiridos. Nesta compreensão, pensamentos selvagens seriam equacionados a coisas-em-si, a pensamentos sem pensador em estado originário, fora de nosso alcance e assim também fora de nossas possibilidades de com eles operar.

C) UM EXEMPLO CLÍNICO

Amália entra na sala de sessões, após nos encontrarmos na sala de espera, em um contato em que nada em especial chamara minha atenção. Seguindo-a, vejo-a sentada na beirada do divã fazendo movimentos de arrumar a blusa, ajeitando-a em torno do pescoço, com cuidado, para em seguida deitar-se. Cruza-me um pensamento inesperado: “arruma a gravata”. Fico surpreso e me percebo em um trabalho mental de fazer associações, de buscar significados em minha experiência de análise com ela. Ao tomar consciência deste esforço, busco manter minha mente livre, mas disponível para algum elemento que venha a surgir durante a sessão e que possa se conjugar com este pensamento e dar-lhe algum sentido. Nada digo a Amália sobre meu pensamento estranho.

João Carlos Braga é membro efetivo e analista didata da SBPSP e GPC.