Autor: sociedadedepsicanalise

Fantasia inconsciente: o desconcerto inaugural

*Izelinda Barros

Em uma conferência, apresentada em 1917, Freud afirma que “…a humanidade teve que tolerar, “por parte da ciência” dois grandes insultos ao “seu ingênuo amor–próprio”: aceitar que a Terra não é o centro do universo e conviver com teoria da evolução das espécies que “aniquilou a suposta prerrogativa humana na criação” [1]

A seguir, ele pondera que a psicanálise é o terceiro e mais grave insulto à “mania de grandeza humana” pois ela, em detrimento da racionalidade… “busca provar ao “Eu” que ele não é nem mesmo senhor de sua própria casa, mas tem de satisfazer-se com parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[2]

Vinte anos antes, ele mesmo tinha sido vítima desse argumento e abandonou, com grande dasapontamento, uma brilhante teoria que construíra a respeito da etiologia das diferentes formas de histeria e mesmo das neuroses obsessivas.

Voltemos ao episódio desse desconcerto inaugural da história da psicanálise:

Em torno de 1896, Freud estava entusiasmado com os resultados obtidos na terapia analítica que substituía, com vantagens, a técnica da hipnose para tratar os sintomas incapacitantes da histeria que interferiam na vida diária de muitas mulheres jovens.

Independente da idade, classe social ou grau de cultura se repetiam nas narrativas de suas pacientes, lembranças ligadas a abusos sexuais sofridos infância e perpetrados  por adultos do círculo íntimo dessas meninas.

Havia uma relação constante entre o relato de tais acontecimentos nas sessões de análise e o subsequente desaparecimento dos sintomas, indicando uma relação etiológica entre eles.

Confiante na racionalidade (e também movido pela “mania de grandeza humana”), Freud escreveu um artigo em que sustentava essa hipótese, ilustrando-a como o relato de treze casos

Entretanto, uma série de evidências contrárias a essa possibilidade- do abuso efetivo envolvendo pessoas da família – fez com que lentamente Freud pusesse em dúvida e finalmente renunciasse à sua “ teoria da sedução”.  Foi o primeiro desconcerto e “quase fatal para a jovem ciência”[3]

Mas o desânimo durou pouco.  “A reação de Freud ao abandono da teoria da sedução foi a de levar as mensagens, tanto as suas como de seus pacientes, mais a sério do que antes, mas de maneira muito menos literal. Passou a lê-las como mensagens vindas de uma realidade psíquica, muito mais poderosa do que a realidade objetiva cifradas- distorcidas, censuradas , significativamente disfarçadas”[4], pois é  assim que o homem recebe  as “parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[5]  e chamou essas manifestações da realidade psíquica de fantasias inconscientes.

Com essa nova hipótese, formulou seu entendimento sobre a origem dos sintomas da histeria da seguinte maneira: fantasias românticas, criticadas como sinal de ociosidade, prejudicando as atividades de trabalho e estudo, eram repudiadas e afastadas do espírito.

Mas, uma vez que negadas e reprimidas, essas fantasias eram adicionadas aos processos primários do inconsciente e, como tal, tornavam-se conteúdos de desejo em potencial. Como todo desejo busca sua efetivação, as fantasias, agora inconscientes, se apresentavam “significativamente disfarçadas” sob a forma de sintomas.

A análise de crianças pequenas, em particular, ampliou a potencialidade do conceito de fantasia inconsciente ao evidenciar que o brincar e o comportamento da criança na sala de análise podem ser lidas como expressões não verbais de fantasias inconscientes.

Assim, desde os seus primórdios, o conceito de fantasia inconsciente é um dos pilares da teoria psicanalítica e instrumento indispensável para o psicanalista clínico como uma das vias de acesso privilegiado para o acesso ao conteúdo latente das comunicações verbais e não verbais inconscientes.

Pois bem: no presente, notamos um esgarçamento da vida de fantasia em boa parcela das patologias que afligem as pessoas que buscam nossa ajuda, o que, com relação ao uso clínico das fantasias inconscientes não deixa de ser um novo desconcerto a ser respeitado, valorizado e enfrentado.

Voltamos, então, ao ponto de partida de cem anos atrás?  Certamente que não.

Pelo contrário, eu diria que o desconcerto atual sugere que estamos nos aproximando de algo ainda mais complexo e desconhecido, algo que ainda não podemos intuir e que   nos desafia na sala de análise e convoca nossa curiosidade.

Essa breve resenha do conceito de fantasia inconsciente particulariza o modelo evolutivo da teoria e da técnica em Psicanálise, o qual em uma espiral ascendente de desconcertos e ampliações subsequentes sustenta sua continua vitalidade.

Referências Bibliográficas:

[1] Freud, S (1917) Conferências introdutórias à Psicanálise. Teoria geral da neuroses. P. 380-1 Companhia das letras, 2017

[2] idem

[3] Gay, P. (1998) Freud Uma vida para nosso tempo. p,102. Companhia da Letras

[4]Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

[5] Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

 

Izelinda Garcia de Barros, nascida na cidade de São Paulo, Brasil, é psiquiatra, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro efetivo da Associação Psicanalítica Internacional. Sua prática clínica, em consultório particular e as atividades didáticas como coordenadora de seminários na mesma instituição, somam-se à escrita de trabalhos científicos sobre análise de crianças, em particular sobre a clínica dos transtornos do espectro autista e, na mesma faixa de interesse, à investigação sobre os estados limítrofes que se apresentam com variadas configurações sintomáticas no atendimento de pacientes adultos.

O analista desconcertado e o pensamento

“Não vos imagine diante de alguém amedrontador,
por ele possuir uma língua que gagueja e
de onde emana uma linguagem emaranhada,
fora de vosso alcance”
(Isaias, 33:19)

Sou frequentemente indagado, e por isso frequentemente me indago, o que é o pensamento para o psicanalista. A “resposta”, que aparece recorrentemente, é que “pensar é continuar a funcionar psiquicamente durante a tempestade”.

A metáfora meteorológica nos ajuda bastante a entender as oscilações do espírito humano e, por extensão, a caracterizar a dinâmica do encontro psicanalítico: o analista, no fundo, não passa de uma estação experimental que possa acolher as tempestades e as bonanças do analisando, devolvendo-lhe uma “previsão” de como isto poderá afetar a sua vida.

Tempestade, por supuesto, é sinônimo de turbulência, e, portanto, de fonte de desconcerto, ou melhor ainda, de desorientação. Nos meus anos de psiquiatra fui orientado a investigar na anamnese a orientação têmporo-espacial como um importante parâmetro a definir a sanidade mental do paciente. Doce ilusão! Será que Édipo, sabedor da exata localização geográfica do fatídico encontro na encruzilhada que alterou seu destino, bem como do exato momento histórico em que aquilo acontecera, teria dado um passo à frente no esclarecimento do drama da sua identidade?

Eis-nos, aqui, diante de mais um exemplo em que a psicanálise “recicla” os “descartes” da psiquiatria, elevando-os à categoria de matéria prima para seu processo investigativo da vida mental. Quantas vezes, ao acolher a massa de fragmentações psicóticas dos analisandos, não me senti perdido, desorientado e desamparado? E quantas vezes, ficando em contato com este universo caótico, por falta de alternativa, não percebi, para minha surpresa e alívio que, aos poucos, aqui e ali começavam a vagalumear focos de luz que prenunciavam a luz que buscamos no fim do túnel?

Isto me ensinou uma verdade de grande utilidade clínica: se entendermos a imersão num estado caótico como a única bússola possível a nos orientar no universo psicótico, teremos chance de nos movimentar neste labirinto com alguma desenvoltura.

Mas, retornemos à questão do que seria, em essência, “funcionar psiquicamente”. Freud descreveu o pensar como aquele “arranjo mental” (expressão minha) através do qual o psiquismo se sustenta entre o momento em que recebe um estímulo e o instante em que ele consegue satisfazê-lo. No entanto, malgrado a dimensão ciclópica de sua obra, ele não conseguiu nos fornecer um esclarecimento sobre a “fisiologia” deste processo.

Alguns desdobramentos posteriores de sua obra, como os de Melanie Klein e de Bion, nos permitem hoje começar a entender a microscopia deste processo. Muito resumidamente, sua essência consiste no fato de que o psiquismo só consegue se desenvolver através de um tropismo que o induz a preencher suas lacunas se assenhoreando de recursos existentes num outro psiquismo, sem abdicar daqueles recursos já consolidados em seu self. Esta busca, no entanto, não acontece de forma egoísta ou possessiva, mas sim de forma curiosamente desinteressada que sedimente uma troca procriativa: trata-se de um processo que Freud denominou de metapsicológico onde a forma é tão ou mais importante que o conteúdo, porque, através de artimanhas estéticas, produz um registro emocional sempre elegante e econômico.

Aos nos defrontarmos com a personalidade psicótica, no entanto, precisamos abrir mão destes parâmetros estruturais e nos lançarmos no espaço da infinitude indiferenciada, povoado por escombros não-sensoriais: se pudermos conter este cenário desconhecido, até que as primeiras cintilações de significado apareçam, poderemos começar a ajudar nossos analisandos a sair deste estado com algum ganho de integração.

*Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, médico (Faculdade de Medicina da USP), membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, da qual foi Presidente. Organizador dos Encontros Bienais da SBPSP e Editor das publicações correspondentes. Autor de Sismos e Acomodações: A Clínica Psicanalítica como Usina de Idéias (Ed. Rosari, 2003) e Dante e Virgílio: o resgate na selva escura (Ed. Blucher, 2017).  Tradutor e co-autor de livros sobre a obra de Wilfred Bion, no Brasil e no exterior.

Imagem: reprodução da obra “La réproduction interdite”, de René Magritte

A Psicanálise e suas clínicas

Fabrício Neves*

Quando se fala em psicanálise, surge no imaginário de cada um ideias, geralmente associadas a uma prática, um certo cenário e algumas concepções difundidas por nossa cultura. Não é propósito destas notas, considerando as limitações deste tipo de escrita, discorrer sobre os mitos disseminados, inclusive por muitos que a praticam, sobre o que é ou não psicanálise.

De todo modo, quando circulamos em nossos meios sociais, escutamos com frequência pré-concepções sobre nosso fazer. A maioria destas construções revela que muita gente não chega aos consultórios por uma noção muito equivocada sobre o trabalho analítico, às vezes, até baseadas na experiência de um conhecido que empreendeu uma experiência analítica.

A confusão se dá porque se tira de um relato particular, de uma experiência única e individual, uma regra geral. Aliás, encontramos no discurso de muitos colegas método semelhante. E aí começam os problemas!

Parece muito difícil em um tempo onde tudo se generaliza, apreender que a prática psicanalítica está baseada no caso clínico em questão. Que trabalhamos com modelos para pensar e não para aplicar.

Desde sua origem com Freud e seus contemporâneos, até os dias atuais a psicanálise revê sua prática a partir dos problemas que a clínica lhe propõe. Assim os pacientes e suas configurações, fazem o analista trabalhar no sentido de criar as condições necessárias e técnicas: frequência, manejos, valores e quantos outros arranjos se fizerem pertinentes para que o método psicanalítico possa se dar.

As mudanças na prática dos psicanalistas não devem ser creditadas exclusivamente pela demanda de quem nos procura. Green, em seu artigo sobre ‘o analista, a simbolização e a ausência no enquadre analítico’ trabalhou com a hipótese de que essas mudanças estão subordinadas às mudanças de sensibilidade e percepção do analista. Fazendo um paralelo onde, assim como a visão do mundo exterior do paciente depende de sua realidade psíquica, também nossa visão da realidade psíquica do paciente depende de nossa própria realidade psíquica.

Essa complexidade não deveria ser ignorada por aqueles que se detém em pensar sobre o nosso ofício nos dias de hoje. Estamos nos aproximando de nosso I Simpósio Bienal onde nos convidam para o pensar em dois eixos – do analista desconcertado e o da psicanálise e suas clínicas. A relação entre esses eixos me parece indissolúvel. Não parece possível revendo tudo que escreveram e nos contaram nossos colegas de ontem e de hoje, que possa haver clínica psicanalítica onde não esteja presente o mal-estar do analista, sempre desconcertado pelo que está por vir…

* Fabricio Neves é psicanalista membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Imagem: reprodução da obra Relativity de M.C. Escher

 

 

 

 

O mesmo, o outro – psicanálise em movimento

*Bernardo Tanis

A psicanálise desmitifica a ideia de que somos sujeitos indivisos e unificados, com uma identidade coerente e sintônica com o nosso grupo. A ideia de inconsciente, assim como a complexidade e riqueza dos processos de  identificação, coloca em evidência que regiões de nossa mente contradizem nossa consciência, somos movidos por desejos dos quais não queremos tomar conhecimento e evitamos ter notícias, vivemos conflitos entre amor e ódio e sentimentos ambivalentes, evitamos entrar em contato com a dor psíquica, no entanto, pagamos um alto preço por lançar mão de mecanismos defensivos que empobrecem as nossas vida e criatividade.

A tensão entre “eu e o outro” é constitutiva do humano. Vale a pena assinalar várias dimensões do outro e o lugar que este ocupa nas nossas vidas como descrita pela conhecida passagem em Psicologia das Massas e Análise do Ego, em que afirma Freud: “na vida psíquica individual, está sempre integrado o outro, efetivamente, como modelo, objeto, auxiliar ou adversário e, sempre a Psicologia Individual é, ao mesmo tempo e desde o princípio, Psicologia Social.” Como pensar a ética do analista se não sairmos da esfera do eu, do mesmo, para nos lançarmos ao encontro do outro nas relações interpessoais e no vasto campo da cultura? Que novos desafios nos convocam se nos deixamos atingir pela diferença e a alteridade?

A quebra da ilusão que se inicia já com o próprio objeto materno e ganha poder estruturante na tramitação do complexo de Édipo, na renúncia ao incesto e na elaboração da angústia de castração, representa abertura para o desejo, para a vida. Assim, graças a esse lugar paradoxal do outro, como objeto da paixão, mas ao mesmo tempo que interroga constantemente nosso narcisismo, e nossas ilusões nos humanizamos.

Xenos, em grego, alude ao hóspede, ao visitante, ao estrangeiro e ao estranho. Daí xenofobia, que carrega um conjunto de significados que passam pelo horror, pelo desprezo, ao sentimento de ameaça pelo estrangeiro, pelo diferente.

Freud, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, já assinalava o fenômeno expresso na ideia de “narcisismo das pequenas diferenças”, que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir, mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, no estrangeiro, no imigrante, a sua agressividade. “Amamos nossos irmãos” e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. “A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça”. A atualidade desse fenômeno é assustadora no nosso País e no mundo.

Homi Bahbah, destacado professor de teoria literária de Harvard e um dos grandes estudiosos das sociedades pós-coloniais, assinala a ancoragem ideológica do poder colonial em uma lógica binária, dividido os indivíduos  entre uma dimensão presa à ideia de identidade (eu/nós), segundo a qual me reconheço nesta imagem de mim e do meu grupo/nação (o colonizador), tanto no campo individual como cultural, em contraposição a algo que alude à exterioridade, a ele/ao outro (o colonizado) ou ao estrangeiro. Esta lógica binária foi extrapolada para o campo social, político ou da sexualidade, e não admite a multiplicidade nem reversão de perspectivas.

A psicanálise nos conduz a um questionamento dessa postura colonial na qual o outro é objeto de desprezo e desqualificação na medida em que nos sugere que devemos conhecer o estrangeiro em nós. Reconhecer o estrangeiro que nos habita, a outra face de nossa identidade, produz uma fenda na ideia de identidade, que faz com que nos consideremos um e outro ao mesmo tempo. A ideia de completude ideal e de superioridade é colocada em questão e desconstruída.

Talvez isso nos ajude a acolher o outro como radicalmente diferente, como alguém ou algo que na sua natureza nos é estranho, incompreensível, indizível.

Isso, no contexto em que eu também me constituo neste outro para meu semelhante, como sustentado também pela perspectiva ética proposta pelo filósofo Levinas.

Acredito que o tema do I Simpósio Bienal da SBPSP será um fórum privilegiado para abordar esses assuntos que demandam uma urgente reflexão por parte da sociedade em geral e os analista em particular, em um mundo no qual posturas autoritárias e excludentes ressurgem com assustadora intensidade.

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

Narciso sob a tinta

*Vera Lamanno Adamo

Por que publicamos experiências vividas na clínica? Escrevemos porque aquele algo da experiência vivida pode ser útil para pensarmos o que falta, o que ainda não foi dito? Escrevemos por conta do espanto? Para abrir um espaço onde se está sempre a desaparecer?

Uma paciente frequentemente dizia que a grande preocupação de um poeta era saber se aquilo que havia escrito era poesia. Na poesia, salientava, o autor está praticamente imperceptível. Por isso, insistia em afirmar que: “a crônica, uma espécie de diário, é considerada uma escrita de segunda categoria. Na crônica, o escritor está todo lá, sem nenhuma invisibilidade”. Para ela, poesia era fruto de um processo intelectivo altamente planejado e consciente, completamente desligado da pessoa do autor. O autor estaria completamente desaparecido por trás de sua obra.

Este argumento sobre o que considerava ser poesia era condizente com o seu ideal de eu fundamentado numa espécie de assepsia do ser. Obstinada a rejeitar qualquer alteração em si, nunca ou muito raramente perdia a paciência. Jamais uma palavra áspera para alguém. Não se queixava, não reclamava, não criticava ninguém, não se zangava com ninguém de maneira evidente. Não mostrava qualquer desapontamento em relação a mim ou em relação às pessoas de sua convivência.

Um dia ela me trouxe uma de suas poesias e ficou absolutamente inquieta ao perceber a totalidade de sua presença naquilo que escrevera. Desejo, conflito e fantasia estavam todos lá. É certo que sob a tinta e meio de canto, nas entrelinhas, enviesados. Mas estavam todos lá.

Cada vez que colocamos no papel uma experiência clínica, a questão da inclusão e exclusão do narrador naquilo que escreve se apresenta. Tomado por um ideal de assepsia, envolto numa espécie de armadura, escreve-se um texto inteligente, erudito, controlado. Quase nada se transmite de si para si, de si para o outro. Uma escrita imóvel, estática, uma narrativa que não abre para o desconhecido, aquele desconhecido que entra e atrapalha.

Se eu tivesse que advogar sobre a escrita psicanalítica, defenderia a ideia de que fosse feita com menos erudição e mais crônica.

A palavra crônica se origina do latim Chronica e do grego Khrónos (tempo). O significado principal neste tipo de texto é precisamente o conceito de tempo, ou seja, é o relato de um ou mais acontecimentos em um determinado período. É a narração do cotidiano das pessoas, fazendo com que se veja de uma forma diferente aquilo que parece óbvio demais para ser observado. Uma boa crônica é rica nos detalhes, descritos pelo cronista de forma bem particular, com originalidade.

A crônica, na maioria dos casos, é narrada em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está “dialogando” com o leitor, não está falando do “alto”, está sentado ao lado do leitor num meio-fio.

Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Com base nisso, o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

O cronista Werneck (2011), na abertura de seu livro Esse inferno vai acabar, afirma que em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo. Nesta frase, está contida uma das mais instigantes definições do gênero. O não acontecimento, o comezinho, a miudeza que são a matéria prima da crônica.

A repórter Eliane Brum, anos atrás, foi escolhida por Marcelo Rech um diretor de redação que buscava inovação para o jornalismo brasileiro, para um desafio: extrair crônicas reais de pessoas comuns e situações corriqueiras. Ela capturou a ideia e escreveu uma série de reportagens sobre personagens e cenas cotidianas em forma de crônicas da vida real, transformando-as numa coletânea de quarenta e seis colunas por quase onze meses.

Aí encontramos uma repórter que não está à procura do espetacular, mas à procura de histórias escondidas na vida anônima de cada um. A vida que ninguém vê (2006), mas que Eliane viu, é um mergulho no cotidiano para provar que não existem vidas banais.

Assim como o cronista, o psicanalista escreve sobre o humano inspirado nos acontecimentos diários de um processo de análise. Com o olhar inspirado no cotidiano de sua clínica, as histórias de um paciente ou de um processo de análise nos inquietam e nos despertam para outras histórias, ideias, pensamentos. O resultado, quando tudo corre bem, é uma espécie de conversa que revela a humanidade dos personagens e a nossa própria.

A escrita psicanalítica com mais crônica e menos erudição é móvel, transitiva, inquietante, se cumpre sem um total planejamento intelectual e consciente, inspirando continuar falando de uma voz que não quer se apagar. Quanto mais se vê, mais se quer enxergar.

*Texto publicado na íntegra no Jornal de Psicanálise 50 (92), 91-97, 2017

Referências
Brum, E. (2006). A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Editorial Arquipélago.
Werneck, H. (2011). Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial.

*Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

Somos mais realistas que os reis?

* Noemi Moritz Kon

19 de maio deste ano foi marcado pela transmissão midiática em escala planetária da cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle na Capela St. George, em Windsor, Inglaterra. Foram muitos os detalhes que desafiaram simbolicamente convenções antes inquestionáveis de eventos deste porte envolvendo a Coroa britânica, talvez hoje a mais tradicional e cultuada das realezas que ainda subsistem nos Estados modernos. Uma linda princesa norte-americana, trajando um vestido esteticamente simples, sem brilhos ou adereços, chega acompanhada exclusivamente pela mãe, Doria Ragland, professora de ioga, que, com seu penteado rastafári, vestia um traje de cor semelhante ao da rainha.

Meghan Markle atravessa a nave da Capela St. George sozinha, sem a presença usual do pai – branco – ou qualquer outra pessoa. Durante a cerimônia, o coral gospel The Kingdom Choir, formado majoritariamente por músicos negros, entoa Stand by Me, do cantor de soul Ben E. King, conduzido pela maestrina Karen Gibson, também negra. Ouvimos surpresos, ainda, o sermão do reverendo Michael Curry – ele também negro – que inicia sua fala citando o maior ícone da militância pacífica negra dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr.: “Nós precisamos descobrir a força redentora do amor e, quando fizermos isso, faremos desse velho mundo um mundo novo”.

Que beleza! Que espetáculo! Quantos marcadores sociais de opressão, raça/cor, gênero e classe foram colocados em evidência e, de alguma forma, em xeque nesse momento de comoção ritual! (Evidentemente, nada do que foi exibido escapou aos rigores do protocolo da realeza. Nenhum desses detalhes foi mera coincidência).

Para além de um possível e esplêndido golpe publicitário, minha ingenuidade fez-me pensar em como nós da colônia, nós psicanalistas brasileiros, temos sido mais realistas, mais embevecidos com as insígnias da realeza e da aristocracia, do que os próprios reis. Em como nossa comunidade tem se mostrado conservadora, desatualizada, mantendo-se presa ao “Velho Mundo”. Em como sustentamos, cultivamos e promovemos, naquilo que temos produzido – ou no que não temos produzido –, uma teoria, uma ação e um discurso eivado de valores ideológicos elitistas e meritocráticos, que se protege e se justifica ao fazer-se passar por um discurso científico, a-histórico e universal, um discurso neutro, não contaminado pelas variáveis raça/cor, gênero/orientação sexual e classe.

Ora, não há mais como manter e defender esse tipo de posição; precisamos retomar urgentemente nossas reflexões críticas.

Não somos tão multicoloridos como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão abertos à sexualidade e às suas manifestações, nem mesmo à equidade entre gêneros, como deveríamos ou poderíamos ser; não somos tão receptivos à diferença de classe como poderíamos ou deveríamos ser.

Basta observar o público de nossos encontros e congressos – os nossos rituais -, para verificar que não correspondem à proporcionalidade da distribuição demográfica racial brasileira, com seus mais de 50% de negros e pardos, e que tampouco correspondem aos índices de distribuição de renda, pois somos uma elite também econômica, e congregamos uma porcentagem bem maior de pessoas que recebem mais de 27 mil reais ao mês, o que nas estatísticas da população brasileira conforma seu 1% mais rico.

As mulheres são hoje 51% da população do país, mas entre nós, psicanalistas, a distribuição parece ser bastante diferente: o número de mulheres que preenche os assentos das plateias em nossas reuniões e aulas é bem maior do que a de homens. O mesmo não parece acontecer com relação à distribuição dos lugares de poder e fala, ocupados, preferencialmente, por homens, brancos e, provavelmente, héteros e cis. Neste quesito, em particular, nossos indicadores não diferem sobremaneira dos da nossa sociedade patriarcal e falocêntrica.

Nossa produção teórica, nossa clínica e o funcionamento de nossos centros, departamentos e sociedades parecem também não se coadunar muito bem com o retrato obtido pelos institutos de pesquisas socioeconômicas: quem são nossos analisandos, qual é a sua renda, a sua profissão, o seu nível educacional, a sua cor? Quem são os que procuram as instituições psicanalíticas para avançar em sua formação? Quem prioritariamente ocupa os lugares de poder em tais instituições? Sobre quem falamos em nossos textos? Onde se localizam nossos consultórios? Qual o valor cobrado em nossos cursos e em nossas consultas e supervisões?

Atendo-me aqui no marcador de diferença raça/cor, com o qual venho trabalhando mais detidamente nos últimos tempos – mas o raciocínio poderia ser também aplicado aos outros marcadores de desigualdade -, é possível perceber como temos abusado do “esquecimento” de nossa história, da barbárie brasileira que se instaurou com o genocídio dos índios – 5 milhões em 1500, não mais de 850 mil hoje, segundo dados do IBGE – habitantes destas terras, que se prorrogou nos quase 400 anos de escravização mercantil, e que transformou mulheres e homens em objetos, em mercadorias (bens semoventes, como os escravizados eram denominados). Como temos trabalhado tão pouco as questões contemporâneas derivadas de tais processos históricos que conformaram tanta disparidade de oportunidades, e como temos, assim, acalentado por meio da negação e da recusa, a manutenção de privilégios – nossas casas grandes e nossas senzalas -, justificando a desigualdade como o simples resultado de diferenças individuais naturais que, obviamente, se presentificariam em nosso dia a dia.

Não devemos fazer pouco do que aprendemos em nossas boas escolas e, dessa forma, esquecer que o sistema escravocrata, pilar da economia colonial que sequestrou e trouxe ao Brasil mais de 4,5 milhões de africanos – cifra que representa 46% dos que foram escravizados naquele momento –, cerca de 12,5 milhões de africanos e africanas entre os séculos XVI e XIX, fundou e estruturou, desde nossa origem, um estado de violência e exploração, que produziu e continua produzindo marcas profundas em todos nós brasileiros, mas que recaem discriminatoriamente sobre os mais de setenta milhões de cidadãos negros e pardos – que de acordo com o atual senso demográfico conforma a maior população negra fora da África, o segundo maior contingente de afrodescendentes do mundo, número só inferior ao da Nigéria –, estabelecendo uma condição inescapável e inaceitável de desigualdade e subjugação, que arma nosso cotidiano público e doméstico e que é evidenciada, de maneira inequívoca, em todos os indicadores sociais: saúde, longevidade, salário, emprego, distribuição de renda, educação, moradia, transporte, segurança, justiça e direitos civis1.

Nós, o último país a abolir a escravidão mercantil da era moderna – dois anos depois de Cuba e mais de 20 anos depois dos EUA –, ao que parece, temos apenas ampliado as mesmas estatísticas, estabelecendo mais e mais desigualdades entre nós, dando corpo ao racismo estrutural que vigora em nosso país e que estabeleceu nosso modo de convivência mesmo depois de 130 anos da promulgação da Lei Áurea.

Como podemos nos organizar diante de tudo isso? Qual pode ser nossa participação? Pois sabemos que estamos matando gerações de negros e negras (e indígenas) no Brasil e não apenas por dar fim a seus corpos2. Temos assassinado, igualmente, suas almas, seu psiquismo.

O evento O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em 2012, e o livro que dele se originou, lançado pela editora Perspectiva em 20173, são parte de um movimento, ainda incipiente, para tornar mais evidentes as marcas do racismo institucional que se revela também entre nós, psicanalistas brasileiros.

Foram ambos frutos de um grande esforço de superação de resistências para que pudéssemos assumir o quanto temos negligenciado pensar sobre a potência de destruição e morte que compõem as formas de preconceito e discriminação estabelecidos contra grupos que são ativamente excluídos, excluídos também da oportunidade de desfrutar do que a psicanálise tem para oferecer: a liberdade possível e a ética de nosso desejo. Raros eram (e ainda são) os estudos psicanalíticossobre o preconceito contra o negro no Brasil; pudemos, naquele momento, contar com a reflexão oferecida por outras disciplinas – a história, a sociologia, a política, a educação e as artes – para, aos poucos, nos localizar e iniciar um movimento de apropriação, desalienação e, tomara, de contribuição. Esse meu texto, escrito a convite do blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise, ao qual agradeço, tem a ver com o reconhecimento da relevância desse movimento para além da comunidade de psicanalistas formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E isso é importante.

Temos procurado dialogar mais, aprender mais com nossos colegas engajados nos movimentos de proteção e valorização do negro para, a partir dessa nova qualificação, construir parcerias e ações que viabilizem a formação de um número maior de psicanalistas atentos à questão racial e a seus efeitos sobre o psiquismo de todos os brasileiros. É só um começo, e ainda há muito a fazer.

Quem sabe essas iniciativas permitam que nos próximos anos possamos estabelecer um verdadeiro encontro, mais colorido, mais equânime, mais vitalizado pelas diferentes diferenças, e que o som ao nosso redor , que tem nos ensurdecido em sua desarmonia, torne-se ato de tradução de Stand by Me, a canção entoada no casamento real, e que nos postemos todos juntos, lado a lado, um pelo outro, por sermos brasileiros, por sermos humanos, por sermos.

[1] Vale a pena conhecer o manual produzido pelo IPEA (Instituto de Política Econômica Aplicada), Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça in http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf

[2] O Atlas da violência 2017 do IPEA indica, por exemplo, que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

[3] Kon, N.M., Silva, M. L. e Abud, C.C., O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017.

[4] Vale a leitura de trabalhos inaugurais de Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira Baptista no campo da psicanálise: Souza, N.S.,Tornar-se negro, Ed. Graal, 1a.edição, Rio de Janeiro. 1982. https://escrevivencia.files.wordpress.com/2015/02/tornar-se-negro-neusa-santos-souza.pdf e Baptista, I. N. Significações do corpo negro, tese de doutorado defendida no IPUSP no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, 1988. http://psicologiaecorpo.com.br/pdf/Isildinha%20Baptista%20Nogueira-Significacoes%20do%20Corpo%20Negro-1.pdf, acessado em 13/01/2016

 

*Noemi Moritz Kon é psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Mestre e Doutora pelo Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP e autora de Freud e seu Duplo. Reflexões entre Psicanálise e Arte, S. Paulo, Edusp/Fapesp, 1996, A Viagem: da Literatura à Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2006 e organizadora de 125 contos de Guy de Maupassant, São Paulo, Companhia das Letras, 2009 e co-organizadora com Cristiane Curi Abud e Maria Lúcia da Silva de O racismo e no negro no Brasil: questões para a psicanálise, S. Paulo, Ed. Perspectiva, 2017. Professora do curso de pós-graduação: “Conflito e Sintoma: Clínica Psicanalítica” do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

A máquina do tempo psicanalítica

*Luiz Moreno Guimarães

— Breve retomada da teoria dos três tempos de Fabio Herrmann —

Não raro a análise parte de um mal-estar temporal. Uma mulher se apresenta dizendo que os dias transcorreram e ela não os aproveitou, que sua vida perdeu o sentido e é tarde demais para recuperá-lo, seu tempo passou e foi embora. Já outra relata que seus relacionamentos reeditam sem cessar o mesmo roteiro: seguem uma precisa sequência levando ao idêntico fim, seu tempo é cíclico e não pretende deixar de sê-lo. Outro ainda busca a análise porque notou que tanto ele como alguns de seus entes estão enredados em uma maldição familiar, seu diálogo é com a condenação que atravessa gerações e que é imune ao tempo. Todos poderiam se perguntar: que tempo é esse que me assujeita? Todos, tal como Hamlet, poderiam afirmar: “O tempo está fora do eixo. Pobre de mim, que nasci para pô-lo em seu lugar!”.

Por mais distinta que seja a procura pela análise, é como se o paciente apresentasse, logo nas primeiras sessões, a forma como seu tempo se encontra fora do eixo e, implicitamente, tentasse o clínico a colocá-lo em seu lugar. O que faz então o analista nesse início? Trai discretamente o pedido: em vez de propor a regulação do tempo desleixado no eixo considerado correto (no tempo morno da rotina), a análise piora um pouco as coisas. Simplesmente, convida o paciente a entrar na fenda temporal que se abriu em sua vida. De um lado, o tempo fora do eixo, de outro, o tempo em seu lugar — é precisamente na não identidade dos tempos em que trabalha o analista, e é nela que ele irá instaurar sua máquina do tempo. Há uma fissura no tempo, entremos nela se quisermos sair do lugar!

Se você pretende começar uma análise, seja como paciente ou como analista, prepare-se para uma viagem no tempo. Primeiro, como vimos, sobrevém o estranhamento temporal. Em seguida, evita-se a regulagem do tempo no eixo cronológico. E logo se instaura uma confusão muito parecida com as dos filmes de ficção científica, daquelas que causam certa vertigem quando tentamos apreendê-las.

A ficção temporal psicanalítica se dá mais ou menos assim. No presente da sessão, o paciente fala sobre o passado, revisita-se autobiograficamente. Mas é escutado pelo analista em um registro não referencial: este escuta a instauração do passado no presente. E ao proceder assim mantém vivo o potencial de alterar o passado. Uma vez que isso acontece, tudo muda: já não é mais o mesmo o futuro do passado narrado, já não é mais o mesmo o seu presente. Complicado, bem sei. Simplificando: no presente da sessão, paciente e analista são transportados para o passado, no qual qualquer modificação incide no futuro.

Tal operação atende sob o nome de ressignificação. Ela é arriscada. Uma simples alteração do passado pode tanto fazer surgir o humano quanto apagá-lo. Mas ela também é crucial em toda análise. Ao lembrar, dizemos a nós mesmos: eu sou o futuro daquele passado; ao ressignificar, o passado passa a ser outro: e eu já não sei quem sou.

Há, contudo, diferentes modos de operar a ressignificação analítica. É aí que entra a teoria dos três tempos de Fabio Herrmann.

Fabio dizia que a análise comporta três dimensões temporais: o tempo curto, o médio e o longo. Não se trata de uma divisão etapista ou cronológica, ao contrário, o aspecto principal dos três tempos é o fato de serem concomitantes e sobrepostos. Juntos compõe o tempo da análise. E como três partes de uma trança, a cada momento, um tempo aflora na superfície da sessão, enquanto os outros dois se cruzam por baixo.

Tempo curto. Há um antigo samba que versava “respeitem os meus cabelos brancos”. O compositor Chico César retoma-o modificando: “respeitem os meus cabelos, brancos”. Pronto: basta a introdução de uma vírgula para explodir a significação.

No tempo curto, as palavras perdem seu significado inicial, recompõem-se de uma maneira inesperada e devolvem ao enunciador um sentido que ele não visava proferir. Nele, escuta-se não apenas o lapso, mas a escuta é lapso: ela opera os rearranjos musicais das palavras (homofonias, aglutinações, escanções etc.), ao modo de um ato-falho a dois.

Tempo médio. Em um miniconto fantástico escrito por Thomas Bailey Aldrich, registraram-se essas poucas linhas lapidares: “Uma mulher está sentada sozinha em sua casa. Sabe que não há mais ninguém no mundo: todos os outros seres estão mortos. Batem à porta”.

O texto, ainda que curto, transcorre em tempo médio. Sentada em sua casa, a mulher padece de solidão em escala planetária. Está sozinha no mundo: é um ser sem seres. Esse é seu páthos: é a via pela qual ela cria o mundo que habita. Mas, em um simples ato, batem à porta: rompe-se o campo da solidão oceânica. Seu drama instaura-se não apenas na ausência de humanos, mas no exato momento em que essa ausência tem que se a ver com um ato mais-que-humano.

Tempo longo. Eis uma historieta medieval que possui diversas variações. Em uma feira, um homem viu de longe a Morte olhar estranhamente para ele. Aterrorizado, corre para a casa de seu senhor para pedir-lhe um favor, depois de contar-lhe a verdade: “A Morte assustou-me hoje na feira, empreste-me o cavalo para que possa fugir para Salamanca”. O senhor o emprestou, e o homem partiu a galope. Mais tarde, o senhor foi à feira, encontrou a Morte e lhe perguntou: “Por que assustou meu vassalo hoje?” E esta respondeu: “Não o assustei, eu é que me assustei ao vê-lo aqui: tenho um encontro marcado com ele hoje em Salamanca”.

Destino é isso: um encontro contingente que se torna necessário.

As clínicas psicanalíticas relatam — e portanto escutam — em tempos distintos: os lacanianos, e até certo ponto os bionianos, contam os casos em tempo curto; os kleinianos e tantos outros, em tempo médio; e os freudianos, em tempo longo. Temperando o Homem Psicanalítico ao seu gosto, cada qual supõe ser a sua a receita certa de narrativa. Freud, é claro, transitava com incrível desenvoltura entre as três formas de narrar, e talvez entre outras ainda hoje sequer reconhecidas.

Percebe-se que o legado mais imediato da teoria dos três tempos é a ruptura do campo da filiação psicanalítica. Quando a interpretação psicanalítica cumpre seu destino, ou seja, alcança seu devir-método, ela perde o seu sobrenome. Deixa de ser uma interpretação kleiniana, lacaniana, bioniana, etc. Nesse ponto, é possível cruzar palavras, operar rearranjos musicais sem que com isso precise nomear-se lacaniano. É possível romper campos sentimentais ou mesmo levar adiante a investigação do páthos, sem se autodenominar kleiniano. E assim por diante. A teoria psicanalítica em seu aspecto metodológico não solicita atestado de batismo.

Este texto é um convite para criarmos a máquina do tempo psicanalítica, que se dirige à terceira geração de analistas. Tal geração não se define pela idade e sim pelo ímpeto de ultrapassar o período das escolas. A ela seguem algumas indicações de leitura, são passagens da obra de Fabio Herrmann em que se esboça a teoria dos três tempos.

  • Capítulo 15 “Psicopatologia” do livro Introdução à Teoria dos Campos (2001).
  • Artigo “A supervisão vista de baixo” do Jornal de Psicanálise (v. 34, n. 62/63, 2001).
  • Capítulo “Quarta meditação: intimidade da clínica” do livro Sobre os fundamentos da Psicanálise (2015).

 

Imagem: Detalhe do quadro O abacaxi, collage de Silvio Alvarez, 2010 (www.silvioalvarez.com.br)

*Luiz Moreno Guimarães é membro filiado do Instituto Durval Marcondes e doutor pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Email: luizmorenog@gmail.com

Psicanálise e Migração – a possibilidade de uma Clínica Transcultural

 * Paula F. Ramalho da Silva, Stephania A. R. Batista Geraldini e Maria Cecília Pereira da Silva

De acordo com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), o número de migrantes internacionais chegou a 244 milhões em 2015, dos quais 20 milhões são refugiados. Para a Organização, um migrante internacional é alguém que mudou o seu país de residência; um refugiado internacional fez essa mudança forçadamente, geralmente por causa de conflitos armados ou perseguições.

No Brasil, segundo pesquisa do Núcleo de Estudos da População da Universidade Estadual de Campinas, entre os anos 2000 e 2015 foram registrados cerca de 870.000 imigrantes, quase 370.000 no estado de São Paulo, sendo o maior fluxo proveniente da Bolívia.

O evento migratório está em geral associado a questões socioeconômicas e políticas que se impõem ao migrante, mas ele não se resume a um ato social, é também um ato psíquico, e este conceito é fundamental para a clínica psicanalítica transcultural, que se torna cada vez mais relevante na atualidade.

O deslocamento do migrante pode ocorrer após ou por causa de rupturas traumáticas com o seu contexto externo e, mesmo quando não, traz ruptura e desorganização externa e interna; com frequência, ele é experimentado de maneira ambivalente – desejo e medo de partir, desejo e impossibilidade de permanecer, desejo de manter traços culturais que compõem a história do migrante e de sua família e necessidade de se adaptar a uma nova cultura num novo país.

Considerando essa especificidade, a psicanalista francesa Marie Rose Moro propõe um modelo clínico baseado na etnopsicanálise, que vem sendo utilizado na Clínica Transcultural ligada ao Centro de Atendimento Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Os atendimentos na Clínica Transcultural da SBPSP são oferecidos a famílias de imigrantes. Em cada sessão, o grupo familiar se encontra com o grupo de profissionais, composto por um psicanalista/terapeuta principal, um psicanalista/coterapeuta, um tradutor, um psicanalista/terapeuta responsável por estar com as crianças, e por outros psicanalistas que trabalham no sentido de criar uma espécie de caixa de ressonância, construindo assim um continente para as demandas apresentadas, que podem então ser acessadas e (res)significadas.

Dessa maneira, podem surgir questões que dizem respeito ao desenraizamento, ao abandono das tradições, dos traços culturais, do local de origem, de membros da família; questões que dizem respeito às dificuldades de adaptação e integração; diferenças entre gerações e entre os membros da família frente ao processo migratório, especialmente quando as crianças já nascem no país para o qual os pais migraram e não conhecem o local de onde eles partiram. Não raro, apresentam-se questões associadas à parentalidade, acrescidas de complexidade à medida que pais e mães precisam dar conta de necessidades básicas para a sobrevivência da família, como alimentação, moradia e trabalho, enquanto não podem contar com uma rede de apoio composta por familiares e amigos que permaneceram no país de origem, não sabem até que ponto devem contar com sua herança cultural e ainda precisam justificar constantemente, para os filhos e para eles mesmos, a decisão de migrar.

Baseando-se na utilização complementar das matrizes psicanalítica e antropológica, no reconhecimento e respeito pelas características culturais de cada grupo familiar e, ao mesmo tempo, na compreensão de que, mesmo imerso numa determinada cultura, cada indivíduo mantém a sua singularidade, pressupostos da etnopsicanálise, a Clínica Transcultural procura dessa maneira acompanhar aqueles que atende na construção de significados em seu processo migratório.

Conheça a equipe da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP

Maria Cecília Pereira da Silva

Ana Balkanyi Hoffman

Diva Aparecida Cirluzo Neto

Fushae Yagi

Maria Augusta Gomes

Maria Cristina B. Boarati

Maria José DellAcqua Mazzonetto

Paula F. Ramalho da Silva

Stephania A. R. Batista Geraldini

Tania Mara Zalcberg

Maria Cecília Pereira da Silva épsicanalista, Membro Efetivo, Analista Didata, Analista de Criança e Adolescente e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutora em Psicologia Clínica e Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUCSP.  Pós-doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP.  Especialista em Psicopatologia do Bebê pela Universidade de Paris XIII. Coordenadora da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP.  Membro e professora do Departamento de Psicanálise de Criança do Instituto Sedes Sapientiae no curso Relação Pais-Bebê da Observação à Intervenção.

 

Stephania Aparecida Ribeiro Batista Geraldini é psicóloga, Membro Filiado ao Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP, doutoranda do IPUSP, mestre em Early Years Intervention pela Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, Especialista em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae.

 

Paula Freitas Ramalho da Silva é psiquiatra, Membro Filiado ao Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP. Mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo.

 

*Imagem: Agência Brasil

A SBPSP manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra   crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos. Transcrevemos a seguir o Pronunciamento da Presidente da Associação Psicanalítica Internacional, Dra. Virginia Ungar, ao qual declaramos nossa total adesão.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pronunciamiento del Presidente de la API con respecto a la Violencia hacia Niños Migrantes

Las noticias que han circulado por los medios sobre la terrible decisión de separar a los hijos de inmigrantes de sus familias en Estados Unidos han puesto el foco en una desoladora situación de maltrato hacia los niños que ocurre también en otras latitudes, como el Mediterráneo, Medio Oriente y África, entre otras.

Hace varios años que la situación de los inmigrantes y sus familias es desesperante, pero lo ocurrido en Estados Unidos ha levantado la indignación mundial contra los que no respetan los derechos básicos de las personas.

La Asociación Psicoanalítica Internacional (API) ha creado espacios para estudiar a fondo el problema y también para ofrecer intervenciones basadas en la teoría y en la práctica psicoanalíticas. Hemos inaugurado recientemente una nueva estructura llamada API en la Comunidad, compuesta por varios comités entre ellos Migraciones y Refugiados, Organizaciones Humanitarias, Educación, Salud, y Violencia. Trabajan junto con el Comité de Análisis de Niños y Adolescentes y el Inter-Committee on Child Abuse y llevan adelante investigaciones y proyectos de acción comunitaria que buscan mitigar el dolor y la vivencia de desarraigo traumático producido por políticas que llevan a niveles no humanos a millones de personas.

Los pioneros del psicoanálisis como Sigmund Freud, Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, Serge Lebovici y muchos otros que siguiendo el camino de los maestros, han buscado comprender el delicado balance del desarrollo psico emocional de los niños y la manera en que las situaciones traumáticas interfieren en el mismo.

Desde esta base, repudiamos cualquier forma de violencia contra niños y adolescentes que altere los parámetros cruciales de crianza en todo el planeta. Incluimos en ello las separaciones forzadas o precoces de la familia, la falta de cuidados básicos y de respeto por los derechos de niños y adolescentes. Como profesionales de la Salud Mental es nuestra obligación proteger a los niños y jóvenes y defenderlos de cualquier tipo de violencia y amenaza a su desarrollo.

Virginia Ungar, Presidente de API

Sergio Nick, Vicepresidente de API

 

 

 

O inconsciente nos pés e a Copa do Mundo no divã

*Denise Salomão Goldfajn

Estamos de novo em época de Copa do Mundo, onde o Brasil  é exemplo seja nas fúlgidas vitórias ou nas retumbantes derrotas (1970 e 2014). Para Chris Oakley (2007), psicanalista inglês, autor do livro Football Delirium, o Brasil representa para o futebol mundial o que Freud representa para a psicanálise, o lugar da criação e da inventividade.

Cada edição da Copa, congrega chuteiras, países e o ambiente político e social de seu tempo. Um Brasil retratado no passado, como “país do futuro,”  pelo autor Stefan Zweig,  aproxima-se em 2018, e com as eleições na esquina, do destino sombrio do qual o mesmo escritor pensara ter escapado. O Brasil do presente, exemplar no futebol, é também exemplar nos rankings da desigualdade social, de violência interpessoal e da corrupção.

Mas em tempos de Copa do Mundo, vivemos clivados, dissociados, saímos da rotina e entramos por janelas e telas em um outro Brasil, potência soberana, tratado como referência e com reverência. Com a chegada da Copa, para brasileiros e brasileiras, não há rotina que se mantenha no país.

Remarcar, cancelar ou manter as sessões no consultório durante a copa? Quem quer ver o jogo, o paciente, o psicanalista, os dois, ou nenhum dos dois? Onde está, no manual da técnica psicanalítica, o capítulo que fale sobre o manejo da clínica em época de Copa do mundo?

Estamos nós, pacientes e analistas de braços dados na corrente pra frente, ligados a mesma emoção, ou não? Essa fantasia de que podemos deixar a análise em suspensão e ser junto com nossos pacientes, pares iguais, inaugura uma série de possibilidades clínicas. Pois gostemos ou não de futebol, em época de Copa, o tema está presente em nossos consultórios.

Para o psicanalista as representações se multiplicam, famílias, como times, treinadores como pais, jogadores como ideais, oponentes que trazem todos os tipos de conflitos relacionais. Os jogadores encenam ao vivo as manifestações inconscientes nas múltiplas telas de LCD. Como explicar o jogador de frente para o gol, que se via enorme pela transmissão na TV,  e sem ninguém para defender, chutar a bola para fora dos travessões, perdendo a oportunidade da glória e do gol. Como entender o gesto, aquela mão do jogador que salvou seu time, a lei vale ou não? Como lidamos com a transgressão? E o VAR, tecnologia auxiliar conseguirá super-arbitrar? E aquele jogador que tentando defender seu time, erra contra a sua vontade, ao mesmo tempo que presenteia, com a vitória, o adversário.  Segurou a camisa? Fez manha e artimanhas? Passou pelo juiz que não viu? Erros ‘infantis’ que profissionais do jogo jamais cometeriam. Quantos comentaristas, tentando compreender o incompreensível, evocaram a fórmula “Freud explica”. E, Freud, de fato explica. Lições de psicanálise se multiplicam ao vivo e ao mesmo tempo para milhões de pessoas: atos falhos, medo do sucesso, egos ideais e ideais do ego, projeções e atuações. É na rapidez dos pés que o inconsciente se mostra na tela.

Dentro e fora da pequena área de nossos consultórios a interseção cultural e subjetiva emerge, mostrando as cores da transferência social. É só deixar a bola rolar sem impedimentos para perceber que a transmissão da psicanálise está, mais uma vez, ‘no ar’.

 

Denise Salomão Goldfajn é membro associado da SBPSP e da SBPRJ. Pós-doutoranda do IPUSP e Coordenadora-centro do projeto Pensamento Psicanalítico Latino Americano (PPL) da Fepal.