Autor: sociedadedepsicanalise

(Poder) chorar as dores do mundo

*Eduardo de São Thiago Martins

 

Estupefato com o retrocesso civilizatório que estamos vivendo, mesmo conhecendo o vai-e-vem do pêndulo da História, me peguei imaginando como diria a uma criança de quatro anos (e meio!) – inteligente, corajosa, curiosa e sensível –  o porquê que ela, que será o futuro, ainda não pode agir sobre ele.

Diria assim:

“Sabe, sentir ódio é humano.
Mas pensar sobre o ódio que se sente, sem disseminá-lo, sem partir para a ação violenta, é mais que humano – é o trabalho da civilização.”

Foi assim que saímos da Idade Média, a Era das Trevas. Foi assim que algumas pessoas sobreviveram a guerras terríveis, ao fascismo, ao holocausto, aos ataques atômicos, aos exílios, censuras, torturas e assassinatos das ditaduras militares – sim, tudo isso aconteceu, de verdade. E é por isso, por conseguirmos ir aprendendo a conter as violências e os discursos de ódio, dia após dia, que muitos de nós tivemos o privilégio de não ter de enfrentar nenhum destes terrores.

Tudo aquilo que nós não conhecemos e não dominamos – dentro e fora da gente – dá medo. As doenças, as pobrezas, as violências, os desejos proibidos, e também as pessoas, todos aqueles que são diferentes de nós – seja pelo tom da pele, pelo jeito de amar, pelos hábitos, pelo jeito de pensar, pelo formato do corpo – aqueles que não conseguimos entender; tudo isso pode dar muito medo.

Fobia!

Quando somos crianças e sentimos medo, rapidamente, buscamos a proteção que está mais perto; a proteção de um adulto, que julgamos ser seguro, forte e confiável.

Mas quando nos tornamos adultos, percebemos que esse adulto-herói em quem acreditávamos, era só uma ilusão. Porque agora os adultos somos nós e continuamos sentindo muito medo e insegurança, por nós e por todos que amamos.

Então, se é assim, qual é a diferença entre adultos e crianças?

A diferença é que a criança se assusta e logo chora; sente raiva e logo bate; quando quer alguma coisa, pega logo sem pedir, tanto faz se é dos outros; e quando a criança não quer alguma coisa, quando se incomoda com alguma coisa, ela joga fora, quebra, destrói, pisa em cima. E neste momento, a criança fica com medo até dela mesma, medo do que é capaz de fazer contra os outros.

Por isso, a criança só confia no adulto porque supõe que ele não vai fazer igual. Supõe que ele pode se conter, vai parar para pensar, vai tentar entender e explicar o que está se passando.

Frente ao ódio e ao medo, essa é a diferença entre eles. Fora isso, o adulto continua sentindo tudo o que sentia quando era criança, e quando age com violência e intolerância, quando pega em armas, está sendo apenas uma criança grande.

É por estes motivos que criança não pode votar… E nem se candidatar ao governo. Porque ela ainda acredita na ilusão do superadulto. Ela ainda não consegue pensar sozinha em tudo o que sente, ainda não é capaz de buscar soluções mais elaboradas para os problemas do mundo; aliás, a criança ainda não pensa muito no mundo, pensa mais nela mesma, porque ainda precisa que seja assim.

O poder, nas mãos de quem ainda não pode, é sempre perigoso demais.

Explode.

Democracia, então, é um complicado projeto dos adultos.

Direitos Humanos são frutos de muito trabalho e pensamento, daqueles que, além da própria dor, um dia se viram chorando diferente porque choravam as dores do mundo.

E liberdade é diferente de fazer tudo o que queremos ou exterminar tudo o que não queremos; liberdade é poder sentir, tolerar, pensar bem e, finalmente, – e isso é muito importante – escolher as melhores ações. Poder se posicionar.

Tornar-se civil é aprender a considerar a necessidade do outro, é enxergar e cuidar dos diferentes mundos que cabem num só, por mais estranhos que possam parecer, por mais medo e ódio que possam gerar.

Democracia e Direitos Humanos, sim.

Violência e discriminação, não!

Não mais.

Eduardo de São Thiago Martins é psicanalista e psiquiatra, atual presidente da Associação dos Membros Filiados ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e colaborador do núcleo de psicanálise do serviço de psicoterapia do IPq-HC FMUSP.

Quarta-feira de manhã

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

           

            – Oi.

            – Oi.

            – Essa noite eu tive aquele sonho de novo.

Eu o conheço, já nos vimos algumas vezes, mas, apesar do meu esforço, ainda não consigo me lembrar de sua história ou de seu sonho repetido.

            – Você me conta o sonho de novo?

            – Eu sonhei que estava preso aqui mesmo, na Fundação [Casa], e eles tinham comprado espelhos pra pôr nos quartos. Mas quando eu me olhava, eu não tinha um rosto. Fiquei assustado e acordei.

Qual a prioridade desse rapaz ao me ver novamente depois de um mês? Falar sobre o seu sintoma? Sobre a medicação? Sobre as terríveis condições de sua internação? Sobre sua realidade socioeconômica, um pesadelo desperto? Sobre seus crimes, seu envolvimento com facções criminosas? Nada disso. Sua prioridade é me abraçar e me contar um sonho. O efeito da narração é imediato, a imagem que tenho dele se torna um tanto mais consistente e uma série de memórias sobre sua história passam a emergir dentro de mim. Respondo a partir do local onde fui colocado:

      – Agora eu me lembrei do seu sonho. Por que você acha que ele se repete tantas vezes?

      -Sei lá, talvez ele esteja me mandando alguma mensagem.

      -Qual mensagem?

      – Não sei… (algum tempo em silêncio). Essa semana eu estava vendo de novo uns episódios daquele seriado que eu gosto, aquele dos tronos, sabe? Então, tem uma parte que eu gosto bastante, é sobre uma menina que perde os pais e tem que se virar sozinha, esqueci o nome dela. Ela encontra uma grupo de assassinos que dão casa e comida pra ela, e que começam a treinar ela pra ser uma assassina também. Eles acreditam no Deus de Muitas Faces, que é um deus da morte. No treinamento, ela tem que esquecer que ela é ela, que ela tem um nome, que ela tinha pais, que ela tinha irmãos e amigos. Ela tem que se tornar Ninguém pra depois poder se disfarçar com qualquer identidade que ela queira. Esse é o melhor jeito pra poder se aproximar dos outros e matar quem precisa ser morto. Nesse treinamento, o mestre dela fica perguntando: “Qual é seu nome?”; ela responde: “Eu não tenho nome”. Daí, se ele acha que ela não acredita no que está dizendo, ele a espanca e diz que ela ainda acredita que é Alguém. E daí…doutor, posso tirar minha blusa, tô com calor…

    – Sim, claro.

Nos outros ambientes da Fundação ele não pode tirar a blusa, deve ficar uniformizado com o moletom azul comum a todos os adolescentes. Do meu ponto de vista, tal uniformização contribui bastante com o Deus de Muitas Faces. Ele tira a blusa e por baixo veste uma camiseta de mangas curtas. Tem braços fortes e os apoia sobre a mesa, na minha direção. Suas tatuagens se fazem presente ao meu olhar.

      – Você tem muitas tatuagens.

      – Ah, é verdade, quer saber o que elas significam?

      – Sim.

Ele começa a descrever os significados das tatuagens, uma a uma, e penso que elas poderiam ser reunidas em dois grupos diferentes. O primeiro grupo representa o processo de despersonalização. Tornar-se Ninguém, ser eficiente dentro de um grupo criminoso, adorar o deus da morte. Ele fala, um tanto desafetado:

      – Essa aqui significa que sou membro do grupo P. Essa aqui significa que um policial está cercado por quatro bandidos e que ele vai morrer. Essa aqui significa paciência para que o crime possa ser premeditado com frieza. Essa aqui significa que a vida é só um jogo, como um jogo de cartas ou de dados, então tanto faz viver ou morrer. Essa aqui significa o tráfico de drogas. Essa aqui…não, essa aqui deixa pra lá. Essa outra aqui significa…

       – Espera, por que você pulou essa aí?

       – Ah, é porque essa é triste, essa é pra lembrar de um amigo meu de infância que morreu no crime. A gente era muito parça [parceiro].

Ele se entristece, seus olhos ficam marejados. Ele tenta engolir o choro e continua a falar sobre o primeiro grupo de tatuagens. Tenta fazer a raiva triunfar sobre a tristeza mas já não consegue, começa a chorar bastante. A tatuagem do luto de seu parça é representante do segundo grupo. São tatuagens que erguem um espelho diante de si e lhe mostram que ele ainda acredita ser Alguém. Também nesse grupo estão tatuados: o nome de sua filha, o nome da sua mãe, o nome da sua avó, o nome das suas irmãs e irmãos (não há o nome do pai, e também nunca houve um pai), uma estrela que representa a mulher que ama (ele não sabe que ainda a ama, ficou revoltado com o afastamento dela depois de seu terceiro crime, mas fala dela quase o tempo todo quando conversamos), o time de coração (aquele que sabe ser o mesmo time de seu avô materno), uma lágrima tatuada logo abaixo do seu olho que significa a tristeza provocada em quem está lá fora.

O tempo da consulta já se esgotou há muito tempo, ouço vozes do lado de fora que estão interrogando sobre meu atraso. Apesar da pressão, sustento o espaço para que meu paciente possa elaborar um pouco mais em silêncio. Enquanto isso, reflito sobre o longo caminho que percorremos até aqui. De início, meses e meses diante de graves sintomas psiquiátricos e repetidas atuações autodestrutivas, até que um sonho pudesse ser constituído. Dali, mais uma travessia até hoje, quando o sonho repetido ganha significados que possam ser falados e escutados. E daí em diante não sei, veremos. Mas quando se sonha ser Ninguém, já não se é Ninguém. Neste momento, ele é Alguém que sonha ser Ninguém, e aqui se apresenta uma das potencialidades fundamentais do trabalho psicanalítico. A possibilidade da Fundação de uma Casa psíquica.

 

Este texto é um recorte do artigo “Quarta-feira de manhã”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise [Volume 51, n. 4, 107-21 · 2017]. O autor trabalhou por alguns anos como psiquiatra de adolescentes internados em diversas unidades da Fundação Casa. Invadido e pressionado por memórias daquele período, o trabalho da escrita se mostrou útil para elaborar suas experiências

 

Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, psiquiatra pelo IPq-HCFMUSP e supervisor de médicos residentes em psiquiatra no estágio de psicoterapia.

 

Narcisismo terciário

*Marilsa Taffarel

No dia seguinte à manifestação “Ele não” era mais nítido o sentimento de alegria… contentamento… satisfação… realização de algo significativo… das pessoas próximas que continuavam a enviar mensagens, vídeos, fotos, relatos.

Após manifestações acontece isso, mas nessa, decididamente, aconteceu mais, aconteceu maior, aconteceu muito.

Uma placa indicativa nomeava o epicentro do acontecimento: Potato Square. Vem a calhar a indicação em inglês, língua ainda internacional, pensamos. Trata-se de uma manifestação que ganhou essa dimensão e, em consequência as praças de varias capitais do mundo ocidental.
Na verdade, o epicentro era apenas nominal, porque havia vários pequenos centros em torno de um som, de alguma banda. O Largo da Batata perdeu seus contornos, ampliou seus limites. O que nos chamou a atenção foi justamente a manifestação consistir em estar ali, caminhar por ali, sentar no meio fio ou em alguma mureta. Estar entre as pessoas.

A defesa da diversidade, da multiplicidades, das singularidades estava ali estampada em gentes tão diferentes nas roupas, nos gêneros, nos adereços, embora sempre em algum lugar no rosto, nos braços, nas costas, nas testas, nas camisetas, nos lenços estivesse o “ Ele não”.

Estávamos caminhando entre as pessoas, sentindo com todos os sentidos e nos perguntando o que é uma manifestação, além de ser isso mesmo: uma manifestação?
Muitos cartazes diziam: “não é uma manifestação política, é moral”, pelo direito de ser diverso. Diríamos: uma manifestação desconstrutiva de enunciados totalizantes, hierarquizantes e fundados no desejo de uniformização do humano.

No entanto, fica a pergunta: afinal o que é uma manifestação? O fato é que não há uma manifestação. Há manifestações. Muitas delas constituem-se como fenômenos de massa que Freud descreveu. Massas mesmerizadas por líderes que encarnam figuras onipotentes, oniscientes. Líderes que convocam o desejo de obediência. Assujeitados, acríticos e passionalizados, os liderados abdicam de sua condição de sujeitos na entrega ao líder que os conduzirá ao poder e extermínio dos opositores.

Nessa manifestação “desconstrutiva”, tratava-se do prazer de estar entre pessoas as mais diversas de seu gênero, de sua classe, de seu nível, de sua geração. Estar além de todos esses atributos.

Pensei, para caracterizá-la e diferenciá-la em um conceito que reencontrei há algum tempo: narcisismo terciário. Conceito formulado por Alcira Marian Alizade, psicanalista argentina, falecida em 2012 , cofundadora da COWAP, autora de diversos livros sobre seu pensamento psicanalítico e também de livros de ficção.

Como ela pensa esse, que ela chama de “novo ato psíquico”, sem medo de usar as mesmas palavras que Freud utiliza para designar o narcisismo que se instala unificando as pulsões autoeróticas?

O narcisismo terciário dependeria de haver um investimento de amor que se inscreveria no bebê. Tal moção seria o suporte de investimentos que, à diferença dos narcisismos primário e secundário, não retornam ao ego. Eles não estariam ligados à castração, ao Édipo. Seriam pré- edípicos ou para edípicos e assim se manteriam.

Trata-se para ela da condição de possibilidade do relacionamento com o alheio, o distante, o social. Com objetos que estão além dos limites e dos interesses do nosso entorno social, estético, financeiro imediato. A vivência e a experiência da contingência e da transitoriedade da vida fariam emergir com mais força as possibilidades transformadoras, a conquista de espaços da pulsão de vida. Alicira pensa também a clínica como conquista desses espaços.
Vemos que, de forma ousada, essa autora – conhecedora do pensamento freudiano, kleiniano e do pensamento psicanalítico francês contemporâneo – prioriza, nessa conceituação, a pulsão de vida, o corpo – o corpo impõe sua presença viva e mortal – e os investimentos não-edípicos.

O narcisismo terciário pode ajudar a compreender como descobrimos a condição humana mais do que atravessando barreiras estéticas, intelectuais, diferenças de gênero. E sim recuperando investimentos em sistemas não centrados, não hierárquicos. Investimentos nas coisas humanas, em todos os seres que constituem nosso pequeno e frágil planeta.

 

Imagem: AFP para a Revista Época.

 

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e co-autora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

Manifesto da Diretoria da SBPSP pela defesa da democracia e contra o autoritarismo

A Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo acredita ser importante e necessário se manifestar frente aos últimos acontecimentos e ao clima que se estabeleceu em nosso país.

A psicanálise sempre teve como valor máximo a coragem de enfrentar a verdade, defender a liberdade do indivíduo, o respeito ao grupo, e a tolerância em face às diferenças. Esta disposição é base de nosso trabalho clínico e do conhecimento que adquirimos, ao longo dos mais de cem anos de nossa história.

Estes valores são imprescindíveis para construção de uma sociedade democrática e da nossa prática; repudiamos toda e qualquer ameaça a estes princípios.

Assim, vimos reforçar nossa preocupação e necessidade de unirmos forças contra o perigo de perdermos nossos valores de base e, assim, nossas condições de exercício da cidadania e da psicanálise.

A história nos serve como alerta; saibamos levá-la em conta!

Diretoria
SBPSP

O “pensamento” fascista e a função po-ética da psicanálise

*Ricardo Trapé Trinca

Isso que escutamos é o estalar de nosso “Ovo da Serpente”[1]? Ah, mas que estranho fascínio é esse exercido sobre nós, que perturba com um choque inebriante! E, enquanto esperamos nascer um monstro horrível, o que vemos é um filhote chamado propaganda, uma sereia que cativa e engrandece… Ah, mas como nos atrai essa sedutora vontade de poder!

Para nós, psicanalistas interessados nas interfaces entre a sociedade e a clínica contemporânea, os tempos atuais têm sido extremamente inquietantes e perturbadores. Escutamos de nossos pacientes com frequência cada vez maior a ideia de que a vida pública e privada deveria ser organizada com autoritarismo e rigidez. De que é preciso se aliar às pessoas de “bem”, contra a corrupção, etc. O que nos faz apreender um espírito justiceiro, segregador e antidemocrático, que cresceu e se desenvolveu entre nós. Este texto é um pedido para que observemos tanto em nós mesmos como em nossos pacientes tal presença, digamos, funesta e dissociada.

Vamos tentar descrevê-la. Podemos observar inicialmente o predomínio de um intenso sentimento de frustração, no qual o orgulho pessoal parece ter sido ferido ou roubado. Trata-se de uma frustração pessoal, mas também social. Essa frustração associa-se à ideia de que algo ou alguém destruiu a esperança de se ter uma vida melhor. Uma vida em que não só haveria menor necessidade de negociação dos nossos impulsos com o mundo, mas no qual nosso autoritarismo pessoal encontraria finalmente a esperança de ser autorizado, como um direito. Esta maneira de pensar, que chamamos de fascista, surge como uma conclamação à recuperação, por meio da força, deste orgulho roubado por alguém que, por sua vez, se tornou um usurpador.

Com este conclame, o fascismo impõe-se com uma linguagem traumatizante, cuja presença torna-se ameaçadora. Ele cria repentinamente um impacto imprevisível. Enquanto aquele que escuta tal discurso tende a sofrer o golpe de certas palavras e a se demorar sobre elas, tentando questioná-las, o discurso já foi adiante, como uma metralhadora de disparos contínuos. Contra esse discurso não há conversa; não existe um diálogo ou ponderações a serem feitas. Ou se aceita ou não se aceita. Caso seja aceito, o discurso transforma-se em algo que serve para ser retransmitido. Caso não se aceite, uma reação violenta contra o discurso é frequente; e, assim, ele é reproduzido na forma de seu avesso, propagando o ódio e uma organização maniqueísta da realidade. O poder que dele surge, cooptando seguidores e divergentes numa empreitada beligerante, advém de sua sede por obtenção de justiça, ou seja, de que o autovalor ou a posição perdida deve ser recuperada a qualquer custo; comportamento que encontra eco na formulação winnicottiana de tendência antissocial. É um discurso que visa ao poder perdido e à subjugação do perdedor.

Esse discurso, como a correnteza de um rio, corre numa só direção. Diferentemente de outros discursos humanos, polifônicos, nele há uma simplificação de sentidos possíveis. Portanto, a fala humana se empobrece, como numa fala de propaganda. E, como um autofalante, o discurso fascista não tem nenhuma receptividade, é uma propagação sem audição, cujo objetivo é realizar um reclame e conclamar outros iguais para realizar uma espécie de polarização narcísica, na qual se tende a girar em torno de ideias desprovidas de amizade e negociação. Há enorme fragilidade no conteúdo que é propagado, porque ele não é dialógico, reflexivo, e sim uma enorme restrição do escopo do pensamento[2] e da história. Além disso – e talvez um dos seus principais aspectos – a forma do dizer, sua estética, tende a ser tão ou mais importante do que seu conteúdo. Como não se trata de uma experiência do pensar emocional que se pode ter com alguém, ele assume a forma de um discurso e o seu valor parece repousar justamente nisso, em uma fala que desconsidera a outra mente, e que se faz de cima para baixo, composta por autoritarismo, agressividade e empoderamento. O conteúdo, cujo valor de verdade inexiste, fica em segundo plano, já que o principal é a sua estética. Assim, o valor de verdade de uma afirmação é substituído pelo valor de seu espetáculo impactante, em uma espécie de estética do choque, mas destituída do poder emancipatório que essa estética trouxe para a modernidade, especialmente nas artes (Parente, 2018). Quase não precisamos dizer quanto esse discurso é sedutor; a história que nos diga [3]!

Nessa maneira de constituir um “pensamento”, ou uma fala desprovida de apreço com a verdade, o conteúdo que se propaga é autoengendrado. Ela não se torna apenas uma falsificação da realidade, mas uma nova realidade, cuja existência se baseia no número de apreciações ou visualizações que recebeu. Não é necessário que encontre correspondência no real. Qualquer coisa pode ser dita sem ser refutada, pois o importante é a sua força de caráter traumatizante. Como a verdade, assim, não tem referência na realidade, ou na experiência emocional, mas na repetição do “meme”, a verdade transmitida passa a ser a do choque, que é sentido como “estar se falando a verdade”. E, paradoxalmente, nesse discurso há um reclame contra a mentira, de modo que sua estética passa a ser considerada, por si só, a expressão de algo verdadeiro.

Mas esse discurso não estaria, por sua vez, tamponando sentimentos de desamparo? Acreditamos, no entanto, que tais sentimentos passam a ser atribuídos àqueles que sentem o seu impacto, em movimentos de identificação projetiva. E assim, essa maneira de não pensar acaba por se tornar propaganda de preconceitos (discriminação social, étnica, racial, de gênero, etc), de alguém “forte” para alguém “fraco”.  Essa é uma das razões pelas quais nessa forma de discurso não se permitem dúvidas, incertezas e insegurança. Elas são combatidas radicalmente, pois a dúvida abriria a percepção para a apreensão dos sentimentos de desamparo dos quais se pretende evadir.

Não podemos esquecer que estamos todos em igualdade de condições para nos tornarmos expressão de uma tendência humana como esta, que avista nossa maior desumanidade e barbárie. Precisamos constantemente pensar como, a cada dia, cada um de nós não se tornará um fascista[4]. Como fazer para que o nosso discurso não seja, ele mesmo, uma ferramenta de poder, cuja intenção seria impedir o encontro humano no qual o pensamento se desenvolva, envolvido pelo desconhecido das coisas. O encontro com o rosto do outro será sempre o encontro com o mistério. Por isso, é fundamental que possamos, a cada vez, reconhecer a presença de nosso próprio fascismo, podendo, por meio desse reconhecimento, dizer não a isso a cada vez, a cada instante de seu acontecimento. O problema, portanto, passa a não ser mais se somos ou não fascistas, mas quando somos, e reconhecer o momento de nosso enlouquecimento [5].

Como sabemos muito pouco sobre a nossa própria vida, estamos sempre rodeados por impotência, medos e sentimentos de desamparo. E, em face do desamparo, criamos ilusões alucinadas da realidade, com a intenção de nos protegermos dela. Se o desamparo, por um lado, é uma condição fundante do psiquismo humano, por outro, seu aparecimento pode revelar a ocorrência de fraturas éticas (Safra, 2004). Estas fraturas estão relacionadas a uma ruptura com a confiança e com a espera pela mente de um outro, condição indispensável – de amparo – para a ampliação das possibilidades psíquicas em face do desamparo.  A aliança com o pensar fascista é a expressão da desesperança em relação ao outro, como alteridade, mas ocorre quando, pela impotência, busca-se a onipotência. Trata-se, portanto, de um falso amparo narcísico, que pode ser buscado, como comportamento político, em qualquer ideologia.

Sabemos que a atividade psicanalítica sustenta as incertezas do não saber, para ser surpreendido com a aparição do pensamento numa relação dialógica. Na situação clínica, a função po-ética consiste na surpreendente criação ou revelação da alteridade. Uma alteridade concebida como uma nova formação de metáforas e de histórias possíveis para um sofrimento[6]. Trata-se de uma atividade que devolve o valor da verdade ao seu conteúdo correspondente e restabelece o valor estético da pesquisa e da incerteza em relação ao saber, tornando a ação política oposta ao discurso de poder. Isso porque as metáforas e histórias são sempre incapazes de expressar todo o sofrimento. Ou seja, trata-se de uma ação de des-empoderamento, que restabelece, assim, a força da verdade. A função po-ética tem implícita uma ética do cuidado e da atenção aos sofrimentos humanos, que são muitas vezes impensáveis, ainda mais quando associados à nossa condição de desamparo.

Num mundo em que o discurso fascista se propaga como rastilho de pólvora, com um encantamento pelo choque, com ares de espetáculo, a tarefa psicanalítica, como resistência ao fogo, é continuar a mostrar seus princípios po-éticos. Pois o alimento que nossa mente precisa é aquele do encontro com a alteridade, que nos nutre com o sentimento de verdade, mesmo que seja provisória e incompleta.

 

[1] Faço alusão ao filme de Ingmar Bergman “O Ovo da Serpente”, Das Schlangenei(1977), que tratado período de incubação do nacional-socialismo na Alemanha.

[2]George Orwell em seu livro 1984, descreve o controle sobre a linguagem como um dos modos de se restringir o escopo do pensamento. Orwell descreve a Novilíngua, uma língua cujo objetivo seria tornar impossível designar certas coisas, de modo que aquilo tenderia a se tornar inexistente pela impossibilidade de ser designada. Ou seja, ideias indesejáveis a um sistema fascista não teriam como surgir de dentro dele.

[3]Brun (2018): “Por que o fascismo continua sendo tão atraente? Em Israel se apresenta o fascismo como um monstro terrível. Creio que é um erro, porque como todo mal tem uma cara amável e sedutora. (…) Como é possível que milhões de alemães tenham apoiado Hitler? Deixaram-se levar porque os fazia se sentir especiais, importantes, belos. Por isso é tão atraente”. No filme de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1992), logo no seu início, o narrador diz: ”Dizem que numa aldeia alemã dos anos trinta, o povo tinha um conceito próprio do que era o nacional-socialismo. Eles achavam que o nacional-socialismo tinha uma ligação com a pureza (…) o sonho de criar, através da pureza, um mundo mais harmonioso”.

[4] Em 1977, Foucault escreve o prefácio do Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, formulando que há um inimigo maior a ser combatido, o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar de poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

[5] Na forma de transformações em alucinose (Bion, 1965/2004).

[6] Pensamos em Hanna Arendt: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.

Imagem: Retirada do filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente”.

Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica pela USP, mestre em Filosofia pela PUC-SP e membro filiado ao Instituto “Durval Marcondes” da SBPSP. 

Freud e a clínica do século XXI

*Claudia Suannes

Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também. A frase de Borges, que serve como ponto de partida da biografia escrita por Elisabeth Roudinesco, soa oportuna para se pensar no aniversário de morte de Freud, dia 23 de setembro, e no lastro do pensamento freudiano na clínica dos tempos atuais.

A radicalidade do pensamento de Freud, que tira da consciência o eixo do funcionamento psíquico humano e marca a importância da sexualidade, produz um impacto que o situa como um dos grandes pensadores do século XX, cujo legado se estende para além da disciplina por ele criada.

São muitas as contribuições de Freud para se pensar a cultura, os fenômenos sociais e políticos, além da própria clínica psicanalítica.  Como é próprio a um pensador de sua envergadura, sua teoria também é objeto de crítica, sendo uma delas expressa no questionamento sobre a eficácia do método psicanalítico na clínica do século XXI.

Renato Mezan, no livro O tronco e os ramos, dedica-se ao estudo da história da psicanálise, tendo como eixo de seu estudo a relação entre o pensamento de Freud e seus sucessores. Partindo das diferenças entre as escolas de psicanálise, Mezan indaga-se como a partir de um tronco comum, Freud, as escolas possam ter produzido teorizações tão diferentes entre si, mantendo-se, ainda assim, em um campo que é reconhecidamente o campo da psicanálise.  Uma linha fecunda de análise que o autor nos apresenta, então, é a noção de “matriz clínica”, que consiste na base a partir da qual cada autor lê e indaga o texto freudiano. Dito de outro modo, no exercício de seu ofício, os psicanalistas têm contato com pacientes diferentes e é a partir de suas inquietações clínicas que cada analista/autor vai engendrar sua reflexão teórica, privilegiando, para tanto, aspectos da teoria freudiana que melhor permitem pensar os fenômenos com os quais se deparam.

O que me interessa marcar na citação do trabalho de Mezan é a consideração sobre a noção de matriz clínica como fonte de desenvolvimento do pensamento freudiano. Isto é, a radicalidade do método psicanalítico, que contém em seu bojo a possibilidade de escuta às diferentes expressões de sofrimento psíquico e aos modos particulares de se haver com este sofrimento. O subsequente esforço de teorização sobre esses fenômenos encontra na imagem do tronco e seus ramos a expressão de vigor e de possibilidade de constante renovação. Basta abrir os jornais, sair pelas ruas ou receber um novo paciente para constatamos que o terroir dos dias atuais constitui um terreno fértil para o desenvolvimento da psicanálise.

Em homenagem à sua contribuição para a psicanálise, escrevi breve reflexão sobre a influência de Freud para a clínica no século XXI neste outro artigo, publicado em 2015 no blog da AMF (Associação dos Membros Filiados ao Instituto de Psicanálise da SBPSP).

Cláudia Suannes é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Contato: clausuannes@gmail.com

Sobre o aborto, com a psicanálise

*Ludmila Frateschi

Paulo Endo[1], no I Simpósio Bienal da SBPSP, conclamou a psicanálise e os psicanalistas a não se calarem quando seus muitos anos de produção científica tiverem algo a acrescentar ao debate público. É possível que a psicanálise possa contribuir com a discussão sobre manter ou não o aborto como crime?

Os movimentos pela defesa da vida das mulheres e pela igualdade de direitos entre mulheres e homens têm defendido, já há muito tempo, a autonomia de decisão de uma mulher sobre seu o corpo e o seu direito de fazer um aborto no caso de gravidez que não se sinta apta a levar a termo.

No Brasil, a legislação mantém o aborto como crime no Código Penal, prevendo de um a três anos de reclusão para aquelas que o praticam. Destacam-se apenas três situações em que a pena não se aplica: risco de morte da mãe, anencefalia fetal e gravidez decorrente de estupro. Alguns legisladores defendem que a criminalização seja ainda maior: O projeto de lei 5069/2013, por exemplo, levou milhares de mulheres às ruas e fomentou várias manifestações feministas em 2015, propondo tornar também crime o auxílio ao aborto[2]“ e acabou não indo para frente[3]. Também o texto atual da PEC 181/2015[4], originalmente criado para estender a licença maternidade de mães de prematuros, foi alterado por um deputado: num desvio, ele acrescentou uma emenda prevendo que a vida de fetos deva ser protegida acima de tudo e desde a concepção[5].

Por outro lado, uma sugestão legislativa para legalizar o aborto voluntário até a décima segunda semana de gestação tramitou na Comissão de Direitos Humanos do Senado, ensejando cinco consultas públicas entre 2014 e 2016[6]. Seu relator sugeriu o arquivamento do projeto no início deste ano[7]. No entanto, uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442 ajuizada pelo PSOL com o argumento de que os artigos do Código Penal referentes ao aborto são inconstitucionais, passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF) e, em agosto, realizou-se mais uma audiência pública. Não sabemos ainda qual será o resultado final. A audiência ganhou ainda maior visibilidade porque, no mesmo mês, na Argentina, vimos milhares de mulheres nas ruas em vigília pela aprovação da legalização do aborto naquele país. Lá, o movimento teve uma vitória na Câmara, mas uma derrota no Senado.

A criminalização do aborto leva à enorme subnotificação dos casos e aos nefastos efeitos da prática que se faz clandestinamente. A pesquisadora Débora Diniz, expondo a Pesquisa Nacional do Aborto[8] na audiência do STF, apresenta o impressionante dado de que uma a cada cinco brasileiras com quarenta anos já fizeram ao menos um aborto. Diniz cita também o emblemático (mas, infelizmente, comum) caso de uma mulher que, mãe de outros filhos, morreu numa manobra com um talo de mamona, naquilo que seria o seu segundo aborto. Denuncia-nos, assim, como a criminalização obriga as mulheres a se esconderem, impedindo que procurem ajuda, orientação e cuidado e levando à repetição de uma situação tão dolorosa e arriscada. Convoca-nos, como analistas, a pensar: que mecanismo psíquico e social opera na hipocrisia que nega a realidade dos abortos clandestinos? O que favorece a repetição deste ato mortífero?

Outra expositora da audiência Pública, a pastora Lusmarina, do Instituto de Estudos da Religião (ISER)[9], recusa o dogmatismo e reforça os preceitos humanistas de sua Igreja: a importância do acolhimento e a singularidade de cada experiência. Ela fala em “escolhas possíveis”, lembrando-nos do preceito também psicanalítico de que um ato ou sintoma é sempre o melhor que o sujeito pode fazer com sua angústia naquele momento e, abstendo-se de uma posição que julga, diz ela: “Não cabe a nós como sociedade, como Estado ou como gente de fé, “amontoar aflição sobre aflição’ – como dizia Lutero -, culpa sobre culpa, medo sobre medo, abandono sobre abandono, dor sobre dor, ao ameaçar com a prisão e a categorização de ‘assassina’ alguém que está numa profunda situação de vulnerabilidade”.

Virginia Ungar[10], Presidente da International Psychoanalytical Association (IPA), disse: “Partamos de uma evidência: nossa época não é a de princípios do século passado quando nasceu a psicanálise. Tampouco a situação das mulheres que estamos aqui é representativa da maioria das mulheres. É verdade que antes houve outras mulheres no lugar de condução de muitas sociedades psicanalíticas. Isto não quer dizer que vamos negar o lugar vulnerável que tem tido e ainda tem a mulher em nossa sociedade”. Creio ser importante que possamos pensar nas diferentes condições em que as mulheres no Brasil fazem aborto. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, a mulher que tem menos acesso a planejamento familiar, que pratica aborto nas piores condições e que tem maiores complicações é pobre, negra ou indígena, nortista ou nordestina. Ela precisa escolher entre ter um filho que não pode ou correr risco de vida. Entre adequar-se a um mandamento social de que não pode dar conta ou, como disse a Pastora Lusmarina, acreditar que é uma assassina.

Sabendo que a possibilidade de maternar não é universal entre as mulheres e que é fundamental para o desenvolvimento da criança, pergunto-me então o que a psicanálise e os psicanalistas têm a dizer sobre a criminalização daquelas que assumem o seu limite.

Retomo, por fim, um episódio da série “The Handmaid’s Tale”, inspiração das manifestações na Argentina. Nele, uma das personagens – obrigada a ter filhos para a comunidade, já que é uma das poucas mulheres férteis que resta – tenta cometer infanticídio. Ordena-se então que seja apedrejada pelas outras mulheres férteis. Estas recusam-se a cumprir a ordem. Compreendem, a meu ver, que não é possível apedrejar alguém por levar a cabo um desejo que reconhecem em si mesmas. Parece-me algo que um psicanalista poderia questionar: se em toda mulher há alguma ambivalência em tornar-se mãe, por que socialmente apedrejamos, matamos e criminalizamos mulheres que admitem não poderem tornar-se mães?

 

Imagem: Alejandro Moreyra para o portal Tiempo Argentino

 

[1] Paulo Endo, em fala no Fórum Violência e Psicanálise no I Simpósio Bienal da SBPSP

[2] No texto do PL: “Induzir ou instigar a gestante a usar substância ou objeto abortivo, instruir ou orientar gestante sobre como praticar aborto ou prestar-lhe qualquer auxílio para que o pratique, ainda mais sob o pretexto da redução de danos

[3] Projeto de Eduardo Cunha (então do PMDB do Rio de Janeiro),

[4] De autoria de Aécio Neves (PSDB-MG)

[5] Jorge Tadeu Mudalem (DEM – SP)

[6] De autoria de André de Oliveira Kiepper, cidadão comum do Rio de janeiro, mestre em saúde pública

[7] Senador Magno Malta (PR-ES)

[8] https://www.youtube.com/watch?v=kuzNoNoYrTg

[9] https://www.youtube.com/watch?v=joAMPIaSkv0

[10] Virginia Ungar, O mesmo, O outro – fala na conferência de abertura do I Simposio Bienal da SBPSP

 

Ludmila Frateschi é psicóloga e psicanalista formada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Pertence ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/FMUSP). É atualmente membro filiado do Instituto Durval Marcondes. Atende em consultório particular. Contato: ludmilafrateschi@gmail.com

Arte e mal-estar na civilização

A SBPSP promove no sábado, 22 de setembro, às 11h, o encontro “Arte e Mal-Estar na Civilização”. O evento, coordenado por Cristina Secaf Rebello, contará com as apresentações “Psicanálise e o Espírito dos Tempos”, do psicanalista Leopold Nosek, e “A Crítica da Visão Como Sentido Dominante”, do professor doutor do departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da FAU/USP, Agnaldo Farias. Confira o texto de apresentação do encontro. As inscrições devem ser feitas pelo link: https://bit.ly/2NRLUBC

 

A coerção das pulsões – exigência necessária para o desenvolvimento civilizatório, cultural e tecnológico – produz, segundo Freud, um constante e crescente mal-estar ao impedir o prazer e a felicidade. As forças destrutivas, assim como os desejos sexuais vividos sem limitações, devem sofrer desvios como possibilidade de expressão e descarga.

A Arte, que Freud entendia ser, junto à Ciência, a mais nobre produção do homem, adviria da sublimação das pulsões agressivas e sexuais. Na arte, Eros e Thanatos teriam expressão e aceitação. Através do trabalho do artista torna-se possível para nós, “homens comuns”, viver as próprias paixões em toda a sua intensidade e estranheza.

A arte seria então a possível libertação das forças instintuais, maneira de ser e fazer o novo, forma de, ao mesmo tempo e paradoxalmente, eludir e evidenciar o incontornável mal-estar na cultura.

 

Diretoria de Cultura e Comunidade

Ilusão: o perigoso fio que nos conecta mesmo sem wi-fi

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.

Abaixo, reprodução do artigo de Helena Cunha Di Ciero Mourão* para a revista Psique nº 150, de agosto de 2018

 

Recentemente testemunhei a seguinte cena num restaurante. Eram dois adolescentes com os pais. Logo que a comida chegou, um apetitoso sanduíche acompanhado de batatas fritas, cada membro da família sacou do bolso seu celular e fotografou o prato antes mesmo de experimentá-lo. Parecia uma cena de faroeste. Estavam ávidos e felizes por registrar o cheeseburguer que comeriam em segundos. Orgulhosos. A ligeireza em fotografar a cena veio antes do que a fome. Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Curioso pensar que, apesar do imediatismo ser uma marca forte do tempo em que vivemos, essa suspensão está sempre presente. Pausa antes de postar, pausa para registrar a foto ou filmar, pausa na conversa ao vivo para responder a um comentário do mundo virtual.

Os diálogos pelos aplicativos de mensagens instantâneas nada têm de instantâneos, todos somos escravos desse mesmo tempo de espera. Atualmente, essa forma de comunicação é muito mais frequente do que os telefonemas, possibilitando um tempo de reflexão antes da resposta, uma reformulação da frase antes do envio e, muitas vezes, uma quebra da espontaneidade.

O lugar mais temido pelos adolescentes hoje são as marcas azuis do Whatssapp, que indicam que o outro visualizou a mensagem e não respondeu. Elas tornam real o maior pesadelo dessa geração: a sensação de invisibilidade.

Posto, logo existo

As fotos hoje são compartilhadas em busca da validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiências, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função da rede social é a de uma plateia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo[1] (há inclusive um emoji de palmas). O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós, aquele primeiro olhar que delineia nossa existência e de onde vem o amor: O olhar materno. Seria este o lugar onde se iniciam as primeiras trocas significativas com o mundo. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Possivelmente, essa é a causa de serem tão poucos os que conseguem não se render aos encantos da Internet. A busca por curtidas seria uma forma resgatar a lembrança de que existimos para alguém de maneira concreta. Não é raro ouvir de pacientes apaixonados: “Estou feliz, ele curtiu minha foto”. Ou seja: “Ele se lembra de mim, eu tenho a prova viva”.

Há também os que se filmam em seus stories, enquanto olham para a tela, conversam com seus seguidores e pedem opinião sobre roupas, corte de cabelo etc. ou divagam sobre a vida.  Existem também as filmagens ao vivo, os lives, nos quais as pessoas em tempo real interagem com outros usuários da rede. Seria possível se isentar da persecutoriedade nesse tipo de postagem? Pois essa exposição traz riscos, haters e falas de estranhos protegidos pelo escudo da tela de computador. Nem tudo é like, há também o haters. Freud diria que entre fezes e sangue nascemos. Não dá para esperar só aplausos da plateia virtual.

Tal qual a bruxa da história da Branca de Neve, o espelho de pixels contemporâneo tem uma função oracular. Seria este oráculo poderoso o suficiente para evitar o fim trágico do sujeito atual que nos remeteria à história de Narciso? Importante adicionar que há muitos registros de pessoas que arriscam sua vida para fazer uma selfie em lugares perigosos, colocando-se em situações de risco e morrendo por acidente ou distração. Não é uma causa mortis incomum, inclusive vem crescendo. O mito de Narciso segue mesmo bastante atual.

O que chama atenção para um outro ponto que considero interessante: o que aparece nos filtros virtuais é um fragmento da realidade, um pedaço, muitas vezes editado com o objetivo de contar ao outro sobre o quanto sou feliz. É comum, por exemplo, as postagens serem recados endereçados a alguém com uma finalidade provocativa. Uma bela foto de um momento pode não revelar o que de fato se passava no instante, pois há um aspecto da cena que é impossível de ser captado em sua totalidade: as emoções.

A psicanalista Marielle Kellerman Barbosa (2012, p. 101) escreve:

Podemos considerar a virtualização das relações, da comunicação, sob essa perspectiva freudiana da busca da felicidade na medida em que recriamos para nós uma realidade mais agradável e digerível. A tecnologia nos permite fazer um photoshop das relações, dos momentos, da imagem com que nos apresentamos ao mundo

As fotos poderiam ser recortes daquilo que gostaríamos de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos e como acreditamos que um dia fomos tratados em nossa tenra infância.

No artigo do jornal Folha de São Paulo, “Felicidade nas telas”, de 2010, Calligaris discute essa necessidade de expor a felicidade nas redes sociais como sendo um desejo de ter a vida invejada pelo outro:

Além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

Recentemente li um post com fotos de pessoas tiradas na semana ou até no dia em que se suicidaram como um alerta. Era uma campanha chamada “Depressão não tem cara”, na qual fotografias de cenas felizes, repletas de pessoas sorrindo e aparentemente leves, escondiam a morte que as espreitava. Vendo as fotos imagina-se algo bem diferente do que se passava internamente com as personagens ilustravam as fotos.

Em outro artigo, “A inveja dos outros”, de 2013, Calligaris acrescenta um ponto bastante interessante:

Num mundo em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas, pois comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é ser feliz, mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo o ter é mais importante do que o ser apenas por que à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios da vida interior e pedir que nos invejem por isso.

Recordação

Esquecer-se de fotografar uma experiência deveria ser sinal de estar vivendo-a com plenitude, de maneira inteira e, no entanto, há uma lástima: “Puxa, nem sequer tiramos fotos!”. Mas, por que a lástima?

Ao registrar momentos em nossos iPhones, nossos “eus” de bolso, criamos também uma ilusão de poder a qualquer momento revisitar aquela memória. Um pedaço de nossa história poderia ficar salvo, eternamente, da passagem do tempo, aprisionado numa nuvem virtual como lembranças que nunca se apagam. A prova de que um dia eu existi. Daqui a alguns anos o Facebook será um enorme catálogo de pessoas que já não existem mais. Para quem poderemos escrever no mural, revisitar as fotos, pensar nos posicionamentos políticos, se eram ou não coerentes, e até mesmo postar flores nas páginas daqueles que se foram ao invés de visitar seus túmulos no dia de Finados. Um pedaço da nossa vida que pode ficar inesquecível.

Na cultura mexicana uma pessoa não deixa de existir quando morre, mas sim quando ninguém mais fala dela. Por isso o dia dos mortos é tão importante. Para que a memória do falecido nunca se perca na história de uma família, todos aqueles que partiram são rememorados nesse dia.

Na plataforma virtual a morte também não é sinônimo de esquecimento. Hoje nas redes sociais não é incomum homenagear, no dia das Mães ou dos Pais, os que já faleceram numa tentativa de, em algum lugar, reativar aquela lembrança e, principalmente, buscar alguma solidariedade, seja na forma de comentário ou de curtida. Nesse sentido a rede social se tornaria um espaço de acolhimento pela identificação. Busco alguém que saiba o que estou sentindo, comunico ao mundo minha dor: uma espécie de catarse eletrônica.

Todavia, há certas pessoas que, se não morrem na nossa história, assombram todo nosso trajeto e nos aprisionam. Servem apenas para assombrar nosso disco rígido mental, sobrecarregando-o. É o caso dos ex-amores, por exemplo, que nas redes sociais só deixam de existir quando bloqueados ou deletados e para isso é necessária muita força de vontade no dedo indicador. Visitas virtuais às páginas da pessoa que um dia amamos não são raras, pelo contrário. Trazem mal-estar, alimentando, assim, a melancolia[2] e impedindo-nos de completar o trabalho do luto[3]. Uma memória permanece semiviva rondando as timelines da nossa mente. Se antigamente, quando terminávamos uma relação, temíamos encontrar nosso antigo amor na fila do cinema, hoje nos deparamos com vídeos diversos daquele alguém vivendo uma outra história e somos, muitas vezes, espectadores de cenas virtuais desnecessárias e que afetam nossa vida real: como um beijo apaixonado daquele pedaço da sua história que hoje tem vida própria.

Sou mais um na multidão

Hoje, as crianças brincam com tablets, disputam com seus pais os celulares, dividem seu tempo com a onipresença dos aparelhos eletrônicos. Estamos todos unidos pelo mesmo fio, invisível e poderoso: o fio da ilusão. De acordo com o Comitê Invisível, em Motim e destruição agora (2017, p. 57):

A Condição do reino dos Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) é que os seres, os lugares, os fragmentos do mundo permaneçam sem contato real. Onde os Gafa pretendem ‘vincular o mundo inteiro’ é, ao contrário, trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante. O golpe da força cibernético consiste em gerar, em cada um, a sensação de ter acesso ao mundo inteiro, quando se está na realidade, cada vez mais, separado de ter cada vez mais ‘amigos’, quando se é cada vez mais autista”.

O sujeito contemporâneo mantém a ilusão de estar sempre conectado, e essa ilusão contribui para sua solidão. Se hoje Freud pudesse acrescentar algo a sua frase “É preciso amar para não adoecer”, acrescentaria: “é preciso desconectar para não adoecer”.

Não há antídoto contra o desamparo, condição inerente ao ser humano. Não há escudo que nos proteja dos riscos da existência e das dores da vida.

Referências bibliográficas

BARBOSA, M. K.. Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo. Ide, v. 35, 2012, p.89 – 101.

CALLIGARIS, C: Felicidade nas telas. Folha de São Paulo, 2010.

______. A inveja dos outros. Folha de São Paulo, 2013.

COMITÊ INVISÍVEL. Cinquenta tons de rupturas. In : ______. Motim e destruição agora. São Paulo: N1 Edições, 2017, p.57.

FREUD, S. Luto e melancolia. Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

______. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 83-119.

 

[1] Freud (1914) atribuiu ao narcisismo a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo como objeto sexual.

[2] Termo usado por Freud em Luto e melancolia que descreve o estado da mente diante da perda de um objeto de amor – que não necessariamente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor – em que há a suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda a atividade e o rebaixamento do sentimento de autoestima.  “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego. O luto profundo em reação à morte de uma pessoa amada contém o mesmo estado de ânimo doloroso, o mesmo desinvestimento no mundo externo, a perda da capacidade de encontrar um novo objeto de amor – em substituição ao pranteado -, porém não há o rebaixamento de autoestima”.

[3]  Freud coloca nesse mesmo texto que o trabalho do luto consiste em um hiper-investimento nas lembranças que se referem ao objeto perdido afim de desligar a energia que vinculava o ego ao objeto de amor. “Mas de fato, uma vez concluído o trabalho do luto o ego fica novamente livre e desinibido” (1914/2011, p. 50).

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicóloga formada pela PUC -SP, especialista em psicoterapia psicanalítica pela Universidade de São Paulo e colaboradora da Revista Amarello  É membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: hcdiciero@gmail.com

Sobre o incêndio no Museu Nacional

Nós, psicanalistas da SBPSP, consternados com o acontecido com o Museu de História Nacional, endossamos a carta da Federação Brasileira de Psicanálise abaixo publicada.

Acontecimentos como este devem alertar os poderes públicos e a sociedade como um todo para importância da preservação e conservação dos nossos acervos de memória histórica e cultural. Fatos como este – assim como em outras esferas, a traumática tragédia de Mariana – não podem ser vistos como acidentes. Eles acendem uma luz vermelha sobre o descaso com o nosso patrimônio histórico cultural e nossa população.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

Carta aberta à comunidade científica, endereçada ao presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC:

A Federação Brasileira de Psicanálise – FEBRAPSI sente imensa perplexidade pela tragédia que se abateu sobre o mais antigo patrimônio histórico do Brasil. Sua dor e sua tristeza ecoam em todo Brasil. Muito de nós, ainda crianças, fomos a este museu e com olhos ávidos de curiosidade olhamos as múmias, pela primeira vez na vida, os imensos esqueletos, que naquela época ainda ficavam maiores diante de nosso pequeno tamanho. O que dizer da sensação de estar no local onde monarcas viveram, as louças, os adereços e as roupas? Tudo nos ensinava como numa época mais antiga as pessoas se vestiam e viviam. Nunca esquecemos e nem esqueceremos esta primeira visita. Mais tarde, levamos nossos filhos que, para nossa alegria, também se inebriaram com a beleza e riqueza deste museu, testemunha viva de nossa história. Hoje, perplexos percebemos que não poderemos mostrar este museu do jeitinho que nós o vimos pela primeira vez. Apesar da luta de vocês por todos esses anos, muitas preciosidades foram perdidas. Perdas irreparáveis! Não valorizar o passado é perder a memória e com isso a própria identidade. Perde o Brasil mais uma vez.

Aproveitamos para parabenizá-los pelo esforço de todos vocês em manter e proteger durante todos esses 200 anos esta relíquia que é o Museu Nacional.

Anette Blaya Luz
Presidente

Rosa Maria Carvalho Reis
Secretária Geral

Foto: O Estado de S. Paulo