Autor: sociedadedepsicanalise

Como escolher uma profissão?

Maria Stella Sampaio Leite*

Ao longo da experiência de 30 anos com orientação profissional ou orientação vocacional, como é mais conhecida essa prática, escuto  inquietações de jovens e seus familiares sobre a escolha de uma profissão. Como fazer uma escolha profissional aos 17 anos para o resto da vida é uma questão muito frequente. O problema é que não se trata de uma escolha para o resto da vida. Trata-se da primeira escolha.

Nessa idade, o jovem realiza somente sua primeira escolha profissional, aquela que deve ser interessante a ponto de motivá-lo a conduzir os estudos com dedicação até sua conclusão. Isso porque, ao término dessa formação, em posse do seu diploma de graduação,  ele terá um leque de possibilidades de trabalho diante de si e aí, novas escolhas irão se impor.

As profissões hoje em dia têm fronteiras muito tênues e tangenciam várias outras áreas. Por exemplo, todas as áreas do conhecimento rapidamente farão uso dos avanços tecnológicos.

A escolha por uma profissão é temporária, a realidade muda e nós mudamos. Apesar disso, temos um fio condutor, ninguém acorda de um dia para o outro uma pessoa diferente. Há sempre uma continuidade, mesmo que às vezes esse intercurso dê muitas voltas.

Mas como fazer essa primeira escolha? Todos temos muitos interesses e aspectos. O importante é enumerá-los, estabelecendo prioridades. Na primeira escolha, ao término do Ensino Médio, escolhe-se aquela profissão que reúne o maior número de interesses, habilidades e oportunidades. Uma parte das opções ficará de lado, no aguardo de um segundo momento, quando entrará na composição da carreira profissional da pessoa. Ao longo da vida, parte dessas profissões que ficaram na gaveta, ou aspectos delas, entram na formação da identidade profissional da pessoa. Identidade profissional é aquele exercício profissional que nos cai sob medida,  algo que faz todo sentido. Dificilmente isso ocorre no início de uma faculdade ou no começo de um percurso profissional. A gente se dá conta de ter construído uma carreira quando olha para trás, após um tempo, como em uma visada no espelho retrovisor, e constata que juntou vários aspectos que tinham sido deixados de lado na época da primeira escolha.

O futuro é muito angustiante para todos nós, sobretudo para um jovem ainda com pouca experiência de vida. Todos queremos soluções que deem conta da angústia com relação ao futuro. Um dia desses um pai perguntou-me se diante de tantas reformulações das profissões “Como prever quais profissões estarão em alta daqui 20 anos?” “Não seria o caso de buscar formações muito mais funcionais ou aplicáveis, uma faculdade que fornecesse ferramentas para o jovem equipar-se para o futuro em constante mudança?” Não é bem assim que se forma um equipamento sólido e resistente a intempéries. Uma formação universitária tem que ajudar o jovem a pensar, analisar e ser crítico e, para isso, precisa ser desafiado em diferentes campos das humanidades, das ciências além das atualidades.

Um moço cursando engenharia, insatisfeito com a graduação escolhida, me fez a seguinte pergunta: “Você tem um truque, uma chave que, aplicada, resolva meu dilema sobre o que cursar em substituição à engenharia? Eu aprendo rápido o funcionamento das coisas é somente saber o truque”, diz ele. Ora, não há uma chave, nem mesmo testes que se consigam medir atributos das pessoas relacionando-os a diferentes profissões. A reflexão e análise são indispensáveis, porém, não dão respostas certeiras sem risco, preto no branco.

O fato de haver muitas alternativas de profissão na atualidade não é impedimento para escolher. Se observarmos com cuidado, parte dessas alternativas são desdobramento de profissões mais antigas, das profissões com maior história. Outras, têm currículos muito semelhantes umas das outras. Algumas delas são apelos mercadológicos. Contudo, principalmente em se tratando de áreas ligadas aos avanços tecnológicos, foram criados cursos novos com esse foco especifico. Há profissões mais práticas cuja formação se dá por cursos tecnológicos (aqueles cujos cursos têm de 2 a 3 anos de duração), indicadas aos jovens avessos ao estudo formal. Todavia, não há profissões blindadas contra crises. Um profissional muito identificado com sua escolha terá maiores chances de se manter atualizado. Com isso, encontrará frestas nas quais poderá atuar superando as dificuldades que a realidade da sua profissão for impondo.

 

Uma pessoa que goste do que faz tem maiores chances de ser bom no que faz, não digo ser o melhor no que faz porque isso é uma ilusão. Não há como ser o melhor no que faz, mas, sim, talvez ser sempre melhor na comparação consigo mesmo. Quando a ideia é ser o melhor, devemos nos perguntar sobre os critérios dessa classificação. Uma preocupação tão grande com resultados costuma desprezar o processo, o desenvolvimento.

O que esperar de uma profissão? Satisfação, felicidade, prazer, dinheiro, fazer a diferença na sociedade, o respeito dos familiares e amigos e conhecimento. Esses e outros retornos e outros, nos movem no exercício de uma profissão. Esses atributos podem ser conquistados independentemente da profissão escolhida porque cada um deles se relaciona às características da pessoa. Vejam por exemplo o dinheiro. Não há profissão que dê dinheiro, mas profissional que sabe ganhar dinheiro. São frequentes as idealizações e os preconceitos com respeito a profissões: as mais ou menos rentáveis, as mais ou menos respeitadas pela sociedade, mais ou menos criativas, mais ou menos práticas. Mas toda profissão tem sua importância para a sociedade.

Por tudo isso, escolher uma profissão não é uma tarefa simples e pode envolver sofrimento. Quando há incerteza quanto à melhor carreira a seguir, convém buscar ajuda de um profissional especializado em orientação vocacional/profissional.

Maria Stella Sampaio Leite é psicanalista pela SBPSP, orientadora profissional e autora do livro “Orientação Profissional”, Ed.Pearson, 2015.

Oficinas de Escrita: A passagem ao ato de escrever

“Nós, psicanalistas, conhecemos muito bem a dúvida certamente angustiante de tornar possível uma narrativa psicanalítica”. ( Buschinelli, C. 2017)

 

Tomar em consideração a angústia diante do papel em branco, tocada de forma sensível por Cintia Buschinelli na Circular II do I Encontro de Escrita, foi a pedra fundamental na construção deste projeto da Diretoria Científica.

Imediatamente após a fundação, a passagem ao ato de escrever surgiu como algo incontornável.

Dedicadas ao estudo de tal tema, a Comissão tem um encontro decisivo com o livro “A Voz do Escritor”, do poeta e crítico literário A. Alvarez, uma obra considerada “ …a fonte ideal para entendermos como escrever, ler, escutar, viver contribui para a arte do escritor.”

Selecionamos, para compartilhar com vocês, nossos leitores, o trecho do capítulo 1, que legitima a realização das Oficinas de Escrita:

“O escritor descobre essa relação estranhamente revigorante e libertadora entre a realidade física e o prazer estético quando encontra sua própria voz: é o que destranca cadeados, abre portas, e lhe permite começar a dizer o que ele quer dizer. Mas para encontrar essa voz, ele precisa antes dominar o estilo; e o estilo, nesse sentido, é uma disciplina que se pode obter por meio de um trabalho árduo, como a gramática e a pontuação”.

Referência Bibliográfica

– Alvarez, A. (Alfred), 1929-

A voz do escritor/ A. Alvarez; traduc,ào Luiz Antonio Aguiar.- Rio de       Janeiro: Civilizac,ão Brasileira, 2006.

– Buschineli, C. Circular 2 do projeto I Encontro de escrita- 27/11/2017

https://psicanaliseblog.com.br/category/.i-encontro-sobre-escrita

 

Expressões da intimidade na vida e no divã

Ruth Blay Levisky *

A palavra íntimo é derivada do latim, “intimus”, cujo prefixo “in” refere-se ao interior, ao profundo, ao intrínseco. Thymos para os gregos na antiguidade tinha o significado de alma, lugar em que habitam os desejos e as emoções.

Esse tema despertou meu interesse e inquietude ao perceber a complexidade que envolve a esfera da intimidade. Tenho me surpreendido, como alguns jovens são capazes de ter uma amizade profunda e duradoura e, ao mesmo tempo, beijar alguém que nem mesmo o nome sabem, pela satisfação de um desejo momentâneo. Novos tipos de relacionamentos amorosos surgem na contemporaneidade, como o “netloving”, em analogia ao “networking”. Ele é representado por relacionamentos com vários sujeitos ao mesmo tempo, providos ou não de sexualidade, criando poliamores, polifamílias e polifidelidades sejam nos espaços reais ou nos virtuais. As legislações sobre os direitos de famílias têm sido revisadas diante das demandas oriundas dessas novas formas de configurações vinculares. A qualidade e a natureza de como são formados os vínculos, a história da vida pessoal de cada uma das partes, os modelos identificatórios transmitidos pelas famílias, os modos de mostrar e lidar com os afetos são fatores que podem  facilitar ou impedir o desenvolvimento da intimidade entre  sujeitos. Os limites entre os espaços reais e virtuais podem ser confundidos, fenômeno que também ocorre com a troca de intimidades; por vezes, ela chega a ser compartilhada até com estranhos. Além dos aspectos positivos provenientes do uso da internet, ela também  representa uma busca ilusória de fuga da realidade, do sofrimento e da solidão.

Diante dos paradigmas contemporâneos, penso ser fundamental refletir nosso papel e prática como psicanalistas. A “escuta psicanalítica” atual requer do profissional o desenvolvimento de competências como flexibilidade, criatividade, espontaneidade e diálogo, para ampliar a capacidade de observação sem perder o sentido do “setting” analítico. É um desafio para os profissionais colaborarem para que os pacientes desenvolvam novas maneiras “de ser e de estar em família e na sociedade”, além de abrir espaço para dar sentido às fantasias e aos conteúdos reprimidos. Por meio da relação construída entre analista e pacientes pode-se atingir partes do íntimo e trazer à tona conteúdos encobertos. Mas, pessoas com estruturas mentais narcísicas e persecutórias podem sentir maior dificuldade para um compartilhamento íntimo. Outros mecanismos defensivos também colaboram para mascarar e trancafiar a esfera do íntimo.

Diante dessa vasta gama de variabilidade, sugiro o conceito de Complexo Íntimo, que se refere ao conjunto das múltiplas expressões da intimidade que sofrem transformações, dependendo das características de personalidade do sujeito, das vivências internalizadas, do contexto e do momento histórico, social e cultural (Blay Levisky, 2017).

BIBLIOGRAFIA:

Blay Levisky, R. (2017) Expressões da intimidade nos vínculos: inteferências da cultura. Rev. Ide (63), pág. 41

* Ruth Blay Levisky  é psicóloga, grupoanalista e psicanalista de casais e famílias. Membro efetivo da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família. Presidente da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família. Tem Mestrado e Doutorado em Genética Humana (USP).

** Artigo originalmente publicado na revista IDE:

Levisky, Ruth Blay. Expressões da intimidade nos vínculos: interferências da cultura.  IDE: Psicanálise e Cultura, v.39, n.63, p. 41-58, 2017

Uma fábula de amor e medo

Adriana Rotelli Resende Rapeli*

” For You are everywhere…”

 

Triste essa a condição humana, em que prazer e tragédia andam juntas, diz Giles, no início do filme “A Forma da Água”, do diretor mexicano Guillermo del Toro.  Seres em mal-estar, porque convive em nós dimensões diversas, porque espécie ainda despreparada para a evolução que nos atropela. Incompletos, guardando resquícios primitivos, somos anfíbios: compostos de medo e de amor.

O medo é ancestral pré-verbal, pré-simbólico, regressivo à condição não humana de nossa herança, redutor de mentes a corpos pelo excludente foco para a sobrevivência, condenados a  inglórias e eternas guerras. O clima da Guerra Fria e da corrida espacial retrata no filme tal situação persecutória: o inimigo está em algum lugar, o território disputado.  Em ameaça constante à vida, como animais na savana fugindo de predadores, em lutas titânicas ou em meio à sofisticada civilização, o outro é o inferno.

O outro que ameaça minha existência, o outro cuja existência eu usufruo ou até me aproprio.  O outro que trato com desprezo, superioridade. Afinal, o outro que desconsidero, que escravizo, é o outro que, ainda que valentemente, temo. O estranho repelido por sua familiaridade incômoda, perturbadora, nos apontaria Freud. A singularidade que, no comportamento de grupo, é rejeitada como diferença, Bion nos lembraria.

Já o amor, ao contrário, é a superação do medo, sua transformação em sentimento, é nascedouro da condição para pensar, preconcepção de mentes, criador de humanidade.  O amor é sonho e a única vida humana de fato, porque a compreensão do outro, de seu medo, pode ser vivida como solidão da existência que, força vital, liga e cria almas. São duas em uma alma. O outro existe então, a seu modo, não à imagem e semelhança de deuses, mas na sua diferença e formas, em um universo diverso de possibilidades de encontros e de criatividade.

Se, como a personagem Elisa, me demoro na frente no estrito aquário-casulo que o medo me confina e faço contato com o olhar suplicante do outro, eu vejo, além das aparências e envoltórios, a alma. E é a minha alma que então sobreviveu ao medo de existir. Eu convido o outro a nascer, quebrar delicadamente a casca do ovo e respirar o ar que do mundo emana.  O mundo pode ser um lugar habitável. E a minha casa-mente pode ser o habitat de sonhos. Como na cena inicial, mergulhamos no ambiente onírico-cinematográfico de azuis esverdeados, intensos e inusitados. Um ar-mar fluido, diferente da realidade fática, feito da matéria dos sonhos que compõe a nossa alma, da rica fantasia que pode habitar a intimidade de uma pessoa. De qualquer uma pessoa.

A visão redentora de pequenos grandes personagens neste filme faz dele uma ode aos outsiders, aos incompreendidos, aos desajustados de um sistema que padroniza a felicidade a um retrato de família ideal. A protagonista do filme, uma tímida fair lady, evoca-nos com sua mudez a sereia que perde a voz ao viver na terra. Talvez como nós todos, que, depois de nascidos, ainda procuramos o lugar perdido de nossa infância pré-natal, aquática, thalássica. Erótica, Elisa busca o amor, o elo vital, preservado dentro dela como linguagem apesar de incompreensível, inaudível aos outros. Além do medo, o reencontro com as origens em uma nova dimensão. Assim é a simbolização, a linguagem que integra todos os níveis de nossa estrutura. Uma linguagem que, sendo também imagem, música, movimento, é como o cinema em sua plena realização.

O cinema guarda essa polivalência, talvez por isto seja a arte que ganhou rapidamente a universalidade, que rompe fronteiras e culturas. E são filmes como “A Forma da Água” que revitalizam o cinema. Valeria só pela cena em que do amor da mulher com o homem-peixe, o casal é a fantástica criatura que se forma na água que destila, dissolve barreiras e, como chuva fértil e respinga na plateia vazia do Cine Orpheu. O Oscar de melhor filme deste ano é ótimo cinema.

 

Adriana Rotelli Resende Rapeli é Membro Associado da SBPSP e SBPRJ.

Autismo e seus transtornos

Vera Regina J.R.M.Fonseca*

O termo Transtornos do Espectro Autista, bastante usado pelos especialistas na atualidade, significa que não apenas há graus variados de manifestação e gravidade do transtorno, mas também que se trata de uma designação muito ampla, que contém possivelmente diferentes condições, de causas diversas e diversas evoluções.

Poucos são os estudiosos do assunto que ainda acreditam que haja uma causa única para o autismo; o consenso é que vários fatores se combinam para que o transtorno se manifeste. Mesmo os fatores genéticos, que parecem ter um papel importante, não podem ser responsabilizados de forma idêntica por todos os quadros. Vários genes parecem estar envolvidos nos vários casos; além disso, sabemos agora que os genes não se manifestam incondicionalmente: há fatores no ambiente externo e interno que favorecem ou dificultam sua manifestação.

Assim sendo, temos uma condição que interfere no desenvolvimento da criança, particularmente na sua interação social e na comunicação, com efeitos importantes na capacidade de aceitar mudanças e novidades, de simbolizar e brincar. Este último, o brincar, é substituído por rituais ou “manias” e, por vezes, por um apego excessivo a certos objetos concretos. Como nossa espécie é eminentemente social, é possível imaginar a profundidade e abrangência dos prejuízos que a dificuldade precoce de interação acarreta no desenvolvimento.

Nas últimas décadas tem se notado um aumento importante na prevalência dos transtornos autísticos nas culturas ocidentalizadas. Muito se discute se tal aumento se deve à maior conscientização dos serviços médicos em particular e das famílias em geral e à maior sensibilidade dos questionários diagnósticos; entretanto, mesmo quando se desconta tal fato, não se pode explicar o aumento em sua totalidade. O que estará acontecendo em nosso mundo atual? Esta é uma pergunta que tem instigado inúmeros pesquisadores e profissionais, demandando atenção, estudos imparciais e dedicação constante.

O diagnóstico dos transtornos autísticos é eminentemente clínico. Não há exames para se chegar a ele, sendo necessárias a observação atenciosa e longa da criança, uma entrevista cuidadosa com os pais sobre o comportamento da mesma e seus antecedentes e, quando houver, uma análise dos vídeos domésticos e do histórico médico.

Há um outro consenso entre os profissionais que lidam com o transtorno autístico: quanto mais cedo for iniciada a reabilitação e o tratamento, maiores as chances de melhora. Como os primeiros anos são um período crítico do desenvolvimento psíquico e cerebral, é fundamental facilitar as interações para que a criança não viva no vácuo de experiências com as outras pessoas. Quanto mais tempo ela ficar isolada das transações com os outros, mais profundos serão os prejuízos em seu cérebro/mente.

E qual é o prognóstico? A evolução dependerá de vários fatores: em boa parte, da intervenção precoce, que implica tanto ajuda de profissionais como mudanças importantes na vida e na rotina da criança em casa, mas também de elementos da própria criança, como a rigidez dos comportamentos autísticos, a permeabilidade à presença e influência das outras pessoas e o grau de isolamento.

Qual tratamento é indicado? Há várias abordagens terapêuticas frente aos TAs; algumas focalizam as mudanças no comportamento da criança e outras, como a psicanálise, buscam mudanças na estrutura do funcionamento mental. A meu ver, as duas formas não são incompatíveis, desde que haja uma equipe disposta a um trabalho de colaboração mútua. Mas qualquer destas duas vertentes, de modo geral, vai demandar acompanhamento dos pais para auxiliá-los na compreensão da mente daquela criança em particular e no encontro de estratégias eficazes para estimulá-la para o contato, na contramão dos comportamentos autísticos rígidos e restritivos, marcados por rituais e preferências que impedem a relação da criança com as outras pessoas.

Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca é médica graduada pela Faculdade de Medicina da USP- Residência em Psiquiatria no HCFMUSP, analista didata e atual diretora do Instituto de Psicanálise da SBPSP, doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP- Depto de Psicologia Experimental

Melanie Klein e sua contribuição para a Psicanálise

Liana Pinto Chaves*

Há 136 anos, nascia em Viena, em 30 de março de 1882, Melanie Reizes, que viria a se tornar uma das mulheres mais influentes da história da Psicanálise e, por que não dizer, da história do pensamento. A tripeira genial, no dizer de Lacan, por conta da crueza dos termos que empregava em seus relatos clínicos; o gênio feminino, no dizer de Julia Kristeva, que dedicou a essa mulher, que marcou a história do século XX, um livro cheio de admiração.

Foi a caçula de uma prole de quatro filhos. Seu pai, médico, provinha de uma família judia ortodoxa, da qual se afastou em razão da rigidez dela. A mãe, uma mulher bonita, culta, espirituosa e interessante. Segundo a própria MK havia na casa uma necessidade ardente de conhecimento. Essa ânsia por conhecimento ocupou um papel central no seu pensamento.

A morte de pessoas queridas pontuou sua vida desde muito cedo e teve grande importância na sua teorização. Perdeu a irmã Sidonie quando ela própria tinha 4 anos; o pai quando tinha 18 anos; o irmão querido, Emanuel, quando ela tinha 20 anos e o filho, Hans, quando MK tinha 52 anos. Seu artigo fundamental ‘O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos’, de 1940, por exemplo, é uma contribuição definitiva sobre a perda e o luto, um decantado de muitos anos de reflexão.

Não cursou a universidade, como era seu desejo, por se casar muito cedo, aos 21 anos, e já com 22 ter a primeira filha. Viveu em Budapest, onde leu Freud pela primeira vez. Sentindo-se aprisionada em sua condição de mãe e mulher e num casamento insatisfatório, buscava algo que a satisfizesse intelectualmente e emocionalmente. Entrou em análise com Sandor Ferenczi, que viu nela alguém muito promissor para desbravar o território desconhecido da análise de crianças. Começou analisando os próprios filhos, algo que não era incomum naqueles tempos.

A condição feminina e seu papel de mãe, aliados a uma intuição aguda, um faro, um olhar, ouvidos, e uma particular sensibilidade à angústia e ao sofrimento das crianças, conferem à mãe um lugar central como objeto primário na constituição do psiquismo segundo o seu pensar. Logo em seguida, muito cedo, entra o pai, formando o casal parental e toda a sua concepção do Édipo arcaico. Desenvolveu a técnica da psicanálise de crianças, considerando o brincar como equivalente ao papel dos sonhos e das associações dos adultos. Ao olhar uma criança tolhida, inexpressiva ou cheia de medos e incapaz de brincar, indagava-se: por que esta criança não está brincando como poderia? O que a impede? E foi assim, enveredando para noções de fantasias muito agressivas em operação, levando ao estancamento do desejo de conhecer e à impossibilidade de se expressar.

No pensamento kleiniano, a emoção está no centro da cena e o fio que perpassa toda a teorização é o da angústia e da fantasia inconsciente. Por exemplo, a teoria das duas posições baseia-se na identificação de dois tipos fundamentais de angústia. A angústia persecutória própria da posição esquizoparanóide, e que é fundamentalmente a angústia de morte do eu, e a angústia depressiva da posição depressiva, que é o temor da morte do outro de quem o bebê depende. Este é um salto gigantesco do desenvolvimento, uma guinada, é a passagem de um tipo de lógica das relações para outro tipo de lógica, do eu para o outro.

Presta reconhecimento ao longo de toda a sua obra ao que a análise de crianças pequenas lhe ensinou. Sua observações clínicas a levaram a descobertas que não estavam contempladas pela teorização de Freud. Teve a coragem de se contrapor a ele, defendendo suas descobertas com vigor. Ela adiantou todo o calendário do desenvolvimento infantil. Postulou uma situação edipiana e a construção do superego como se dando muito antes do que previa a teoria clássica.

Considerava-se uma estrita seguidora de Freud e sua obra como uma expansão da obra dele e ressentia-se quando se via acusada de desviante. Adotou de imediato o conceito de pulsão de morte, ao contrário de tantos outros autores. A agressividade e a destrutividade, a pulsão de morte, presentes no seu trabalho sobre a inveja mais o conceito de cisão abriram caminho para a perspectiva de tratar os casos graves até então considerados intratáveis. E futuramente levaram a importantes contribuições de outros analistas para a compreensão da compulsão à repetição, das reações terapêuticas negativas, do narcisismo destrutivo, das organizações patológicas, dos refúgios psíquicos, etc.

Ao se mudar para Londres, em 1926, criou-se uma discussão ferrenha entre sua visão sobre a análise de crianças e a dos seguidores de Anna Freud. Durante os anos da segunda guerra mundial (1939-1945), tiveram lugar as grandes controvérsias (1942-1944) entre os seguidores de MK e os do grupo em torno de Anna Freud.  Os kleinianos se viram instados a responder a desafios teóricos para justificar seus achados e desse processo saíram os trabalhos fundamentais que levaram à consolidação da teoria.

Seu pensamento constitui junto com a obra de Freud os alicerces de todo o pensamento psicanalítico posterior. Seus conceitos foram absorvidos ao corpus da Psicanálise: a importância do mundo interno e da fantasia inconsciente, a teoria das posições, a destrutividade, mas também a generosidade, o amor, a reparação e a esperança, numa dialética permanente.

MK foi uma mulher controvertida, mas de grande convicção quanto ao valor de suas descobertas e de sua obra. Partindo de uma forte ambição pessoal, foi se movendo em direção à dedicação a algo muito maior do que seu próprio prestígio.

Encerro com uma breve passagem do final da biografia de MK escrita por Phyllis Grosskurth, em que ela menciona a relação especial que MK tinha com seu neto Michael:

‘Michael estava perturbado com a perspectiva da morte da avó querida. Ela lhe disse que não tinha medo de morrer. A única coisa que era imortal era aquilo que uma pessoa havia conquistado; e sua força e coragem estavam em sua crença de que suas ideias seriam levadas adiante por outros.’

E sabemos que foram. Essa era MK e aqui estamos nós prestando-lhe homenagem.

Liana Pinto Chaves é membro efetivo, analista didata e docente da SBPSP.

O íntimo, o estranho e o duplo no mundo digital

Vera Lamanno Adamo*

Be right back (Volte já), é o título do primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, um seriado em exibição, criado pelo inglês Charlie Brooker.

Este episódio começa mostrando os personagens Ash (Domhnall Gleeson) e Martha (Hayley Atwell) mudando-se para uma remota casa de campo. Nos primeiros minutos nos deparamos com cenas corriqueiras de um jovem casal criando uma intimidade. Ele às voltas com o celular, ela tentando ser vista e ouvida. A intimidade sendo construída na constatação do estranho em si mesmo e no outro. O estranho remetendo àquilo que é o mais intimamente familiar. O estranho garantindo o íntimo e vice-versa.

Este cotidiano é abruptamente interrompido pela morte de Ash em um acidente de carro. A integridade de Martha fica ameaçada. Inconformada com limitações e com a mortalidade, Martha constrói um duplo (Ash/digital/androide) que, a princípio, é benevolente, pois protege o seu eu de fragmentação e aniquilamento. Eles formam um casal unitário, são praticamente um. Ash/androide é o reflexo e o complemento de Martha.

Entregando-se à onipotência do pensamento e valendo-se do artifício do mundo digital, Martha tenta manter Ash imortal para satisfazer o desejo narcísico de preencher a expectativa nostálgica do ideal. Mas o duplo benevolente, que antes bastava para protegê-la contra a solidão e o desamparo não é totalmente eficaz. Ash/androide acaba tornando-se o representante da morte. Um estranho anunciador da limitação e da alienação.

O androide de Ash não sangra, age de forma programada no sexo e só se revolta quando solicitado por Martha. Ela não consegue lidar com o papel de administradora de um Ash/androide feito apenas para satisfazer seus desejos. Isto leva Martha a querer destruí-lo. “Você é sinistro”, ela diz.

A cena final de Be right back acontece vários anos mais tarde e mostra Martha levando sua filha (Indira Ainger), agora com sete anos de idade, até a casa de campo, onde ela está mantendo o Ash/androide trancado no sótão. Ela permite que sua filha o encontre nos fins de semana. Enquanto sua filha está no sótão com o androide, Martha espera com lágrimas no rosto, antes de se juntar a eles.

Apesar de eficiente e tão próximo da realidade, o duplo não eliminou a angústia. A cópia não substituiu o original e não foi totalmente satisfatória. Criar um duplo é apenas um dispositivo psíquico utilizado para neutralizar o eu fragmentado, em vias de aniquilamento, até que se siga adiante.

O duplo, ao mesmo tempo exterior e íntimo, está logo ali: no quarto ao lado, no sótão, na mesma estrada, no black mirror, apto a representar tudo que nega a limitação do eu, apto a encenar o roteiro fantástico do desejo.

 

Texto publicado na íntegra na IDE, n.63, 2017

 

Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

 

A mulher-gincana

Raquel Plut Ajzenberg*

Ao interrogarmos sobre o lugar das mulheres nos últimos cinquenta anos, observamos mudanças importantes em sua condição. Freud não imaginava que o contexto das mulheres no ocidente viesse a sofrer profundas modificações, abalando os fundamentos do que se conhecia como natureza feminina

A construção dos ideais se dá na cultura. As religiões e as tradições, por meio de seus códigos morais, preceitos e rituais delineiam e explicitam o que é esperado do indivíduo. Tais referências, muitas vezes, se apresentam como normas de conduta e em diferentes épocas retratam o que se espera de uma mulher. Contudo, o que nos importa é o quanto alguns destes traços de identificação, por vezes contraditórios, adquirem força no universo psíquico criando sintomas.  Cada vez que a mulher sai destas posições e do dever de cumprir a cartilha há produção de angústia, que se intensifica diante de escolhas quase dilacerantes e perdas inevitáveis. Muitas vezes, com a atuação de um superego severo que pune um ego que se exaure: uma menina deve; uma mãe tem; mulher não pode.

Trata-se de uma espécie de compartimentalização de diferentes “eus”, como se fossem uma série de canais (mãe, esposa, profissional etc). Critérios e valores ficam sem eixos de ligação e, numa espécie de gincana, a mulher vai acumulando tarefas, acelerando exigências e cobranças num ciclo sem fim, o que me fez denominá-la mulher- gincana. São mulheres ativas, produtivas, trazem o vigor da energia em movimento e mutação mas, paradoxalmente, sofrem, queixam-se e lastimam-se.  O mito da mulher, mãe, profissional impecável, sempre disponível não pode se manter.

O que está em jogo é o grau de exigência a que a mulher se submete numa cultura que valoriza o sucesso, imagem e glamour. A impossibilidade de corresponder a esses ideais, que alimentam a fantasia de ser completa, confirmada por status, poder e beleza provoca inquietação e angústia.

A mulher da Belle Époque encontrava a saída/sem saída no adoecer.  A mulher de nossa cultura ocidental, e de nosso meio sócio econômico realiza essa formação de compromisso ao ficar saudável “admiravelmente saudável”.

Apesar da amplitude de investimento da mulher gincana, ela se encontra em uma paradoxal situação: quanto mais se ocupa e realiza, mais corre o risco de se dispersar e se consumir. Esta gincana é uma característica própria do sintoma neurótico, a compulsão a repetir.  Seu destino é estar presa e agitada ao mesmo tempo.

A mulher-gincana estará em permanente conflito se permanecer subjugada tanto a idealizações e mandamentos que são exaltados pela contemporaneidade quanto ao superego que herdou de suas avós. Fixada no cumprimento desta cartilha da mulher “total”, estará lançada, frequentemente, na experiência radical do desamparo.

Uma questão que se coloca, portanto, é a possibilidade dela se encontrar com sua singularidade, legitimando-a para não ser cúmplice do ideal do qual se tornou refém.

Imagem: Lilly’s Trends

Raquel Plut Ajzenberg é Membro Efetivo e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Ser Mulher na Maturidade

*Miriam Altman

Viver a maturidade como mulher hoje significa ter vivenciado na própria pele e testemunhado mudanças internas importantíssimas, além das transformações que aconteceram nestas últimas décadas ao redor do mundo.

Tanto no nível pessoal quanto no social, a mulher sofreu e ativamente buscou e participou destas mudanças culturais e econômicas, trazendo para sua vida e da comunidade em geral uma verdadeira e gradativa revolução nos costumes. Participou de movimentos feministas, lutando por mais justiça e direitos. Introduziu-se aos poucos no mercado de trabalho, conquistando cada vez mais e melhores cargos e salários.

Claro que todas estas transformações tiveram um preço, e vamos falar um pouco a respeito disso mais adiante!

De todo modo, já deu para perceber que envelhecer significa muito mais do que simplesmente entrar na menopausa, não é? Os calores, a pele ressecada, a baixa da libido, as mudanças bruscas de humor, depressão, são apenas uma pequena parte de um todo muito mais complexo.

Além disso, a descoberta da pílula anticoncepcional revolucionou os hábitos sexuais que já vinham sendo questionados. A mulher deixou de viver sua sexualidade só para fins de procriação e passou a buscar seu prazer sexual.

Essa, a meu ver, foi outra grande revolução e conquista da mulher, que contribuiu para que as mulheres mais velhas de hoje possam se ver de uma maneira mais integrada e encontrar sua autoestima, considerando seu corpo de maneira diferente das nossas avós que, de maneira geral, tinham que manter a sexualidade ainda muito reprimida.

Sendo assim, esse período da vida se parece muito com os humores da adolescência, em que se revive um desconforto corporal próximo àquele já vivido nos anos da juventude. Por isso Guillermo Julio Monteiro (2015) o nomeia “maturescência”, para designar a meia-idade ou o meio da vida, palavra que transmite a ideia de um processo de transformação. Análoga à palavra “adolescência”, que designa um processo de transformação em direção à vida adulta, enquanto a “maturescência” em direção à maturidade.

Neste momento, a mulher se dá conta que não pode mais realizar tudo, portanto é necessário priorizar. Há certas coisas que deve deixar para trás, alguns sonhos impossíveis. Talvez seja o momento de perdoar, de relativizar e de perceber que não somos eternos.

Para muitas pessoas é difícil se dar conta da finitude e dos limites do corpo e da alma. A maioria das mulheres neste momento já tem os filhos saindo de casa, outras já são avós, algumas passaram por separações…

As perdas, e é delas principalmente que estamos falando, são acompanhadas de ganhos também, mas viver os momentos de luto pela perda da juventude, do corpo sem rugas, é para muitas mulheres algo extremamente doloroso. Muitas ficam escravas de uma ditadura dos modismos e do culto a beleza que ultrapassa a vaidade e o cuidado consigo mesmas.

Quando isso deixa a pessoa sem opções e escravizada, ou então muito triste e deprimida, é hora de buscar ajuda para poder encontrar alternativas e opções para a vida, ampliar o universo mental e as escolhas. Pois é preciso chorar, entristecer-se e elaborar os lutos para seguir adiante.

Temos assistido nas últimas décadas a um envelhecer da mulher muito diferente de outros tempos. Ela tem se reinventado. Lourdes F. Alves (2001), desenvolveu uma pesquisa com mulheres entre 65 e 85 anos pertencentes à classe média paulista e chegou a conclusões interessantes. Ela afirma:

“Essas idosas, que afirmam não se sentirem velhas, geram uma categoria etária, de certa forma, nova e subvertida (…) vivenciam esta fase buscando a inserção no meio social, através do retorno ao estudo, da dedicação ao voluntariado e de uma redefinição do valor do trabalho de dona de casa. Tudo isso pode mudar radicalmente o antigo lugar comum da velhice ligada à improdutividade e inatividade”. (p.20)

O que vemos hoje são mulheres que, tendo passado por muitas lutas e experiências, acumularam recursos importantes que agora podem ser usados, de maneira criativa, na ressignificação deste momento de vida. Cada uma tem a liberdade de escolha para fazer o que quiser, seja se engajando em novos projetos, ou se dedicando aos netos e à família. O imprescindível é desenvolver este potencial, abrir-se para o mundo e encorajar-se para se arriscar.

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.

A moda está fora de moda

Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo*

Acontece até 5 de maio em Nova York no museu do Fashion Institute of Technology  a exposição ”The Body: Fashion and Physique” , algo como “O corpo: a moda e o físico”, aludindo a suas dimensões – coberta e descoberta. O FIT é uma renomada escola de design, moda, artes, comunicação e negócios e teve como alunos Calvin Klein e Carolina Herrera, entre outros fashionistas famosos.

A indústria da moda tratou historicamente o corpo feminino como se fosse maleável, moldável e modificável, como matéria de escultura. Isso se dá até os dias de hoje, por meio da modelagem das vestimentas, as dietas, cirurgias, procedimentos de beleza e incentivos exagerados a exercícios físicos que deixam, muitas vezes, de levar em conta as possibilidades individuais.

A exposição percorre a história das “torturas” impostas às mulheres ao longo dos séculos, apoiadas em padrões de beleza que oscilaram de acordo com os ditames da moda e, consequentemente, da Cultura.

Antes do século 20 a figura feminina ideal era madura e curvilínea, muito diferente do ideal estético de hoje. Espartilhos, ombreiras, cinturas altas e baixas, convidaram mulheres ao longo dos tempos a mutilarem-se, espremerem-se, para corresponder aos padrões estéticos esperados, no anseio de sentirem-se atraentes e aceitas.

Por que valorizamos tanto a beleza? De onde surgem os critérios que demandam a necessidade de submetimento tirânico por parte dos indivíduos aos ideais estéticos de cada época?

Desde que o homem começou a cobrir suas partes íntimas, a roupa passou a funcionar como uma segunda pele, protegendo-o das condições climáticas adversas. A vestimenta também nos possibilita conviver socialmente. O vestir, entretanto, se tornou algo muito além da necessidade de cobrir-se; os trapos deixaram de bastar e a roupa adquiriu um estatuto de desejo, marca de identidade, caracterização de grupo de pertencimento ou de classe social.

A moda é o principal meio para pensarmos e apresentarmos o nosso corpo. A moda engessa, uniformiza ou liberta?

Alguns usam a moda – e fazem moda – para comunicar algo particular e único. Outros, por meio  da moda, apagam qualquer traço de singularidade;  perguntam : – “o que está na moda?”, revelando sujeitos que olham para fora de si, que buscam a impressão que causam refletida no olhar de outro. A aparência tem impacto. Quem não deseja ser atraente e irresistível? A moda serve também para fazer-se notar, age como uma extensão do Eu daquele que se veste. Um recurso para atrair o outro, para ser objeto de seu desejo.

Muitas pessoas são levadas a acreditar que estão de fora ou por fora, que não cabem em nenhum lugar, que são indesejáveis, pois seus corpos e sua aparência não seguem os padrões ideais que, na atualidade, envolvem ser magro, branco e jovem.

A intolerância à diversidade dos corpos é fomentada diariamente pelos meios de comunicação, mensageiros da cultura. Isso vale tanto para a aparência na sua estrutura (o físico) quanto na sua cobertura (a moda).

Outro dia a filha adolescente de uma amiga foi brutalmente humilhada ao pedir um vestido numa loja. O vendedor disse que não tinha o seu tamanho pois não trabalhavam com vestidos para mulheres gordas. Um momento gostoso, de comprar uma roupa, tornou-se fonte de angústia e dor. Mulheres e meninas são maltratadas constantemente em ocasiões como essas; são constrangidas pela enorme indústria do preconceito que fomenta a vergonha e o repúdio ao próprio corpo.

Em vez de a moda nos servir, adequar-se aos nossos corpos, os corpos são obrigados a adequar-se à moda. Talvez fosse o caso de responder: – “uma pena que sua marca não tenha criatividade o suficiente para vestir as mulheres como elas são!”

O sofrimento que a moda causa está ficando fora de moda. Mas ao contrário, o que nunca vai sair de moda, é cada um poder ser e se expressar como é.

Nós, Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo, autoras desse texto, somos psicanalistas da SBPSP, integrantes do Grupo Corpo e Cultura e representantes do Movimento Endangered Bodies em São Paulo.

O Grupo Corpo e Cultura promove campanhas de conscientização e prevenção em relação a quaisquer formas de autoagressão, incluindo corpos e mentes. Entre as iniciativas estão as campanhas “Cirurgia não é brinquedo” (http: //change.org/cirurgianaoebrincadeira), que retirou da Apple aplicativos infantis para realizar cirurgias plásticas foi um sucesso, com mais de cem mil assinaturas;  Love your Body – be you inside & out (www.endangeredbodies.org), contra a cultura do ódio ao corpo e The Real You is Sexy (https://www.theodysseyonline.com/the-real-you-is-sexy), que elimina o uso de Photoshop nas fotos dos modelos, também combatem o mito da perfeição dos corpos e oferecem diversidade. Todas elas alertam quanto à violência silenciosa da ditadura da imagem e seu impacto na autoestima e no prazer.

Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo são psicanalistas, membros da SBPSP, integrantes do Grupo Corpo e Cultura e representantes do Movimento Endangered Bodies em São Paulo (http://www.saopaulo.endangeredbodies.org/).