Autor: sociedadedepsicanalise

Contar um sonho ? Por quê? Para quem?

Talya S. Candi

Os sonhos ampliam nossa consciência do mundo, resgatam o potencial criativo infantil que permaneceu congelado à espera de respostas e permitem que nos apropriemos de pedaços desconhecidos ou até mortos da nossa personalidade. Sonhar enriquece nossa vida e torna o dia a dia mais pleno e interessante.

Mas, para que isso aconteça, não basta sonhar. Um sonho precisa ser lembrado, transformado em linguagem e contado para alguém que esteja disposto a escutar com atenção e interesse.

A Psicanálise nasce com a interpretação do sonho. O psicanalista, pela sua formação na ciência do inconsciente, está familiarizado com o trabalho mental que foi realizado e a força das resistências que foi vencida para lembrar e transformar os conteúdos dispersos e as imagens imprecisas e loucas que invadem nossa mente e povoam a vida noturna em algo que posso ser chamado de sonho.

Num lindo documentário sobre o psicanalista Jacques Lacan (que pode ser encontrado facilmente no YouTube), Gerard Miller conta que uma das maiores qualidades de Jacques Lacan era a sua capacidade ímpar de atenção e de escuta. Esta atenção viva ressoava intensamente (como um amplificador de som) e despertava nos pacientes um interesse às vezes inexistente na vida secreta das palavras. “A palavra analítica desenluta a linguagem”, nos diz o psicanalista André Green[1] . Ela desperta os afetos, os anseios e as histórias que jazem adormecidos na nossa fala.  A análise convoca a fala das origens, o nascimento da própria palavra que resulta de um luto primordial.

Esta escuta atenta que se debruça sobre a palavra na sua origem faz com que a lenta magia das palavras[2] passe a operar transformações: a pessoa sente-se repentinamente existindo por dentro e para dentro.

Este mundo fascinante e aterrorizante das histórias dos lutos escondidos nas palavras retorna nas imagens dos sonhos. É muito comum ouvir dizer: “ontem sonhei “. Comum também é a pessoa completar a frase com um: “mas não lembro do sonho”.  Os sonhos são feitos de imagens, na maioria das vezes imprecisas, obscuras que não obedecem à lógica comum. Por isso é difícil lembrá-los.

O que acontece para que nossa memória não guarde os sonhos? Recordar um sonho, deixar-se impregnar pelas imagens e deixar que imagens e cenas estranhas entrem na consciência, exige coragem e disposição para o assombro[3] . O sonho é o continente dos núcleos psicóticos das nossas dores profundamente humanas e revela nossa loucura privada do qual não queremos nos aproximar porque questionam nossas certezas e abalam nossa segurança. .

Em seu artigo de 1915 sobre o recalque, considerando dois tipos diferentes de representações, Freud diz:“A diferença não tem importância : ela equivale mais ou menos a saber se eu expulso um hóspede indesejado da minha sala de visitas ou se tendo-o reconhecido, não o deixo sequer transpor o limiar da minha residência “ .  As imagens do sonho são sempre hóspedes indesejáveis, por vezes aterrorizadores, que procuram entrar na sala de visita da nossa mente num momento em que nos encontramos dormindo e terrivelmente indefesos………

Grande parte da experiência emocional do sonho provem deste primeiro e corajoso passo que consiste em hospedar um estranho na nossa intimidade num momento de fragilidade.  Na maioria das vezes, não deixamos a representação sequer transpor o limiar da nossa mente e a empurramos para dentro  do porão do esquecimento. No entanto, a voz do afeto, a voz do impulso vital que criou o sonho, permanece viva, exigindo passagem e reconhecimento.  Por isso que sonhos podem permanecer em espera às vezes durante longos anos até poder ser lembrados e finalmente sonhados.

Como lembrar de imagem e histórias nas quais os personagens e os tempos se entrelaçam de um jeito irracional e assustador?  Como aceitar, por exemplo, que a voz de um tio muito querido desaparecido há anos possa reaparecer no latir de nosso cachorro de estimação?    Ou ainda como lidar na véspera do seu casamento com a imagem de um vestido branco cheio de lama?

Ao ser recordado, o sonho re-acorda a dor e a angustia da origem que as imagens são portadoras. Recordar é um elemento essencial de um processo constante de criação de significado e enriquecimento da significância no mundo interno. Neste sentido “recordar“ um sonho é um ato componente da nossa história pessoal em que se entrelaçam passado e presente, ajudando-nos a ter um sentimento subjetivo de nós mesmos mais coerente e coeso.

Cada vez que sonhamos e conseguimos lembrar e narrar o sonho, percorremos de novo o trajeto que fizemos outrora para aprender a falar, o trajeto que transformou as urgências vitais em afetos, imagens, palavras e finalmente em pensamento.

O sonho é o berço da nossa fertilidade mental, uma incubadora das formas simbólicas [4] ,  matéria prima da criatividade. Poder decifrar junto ao analista a questão que o sonho tenta resolver nos aproxima do pensamento inconsciente do sonho[5] . A escuta do analista transforma a narrativa do sonho: o que estava somente dentro pode ser visto de fora no contexto de uma relação afetiva significativa. O intrapsíquico entrelaça-se com um intersubjetivo, uma experiência emocional vivida e compartilhada que promove a capacidade de pensar.

 

[1] Green , André : O discurso vivo :   uma teoria psicanalítica do afeto  , ed Francisco Alves  , Sao Paulo , 1973 .

2 Rolland , Jean Claude 2004 : Parler ,  renoncer  In Revue Francaise de Psychanalyse , 2004/3 ,  vol 68  ( pg 947, 962 )

3 Nosek , Leo : A Disposição para o assombro ; Ed Perspectiva , Sao Paulo 2017 ,

4 Rocha Barros Elias & Rocha Barros Elisabeth: a construção da interpretação no espaço da intersubjetividade, Texto para apresentação do congresso de Montreal: mundo interno e processo de Transformação, 2018

5 Meyer, L. (2015). Produção Onírica e Auto análise. In ED. Talya Candi (2015) Diálogos Psicanalíticos Contemporâneos. São Paulo: (Kultur) Editora Escuta.

 

 

Talya S. Candi é Membro associado da Sociedade Brasileiro de Psicanálise de São Paulo. Autora do livro: “o Duplo Limite; O aparelho Psíquico de André Green”, publicado pela Editora Escuta  e organizadora do livro : “Diálogos psicanalíticos contemporâneos”, publicado também pela editora Escuta .

 

Fotomontagem de Grete Stern

 

Solidão em cena

Ontem pela manhã eu saí sozinha. Tinha coisas para fazer  e aproveitei para ir a uma exposição. Tive ímpetos de chamar amigas, amigos, até tentei, estavam ocupados. Não me sentia sozinha, estava acompanhada pelos amigos, pelos meus pensamentos, por cada artista sobre cuja obra me detinha, com quem eu parecia estabelecer uma comunicação, não virtual, anímica, se posso chamar assim. A semana passada, porém, não fora tão animada assim. Em um dos meus grupos de WhatsApp a discussão sobre política ferveu. Até tentei acalmar os ânimos – inutilmente, devo confessar, propondo que as diferenças fossem respeitadas. Nesse momento, o sentimento de solidão abateu-se sobre mim: quem eram aquelas pessoas? Que orientação de vida tão diferente da nossa juventude de militância universitária.

Gostaria de discorrer sobre o sentimento de solidão, que não está apoiado na ausência de pessoas, mas antes na qualidade de relação estabelecida e internalizada. Melanie Klein tem um texto “Sobre o sentimento de solidão” (1963), no qual tece elaborações sobre a fonte do sentimento de solidão, referindo-se não à situação objetiva de privação de companhia externa, mas, antes ao sentimento de solidão interior, que pode surgir mesmo em companhia. Para a autora, a relação inicial com a mãe implica um contato íntimo entre o inconsciente da mãe e o da criança e este contato será o alicerce para a vivência de compreender e ser compreendido. Porém, como esta vivência está baseada no estágio pré-verbal, geraria um anseio futuramente de uma compreensão sem palavras, que contribui para o sentimento de solidão e, derivado de um sentimento de perda irrecuperável. O que pretendo enfatizar é a necessidade de um bom contato inicial (que depende tanto das condições da mãe, quanto das do bebê) para garantir a introjeção de um bom objeto que será futuramente um bom objeto interno, que poderemos contar na vida adulta. Para que o outro  me acompanhe, é vital que eu esteja “de bem” com este objeto interno.

Antes, porém, necessito situar nossa subjetividade historicamente. Para Kollontai, na base da nossa psique está a forja individualista que começa na família e estende-se a todos os aparelhos ideológicos do poder capitalista, da escola à Igreja, à mídia e por todos os poros. Esse é o ar que nossa subjetividade respira. A base do capitalismo está ancorada no individualismo: elementos importantes da vida comunal ou tribal ancestral, não são substituídos por relações sociais coletivas, de aproximação espiritual entre as pessoas: isto é, nas grandes e pequenas metrópoles do capital emergem e prevalecem relações humanas que, em regra, nada se parecem com solidariedade nem camaradagem. Ao contrário disso, desde o berço até o final da vida adulta, o imperativo de relações de propriedade, de competição e mesmo de posse entre pessoas e obviamente opressão, passa a ser uma norma. Uma espécie de “lei da selva” passa a ser naturalizada. O processo de acumulação do capital necessita, retroalimenta e se funda nesse marco, e assim funciona o mercado, a mercadoria. (http://www.esquerdadiario.com.br/Alexandra-Kollontai-e-a-solidao-da-sociedade-moderna).

Uma expectativa de um sujeito centrado, autossuficiente, capaz de ser produtivo full time! Ora, sabemos desde que Freud construiu a psicanálise, que existem condições extremamente delicadas para que o infans possa chegar ao estatuto de sujeito. Nossa constituição depende e se direciona para o outro. Para Freud (1972, p.118), o mal-estar a que o sujeito se vê submetido para ingressar na civilização está relacionado à repressão de suas pulsões·. Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo avolumam-se de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que nos vemos assoberbados por questões que certamente não inquietavam os contemporâneos de Freud, na sociedade austríaca do começo do século XX.

Para restringir um pouco o problema, vou tratar de duas repostagens recentes que me chamaram muito a atenção e que trazem as duas populações mais desfavorecidas: os bebês e os idosos.

Tomemos o caso de uma mãe, cujo bebê nasceu prematuro (com apenas 12 semanas de gestação, devido a uma pré-eclampsia, pressão alta, etc.). Esta mãe , doutora em ergonomia e em franca sintonia com seu filho, criou uma luva preenchida com sementes, que serviria de consolo ao filho na sua ausência. Ela carregava a luva consigo para impregná-la com seu próprio aroma, afim de que bebê pudesse sentir sua presença pelo olfato. A luva forneceu conforto ao bebê e também ajudou na autorregulação da respiração, bem como reduziu os episódios de falta de oxigênio. Então esta mãe pensou nos outros bebês  criou o site:

Esta mãe criou condições para que o bebê , sentindo a presença dela, pudesse ter experiências positivas, de modo a desenvolver um bom objeto interno.

No extremo oposto, observamos que a população de idosos vem crescendo mundialmente e a solidão é um grande problema a ser encarado. Podemos pensar quantos sujeitos atravessam a vida de modo precário, em termos psíquicos, contando sabe-se lá com quais defesas, muitas vezes criando família e restringindo-se a ela. Outras vezes desentendendo-se com as pessoas e isolando-se progressivamente. Criar laços de amizade duradouros implica em capacidade psíquica para tolerar altos e baixos, frustrações e gratificações, encontros e separações.

Em matéria recente , temos a noticia que no Reino Unido acaba de ser criado um Ministério para Solidão. Thereza May classificou o problema como “triste realidade moderna”. Lá é estimado que quase nove milhões de pessoas sentem-se sozinhas, incluindo casos em que a pessoa pode ficar meses sem conversar com ninguém!

Dependemos do outro e da nossa capacidade de estabelecer uma boa relação por toda a nossa vida. O mundo humano é o mundo das relações que estabelecemos na vida e  carregamos dentro de nós.  Sem dúvida, a capacidade de amar é uma construção desde o nascimento. Pessoas que tiveram traumas importantes no começo da vida começam desfavorecidas; muitas vezes o caminho que encontram é o isolamento afetivo, porém é o que chamamos de solução defensiva. Crianças bem cuidadas aceitam melhor os cuidados de professores do que as que foram largadas à própria sorte. Como podemos ver tema extenso e complexo, porém fundamental!

 

Elisabeth Antonelli: psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

Por que os jovens bebem tanto?

Luciana Saddi e Maria de Lurdes Zemel

 

É tempo de carnaval!  “É tempo de encher a cara até desmaiar”.

Hoje a justificativa é essa. Amanhã pode ser o futebol, a balada ou a despedida de solteiro de um amigo.  Sempre haverá justificativas para encher a cara até desmaiar, afinal não faltam ocasiões festivas em nossas vidas. Supomos que sempre há tempo de modificar esse padrão, que sempre é possível beber menos ou parar de beber.

Quando somos jovens, temos a sensação de que nada vai nos acontecer – é a onipotência juvenil manifestando-se. Nunca vamos ficar doentes, não vamos morrer e muito menos vamos perder o controle só porque bebemos quatro latinhas de cerveja no bar, na sexta-feira.

É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acredita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou. O tempo de se cuidar é o futuro.

A juventude, como sabemos, pode ser um período de vida bastante complexo e conflituoso. Período de formação e sofrimento. Marcado por conflito entre dependência e independência e pela dificuldade em se responsabilizar por si. É quando, muitas vezes, autonomia confunde-se com transgressão e limites precisam ser constantemente desafiados.

Os jovens fazem experimentações, querem saber quem são, como são, o que gostam, o que aguentam. Podem recorrer a drogas, sexo, força física e intelectual nessas experiências, chegando a correr riscos. Nessa fase da vida, a impulsividade é bastante elevada, o que os torna vulneráveis. Mas a força juvenil reside, justamente, na curiosidade e na impulsividade. As mesmas características que expressam a grande vitalidade da juventude podem causar prejuízos. Contradições como essas são diariamente vividas pelos jovens.

É na juventude que o álcool entra em nossas vida.  Parece “facilitar” o contato com o grupo. É um elemento conhecido, pois, em geral, é usado em casa. Está ligado à diversão e ao relaxamento, embora, muitas vezes, os pais abusem da bebida. Então, devido à familiaridade, os perigos não são considerados.

A interação com o álcool pode ser prazerosa e recreativa, mas, também pode tornar-se muito destrutiva. O álcool é uma droga como outra qualquer, atua no sistema nervoso central, é uma substância química, por isso, nesse texto e em nossos estudos, atribuímos importância ao sujeito que interage com a droga. A questão é procurar compreender o sujeito, o sujeito que bebe, como bebe, quanto bebe e quando bebe. De que maneira o álcool entra e permanece em sua vida.

Quem de nós encontra no álcool uma resposta, quem o usa para preencher vazios, amenizar angústias, driblar dificuldades como vergonha, medo, insegurança corre risco de desenvolver uso abusivo ou dependência. A juventude, por muitas razões, falaremos de algumas a seguir, está mais vulnerável, pois as mudanças corporais, os processos de transformação psíquica e física causam angústias constantes. A intensificação do desejo e da curiosidade sexual, bem como o medo de se relacionar apontam para inseguranças e conflitos intensos. O jovem está em processo de desenvolvimento, busca criar recursos para lidar com essa enormidade de questões, mas esses recursos nem de longe estão consolidados. Então, ele se vale de pensamentos mágicos, fantasias, racionalismos vazios, drogas e ações de fuga de problemas. Freud, ao se referir à adolescência, usava a imagem de um túnel sendo escavado por ambos os lados ao mesmo tempo, dando a entender os altos riscos de desmoronamento.

Não bastasse todas essas dificuldades, o jovem ainda precisa percorrer o caminho de se tornar adulto e se desvencilhar do âmbito protetor da família. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e modas. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, com as instituições e com o poder consolidado, mas dizem sim e submetem-se aos seus grupos de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares.

Em sociedades diferentes das nossas, nas quais as culturas permaneceram estáveis, o adolescente é submetido a rituais de iniciação e passagem; obrigado a enfrentar desafios, ao ultrapassar obstáculos, ingressa no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos.  Em nossa cultura não há rituais previamente definidos pela tradição, mesmo assim, observamos que começar a beber e fumar parece ser uma forma de introdução do jovem ao mundo adulto. Às vezes, essa introdução, quando precoce, o expõe a agressões.

Além, da falta de rituais sociais e familiares para ingressar no mundo adulto, há a dificuldade em identificar e nomear os sofrimentos; pouco falamos sobre nossas angústias, medos e incertezas. Somos muito exigidos e o adolescente se exige mais ainda devido às idealizações próprias da fase. Ele se sente obrigado a ser magro, bonito, alto, musculoso, eficiente, então, o álcool pode se tornar seu único amigo, pode lhe salvar do mundo de exigências, inseguranças e medos. Pode silenciar a dor no peito provocada pela angústia, fazer adormecer as vozes que não param de cobrar as coisas impossíveis de fazer e ser, calar os medos que nunca cessam e, lenta ou rapidamente, anestesiar o tormento até o sono ou a morte chegar.

A Organização Mundial de Saúde diz que, de cada 100 jovens que experimentam álcool, de 12 a 15 desenvolverão o alcoolismo.

Em nossa clínica é frequente escutar o jovem aos gritos dizer: “sim, vou beber no carnaval e vou beber muitas vezes até que você fale comigo de forma que eu possa entender sem me julgar…até eu encontrar meu caminho.”

Tomara que tenha tempo para esse encontro!

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP. Em coautoria com Maria de Lurdes Zemel escreveu: “Alcoolismo –série o que fazer?” (ed. Blucher). Autora dos livros: “O amor leva a um liquidificador” (ed. Casa do Psicólogo), “Perpétuo Socorro” (ed. Jaboticaba) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Maria de Lurdes Zemel é psicanalista da SBPSP, membro da ABRAMD, membro da ABPCF, coautora dos livros: “Liberdade é poder decidir sobre drogas” (FTD) e “Alcoolismo – série o que fazer?” (ed. Blucher).

 

Internet: pais e filhos confusos entre verdades e mentiras

David Leo Levisky

O Homo Sapiens está vivendo um período complexo na História das Civilizações com mudanças tecnológicas e de valores muito rápidas entre guerras de informação e de contrainformação. Verdades e mentiras confundem-se entre ilusões e fatos produzidos pelos mundos real, subjetivo e virtual. As mídias sociais produzem notícias que adquirem caráter de verdade enquanto verdades são destruídas por grupos interessados em alterar a história, nutrientes da imaginação humana rica em fantasias.

O virtual ao ser tomado como real no imaginário humano pode substituir o factual, afetar e desvirtuar a capacidade crítico-analítica e interferir nos processos de percepção e de elaboração mental. Algumas pessoas investem o imaginário com tal intensidade, transformando-o em uma crença à qual se submetem compulsivamente. É o vício. Condição equivalente às demais formas de adição que podem levar à morte ou ao desespero como foi noticiado à respeito do game “a baleia azul”.

Em nossos consultórios, torna-se cada vez mais frequente a queixa de pais desesperados, pois não conseguem fazer seus filhos, crianças e adolescentes, abrirem mão da excitação causada pela luminosidade da telinha e seus atrativos. A evolução tecnológica, a globalização, uma sociedade liberal, democrática e fluida com o fim das utopias (Bauman, 2001) trouxeram uma nova possibilidade de dependência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, recentemente, que o uso abusivo, inadequado, da TV, videogames e computadores pode levar a um quadro patológico de compulsão. Este distúrbio mental será incluído na 11a. edição do Código Internacional de Doenças (CID) a sair ainda este ano (Saúde, 2018).

Equivalente ao workaholic e outras dependências, o uso abusivo da telinha passa a compor o quadro das “paixões tóxicas” descritas por Freud antes do livro dos sonhos (1900). A partir da dipsomania, ele chegou à paixão pelos jogos e formulou a ideia de uma base aditiva da sexualidade humana. A masturbação era o seu protótipo até chegar à teoria do narcisismo autoerótico, base das paixões tóxicas e das sexualidades aditivas. A toxicomania seria uma forma de defesa contra a depressão e a melancholia (Silva Bento, 2007).

As mídias sociais vêm adquirindo um papel ambíguo de formadoras e de deformadoras da opinião pública por suas mensagens e pela forma de uso que delas se fazem. Elas interferem na estruturação e funcionalidade do sistema nervoso central, em sua relação neuroquímica e psicológica, no aparelho de pensar e na mentalidade social individual e coletiva (Carr, 2011).

A telinha, entre os fanáticos, pode tornar-se uma espécie de devoção religiosa.  Com o mundo em suas mãos, luminosidade, movimentos e aplicativos projetam games e programas que promovem excitação, prazer, gozo e dependência tóxica, pois alteram a homeostasia psíquica, geram estados mentais primitivos que, se cristalizados como defesas irreversíveis, tornam-se traços de carácter, com alto custo para a saúde física e mental dos envolvidos e da sociedade. Estados nos quais emergem fantasias de poder, dominação, destruição, morte, hedonismo que interferem no equilíbrio do ego e das funções narcísicas. A excitação continuada tende a gerar um estado circular de mais excitação e de liberação de substâncias psicoativas até chegar à exaustão de múltiplos sistemas. Seu uso excessivo depende da personalidade, das relações familiares, das pressões do mercado entre outros elementos da cultura.

O seu uso inescrupuloso tende a mecanizar o público. Seduz, impõe, ilude, persuade, condiciona, influi no poder de decisão e no poder de compra do consumidor. Pode conduzir as fantasias e doutrinar o imaginário. Faz com que a pessoa perca a noção e a seletividade de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente, se usada de modo contínuo e descontrolado, pode trazer graves consequências à formação do sujeito, ainda mais uma criança ou adolescente em processo de desenvolvimento. Afeta a capacidade de escolha; o espaço interno torna-se controlado pelos estímulos externos e não pelas manifestações autênticas e espontâneas da pessoa. A compulsão ao uso da telinha pode ter origem em falhas ocorridas no desenvolvimento do objeto transicional, no conjunto das atividades simbólicas e na relação self/objeto primitivo, durante o processo de formação da pele psíquica. Esta, em vez de produzir continência, leva à aderência a objetos idealizados na ilusão de encontrar continência, prazer, coragem e energia frente a um mundo fragmentado (Olievenstein, 1982).

Como psicanalistas, temos vivências clínicas e construímos teorias que, juntamente com as neurociências, nos ajudam a compreender a estruturação, a dinâmica e a economia do aparelho psíquico bem como as características das relações vinculares intrafamiliares e suas relações com os contextos socioculturais. Daí nossa responsabilidade em participar e colaborar no encontro de novos equilíbrios psíquicos, individuais, familiares e sociais.

Defendo a ideia de que tudo que se torna público e repetitivo tem grande probabilidade de se transformar em valor da cultura ao ampliar a massa de consumo, principalmente, entre adolescentes. Estes são mais vulneráveis pela maior fragilidade do ego inerente ao desenvolvimento. Motivados pela busca de experimentos, desafios, desejos de transgressão, revoltas, contestações, influenciados por grupos sociais, não se preocupam com os desdobramentos físicos e mentais. Não pensam ou não querem pensar no futuro. Prazeres imediatos, fantasias onipotentes, negação da realidade, do tempo, formas de transgressão aos pais prevalecem enquanto se escondem de fantasias de rejeição a si mesmos ou de aspectos de sua identidade ou no preenchimento de vazios internos. O gozo presente e eternizado na aparente ausência de medo prevalece com a consequente negação dos limites e da morte, da percepção do irreversível e do pouco valor que se pode dar à vida. Sentimentos de dissabor, de tristeza, de insatisfação para com a própria vida são comuns em meio a vivências de uma relação familiar conturbada. É frequente a presença de um superego punitivo carregado de elementos narcísicos nele projetados. Conluios intrafamiliares inconscientes podem estar presentes no uso indiscriminado das telinhas, não raro em meio a explicações racionais de uso apenas social, para se divertir, falar com amigos ou estudar. Dentro de uma cultura binária e eletrônica do sim e do não, do “enter” e do “delete”, processo sem maiores elaborações e criatividade, o “del” pode ser uma forma de se livrar da situação incômoda para não cair na depressão reflexiva, trabalhosa e que requer energia para se recuperar e dar a volta por cima ao lidar com frustrações.

Soifer (1975) alertou-nos para os riscos do uso inadequado da TV sobre o desenvolvimento das crianças. Levisky (1999) publicou: “The Media: Interference with the Psyche”, usadas pelos pais até como babás eletrônicas ou chupetas. Hoje, a comunidade internacional adquire consciência da necessidade de se tomar providências para atenuar as consequências do uso inadequado dos eletrônicos. Mas, ainda há muito por se fazer.

Bibliografia

BAUMAN, Z., Modernidade líquida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

CARR, N., O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A Geração Superficial, Rio de Janeiro, Agir, 2011.

LEVISKY, D.L., Reflexões psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

LEVISKY,D.L., “The Media: Interference with the Psyche”, Inter. J. Medicine and Health, vol. 11,1999, Freund Publishing House, England, pp. 327-333.

LOURENÇO MARTINS, A.G., 2007, “História Internacional da droga”, publicado em 17 de Dezembro de 2007 21:55, por encod . modificado em 18 de Dezembro de 2007 11:03

OLIEVENSTEIN, C., “A infância do toxicômano” In Olievenstein, C., La vie du toxicomane, Paris, PUF, 1982.

Saúde – iG @ http://saude.ig.com.br/2018-01-03/games-vicio-disturbio-mental.html

SILBA BENTO, V.E., “Para uma semiologia psicanalítica das toxicomanias: adicções e paixões tóxicas no Freud pré-psicanalítico” Revista  Mal-estar e  Subjetividade  – Fortaleza  – Vol . VII – Nº 1 – mar /2007 – p . 89-121.

SOIFER, R.:”A Criança e a TV – uma Visão Psicoanalítica”. Porto Alegre. ArtesMédicas. 1975.

 

David Leo Levisky  é psiquiatra, didata da SBPSP e PhD em História Social pela USP. É autor dos livros: “Adolescência- reflexões psicanálíticas”; “Adolescência e violência  – I, II e III”; “Um monge no diva”; “Entre elos perdidos; A vida? … é logo ali”.

Vamos conversar

*Any Trajber Waisbich

“Ver a representação da mulher de forma tão exposta e sensual pode parecer inadequada na atualidade, se considerarmos os movimentos feministas… Entretanto é necessário considerar a produção artística a partir de seu contexto, tomando cuidado quando fazemos análises do passado a partir de critérios do presente.”

José Augusto Ribeiro,  curador da exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”. Pinacoteca do Estado de São Paulo, Set/2017-Jan/2018

 

Esta exposição poderia ser interditada a menores, ou nem ocorrer. Vivemos numa época perigosa para as liberdades.

Como psicanalista e mulher não me calo frente a este conflito, esta polêmica a respeito de assédio, estupro e violência contra a mulher nos mais diversos ambientes perpetuados por homens poderosos e nem tanto. Deixo claro que o poder exercido por um indivíduo sobre outro é prejudicial e possui consequências inimagináveis naquele que sofre maus tratos. Muitas vezes, o poder manifesta-se de formas violentas ou criminosas.

Falo sim de um lugar de privilégio. Sou branca, nasci numa metrópole, estudei em colégio público quando entrar neles era uma façanha para poucos. Estudei em uma Universidade de renome e me tornei psicanalista. Não vivi na pele encoxamentos diários e nem fui insultada por vestir o que achava bonito e o outro poderia ver como provocativo. Por não ser negra, pobre e não morar na periferia sempre andei no contrafluxo, este entendido não só literalmente. Locomovia-me desde muito cedo por meio de transportes públicos e fui encoxada, várias vezes.

Lembro-me ainda de um episódio ocorrido quando tinha uns 10 anos. Estava eu andando na rua onde nasci ao encontro de uma amiga quando um Fusca parou e pensei que queria alguma informação. O motorista abriu a porta do passageiro e vi a braguilha de sua calça aberta e um enorme pinto do lado de fora da cueca. Bom, acredito que vi, acho que era grande e o que me ficou disso foi uma enorme curiosidade e susto. Lembro-me de sair correndo. Como bem sabemos, a memória é fugidia e se atualiza constantemente.

Ao ler o artigo de Lilia Schwarcz no Jornal NEXO no final do ano passado, a respeito de sua experiência ao ser abordada por um homem no ônibus, lhe escrevi contando minha história. Respondeu-me dizendo que muitas mulheres estavam se pronunciando sobre as suas histórias secretas de violência quando adolescentes. Ao contrário de culpa, tema abordado pela autora, o que senti foi algo mais mundano e erótico. Espanto sim, interesse nascido do meu corpo que dizia algo que desconhecia com tanta intensidade. Não falei disto antes, vejo agora, por conta das emoções que aquele momento me proporcionou. Culpa não estava no cardápio.

Lembremos que, como dizia Freud, já em janeiro de 1905 em seu artigo “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, (In Sigmund Freud, Edição Standart Brasieleira das obras completas de Sigmund Freud. Vol. XII. Pg. 149-159. Rio de Janeiro. Editora Imago. : Editora Imago. Trabalho original de 1912) que o desejo é perverso, infantil e polimorfo. E vai adiante, teoriza a partir da prática que a única forma de termos acesso a ele é por intermédio de fantasias, sonhos e atos falhos além é claro, dos chistes e jogos de palavras. Fantasias não são controladas por decretos, elas simplesmente ocorrem e são poderosas, disruptivas e causam desconforto no indivíduo. Invadir o território do outro tende a ser visto como invasivo.

Agora, a Psicanálise é transgressora, ela questiona o sujeito e o coloca frente a frente com seus desejos, pulsões e tudo aquilo que ignora. A Psicanálise não explica nada, ela intermedeia, por meio de seu Método, o contato do indivíduo consigo mesmo.

Como profissional, trabalhei na periferia com homens e mulheres excluídos que me viam com desconfiança e descrédito. Várias vezes fui questionada a respeito de minha função e da transformação que poderia surgir daqueles encontros em grupos, discutindo questões que não me eram familiares por serem eventuais. Pela primeira vez, deparei-me com questões sociais importantes de difícil solução e sem respostas fáceis. Aliás, respostas simples não existem.

Kaes, psicanalista francês preocupado com o lugar do subjetivo no sujeito e das relações intersubjetivas que formam o indivíduo, auxilia-me a trabalhar o que é singular a cada um, daquilo que é dado a partir da relação, do contexto social e principalmente das Ideologias por trás destas construções. (Kaes, R.; Um singular Plural, 2011, tradução Rouanet, L.P. Edições Loyola).

Longe de defender abusos, compartilho com intelectuais francesas o desconforto de se discutir algo tão radical com esta frugalidade de slogans assistidos por milhões de pessoas na entrega do Globo de Ouro. Manifestações referendadas por feministas mundo afora. Como apontou Pedro Diniz na Folha de S. Paulo, o preto nada básico deu lugar aos troféus que artistas empunharam e mostraram com glamour; acontece que eram pessoas, ativistas negras, representantes de minorias e que serão esquecidas na próxima onda.

No livro “A Violência Familiar” (Editora Edgar Blucher, 2016), Susana e Malvina Muszkat trabalharam o lugar da violência contra o masculino nas comunidades carentes e o desmembramento desta função e seus desdobramentos. Não posso deixar de pensar no sentido de fatos como estes virem à tona neste momento e desta forma.  O que o debate feminista tem a dizer sobre a violência de gênero contra homens?

O mundo do cinema é conhecido pelos seus abusos, contaram-me de Oprah ter saído numa ou em muitas fotos com o produtor Weinstein e ao lado de garotinhas ditas indefesas. Aí estava tudo bem, pode-se alegar sempre que não sabia da coerção e da força daquele poder. Estes atos de macho predador sempre foram utilizados como forma de submissão. E com isso não menosprezo a elucidação tardia, ela veio para ficar.

Estamos aqui numa área controversa: por um lado a sociedade civil exige um comportamento adequado e civilizatório de seus membros, como nos lembram  sociólogos e antropólogos em suas pesquisas; por outro o que dizer de todas estas regras que estão em voga hoje em dia? Homens execrados e considerados inimigos.

Regras estas que, do meu ponto de vista, servem para apartar, cercear e controlar de maneira perniciosa o encontro de seres humanos. Não devemos nos eximir de conversar sobre as leis que, por exemplo, vigoram na França onde a burca, vestimenta feminina em sinal de recato, é proibida nos locais públicos e com isso inviabiliza a liberdade de ir e vir às mulheres mulçumanas.

Não nos esqueçamos de que a Suécia é um dos países onde o suicídio é um dos mais altos do mundo e neste mesmo país pode passar uma lei onde tudo que for considerado sexual tem que ser consentido e falado entre as partes. Onde vai parar o imaginário? Sedução não deveria ser confundida com agressão.

Onde ficará o erotismo? Onde se alocará a sensualidade? E o véu que encobre e desvela os sentimentos e os relacionamentos? Toda vez que um homem se colocar na posição de demandante será interpretado com assombro e desconfiança? E quando mulheres quiserem se manifestar corporalmente e presencialmente seus desejos mais recônditos, terão espaço para se expressarem? É possível conciliar as demandas por relações menos desiguais com este erotismo e sensualidade?

Finalizando, seria possível avançarmos no debate e na prática, para uma conciliação entre estes mundos? Poderia a Psicanálise aportar este tipo de insumo? Acredito que sim, esta é a função da Psicanálise fora das fronteiras seguras para ela.

 

Any Trajber Waisbich é psicanalista da SBPSP, analista de adolescentes e adultos, membro efetivo, coordenadora de seminário temático sobre Psicanálise de Grupo no Instituto de Psicanálise. Secretária da diretoria, cargo eletivo.

*Foto: VejaSP/ “Bordel”, de Di Cavalcanti, integra a mostra “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”.

 

 

Sobre “Roda Gigante”, de Woody Allen

Algumas das minhas impressões sobre o filme “Roda Gigante”, de Woody Allen, em cartaz nos cinemas: pesado, muito bom, belo, fotografia, cores e roteiro inspirados nos grandes melodramas de Douglas Sirk da década de 50 (“Written in The Wind” e, sobretudo, “Imitação da Vida”, com Lana Turner). Kate Winslet dá um show de interpretação. Certamente, com a personagem e atuação de Winslet, Allen refere-se à de Blanche Dubois de Vivien Leigh, à Martha, de “Quem tem medo de Virgínia Woolf”, interpretada por Liz Taylor e, no final, à Norma Desmond, de “Sunset Boulevard”, papel de Glória Swanson (que também era uma espécie de Medéia). O filme tem impacto e fica na cabeça.

O roteiro é bastante previsível. O desenlace já se vislumbra desde o começo, como nas tragédias gregas em que já se sabe o fim. Justin Timberlake faz um dos personagens da história e também o papel do coro da tragédia aos modos da antiguidade. A grande diferença é que as personagens que sofrem ou protagonizam grandes atos de violência vivem depois como se nada tivesse ocorrido. O diretor já propôs tramas semelhantes em outros filmes anteriores como “Crimes and Misdemeanors” e “Match Point”. Essa é uma tecla em que ele tem batido com recorrência. Não que o desastre fique incólume – as gerações seguintes arcam pelos feitos das anteriores. À exemplo do que acontece nas tragédias gregas “Oresteia” e “Tebana” com o destino dos personagens Laio, Édipo e Antígona, o filme de Allen tem o garoto piromaníaco. Uma visão trágica da condição humana na dimensão particular e, analogamente, na social.

Claudio Castelo Filho é analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.

I Encontro sobre escrita – DC

8 e 9 de junho de 2018

Nos dias 8 e 9 de junho de 2018, a Diretoria de Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promove o I Encontro sobre Escrita. Para inaugurar as comunicações que serão publicadas neste espaço até a data do evento, selecionamos um belo texto de Sonia Azambuja, publicado na revista Ide em 2010. Nele reconhecemos a parceria que a Psicanálise faz com a Literatura para expressar seu próprio pensamento.

 

Sobre cartas: uma garrafa lançada ao mar

Sonia Curvo de Azambuja

 

Em A interpretação dos sonhos (190011972), Freud, citando a Eneida de Virgílio, coloca: “Se não posso dobrar os poderes supremos, moverei o Aqueronte das regiões infernais”

Vemos aí como, na sua base, a psicanálise faz emergir aquilo que sempre foi considerado para a história da consciência uma categoria negativa.

Nesta comoção dos deuses demoníacos, com seu sonho da “Injeção de Irma”, sonho tido por ele como paradigmático, o que seria a excelência do sonhar, dos pensamentos oníricos, que nos levariam ao insondável, ao umbigo, por assim dizer, que é o seu ponto de contato com o desconhecido. Aí pulsa o que move o sonhar: o desejo inconsciente.

Nesse sonho há algo que paira, que é o escrito em negrito: a fórmula química da trimetilamina, que é uma referência à sexualidade como básica nas pulsões que nos habitam. Contudo, esta fórmula química é também uma inscrição simbólica e ela se dirige a nós: seus leitores. É como se Freud lançasse uma garrafa ao mar. Quem pegar, pegou. Quem puder lê-lo, verá que seu maior desejo inconsciente nesse sonho é que possamos aceitar a lógica do inconsciente. O destinatário desse sonho inaugural de Freud é a posteridade. O que move o sujeito para o inconsciente é a sexualidade, e o que se encontra nele é o simbólico que se dirige sempre ao outro. Como diz Ferenczi: “Eu durmo para mim e sonho para você”.

Esta necessidade profunda de formação de parceria, de encontrar um receptor, é o que nos faz sonhar e também é o que nos faz criar pensamentos e produzir tudo o que produzimos. A carta talvez seja o gênero literário que mais se aproxime desse desejo.

Em uma carta que escrevi para os jovens analistas, tomei como mote Rilke (1966) em suas Cartas a um jovem poeta, livro amado por mim na juventude e que, como em um sonho, fisgou-me na minha vocação de analista: porque o analista, como o poeta, percebe que o homem é um ser passional. Como um barquinho, ele é tocado por paixões: amor, ódio, medo, ciúme, inveja, ternura, sedução. E foi na companhia do poeta que eu pude me dirigir em uma carta aos meus colegas em 2007.

Protect me from what I want

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Somos feitos de som e fúria, já dizia Sheakespeare. O velho Freud adicionaria que, entre fezes e sangue, nascemos. A verdade é que não somos assim tão puros e limpos como postamos por aí. Embora os filtros virtuais tentem a todo custo disfarçar nossas impurezas, existem desejos inconfessáveis inclusive para nós mesmos: provocam vergonha, são menos civilizados, trazem afetos menos aceitos, mais brutos,  geram culpa, medo e inveja. Embora o desejo nos mova, nem sempre pode ser comunicado às claras.

Muitas vezes é preciso reprimir certos sentimentos para manter determinadas escolhas. Por outro lado, quanto maior essa repressão, maior a força na tentativa de realizá-los. É que nossos instintos costumam ser  persistentes e teimosos. E, nessa tentativa de domínio, o indivíduo sofre. Conclusão: essa luta constante gera uma tensão muito forte – de um lado, uma exigência de satisfação, de outro, as leis, a moral, minhas escolhas.

O desejo nasce num lugar poderoso, uma  instância psíquica inconsciente que recebe o  nome de Id. Este vive em pé de guerra com um outro lado responsável pela censura – que recebe o nome de Superego – , que é igualmente forte e é responsável por representar internamente a moral, as leis vigentes e os valores familiares.

A civilização funciona como uma tentativa de dominar nossos desejos, de freá-los. Sejam os sexuais ou os agressivos, a  sociedade de alguma forma tenta manter uma certa ordem a fim de que a humanidade se preserve de seus próprios instintos. Sabemos que a violência do homem é inerente, tornando-o facilmente presa. Convenhamos, por mais falha que seja a sociedade, o ser humano precisa dela para relativamente se organizar .

Mas existe um lugar onde meu desejo encontra uma possibilidade de existir: os sonhos. Quando sonhamos, estamos com a censura baixa, certas coisas podem aparecer. Mesmo assim algumas são censuradas por nós mesmos – juntando uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico, somando vivências e experiências singulares e individuais, que para cada um tem um significado. Ou seja, certas coisas aparecem de forma disfarçada quando dormimos.

Por isso, dicionário de sonhos  não deve ser levado muito a sério. Para cada pessoa, um símbolo que aparece num sonho tem um significado específico, que só pode ser  decifrado pelo próprio sujeito sonhador. O sonho é o território da realização do desejo. Mesmo que apareça de maneira torta, ele conta sobre um sentimento que, acordado, pode ser muito ameaçador.

É  como se, dormindo, nosso desejo acordasse no sonho e se apresentasse de uma forma mascarada.  Isto é, a fantasia é um dos veículos onde o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. Tudo pode acontecer. E o ato de sonhar, fantasiar, nos possibilita uma tolerância maior à realidade.

Qualquer veículo onde o sonho possa emergir dá voz ao desejo. Arte, literatura, música… Não é raro sabermos de pessoas que suportaram uma condição muito difícil  utilizando-se da imaginação. Anne Frank é um exemplo.  O filme “A vida é bela”, outro.

Precisamos do sonho para dar voz ao nosso desejo e, assim, resgatar a força de lutar para viver.  É como se nos alimentássemos do território do sonho,  o desejo que ali pode aparecer  fica com sua força atenuada e nos ajuda a suportar a realidade com suas chatices.

Por isso sempre me incomodei quando escutei a frase “Isso é apenas uma ilusão”. A palavra apenas desqualifica o lugar onde o sujeito é livre, puro e existe em seu estado bruto.

Em algum lugar é preciso soltar todo nosso som e toda nossa fúria, do contrário a vida vira uma canção  monotemática e empobrecida.

 *Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

Dor psíquica e dor corporal : uma abordagem psicanalítica

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

Ao longo da vida , com frequência enfrentamos situações inesperadas, geradoras de intensas angústias. Se, por um excesso, essas angústias não podem ser digeridas, elas transbordam para o corpo, que adoece.

Na vida adulta, uma doença física pode ser desencadeada por situações de perda, como a morte de um ser amado, a perda do emprego, condição financeira precária, separações ou momentos de impasse. Essas situações remetem à profunda dor mental, e a dificuldade de tolerar a dor leva o indivíduo, muitas vezes, a utilizar seu corpo para se defender dela. Contudo, essas situações só são consideradas traumáticas porque se ligaram, a posteriori, a um trauma anterior, relacionado a perdas significativas na infância.

Uma das importantes aquisições do desenvolvimento psíquico é a capacidade de simbolização. A capacidade de elaborar conflitos por meio de processos psíquicos depende do grau de complexidade que alcançou um indivíduo em sua estruturação emocional. A abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos compreende as doenças físicas e as afecções corporais como medidas defensivas para manter o equilíbrio dessa organização emocional. Quando há falhas nesse processo, porém, isso pode resultar na somatização dos sofrimentos psíquicos. Na ausência do símbolo e da palavra, é no corpo que eles se manifestarão.

Os fenômenos somáticos podem ser considerados uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que são provenientes de experiências traumáticas sofridas em estágios precoces do desenvolvimento da pessoa. Essas vivências precisarão ser nomeadas para, então, serem pensadas e elaboradas, em vez de seguirem sendo derramadas sobre o soma.

Quadros de hipertensão arterial grave, diabetes, dermatites, fibromialgia, doenças autoimunes – como lúpus e vitiligo -, doenças gastrointestinais – como gastrite, retocolite ulcerativa ou doença de Crohn -, entre outras doenças, podem se manifestar em épocas de conflito e depois desaparecer. No entanto, elas podem se instalar como doenças crônicas que geram graus diversos de incapacidade na vida pessoal e profissional do indivíduo, colocando sua vida em risco.

Nessas circunstâncias, o objetivo de um atendimento psicanalítico será, por meio do encontro entre analista e analisando, criar condições favoráveis e necessárias para ampliarmos o repertório psíquico do paciente, de modo que ele possa pensar em seus conflitos em vez de depositá-los em seu corpo. Esse é o campo da psicossomática psicanalítica; ela promove uma abordagem voltada para as patologias decorrentes de falhas do processo de simbolização e da construção de um sólido narcisismo primário.

Pela análise, a capacidade simbólica quase inexistente poderá ser construída, por meio da colocação em palavras de cada afeto não sentido e, portanto, não assimilado mentalmente. Na medida em que o analista constrói com esse indivíduo – cuja dor no corpo grita – novas ligações psíquicas, aquilo que estava inicialmente precário poderá ganhar um novo status: onde houve a falta de uma sustentação da mãe como primeiro objeto o analista apresenta-se como um novo objeto com quem o paciente poderá – talvez pela primeira vez – ser escutado naquilo que, de fato, o corpo denuncia.

Bibliografia :

Steinwurz, D.A. ( 2017). Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In V.R.Béjar ( Org.). Dor psíquica, dor corporal- Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Editora Blucher.

*Denise Aizemberg Steinwurz é membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Diretora de psicologia da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), Prêmio “Avelino Luis Rodrigues”(2012) no concurso ” Psicossomática e Interdisciplinaridade”( IV Congresso Paulista de Psicossomática), membro associado do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

Pedro Malasartes e o duelo com a morte: subjetividade contemporânea e mal-estar na civilização

*Cássia Barreto Bruno

O filme Pedro Malasartes e o Duelo com a Morte, dirigido por Paulo Morelli e estrelado por Jesuíta Barbosa (Pedro Malasartes), Isis Valverde, Julio Andrade e Leandro Hassum, é o primeiro longa-metragem brasileiro com tantos efeitos especiais,  realizados na sede da O2 após quase 30 anos de elaboração por parte de Paulo Morelli. É a realização de um sonho e uma jóia na cinematografia brasileira.

Sua característica é utilizar  os efeitos especiais de um modo totalmente diferente daquele que estamos acostumados a ver em filmes de ação. Traz uma nova linguagem para tais recursos, com os quais  representa o mágico, o belo, o misterioso, o profundo, o reflexivo. O diretor conseguiu juntar reflexão com ação. Criatividade brasileira!

Para comentar o filme escolhi um recorte que leva em conta  duas questões fundantes do ser humano: o embate com a factualidade da morte e a astúcia como forma de driblá-la.

No Ocidente, conhecemos esse recurso desde a mitologia grega e é nessa ambientação que o filme se situa.

As três irmãs Moiras, Cloto, Láquesis e Átropos, são as personagens da mitologia grega**  responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida dos mortais. Cloto é a que tece  o fio da vida, Láquesis é a que distribui entre os homens seus respectivos destinos e Átropos, a que tem o poder de romper o fio da vida com sua tesoura encantada.

Essas três personagens estão representadas no filme em belíssimas imagens, realizadas com efeitos especiais. Os fios da vida, entrelaçados poeticamente, nos enlevam e nos transportam para outro mundo, o mundo dos sonhos. Esse  momento misterioso do tecer a vida e o destino das pessoas é vivo, iluminado, intenso.

O rei do Mundo Inferior, Hades, é apresentado com humor fino: um trapalhão que parece até mesmo cansado e tedioso de seu oficio. Seu desejo é se aposentar e trazer da Terra seu afilhado Pedro Malasartes para substituí-lo. Para realizar essa tarefa, Hades recorre a Átropos, a fim de que esta interfira no fio da vida de Pedro. A situação começa a se complicar no momento em que as Moiras não aprovam essa ideia.

Ora, como Pedro  Malasartes é mortal e, como registrou Homero***, Hades é o deus mais odiado pelos mortais, claro que ele não gostou nada desse presente de grego. Daí resulta a segunda colocação importante do filme: como driblar a morte, isto é, como se defender de Hades, para além da ajuda das Moiras.

Como Pedro é Malasartes, Mal-as artes, das artes más que aprendeu na vida terrena da roça e colocadas de modo gentil  no filme, está posta a questão: Como Pedro vencerá esse duelo? Com  astúcia, claro, com as Mal-artes que é o outro lado do ser humano, o lado não politicamente correto.

Essa questão de driblar a morte  reverbera em muitas situações no filme, repetindo-se em vários níveis de significação, o que dá mais força ao tema. Vamos falar de dois: de um lado, o inexorável da morte certa está representado no patrão explorador que, como o Todo-Poderoso Hades, persegue Pedro Malasartes.         

O filme, nesse momento, se apoia  na antropologia  de nosso homem rural brasileiro, ou seja, que a esperteza ingênua, aprendida na escola da vida, é seu trunfo. É preciso ser esperto nessa vida.

A saída encontrada pelos humanos foi criar narrativas. Fica claro  que a inteligência humana nos provê do mundo da fantasia, essa mágica que remove montanhas, que mata os opressores e que nos devolve o Ser Desejante.           

Nos tempos primordiais, por meio da criação de deuses e da ideia de que a vida continua após a morte, foi possível  driblar  a finitude. Sabemos que a  construção das pirâmides para garantir a eternidade resultou em enorme desenvolvimento da matemática, astrologia, arquitetura,  calendário, agricultura, escrita.

Na Grécia, o mesmo ocorreu com a narrativa dos mitos. Houve um grande desenvolvimento das artes e da filosofia. O homem começou a interrogar sobre a natureza das coisas, do mundo onde estava  inserido.

Isto para dizer que, ao driblar o problema da finitude, o homem criou desenvolvimento e descobriu que, por meio de sua obra, se mantém infinito. É o que Malasartes fará.

A outra questão colocada pelo filme, que envolve a subjetividade do Sujeito, é a relação entre o bem e o mal. Qual a distância entre a astúcia e a maldade?

Vamos encontrar em Homero**** um momento muito especial, em que Ulisses usa de artimanha e  esperteza: diante de Polifemo, rei dos Ciclopes, que lhe pergunta seu nome, Ulisses ardilosamente responde: “Meu nome é Ninguém”. Após algumas peripécias, quando fura o olho do Ciclope para defender a si e a seus marinheiros, e após a chegada dos outros ciclopes, estes perguntam a Polifemo “Quem furou seu olho?” “Foi NINGUÉM.” E com isso Ulisses safou-se de ser morto pelos ciclopes.

No duelo com a morte,  a artimanha. Foi necessária uma boa dose de criatividade e esperteza para que a humanidade se desenvolvesse, a partir desse problema insolúvel por definição. Já que vou morrer, então crio alternativas e, nesse mesmo ato, crio desenvolvimento e imortalidade.

A estranheza do Reino da Morte é mostrada no filme  em  infinitas luzes que se movimentam e representam as almas, belíssima alegoria, num balé encantador. O assustador e desconhecido é transformado em Estética, outra artimanha da mente humana.

Será que Pedro Malasartes, ingênuo e astuto ao mesmo tempo, conseguirá enganar a morte? E como a Moiras poderão ajudá-lo? A conferir.

No filme, conteúdo e forma estão imbricados por essa novidade: os efeitos especiais aqui têm a função de exaltar a vida, a ética e os problemas universais que caracterizam o humano. A ideia de situar a trama no imaginário brasileiro caipira, na roça, cria um clima contemporâneo de valorizar a natureza e as raízes do homem brasileiro, e escapa do cientificismo asséptico.

O filme é um elogio à Natureza, à Ética, à Estética. Em última instância, ao Humano.

 

*Cássia A. Nuevo Barreto Bruno é analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, International Psycloanalitical Society. Coordenadora do livro Distúrbios Alimentares, Uma colaboração da Psicanálise, ed. Imago, 2011.

** Hesíodo, sec. VIII AC, no livro Teogonia, 217
*** Ilíada IX.158
****Odisséia, livro IX,365