Autor: sociedadedepsicanalise

João, de Deus?

* Rafael Privatto Tinelli

No dia 25 de julho deste ano, a equipe de sete advogados do famoso médium João de Deus, anunciou que não iria mais trabalhar em sua defesa, abandonando a causa.

João de Deus foi preso, preventivamente, em dezembro de 2018 e desde então, está aguardando julgamento.

A primeira denúncia contra o médium veio de forma midiática por Zahira Mous, em entrevista para um programa de televisão. Na sequência, centenas de mulheres que se sentiram encorajadas por Zahira, vieram a público para também relatar os abusos que sofreram do médium. Foram mais de 300 mulheres que apareceram para compor estas denúncias de abuso sexual e estupro. O Ministério Público de Goiás apresentou 11 denúncias contra ele. Aparentemente, dessas mais de 300 mulheres que se apresentaram, 11 tinham provas suficientemente contundentes para tentarem condenar João de Deus.

Algumas semanas após o escândalo, a jornalista e ativista Sabrina Bittencourt fez acusações por meio de um vídeo na internet, em que diz que João de Deus estava diretamente envolvido com cárcere privado de mulheres que eram forçadas a engravidar para que ele e sua quadrilha vendessem os bebês no mercado internacional. Destas acusações, João só assumiu o porte ilegal de armas, depois que as tais foram encontradas em sua casa, em um armário com fundo falso.

No livro escrito por Heather Cumming e Karen Leffler (2008) sobre a vida de João Teixeira de Faria, o João de Deus, as autoras afirmam que o médium já contribuiu para a cura de mais de oito milhões de pessoas. O currículo apresentado por elas impressiona com um longo histórico de curas para diversos tipos de câncer, paraplegias, cegueiras, dores crônicas e até AIDS.

O livro parece ter várias funções. De início, temos uma pequena biografia do médium e a experiência de dividir algumas refeições com ele durante um dia. Também parece oferecer uma propaganda da Casa, onde são feitos os tratamentos milagrosos em Abadiânia, no Estado de Goiás. Além disso, parece servir como uma espécie de guia de visitação da mesma, trazendo um mapa e algumas dicas importantes sobre os trajes adequados e as condutas esperadas.

De acordo com as autoras, o médium João participou “do começo ao fim” da produção do livro, e “contribuiu com numerosas ideias e detalhes” (p.15). Podemos imaginar quão árdua deve ter sido esta operação para João, que se diz analfabeto a ponto de ser incapaz de preencher um cheque. Sua primeira sugestão, de acordo com as autoras, foi a de incluir um capítulo que narrasse a pobreza na infância e juventude. O caminho do herói.

Aparentemente, a pobre família só dispunha de um pequeno hotelzinho dirigido pela mãe e de uma alfaiataria, que era do pai. Teve que começar a trabalhar cedo. Seus primeiros ganhos como clarividente eram usados para jogar no “salão de sinuca”. Bar? João precisava sustentar sua família e por isto, foi para Brasília oferecer seus serviços de alfaiate para os militares que tinham acabado de tomar o poder. A partir daí, João se tornou o médium dos militares que o acolheram e o promoveram a mestre alfaiate tendo sido “protegido deles por nove anos (p.27).”

Desde então, parece que a vida de João decolou. Apesar de ser incapaz de preencher cheques, João já foi dono de algumas mineradoras de ouro e pedras preciosas, além de ter mais de 600 alqueires de fazendas.

No prefácio do livro, o físico Amit Goswami escreve: João de Deus é mais do que uma pessoa, é um fenômeno científico de suma importância (…) O médium João canaliza a memória quântica de outra pessoa que viveu antes dele e já morreu. Na verdade, enquanto João canaliza, ele transforma abruptamente o seu caráter e passa a irradiar amor incondicional que promove a cura daqueles que precisam dela”

De fato, João de Deus parece compor um fenômeno intrigante. Ele parece nos apresentar com relativa clareza os espectros de Deus e do Diabo na mesma pessoa.

Freud já nos presenteou com a ideia de uma pulsão de vida – Eros – que nos impulsionaria a construção e o desenvolvimento pessoal, e a de uma pulsão de morte – Tânatos – que visaria a desconstrução e a paralisação do crescimento e desenvolvimento (Freud,1920). Neste sentido, poderíamos associar Deus e o Diabo como partes constituintes dos seres humanos. Uma parte construtiva e evolutiva e outra destrutiva e paralisante.

Seria possível que tais pulsões fossem as principais responsáveis por estes comportamentos de João? Da produção de um bem tão grandioso e de um mal igualmente assombroso?

Outra hipótese, talvez se refira mais ao Diabo do que a Deus.

Seria possível que João Teixeira de Faria fosse um psicopata?

Na literatura científica nós temos muitas referências que descrevem tais personalidades com uma grande dificuldade de perceber e conhecer os próprios sentimentos, bem como a incapacidade de sentir empatia e culpa.  Da mesma forma a ausência desses sentimentos seriam compensadas pela tentativa de imitá-los (Hare,1993). Como um ator ruim que imita sentimentos sem de fato senti-los. Talvez, João seja um ótimo ator? Ou mesmo que fosse um ator ruim, seria possível que sua má performance ou características estranhas fossem associadas e percebidas como a manifestação de seus poderes paranormais?

Afinal, o que seria tal mediunidade? O poder de ver o que ninguém mais vê? Ouvir o que ninguém mais ouve? Ter poderes de se comunicar com Deus? Talvez os descrentes pudessem dizer que há semelhanças com uma forma de psicose, não?

E como se explica as milhões de pessoas que acreditaram junto com ele nestes poderes? Mesmo estas centenas que foram abusadas e que levaram anos, por vezes, décadas para se manifestarem? Estariam elas com medo do castigo divino? Castigo que viria de Deus ou do Diabo?

Bem, e se considerássemos que ambos os lados estão sendo verdadeiros?

Ou seja, que João de Deus realmente foi a figura responsável pela cura de milhões de pessoas, e que este mesmo João também tenha sido o estuprador destas outras tantas mulheres.

Ter a si a atribuição de algo que existe dentro do outro…

Ser o bem que o outro precisa que eu seja. Possuir o bem para poder oferecê-lo a quem pedir ou a quem quiser comprar.

Penso que algo parecido com isto é chamado pela psicanálise de Transferência.

Talvez, João de Deus seja Deus para que nós possamos ver Deus. Para que possamos falar com ele e ter com quem reclamar… Será possível que para que nós possamos sentir o amor divino e incondicional, nós criamos João de Deus?

Em nossas clínicas podemos observar o poder das transferências. Doenças que somem em apenas algumas sessões de análise não são incomuns.

Bion traz no termo “preconcepção”, algo que constituiria a mente humana, e utiliza o modelo mãe-bebê para caracterizar a busca do bebê pela mente da mãe, e para que ela então possa conduzi-lo ao seio que o alimentará.

Chuster (2014) descreve: “A preconcepção pode ser definida como uma expectativa vaga de que, no futuro, exista um objeto onipotente e psiquicamente acolhedor capaz de preencher as necessidades e incompletudes humanas” (p.66)

Talvez João de Deus nos ofereça o alívio para esta busca.

Um psicopata, com ótimas habilidades teatrais…

O depositário de uma necessidade de vermos e tocarmos Deus e de assim termos encontrado o paraíso do amor incondicional. O seio que está sempre disponível…

Um homem que faria uso disto para enriquecer e abusar de adolescentes e mulheres…

Um médium com poderes sobrenaturais que canalizaria a energia de espíritos mais evoluídos para curar doenças…

Talvez, João Teixeira de Faria seja tudo isto. Talvez não seja nada disto. De qualquer forma, parece um fenômeno extraordinário e que, possivelmente, fale mais sobre nós como espécie do que de João.

Bibliografia:

Chuster (2014). A Preconcepção, Passagem Pré-humano/Humano: Uma mudança de Paradigma na Psicanálise. In Soares, G. & Trachtenberg, R. W.R. Bion: A Obra Complexa (2014) Porto Alegre. Editora Sulina.

Cumming,H. & Leffler, K. (2008) João de Deus: O Médium de Cura Brasileiro que Transformou a Vida de Milhões. São Paulo. Pensamento.

Freud, S.(1976). Além do Princípio do Prazer. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol18) (pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (trabalho original publicado em 1920)

Hare, R.D. (1993). Without Conscience: The Disturbing World of Psychopaths Among Us. The Guilford Press. New York.

*Rafael Privatto Tinelli é psicoterapeuta psicanalista, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

 

Conversando com Shakespeare e Freud

* Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo

Você conhece Shakespeare? E Freud? Em diferentes instâncias, todos conhecemos um pouco. Em poucas linhas, selecionei apenas alguns aspectos, em função da importância e grandeza desses dois autores. Um é poeta e dramaturgo inglês, o outro, neurologista e psiquiatra austríaco, criador da psicanálise, o pai da psicanálise, como é chamado. Posso assegurar que tão logo qualquer um de nós penetre no universo de suas obras, não sairá mais. Faço aqui um convite e um alerta: somos aos poucos enredados pelo prazer e curiosidade cada vez maior, que ambas as produções vão disparando em nós leitores, estudantes, espectadores.

São fascinantes tanto as peças de Shakespeare, como a teoria psicanalítica que Freud em 40 anos construiu e nos presenteou.

É fácil compreender porque Shakespeare (1564-1616) é tão atual e frequentemente encenado no mundo inteiro. Basta iniciar a leitura. Assim como muitos dos conceitos trazidos por Freud (1856-1939), entraram em nosso vocabulário e definitivamente fazem parte da nossa cultura.

Apenas três peças são originalmente escritas por Shakespeare: Sonho de Uma Noite de Verão (1595), As Alegres Comadres de Windsor (1597-8) e A Tempestade (1611). Todas as outras peças foram retiradas e transformadas a partir de obras já existentes, de diversos autores, onde o Bardo imprime profundidade e dá a elas nova finalização e beleza.

Quando os teatros ingleses foram fechados por dez anos, em função do alastramento da peste negra que dizimou quase um terço da população da Europa, Shakespeare passou a escrever os famosos sonetos. Foram 154 sonetos, em sua maioria, de amor.

Podemos encontrar nossa originalidade nas produções artísticas, assim como podemos encontrar novas formas de expressão e criação, diante do imprevisível, do inusitado. Quero me referir às transformações que sofremos a partir das experiências pelas quais passamos e da nossa própria capacidade exploratória e resiliente.

Freud identificou o processo no qual o homem transforma os estímulos sensoriais em qualidades psíquicas. Shakespeare transformou narrativas ficcionais em arte, por meio de sua imaginação criativa e de seu grande domínio da retórica.

Shakespeare subverte a condição do homem medieval, sujeito às leis e normas da Igreja e reduzido definitivamente a pertencer, ou a ser do bem ou do mal. Ele quebra o maniqueísmo religioso e em suas peças todos os personagens podem ser bons e maus. Surge a possibilidade da reparação e principalmente da interioridade, quando o indivíduo passa a ser constituído por todas as formas e intensidades do sentir, do fantasiar, podendo haver um lugar legítimo para o desejo. Harold Bloom em seu livro Shakespeare: a invenção do humano diz que “as peças nos leem de maneira definitiva”. E vai além, ao afirmar que “os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto recriarem”.

Freud ao assegurar que somos regidos por impulsos inconscientes e não somente por princípios racionais, propõe uma nova ordem para o existir. Ele diz que o “Ego não é rei em sua própria casa”, avisa que somos neuróticos inconformados com nossas limitações e principalmente com a finitude. É muito fácil nos reconhecermos nessas condições, não é? Basta olharmos para nossos medos, desamparos, angústias. O susto frente ao desconhecido.

Humberto Eco, numa visão pancalista do mundo (a visão pancalista entende que tudo no mundo é belo) afirma que “A beleza que é disseminada por Deus é a causa da harmonia e do esplendor de todas as coisas”.

E nós, como ficamos diante dos ideais inatingíveis?

Freud, buscou em Ricardo III, o exemplo da recusa narcísica diante do “feio, imperfeito” para ilustrar seu texto As exceções. Ele certamente, se utilizou da produção shakespeariana para compor sua teoria psicanalítica. Hamlet faz parte da A Interpretação dos sonhos. E em diversos textos se valeu de Otelo, Rei Lear, Macbeth, O mercador de Veneza, entre outras.

Assim como numa experiência analítica, Shakespeare nos coloca diante de nós mesmos, ficamos expostos, através de suas personagens aos mais sublimes e terríveis sentimentos. Aos poucos reconhecemos do que somos feitos. É surpreendente, angustiante, desafiador, apaixonante.

Cada vez mais encurtamos o tempo necessário para vivermos as experiências, senti-las e processá-las. Não há espaço de elaboração, os registros se sobrepõem e quando olhamos para trás, lá se foram as memórias que poderiam ter sido guardadas. Como um balão que escapa da mão, sobe, sobe e desaparece. Não há mais balão. Sentimento de vazio.

A psicanálise oferece, no encontro do analista e analisando, a criação de um campo capaz de favorecer o conhecimento de aspectos reprimidos, obscuros ou ameaçadores, lidar com nossas tragédias internas e tecer uma nova configuração psíquica, onde o indivíduo possa ser mais senhor de seu próprio destino.

Na era medieval, o poder era exercido pelo indivíduo, seguindo uma posição hierárquica e era autorizado político e socialmente, mesmo que ele não tivesse capacidade para esse lugar.

Quando o homem se vê poderoso, outorga-se direitos correspondentes ao cargo que ocupa, sem se dar conta que os cargos podem se esvair e então, o que resta dessa criatura? Despido de todos os símbolos de poder, o ser humano é essencialmente regido por pulsionalidade, amor e ódio, Eros e Tânatos.

Poder, gratidão, inveja, ciúme, ambição, lealdade, traição, amor, ódio, vingança, redenção, fracasso, morte, fazem parte da extraordinária tragédia humana, que Shakespeare nos apresentou entre 1590 e 1613. Quatro séculos se passaram e a história nos é tão familiar e atual.

Somos reféns da nossa natureza que, apesar do imenso avanço científico, tecnológico e filosófico, obedece a primitivos e imperativos desejos de poder e soberania dos desejos individuais. Não aceitamos a incompletude!

O que fazer com nossas insuficiências?

Reparem nesta linda frase, da peça A Tempestade: “Somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

E como somos! Os sonhos que sonhamos dormindo, os sonhos que sonhamos acordados, nossos devaneios, os sonhos que sonhamos a dois, os sonhos sonhados nas sessões de análise pelo analisando e seu analista. O sonho nos constitui.

O universo simbólico e a renúncia ao desejo nos configura como humanos.

Freud afirma que o sonho é a tentativa de elaboração dos conflitos pulsionais, a realização dos desejos infantis. Hoje, vamos além ao entender que o sonho já é a elaboração dos conflitos.

O que seria da humanidade se não houvesse os sonhos? Se não houvesse as artes, o teatro, a literatura, a beleza?

Precisamos de Freud! Precisamos de Shakespeare!

Há 16 anos, faço parte e coordeno o grupo de estudo Conversando com Shakespeare, que se reúne mensalmente na sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Dessa experiência nasce o livro Shakespeare: paixões e psicanálise (Editora Blucher, 2019), composto por alguns integrantes do grupo e todos os profissionais que ao longo dos anos, nos apresentaram o Bardo e sua magistral obra.

 

*Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da International Psychoanalytical Association (IPA), da Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) e da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi). É coordenadora do setor de simpósios, cursos e jornadas da Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP (DAC) e do Grupo de Estudos Conversando com Shakespeare, da SBPSP.

 

 

 

 

 

 

 

Humilhação e ressentimento*

Observatório Psicanalítico – 126/2019
Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*Bernardo Tanis

A humilhação atenta contra a dignidade, contra a representação de si, constrange, encapsula. O sentimento de humilhação resulta de uma ofensa, de um ataque ao ser, à sua condição de existência como indivíduo ou membro de um grupo. Ocasiona múltiplos efeitos na subjetividade, desde o silêncio constrangedor do humilhado, até revoltas e insurreições coletivas.

Hoje irei focar na Humilhação Social. Reconhecemos nesta modalidade de sofrimento determinações sociopolíticas, raciais, econômicas, narcísicas, ancoradas em mecanismos muitas vezes inconscientes. Trata-se de um sentimento que afeta a identidade social, cultural e individual do sujeito. O humilhado é destituído de sua condição de humanidade e jogado a uma condição inferior. Seu corpo, a cor da sua pele, suas crenças, sua religião, sua origem, sua identidade de gênero, sua situação socioeconômica, são tidos como justificativas para atos de discriminação, violência, tortura e rebaixamento.

Muitas vezes, as formas de dominação e opressão (na família, na escola, nos pequenos grupos, no trabalho, nas instituições) estão amparadas em leis e decretos que as legitimam e, ao longo da história, geram inúmeros efeitos subjetivos: psicológicos, somáticos e morais. A humilhação tem como objetivo a intimidação e gera efeitos de enclausuramento, de desprezo por si e pelo semelhante. Pode se dar social e politicamente, fazer uso das questões raciais, dar-se no limite da tortura, como no caso dos mecanismos coloniais de dominação. Espontânea ou premeditada, pode ser pontual, barulhenta ou oferecida em pequenas doses homeopáticas, que vão minando as capacidades e potencialidades do indivíduo e, assim, reduzindo sua imagem de si, sua autoestima, até que se veja como um ser de mera subsistência, pondo em cheque sua existência. A humilhação provém do Outro, que pode ser compreendido como o outro humano com quem interagimos, mas também como Outro, universo da cultura, no qual vigoram normas, leis e crenças. Outro da cultura e da linguagem nas quais nascemos e que nos antecedem.

Embora conheçamos as formas de humilhação social no passado – durante os períodos da escravidão e servidão, da inquisição, nos campos de concentração e extermínio, nos gulags, nos porões das ditaduras, nas exclusões e confinamentos dos guetos – não podemos ignorar os novos mecanismos que hoje, no mundo pós-moderno e tecnológico, oprimem o indivíduo (tema que irei desenvolver em  um futuro ensaio).

Retomemos então um dos tantos efeitos resultantes da humilhação: o ressentimento. Sentimento amargo que perdura e toma conta da existência do humilhado. O ressentimento pode ser definido como a memória enraizada de um abuso, de um insulto particular, do qual se deseja ser vingado. Seu sinônimo é rancor. Esse sentimento pode se articular como vingança, exercida muitas vezes através de comportamentos sádicos como retorno ativo às feridas concretas e narcísicas, revolta pelos danos externos traumáticos que foram experimentados passivamente.

É através da vingança que a relação é revertida: o sujeito ressentido deixa de ser um objeto anterior humilhado, para ser um sujeito da revolta, movido pelo complexo movimento de desforra, mas também de fazer justiça, de recuperar a honra e a dignidade.

Perante o ressentimento, a dor e a humilhação social em todas suas formas, haveria outros caminhos possíveis, distintos dos da vingança ou da transformação de passivo em ativo pelo exercício sádico do acerto de contas? O que segue são algumas considerações, a partir da psicanálise. Convido-os a debater estas ideias não como verdades, mas como hipóteses a serem pensadas.

Poderíamos convocar a diferença,  como já destacara Kancyper, entre a memória viciante do rancor e a memória da dor. Podemos fazê-lo sem covardia, submissão, ou negação dos crimes cometidos pelo abuso de um poder historicamente construído?

A memória do rancor é entrincheirada e nutrida da esperança pela vingança que está por vir. Já a memória da dor é contínua, seguida pelo tempo da elaboração, e exige como condição para sua superação o reconhecimento dos danos recebido e infringido, não podendo jamais ser confundida com a negação destes danos.

Certamente, a memória da dor (na nossa perspectiva psicanalítica e histórica) não se ancora na subestimação do passado, nem na amnésia do acontecimento, nem na imposição de uma absolvição superficial; mas no reconhecimento e admissão por parte do perpetrador do crime, da falta cometida. Na reparação a partir da admissão da responsabilidade. Apenas nesse contexto será concedida ao humilhado a chance de transformar seu ódio e rancor em tristeza.

O trabalho de elaboração de um luto perante a humilhação social não poderá ser apenas um trabalho do humilhado, exige e demanda, em contrapartida, o reconhecimento da responsabilidade da sociedade que o fomentou, sustentou e dele se beneficiou.

A não elaboração coletiva perpetua a memória de rancor. Esta memória não seria regida pelo princípio de prazer / desprazer, nem pelo princípio da realidade, mas pelo princípio do tormento, pois é da ordem do traumático. A compulsão à repetição é a maneira básica de interceptar o futuro, uma limitação à  capacidade de transformação.

Estando o processo de elaboração da escravidão, do colonialismo, da tortura, do racismo, da exploração do trabalho, da criança, da mulher, dos homossexuais impedido de ser feito de modo coletivo pela sociedade, a dimensão traumática da humilhação social vivida se transmite transgeracionalmente, inunda e contamina o tecido social de modo inconsciente, constrói regiões cada vez maiores de subjetividades silenciadas, recalcadas ou clivadas, incapazes de entrar na cadeia do significado simbólico. Esgarça o laço social. O futuro que se constrói nesses contextos é apenas em função da vingança de um passado. No entanto, imperfeita, sofrida, dolorosa e difícil de atingir, resta-nos a memória da dor que admite o passado como experiência traumática, violenta e de dominação, mas que opera para não esquecer, para não repetir, é um sinal de alarme permanente que protege e impede a repetição do mal e que talvez possa dar lugar a uma nova construção, à esperança.

 

* Uma versão deste texto foi apresentada na jornada “Movimentos na fronteira” da Diretoria de Atendimento à Comunidade – DAC, da SBPSP, em outubro, no Fórum sobre Humilhação e Ressentimento, e também postado no site da FEBRAPSI.

** Bernardo Tanis é psicanalista e presidente da SBPSP. 

 

Uma autobiografia kleiniana

*Alexandre Socha

O ímpeto em narrar a própria história e dar a ela algum sentido é uma das mais fortes necessidades da natureza humana. Ela assume inúmeras formas, das pinturas rupestres ao diário íntimo, passando pela criação artística e pela função dos testemunhos. Existem aqueles que escrevem suas lembranças para torná-las mais vívidas, resgatá-las da penumbra do esquecimento e da poeira do tempo. Já outros o fazem justamente para conseguir esquecer, fiando-se na permanência do papel e sua concretude externa para delas poder se libertar.

Pouco sabemos sobre o que pode ter levado Melanie Klein, às vésperas de completar 78 anos, a debruçar-se sobre suas memórias em um texto autobiográfico. Sabemos, todavia, tratar-se de um de seus últimos registros, contemporâneo, portanto, a “Sobre o sentimento de solidão”, “Algumas reflexões sobre a Oréstia” e outros trabalhos incompletos. Klein vinha redigindo breves notas sobre sua vida e as reuniu em um texto único, de trinta páginas, no final de 1959, meses antes de seu falecimento.

Em uma espécie de “retorno às origens”, recupera nessas notas o ambiente de sua própria infância e os inícios de sua trajetória psicanalítica. Cenas prosaicas do cotidiano doméstico, da vida escolar, de sua relação com o judaísmo e linhagens familiares, desfilam como paisagens na janela de um trem – ou, por que não, como associações livres feitas no divã da folha em branco. Delas emerge um passado idílico e nostálgico, exigindo do leitor um constante esforço para contextualizar tais reminiscências ao momento em que foram escritas. Pois, assim como ocorre no divã psicanalítico, as lembranças – sejam elas encobridoras ou não – trazem sempre a marca do momento atual. Como assegura o velho ditado, “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”.

Diante do valor documental das notas autobiográficas, disponibilizadas recentemente ao grande público pelo Melanie Klein Trust, acaba de ser publicado o livro “Melanie Klein: Autobiografia comentada” (Blucher)[1]. Além da tradução inédita do texto para o português, cuidadosamente realizada por Elsa Vera Kunze Post Susemihl, a edição conta com quatro comentários feitos por colegas que há décadas se dedicam ao estudo de Klein. R. D. Hinshelwood (Londres), Liana Pinto Chaves (São Paulo), Claudia Frank (Stuttgart) e Izelinda Garcia de Barros (São Paulo) amplificam as ressonâncias da Autobiografia e oferecem novos substratos à sua leitura. Foi também incluído nessa edição o relato de James Gammill sobre sua experiência de supervisão com Melanie Klein, ocorrida, coincidentemente, no mesmo período em que se deu a reunião de suas notas autobiográficas.

Entre a vida e a obra

Não foram poucos os analistas que se dedicaram a escrever suas memórias. Guardariam elas algo de suas concepções teóricas e clínicas? Seria o conteúdo autobiográfico semelhante ao biográfico, frequentemente utilizado pelos pesquisadores para iluminar pontos obscuros de uma obra e revelar os contextos de sua construção?

Toda escrita psicanalítica parece carregar, ainda que involuntariamente, alguma marca autobiográfica. Afinal, sua origem remete sempre a uma relação íntima do analista, tanto com seu paciente, instituição ou fenômeno cultural abordado, quanto consigo próprio e com sua experiência vivida na ocasião. Essa “autobiografia” implícita, a que perpassa o conjunto de uma obra, pode, por vezes, não coincidir plenamente com uma autobiografia stricto sensu do mesmo autor, correndo ambas silenciosamente em paralelo. Um olhar mais detido sobre elas, no entanto, permite encontramos complementariedades em aparentes contradições.

O ensaio memorialístico “Um estudo Autobiográfico” (1925), que Sigmund Freud escreve sob encomenda para uma editora alemã, é um caso emblemático e um contraponto interessante ao texto de Klein. Logo aquele que em tantas ocasiões expôs, aberta ou disfarçadamente, elementos de sua vida privada, sonhos, medos e ambições, apresenta-se em suas memórias “oficiais” claramente reservado e cauteloso. Dez anos depois, no pós-escrito de 1935, Freud explicita seu posicionamento: “em alguns de meus escritos (…) fui mais franco e aberto do que costumam ser as pessoas que narram sua vida para os contemporâneos e os pósteros. Não me foi demonstrada muita gratidão por isso; a experiência me leva a desaconselhar que outros o façam.”

Suas reminiscências nesse texto são equivalentes à própria história da psicanálise e de sua invenção. São, em particular, a história pormenorizada das oposições e difamações enfrentadas pela psicanálise, os custos pessoais para o seu desenvolvimento, o alto preço que pagou por ele e as defesas que se tornaram necessárias erigir. Embora apresente-se como relato objetivo de um percurso científico, a narrativa freudiana transpira de modo sutil a reiteração de uma mitologia pessoal: Freud é aquele que sobreviveu aos ataques e provações para que sua verdade prevalecesse. Rompeu a repressão da era vitoriana com uma revolução que, de fato, até hoje não foi totalmente assimilada: a da sexualidade infantil e seus efeitos na vida psíquica. Tal qual o mito do herói, seu autor sai das inúmeras dificuldades transformado, podendo nos contar então sobre as batalhas vencidas e as marcas que lhe deixaram.

Em que pese as circunstâncias bastante distintas em que foi escrita, a narrativa kleiniana não apresenta, em termos manifestos, praticamente nada sobre suas conquistas, adversidades ou mesmo sobre o desenvolvimento do seu pensamento. Antes, há passagens extensas onde pairam uma visão do infantil, o seu próprio, compondo uma descrição conciliatória de objetos que buscam reestabelecer uma relação amorosa entre si. Mesmo sendo um autorretrato bastante comedido, seria difícil não correlacionar tais perspectivas com aquilo que a autora produziu ao longo de quatro décadas como analista de crianças e adultos.

Ao lado de Helene Deutsch e Karen Horney, Melanie Klein propôs uma visão renovada do feminino dentro da teoria psicanalítica e explorou suas múltiplas latitudes na prática clínica. Suas contribuições, contudo, foram mais além do que as de suas contemporâneas e operaram um verdadeiro deslocamento no eixo gravitacional da metapsicologia freudiana, voltando-se das interdições da figura paterna para a questão da maternidade e das particularidades da relação inicial que se estabelece entre o bebê e sua mãe. Nesse caminho, Klein inaugurou uma perspectiva original dentro do campo psicanalítico, cujo desdobramento ultrapassou as fronteiras do kleinismo e se ramificou por diferentes vias, ainda hoje em desenvolvimento.

Do mesmo modo como em Freud e outros autores, há elementos biográficos sabidos, mais ou menos reconhecíveis, em vários dos principais artigos que Klein publicou em vida. Somada a uma notável perspicácia e capacidade de observação clínica, soube como poucos transformar experiências dolorosas (lutos, ambivalências, perseguições, perdas, rivalidades, etc.) em construções teóricas sofisticadas sobre o funcionamento mental. À percepção de que alguns de seus trabalhos brotaram de um sofrimento pessoal e de sua elaboração, vem somar-se agora este “novo” texto que acaba de completar 60 anos: sua Autobiografia.

*Alexandre Socha é psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

[1] O lançamento do livro será realizado no dia 19 de outubro, às 11 horas, na SBPSP, em reunião aberta e entrada franca.

Bacurau

 O Brasil em potência

* Marielle Kellermann Barbosa

Bacurau, longa metragem, dirigido pelos diretores pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, estreou no fim de agosto de 2019, nos cinemas do Brasil, depois de ter ganho o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e também eleito como o melhor filme do Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, e do 23º Festival de Cinema de Lima, no Peru.

Aos que ainda não assistiram, não se preocupem com spoilers, Bacurau é um filme que mais interessa o “como” do que o “o quê”. Bacurau resistirá a qualquer spoiler.

A palavra que dá nome ao filme é a da cidade na qual a trama se desenrola, situada no interior de Pernambuco, em algum futuro incerto – o fato da história se passar em uma distopia futurista ela se apresenta em sinais delicados ao longo do filme – o nome da cidade é a de um pássaro do sertão, um pássaro forte, que só sai à noite.

Bacurau é pobre, sofre com falta de água, sofre com a ganância comum e conhecida de um político, que distribui comida vencida e livros como se fossem lixo, os moradores não têm a beleza convencional do cinema, peles marcadas pelo sol, chinelos nos pés, insetos voando dentro das casas, suor na testa do professor. Mas Bacurau não é apenas pobre, no começo do longa metragem, uma moça retorna à cidade de origem para o velório de sua avó. Avó negra, morta aos 94 anos, é contada como uma árvore anciã da qual descendem frutos, na voz de seu filho, que conduz o velório, Dona Carmelita teve filhos, netos, netas e bisnetos, médicos, professores, putas, arquitetos, pedreiros. Da avó idosa negra, uma linhagem de filhos negros, netos mestiços que se espalharam pelo Brasil e pelo mundo.

Em Bacurau, há um professor negro, há uma médica lésbica (interpretada por Sônia Braga), as crianças aprendem música, há biblioteca e há museu. A igreja serve de depósito – curiosa escolha a dos roteiristas (que também são os diretores), essa de deixar a igreja fechada.

Lunga, um anti-herói necessário, tido como criminoso e procurado pela justiça, é uma personagem curiosa, espécie de Lampião andrógino, vestido com acessórios dignos de um Mad Max do sertão.

O enredo da trama segue em ritmo diferente do conhecido, até certo ponto adiantado do filme, o telespectador se questiona do que se trata aquela história, porém, mesmo sem entregar às explicações sobre o enredo, o filme se desenrola com uma tensão constante e bem administrada.

Bacurau começa a sofrer ataques, pessoas são mortas. Um casal branco do Sudeste age juntamente a um grupo norte-americano. Em um dos diálogos, digno de clássico Tarantinesco, o casal brasileiro diz ser igual aos americanos: “Nós somos do Sudeste, de uma região rica de colônias alemãs e italianas, somos iguais a vocês”. Iguais? Ri um personagem norte-americano retratado como um red neck (expressão usada para designar caipiras norte-americanos, comumente violentos e pouco instruídos, típicos eleitores de Trump).

O casal de brasileiros brancos chega a Bacurau, os habitantes da cidade são gentis, mas desconfiados, o repentista da cidade nega o dinheiro oferecido pela mulher carioca revelando, por sua música, a arrogância e a prepotência dos brasileiros ricos. Bacurau é sertão pernambucano, é Brasil, mas também é “Game of Thrones”, Idade Média, o repentista – bobo da corte – denuncia, em piada, a suposta superioridade do Sul em relação ao Nordeste. Lunga, o fora da lei, vive em uma “torre”, armado e protegido, os norte-americanos, absolutamente convictos de estarem caçando mais animais do que gente, encarnam a superioridade colonialista opressora em relação às pessoas do terceiro mundo.

E, em meio a esse conjunto de referências, o sertanejo aparece como Euclides da Cunha os nomeou: antes de tudo, um forte.

Os personagens habitantes de Bacurau sorriem, simpáticos, em sua suposta ingenuidade infantil de cidadezinha de mentira. Um morador da cidade, homem negro, conhecedor de ervas e plantas, percebe o ataque eminente e se defende de seus agressores. Da parede do museu da cidade, as armas, da época de lampião, servem como proteção.

A violência, que tem ares de Tarantino, é avaliada pelos próprios personagens. Pacote – personagem central, um anti-herói mais para herói, menos fantasiado que Lunga – pergunta a uma das netas de Dona Carmelita:  Você não acha que Lunga exagerou? Não.

Tampouco sobra, para o espectador, violência sem sentido.

Bacurau é denúncia, é crítica, é suposição. Bacurau é um novo nordestino, potente. É um medo de para onde possamos caminhar. Uma lembrança do que pode voltar a ser.

Em um cortejo no qual o DJ narra nomes de vítimas mortas, os nomes, misturados a outros: Marielle, Marisa Letícia.

Filme oportuno ao momento político presente.

* Marielle Kellermann Barbosa é psicanalista, Membro Filiado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Vice: o poder revela

* Julio Hirschhorn Gheller

Farei algumas considerações a respeito do filme Vice, que narra a trajetória daquele que foi o vice-presidente mais poderoso dos Estados Unidos. Podemos acompanhar como alguém destituído de carisma, um estudante medíocre, dado a bebedeiras e que foi expulso da universidade, chega a uma posição de tamanha relevância.

Observamos o papel essencial de sua esposa Lynne, que injeta ambição em Dick para que ele deixe de ser o que parecia ser um perfeito projeto de fracasso pessoal, um loser em potencial. Após receber um ultimato, em que a mulher ameaça deixá-lo, ele se apruma e vai à luta, conseguindo um estágio que o inicia na carreira política.

A partir da experiência como assessor de Donald Rumsfeld, um mestre a lhe ensinar os segredos dos bastidores da Casa Branca e do Congresso, ele vai se transformando em uma raposa, desejosa de experimentar o gosto do poder. O seu olhar brilha ao comentar o aperto de mão com o presidente Nixon.

Percebemos que ele começa a ser tomado por uma espécie de narcisismo grandioso. A pista é dada pelo seu sogro, quando diz que Dick se acha o “fodão”. Sim, provavelmente, ele anseia por dar a volta por cima e triunfar sobre os fracassos do passado. Este será o combustível a impulsioná-lo daí para a frente.

Vai subindo de posto e chega a ser nomeado chefe de gabinete do presidente Ford, que sucedeu a Nixon depois do escândalo de Watergate. Cada vez mais ele se aprofunda no conhecimento da máquina governamental em seus meandros internos.

O papel decisivo de Lynne como propulsora da campanha de Dick para o Congresso – logo após o primeiro de uma série de infartos – confirma sua importância como a força motriz que liga o botão narcísico de Dick, incentivando-o a crescer. O discurso dela, ao assumir a campanha do marido enfermo, é raso: baseia-se em uma reducionista noção do “certo contra errado”. No entanto, a energia e convicção da comunicação cativam um público conservador e de visão curta, conseguindo eleger Dick.

Ao ocupar o cargo de secretário da Defesa de Bush pai, sexto posto na hierarquia do poder, Dick chega a sonhar com a presidência. Logo cai em si e desiste, pois o fato de ter uma filha lésbica seria explorado contra ele por qualquer adversário.

Depois dos anos Clinton, período em que enriquece como CEO de uma grande petrolífera, é chamado para ser vice de Bush filho, por quem nutre evidente desprezo. Aproveita a fragilidade do futuro presidente e impõe a condição de dividir funções com ele. A reivindicação é atendida e ele vai acabar comandando áreas vitais como segurança, orçamento e política externa. Aliás, desde a tumultuada transição do governo Clinton para o de Bush – com a séria suspeita de fraude na apuração de votos na Flórida – ele já vai manobrando para colocar seus homens de confiança em postos-chave. Inclusive, seu antigo mestre, Rumsfeld, será o novo secretário da Defesa.

Logo, o veremos procedendo como o mandatário do país no fatídico 11/09/2001, dia do ataque às Torres Gêmeas, e daí para a frente será o artífice da campanha antiterrorista e, especialmente, da invasão do Iraque, sob o pretexto de que o líder Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, acusação esta que nunca foi comprovada. Os fabricantes de armas e as indústrias de petróleo agradeceram por seu ímpeto bélico.

O ataque ao Iraque produz grandes perdas, que não resultam em nenhum sinal de arrependimento de sua parte. Assim como no emblemático episódio da caçada, em que ele acerta um tiro em um integrante de seu grupo. Quem se desculpa – por mais incrível que possa parecer – é o indivíduo que levou o tiro, lamentando ter estragado o fim de semana de Cheney.

As críticas à invasão do Iraque aumentam, pedindo sua renúncia. Ele, então, manipula o presidente para que demita Rumsfeld, seu antigo mentor. Rummy lhe diz: eu não sabia que você era “such a cold son of a bitch”.

Quando a campanha de eleição da sua filha mais velha para a Câmara dos Representantes ameaça fracassar, ele a autoriza a condenar expressamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, num esforço para conquistar o eleitorado conservador. Aparece aí o trator que não tem escrúpulos.  Assim como havia feito com Rumsfeld, joga a própria filha caçula aos leões.

Não se arrepende de nada. Diz em entrevista: “Não faço questão de parecer bonzinho. Fiz o que precisava ser feito para proteger o país”.

Podemos deduzir que o exercício do poder revela sua faceta autoritária e truculenta. Ele alcança a satisfação narcísica de derrotar quem quer que venha a se interpor no seu caminho. Trata-se da irresistível experiência de fruição de um gozo embriagador. Refiro-me ao prazer obtido à revelia das interdições, embutindo o escárnio e o desafio da lei. “A lei, ora a lei; a lei é para ser interpretada do jeito que me convém”, deve pensar ele.

Estamos diante de alguém que exibe arrogância, onipotência (posso tudo!), onisciência (sei tudo!) e negação da realidade. São traços indicativos do que pode ser entendido como a parte psicótica da personalidade, existente em todos os indivíduos (até os psiquicamente mais saudáveis), emergindo em certas circunstâncias. Cheney não tem a capacidade de reconhecer erros, admitir os danos por ele causados e sentir culpa. Sendo assim, é incapaz de sequer esboçar uma tentativa de reparação dos males que provocou. A condição de reconhecer culpas e reparar danos indica o amadurecimento de quem não permaneceu fixado na perspectiva maniqueísta do tudo ou nada, do completo bom versus o completo mau.

A trama me leva a pensar na destrutividade tal como discutida por Freud em Mal-estar na Cultura. Ao elaborar o conceito de pulsão de morte, expressa o seu ceticismo em relação ao ser humano. Para que a civilização prevaleça é necessário modular e controlar os instintos sexuais e agressivos, aceitando fazer as necessárias renúncias pulsionais. Freud relembra que o homem é o lobo do próprio homem. O ser humano não é gentil por natureza, pois é evidente sua inclinação para a agressão. Se puder explorar a força de trabalho do outro sem recompensá-lo, ele o fará. Se puder aproveitar-se sexualmente do outro sem seu consentimento, ele o fará. Não se importará em humilhá-lo e tripudiar sobre ele. No seminal artigo de 1930, ele enumera diversos exemplos históricos de barbárie, inclusive aquele que era, na época, o mais recente: a primeira Grande Guerra Mundial de 1914-1918. Ele ainda viveria o terror da segunda Grande Guerra, quando, idoso e doente, teve que fugir da perseguição nazista, indo para Londres, onde veio a falecer.

Sabemos que em 1930 ele já havia perdido uma filha e um neto. Desde 1923 lutava contra um câncer no palato e mandíbula. Ao morrer, em 1939, já havia passado por cerca de 30 cirurgias e falava com muita dificuldade. Ainda assim, continuava produtivo e escrevendo. Era um exemplo de que as forças de vida estão relacionadas à capacidade de pensar, discernir e discriminar os elementos da realidade. E, mais do que tudo, estão na base do empenho em buscar as melhores maneiras de lidar com a realidade, por mais sombria que ela seja.

 

 

*Julio Hirschhorn Gheller, é médico pela Faculdade de Medicina da USP; Residência em Psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da SBPSP.

 

Psychoanalysis.Today

* Marina Kon Bilenky

A resistência ao fluxo migratório na Hungria, a explosão de uma bomba numa boate gay em Orlando, a separação de famílias na fronteira dos Estados Unidos, a divisão na Esplanada dos Ministérios nas manifestações pró e contra o impeachment da presidenta Dilma. É o New York Times? É a Folha de S. Paulo? Não! É a Psychoanalysis.Today, revista eletrônica on-line da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), em parceria com a Federação Europeia de Psicanálise (FEP), a Federação Psicanalítica de América Latina (FEPAL), a Associação Psicanalítica Americana (APsaA) e a Confederação Norte-americana de Psicanálise (NAPsaC).

O que Freud teria pensado se lesse os artigos escritos por psicanalistas do mundo todo e que tratam de questões de nossa contemporaneidade? O pai da psicanálise trabalhou incansavelmente para divulgar suas ideias. Passou dias incontáveis viajando de navio pelos oceanos, esperou semanas para, finalmente, ler as tão ansiadas respostas das cartas que trocava com seus interlocutores de outros países. Hoje, no tempo de um clique, podemos nos comunicar com pessoas de qualquer parte do planeta. As reuniões do Psychoanalysis.Today ocorrem via aplicativo on-line, que conecta os editores que residem nas várias latitudes: Índia, Brasil, Argentina, Alemanha, França e Estados Unidos.

Freud lutou muito para ampliar seu círculo de colaboradores. Comemorou intensamente a entrada de Jung, que representava o avanço das ideias psicanalíticas em direção à Europa central. Essa conquista era tão importante para o movimento psicanalítico da época, que o psicólogo suíço foi designado o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional em 1910, data de sua fundação.

Hoje, pouco mais de um século depois, a psicanálise se espalhou pelos cinco continentes e as ideias freudianas foram de tal forma incorporadas ao nosso mundo, que expressões como “Freud explica” e outros termos psicanalíticos fazem parte do vocabulário corrente da população em geral.  Nosso mundo está interconectado e a tecnologia se desenvolve rapidamente, possibilitando maneiras cada vez mais eficientes de vencer os desafios da distância e do tempo de deslocamento. Isso gera consequências: a aceleração, a necessidade de maior agilidade nos processos de decisão, o excesso de informações e o menor tempo para seu processamento.

É neste contexto que surge a ideia da criação de uma revista eletrônica internacional: uma publicação com a finalidade de desenvolver um senso de comunidade psicanalítica internacional e estimular a troca científica e a discussão entre as diferentes regiões ligadas à IPA. Em agosto de 2013, Stefano Bolognini apresentou essa ideia durante o Congresso de Praga. Os representantes das diferentes confederações, em conjunto com o board da IPA, veem aí a possibilidade de finalmente encontrar um espaço para uma representatividade mais democrática, dentro do movimento psicanalítico internacional, e decidem apoiar o projeto. Psychoanalysis.Today seria equanimemente gerido e financiado pelas regiões (Fepal, APsaA/NAPsaC e EPF) e pela IPA.  Os artigos seriam mais curtos, possibilitando sua leitura em intervalos menores de tempo e a publicação on-line facilitaria o acesso aos conteúdos psicanalíticos. A revista eletrônica seria destinada a psicanalistas mais experientes, mas também ao público geral e jovem, interessado em conhecer as ideias psicanalíticas. Seria um veículo para a difusão da psicanálise.

Em meados de 2015, Psychoanalysis.Today publica sua primeira edição (“A primeira vez”). Sua comissão editorial é composta por oito editores, dois de cada região. A revista eletrônica possui traduções em cinco versões: inglês, francês, espanhol, alemão e português. Com o e-journal, o Brasil conquistou um lugar oficial na IPA e está plenamente representado pela versão em português e conta com um editor brasileiro, responsável por divulgar o pensamento psicanalítico de seu país.

Muitos temas já foram desenvolvidos nas diferentes edições, sempre escolhidos para contemplar assuntos contemporâneos, que estão sendo discutidos no mundo e no universo da psicanálise e à época de sua publicação. Cada artigo desenvolve uma perspectiva, que varia de acordo com o olhar específico de seu autor e que reflete sua herança teórica e cultural e as vivências a que está sujeito, a partir de sua inserção na comunidade que o rodeia.

Você quer pensar a respeito do que foi discutido no último congresso em Londres? Quer conhecer o que pensa um psicanalista japonês sobre a sexualidade? Ou se interessa por acompanhar o raciocínio teórico sobre a diversidade de gênero desenvolvido por um psicanalista francês? Em nossa última edição, “Sexualidades e Diversidade”, você encontra essas e outras abordagens sobre esse tema, que foi debatido vigorosamente no Congresso, realizado em Julho de 2019, que contou com 2.500 participantes provenientes dos cinco continentes e incontáveis painéis e mesas de discussão, revelando um pensamento psicanalítico vivo, rico e estimulante.

Para finalizar, convido a todos para visitar a página, comentar e participar. É só um clique: http://www.psychoanalysis.today/pt-PT/Home.aspx

 

*Marina Kon Bilenky, membro associado da SBPSP, é editora brasileira de Psychoanalysis.Today desde 2017.  Foi presidente da Associação dos Membros Filiados (2003- 2004), membro da comissão editorial da Revista Brasileira de Psicanálise (2005-2014), é psicanalista e supervisora do Ambulatório de Transtornos Somáticos do IPq – FMUSP desde 2011 e autora do livro Vergonha, publicado pela Blucher em 2016.

A Amazônia incendiada e os lacaios da morte

Ricardo Trapé Trinca

Estranho saber que sobrevoa sobre nós um enorme rio de vapor de água, vindo da região amazônica. Mais estranho ainda foi avistá-lo descendo de seu sobrevoo, imensamente pesado e escuro, com a aparência de que despencaria, em uma improvável segunda-feira, à tarde. Vindo de tão longe, parecia nos trazer, incrédulos e despreparados destinatários, os registros de um desastre, como uma carta escura, sem letra alguma, mas que contava desses restos – de árvores, plantas, animais, pássaros, insetos e microorganismos, conhecidos e desconhecidos – carbonizados por gigantescos fornos a céu aberto. Essas partículas sobrevoaram nossa cidade à luz do dia e criaram um obscurecimento radical da luz, como a forma mais apropriada para a revelação desse desastre. Precisávamos do obscurecimento da luminosidade para poder vê-lo. Ainda com espanto percebemos que, em seguida, precipitou-se como uma chuva marrom em alguns pontos da cidade; era uma chuva de mortos.

Nesse dia eu não realizava uma de minhas atividades preferidas: vagar pelas ruas, ver as coisas e, eventualmente, pensar. Não realizava por pura impossibilidade, frequente, a bem da verdade. Essa atividade, bem como realizar ofícios a longo prazo, não costuma ser possível em épocas como a nossa, em que não se pode perder tempo, e é necessário ser pragmático.

Foi como um susto observar o dia obscuro surgir repentinamente, enquanto trabalhava. Parecia uma pintura precisa de nossa época. Posteriormente, um pensamento surgiu: “por quanto tempo conseguiremos pensar em meio aos vestígios dos mortos”?

Nesse mesmo dia, pensei se acaso não exploraríamos a nós mesmos do mesmo modo como exploramos o mundo; e que a atividade predatória e exploratória da vida parece, às vezes, passar de qualquer limite, inclusive da legalidade. Não costumamos reparar, no entanto, como a meta disso é a própria destruição. Digo isso porque se exploramos predatoriamente o mundo e a nós mesmos, agimos como se fôssemos constituídos por objetos nascidos e existentes para esse propósito, o que nos faz trilhar caminhos opostos a qualquer sustentabilidade.

É sempre sofrido observar como podemos nos tratar como um objeto a ser manipulado, de acordo com certa pragmática. Mas não seria essa a lógica da destruição? Enquanto olhava as nuvens negras e o dia absolutamente sem luz, pensava como o pragmatismo destrói a diferença, já que a alteridade e o desconhecido não servem mesmo para ser usados, pois não são manipuláveis. E isso porque não são úteis para se realizar qualquer troca. Eles não podem ser explorados ou vendidos. Penso em uma árvore: sua poética e seu ecossistema não são o mesmo que o carvão. Mas o carvão, por sua vez, é pragmático, bem como a madeira. O carvão e a madeira são objetos, ou melhor, são entificações de um ser e têm a forma de uma qualidade útil. Ao atribuir um predicado a algo desconhecido, aparentemente, eu enriqueço esse ser, mas na verdade tendo a empobrecê-lo, quando o identifico com tal nomeação. Isso porque o ser, na verdade, parece se resguardar em um ainda a mais, nesse espaço de indeterminação, mais do que no nomeado. Poetizar, pensar e psicanalisar é ter esse a mais ao alcance, descobrindo seus aspectos desconhecidos, sem precisar esgotá-lo.

Assim como uma árvore, a vida das pessoas é assim, um mistério. Transformado em objetos a serem manipulados, o mistério desaparece. E é assustador pensar isso com o dia sem luz. Mas como fazer para recuperar a relação com a alteridade e o desconhecido? Lembro-me de uma entrevista com o filósofo Sul-Coreano Byung-Chul Han (2019): “por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, [eu] fazia tudo com as mãos”. Acho muito bonita essa passagem. Ela faz pensar que em nossa época algumas atividades humanas vão se tornando, aos poucos, profundamente desconhecidas para nós, como a participação no processo de produzir um objeto, a contemplação da natureza e o ócio. Essas palavras existem, mas nosso pensar nelas não se adentra. São palavras que vão pouco a pouco se tornando magras e frias (Fenollosa) e talvez tendam a desaparecer.

Uma interessante representação da ideia do progresso está na imagem de Paul Bunyan. Criado pelo jornalista norte-americano James McGillivray e, posteriormente, tornado animação pela Disney (1958), é um personagem baseado no folclore americano de um enorme lenhador, cuja altura atingiria as nuvens. Com seu afiado machado poderia rapidamente derrubar uma floresta inteira e com seus pés afundar o que delas restara para o fundo da terra. Essa força e proeza serviriam para que a agricultura e a pecuária fossem realizadas, para que o homem encontrasse nesse mundo sua próspera morada. Trata-se da imagem de um homem com recursos inimagináveis, com forças sobre-humanas, capacidades quase inesgotáveis de trabalho. Importante notar como a ideia de progresso parece depender de uma imagem assim, absolutamente idealizada do devir humano. Mas é, acima de tudo, uma idealização e que escamoteia a exploração predatória que o homem faz de si mesmo e do mundo.

A racionalidade da relação produtiva não é sustentável, ela parece ser assentada em forças destrutivas, mais do que em forças de vida. Ou como afirma Agnes Heller:

os totalitarismos nos ensinaram que os maus instintos podem matar milhares, dezenas de milhares, mas só a razão pode matar milhões de pessoas, porque a ideologia baseada no pensamento racional estabelece que matar é certo. A maldade pode matar alguns, mas é a persuasão, o apelo à razão, que pode levar a fazer as coisas muito mais terríveis (Altares, 2017).

Podemos dizer, sem titubear, que queimar a floresta é eminentemente uma atividade racional. Mas em que a razão se fundamenta?

A exploração predatória visa à transformação da alteridade como diferença viva e desconhecida para um objeto que tem um objetivo determinado. Queima-se a floresta para fazer um campo aberto. Não se considera a existência viva. Não há o vivo. Quem destrói não sente a existência daquilo que é vivo. E isso é um diferencial simples e fundamental, pois não há como racionalmente convencer alguém que uma árvore é viva. E o que faz com que uma pessoa possa pressentir o vivo? Será que a compreensão e respeito pelo vivo decorre da experiência sobre o que é vivo em si mesmo? Freud (2010/1920) já havia notado como a pulsão de vida era tão somente um lacaio das forças de morte. Mas que consideração realmente temos sobre a verdade e a vida? É preciso saber da morte para compreender a fragilidade da vida e saber do peso nefasto da mentira para apreciar e precisar da verdade.

Nessa imagem de Paul Bunyam, as forças extraordinárias do lenhador mostrariam que não há nenhuma exploração de si mesmo, mas forças dispendiosas, que sobram. Uma potência inesgotável – mas nada mais mentiroso. Mas que lugar de morada seria esse, em que somos compelidos a destruir continuamente para habitar? Não haveria lugar para o homem no mundo que não fosse por meio dessa destruição do mundo? Até que ponto estamos naturalizados com a auto exploração predatória? Segundo Byung-Chul Han: “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. ‘Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo’” (Geli, 2017). Talvez trate-se de mais um capítulo da nossa servidão voluntária (La Boétie), isso porque a destruição da Amazônia e a autoexploração predatória de si mesmo parecem convergir no desprezo pela vida e na objetificação do mundo, segundo o qual o desconhecido é afastado de nosso campo de visão para o uso daquilo que está à mão como fonte de recurso momentâneo. Sim, o desconhecido passa a ser inexistente e o que sobra é braço e a perna para trabalhar, as aldeias para atrapalhar e a madeira para retirar. Enfim, a destruição. A Amazônia queima. Quem a queima? Até quando seremos os lacaios da morte?

Referências

 Geli, C. (2019). Hoje o Indivíduo se explora e acredita que isso é realização [entrevista com Byung-Chul Han]. Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 24 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM

Altares, G. (2017). A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis [entrevista com Agnes Heller] Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 25 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In S. Freud.  obras completas de Sigmund Freud (P.C.Souza, trad., Vol. XIV). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920).

Fenollosa, E. (1977). Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia. In Campos, H. de (org.). Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem. São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em 1936).

 

* Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp).

Novos diálogos

Livro de Marion Minerbo atualiza reflexões sobre a clínica psicanalítica no mundo contemporâneo

*Matéria publicada na revista Vila Cultural edição 184 (Agosto/2019)

Três anos depois da publicação de Diálogos sobre a clínica psicanalítica, a psicanalista Marion Minerbo apresenta outro título que segue mobilizando uma audiência diversa, entre estudantes de psicologia, analistas e leigos sabidamente interessados em psicanálise. Lançado há pouco, Novos diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher) foi escrito a seis mãos, como diz Marion para fazer referência a AnaLisa, sua interlocutora predileta. Trata-se da persona que ganha voz graças às irmãs Isabel Botter e Luciana Botter, colaboradoras do livro. Juntas, elas participam de conversas instigantes sobre temas significativos para a compreensão, reflexão e vivência da psicanálise neste século 21. “Com a teoria encarnada na clínica”, como escreve Ruggero Levy na contracapa do livro.

Marion e AnaLisa – ou Isabel e Luciana, que são formadas em psicologia e assumem o lugar de “jovens colegas” de profissão – dialogam com fluência capaz de “simplificar” conceitos e raciocínios dos mais complexos. Como pensa um psicanalista?, O supereu cruel, Depressão sem tristeza, com tristeza e melancólica e Ser e sofrer hoje são alguns dos capítulos do livro, que também revela possibilidades de comunicação, empatia e parceria típicas da nossa época, já que Marion conheceu Luciana virtualmente, quando ela editava o blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise. A conversa entre as duas correu tão solta que evoluiu para uma parceria intelectual. Com igual interesse pelos temas em pauta, Isabel agregou-se à dupla e enriqueceu o encontro. “Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas”, diz Marion, que é doutora em psicanálise, em entrevista à Vila Cultural.

Vila Cultural. O que distingue e o que há em comum entre os Novos diálogos e os que foram publicados em 2016?
Marion Minerbo. O primeiro volume, de 2016, nasceu graças a um convite feito pela editora do Jornal de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Marina Massi. Um dia mandei para ela um texto escrito como um diálogo, meio assim, do nada. Uma brincadeira. Ela se entusiasmou com forma e conteúdo, disse que era um “achado” e sugeriu que eu escrevesse uma série para ser publicada no Jornal. Então, os capítulos do Diálogos já nasceram sob forma de diálogos. E os temas eram os mais básicos. Este volume de 2019 teve outra origem. Quando pensei numa coletânea com minhas publicações mais importantes, era evidente que eu deveria continuar explorando a forma diálogo – que tinha dado tão certo no primeiro volume. Mas eu não tinha tempo nem forças para pegar esses textos e transformá-los em diálogos. Para começar, tenho horror a reler meus textos antigos. Conheci Luciana Botter quando ela cuidava do blog da Sociedade de Psicanálise. Na época, reconhecera o talento dela como leitora, crítica e editora. Foi por isso que, em meados de 2017, convidei-a para criar comigo o blog Loucuras Cotidianas. Tive, então, a brilhante ideia de convidá-la, e à sua irmã Isabel, para verterem minhas publicações da forma corrida para a forma diálogo. As duas tinham estudado psicologia. Isabel tinha também um trânsito pela psicanálise. Conhecendo o talento de ambas, eu apostava que elas conseguiriam fazer isso. Além disso, elas eram o próprio jovem colega! Quem melhor do que elas/ele para dialogar de verdade com as ideias do texto, para formular dúvidas, para fazer observações? Outra vantagem: eu conseguiria ler meus textos contanto que tivessem sido lidos amorosamente por elas. Se conseguissem transformá-los em diálogo é porque sua leitura teria sido, pelo menos, generosa. Fizemos um teste. Precisávamos saber se elas se sentiriam com autonomia suficiente para criar outro texto, e se eu conseguiria me reconhecer no trabalho delas. A questão era em parte técnica, mas sobretudo emocional: eu teria que dar a elas autoria suficiente para que tivessem prazer em trabalhar, e elas precisariam me conceder a possibilidade de reescrever o texto delas como eu achasse melhor. Deu certo porque para todas nós o mais importante era a qualidade do texto. O trabalho a seis mãos foi muito prazeroso. No meio do caminho surgiu a ideia de transformar o “jovem colega” genérico em AnaLisa – anagrama de análise –, minha interlocutora no blog. Por um lado, hoje em dia a proporção de psis mulheres é imensamente maior do que a de homens. Por outro, dava uma cara mais pessoal e verossímil aos diálogos. AnaLisa se tornou tão verdadeira para nós que foi natural convidá-la para escrever o prefácio. Afinal, quem melhor do que Bel e Lu para apresentar o livro? Uma palavra sobre os temas: se os dos Diálogos são 1.0, os dos Novos Diálogos 2.0.

VC. Guardadas as proporções, como você diz, por que AnaLisa, a voz das irmãs Botter, foi para você, na interlocução do livro, o que Fliess foi para Freud?
MM. Freud e Wilhelm Fliess se encontraram pouco durante os muitos anos de correspondência em que o fundador da psicanálise produziu intensamente. Também eu me correspondi por e-mail e WhatsApp sem conhecê-las pessoalmente. Só conhecia as fotos no Zap, com um gorro enfiado até o nariz. Eu me lembrei daquele filme Nunca te vi, sempre te amei. Mas o ponto em comum (com Freud e Fliess) mais importante foi a amizade amorosa que se estabeleceu entre nós. Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas. Quando comentavam os textos eram, ao mesmo tempo, estrangeiras, com um olhar diferente do meu, e íntimas, capazes de compartilhar minha maneira de pensar. Na amizade amorosa, cada um se esforça para dar o melhor de si e para fazer brotar o melhor do outro. Ambos crescem, ambos saem transformados.

VC. O que é necessário para manter a disposição e a disponibilidade para o diálogo em uma época e uma sociedade que parecem tão pouco interessadas em dialogar?
MM. Dialogar de verdade implica em reconhecer no interlocutor alguém diferente de você, mas tão digno de valor como você. Um semelhante-diferente. Quando nos sentimos ameaçados, nos defendemos da ameaça com duas estratégias mentais: negamos ao outro o direito de ser diferente e negamos ao outro a condição de semelhante. Hoje, vivemos todos ameaçados, e isso em vários fronts ao mesmo tempo. Em tais condições de “salve-se quem puder” a disposição para o diálogo fica prejudicada.

VC. Quando você diz/escreve, entre outras coisas, que o inconsciente foi banalizado inclusive pelos analistas, como reflete sobre o futuro e os rumos da psicanálise?
MM. Se não me engano, escrevi que o inconsciente corre o risco de ser banalizado pelos próprios analistas. O inconsciente é um conceito complexo. Ele não tem existência concreta, material, mas produz efeitos concretos, muitas vezes absolutamente trágicos, na vida das pessoas. O psicanalista lê as relações entre pessoas e os fenômenos humanos com base neste pressuposto. Só que é uma leitura que subverte o senso comum. Por exemplo, um marido não bate na esposa porque é mais forte, mas porque se sente mais fraco. Essa leitura muda a abordagem do problema. Ora, o senso comum é poderoso, ele se impõe também sobre os psicanalistas. Nesse sentido, a escuta analítica é um instrumento que pode facilmente perder o gume. É preciso cuidar para mantê-lo afiado.

VC. O que lhe parece mais fundamental para a prática da psicanálise hoje?
MM. Hoje falamos em práticas da psicanálise, pois ela tem sido praticada em enquadres muito diversos, bem além do consultório. Acho que é preciso ter criatividade clínica. E quais são as condições para isso? De um lado, o psicanalista precisa ter internalizado muito bem o método da psicanálise, que tem como pressupostos inconsciente e transferência. De outro, ter um repertório teórico amplo. Precisa conhecer vários autores. Não é o paciente que tem que se encaixar na “linha” do analista. É ele que tem que conseguir ir até onde o paciente está.

VC. Que critérios usou para selecionar as dez crônicas do Loucuras cotidianas?
MM. Eliminei as crônicas que falavam de temas que apareciam nos outros capítulos do livro: Depressões, É muita areia para meu caminhãozinho, Não fui com a sua cara. Dei preferência a temas que mostrassem como a psicanálise interpreta certos fenômenos sociais que poderiam ser vistos como banais: gostar de cozinhar, a gourmetização da vida, vegetarianismo, o sucesso do funk Que tiro foi esse. Na mesma linha, mas abordando temas mais sérios, escolhi o fanatismo, o neoconservadorismo, a polarização. Aqui, meu interesse foi mostrar que, por mais que os detestemos, não adianta xingar o fenômeno social. Se ele está aí, é por algum motivo. É preciso interpretá-lo como sintoma social. Quando interpretado, revela qual é o sofrimento psíquico que está em sua origem. Por fim, escolhi temas de “utilidade pública”, como Você sabe colocar limites?, Brincar para se tratar e Você está podendo? (sobre empoderamento e autoestima). Teria colocado outras, gosto de todas, mas o livro ia ficar muito grosso e muito caro [risos].

Foto: A psicanalista Marion Minerbo entre as irmãs Luciana e Isabel Botter. Crédito: Michele Minerbo / Divulgação

Queimam as Florestas

Leopold Nosek

Nosso ambiente está em questão, a ecologia se tornou nosso tema.

Os anos após a 1ª guerra mundial gestaram monstros. Em 1940, pouco antes de morrer, Walter Benjamim escreveu as suas famosas teses sobre a História. Lembra num trecho que assolados pelo obscurantismo até os mortos estão em perigo. Alerta também para os perigos do tratamento equivocado dos que se opõem à barbárie, mas se deixam levar por uma temporalidade linear e da visão de um progresso inevitável no horizonte.

Nunca havia pensado que me defrontaria com o risco que os mortos correm e que vi essa cena explicitada na homenagem pública que um torturador mereceu, em ambiente de nossas mais importantes instituições até então democráticas. A aceitação da tortura não apenas é uma violência que se abate sobre sua vítima, sua presença implica na aceitação do projeto de destruir o humano e o pensamento em toda a ecologia social onde esse fato ocorre. Tal projeto foi explicitamente reafirmado no ataque feito a um desaparecido no contexto de um debate com a OAB. Esses fatos que podem ser considerados detalhes são de fato sintomas de algo muito mais amplo e, afinal, nós analistas temos a “mania” de pensar o geral a partir de singularidades.

Enquanto se gestava o Ovo da Serpente, Freud, em meio à sua prosaica vida de médico, em Viena, desenvolvia uma ampliação revolucionária de seu pensamento. Não estava mais como eixo de sua prática a interpretação dos sonhos, mas sim a sua construção. A psicanálise passa, então, a se debruçar sobre a origem e o desenvolvimento do pensamento. Isso se radicaliza nos anos 70 e vemos isso, por exemplo, na obra de Laplanche, nos exemplos da Grade de Bion, também no trajeto de pulsão em suas diferentes camadas de representação explicitados por Green.  A psicanálise se aproxima da literatura e da arte. Contemporânea a esta transformação, Freud se aproxima cada vez mais de temas que, ao mesmo tempo que metaforizam a sua teorização, se refletem em preocupações acerca da sociedade. Em sua vida pessoal, comete um engano trágico como se vê nas suas hesitações em publicar Moisés e o Monoteísmo, quando, explicitamente, afirma confiar nas forças conservadoras e religiosas de que estas se oporiam à barbárie que estava no horizonte. Lembremos como esse texto radicaliza a percepção da violência que entranha as origens da civilização. Freud, no entanto, assiste à entrada triunfal das forças nazistas em Viena, onde são recebidas em delírio pela população local e apenas sobrevive graças aos esforços de Marie Bonaparte. No entanto, suas irmãs têm destino final nos campos de concentração. Temos no nosso passado a diáspora analítica da “mitteleurope” e, recentemente, num plano menor a diáspora argentina no regime militar.

A história não se repetirá, as reminiscências vão requerer um trabalho reflexivo nas novas circunstâncias. Assistimos a transformações assombrosas com o fim das utopias do século XX, a concentração enorme do capital que, muitas vezes, é maior que o recurso de nações e põe em xeque os estados nacionais, a revolução tecnológica e a informação, a mudança de formas de trabalho e tantas outras, que seria impossível desenvolver nesse espaço. Com isso, as formas tradicionais do agir e do pensar se transformam, também se transformam as formas do sofrimento do espírito. A localização social da classe média se desloca e as profissões da saúde ganham novas práticas. Volta à cena o conceito de Durkheim de anomia. Com a ausência de acervo reflexivo, as certezas e as religiões se tornam majoritárias e fruto de frustrações a violência toma espaço. No espaço das transições crescem os monstros. Como analistas, somos também afetados e minha geração é testemunha dessas mudanças e também das incertezas que estão no horizonte do tempo.

Antes de queimar as florestas há que se queimar o pensamento e o desastre ecológico também se abaterá sobre o pensamento. Nós, psicanalistas, somos herdeiros do iluminismo e como nosso objeto são os sonhos. Gosto de pensar que habitamos um reino onde o obscuro e o assombro imperam e nossa ecologia será a de um iluminismo noturno. Dependemos de uma ecologia do livre pensamento, da busca permanente da verdade, somos companheiros da ciência e das artes, nos alimentamos de experiências e de literatura. Isso nos coloca imediatamente dependentes da liberdade e da democracia. Qualquer ferimento desta nos atinge e não temos alternativa de sermos políticos, no mais íntimo de nossa prática. O incêndio da floresta tem no seu horizonte a destruição do pensamento e essa é uma questão psicanalítica, afinal, supostamente estamos preparados para permanecer pensando em meio à fumaça.

*Leopold Nosek

Psicanalista. Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP. Foi Presidente da SBPSP (1993/1994 e 1995/1996), da FEBRAPSI (1991/1993) e da FEPAL (2010/2012). Também integrou o board da International Psychanalitical Association (IPA) e foi chair do Comitê de Psicanálise e Cultura da instituição. Recebeu o prêmio Mary Sigourney Award 2014.