Mês: outubro 2020

Sobre o momento atual, os psicanalistas, as instituições e os adolescentes


*Bernardo Tanis

Nas palavras do poeta Antônio Machado
Caminantes no hay caminos se hace camino al andar…


Sabemos que a adolescência implica num processo de mudança corporal e subjetiva, lugar de passagem encarnada entre a infância e a vida adulta. Em múltiplas frentes, ela gera um sem fim de desafios, lugar de sonhos e expectativas, mas também de turbulência mental e insegurança. Como vivem e pensam nos dias de hoje os adolescentes nos diferentes estratos e camadas da nossa sociedade? Devem lidar com um mundo no qual as mutações são permanentes e aceleradas. O adolescente, pelo seu momento de vida, deve interagir mais diretamente com esse mundo. Seus pais que habitam também no contexto das mudanças, precisam enfrentar as próprias perplexidades e inseguranças somadas à angústia de acolher e orientar os jovens.

Em um belo texto sobre essas mudanças o destacado analista uruguaio, Marcelo Viñar, comenta num breve trecho autobiográfico:
Meu pai não era psicanalista, mas na sua sabedoria de vida me deixou uma última mensagem:
– Eu era um homem previdente, disse ele, – é por isso que me preparei para o amanhã. Mas o amanhã que eu imaginei nunca chegou, outro veio, pior ou melhor, não aquele para o qual tinha me preparado.
– Filho, disse-me – não sei se devo dizer para você ser um previdente.

Ser previdente estaria no campo dos ideias, aqui a sabedoria paterna questiona as supostas certezas e também o que útil e eficaz para uma época pode não ser da mesma serventia para outra. Os ideais ocupam um lugar que será colocado em movimento e tensionado entre anseio e a realização, apontam na teoria psicanalítica tanto ao eu ideal instância infantil e narcisista que evoca uma plenitude quanto uma outra vertente tributária do Édipo, o ideal do eu, que aponta a um futuro possível mais o menos regulado pelo super-eu. As transformações às quais aludimos acima nem
sempre são sintônicas com os ideais construídos individualmente ou transmitidos ao longo da gerações.

As frustrações e ainda mais os desencontros ou fenômenos de desenraizamento são frequentes, por não encontrar possibilidades ou lugares nos quais estes ideais possam se assentar em território mais ou menos fértil. Neste contexto não falamos apenas de frustração perante os desejos, mas de angústias em torno do que sou, de quem posso vir a ser: tema adolescente por excelência.

Ocorre-me pensar, após quase sete meses de viver sob o efeito da pandemia, do isolamento, da incerteza e ameaças, do jogo perverso e fanático das inverdades que nós como analistas fomos relançados a uma vivência adolescente.

Conversamos e debatemos em muitos webinares sobre a vivência de aspectos arcaicos, do desamparo constitucional, da regressão à dependência, da angústia de solidão ou intrusão nesses tempos de pandemia. Tivemos nosso interessante Encontro Preparatório para o Congresso de Vancouver, cujo título foi O infantil à flor da pele, no entanto penso que talvez tenhamos deixado escapar A adolescência à flor da pele.

Lembro com admiração as ideias de Armando Bianco Ferrari, analista da SBPSP que retornou à Itália nos últimos anos de sua vida, mas que deixou uma marca em muitos de nós. Em um dos seus livros, que para mim tornou-se referência, Adolescência, um segundo desafio, sustenta a posição de que a adolescência coloca desafios e demandas que não estão contemplados nos primeiros tempos da nossa existência. Também sustenta que ela é irredutível a desejos, angústias e defesas de tempos anteriores da constituição subjetiva.

Este breve texto não é um artigo cientifico, no entanto sustenta uma tese: o tempo que nos toca viver ativa angústias adolescentes em todos nós, e demanda para nós analistas e nossas instituições um esforço singular de elaboração e pensamento.

Para Ferrari, ao adolescente se impõe uma questão sobre o ser: quem sou para mim mesmo e que sou para os outros; questão que não é metafísica, mas existencial, envolve um fazer no mundo e uma decantação dessa experiência. A adolescência é precisamente o momento crítico onde as intensidades novamente ganham expressão, o corpo se oferece à mente desencadeando um processo turbulento e complexo. A dor mental é originada pelas demandas e transformações do seu mundo interior, pelo clamor do mundo exterior e pelas complexas emoções e sensações difíceis de conter e compreender. Em torno dessa experiência de turbulência emocional o adolescente constrói um universo defensivo singular para enfrentar momentos de pânico e angústia.

O crescimento e desenvolvimento exigem o abandono de certas posições e abertura progressiva para uma participação ativa na construção da sua identidade emergente. Processo que só será possível a partir de uma experiência concreta de suas possibilidades e limites. Nem todo agir será para o adolescente um acting ou enactment.

O momento que nos toca viver a partir da pandemia como indivíduos e também como psicanalistas é irredutível a outros do passado, mas guarda ressonância com angústias e defesas adolescentes.

Assim como o adolescente, podemos nos cindir apresentando duas estruturas relativamente autônomas: uma aloja a omnipotência e outra a impotência.

Acredito que o trabalho da análise, os debates francos, a não cristalização em posições defensivas, a ousadia de encarar o novo, o desconhecido, tolerar o desapego a ideais narcísicos projetados em nosso saber constituído e nas nossas instituições poderá nos ajudar a atravessar essa crise. Será preciso a coragem para coletivamente refletir sobre nosso fazer atual como psicanalistas, nas múltiplas condições e realidades nas quais ele acontece. Isso não apenas por causa da pandemia, esta apenas abalou nossas certezas e convicções, mas muitas outras mudanças estão aí e, muitas vezes, não queremos enxergá-las e nos apegamos como o fazem alguns adolescentes nostalgicamente à infância ou ideais tidos como verdades inquestionáveis.

Viver o momento atual é encarar desafios e construir novos caminhos.

Acredito que cada um de nós tem que se haver com esses desafios tanto na vida pessoal quanto no exercício ético e criativo da psicanálise.

*Bernardo Tanis é doutor em Psicologia Clínica e presidente da SBPSP.