Era uma vez…

*Alessandra Nicoletti

Era uma vez uma menina de seis anos e sua tia. Ligadas, desde muito cedo, por aquele tipo de afeto que mesmo o observador ocasional percebe aflorar nos rostos das pessoas que se amam. Porém, as duas haviam sido separadas por uma ameaça externa inesperada e súbita, ainda desconhecida e tida como muito perigosa. Em meio à desolação mútua causada pelo distanciamento físico e pela saudade, as duas foram surpreendidas pelo pai da menina, que convidou sua irmã para ler para a garota, na hora de dormir. Ele propôs que elas usassem uma caixinha mágica chamada celular, por meio da qual pudessem se ver, mesmo estando fisicamente distantes…

Menina: Tutúúúúú (apelido que a pequena deu para a tia).
Tia: Pequena, que saudade… Mas agora é hora de dormir, viu? Separei um livro que gosto muito, para ler pra você. Chama O Mágico de Oz.
M.: Aaahhh, eu acho que eu já vi esse filme com o papai.
T.: Pode ser. Tem um filme muito bonito com essa história. Pronta pra começar? Vamos lá… Capítulo 1.

E, então, a tia começou a contar a história de Dorothy, a garotinha que vivia com a Tia Emily e o Tio Henry em Kansas, até que, um dia, um grande ciclone levou Dorothy e seu cachorro Totó para bem longe; para o reino de Oz.

Dorothy acha muito bonita aquela terra. Faz amigos e se diverte; conhece um espantalho, que quer ter um cérebro; um lenhador de lata que quer um coração e um leão que deseja coragem.

Ainda assim, não é feliz porque Oz não é a sua terra. Dorothy decide encontrar uma forma de voltar para casa.

Em meio às suas aventuras, o grupo conhece uma bruxa boa que lhes conta que talvez o poderoso Mágico de Oz possa ajudá-los a conseguir o que desejam…

M.: Tutú, onde você tá?
T.: Na minha casa, gatinha.
M: Com o vovô e a vovó?
T: Não. Lembra que eu mudei pra outra casinha?
M: E você tá sozinha?
T: Não. O Tio Fê está comigo.
M: Aaaah.
T: Você quer conversar sobre isso?
M: Não. Pode continuar a história. 

E, assim, um, dois, três capítulos são lidos até que a tia resolve ficar em silêncio para verificar se a criança dormiu…

T.: (silêncio)
M: (silêncio)
T: Dormiu, pequenina?
M: (silêncio)
T: Bons sonhos.

A tia foi avisar ao irmão que achava que a pequena tinha adormecido e eles combinaram outra data para que a leitura do livro continuasse. Dias e noites se passaram até que…

M: Tutú!
T: Oi, pequena! Vamos continuar a história da Dorothy? Onde paramos?

E então Dorothy e seus amigos chegam a Oz e ele pede que derrotem a bruxa malvada do Oeste antes que possa auxiliá-lo…

M: Você já leu essa parte.
T: Já? Espera, então deixa eu procurar.
M: Você não marcou?

Dorothy joga água na bruxa malvada e a derrota…

M: Você já leu isso também.
T: Ihh.
M: Você devia ter marcado o livro!
T: É mesmo, pequena.

E eles retornam a Oz…

M: Tutú, onde você tá?
T: Na minha casa.
M: Sozinha?
T: Não, com o tio Fê.
C: DE NOVO?!!!
T: É. Na verdade, não é de novo. Ele está morando aqui.
C: Ah. E por quê?
T: Pra Tutú não ficar sozinha. Lembra que a gente te contou que vamos nos casar?
C: E por quê?
T: Porque eu e o Tio Fê nos amamos.
C: E por quê?

E começa a rir da brincadeira dos porquês. Elas riem juntas olhando-se até que…

C:  Tutú, você continua a história?

Porém, descobrem que Oz não tinha poderes. Era um ilusionista, um impostor. Ficaram muito decepcionados por terem cumprido a parte do trato e se sentindo enganados. Oz decide explicar que aquilo que buscam já faz parte deles…

M: Tutú, vamos chamar o vovô e a vovó?
T: Vamos. Vou colocar o telefone del…
M: Não! Eu coloco. Eu já sei como fazer. Vou te mostrar. Estou procurando a foto do vovô.

E, como num encanto, além das duas, agora o vovô e a vovó estão na caixinha mágica, no quarto da menina.

M: Vovô e vovó, a Tutú tá me contando história.
T: É verdade. Mas é hora de dormir! Não é hora de agitar.
Vovô e vovó, vocês também querem escutar?
Vovô e Vovô: Lógico que queremos!
M.: Vovó, vovó, eu já sei silenciar o microfone. E pausar a imagem. E colocar vocês nas ligações. Vocês tão vendo? Ó. Viu? E o Buzz…
T: Ô, pessoal! Que bagunça é essa? É hora de dormir!
Vovô, vovó e Menina.: Tááá boooooom.

O mágico de Oz fala para o espantalho que ele não precisa de um cérebro porque está aprendendo algo novo todos os dias e que é a experiência que ensina. E o falso poderoso diz para o Leão que ele não precisa que ninguém lhe entregue coragem porque ele já a possuía. O que precisava era confiar em si mesmo. Todo mundo tem medo quando encontra perigos. A coragem está em enfrentá-los. E diz ao lenhador de lata que ele não precisa de um coração porque este traz sofrimento, deixa as pessoas tristes. Mas o lenhador diz que prefere ter um coração – mesmo que às vezes fique infeliz – do que não tê-lo.

E eles passam mais outros muitos desafios até que, finalmente:

Capítulo 24 – Novamente em Casa

Tia Emily tinha saído de casa para aguar os repolhos, quando ergueu o rosto e viu Dorothy correndo para ela.

– Minha querida menina! – ela gritou, envolvendo a meninazinha em seus braços e cobrindo-lhe o rosto de beijos. Mas de onde você veio?

– Da Terra de OZ – disse Dorothy, gravemente. – E Totó também está aqui. Oh, Tia Emily, estou tão feliz de estar de novo em casa.

T: (silêncio)
M: (silêncio)
V. e V.: (silêncio)
T: Boa noite, nossa pequena. Até daqui a pouco.

E enquanto aguardavam o reencontro, elas fizeram o possível para se manter presentes mesmo ausentes.

FIM

*Alessandra Nicoletti é membro filiado da SBPSP.

Referência bibliográfica:
BAUM, Lyman Frank. O Mágico de Oz. Tradução de William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2018.

Crédito: Henri Matisse, The Heart (Le Coeur) from Jazz, 1947

4 comentários

  1. Parabéns a autora ; belíssimo
    E brilhante texto .
    Texto que transmite esperança , que deixa claro que mesmo afastados podemos estar conectados pelo coração
    Tutu não pare de contar historias !

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  2. O texto da Alessandra é um belo exemplo da força com que a comunicação escrita nos atinge, intimamente. As palavras lidas vão se transformando, de símbolos que são, em algo potente, especial, capaz de abrir as “gavetas de afetividade” que, secretamente, mantemos protegidas, posto que seus conteúdos são especiais e estão reservados somente a outros muito significantes. São eles que nos levam a ser quem somos. E como é bom perceber que a narrativa da autora funciona como uma chave, capaz de reabrir nossas “gavetas” e nos proporcionar a alegria de estarmos juntos (mesmo que distantes) com uma criança tão especial e tão amada.
    Obrigado Tutú. Continue contando histórias.

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  3. Fiquei encantada com a delicadeza e fluidez da linguagem. Adequado para nos dar luz nesse momento. Temos cérebro, mas, às vezes esquecemos de usá-lo; nosso coração se encontra empedernido e nossa coragem parece estar arrefecida. O texto evidencia, ainda, que, mesmo longe, o que importa é estarmos conectados pelo afeto demonstrado (e pela caixinha mágica). “Home is where your heart is”. À autora, minha admiração e agradecimentos pela lição recebida.

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  4. Belissimo texto. Uma metáfora apropriada para explicar à “Dorothy” que o vendaval da pandemia, nos levou todos ao mundo de Oz, um mundo diferente, onde nas midias sociais as pessoas se julgaram ao julgarem os outros, como despossuidores de cérebro, coração e coragem, para ao final dar à pequena que toda tormenta passa, e que o nosso lugar é sempre a nossa casa com os nossos amores de sempre.

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