Mês: agosto 2020

Sobre a transitoriedade: ensaio sobre a pandemia

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

No ano de 2020, o ano em que se comemora o centenário da pulsão de morte, quem poderia imaginar que, por conta de um vírus, seríamos assolados pelo risco de morte iminente tendo, inclusive, as fronteiras fechadas no mundo inteiro?

Vivemos hoje uma sobrecarga de estranhezas: um mundo novo tão diferente que a pandemia pela Covid-19 apresentou. Providências de ordem prática que precisaram ser tomadas – uso de máscaras, distanciamento social, excesso de informações que sequer conseguimos acompanhar, nomear e elaborar – trouxeram repercussões emocionais. Fomos subtraídos da convivência social e postos em estado de grande desamparo e insegurança. Obrigados ao isolamento e confinados em nossas casas, passaremos por graves impactos econômicos e na saúde da população, e sofremos sem saber como será o mundo depois.

Freud (1919) fala do Unheimlich, esse estranho assustador, que não é conhecido nem familiar, algo que não sabemos abordar. Para Freud, quanto mais orientados estamos, menos temos a impressão de algo estranho em relação aos objetos e eventos. Hoje, porém, parecemos mais desorientados do que nunca.

Esse vírus é invisível e ameaçador, mas se faz ver quando alguém morre, ou nas reportagens, ou quando vemos pessoas com equipamento de proteção, luvas, máscaras e faceshields, fazendo as regiões parecerem zonas de guerra; de certa forma, são. Zusman (2020) avalia que vivemos outro paradigma: “a recomendação de distanciamento físico é uma mudança de paradigma, já que somos gregários por natureza; precisamos de outros humanos para nos constituir humanos”. Hoje, porém, o outro, o espaço e a proximidade parecem nossos inimigos.

As impressões sobre um tempo semelhante estão descritas por Freud (1916), a partir de uma conversa com um poeta, um ano antes da guerra: “um ano depois irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis” (p. 347).

Essa pandemia é, sem dúvida, um momento assim, uma situação traumática, relacionada a perdas significativas. O novo Coronavírus atacou partes fundamentais de nossa vida, e assim como o sistema imunológico de defesas, as defesas emocionais buscam lidar com o clima de insegurança e ameaça. Para Zusman (2020), “as defesas não são por si só patológicas; elas vêm para nos ajudar e se tornam patológicas quando se instalam sem podermos recompor nossas defesas habituais”.

A possibilidade de elaboração dessas angústias depende da estrutura emocional de cada indivíduo. Vemos pessoas com um nível normal de angústia, dada a estranheza do que vivemos; porém, vemos pessoas em quem – frente a essa situação inesperada, geradora de angústias que não podem ser digeridas pelo aparelho psíquico – isso transborda para o corpo que adoece. Se a mente não dá conta, é no corpo que aparecem as manifestações, ou seja, na ausência do símbolo e da palavra, é o corpo que sofre: via atuação (formas brandas, como andar pela casa, bater nas paredes, reclamar ou brigar com alguém, até formas mais graves, como o suicídio); via adicção (compulsão alimentar, uso excessivo de bebidas, cigarros e drogas); via psicossomática.

As organizações psicossomáticas diferem pelo sistema defensivo, pelo nível evolutivo e pela quantidade e qualidade das representações mentais. São as pulsões de vida e de morte que põem em movimento o sistema; há organizações mais emaranhadas na expressão corporal e outras mais próximas da neurose. Quanto mais evoluído o sistema representacional e a simbolização, melhores as defesas para lidar com movimentos regressivos. Uma situação traumática atual reativa a situação traumática precoce, expressa tanto no psíquico quanto no somático, como resultado das modificações na estrutura psicossomática (Steinwurz, 2017).

Quadros somáticos podem surgir ante uma situação traumática e depois desaparecer; porém, podem se instalar como doenças crônicas que geram incapacidade na vida pessoal e profissional, em diversos graus (Steinwurz, 2017). Eles são um sinal de que algo não correu bem no princípio do desenvolvimento. Houve uma dissociação na personalidade, que impede o indivíduo de perceber a relação entre a disfunção somática e seu psiquismo e integrá-la; sem conseguir uni-las, adoece.

Marty (1993) define a função materna como determinante na constituição do psiquismo, bem como na organização psicossomática. Um vínculo afetivo precário com a mãe cria matrizes traumáticas no desenvolvimento psíquico.

Para Winnicott (1949), o ambiente também é fundamental no desenvolvimento emocional. Uma mãe não suficientemente boa – com uma maternagem precária ou inconstante – interrompe esse processo, levando à dissociação entre psique e soma, característica da psicossomática. Sem uma preocupação materna primária, a mãe não oferece suporte egoico para o bebê, que é deixado por conta própria. Ele tem que se haver com suas próprias necessidades quando, muito precocemente, a mãe deveria cuidar delas.

A doença psicossomática seria um pedido de socorro para que se constitua esta integração. Cada sintoma terá um significado emocional, do qual o ego tira proveito para alívio dos conflitos. Estes sintomas orgânicos podem evitar que o paciente desenvolva sintomas psicológicos mais severos. Portanto, com a melhora do orgânico, o ego terá de encontrar outros meios de vazão para as tendências antes aliviadas pelo corpo.

Na busca desses outros meios, no isolamento que vivemos, encontramos o tempo como um aliado, em contraponto a tanto que perdemos. Muitos têm mais tempo para atividades que não faziam, como pintar, bordar e cozinhar, e para aproximar-se de amigos e parentes ainda que virtualmente. Na psicanálise, vemos um aumento da disposição para trabalhos voluntários para pessoas em estado de vulnerabilidade, e para profissionais da saúde da linha de frente com os pacientes com Covid-19.

Em belíssimo texto sobre a transitoriedade, em que relata uma conversa sobre o tempo, Freud (1916) fala sobre o significado dele para cada um: “o poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade” (p. 345). A evidência de que tudo que é belo e perfeito findará pode dar margem a esse pesado desalento, ou levar à rebelião contra tal fato: “de uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição” (p. 345). Essa exigência de imortalidade, porém – alerta Freud – é um desejo nosso, não uma realidade.

E como estamos nesta pandemia? Descrentes e pessimistas como o poeta? Adoecendo no corpo ou na alma? Ou conseguimos lançar mão de defesas psíquicas, meios mais elaborados e alternativas criativas? A necessária adaptação às adversidades para enfrentar essa pandemia nos colocou em contato com nossa capacidade de resiliência, o que nos faz crescer emocionalmente.

Freud (1916) tem uma versão mais otimista da transitoriedade: “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor porque a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal” (p. 346).

A análise será um recurso para criar, por meio do encontro analista-analisando, condições favorecedoras da ampliação do repertório psíquico, para que os conflitos possam ser pensados e experienciados ao invés de depositados no corpo. Para isso, nos aproximaremos de nossas vozes internas, para ajudarmos nossos pacientes a se aproximarem de suas vozes internas.

Nessa pandemia, tivemos de nos reinventar e nos adaptar a novas regras, novas maneiras, viver lutos. Tomo novamente as palavras de Freud (1916), quando fala da necessidade de renunciarmos ao que era precioso, mas terminou: “o luto […], por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes” (p. 347-348). Que nossa reconstrução, no pós-pandemia, seja firme, rica e forte.

 

Referências

Freud, Sigmund (1916). Sobre a transitoriedade. In: _____. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 14, pp. 345-348). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Freud, Sigmund (1919). O estranho. In: _____. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 17, pp. 273-318). Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Marty, Pierre. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artmed, 1993.

Steinwurz, Denise Aizemberg. Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In: Bejar, Victoria R. (Org.) Dor psíquica, dor corporal: uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Blucher, 2017. (p. 175-198).

Zusman, Alberto. Psicanálise e conflitos emocionais em tempos de covid. Encontro virtual promovido pela Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, em 23 maio 2020.

Winnicott, Donald W. (1949). A mente e a relação com o psicossoma. In: _____. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 332-346.

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Sobre a transitoriedade[1]: ensaio sobre a pandemia
[1]em referência ao título do texto de Freud de 1916.

*Denise Aizemberg Steinwurz é psicanalista, membro associado da SBPSP e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro do Espaço Potencial Winnicott (Depto. de Psicanálise da Criança) do Instituto Sedes Sapientiae. Contato: steinwurz@uol.com.br

 

Liberdade, Destino

Saiu a edição 67-68 da Revista Ide – psicanálise e cultura, trazendo artigos focados no tema ‘Liberdade, Destino‘; além de trabalhos não temáticos, contos, poemas ou crônicas e resenhas de livros (clique aqui para acessar o sumário).

Editada desde 1975 pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a publicação aceita trabalhos independentemente de os autores serem filiados à SBPSP e privilegia reflexões na interface da Psicanálise com a Cultura, buscando um diálogo com autores enraizados em diferentes áreas do conhecimento – antropologia, artes, filosofia, história, literatura, medicina, política, sociologia.

Para obter informações sobre o envio de trabalhos para publicação e ver as edições anteriores, clique aqui

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EDITORIAL Ide 67-68

*João A. Frayze-Pereira

Considerando a grande quantidade de artigos recebidos como resposta à carta-convite que divulgamos para a composição da Ide 66, decidimos dar continuidade à reflexão sobre as questões decorrentes do tema que propusemos – Easy rider: sem destino[1] – nos números 67 e 68, reunidos num só volume. Assim, ampliamos a elaboração iniciada anteriormente, com as proposições dos autores que nos prestigiaram com seus escritos sobre liberdade e destino, muitos dos quais inesperados, como, por exemplo, a bela crônica escrita por Paloma Jorge Amado, lembrando João Gilberto[2]. Mas, há também uma razão prática que justifica este volume duplo: desde que fomos convidados a assumir a editoria da Ide, em 2015, notamos o descompasso entre ano da edição e volume editado, descompasso existente há alguns anos. Então, considerando a avaliação feita pelos órgãos competentes, à qual a revista é submetida, periodicamente, decidimos acertar o passo com esta edição com dois números, correspondentes ao ano de 2019. Finalmente, resta-nos dizer que, por ser um volume duplamente temático, justifica-se um editorial mais extenso que os anteriores.

Liberdade, Destino – o que esses temas querem dizer?

A ideia da liberdade é tema presente em vários momentos da história da filosofia. Entretanto, no momento contemporâneo, como podemos ver em Sartre, ela surge referida ao estado para o qual o homem tende como projeto. Quer dizer, definido como projeto existencial, o ser humano é condenado a ser livre. Nessa medida, pode-se pensar a liberdade como a potência humana para ultrapassar qualquer adversidade que impeça o seu desenvolvimento pessoal – ideia que cabe bem na clínica psicanalítica. Entretanto, se para o senso comum, muitas vezes, liberdade significa poder – é livre quem não encontra obstáculo para a realização do que quer –, não é nesse sentido que Sartre pensa a liberdade cuja experiência pode ser situada desde o corpo, que não interfere na condição livre do ser humano. Quer dizer, posso estar cansado, doente ou apenas com mal-estar e minha liberdade não sofre com minhas dores; ao contrário, sendo livre, “posso desafiá-las, ultrapassá-las ou mesmo negá-las”. (Carrasco, 2011, p. 40; Sartre, 1943, p. 29). Assim, se a liberdade é um valor que funda o humano, a sua radicalidade está justamente nessa condição de que não há nada que me reduza à matéria senão a morte. Ou seja, até a morte somos livres para decidir o nosso destino. Até o advento da morte no curso de uma doença, somos livres para querer viver com tratamentos ou morrer. E resignar-se é uma decisão livre, tanto quanto não se resignar, quando há luta contra as circunstâncias. Ora, não por acaso, Merleau-Ponty, contemporâneo de Sartre, também se interessa pela experiência da doença, pois no campo das enfermidades, mais do que em qualquer outra situação, é mais claro perceber que temos um corpo, que este nos dá limites, mais limites do que supomos ter e, no entanto, a doença não nos reduz a um pedaço de natureza. Quer dizer, mesmo subjugados pela doença, não renunciamos a dar-lhe um sentido humano, a vivê-la como experiência humana. Na doença, somos capazes de exercitar a nossa liberdade, ao não aceitarmos sermos parte inerte da Natureza. E, novamente, essas ideias nos remetem à psicanálise, ao que, muitas vezes, vemos acontecer na clínica. No entanto, parece-nos que a concepção do homem como projeto existencial é necessária, mas não suficiente para dar conta da questão da liberdade no âmbito do pensamento clínico-psicanalítico, posto que, como projeto, o homem é lançado no indeterminado, e é essa indeterminação existencial que demanda reflexão no tocante ao seu estar no mundo. Em outras palavras, há fatos que dispensam a nossa vontade para ocorrer, mas que só podem ser aceitos nos nossos termos. Por exemplo, não dependeu da nossa vontade a geração do nosso ser: nascer é um dado não deliberado pela nossa consciência. Entretanto, ao sermos colocados no mundo, podemos ir além do que somos, podemos nos inventar. A vida pode deixar de ser anônima para se tornar vida vivida, e esta, então, se inscreve na cultura e passa pela liberdade. Porque somos livres, nosso destino, implicado pelo fato de ter nascido, faz-se história, nossa história, que Merleau-Ponty (1945, p. 517), por exemplo, entende como a passagem do natural ao humano. A liberdade seria, então, a capacidade para darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação e nosso pensamento. Nesse sentido, a liberdade não seria uma condenação à qual estaria sujeito o ser humano (como pensava Sartre), mas uma conquista feita por ele (como pensava Merleau-Ponty). Mas, por que os homens se ocupariam com a conquista da liberdade; afinal, para que serve a liberdade? Quanto a essa questão, lembramos de Hannah Arendt (2019), cuja concepção da liberdade é precisa – a liberdade não se define por um fim exterior a ela mesma, pois a liberdade é apenas para ser livre. Nessa medida, livre é o ser que não se pauta por uma condição exterior a ele, é aquele cuja liberdade não é uma escolha entre várias possíveis, mas aquele que, não se deixando determinar por forças externas, tem a força para se autodeterminar. Assim, “a liberdade, recusa da heteronomia, é autonomia” (Chaui, 2013, p. 198). Ora, essa ideia de liberdade ecoa na psicanálise contemporânea, correspondendo à noção de verdadeiro self, tal como proposta por Cristopher Bollas.

A partir dessas brevíssimas considerações, percebe-se que o tema da liberdade se articula a outra problemática – a questão do destino. Na verdade, ela é uma das temáticas-chave no pensamento dos filósofos, desde a antiguidade clássica, como Alexandre de Afrodisias que indaga: até que ponto o indivíduo, submetido ao destino, não deixaria de ser livre? (Sousa, 1999, p. 91). E, de fato, a interrogação do relacionamento entre liberdade e necessidade, relação que a figura do destino implica, é tão velha quanto a humanidade, e é por si só um capítulo antropológico, cujo desenvolvimento exigiria uma longa passagem não apenas pela história da filosofia, mas também pela mitologia e pela arte, antes de chegarmos à psicanálise. E, no campo da psicanálise, é interessante lembrar, como essa temática, mantida a articulação com a filosofia, pode ser abordada. Nesse sentido, apenas como um exemplo, lembro a distinção feita por Christopher Bollas (1992) entre “destino” e “fado”, termos cujas etimologias são diferentes: “fadoderiva do latim fatum, que é o particípio passado de fari, que significa falar. Fatum é uma declaração profética e fatus é um oráculo. Se fizermos uma revisão da literatura clássica – observa Bollas – , descobriremos ser o fado geralmente anunciado por meio de um oráculo ou pelas palavras de uma pessoa, por exemplo, quando o fado de Édipo é revelado pelo oráculo de Apolo em Delfos. No entanto o destino de Édipo é determinado pela sequência de acontecimentos que o oráculo anuncia. Destino, do latim destinare, significa fixar, segurar, tornar firme e a palavra destinaçãoé derivada dessa raiz. Assim, destino está vinculado mais à ação do que às palavras. Se fado surge das palavras dos deuses, destino é então um caminho pré-ordenado que o homem pode preencher (Bollas, 1992, p. 46).

Que lugar esses termos podem ocupar numa psicanálise? Considerando que a pessoa, ao procurar uma análise, está sofrendo e diz o que sente, ainda que de maneira vaga e imprecisa, pode-se afirmar que essa pessoa está fadada, isto é, pode interferir em seu campo de relações por intermédio do fluxo associativo e de interpretações, vindo a se livrar da maldição que a faz sofrer, cujo responsável foi o seu desconhecimento. Porém, simultaneamente ao fado, tal pessoa traz um destino, isto é, um potencial cuja realização depende menos de uma pesquisa reveladora do sentido da “sintomatologia oracular”, do que do movimento para o futuro através do uso do objeto, um desenvolvimento articulado à transferência (Bollas, 1992, p. 47). Em outras palavras, Bollas associa o sentido do fado ao conceito de falso self e à concepção winnicottiana do viver reativo, assim como articula a ideia de destino ao desenvolvimento do self verdadeiro da pessoa por intermédio do seu idioma pessoal que faz parte do “conhecido não-pensado” (1992, p. 56). Segundo essa concepção, sintonizada com a etimologia e a literatura clássica rastreadas pelo autor, destino refere-se a um potencial na vida de alguém, potencial que uma análise pode contribuir para fazer eclodir e facilitar ao indivíduo desenvolver. Nessa medida, uma das perspectivas de uma psicanálise é pensar o conhecido ainda não pensado, por intermédio do uso do objeto e da pulsão para revelar o self através do espaço e do tempo. Segundo essa perspectiva, ao pensar a sua situação, o indivíduo pode se tornar livre para usar os objetos e conquistar o seu destino, possibilidade cuja realização não é fácil, pois, no mundo atual, ela costuma implicar um alto custo. Quanto a isso, pode-se destacar, entre os artigos aqui publicados, o de Eduardo Goldenstein que se refere a Clarice Lispector, citando: “Ela é tão livre que um dia será presa. Presa por quê? Por excesso de liberdade. Mas, essa liberdade é inocente? É. Até mesmo ingênua. Então, por que a prisão? Porque a liberdade ofende”. Quer dizer, a liberdade, contrária à necessidade e ao medo, inibe e aterroriza aqueles que preferem a prisão oferecida pela confortável, mas entediante repetição do mesmo.

Em suma, as ideias que acabamos de resumir permitem a associação de outras, abrindo um campo bastante amplo para o leitor interessado nas relações entre cultura e psicanálise. Nesse sentido, cabe observar a composição da capa desta Ide, uma espécie de campo alegórico que alude à dimensão vertical da existência, desde o céu inquieto para onde aponta o braço da liberdade até o interior profundo da terra, uma caverna, em que é tecido o destino de cada um. E desde esse espaço duplicado na capa até o miolo desse volume duplo, nossa proposição foi a de instigar a liberdade da reflexão dos leitores, estimulando-os a associar livremente o espírito crítico ao destino da própria revista e, mais que isso, a encontrar durante a leitura o saber ligado ao sabor.

[1] Peter Fonda, conhecido sobretudo pelo filme Easy rider (1969), pelo qual foi indicado ao Oscar pelo roteiro, faleceu em 16/08/2019. Ícone dos anos 1960, não apenas por sua atuação como ator, mas por sua posição política, junto com a irmã, Jane. Com relação à sua passagem, a família Fonda declarou: “enquanto lamentamos a perda deste doce e gracioso homem, também desejamos que todos celebrem seu espírito indomável e amor pela vida. Em homenagem a Peter, por favor, façam um brinde à liberdade” (www1. folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08).

[2] João Gilberto, cantor, violonista e compositor brasileiro, faleceu em 06/07/2019. Considerado por musicólogos e críticos como o artista que revolucionou a música brasileira ao inventar uma nova batida de violão, com influências do jazz para tocar samba, criou livremente a “bossa nova”. Lembrando a passagem de Joãozinho com saudade, Paloma Jorge Amado nos autorizou a publicação da crônica que escreveu na ocasião, a quem agradecemos, sensibilizados.

Referências

Arendt, H. (2019). Liberdade para ser livre. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Bollas, C. (1992). Forças do destino. Rio de Janeiro: Imago. Carrasco, A. O. T. (2011). A liberdade. São Paulo:

Martins Fontes. Chaui, M. (2013). Contra a servidão voluntária. São Paulo: Autêntica.

Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.

Sartre, J.P. (1943). L’être et le néant. Paris: Gallimard.

Sousa, E. L. A. (1999). O destino: a voz outra da incerteza. Neurose obsessiva. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 17, pp. 88-93.

*João A. Frayze-Pereira é editor da Ide — psicanálise e cultura. Psicanalista, membro efetivo e analista didata da SBPSP.

O futuro da Psicanálise e o mundo em que vivemos

*Bernardo Tanis

Recentemente comemoramos os 50 anos da Associação dos Membros Filiados, integrada pelos analistas em formação no nosso Instituto. Foi um dia de festa, apesar de não contar com os abraços e brindes. Tive o prazer e a honra de participar do debate cujo título foi: O futuro da Psicanálise, com o querido Marcelo Viñar psicanalista, pensador e uma liderança da psicanálise latinoamericana, assim como com Gizela Turkiewicz, presidente da AMF e que contou com a coordenação da Cibele Rays.

Pertencemos a gerações diferentes e ao mesmo tempo compartilhamos o espaço-tempo presente, isto reflete a nossa perspectiva da vida institucional, pois não vejo outro caminho para o futuro da psicanálise que aquele a ser construído no entrelaçamento e parceria entre as gerações, entre as rugas e cicatrizes da experiência e maturidade, com as percepções, vigor , contribuições, críticas e sonhos acalentados pelas novas gerações.

Há anos me interesso e acompanho estudos sobre a história da psicanálise e suas instituições, seus diferentes modelos clínico-teóricos, os embates sobre a formação, muita tinta foi derramada em torno destes desafiadores assuntos. Considero que a perspectiva histórica-crítica retomada geração após geração, constitui um verdadeiro anticorpo, uma vacina (em tempos de Covid-19…) contra o pensamento dogmático e a ideia de que certas teorias ou modelos deteem a verdade última em contraposição ao pluralismo inerente ao nosso campo.

Recentemente li uma curta e impactante crônica do jovem e já consagrado escritor Julian Fuks: “No tempo da morte, a morte do tempo”, ficção necessária para dar conta do mal-estar real ao qual estamos submetidos em face à pandemia. Destaco uma imagem, fotograma pregnante 2 que alude a um inchaço do presente como se seu vulto engordasse tanto que ocultasse e bloqueasse a visão do futuro.

Com menos poesia que o meu escritor escolhido dei sequência associativa a esta imagem e brotou em mim o desejo de perfurar esse vulto agigantado de modo a recuperar a perspectiva temporal que tinha sido anulada. É isso que muitas vezes fazemos no processo de acolher a angústia avassaladora dos nossos analisandos quando algo que podemos imaginar, intuir, dizer ou sinalizar desanuvia a penumbra que assola o eu.

Ao olhar para a história de nossas instituições, para os processos de formação e participação na comunidade, para a inserção da psicanálise no mundo em permanente e desconcertante transformação, acredito ser necessário recuperar a perspectiva histórica-temporal, espetar a bolha do absoluto e avassalador presente pois ela poderá balizar o movimento e mobilidade necessários para não sucumbir à nostálgica idealização ou apego ao já conhecido, ao aparentemente seguro, mas não por isso menos defensivo da tradição.

Foi por isso que batizamos nosso II Simpósio Bienal da SBPSP, que acontecerá este mês, com a título, Fronteiras da Psicanálise: A clínica em movimento. Fronteiras móveis, mundo em permanente transição, subjetividades em transformação demandam uma clínica viva, em movimento e uma formação analítica à altura destes desafios.

Lembremos com Agambem da importância de não sucumbir de modo fusional e indiscriminado ao presente, de reconhecer sua opacidade, a nossa perplexidade e estrangeiridade para desse modo sim sermos contemporâneos. Perplexidade e estrangeiridade tão preciosas à psicanálise ancoradas na ideia do inconsciente na irredutível alteridade em face ao Outro.

Vivemos um presente sem narrativa, já sinalizado há décadas por Walter Benjamim, tomado por identificações e discursos alienantes. Presente dominado por uma ditadura da imagem, do imediato, por palavras de ordem, sofismas ou por um minimalismo de caracteres cifrados que incentivam o ódio e a intolerância; por uma urgência voraz que destrói o pensamento e quantifica ou melhor precifica a dor da perda ou morte. A história, a análise crítica, os argumentos e a busca do conhecimento têm sido muito maltratados e ignorados ultimamente!

Para Benjamin, a reflexão sobre a transmissão se torna essencial em oposição a uma concepção da tradição como uma continuidade canônica. O processo de transmissão faz parte integrante da “tradição”, e esta deve ser consequentemente desconstruída e interrogada.

Cabe-nos imaginar e criar o futuro da nossa disciplina, e não assistir melancólica e passivamente às catástrofes vindouras que muitos anunciam.

*Bernardo Tanis é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica. Presidente da SBPSP.

Crédito: Gelgas Airlangga

‘Depressão: expressões na infância’, ‘Criança: qual o mundo para ela?’ e ‘Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica’

Confira os resumos das apresentações de Audrey Setton Lopes de Souza, Vera Regina Marcondes Fonseca e Marilsa Taffarel no II Simpósio Bienal SBPSP – Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento.

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Depressão: expressões na infância

A depressão, como sintoma na infância, pode se manifestar, sim, por um lado, como apatia, autodepreciação, sentimentos de não ser amado pelos pais e pelos amigos, mas também como agitação, hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, mentiras, comportamentos antissociais, agressividade ou mesmo sintomas hipocondríacos. Em psicanálise, não consideramos apenas o sintoma aparente, mas sim todo o aspecto dinâmico das manifestações e por isto é possível considerar alguns comportamentos como representando a tentativa da criança de se defender de angústias depressivas.

Para entender esta questão é preciso entender que no desenvolvimento infantil existe o que alguns autores destacam como depressividade, isto é, o desenvolvimento implica na elaboração de alguns lutos imprescindíveis para o caminho rumo ao crescimento.

Quando estamos no campo do infantil precisamos destacar a importância da elaboração do primeiro grande luto: a percepção da mãe como um objeto separado, com todas as angústias daí decorrentes, a perda da onipotência infantil, o medo da perda real deste objeto amado, a culpa, a responsabilidade, a preocupação com o outro.

Aí estaria a grande questão do desenvolvimento psíquico, como viver a depressividade sem ser vencido por ela e sucumbir à depressão ou ter que recorrer a maciças defesas para não entrar em contato? Este é o campo que gostaria de explorar para abordar as diversas manifestações da depressão na infância.

Assim destaco a importância de estarmos atentos a estas manifestações, que precedem a depressão propriamente dita, oferecendo uma escuta a estas manifestações como agitação, agressividade ou mesmo atitudes onipotentes e desafiadoras, podendo encobrir a emergência de estados depressivos. Outro aspecto destacado na literatura é que alguns destes sintomas podem ser entendidos como um pedido de socorro da criança para que o adulto possa olhar para ela e dar voz a suas angústias.

É sempre importante destacar que nenhum destes sintomas deve ser considerado isoladamente e sim dentro de um contexto mais amplo, como algo que revela a existência de um conflito. Às vezes pode ser uma manifestação temporária como reação a alguma perda, outras vezes, quando alguém se propõe a ouví-la, entendendo suas manifestações como uma forma de pedido de ajuda, isto permite que a criança consiga elaborar suas dificuldades. Assim sendo, o pedido de ajuda de um psicanalista deve ser pensado quando estes comportamentos se instalam ao longo do tempo, evidenciando o sofrimento infantil e a dificuldade de encontrar outras soluções para seus conflitos.

Em face da pandemia do Covid-19 que nos atingiu de forma abrupta, o foco desta mesa será aprofundar a conversa de um ponto de vista metapsicológico sobre os possíveis destinos que poderemos dar às marcas psíquicas deixadas no seu rastro: trauma, ausência de representação… sentidos possíveis?

Eixo 1: A clínica em movimento
Sábado, 22/8
das 9:00 às 10:30
Mesa: Depressão: expressões na infância
Leonardo Posternak (HIAE) e Audrey Setton Lopes de Souza (SBPSP)
Coordenação Monica C. A. Povedano (SBPSP)

*Audrey Setton Lopes de Souza é membro efetivo e docente da SBPSP, professora aposentada do IP-USP, Doutora pelo IP-USP, professora do curso de Psicanálise com crianças do Sedes Sapientiae.

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Criança: qual o mundo para ela?

Para apresentar sua visão sobre o mundo suficientemente bom para o desenvolvimento da criança, parto dos seguintes princípios:

1- A adaptação da sociedade e do Estado às necessidades da criança, que implica também a proteção ao casal parental para que se dediquem à tarefa de criá-la, é um elemento fundamental (ainda que não suficiente) para o desenvolvimento de um mínimo de segurança básica, a partir da qual diversos desenlaces podem ocorrer.

2- Tal proteção é essencial, pois a vulnerabilidade e o medo modulam a infância do homem e seu desenvolvimento, sendo tarefa precípua dos pais e da sociedade criarem um ambiente em que o medo possa ser minimamente elaborado.

A elaboração dependerá tanto da realidade externa quanto dos recursos de transformação simbólica que permitirão à criança negociar com o perigo e o medo, sem expulsá-los imediatamente, o que levaria às defesas maníacas, mas também sem se deixarem massacrar e paralisar por eles.

Finalizo a apresentação com a descrição do sonho de uma infância em que tais condições seriam facilitadas pela sociedade e pelo Estado.

Sábado, 22/8
das 11:00 às 12:30
Eixo 1: A clínica em movimento
Mesa: Criança: qual o mundo para ela?
Ana Cristina de Araújo Cintra (Instituto Acaia) e Vera Regina Marcondes Fonseca (SBPSP)
Coordenação Marielle Kellermann Barbosa  (Instituto-SBPSP)

*Vera Regina Jardim Marcondes Fonseca é analista didata e docente da SBPSP, psiquiatra, Pós-doutora pelo IP-USP, Diretora do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, membro do Editorial Board do Int Journal.

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Fenomenologia e psicanálise: o lugar do corpo na clínica

O propósito da fenomenologia é voltar à experiência vivida (Lebenswelt) para cuidadosamente descrevê-la. Sem aventar hipóteses.

A fenomenologia propõe um contato anti-conceitual, anti-predicativo com o mundo. Suspendendo todos os julgamentos sobre as coisas para que delas recuperemos a presença.

Uma concepção fundamental da fenomenologia é da consciência como sendo sempre consciência de algo. Não ha separação entre ela e o mundo.

A psicanálise mostrou um recuo em relação à fenomenologia e ao perigo de perder sua potência transformadora caso permanecêssemos no plano dos fenômenos.

Nessa apresentação, falo brevemente sobre dois psicanalistas que, entre outros, puderam aproveitar o legado da fenomenologia em alguma de suas vertentes. Fábio Herrmann e P. Fédida, cada um a seu modo. Fábio, na redescrição que faz do método psicanalítico e Fédida, do qual tomo sobretudo um ensaio.

Fédida chama toda atenção para o que deve ser “posto entre parênteses”, suspenso: a margem exterior da linguagem – a da significação estabelecida – a fim de nos abrirmos para a margem interior, onde se encontra a “magia da linguagem”. (W. Benjamin)

O nome é para os gregos antigos – o lado interior da linguagem, o que fala a coisa mesma. Ele está dirigido para uma objetificação primária, uma metáfora original, enquanto a objetividade secundaria está na significação.

Precisamos esquecer nossas representações veiculadas por nosso hábito de pensar, dependentes do discurso por isso conscientemente harmoniosas, consonantes para irmos em direção ao dissonante que nos põe em contato com a alma do corpo.

Sábado, 29/8
das 9:00 às 10:30
Eixo 2: Psicanálise: diálogo nas fronteiras
Mesa: Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica
Miguel Calmon du Pin Almeida (SBPRJ) e Marilsa Taffarel (SBPSP)
Coordenação Mariangela de O. Kamnitzer Bracco (Instituto-SBPSP)

*Marilsa Taffarel é membro efetivo da SBPSP, docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP, psiquiatra pela Escola Paulista de Medicina, Doutora em Psicanálise pela PUC-SP. 

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Acesse aqui a programação completa do II Simpósio Bienal SBPSP

“Herdeiros do suicídio: sobre aqueles que ficam” e “Cidade em movimento: fronteiras e travessias”

Começa em 21/08, o II Simpósio Bienal SBPSP – Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento, trazendo quatro plenárias e quinze mesas que visam o diálogo interdisciplinar e dentro da própria Psicanálise, com foco nas questões do mundo atual e da clínica contemporânea, como o traumático da pandemia, violência doméstica, faces da depressão na infância, relações entre fenomenologia e Psicanálise.

No sábado 22/8, dentro do Eixo 1: A clínica em movimento, acontece a Mesa Herdeiros do suicídio: sobre aqueles que ficam, com a participação de Maria Júlia Kovács (IP-USP) e Cintia Buschinelli (SBPSP), sob a coordenação de Leda Spessoto (SBPSP).

No sábado 29/8, como parte do Eixo 2: Psicanálise: diálogo nas fronteiras, será realizada a Mesa: Cidade em movimento: fronteiras e travessias, com Paula Rochlitz Quintão (FAU-USP) e Tiago Porto (SBPSP), sob a coordenação de Rodrigo Lage Leite (SBPSP).

Confira a seguir os resumos das apresentações de Cíntia Buschinelli, Tiago Porto e Paula Rochlitz Quintão. Para acessar a programação completa do II Simpósio Bienal SBPSP, clique aqui.

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*Cíntia Buschinelli

Inicio estas reflexões a partir de um poema escrito por John Donne, poeta inglês do século XVIII: “Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de seu amigos ou o seu próprio. A morte de qualquer homem me diminui porque sou parte do gênero humano. Por isso, não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”.

Cada morte, mesmo aquela de alguém que não conhecemos, leva uma parte de nós, esclarece o poeta. O que dizer da morte auto infligida por um ser humano não só próximo, mas alguém que contribuiu definitivamente para nossa existência, e que por desejo próprio, se é que se pode falar em desejo nessa circunstância, desiste da vida?

Reconheço que as palavras até aqui utilizadas não traduzem a força do fenômeno que desejo discutir. Quando faltam as palavras, há algo que nossa compreensão ainda não atingiu. Ao escrevê-las, parece que são diminutas, superficiais, pedagógicas e não trazem à tona as emoções muitas vezes ambivalentes que tal tema possui. Mas, vamos adiante, com atenção redobrada, para sentir se elas, as palavras, conseguem tomar corpo.

“O que se passa com aquele que viveu a experiência da perda de alguém por suicídio?” é a pergunta que norteará nossas reflexões.

*Cíntia Buschinelli é membro associado da SBPSP.

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*Tiago Porto

Em evento trágico recente, que culminou com a morte de George Floyd, foi explicitamente exposta a violência de uma sociedade fortemente marcada pelo racismo. Este evento desencadeou globalmente uma forte onda de protestos antirracistas, justamente em uma época onde toda a humanidade percebe sua vulnerabilidade ao ser tomada por uma pandemia. Em nosso país eventos como aquele acontecem diariamente há décadas, com evidente normalização da violência por toda nossa sociedade. O racismo é uma estrutura de poder que se apresenta por diversas formas. Além de sua concretude econômica e política, o racismo é um discurso de poder que se apresenta como uma ideologia, a qual introjetamos, fazendo marcas profundas em nossa subjetividade. Esta introjeção encontra campo fértil em um sujeito pronto a eleger um corpo abjeto que o afaste de sua própria vulnerabilidade. Erguemos, portanto, fronteiras subjetivas de difícil transposição, onde o outro toma forma de inimigo, que não só deve ser excluído como destruído. Para nós nos mantermos em uma ilusão de uma identidade coesa e não vulnerável, destinamos ativamente uma série de corpos para a abjeção. A psicanálise pode se apresentar como uma ferramenta útil para a travessia destas fronteiras e para a descolonização das subjetividades, desde que o analista se disponha a escutar estes corpos excluídos e tenha coragem para sustentar a provocação de seus referenciais epistêmicos advinda desta escuta.

*Tiago Porto é médico pela Faculdade de Medicina da USP, membro associado da SBPSP e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
 

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*Paula Rochlitz Quintão

Em tempos de pandemia faz-se necessário falar sobre os mais vulneráveis, aqueles que não apenas perderam o emprego, mas os que nem sequer têm onde fazer quarentena: as “Pessoas em Situação de Rua”.

A existência de pessoas que moram nas ruas é um fenômeno global. Embora com características diversas, é presente em todas as metrópoles mundiais, mesmo em países desenvolvidos. Na pandemia de 2020, como era de esperar, este número cresceu em todo o mundo. Ainda não há dados concretos sobre o número global, mas dados parciais de várias cidades que têm incluído esta população no seu cenário presente apontam para essa tendência.

Trata-se de uma população heterogênea, como têm mostrado os Censos realizados na cidade de São Paulo desde  2000, que quantificaram e traçaram o perfil geral desta população. Para esta, as políticas públicas apresentadas têm como intenção final a retirada destes indivíduos do espaço urbano.

Mas a análise do que chamamos de maneira generalizada de “população em situação de rua” mostra que há pessoas que desejam sair dessa situação – condição, portanto, circunstancial, – e outras que continuam / continuarão a habitar as ruas por motivos variados – condição, portanto, permanente. Uma variável importante refere-se ao tempo de rua, uma vez que a permanência na rua altera o comportamento das pessoas, suas percepções, e cria um tipo de sociabilização que torna a saída das ruas cada vez mais difícil[2]. Dados do Censo (2009) mostram que 25% da população mora nas ruas há menos de 1 ano. Por outra parte, 25% permanece nas ruas há mais de 10 anos[3]  – ou seja, quanto maior o tempo de rua,  mais improvável as possibilidades de saída desta.

As mesmas políticas públicas que definem como morador de rua aquele que “por contingência temporária ou permanente, pernoita em logradouros públicos, (…)”, parecem não contemplar esta parcela que estará sempre nessa situação – seja por impossibilidade de saída desta condição, seja por permanência prolongada, por resistência ou mesmo por renovação do contingente (no sentido de que, mesmo com a saída daquele indivíduo, outro entrará no seu lugar). Haverá, portanto, continuadamente, uma parcela flutuante que, efetivamente, habitará as ruas.

As estruturas urbanísticas voltadas a esse grupo são escassas, pouco eficazes e parecem partir do pressuposto de que há um desejo em todos moradores de deixar de morar nas ruas. Espera-se uma solução definitiva, simples (e simplista): prevalece a ideia de que este fenômeno tem causas exclusiva ou simplesmente concretas (pandemia, perda de emprego, de casa, ausência de vínculos familiares, desigualdade social, fragilidades psíquicas, drogas, entre outros), que poderiam ser resolvidas com ações pontuais: provendo a casa, o emprego, ou reestabelecendo os laços familiares, por exemplo, retiraríamos esses indivíduos da rua e, portanto, em teoria, não haveria mais moradores de rua no cenário das nossas cidades. Esta noção é, no entanto, equivocada.

Se, então, para uma parte dessa população, a resposta adequada seria a oferta aos meios que proporcionem sua saída das ruas – e, neste caso, o albergamento e outros centros de apoio e acolhida aparecem como possibilidades – o grande e novo desafio diz respeito aos que continuarão a viver nas ruas. Soluções urbanas homogeneizantes resolvem apenas parcialmente o problema, pois desprezam o cerne da problemática: a complexidade que é inerente à natureza da vida humana, principalmente nos grandes centros urbanos. Se há possibilidade de outras intervenções na contemporaneidade, é preciso aceitar trabalhar com esta contingência.

Partindo de um ponto de vista concreto – da cidade como território ocupado / espaço urbano construído, em contraponto ao discurso da subjetividade, – a ideia seria abrir a discussão para as fronteiras, não do psíquico, mas do espaço propriamente dito: fronteiras do espaço físico ocupado pelo sujeito, e os fluxos e deslocamentos desta população, que tem uma lógica de ser, e precisa ser analisada para que se possa, somente então, se propor estratégias de melhoria, retirada, ou inclusão destes indivíduos no cenário urbano.

Projetar para a população de rua inicia-se, portanto, pelo estudo de sua inserção física no tecido urbano – sua localização – e, por fim, do seu espaço imediato, seu entorno, seja ele na rua ou no projeto de seu quarto dentro do abrigo, albergue ou afins – o lugar (lugar). Passa também por uma análise objetiva, quantitativa, de dados estatísticos (mapas, dados, Censos) entendidos como complemento aos saberes a respeito da subjetividade, do desejo do sujeito.

No presente trabalho, analisaremos a movimentação da população de rua por duas variáveis que são inerentes a sua existência: Fluxos (movimentos) e Fronteiras (limites).

O diálogo entre os campos da Arquitetura e do Urbanismo e o da Psicanálise se presta a demonstrar que essas não são falas excludentes nem opostas, mas sim complementares, sem as quais um fenômeno tão complexo como o “morar na rua”, não poderá ser contemplado.

[1] Derivado da dissertação de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da autora: “Morar na rua: há projeto possível?”, com orientação de  Prof. Dr. Carlos Roberto Zibel Costa, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, FAUUSP, em 2012.

[2] FIPE, 2009/2010, arquivo 3, p.6.

[3] FIPE, 2009/2010, arquivo 3, p.6.

*Paula Rochlitz Quintão é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, pesquisadora sobre população de rua na área de urbanismo. Atua como arquiteta em escritório próprio.