Mês: julho 2020

A grama do vizinho é mais verde – reflexões sobre a inveja

“Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de
incerto jeito, pode já estar sendo o querendo mal, por principiar.
(Rosa, 2006, p. 16)

*Teresa Cristina Ribeiro Kfouri

Pouco antes de sua morte em 1961, Melanie Klein surpreende mais uma vez com sua criatividade a comunidade psicanalítica, discorrendo sobre a inveja primária e seus desdobramentos na personalidade. Diz ela: “Meu trabalho ensinou-me que o primeiro objeto a ser invejado é o seio nutridor, pois o bebê sente que o seio possui tudo que ele deseja e que tem o fluxo ilimitado de leite e de amor que guarda para sua própria gratificação.” (Klein, 1991a, p. 214)

Ela diferencia a inveja do ciúme e da voracidade dizendo que o ciúme é baseado no amor e visa a posse do objeto amado e a tentativa de eliminar o rival. No caso da inveja, a relação é dual, onde a pessoa inveja o objeto por alguma posse ou qualidade não havendo necessidade de outro objeto vivo na relação.

Nos desenvolvimentos patológicos do Édipo, a inveja do relacionamento dos pais desempenham papel importante, mais do que os sentimentos de ciúme. Fortes sentimentos de inveja conduzem ao desespero. Não sendo encontrado o bom objeto não há esperança de amor e até mesmo de qualquer possibilidade de ajuda. Os objetos são destruídos e tornam-se fonte de perseguição e de culpa. Ataques invejosos aos bons objetos – pai, casal, mãe que alimenta – interferem nos processos introjetivos e o resultado é um sofrimento para aprender, pensar e amar.

Klein, no início do texto Inveja e Gratidão, um dos mais significativos e o último de seus trabalhos teóricos de maior importância, diz : “Há muitos anos venho me interessando pelas fontes de duas atitudes que sempre foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso de solapamento das raízes dos sentimentos de amor e gratidão, pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe”. (Klein, 1991a, p. 207)

A inveja é a mais radical das manifestações dos impulsos destrutivos, pois leva ao ataque e à destruição dos bons objetos cuja introjeção é a base para uma vida psíquica saudável. Klein descreve a inveja como manifestação de impulsos destrutivos de raízes profundas associada a voracidade sempre insaciável, a inveja consiste em uma ânsia pelo bom do outro entrelaçado com forte desejo de destruir, devido a falta de um sentimento básico de satisfação íntima, fruto de frustrações iniciais que desencadeiam ódio e ressentimento contra tudo que é bom – no dito de nossas avós, “o saco sem fundo”.

Ao descrever a dinâmica da inveja primária, Klein introduz a capacidade de experimentar gratidão como uma espécie de antídoto. É pela gratidão para com a bondade do objeto e pela capacidade de usufruto dos benefícios que dele se infere, que a inveja fica amenizada e às vezes até neutralizada – desenvolvimento e crescimento mental são evidências dos efeitos da capacidade de ser grato. A inveja é um destruidor do bem estar do próprio invejoso, a auto-inveja que ataca o que tem de bom e esvazia o sujeito, quando associada à avidez e à voracidade, quero tudo e muito, a experiência é a de “quem tudo quer e nada tem”.

Diz a sabedoria popular, como expressão da inveja, que a grama do vizinho é mais verde. Nesse sentido, a inveja é também um sentimento doloroso – o que eu tenho não serve e não presta e o bom esta lá fora com o outro. No caso de a cisão ser profunda, tudo se volta contra o outro, mas não se trata de que o ódio não deixe de corroer o íntimo de quem ataca. É como no caso do homem bomba que destrói seu entorno, mas antes de tudo é o primeiro a ser destruído. O alvo principal da inveja é a bondade que engloba as boas qualidades, a capacidade criativa e a generosidade do bom objeto.

Inveja e Gratidão foi um texto causador de muita polêmica no meio psicanalítico. Winnicott foi um dos que tomou posição sobre o tema da inveja para uma discordância profunda e explícita. Esse trabalho reafirma a importância da necessidade de análise longa e duradoura como possibilidade de permitir ao paciente ter acesso a seus sentimentos de inveja obscuros desde a vivência materna primária e que insistem em ser “esquecidos”, penso que com a colaboração dos fatores de religiosidade e puritanismo que a inveja atinge. É necessário a despeito da dificílima tarefa de elaboração, que na relação analítica possa se repetir a relação com o objeto primário e admitir a inveja da vitalidade, da capacidade de luta e criatividade, da fecundidade e generosidade da fonte de vida de que precisamos e somos dependentes.

*Teresa Cristina Ribeiro Kfouri é membro filiado da SBPSP e do GEP S. J. Rio Preto e região.

O tempo circular e a marmota eletrônica

*Alexandre Socha

A constatação de que cada pessoa experimenta de maneira muito particular uma situação que se oferece como coletiva e compartilhada pode, à primeira vista, soar demasiado óbvia. Sua complexidade, no entanto, se desdobra na clínica psicanalítica durante a pandemia, quando os modos singulares de se viver e de sobreviver a ela são colocados em evidência. Se as marcadas diferenças sociais e econômicas insistem em nos explicitar que não vivemos todos a mesma pandemia, somam-se aqui também as diferenças de repertório simbólico e de estruturação psíquica de cada um.

Mesmo assim, ao longo dos últimos meses escutei de diferentes pessoas um comentário semelhante, que se repetia aqui e acolá. Trata-se do sentimento incessante de que os dias se repetem, o dia seguinte idêntico ao dia anterior, todos iguais. Não raro utilizam como referência o filme Feitiço do Tempo (1993), para descrever essa espécie de “dia da marmota” ao qual encontram-se aprisionadas. No filme em questão, a passagem do tempo é interrompida e o protagonista acorda sempre no mesmo dia, não importando nada do que tentasse fazer para romper a repetição.

Tal sentimento costuma ser relacionado, pelas pessoas que o relatam, com a perda dos marcadores que lhes permitiam reconhecer uma segunda-feira como segunda-feira, quarta como quarta e domingo como domingo. Trabalho, estudo, lazer e o cuidado com as crianças se intercalam sem as suas usuais distinções espaço-temporais, isso quando não mesmo justapostos. Passado os primeiros meses, alguns puderam criar novas estratégias para medir a passagem do tempo, outros continuam às voltas com a questão. Todos, no entanto, parecem estar lidando com certo acirramento na dissonância entre o tempo do relógio e o tempo vivido. As horas se arrastam lentamente, enquanto o mês passa voando, ou vice-versa.

À repetição dos dias acrescenta-se ainda outro sentimento: o da estranheza de que dentro de casa nada de novo parece acontecer enquanto, simultaneamente, do lado de fora o ritmo dos eventos é frenético. O colapso na saúde pública, as ameaças da necropolítica brasileira, o escalonamento das tensões sociais e institucionais. Tudo ocorre em uma velocidade tal, que basta um dia sem acompanhar o noticiário para tornar-se o ermitão de uma longínqua floresta. É como se, agora, afirmam alguns, tudo acontecesse do lado de fora, onde a urgência e gravidade dos fatos exigem constante atenção. Curiosamente, enquanto os olhos acompanham o movimento ininterrupto pelas telas do celular e do computador, paralisam quando ensaiam, por um instante, retornar a si.

Frente ao contraponto sugerido pela “marmota” e pelo contraste dentro-fora, fui visitado por uma analogia musical.

Uma grande parte da música ocidental que escutamos possui uma forma linear, com começo, meio e fim. A “forma sonata”, largamente utilizada na música de concerto, ou a “forma canção”, explorada pela música popular, são formas orientadas por um senso de narrativa. Saímos do ponto A, passamos pelo B, chegamos ao C, podemos voltar ao A e daí por diante.

Essa temporalidade sequencial é radicalmente distinta da que encontramos em outras tradições musicais, como, por exemplo, em músicas tribais, indígenas, árabes, nas percussões africanas ou em alguns gêneros de música eletrônica. Nessas, não há proposto um caminho narrativo e historicizante. São antes formas circulares, texturas sonoras que instauram um tempo infinito, um eterno agora. Novos elementos podem até ser acrescentados (um instrumento diferente, uma nova frase melódica ou rítmica que é incorporada), mas isso é feito de modo tão sutil que não rompe sua condição circular.

Se as escutamos “de fora”, com ouvidos acostumados à música linear, sua ausência de progressão pode se tornar cansativa e soar monótona. Ao embarcarmos nela, entretanto, o vazio melódico é preenchido por um tecido complexo de ritmos e timbres, criando uma temporalidade capaz de induzir o ouvinte a estados meditativos, de transe ou êxtase.

Mas, o que aconteceria se essa música parecesse não terminar nunca? Como a escutaríamos se ela se arrastasse por dias, meses, indefinidamente, sem que tivéssemos uma previsão clara de seu fim?

Uma segunda analogia pode ser convocada. O psicanalista inglês D. W. Winnicott, ao descrever os momentos iniciais do desenvolvimento humano, propõe como um de seus pilares fundamentais aquilo que chama de continuidade de ser (going-on-being). Esta seria como um fio que perpassa as diferentes situações vivida pelo bebê (o espaço entre a amamentação, o sono, ser banhado, embalado, etc.) reunindo-as na permanência de uma unidade, uma unidade de si mesmo. Temos aqui, implícita, a ideia de que é justamente o movimento entre essas experiências aquilo que cria a sensação de continuidade processual.

A pergunta, então, novamente se coloca: e se não houvesse, para esse bebê winnicottiano, uma discriminação mínima entre os momentos vividos, entre o estar desperto e dormindo, entre sentir fome e saciedade? Poderíamos supor, imaginativamente, que neste caso o tempo para, restando nada além do aprisionamento a um presente estático. Para alguns isso pode se traduzir em tédio, para outros, em ansiedade ou ainda em uma profunda angústia.

Talvez tivesse isso em mente, sem perceber, quando dias atrás um analisando me contava sobre seu comportamento impulsivo de compras durante a pandemia. Havia comprado um pacote de feltros, antes disso uma parafusadeira e antes um jogo de porta-copos. “Nada disso precisava tanto assim”, concluiu. Lembrei de conversas com alguns amigos que diziam estar também comprando pequenos apetrechos mais do que o habitual. Além dos víveres, materiais para bricolagem, acessórios de cozinha e bricabraques diversos.

Com frequência, fica subjacente a ideia de que “quando tal coisa chegar, aí sim vou poder fazer isso ou aquilo outro”. Ou seja, com as panelas novas, a comida certamente ficará mais gostosa, com o aspirador moderno, a casa ficará mais limpa, com o kit de ferramentas, tudo ficará consertado. Obviamente, não é o que acontece. Falta, muitas vezes, o ânimo para cozinhar, o aspirador acaba não alterando o aspecto da casa tanto assim, o conserto não alcança o que foi quebrado e passa-se então ao próximo item.

Ao escutar o analisando que se questionava sobre tais movimentos, tive a impressão de que estávamos diante de algo diferente da habitual compulsão por compras, do preenchimento de um vazio ou do movimento evacuativo de angústias. Na ocasião, disse-lhe que, mais do que o objeto em si, talvez fosse a experiência de esperar por algo, o que estaria sendo procurado e ansiado. Uma ação que lhe fizesse tomar posse do tempo, antecipando o som do interfone que toca, o pacote finalmente nas mãos sendo aberto. Esperar, manter-se em espera e nela sentir-se vivo.

Pensando agora, talvez buscasse a criação de uma chegada, um evento que pudesse romper a circularidade e instaurar novas temporalidades à música de sua quarentena.

*Alexandre Socha é psicanalista, membro associado da SBPSP.

A luz do meio-dia

* Pedro Colli Badino de Souza Leite

Há alguns anos atendo um paciente que guarda consigo a seguinte lembrança encobridora 1. Ele tem cerca de cinco ou seis anos, e já gosta de dormir até um pouco mais tarde. Sua mãe não tolera essa sua preferência, seja durante os dias de semana quando a rotina da escola se faz presente, seja nos finais de semana, férias ou feriados. Todo santo dia ela entra em seu quarto e escancara as janelas, fazendo a luz entrar de uma só vez por toda a parte. Sua memória é essa, a de acordar atordoado em meio a tamanha claridade.

Não por acaso, a memória se atualiza através da máquina do tempo da transferência. Na maior parte das sessões ele me expõe a um sem fim de informações sobre o seu dia-a-dia, e diante da poluição de estímulos, me vejo como aquela criança desorientada, tendo meus órgãos perceptivos sobrecarregados pelo excesso da “mãe-luz-do-sol-na-janela-escancarada”. Quando eu pergunto sobre essa dinâmica que se impõe sobre nós, ele chega a dizer sobre a ambição de que um dia eu pudesse conhecê-lo por completo. Com esse pano de fundo, chegamos a uma sessão na qual surpreendo a mim mesmo no meu silêncio – estou entoando algum tipo de mantra de algum tipo de espiritualidade de algum país oriental. A repetição muda daquela vogal demonstra ter a capacidade de criar uma película psíquica que pode filtrar a carga de informações despejada pelo paciente. Com isso, depois de muito, muito tempo de repetição, há uma abertura. Dentro de minha nova membrana sinto que ganho um espaço precioso na sala, e este vem acompanhado por um sentimento de alívio e de aguçamento de minha escuta. Por vezes, exagero na meditação e percebo que a película se tornou uma parede acústica – estou me protegendo em excesso. Começo a me pôr questões se todo o fenômeno não seria defensivo, e se o que é solicitado de mim não seria receber por completo a experiência da criança atordoada.

Em meio a isso, o paciente nota que algo mudou em mim. Ele não consegue falar sobre isso e também parece não conseguir me escutar sobre o fato. De qualquer maneira, eu percebo que ele percebeu algo. Pouco a pouco, mesmo que a elaboração não venha se expressando por meio de associações e interpretações formais, a poluição sensorial parece reduzir. Ele, que apesar de ser o dono, sempre foi invadido por sua “empresa-mãe-luz-sem-filtro”, começa a estabelecer protocolos que o protegem do acesso direto aos muitos funcionários com quem convive. Tem início uma reforma do seu lugar de trabalho, que inclui uma sala própria inédita com o isolamento físico e simbólico adequados. Depois, ele começa a criar uma nova rotina de trabalho para si – período em que estará no modo avião, sem sinal para falar com quem quer que seja, para poder refletir sobre a empresa e também para proteger sua criatividade. Se antes ele era atingido diretamente pela torrente de emails e WhatsApp, agora começa a se instalar um tempo de espera, um interlúdio para o seu próprio pensar. Em outras palavras, a película criada durante a experiência contratransferencial estava sendo pouco a pouco introjetada, o que o paciente parecia sentir como um ganho para o seu “estar-no-mundo”.

Sobre a poluição de informações concretas e minha espontânea reação meditativa, penso que existe um interesse não apenas clínico, mas também social. Nessa dinâmica de bombardeamento de dados associada à falta de uma membrana, podemos encontrar uma analogia com a nossa atual sociedade da informação, onde o excesso de luz não tem como fonte o sol, mas as próprias telas de nossos televisores, computadores, tablets e smartphones. Em abril de 2019, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas2 revelou que no Brasil havia 230 milhões de smartphones ativos, ou seja, vivemos em um país onde há mais telefones do que pessoas. Nessa estatística, estamos à frente da média global, onde há uma estimativa de que 67% da população do globo tenha acesso a esse tipo de instrumento de comunicação. É provável que em nosso país cada habitante não tenha de fato o seu próprio smartphone, mas o número explicita uma tendência de nossa comunidade local e global à supercomunicação.

No entanto, a supercomunicação não parece ser causada pelo aumento da quantidade de aparelhos celulares. Pelo contrário, talvez o aumento exponencial desses números apenas explicite um conjunto de forças mais oculto. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han parece captar parte desse fenômeno intra e interpsíquico através de sua chave: excesso de positividade/falta de negatividade. Ele explora esta fórmula em diversos ângulos de nossa existência contemporânea, inclusive no que diz respeito ao âmbito da comunicação e do contato com a realidade. Para se referir à perda da película da negatividade, ele usa a metáfora da perda imunológica de um organismo. Em seu livro No Enxame: Perspectivas do digital (2019), em um capítulo nomeado Cansaço da Informação, ele diz:

Uma defesa imunológica intensa sufoca a comunicação. Quanto menor a barreira imunológica, mais rápida se torna a circulação de informação. Uma barreira imunológica elevada torna a troca de informações mais lenta. Não a defesa imunológica, mas sim o “curtir” promove a comunicação. A rápida circulação de informações acelera também a circulação de capital. Assim, a supressão [da barreira] imunológica cuida para que massas de informação nos adentrem sem colidirem com uma defesa imunológica. A baixa barreira imunológica fortalece o consumo de informações. A massa de informação não filtrada faz, porém, com que a percepção seja embotada. Ela é responsável por alguns distúrbios psíquicos.

Temos aqui uma descrição que evoca rapidamente termos como: Facebook, Instagram, WhatsApp, TikTok, meme, etc. As mídias digitais e as redes sociais, vem se tornando mais e mais especializadas em derrubar os filtros pelos quais a informação transita, o que acarreta no processo de aceleração mencionado. Por exemplo, se você abrir um desses aplicativos e rolar continuamente para baixo o feed de conteúdos, perceberá que ele não tem fim. Você poderia fazê-lo por 24 horas e ainda assim haveria novas informações a cada deslizar dos dedos. Esse recurso foi desenvolvido por engenheiros da era digital, e se chama barra de rolagem infinita. Tal tecnologia desmonta limites, filtros e barreiras, tornando possível que uma quantidade imensa de informação possa adentrar nosso aparelho psíquico sem muita resistência imunológica.

Um outro exemplo deste mesmo fenômeno pode ser encontrado numa mudança recente na Netflix. Até pouco tempo atrás, para assistir um conteúdo do streaming, você deveria escolhê-lo dentro de um rol de opções. Por outro lado, hoje um trailer do filme já começa a ser exibido automaticamente se você não tomar nenhuma medida ativa para barrá-lo. E o mesmo ocorre ao final de um episódio de seriado – o próximo capítulo será iniciado dentro de pouquíssimos segundos, a não ser que você ativamente aperte o botão para interromper o fluxo audiovisual. Muitas vezes, não há tempo para esse gesto de negatividade, e as cenas seguintes invadem nossas telas. O filósofo diz que a consequência mais imediata desse tipo de relação com a informação é o definhar da percepção e o estupor do pensamento. O pensamento justamente é a ação psíquica que necessita deixar de lado toda a percepção que não é essencial ao que está sendo pensado. O pensamento requer a negatividade do filtrar, do esquecer. Ele trabalha para distinguir o essencial do não essencial. O pensamento requer a presença de uma membrana. A informação é inclusiva, cumulativa, enquanto o pensamento é exclusivo. Mais uma vez, temos o excesso de luz (uma luz sem sombra) e a falta de filtro que ofuscam ao invés de esclarecer.

Além desse colapso imunológico da percepção, Han ainda estende seu exame do processo de perda da negatividade ao contato com a realidade do mundo. Ele argumenta que percebemos e sentimos o mundo porque este se contrapõe a nós, ou seja, temos contato com a realidade pela resistência que ela nos oferece em ser conhecida ou dominada. O esforço científico ou psicanalítico trabalha contra esse algo da realidade que resiste, e o conhecimento obtido nessa empreitada é sempre parcial, limitado, incompleto. Tal resistência funciona como uma barreira entre nós e o mundo, de forma a sustentar as saliências, as arestas, a incompletude e o mistério do universo e da vida. Justamente, a nova massa de textos e imagens que jorram pela luz de nossas telas enfraquece a resistência que a realidade nos oferece. Hoje, vivemos as fake news, mentiras que não descrevem a realidade como ela é, mas sim como gostaríamos que ela fosse. As mensagens falsas que recebemos no WhatsApp muitas vezes repõe a falta de sentido, o absurdo do Homem e do Mundo. Dessa forma, o universo perde em segredo, em nuance, em complexidade, para que nosso Eu possa positivá-lo através da crença e do consumo.

Além dos textos distorcidos que enfraquecem tal resistência da realidade, a nossa relação com as imagens também parece caminhar no mesmo sentido. Tiramos inúmeras fotos e a elas aplicamos inúmeros filtros, mas as fotos tiradas começam a escapar da realidade percebida. A vida no Instagram parece mais viva, mais colorida, mais real do que a realidade deficitária resistente. O livro citado ainda nos lembra da síndrome de Paris, afecção psíquica aguda e grave que acomete diversos turistas, caracterizada pelos sintomas de alucinação, desrealização, despersonalização e pânico. O gatilho dos sintomas é a incongruência entre as imagens hiper-reais consumidas previamente sobre a cidade luz e a experiência real de estar andando por Paris. De forma precisa, o sintoma vem para denunciar que as imagens otimizadas anularam a resistência do mundo real deficiente. A desrealização na síndrome de Paris é o início de um tratamento psíquico a partir da quebra da ditadura do imaginário, com a abertura para a precariedade do que é real. Nesse sentido, não nos parece defensivo o tirar compulsivo de fotos, como se quiséssemos destruir as rugas da realidade?

Pouco a pouco vamos trocando o nosso mundo pobre em cores e sentido por um outro melhor, menos feio, menos absurdo. Ao longo dessa substituição podemos observar a perda da negatividade da realidade, ou seja, a perda de uma membrana não apenas dos órgãos psíquicos que recebem a massa de informações, mas sobretudo do universo que nos cerca. Um universo sem membrana é um universo morto, totalmente acessível e consumível. Esse filtro representa aqui a sombra, a vida que não se deixa conhecer, a área que não pode ser iluminada completamente, o escuro que pode formar gradações e matizes com a luz. Sem ela, a positividade do Eu passa a imperar de forma mórbida e desenfreada.

Uma vez que possamos nos familiarizar com tal descrição de nossa vida contemporânea em torno do binômio excesso de positividade do Eu/falta de negatividade do Outro, estaremos em melhores condições para avaliar o impacto da pandemia da doença Covid-19 provocada pelo vírus Sars-Cov-2. Em artigo recente intitulado O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã (2020), o mesmo Byung-Chul Han descreve o lugar do vírus nesse cenário:

Mas há outro motivo para o tremendo pânico. Novamente tem a ver com a digitalização. A digitalização elimina a realidade, a realidade que é experimentada graças à resistência que oferece, e que também pode ser dolorosa. A digitalização, toda a cultura do “like”, suprime a negatividade da resistência. E na época pós-fática das fake news e dos deepfakes surge uma apatia à realidade. Dessa forma, aqui é um vírus real e não um vírus de computador, e que causa uma comoção. A realidade, a resistência, volta a se fazer notar no formato de um vírus inimigo. A violenta e exagerada reação de pânico ao vírus se explica em função dessa comoção pela realidade.

Dessa forma, podemos encontrar no estado de pandemia atual alguma semelhança com a síndrome de Paris. Um turista hipotético teria aplainado as saliências da realidade por meio das imagens melhoradas da capital francesa. O contato com a Paris real faz o império da imagem ruir, resgatando parte das imperfeições do universo. Em escala global, todos nós temos nivelado tais arestas da realidade por meio dos fenômenos descritos acima, substituindo-a por um mundo infiltrado pelo narcisismo excessivo, liso como a tela de nossos smartphones. Nesse cenário surge o Sars-Cov-2, um vírus que restitui a negatividade daquilo que não pode ser conhecido ou controlado completamente. É provável que estejamos todos passando por algum tipo de desrealização, mas uma desrealização específica, a saber, a perda da realidade otimizada que temos construído nos últimos anos com a ajuda da supercomunicação.

  1. Uso o termo para me referir ao processo que Freud descreveu em Lembranças Encobridoras (1899), onde esse tipo de memória surge como uma das formações do inconsciente, num compromisso entre o processo primário e as instâncias de censura.
  1. https://eaesp.fgv.br/sites/eaesp.fgv.br/files/noticias2019fgvcia_2019.pdf .

  

* Pedro Colli Badino de Souza Leite é membro associado da SBPSP e membro do Núcleo de Psicanálise do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.

Consciência da própria história

*Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo

 

A adoção é uma opção existencial para aqueles que desejam exercer as difíceis funções parentais. Seja o casal heterossexual, homossexual ou monoparental. Será preciso trabalho mental para lidar com as dificuldades, lutos, frustrações, quando não tem sido possível a concepção do próprio filho biológico.

Outras vezes, a decisão de adotar uma criança surge de mandados internos de compaixão, solidariedade, obrigatoriedade. Ou tentativas de reparação por danos fantasiados, fontes de insidiosa culpa.

O “delírio de bondade” (Ahumada, 1999) é também frequente. Os pretendentes à adoção projetam na criança o próprio desamparo e partes carentes da personalidade. Eles, então, assumem uma postura onipotente, poderosa, “livres” da própria pobreza mental.

Uma narrativa frequente é (1): “Nós encontramos você magro, desnutrido, triste no abrigo. Nós cuidamos de você, oferecemos cuidados médicos, escolas, viagens, uma vida de qualidade. Nada lhe faltou e agora você…”.

Para evitar a dor, esse casal deixa de reconhecer o valor do filho, quem lhes deu a possibilidade de serem pais, já que para eles não foi possível a concepção do desejado filho biológico. A esterilidade é negada. Eles depositam a desnutrição psíquica nessa criatura e assim luzem a onipotência.

“Nos sucede esta desilusão porque ele não é nosso filho. ”Para o bebê, a criança e/ou adolescente, quando institucionalizados em abrigos, mesmo quando têm um padrinho voluntário, ou quando vivem em famílias que os acolhem temporariamente, até serem adotados, há uma privação das funções parentais estáveis, em intimidade.

Pais adotantes

Exercer funções parentais suficientemente boas não é tarefa fácil para ninguém; nem para os pais biológicos. Ao dizer “suficientemente boas” nos afastamos dos ideais onipotentes de perfeição, de salvação. Somos apenas  homens, não somos deuses e portanto seres limitados. Claro que transformações sempre são possíveis!

Quando essas funções são adequadas e a criança adotada tem recursos psíquicos e não está gravemente prejudicada pelos traumas sofridos, ela poderá vir a ser um sujeito capaz de brincar, criar, se expressar, conviver, pensar, sonhar.

Os encontros harmônicos, sintonizados, significativos com o filho, que transcendem os cuidados materiais – com moradia, higiene, saúde, alimentação, escolaridade –, promovem o crescimento psíquico.

“Mamãe limpa este bumbum cheio de cocô para você ficar limpinho, perfumado, meu tesouro. O bebê com o olhar fixado no seu rosto dá gargalhadas em quanto flexiona e estica as perninhas. ”Nessa cena do método de observação de bebês, modelo de Esther Bick (3), a observadora é testemunha de uma relação misteriosa e estética entre a mãe e Pedro, de 8 meses. Ambos revelam encantamento recíproco. Ele busca e se encontra refletido no olhar da mãe, espelho vivo. Para essa mãe, seu filho é um tesouro que expressa sua alegria com a movimentação das pernas e as gargalhadas. Ela lhe atribui valor e, assim, a autoestima é construída.

A paternidade brinda a oportunidade de mergulhar na própria história de vida dos progenitores. O bebê, a criança, o adolescente estão presentes no adulto, fazem parte da personalidade total dos pais. Esses registros são evocados. Às vezes, há uma possibilidade de ressignificar esse percurso; outras, há uma repetição compulsiva.

“Eu não quero que Theo sofra o que eu tenho sofrido com o autoritarismo, a arrogância, a estupidez do meu pai, com a pobreza, com a vida dura.”

Às vezes, os pais não têm consciência da própria história de vida e, com a intenção de “mudá-la” com e para o filho, repetem o mesmo script. Ambos vivem a invariância da história, como as duas caras de uma mesma moeda, com múltiplas variações. O filho, que agora é pai, pode continuar aprisionando pelo próprio mundo interno e agora arrasta Theo a seu calvário.

A transmissão psíquica intergeracional permite que elos unam a nova geração com as anteriores. Os valores, o álbum de família, as obras, as condecorações, as receitas dos avós, os tesouros herdados, as relíquias, as histórias narradas estreitam os laços familiares.

O novo ser estranho, desconhecido, às vezes de outra raça, poderá ser enraizado numa árvore genealógica. Na adoção, o filho bem recebido poderá se apropriar dos valores e ideais dos antepassados. Os antecedentes genéticos, orgânicos, podem ser desconhecidos, mas a transmissão psíquica é de outra ordem. Avós, tios, primos, na família ampliada, são, em certas comunidades, muito importantes e podem propiciar ora um ambiente facilitador, ora um ambiente perturbador para o crescimento mental.

A transmissão psíquica permite que os antepassados estejam presentes como modelos indenitários. Enraizar o filho adotivo na árvore genealógica é legitimar seu lugar na família ampliada do casal adotante. Importam a aceitação e a integração verdadeiras do novo integrante na família ampliada. Um berço mítico é construído com o tecido da tradição renovada.

“Eu guardei para uma possível neta o anel de brilhantes de casamento da minha mãe. Agora que ela chegou, esse é nosso presente para Ana.” “Esta avó recebe Ana como sua neta. Ela presenteia a menina com a joia da bisavó, que consagrou seu casamento. Gesto que enlaça Ana aos elos entre as gerações.” Outras vezes a herança é maldita, perturbadora, uma transmissão transgeracional (Kaës & Faimberg, 1996). Nela, o que não foi processado, elaborado pelos avós, pais, pesa sobre a prole como registros ingovernáveis que não podem vir a ser representados, simbolizados, pensados.

Conhecer tanto quanto seja possível a forma como cada progenitor viveu a vida, entrar em contato com os próprios fantasmas e com as potencialidades de transformação são antídotos para a transmissão transgeracional na descendência (Faimberg, 1996; Kaës y Faimberg, 1996; Gampel, 2002, Trachtenberg et al., 2005). A transmissão de fardos, mentiras, segredos, cruzes, dogmas sufoca a mente do infans em formação e pesa mais quando uma criança já foi traumatizada. Uma paciente em análise relata:

“Eu sempre me senti feia, inferior, desajeitada, desvalorizada, meus ombros largos, a cor da minha pele, meu cabelo crespo marcavam minha raça. Eu lembro que, após a missa pelas bodas de ouro de meus avós maternos, o fotógrafo estava tentando acomodar todos na escadaria da igreja. Como sempre, eu estava quase escondida num canto. Ninguém me percebia. Mas o fotógrafo perguntou: Essa menina é dessa família? Tinha gente chegando para um casamento. “Minha vó respondeu: Claro que ela não é dessa família! Você não está percebendo o cabelo bombril? Eu não estou em foto alguma, eu não era querida.”

A mudança do nome

O nome é o berço da identidade, ele condensa desejos, projetos identificatórios, modelos de inspiração dos pais. A mudança do nome da criança adotada revela as dificuldades dos pais para aceitar a própria história e a do bebê. Sua vida não começa ao chegar na família. Ele tem registros sonoros de um nome que o nomeia. A mudança de nome pode aumentar o sentimento de estranheza.

O nome tem tanta importância na formação da subjetividade que quando nasce um bebê e é abandonado no hospital, ao chegar a um abrigo, importa que o cuidador mais encantado, mais próximo emocionalmente ao infans, o batize com o nome de sua preferência, para submergê-lo na cultura e no processo de humanização.

Chamar uma criatura como boneco, E.T., alienígena, pretinho é aliená-lo da condição humana. Quando os pais colocam o nome de um familiar morto há uma cruz a carregar que pode pesar num self já traumatizado.

“Um casal perde um bebê concebido com as técnicas de fertilização assistida (TFA) após várias tentativas aos 2 meses de idade. Não consegue engravidar novamente. Minhas hipóteses sugerem que há um terrível luto não elaborado, um terror que impede implante do embrião. Rapidamente, adotam um bebê quando são chamados pela Vara. Eles substituem o bebê morto “escolhendo” seu nome para o bebê adotado, que é colocado de saída num caminho sombrio.

“Esse nome condensa a história de dor ante as múltiplas perdas, ante uma primogênita não sepultada. Consultam, a pedido do pediatra, por que Luz, de 13 meses, apresentava sinais de transtornos autistas: não olhava nos olhos, não sorria, não brincava, não tinha linguagem pré-verbal, com grave hipotonia, preferia segurar objetos duros nas mãos. Pais enlutados, tristes, desvitalizados não podiam investir com o esforço que uma criatura assustada, isolada, não responsiva exigia deles. Ela estava protegida numa porosa barreira autista. Com a intervenção psicanalítica na família, os pais, o irmão e a paciente, foi possível que Luz saísse de seu refúgio autístico e construísse vínculos emocionais.”

A história da adoção

Quando a adoção não é legitimada pelo processo judicial, as fantasias inconscientes de roubo do bebê estarão potencializadas. Histórias de mentiras e segredos sobre a trama da adoção também podem pesar como fantasmas no infans adotado.

Elas dificultam o exercício da paternidade. Pais inculpados perdem a espontaneidade, a naturalidade, a capacidade intuitiva. Os pais adotantes de Édipo são um exemplo paradigmático. Eles podem interpretar como castigo qualquer atitude do filho que os desagrade. Um clima persecutório pode permear a relação com temores exacerbados sobre a possível perda do filho.

É oportuno também citar, nesse apartado, as frustrações, a dor, o sofrimento, o ressentimento dos pais quando não é possível conceber um filho com as TFA, apesar das múltiplas tentativas.

Muitos fatores podem estar entrelaçados e contribuir para a não formação do embrião, as dificuldades de implantação, os abortos espontâneos etc.

Sem deixar de ter em conta os aportes de outras ciências, cabe destacar que fatores emocionais podem estar presentes e perpetuar a esterilidade enigmática. Quando a adoção de uma criança não foi a primeira opção do casal, mas a saída, quando esgotados os recursos psíquicos para investir novamente nas TFA, a presença mental do sonhado filho biológico idealizado pode estar muito arraigada.

Os pais que não podem pensar nas possibilidades e riscos da adoção podem interpretar os sinais de perturbações emocionais no filho como a evidência da herança genética.

“Ele é impulsivo, agressivo, rebelde, explosivo, pelo sangue ruim. Doutora, isso é genético, está marcado no DNA.” “Analista: Nós não sabemos sobre as marcas no DNA! Quando os senhores relatam que ele quer voltar a este consultório, ele mostra um caminho esperançoso. Muitos fatores podem estar presentes, entrelaçados em Luiz para ele estar assim.”

O desconhecido pode ser muito assustador e perturbador, fonte de fantasmas aterradores. A busca de explicações causais, deterministas X determina Y; a impossibilidade de tolerar incertezas, os dogmas organicistas dificultam as possibilidades de transformação que a Psicanálise pode oferecer.

Estrutura dos ideais

Por que queremos um filho na nossa vida? Freud (1914) sugere que a descendência permite ao ser humano lidar com a própria morte. O filho permite transcender a vida dos pais. É a obra que permanece.

O paradoxo é como continuar essa cadeia de gerações, como levar os apelidos dos pais e, simultaneamente, se diferenciar deles, ser você mesmo e não ficar aprisionado nas garras do narcisismo parental.

Os pais têm projetos identificatórios sobre a descendência, sonhos, desejos que nutrem a vida mental em formação quando bem usados. Um ideal presente seria ter podido gestar e parir o próprio filho biológico mesmo com as TFA.

Outras vezes, os adultos exigem dogmaticamente, impõem ideais como se o filho fosse uma possessão, um troféu, e não um ser humano diferente deles. Não há uma relação de alteridade, e sim de domínio (Lisondo, 2011).

Especificamente na adoção, os pais podem interpretar o filho que dá trabalho: as solicitações de permanente contato corporal, os caprichos, o negativismo, as reivindicações, os transtornos da alimentação e do sono, os problemas escolares, o choro incompreensível, as somatizações, o necessário confronto geracional na adolescência seriam como desagradecimento.

O filho pode estar anos-luz dos ideais parentais que negam o sofrimento da adoção e as demandas emocionais do infans.

Essa distância é fonte de depressão, desilusão, ferida narcísica. Como se as perturbações na prole denunciassem as falhas nas funções parentais, fonte inesgotável de culpa. Os pais podem vir a ser os melhores aliados do analista e apostar no percurso para uma vida com menos sofrimento para todos os envolvidos. O determinismo entre causas e efeitos é obsoleto. Múltiplos fatores entrelaçados podem configurar os transtornos na vida emocional do filho.

O bebê adotado

A maioria dos casais que pretende adotar uma criança opta por um bebê. Essa escolha é humanamente compreensível, porque se o infans é adotado após o nascimento, a institucionalização em abrigos ou famílias acolhedoras pode ser evitada (Levinson,2004).

O trauma pela perda da mãe biológica, pela fratura entre o mundo pré-natal e pós-natal estará presente, mas o bebê poderá vir a construir um vínculo com a mãe adotante (Lebovici, 2004; Lisondo, 2010), mesmo quando ambos sejam estranhos (Freud, 1919).

O bebê perde o conhecido mundo sensorial, a vivência de continuidade. A privação de abrigo num útero mental, no momento da dependência absoluta, provoca angústias catastróficas primitivas de dilaceramento, liquefação, precipitação, fear of breakdown (Winnicott, 1974).

A qualidade dessa relação misteriosa mãe-bebê-família dependerá do encontro entre as expectativas do bebê, seu arsenal genético, as condições do parto, os sinais vitais e o mundo psíquico dos pais. O amparo, continência que a mãe possa receber do pai e da família ampliada, permitirá que ela ganhe confiança e possa exercer com rêverie a nova função.

E quando a adoção não é de um bebê e sim de uma criança mais velha? Além dos traumas já citados, a criança sofre com a institucionalização. Isso porque os abrigos representam um mal necessário. Pela própria estrutura, várias crianças têm um só cuidador e ele não é estável. Em trabalho anterior (Lisondo, 2011), menciono que, pelos diferentes turnos e plantões, uma criança pode vir a ter 11 cuidadores por semana.

Não é possível criar uma relação de intimidade e confiança com cada um deles. A sensorialidade é fundamental no início da vida. Cada funcionário tem um timbre de voz, um vocabulário, uma entonação, um perfume, uma forma de contato corporal. Para o cuidador é muito difícil, salvo exceções, ter um espaço mental singular e único para cada uma das crianças que cuida.

Trabalho do psicanalista

O trabalho entre o psicanalista e os pais para pensar a adoção, em qualquer momento do processo (2), permitirá criar um espaço psíquico para o filho. Ao lidar com as dores da alma, elaborar os lutos ante a esterilidade, a não concepção do sonhado filho biológico, a transmissão genética, os futuros pais podem revitalizar suas potencialidades e criar melhores condições psíquicas para acolher, compreender e promover o desenvolvimento dessa criatura já traumatizada ao invés de perpetuar queixas melancólicas.

Para saber mais:

Complexo fraterno

O ECA (4) sugere que os irmãos não sejam separados, sempre que possível. Nem sempre os pais adotantes têm disponibilidade para adotar toda a confraria.Em famílias disfuncionais os irmãos nem sempre convivem, tendo diferentes pais e/ou mães. Como diz um pai adotante numa entrevista:
“Ninguém pode impor amar por decreto lei.”
Ou seja, a adoção de um filho nasce das entranhas do ser. O inconsciente não respeita regras.

Nesses difíceis complexos fraternos, às vezes laços de irmandade são criados com outras crianças do abrigo. Uma peculiaridade é a culpa por ter sido o escolhido, enquanto o irmão, o coleguinha, continua institucionalizado.

O projeto “Fazendo história”

O projeto desenvolvido em 2019 tem um valor terapêutico em si mesmo. Nele a criança compartilha com um voluntário treinado os recortes significativos de sua vida num caderno: nascimento, chegada ao abrigo, amigos, esportes e brincadeiras preferidas, ídolos, medos, pesadelos, sonhos, projetos… Também dados dos pais biológicos. Essa narrativa é digitalizada e consta no processo no fórum. Os pais adotantes recebem o filho com essa história afetiva e não só com um prontuário médico. A adoção suficientemente boa é a realização da expectativa esperada, o sonho de encontrar uma família, um lar de verdade. Ver gráficos:

 

No Brasil

Dados de 2019 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que existem, aproximadamente, 47 mil crianças e adolescentes em situação de acolhimento no Brasil. Do total, 9,5 mil estão no Cadastro Nacional de Adoção e somente 5 mil estão, efetivamente, disponíveis para adoção. A criança passa a constar da lista de adoção depois de tentativas de reinserção na família de origem falharem, e se não houver formas de a criança ficar com a família extensa – tios e avós, por exemplo.

O método Bick

O método Bick de observação de bebês foi criado em 1948 pela psicanalista britânica Esther Bick, com o objetivo de acompanhar a relação mãe-bebê. Seu principal intuito foi oportunizar aos estudantes uma experiência prática com bebês, reconhecendo o benefício que o método pode trazer à formação clínica.

Referências

Ahumada, J. L. Descobertas e Refutações: a Lógica do Método Psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, Freud, S. Itroducción del Narcisismo. In: Freud, S. Obras Completas, v. 14, p. 65-104. Buenos Aires: Amorrortu,

__________ Lo Ominoso. In: Freud, S. Obras Completas, v. 17, p. 217-252. Buenos Aires: Amorrortu, 1919. Gampel, Y. El Dolor de lo Social. Buenos Aires: Psicoanálisis,

Instituto Fazendo História. Uma nova história de acolhimento. In: Famílias Acolhedoras (), IFH, 2019.
Kaës, R.; Faimberg, H. La Transmisión de la Vida Psíquica entre Generaciones. Buenos Aires: Amorrortu.

Lebovici, S. Diálogo Leticia Solis-Ponton e Serge Lebovici. In: Pereira da Silva, M. C. (Org.). Ser Pai, Ser Mãe. Parentalidade: um Desafio para o Terceiro Milênio. São Paulo: Casa do Psicólogo, Lisondo, A. B. D. Rêverie revisitado. In: Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, n. 4, p. 67-84,

__________ Filiação simbólica ou filiação diabólica? Proferida na I Jornada Brasileira Interdisciplinar sobre Homoparentalidade,

__________ O desamparo catastrófico ante a privação das funções parentais. Na adoção, a esperança ao encontrar o objeto transformador. In: MELLO, R. A. A.; NUNES, W. Des-amparo e a Mente do Analista, p. 193-232. São Paulo: Blucher,
Levinzon, G. K. Adoção. São Paulo: Casa do Psicólogo,
Trachtenberg, A. R. Transgeracionalidade de Escravo a Herdeiro: um Destino entre Gerações. São Paulo: Casa do Psicólogo,
Winnicott, D. W. Fear of breakdown. The International Review of Psycho-Analysis, v. 1, n. 5, p. 103-7,


Alicia Beatriz Dorado de Lisondo
é psicanalista didata, docente, psicanalista de crianças e adolescentes pelo IPA do GEP Campinas e da SBPSP, membro de Alobb, cocoordenadora do Grupo de Adoção e Parentalidade da SBPSP e membro do grupo de Pesquisa Protocolo Prisma na SBPSP.

* Este artigo foi publicado pela revista Psique (número 170).