De dentro pra fora, de fora pra dentro: reflexões convocadas pelo confinamento

*Maria José Tavares B. Irmã

 “O fato é que estou uma bagunça por dentro e por fora” (Clarice Lispector)

Quantas variáveis estamos experimentando aqui e agora? Isolamento, quarentena, pandemia, confinamento, fique em casa, estas palavras estão sendo proferidas de forma intercambiável na linguagem cotidiana do cenário atual. Todos esses acontecimentos estão mobilizando em nós estranhos avessos.

Diante do inimigo invisível que nos assombra dia e noite, e que nos obriga ao confinamento, não temos outra escolha senão cuidar de nós, dos que amamos e dos que, de longe nem conhecemos como sujeitos e muito menos como realidade social.

Convém, talvez, mencionar o que pode parecer óbvio, que o significado da palavra confinamento é:um estado ou condição do que ou de quem se encontra preso, cercado e impossibilitado de sair”. Logo, nesse estado, somos tomados por uma prevalente angústia, ansiedade e incerteza, aliada a sentimentos como raiva, ódio e tantos outros afetos de natureza tão íntima. Em meio ao confinamento somos tomados por uma invariável sensação de impotência, que vem não somente de dentro, mas também de fora como mencionou um paciente: “a pressão é muito grande e de todos os lados”. A incerteza toma conta de todos nós.

No início de março, quando iniciei meu confinamento, me peguei muito angustiada, ansiosa e solitária. Pouco depois, numa sessão de análise, questionei meu analista a respeito da presença da instituição da qual faço parte. Quis saber por que estavam tão “quietos”, pois não havia visto nenhum texto publicado a respeito da atual situação. Num momento em que, sem sombra de dúvida, estava difícil para qualquer um escrever alguma coisa, pois uma dura realidade havia sido imposta, eu queria sentir algum tipo de acolhimento advindo da instituição. Se é que eu entendi bem, ele me disse que eu queria colocá-los para trabalhar.

Depois dessa conversa eu fiquei pensando que talvez pudesse oferecer algum tipo de trabalho, e não ficar esperando que alguém trabalhe para mim ou por mim. O sentimento de desamparo é comum em todos nós, mas neste tipo de situação ele se exacerba. Foi então que diante da minha solidão de palavras escritas e faladas, solidão de presença e de ausência, encontrei nesta experiência subjetiva coragem para escrever alguma coisa.

A solidão, condição natural do ser humano, faz a gente pensar, o que pode ser de alguma maneira transformador. Enquanto escrevia me recusava a ler os textos escritos por outros colegas, para não me sentir tentada a copiá-los ou a invejá-los, pois a essa altura muitas publicações já haviam sido apresentadas. Mas os li, apesar das minhas exigências. É difícil ser criativo num momento de tanta desorganização e em que nossa liberdade está limitada.

Freud (1917[1915]) ao descrever o luto normal nos diz: “ O luto, de maneira geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. Devaneando em meus pensamentos, andando pelos quatro cantos da casa, inquieta, tentando encontrar um sentido para tais acontecimentos, sento-me à mesa e tento escrever. Vou me dando conta da importância das relações humanas no corpo a corpo, no nosso dia a dia, da falta que faz.

Em O Mal-estar na Civilização (1930[1929]) ao se referir à infelicidade descreve: “O sofrimento nos ameaça a partir de três dimensões: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência, do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro”.

Indubitavelmente o sofrimento que advém dessa última fonte é muito mais penoso, mas sem ele haveríamos de nos sentirmos ainda mais desamparados, pois é na relação com o outro que nos estranhamos e nos reconhecemos, mesmo que de forma inconsciente.

Sobretudo na experiência clínica, é notável o sofrimento que estamos atravessando. Outro dia um paciente me disse: […] “é muita coisa para lidar, é como um peso absurdo de suportar, são muitas dúvidas, incertezas, não tem base sólida”. Outra disse: […] “parece que nós caímos num buraco profundo, a gente não sabe o que tem lá dentro, não sabe o que vai acontecer”. É interessante observar como essas metáforas vão dando um sentido a essas experiências subjetivas, olhar para dentro de si e se dar conta do caos interno e ao mesmo tempo para fora num movimento de profunda confusão, como uma maneira de suportar e quiçá dar nome a acontecimentos tão dolorosos.

Neste cenário confuso, solitário e ao mesmo tempo excessivo, fomos convocados a entrar no mundo virtual e no mundo real. Instala-se um paradoxo entre a falta e o excesso. Estamos sendo bombardeados por inumeráveis informações e convites para atividades virtuais. Nosso corpo a corpo agora é com a máquina, nossos olhos e ouvidos estão ainda mais conectados com a tela dos nossos smartphones e notebooks, é lá fora, do outro lado da tela que nos encontramos com o outro. Em tão pouco tempo tivemos que nos reinventar, aprender tarefas tecnológicas, seguir vivendo apesar de tanta estranheza.

A jovem Anne Frank, que viveu seu confinamento junto com sua família num anexo secreto de um prédio durante o período de 12 de junho de 1942 a 1º de agosto de 1944, na segunda guerra mundial, e que em seu diário pessoal narra os horrores, as tensões e o medo aterrorizante vivenciados durante o período, nos convida a pensar com essa mensagem de esperança.

“É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperança permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonados todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis. No entanto eu me apego a eles, porque eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são realmente boas de coração”. Anne Frank (1942/1945).

Certamente, o contexto histórico vivenciado por Anne Frank se diferencia do nosso por inúmeras razões, mas principalmente porque o inimigo daquela época era de carne e osso e muito barulhento. Se o “fora”, era muito diferente na guerra do que é hoje, o “dentro” de casa e de si pode ser muito parecido. Contudo, apesar da confusão entre o dentro e fora de nós, dos estranhos avessos sonhar pode ser uma valiosa saída.

Referências:

(1930 [1929]) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

(1914 [1917]) Luto e melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Frank, Anne, (1929-1945) O diário de Anne Frank/Anne Frank; Trad. Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: Record, 2007, Título original Het Achterhuis. 

www.dicio.com.br/confinamento/ Dicionário online de português acesso em 16/04/2020.

*Maria José Tavares Barbosa Irmã é psicóloga e psicanalista, membro filiado do Instituto Durval Marcondes (SBPSP). Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública (Faculdade de Saúde Pública/USP).

1 comentário

  1. Parabéns Mari pela iniciativa de escrever o que sente.
    Sabemos que para muitos a situação é desesperadora. Mas também sabemos que o “olhar” é um ato de escolha.
    Como nos ensinava o grande mestre Paulo Freire: “Quando não há mais sonho, só nos resta o cinismo”. Bjs🌼

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