Mês: junho 2020

Border: estranheza e compaixão

*Luciana Saddi

O filme implacavelmente expõe o que é o medonho, o terror. Quem atua no roubo e na mutilação de bebês e crianças? Homens ou monstros? Seriam o ódio e o rancor dos que foram excluídos da sociedade e da humanidade, dos que sofreram impiedosamente a falta de respeito, bem como dos que perderam o amor e o reconhecimento, e daqueles que foram e são tratados sem nenhuma compaixão, explorados até a última gota de sangue que engendram o mal? Ou simplesmente, sem motivo algum, a pulsão de destruição surge e toma conta dos homens. Seja como for, por sofrimento e/ou por gosto, não nos enganemos, pois ambos anunciam com imenso gozo destrutivo o fim do mundo, o eterno fim da nossa civilização. Border, a fronteira entre vida e morte, entre amor e destruição, entre bem e mal. O embrião do fim do mundo foi anunciado, não sabemos como exatamente identificar de onde surge o aniquilamento e como se propaga, mas não podemos negá-lo. É preciso investigar, conhecer o mal e lutar até dizimá-lo.

A protagonista Tina trabalha como policial nas docas de Estocolmo. É guarda de fronteira, tem como atribuição fiscalizar bagagens e passageiros. Sua aparência é estranha, principalmente pelos traços grosseiros, que muitas vezes torna indistinguível a diferenciação entre os gêneros. Atingida por um raio na infância – reza a lenda familiar –, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, que a torna capaz de “ler as pessoas” e detectar mentiras apenas pelo olhar e pelo olfato – o que sempre representa vantagem na sua profissão. Suas suspeitas se mostram invariavelmente corretas após a investigação. Border é o termo que usamos para quem vive na fronteira. Border é a própria fronteira.

Até que Tina identifica um criminoso em potencial, mas não consegue achar provas para justificar sua intuição e passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada pelo suspeito. Ela precisa descobrir qual o segredo de Vore. Inexplicavelmente, ambos possuem características fisionômicas semelhantes e que causam estranheza. A câmera, próxima dos personagens, percorre ângulos incomuns e revela, lentamente, aspectos um pouco animalescos dos protagonistas, que lembram os extintos neandertais.

Dolorosa caminhada

A investigação de Tina resulta em uma jornada, um caminho de descoberta de si mesma, autoconhecimento, e também de Vore. Dolorosa e curiosa caminhada rumo a segredos e verdades – a exemplo do trabalho analítico –, na qual a policial se fortalece no processo de investigação e, ao mesmo tempo, se torna mais empática aos sofrimentos humanos. No interior dessa trama há ainda outra em curso, paralela, da qual Tina é peça fundamental. Trata-se de desvendar uma possível quadrilha de vendedores e/ou abusadores sexuais de crianças e bebês. O prodigioso faro da guarda de fronteiras é recurso fundamental para apanhar os criminosos e descobrir como os crimes são realizados.

Border é um filme que une conteúdo e forma de maneira exemplar. Somos apresentados a personagens estranhos, quase que deformados, com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense. Aparentemente, o único prazer de Tina é “farejar” os maus elementos e os segredos que passam pela fiscalização de passageiros e bagagens. Tina parece ser, em muitos momentos, fria, distante e indiferente. Do tipo que cumpre suas obrigações com rigor, mas nada sente. Poderíamos dizer dela o mesmo que Freud disse, há mais de um século, das histéricas, “belas indiferentes”. Entretanto, beleza não é a palavra para designar as rudes feições da policial.

No início da trama somos apresentados à sua vida doméstica. Um marido autocentrado, preocupado apenas com seus cachorros e prazeres. A relação entre eles é de falsa intimidade. Nenhuma atração ou sexo. É como se Tina tivesse desistido de querer, desejar, amar, e estivesse conformada com as agressões e solidão a dois. A casa malcuidada, quase suja, precária, transmite sensação incômoda de abandono e falta de amor. É, por sinal, a mesma sensação que temos quando a câmera a escrutina: abandono. Além da feiura evidente, há estranheza. Faltam peças. Algo não se encaixa. Sobra mistério. Há também o pai, vivendo num asilo, de quem ela cuida com carinho ainda que com certa formalidade.
 Ao longo do filme descobrimos que ela foi adotada. E Tina irá também buscar a verdade sobre sua adoção. A mentira sobre seu nascimento e adoção nunca havia sido questionada.

Potencial de prazer

Border narra o percurso que vai do conformismo desafetado à autonomia e responsabilidade pela própria vida. A transformação da guarda de fronteiras se dá na relação com Vore. Desse encontro sexual e amoroso – do qual ela continua intrigada – surgem amor-próprio, autoconfiança e um saudável questionamento sobre sua origem familiar. Erotismo e paladar se desenvolvem lado a lado. Um mundo novo se revela. Tina parece estar feliz e se sentir livre pela primeira vez. Ela se delicia com as texturas do corpo, com as potencialidades de prazer que a vida erótica proporciona, com a descoberta de novos alimentos e com a integração à natureza, como se voltasse ao habitat natural. Tina desabrocha, apodera-se de seu desejo e dispensa o antigo relacionamento.

O encontro amoroso com um novo parceiro é, antes, um encontro com si mesma. Desse encontro surge o descobrimento de suas capacidades, independência e autonomia. A apropriação erótica do corpo a leva a uma posição mais ativa no mundo. O repertório pessoal da personagem se expande. A repressão afrouxada provoca novos questionamentos. O filme pode ser visto como metáfora do trabalho psicanalítico. Quanto mais nos conhecemos, mais fortes e livres nos tornamos, e também mais capazes de incomodar e de questionar o status quo. Esse é o movimento de Tina que o diretor nos convida a acompanhar de perto com deslumbre e emoção.

Observa-se, também, o movimento natural dos amantes em direção ao isolamento, decorrente da fantasia universal dos apaixonados que subjaz na crença infantil de serem feitos de matéria especial, diferentes dos demais da espécie humana. Feitos um para o outro, somente. A fusão os torna especiais. Os amantes vivem nas bordas da realidade, são únicos. Tal estado de apaixonamento é descrito por Freud ao tratar do narcisismo. Border, qual a fronteira do amor? Quem amamos quando amamos alguém? O amor ao outro é também amor a si mesmo. Border, na paixão, o eu e o outro se confundem.

Sustentar as próprias verdades, ter voz e autonomia, percorrer caminho paralelo com a investigação edípica: Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Que família é essa? Pertenço ou não pertenço ao meu grupo? Perguntas que crianças e adultos saudáveis se fazem durante a existência sem ter necessariamente respostas. Tina foi adotada e quer respostas sobre sua origem, sobre as marcas em seu corpo e sobre as diferenças entre ela e sua família, diferenças que antes passavam despercebidas pois eram negadas.

A curiosidade da policial também se dirige ao amante e à estranheza excitante que ele causa. Ele tem muito a ensinar e algo a dizer.

Cegueira pulsional

Haverá uma revelação inquietante e assustadora no final do filme. O mistério é a emoção que impregna Border do começo ao fim. A presença de Vore potencializa o mistério. Homem feio, transgressor, que vive de acordo com suas próprias regras, muito diferente de Tina. E que a leva às perguntas fundamentais nos relacionamentos: Quem é você? O que quer de mim? São os eternos questionamentos, ainda que inconscientes, sobre nossos primeiros vínculos de amor. Procuramos desvendar o enigma de nossos pais ou o pensamento sucumbe. Caso a capacidade de pensar e perguntar não seja solapada, o impulso para o conhecimento, a curiosidade da criança pequena sobre seus pais e sobre a sexualidade poderão se transferir para amplos aspectos de sua vida. Ou não, a depender dos processos de familiarização e da dor originada em tais processos.

O processo de familiarização, de aculturação, a que todos somos submetidos desde o nascimento é sempre estranho, violento e bizarro. Implica em cegueira, renúncia e restrição às forças pulsionais. De fato, nascemos num “hospício” e aprendemos suas regras. Tais regras se assemelham a muitas normas culturais que nos rodeiam. Para uma boa parte dos humanos o mundo parece como dado e não pode ser questionado, é assim e pronto. Alguns percebem o “hospício dos outros”. Sempre é mais fácil ver a loucura das regras familiares e culturais fora de nós. Dessa forma, Tina sofreu, como todos nós, uma espécie de “lavagem cerebral” até se tornar mulher adulta, filha carinhosa e esposa submissa. Tal “lavagem”, irremediavelmente, todos sofremos, desde o nascimento, pois em nosso desamparo inicial dependemos inteiramente do outro para nos apresentar à vida e ao mundo. Border, na fronteira entre instinto animal e pulsão. Entre ser e não ser.

Em relação à forma, o filme rompe com os tradicionais gêneros cinematográficos por reunir quase todos os gêneros ao mesmo tempo. Drama, tragédia, comédia, suspense, policial, terror, jornada, autoconhecimento, erotismo e sexualidade. São infinitas as possibilidades de leitura, de camadas de sentido sobrepostas, compostas, condensadas e justapostas que o jovem diretor, Ali Abassi, é capaz de produzir em quase todas as cenas. Além da permanente sensação de estranhamento ao transitar entre a fantasia, o realismo fantástico e o realismo sem se fixar em uma categoria. Border, na fronteira dos vários gêneros consagrados pelo cinema.

 

Categoria inqualificável

Já assistimos a filmes sobre monstros, sobre frankensteins, vampiros, zumbis, king kongs ou até mesmo filmes com heróis mais disformes e indefesos como Homem Elefante ou O Corcunda de Notre Dame. Border, embora traga algo de monstruoso e incômodo pela feiura e esquisitice de seus personagens, vai além. Os personagens principais são inqualificáveis, não há categoria para eles, assim como não há categoria para o próprio filme. Não fica difícil estender o mesmo raciocínio para todos nós. Basta olhar de perto, da forma como a câmera faz, como os psicanalistas fazem diariamente em seus consultórios, para saber que cada ser humano é uma categoria inqualificável, insubstituível, única, singular. Somos mistura, sempre estranha aos outros, de tantas qualidades, características, histórias, dores, detalhes e em constante metamorfose. E Abassi insiste em nos mostrar de perto tais características e suas transformações. Como se apelasse ao público pelo reconhecimento de humanidade naquilo que é quase não humano. E, dessa maneira, provoca um jogo sagaz de identificação e desidentificação no espectador. Viver e ser diferente da norma. Border subverte padrões de comportamento, gênero, biologia e sexualidade em cenas que, algumas vezes, até causam certa aversão.

Ao assistir Border nos permitimos a feiura, vestimos a pele do bizarro e experimentamos como vivem os que sofrem preconceitos em nossa sociedade: homossexuais, obesos, transgêneros, miseráveis, negros, orientais, hermafroditas, refugiados – todos aqueles que são diariamente excluídos e aviltados, para quem não há compaixão. O filme também nos desperta para inquietante questionamento sobre fronteiras. Qual a distância, se é que existe, entre humano e animal? Entre feroz e terno? Homem e mulher? Fronteiras móveis questionam padrões. Border expõe muitas fronteiras pouco delimitadas. O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam, principalmente, sobre nós, os humanos.

Tina: eu não vejo razão no mal.
Vore: então, você quer ser humana?
Tina: eu não quero machucar ninguém. É humano pensar assim?

Essa espécie em cuja fragilidade e ignomínia Border lança luz. Como se perguntasse, implacavelmente, e com argumentos, o que é o belo? O que é humano? Como e onde encontrar o amor e, afinal, é possível o amor permanecer, resistir, mesmo com tanto sofrimento e brutalidade? A personagem Tina, tem a resposta, e é redentora. Não será possível julgá-la pela aparência, o amor é sua maior beleza, como é também o esforço que a humanidade faz, diariamente, para perpetuar a vida.

Autoacusações

No ensaio O Mal-estar na Civilização, Freud (1929) afirmava que o progresso civilizatório e tecnológico exigia alto preço do indivíduo. Cobrava renunciar à sexualidade e, principalmente, à agressividade – como esforço necessário ao desenvolvimento civilizador. Um dos caminhos apontados para dar continuidade à civilização seria formado pela internalização da força agressiva, voltada para dentro, que agrediria o eu, em forma de autoacusações inconscientes, no lugar de se lançar contra o outro, para fora. O preço a pagar, na tentativa de evitar a destruição dos homens e da sociedade, era se tornar refém do sentimento de culpa inconsciente e, portanto, de constante mal-estar, ambos impeditivos da fruição da felicidade.

Freud deixou para os futuros psicanalistas o questionamento relativo aos sofrimentos que surgiriam no futuro pelo fato de a civilização – em constante transformação – impor de maneira permanente ao homem múltiplas coerções pulsionais, estilos de vida e diferentes formas de pensar e adoecer. Embora, ao destacar a pulsão de morte, força destruidora por excelência, o psicanalista tenha se tornado um tanto cético e desalentado. Afinal, civilizações nascem e morrem, em geral, por conta própria, por medidas, ações e escolhas que as mesmas fazem – nem sempre um inimigo é a causa da destruição.

O mal-estar, o sofrimento e a destruição estão presentes em todas as formas de cultura, não apenas na civilização judaico-cristã. Em cada cultura adquirem características peculiares. Na nossa, em função de sua impermanência e movimentação, o mal-estar costuma ser acompanhado por questionamentos. A maior qualidade de nossa cultura é a liberdade de poder questionar seus limites, de interrogar os processos que nos fazem ser como somos, a ponto de expor, até os últimos limites, a construção, o absurdo e a farsa que é ser humano.

Border, o filme, ao entrelaçar expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas, responde de quais maneiras o mal-estar, a força de destruição e o sofrimento estão presentes no homem, nas artes e na sociedade neste início de século XXI. A compaixão pode atravessar as fronteiras e, quem sabe, possibilitar a permanência da nossa civilização. No momento, desconhecemos o desfecho.

Border. Título original: Gräns. Direção: Ali Abassi. Ano de produção: 2018. Países: Suécia/Dinamarca. Duração: 100 min.

 

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica, coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise: “Mal-estar na Civilização e Sofrimentos Contemporâneos”, realizado pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) com apoio da Folha de S.Paulo.

** Uma versão deste artigo foi publicado pela revista Psique (número 170).

De dentro pra fora, de fora pra dentro: reflexões convocadas pelo confinamento

*Maria José Tavares B. Irmã

 “O fato é que estou uma bagunça por dentro e por fora” (Clarice Lispector)

Quantas variáveis estamos experimentando aqui e agora? Isolamento, quarentena, pandemia, confinamento, fique em casa, estas palavras estão sendo proferidas de forma intercambiável na linguagem cotidiana do cenário atual. Todos esses acontecimentos estão mobilizando em nós estranhos avessos.

Diante do inimigo invisível que nos assombra dia e noite, e que nos obriga ao confinamento, não temos outra escolha senão cuidar de nós, dos que amamos e dos que, de longe nem conhecemos como sujeitos e muito menos como realidade social.

Convém, talvez, mencionar o que pode parecer óbvio, que o significado da palavra confinamento é:um estado ou condição do que ou de quem se encontra preso, cercado e impossibilitado de sair”. Logo, nesse estado, somos tomados por uma prevalente angústia, ansiedade e incerteza, aliada a sentimentos como raiva, ódio e tantos outros afetos de natureza tão íntima. Em meio ao confinamento somos tomados por uma invariável sensação de impotência, que vem não somente de dentro, mas também de fora como mencionou um paciente: “a pressão é muito grande e de todos os lados”. A incerteza toma conta de todos nós.

No início de março, quando iniciei meu confinamento, me peguei muito angustiada, ansiosa e solitária. Pouco depois, numa sessão de análise, questionei meu analista a respeito da presença da instituição da qual faço parte. Quis saber por que estavam tão “quietos”, pois não havia visto nenhum texto publicado a respeito da atual situação. Num momento em que, sem sombra de dúvida, estava difícil para qualquer um escrever alguma coisa, pois uma dura realidade havia sido imposta, eu queria sentir algum tipo de acolhimento advindo da instituição. Se é que eu entendi bem, ele me disse que eu queria colocá-los para trabalhar.

Depois dessa conversa eu fiquei pensando que talvez pudesse oferecer algum tipo de trabalho, e não ficar esperando que alguém trabalhe para mim ou por mim. O sentimento de desamparo é comum em todos nós, mas neste tipo de situação ele se exacerba. Foi então que diante da minha solidão de palavras escritas e faladas, solidão de presença e de ausência, encontrei nesta experiência subjetiva coragem para escrever alguma coisa.

A solidão, condição natural do ser humano, faz a gente pensar, o que pode ser de alguma maneira transformador. Enquanto escrevia me recusava a ler os textos escritos por outros colegas, para não me sentir tentada a copiá-los ou a invejá-los, pois a essa altura muitas publicações já haviam sido apresentadas. Mas os li, apesar das minhas exigências. É difícil ser criativo num momento de tanta desorganização e em que nossa liberdade está limitada.

Freud (1917[1915]) ao descrever o luto normal nos diz: “ O luto, de maneira geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. Devaneando em meus pensamentos, andando pelos quatro cantos da casa, inquieta, tentando encontrar um sentido para tais acontecimentos, sento-me à mesa e tento escrever. Vou me dando conta da importância das relações humanas no corpo a corpo, no nosso dia a dia, da falta que faz.

Em O Mal-estar na Civilização (1930[1929]) ao se referir à infelicidade descreve: “O sofrimento nos ameaça a partir de três dimensões: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência, do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro”.

Indubitavelmente o sofrimento que advém dessa última fonte é muito mais penoso, mas sem ele haveríamos de nos sentirmos ainda mais desamparados, pois é na relação com o outro que nos estranhamos e nos reconhecemos, mesmo que de forma inconsciente.

Sobretudo na experiência clínica, é notável o sofrimento que estamos atravessando. Outro dia um paciente me disse: […] “é muita coisa para lidar, é como um peso absurdo de suportar, são muitas dúvidas, incertezas, não tem base sólida”. Outra disse: […] “parece que nós caímos num buraco profundo, a gente não sabe o que tem lá dentro, não sabe o que vai acontecer”. É interessante observar como essas metáforas vão dando um sentido a essas experiências subjetivas, olhar para dentro de si e se dar conta do caos interno e ao mesmo tempo para fora num movimento de profunda confusão, como uma maneira de suportar e quiçá dar nome a acontecimentos tão dolorosos.

Neste cenário confuso, solitário e ao mesmo tempo excessivo, fomos convocados a entrar no mundo virtual e no mundo real. Instala-se um paradoxo entre a falta e o excesso. Estamos sendo bombardeados por inumeráveis informações e convites para atividades virtuais. Nosso corpo a corpo agora é com a máquina, nossos olhos e ouvidos estão ainda mais conectados com a tela dos nossos smartphones e notebooks, é lá fora, do outro lado da tela que nos encontramos com o outro. Em tão pouco tempo tivemos que nos reinventar, aprender tarefas tecnológicas, seguir vivendo apesar de tanta estranheza.

A jovem Anne Frank, que viveu seu confinamento junto com sua família num anexo secreto de um prédio durante o período de 12 de junho de 1942 a 1º de agosto de 1944, na segunda guerra mundial, e que em seu diário pessoal narra os horrores, as tensões e o medo aterrorizante vivenciados durante o período, nos convida a pensar com essa mensagem de esperança.

“É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperança permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonados todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis. No entanto eu me apego a eles, porque eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são realmente boas de coração”. Anne Frank (1942/1945).

Certamente, o contexto histórico vivenciado por Anne Frank se diferencia do nosso por inúmeras razões, mas principalmente porque o inimigo daquela época era de carne e osso e muito barulhento. Se o “fora”, era muito diferente na guerra do que é hoje, o “dentro” de casa e de si pode ser muito parecido. Contudo, apesar da confusão entre o dentro e fora de nós, dos estranhos avessos sonhar pode ser uma valiosa saída.

Referências:

(1930 [1929]) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

(1914 [1917]) Luto e melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Frank, Anne, (1929-1945) O diário de Anne Frank/Anne Frank; Trad. Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro: Record, 2007, Título original Het Achterhuis. 

www.dicio.com.br/confinamento/ Dicionário online de português acesso em 16/04/2020.

*Maria José Tavares Barbosa Irmã é psicóloga e psicanalista, membro filiado do Instituto Durval Marcondes (SBPSP). Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública (Faculdade de Saúde Pública/USP).

A psicanálise não será a mesma

* João Baptista N. F. França

Após o pesadelo que se abateu sobre o mundo no início de 2020, a psicanálise não será mais a mesma.

As mudanças que ocorreram no século XXI alcançaram agora um nível de catástrofe, mas questões e acontecimentos dos primeiros vinte anos já se faziam presentes, alguns impactantes, e outros igualmente poderosos no dia a dia da realidade compartilhada e com repercussão na subjetividade de homens e mulheres.

O século XXI começou com o ataque às Torres Gêmeas e a emergência do terrorismo; logo surgiram os movimentos migratórios e conflitos armados locais envolvendo países, etnias, religiões, e ainda outros de difícil caracterização e compreensão complexa.

Assistimos ao surgimento da ferramenta das redes sociais que aos poucos se tornaram virulentas e no campo da política levaram a polarização de ideologias e de governantes.

Os questionamentos de costumes e instituições que já ocorriam nos fins do século passado se acentuaram.

Essas situações constituem temas psicanalíticos como traumas, narcisismo revanchista, projeções da violência, desconsideração com o outro e com a subjetividade, além do ataque à possibilidade de informação verdadeira. Lembramos que Piera Aulagnier diz que o que caracteriza o humano é a capacidade de informação.

Uma situação de menosprezo à verdade e fake news como ataque à informação verdadeira incide sobre o que há de mais precioso na condição humana e a psicanálise, desde Freud, se pautou pela defesa da verdade.

Aprendemos que o ego é a instância encarregada de levar em conta a realidade externa e interna, no adiamento do prazer pulsional e sua adaptação e negociação com a realidade.

As neuroses estudadas por Freud ocorriam em um contexto familiar no qual a criança crescia em um ambiente restrito, com forte relação com as figuras parentais e em terreno propício para a observação de vivências edípicas.

Esta configuração contextual se alterou. Já em 1975, André Green dizia que os quadros clínicos de então já apareciam como novas patologias, donde a importância da figura do analista e questões relacionadas ao setting, requerendo uma reconsideração da técnica analítica.

Com o advento do atendimento não presencial, que já se esboçava nos últimos anos e a adaptação inevitável do momento presente de isolamento sanitário, a possibilidade de um encontro entre analista e paciente, que se pretende seja psicanalítico seguindo as descobertas de Freud, se tornaram problemáticas.

Agora, o encontro analítico ocorre em locais onde os participantes podem estar muito distantes geograficamente um do outro e no qual a questão da intimidade sobressai.

Assim, a psicanálise clínica se depara com um enorme desafio no campo do setting interno do analista, e na vivência do paciente, pela ausência do setting físico ao qual nos habituamos.

Do ponto de vista do intrapsíquico – e penso ser esta focalização o objetivo central da teoria e clínica psicanalíticas – o “eu” abrange o outro, do ponto de vista de uma metapsicologia ampliada. Nesta configuração, a subjetividade se constitui, na qual o “eu” se mescla com os objetos internos, no início as figuras parentais, e ao longo da vida, com as figuras importantes com as quais nos identificamos e ainda na escolha de objetos.

A psicanálise leva em conta o outro do outro na constituição do self; mas o contexto cultural como uma situação mais ampla influi também poderosamente na natureza humana.

E agora? Estamos todos impactados por uma ameaça global à vida e nosso “eu” não se limita à importância dos outros próximos. Somos todos irmãos, sob expectativas, incertezas e temores realistas, que se acrescentam às ansiedades de cada um.

As nuvens ameaçadoras que nos envolvem e sufocam a humanidade incidem poderosamente sobre o objeto da psicanálise e, inevitavelmente, vão levar a técnica e formação psicanalíticas a escrutínio e mudanças.

Passada a pandemia, o mundo não será o mesmo e nem a psicanálise será a mesma.

 

* João Baptista Novaes Ferreira França é analista didata da SBPSP e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.