Mês: abril 2020

Um novo Admirável mundo novo*?

* Marilsa Tafarel

Quando, no filme sobre a vida de Elizabeth II, ela, ainda menina, recebeu a notícia de que como seria a próxima rainha não poderia socializar com qualquer pessoa, a intérprete “interpretou” tristeza em seu semblante.

Nós, que talvez não seremos nada além do que já somos, pós-Covid-19, recebemos a notícia de que não podemos mais socializar com NINGUÉM. Só virtualmente. Estamos no momento mais incerto jamais vivido de uma pandemia.

A primeira morte próxima me trouxe para a realidade da peste. Este impacto surgiu quando fiquei sabendo que Naomi Munakata, a maestrina que regeu por duas décadas o Coro da Osesp, morreu. Ah! Sim, ela tinha saúde frágil, ouvi dizer. Um argumento um tanto defensivo. A grande maestrina Naomi Munakata morreu, é isso que importa. “(…) quanto vale essa vida em percentual de desemprego ou do PIB?”, comentou Aimar Labaki, diretor e dramaturgo.

E todos que morrerão serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima, como ela. Não queria dizer que todos que morrerem serão Naomi Munakata, nascidos em Hiroshima. Mas disse.

Não seria, no mínimo curioso, a maestrina ter nascido em Hiroshima? A cidade “da rosa radioativa, estúpida e inválida” como escreveu o poeta Vinicius de Moraes sobre a primeira bomba atômica da história, que arrasou Hiroshima (e depois Nagasaki), no período final da segunda grande guerra. Bomba lançada por um avião americano. Cento e quarenta e cinco mil pessoas se desintegraram, principalmente, crianças e mulheres. Teria sido esse o custo para derrotar o Eixo, o pacto entre Itália, Alemanha e o Império Japonês.

Alguns, mais velhos, viveram a guerra fria e seu pânico prolongado de um final do planeta para os humanos com a ameaça da guerra atômica. Outros, mais jovens, foram poupados disso. Puderam ou não se esquivar do final triste da Primavera de Praga, com a invasão massacrante dos tanques do Pacto de Varsóvia (1968), da crueldade inédita reeditada com o agente laranja, herbicida cancerígeno jogado pelos aviões americanos, que devastou boa parte das matas do Vietnã e deixou milhares de futuras crianças vietnamitas absurdamente deformadas. Tivemos depois a queda da União Soviética que derrubou a esperança de um socialismo melhor e assim seguimos…com outras primaveras que tornaram-se invernos…com a Bósnia…com a Síria…com os emigrados em massa.

Corre por vários canais a ideia de que o novo coronavírus não permitirá virar facilmente a página desse tempo. Uma das hipóteses é cairmos num mundo verdadeiramente orwelliano e huxleyniano, na medida, entre outras coisas, em que poderemos ser obrigados a aceitar um passaporte digital sob a forma de um nanochip, com todos nossos dados de vacinas etc. Teríamos implantados em nós um panóptico digital, na expressão de Pepe Escobar, que retoma Foucault em Vigiar e Punir. No entanto, tudo poderá seguir noutra direção.

O fato é que, nesse momento, estamos solitariamente, sem nenhuma atitude heroica, sentindo-nos, às vezes, mais como anti-heróis. Cuidando da casa, acompanhando as notícias das evoluções dos protocolos, sofrendo com a incerteza. E, atendendo os pacientes por plataformas da internet que dificultam, a meu ver, nossa escuta analítica porque alteram nosso olhar que precisa ser também flutuante. Mesmo assim, temos a surpresa de análises que ganharam muito na abertura para o desejo. Procuramos, por outro lado, lutar um pouco, talvez muito pouco, pela distribuição menos desigual das chances de vida na pandemia.

Contudo, podemos usar essa angústia da urgência para investigações que nos concernem, o que vem sendo feito, aliás.

Parece um bom momento para nos perguntarmos o que nos levou a reconstruir, depois da primeira grande guerra, depois da bomba, dos campos de concentração e extermínio etc, a mesma estrutura social em que cada um colocou seu tijolinho. E assim mantivemos o que Ailton Krenak, em seu livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, chama de “clube da humanidade”. Do qual 70% dos habitantes do planeta estão totalmente excluídos, tratados como a sub-humanidade.

Pesquisadores, médicos da linha de frente e biólogos e epidemiologistas e infectologistas que fazem um trabalho multicêntrico, apesar dos desmandos dos interesses da chamada necropolítica, põem a ciência a favor da vida. Como escreve A. Huxley, refletindo duas décadas depois do lançamento de seu livro “Admirável Mundo Novo”, poderemos ter uma ciência a favor do homem e não necessariamente apenas um mundo distópico.

O filósofo Slavoj Zizek, em um texto sobre a Covid-19, em janeiro desse ano, chama atenção para o fato de que o termo viral tão aplicado nos últimos tempos para ameaças na esfera da internet voltou a designar o que anteriormente designava, esse elemento que não é e é um ser vivo.

A caracterização do que, afinal, é um vírus é ainda controversa. Hoje, no entanto, os biólogos tendem a classificá-lo como ser vivo. Os vírus são capazes de evoluir e, graças ao genoma, transmitir suas características a seus descendentes. São unidades acelulares degeneradas com capacidade de interagir com a estrutura celular do hospedeiro. Porém, a definição mais forte que encontrei é: são seres mortos que ganham vida ao interagir com a célula hospedeira. Uma espécie de zumbi?

O verdadeiro admirável mundo novo, com nova economia redistributiva, com uma nova política, uma nova ética mundial, uma ciência não dominada pelos interesses econômicos dos Big Pharma…uma sociedade não utópica, mas livre poderia passar a existir para além da pandemia, se algo em nós, de fato, encontrasse a chave que se conecta com o desejo de uma ordem nova e “viralizasse”. Tal como o vírus, mas em direção oposta, que, por possuir a chave de conexão, pode ficar morto por milênios e voltar à vida ao encontrar uma célula de um ser vivo.

Krenak se pergunta, em seu livro citado acima, por que durante três mil anos nossas instituições construíram e alimentaram uma concepção de ser humano e de planeta que só limitam “nossa capacidade de invenção, criação, existência e liberdade? “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida.” Estamos criando, escreve ele ainda, uma espécie de humanidade zumbi que não tolera a fruição da vida. (pg. 26/27)

A psicanalista argentina Marian Alizade inventou um conceito que permanece tendo valor. Concebeu um narcisismo terciário que nos levaria a investir libidinalmente pessoas para além das que nos cercam imediatamente, daquelas que pertencem ao “clube da humanidade”. Seríamos, então, levados a investir fortemente aqueles que se situam social e economicamente muito aquém de nós. Assim romperíamos com uma máxima do capitalismo selvagem: tudo que importa somos nós e nossa família.

Pergunto: não haverá em nós um desejo de solidariedade fundado em investimentos desejantes que vão, desde o início da vida, para além da família, que se dariam sob a forma rizomática e não arborizante, no dizer de Deleuze e Guattari?

Desejo negado que só vem à consciência, quando vem, em situações de urgência social, aquelas situações que provocam uma ruptura com nosso quotidiano e com nosso narcisismo habitual que estreita nossa subjetividade?

Nota – Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa), romance escrito em 1931 pelo escritor inglês Aldous Huxley e publicado em 1932.

* Marilsa Tafarel é psiquiatra e psicanalista. Membro e professora da SBPSP. Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Autora de inúmeros artigos, capítulos em livros e do livro “Isaías Melsohn: a Psicanálise e a Vida”, em coautoria com Bela Sister.

Considerações sobre “Aberfan” e as catástrofes sociais em tempos de Covid-19

Episódio (T3, E3) do seriado “The Crown”[1]

 *Bernardo Tanis

Em 1966, o deslizamento de um aterro de uma mina de carvão causou uma tragédia de proporções gigantescas na vila de Aberfan, no sul do país de Gales, resultando em 140 mortes, das quais 116 eram crianças que estavam na escola Pantglas, a um dia de iniciarem o período de férias.

O episódio a que assistimos retrata a escola no dia que antecede a avalanche de 110.000 metros cúbicos de rejeitos que arrombou suas paredes e soterrou as crianças e professores. Na sequência, vemos imagens assombrosas de pais e familiares buscando nos escombros os sobreviventes. Logo vem o pronunciamento de dirigentes do National Coal Board (NCB), corporação estatutária criada para administrar a indústria nacional de mineração de carvão no Reino Unido, tentando se eximir da responsabilidade pela tragédia, atribuída às “intensas chuvas”. E, então, escutamos falas de famílias de vítimas denunciando que há anos alertavam as autoridades sobre o risco do desastre. Depois disso, vieram os posicionamentos e ações do primeiro ministro do Reino Unido, Wilson, e da rainha Elizabeth, sobre os quais falaremos mais adiante.

Em 2015, vivemos no Brasil uma tragédia semelhante, de ainda maior dimensão, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Considerado o desastre industrial  que causou maior impacto ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos, teve um volume total despejado de 62 milhões de metros cúbicos e deixou 19 mortos. Análises realizadas em Governador Valadares encontraram na massa de lama quantidades superiores aos valores aceitáveis de metais pesados como arsênio, chumbo e mercúrio. Esses metais, possivelmente utilizados em garimpos ilegais ao longo do rio Gualaxo do Norte, foram carregados pela torrente de lama.

O Brasil viu também, em 2019, o rompimento de uma barragem em Brumadinho, que resultou em um desastre de grandes proporções no âmbito industrial, humanitário e ambiental, com 259 mortos e 11 desaparecidos. Foi considerado o segundo maior desastre industrial do século e o maior acidente de trabalho do Brasil.

Mas não vamos hoje falar de todo o show de horrores destas terríveis e abomináveis catástrofes nem é o objetivo desse comentário tratar do comportamento das autoridades no nosso país. Qualquer um de nós pode dar um Google e saber mais sobre elas.  Farei aqui algumas considerações desde a perspectiva psicanalítica, para a qual fui convidado a falar, para podermos ampliá-las no debate.

Os vértices de análise e comentários que esses desastres despertam são vários. Humanitários, ecológicos, psicológicos. No entanto, como disse no início do episódio o primeiro ministro Wilson, devemos lembrar que sem nenhuma dúvida “Tudo é político”. Isso significa que, na esfera da humanidade, nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social e econômica das nações. Quando e por que certas áreas e populações são objeto de descuido ou negligência. Muitos governantes preferem naturalizar as catástrofes de modo a não assumir responsabilidades que, como estados e municípios, têm para com os seus habitantes.

Mas antes de adentrar no assunto das atitudes dos líderes políticos perante o desastre, quero falar um pouco do efeito do desastre, do trauma subjetivo e social que ele produz, pois acredito que apenas se compreendermos algo da catástrofe humanitária poderemos vislumbrar o que possa ser um mínimo sentido reparatório. Chamamos de reparação em psicanálise o ato ou o pensamento que visa a reparar um dano real o fantasiado.

Frente a essas catástrofes ecológicas e humanitárias, a pergunta é: há reparação, há perdão, há justiça possível?

Há várias definições para trauma, mas todas concordam que se trata do efeito da incidência de um acontecimento singular (individual ou coletivo) que impacta a subjetividade a ponto de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

Perante a fragilidade do bebê humano, o outro significativo provê as condições de um vínculo que não apenas ajuda a subsistência biológica, a conservação da vida, mas cria a base da esperança de poder ser acolhido e protegido no mundo, assim como as condições de desenvolver um ego capaz de utilizar os próprios recursos internos no futuro.

Nós, seres humanos, criamos vínculos afetivos, sociais, parcerias de trabalho. Fazemos parte de estruturas mais e mais complexas para existir enquanto grupo na pólis, no mundo social e político. O Estado moderno, além de figura de autoridade, tem como função auxiliar na regulação da vida coletiva, na construção de normas e obrigações, no sentido de zelar pelos seus habitantes, pelo povo e pela nação. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social. Assim como o fazem nossos progenitores.

O que esses desastres evidenciam é a falência do Estado e a manifestação de um governo submetido a interesses de determinados grupos, que não se importa em colocar o planeta ou a população em condição de risco. Seja no País de Gales, em Mariana, Brumadinho ou tantas outras regiões do planeta. Essa lógica predatória dizima populações, recursos naturais e gera ainda a desesperança e o trauma social, e com eles o ódio, o ressentimento, a violência.

Como seguir em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora? Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo? Como poder elaborar o luto quando o ódio e o ressentimento são o oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

Nesses momentos de trauma social, a sociedade percebe o que muitas vezes prefere silenciar: a falta das mínimas condições de uma vida digna para grande parte da população, privada de moradia, saneamento, segurança e renda.

Caros ouvintes, não podemos confundir o traumático com o acontecimento. Quero frisar este ponto. O acontecimento é da ordem do factual. O trauma é da ordem do desmantelamento das referências subjetivas que nos conferem nossa identidade, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. É como se suspendesse a noção de continuidade da vida: parece que tudo congela ou explode em inúmeros fragmentos. Demanda recompor um tecido mental esgarçado, recuperar a confiança, a vontade de viver e de produzir.

Como recompor esses vínculos e ligações, intrapsiquicamente e com o mundo? Essa é a tarefa que temos de enfrentar.

Na psicanálise, a negação dos fatos, recurso empregado frequentemente por líderes autoritários, é conhecida como o mecanismo psíquico da desmentida. Ao seu lado, a hipocrisia e o cinismo do discurso dissociado da ação muitas vezes são encarnados pelas autoridades.

Já o ódio e o ressentimento, experimentados por aqueles que foram afetados, impedem a superação de traumas coletivos porque também funcionam como formas de negação. O luto só começa após o reconhecimento da situação por todos os envolvidos. Significa que é possível seguir adiante, reconhecendo a perda e a dor. Não é possível elaborar o luto enquanto há um apego a essas paixões negativas.

Pois bem, se me alonguei neste ponto é porque penso que os líderes de uma nação, embora nem sempre tenhamos líderes que mereçam ser assim chamados, têm o dever de compreender não apenas o dano material, mas também o dano subjetivo dessas catástrofes sociais, ecológicas e humanitárias. Os líderes de uma nação não podem apenas fazer contas nem podem olhar a realidade como pura estatística. Os líderes de uma nação precisam, quando dispõem de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

No episódio a que assistimos há duas figuras paradigmáticas de liderança. O primeiro ministro Wilson, representado como uma figura sensível, tomada por uma consternação, dor e um sentimento de culpa pela falha do Estado. A rainha encarna aqueles que, perante a catástrofe, não conseguem empatizar ou se condoer. É interessante observar sua travessia ao longo do episódio, a partir da presença de um Wilson “terapêutico” que, sem acusar, ajuda-a a descobrir que não se trata apenas da razão, mas também do afeto. Não se trata de montar um espetáculo, mas sim de poder demonstrar uma emoção genuína.

Aos poucos percebemos que a rainha não é indiferente à dor e ao sofrimento gerado pela catástrofe, mas há uma limitação inerente a sua personalidade, que procurará reparar ao longo dos anos. A série sugere que ela sentiu remorso pela inação pessoal no momento da crise. Desde o ocorrido, Aberfan se tornou a cidade que ela mais visitou no Reino Unido.

A população de um país se sente desamparada quando seu ou sua líder falha em reconhecer a gravidade de uma crise humanitária e a ruptura que ela provoca no tecido social e da subjetividade. Ele precisa ao lado da demonstração de empatia, oferecer à população respostas concretas. O líder que não dá conta desse desafio não pode oferecer um futuro. Se os governantes e a sociedade não reconhecem e assumem as respectivas responsabilidades por aquilo que foi provocado, dificilmente o trauma poderá ser superado.

 

[1] Participação no debate sobre “Aberfan”, episódio da série “The Crown” (T3 E3) que dramatiza a semana seguinte à tragédia galesa. “Aberfan” foi discutido à distância, na edição de abril do Ciclo de Cinema e Psicanálise, evento promovido pela Diretoria de Comunidade e Cultura, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), pela Folha de S. Paulo e pelo MIS. O vídeo do debate está disponível no YouTube (clique aqui)

 

* Bernardo Tanis é psicanalista, doutor em Psicologia Clínica. Presidente da SBPSP.

 

Excesso de realidade

*Magda Guimarães Khouri

No mundo da globalização, o filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu ensaio Sociedade do Cansaço, aponta que há um excesso de positividade, que faz surgir novas formas de violência que, pela superprodução, superdesempenho ou supercomunicação, provocam a exaustão, o esgotamento e o sufocamento frente à demasia. Nesse contexto, guerrearemos contra nós mesmos e não contra um inimigo externo, sendo, por exemplo, a depressão uma das fortes manifestações emocionais observadas na atualidade. O autor, que, há 10 anos, curiosamente desenvolveu a tese de que o século XX foi uma época bacteriológica, com o seu fim a partir da descoberta do antibiótico.

A esta época, que o filósofo denominou de imunológica, se estabeleceu uma divisão nítida entre o dentro e o fora, amigo e inimigo. Acrescenta que o paradigma imunológico foi dominado pelo vocabulário da Guerra Fria: mesmo que o estranho não represente nenhum perigo, ele será eliminado devido a sua alteridade. Assim, o princípio da negatividade regeria a imunização, no sentido que a violência viria do outro, de um vírus a ser atacado.

Seguindo esse modelo de pensamento, numa sociedade de um excesso de igual, aparentemente sem fronteiras pelo alcance das redes sociais, a Covid-19 surge como um novo inimigo a ser derrotado, reestabelecendo uma reação imunitária, que se caracteriza por criar cercas, barreiras e muros.

Na nossa era virtual, que nos posiciona de forma mais passiva diante do bombardeamento de informações, o vírus surge como um golpe radical de realidade. O psicanalista Fabio Herrmann, em suas reflexões sobre a teoria da crença, escreve que quando a continuidade do cotidiano se quebra e somos capturados por questionamentos inesperados, rompe-se o campo das representações, daí vive-se um estado provisório de não-representabilidade.

Difícil nomear o que está se passando. Pouco se sabe. Em um primeiro momento parece que estamos vivendo aquilo que chamam de realidade paralela. De tão real parece ficção.

Todos nós no isolamento social, temos certa liberdade em flutuar entre os campos da ficção e da realidade, escapes até podem ser criados para as angústias geradas pela incerteza, pelo perigo da doença. Experiências sobre as mais variadas formas para atravessar as dores da crise, não cessam de serem relatadas. Ora perturbador, ora paralisante, tudo merece atenção e espaço de compartilhamento entre os grupos.

Em outro território estão os profissionais de saúde que vivem o excesso de realidade, de situações muitas vezes incontornáveis. O depoimento de um médico, da linha de frente ao combate da Covid-19, que infelizmente no Brasil ainda se encontra no seu início, demonstra o trágico da experiência: vive um pesadelo, quer acordar, quer sair e não consegue.

De acordo com um estudo publicado pela American Medical Association, os autores destacam fatores que geram sofrimento psíquico para os profissionais de saúde durante a pandemia, tais como, alto risco de exposição, medo de ser infectado, cargas extremas de trabalho, dilemas morais, exigência de práticas que diferem das que estão acostumados, sobrecarga de tarefas.

Entre as demandas, ainda está lidar com a família. Durante a internação cabe aos profissionais se isolarem com seus pacientes e barrar os familiares do contato com os parentes. Além da experiência de ver uma pessoa entrar no hospital e ao morrer é como se os corpos desaparecessem: caixão lacrado, sem nenhum ritual, sem despedidas, sem espaço de luto. Um processo que coisifica a vida.

A todos esses profissionais de saúde que se dirigem as várias plataformas de atendimento formadas no país, como uma grande demonstração de solidariedade. A Sociedade Brasileira de Psicanálise se une a esse movimento por meio do programa Rede SBPSP: Escuta psicanalítica aos profissionais de saúde, que oferece atendimentos online, gratuitos e pontuais.  O projeto se estende também aos membros das equipes, tais como vigias, motoristas, agentes de apoio, entre outros. A proposta é cuidar de quem está numa situação de alto risco, dar suporte emocional para quem cuida da população.

A escuta psicanalítica pode construir um momento de introspecção, de recuo da linha de frente, ao gerar uma conversa, que pode dar expressão à angústia subjacente a toda essa circunstância. E se a impotência atual é de todos nós, quem sabe se dê uma cura a dois.

Saindo do campo da urgência a que esses profissionais estão submetidos sem cessar, de alguma maneira que se recupere a possibilidade de sustentar a estranheza e dar brechas a busca de sentidos. E que tudo isso acabe logo.

 

Referências bibliográficas:

Han, Byung-Chul. (2015). Sociedade do Cansaço. (Trad. Enio Paulo Giachini) Petrópolis, RJ: Vozes.

Byung-Chul Han. La emergencia viral y el mundo de mañana, (Publicado no El País 22 de março de 2020) in Sopa de Wuhan – Pensamento Contemporâneo em Tempos de Pandemia. P. 97-111.

http://tiempodecrisis.org/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf

Recuperado em 16 de abril de 2020.

Herrmann, F. Andaimes do Real: Psicanálise da crença. 1ªed. (2007). São Paulo, Casa do Psicólogo,

Downloaded From: https://jamanetwork.com/ on 04/12/2020

Understanding and Addressing Sources of Anxiety Among Health Care Professionals During the COVID-19 Pandemic

JAMA Published online April 7, 2020

Tait Shanafelt, Jonathan Ripp, Mickey Trockel

 

*Magda Guimarães Khouri é psicanalista, membro associado e diretora de Atendimento à Comunidade  da SBPSP. Organizadora com Bernardo Tanis do livro A Trama das Cidades, Ed. Casa do Psicólogo.

A Psicanálise em tempos difíceis

* Anne Lise Scappaticci

Temos vivenciado dias difíceis, ultimamente, nos quais nossa rotina mudou, sem pré-aviso. Perdemos nossos hábitos, algo que nos estruturava, nossa segurança, nossas referências estão desaparecendo. Visto que ao nosso redor o mundo inteiro está sem respostas, as autoridades vão tateando por tentativas, acerto e erro, a cada notícia provamos assombro, perplexidade. Inundados de informações permanecemos na obscuridade. O inimigo é invisível! O contexto que vivemos pode ser sentido como o nosso pior pesadelo. Diante de tanta angústia, vulnerabilidade, qual é a contribuição da psicanálise? O que os psicanalistas teriam a dizer?

A psicanálise não é um mero instrumento externo destinado a incrementar a capacidade de adaptação do indivíduo, como um aparato da psicologia comportamental. Mas, ao contrário, consiste no despertar de uma abertura, uma abertura para o psíquico promovendo um contato consigo mesmo, a psicanálise dentro de cada um. Este período é de tumulto, “too much”, assim, pelo excesso, pela violência, nossa condição humana de desamparo, solidão, dependência e incerteza é despertada. O temor de morrer, o entrar em contato com nossa finitude, é a “raspa de tacho” de nossa alma que está exposta, é tanta dor e frustração. É possível estar consigo mesmo? É possível acompanhar-se? Ter acesso à psicanálise dentro de nós mesmos?  Quando não é possível entrar em contato com estes sentimentos, com a experiência emocional, instala-se uma dinâmica psíquica de ameaça e persecutoriedade. A pessoa acaba evadindo-se, fugindo da própria existência, “des-existindo”…A dor é insuportável e assim, recorre às defesas que se interpõe à experiência de estar consigo mesma, a mente permanece paralisada, ocupada pela onipotência, arrogância, negação… Tomada pelo estado de guerra, as referências internas ficam perdidas…

“Fluctuat nec mergitur” é o mote de Paris que tanto encantou Freud, “Açoitado pela tempestade, mas não submerso”.  O psicanalista é uma pessoa real que, portanto, sente, sofre seus sentimentos. Nós, psicanalistas, assim como nossos pacientes tememos permanecer envoltos na turbulência tempestuosa das ansiedades primitivas que o sentir convoca diante da ameaça que estamos vivendo; afinal, na pandemia o real e o imaginário parecem que coincidem, algo assustador. “Não se espera que um oficial esteja inconsciente de uma situação aterrorizadora e perigosa; espera-se, no entanto, que ele seja capaz de continuar pensando caso se encontre em uma posição em que surja o pânico, o medo…” (Bion, 1979, p. 171). E, para isto, complementaria, é necessário que ele esteja em sua própria companhia.

Nesta pequena contribuição decidi minha escrita a partir do que sinto e então, do que consigo pensar: arrisco diante de algo inusitado para mim, para todos nós. Acho de fundamental importância para o psicanalista fazê-lo, visto os ataques que temos sofrido a nossa capacidade de pensar. É procurar expandir nossa solidariedade propiciando nesta conversa uma interlocução interna, única e preciosa para cada um. Afinal, o isolamento físico não precisa ser psíquico ou, como dizia meu primeiro analista, muitos anos atrás, a pior solidão é não estar acompanhado de si mesmo. Por outro lado, penso que nós, que tivemos o privilégio de ter tido contato mais profundo com a psicanálise, precisamos eticamente oferecer nosso depoimento exercendo nossa cidadania em tempos tão difíceis como este!

 

* Anne Lise Sandoval Silveira Scappaticci é psicanalista, membro Efetivo Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Doutora e Mestre em Psicologia Médica pelo Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). Psicóloga clínica formada pela PUC-SP e pela Università degli Studi La Sapienza di Roma. Terapeuta familiar pela Scuola Romana di Terapia familiare e Psicanalista Infantil pela Tavistock.

O que será que será?

*Luciana Saddi

Como falar de algo que não sabemos definir?

2020, tempos de Covid-19, dias de isolamento ou do eufemismo “afastamento social”. O frenesi habitual das ruas diminui, raros automóveis, baixos e esparsos ruídos. Comércio fechado, ruas vazias. A lentidão urbana prevalece em contraponto às palpitações diárias da população.  Jornalistas, políticos, colegas de profissão e pacientes falam que estamos em guerra como referência ao presente. “Front”, inimigo, ataque, defesa, insumos, armas químicas e biológicas, hospitais de campanha tornaram-se vocabulários frequentes, assim como vitória, derrota e terror. Escolher entre aqueles que podem viver e os que podem morrer se tornou assombração, fantasma, para muitos de nós – seja porque temos parentes trabalhando em hospitais, seja porque alguns de nós, possivelmente, enfrentarão tais desafios. A vida, hoje, imita a arte dos roteiros de filmes de terror e de guerra.

Mas se é guerra, qual o cenário de operações? Hospitais, enfermarias, UTIs. O contingente: enfermeiros e técnicos de saúde; os que estão na “linha de frente”. Na operação de logística e suprimentos, que sustenta as tropas. Cientistas, incansavelmente, vasculham soluções tecnológicas para cuidar dos doentes e diminuir o grau de letalidade. Uma hipotética vacina, ainda que esteja no futuro, é o graal da atualidade! Epidemiologistas, matemáticos, sociólogos e demógrafos são parte integrante do setor de inteligência e planejamento. Testes de laboratório são munição para a informação. Cloroquina? Tiro de festim. Isolamento é tática e estratégia.  O “esforço de guerra” agora é antítese, deve-se paralisar boa parte da atividade econômica.

Estranho, se guerra, sem um único disparo. Há, porém, outras dificuldades para manter a “guerra” como metáfora apropriada.  O isolamento independe da coerção do Estado, o medo nos empurra.  O “exército” ainda não nos tomou como inimigos, nos antecipamos às ordens e entendemos que é o melhor a fazer – talvez a única e desesperada opção no momento em que a propagação do vírus ameaça toda a sociedade. O vírus é o inimigo comum e apenas cooperação, articulação e solidariedade entre países, políticos, cientistas, laboratórios da indústria farmacêutica e, surpresa, até bancos podem contribuir para o enfrentamento da ameaça.

Antigamente, os jornalistas de guerra diziam que a verdade é a primeira vítima nos conflitos. A liberdade associa-se à verdade dessa maneira, ambas são as primeiras baixas do presente.  Em tempos de Covid-19 verdade, liberdade e solidariedade estão unidas. Não há como esconder as mortes e disfarçar os erros estratégicos cometidos pelos países e cidades no combate ao vírus. Como expressa o pensador italiano, Massimo Recalcati (jornal La Repubblica, 14 de março): “a liberdade em tempo de coronavírus não pode ser vivida sem o sentido da solidariedade. Eu me isolo por mim e por você. Você se isola por você e por mim.”

Refletindo, ainda, sobre a dificuldade em encontrar metáforas para tempos de Covid-19 impossível não lembrar das palavras de Svetlana Alexandrovna Aleksiévitch, escritora e jornalista bielorrussa, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015. No livro “Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear”, Svetlana argumenta que a palavra guerra foi usada para designar a luta contra a radiação e seus efeitos. No entanto, se pergunta, que guerra foi capaz de contaminar o solo e as águas de todo um país por um ou dois mil anos? Tornar um território completamente morto, embora plantas e animais insistissem em permanecer e prosseguir. Que guerra impediu para sempre a entrada de pessoas nesse território ou dele retirou todos os seres humanos sem nenhum pertence? Nem em Hiroshima e Nagasaki, segundo Aleksiévitch, as consequências foram tão duradoras. O tempo adquiriu um outro sentido e a palavra guerra não pode dar conta desses acontecimentos. A escritora consumiu mais de vinte anos para escrever sobre o desastre atômico. Faltavam palavras, faltava compreensão. Foi preciso esperar o assombro decantar.

Como falar do novo desconhecido? Do que não tem nome, nem nuca terá? A poesia como transcendência cria novos sentidos.

Espero que o “novo” coronavírus e suas consequências não traga, nem de longe, o caráter de destruição que Svetlana expõe em sua obra. Não conheço a economia parada, o silêncio do mundo. Nunca vivi tal tempo nem conheço quem o tenha vivido antes. Os antigos que experimentaram as guerras do século XX já se foram, quase todos. Havia o “blackout”, mas por quanto tempo? Desconheço o isolamento social, o confinamento como política de Estado. A distância envergonhada e medrosa que temos uns dos outros. A solidariedade com os mais velhos e vulneráveis preenche a vida de jovens que até ontem queriam apenas se divertir – também desconhecia essa forma da força de vida se expressar. Nunca estive na guerra. Nunca vi São Paulo em tempo de espera. Um mundo sem consumo e comércio de futilidades. O que importa é comida e remédios. Ainda não chegamos ao “salve-se quem puder”, pelo menos até agora. As oscilações vertiginosas da Bolsa talvez não sejam a metáfora indicadora da retração econômica de agora nem da que virá.  Pouco sabemos sobre o hoje e menos sobre o amanhã. Como cantou o poeta: “amanhã ninguém sabe.”

Talvez a metáfora da guerra não seja adequada ao presente. Mais parece com um trapo do que uma roupa, somente esconde partes do corpo, não serve para vestir. Entendo que o presente sempre nos escapa. Precisaremos, de mais tempo ainda para encontrar as melhores palavras e designar o momento e responder: o que foi feito da vida?

O conceito psicanalítico de elaboração trata da procura de sentido para uma experiência traumática. O trauma percorre um longo caminho até que a elaboração o dome minimamente, o civilize. A prática nos ensina que algumas experiências adquirem tal magnitude, causam tantos danos, que a elaboração nunca termina. Nesse sentido o Covid-19 veio para ficar. No sentido biológico desejo vida breve ao vírus.

*Luciana Saddi é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Autora de Educação para a Morte, ed. Patuá, coautora de Alcoolismo, Ed. Blucher, dentre outros livros e artigos publicados em revistas especializadas. Coordena junto ao MIS, com apoio da Folha de S. Paulo, o Ciclo de Cinema e Psicanálise “Mal-Estar na Civilização e Formas Contemporâneas de Sofrimento”. Também coordena junto à Livraria da Vila a série “Encontros sobre o Mal-Estar na Civilização”.

Precisamos estar mais próximos de nós mesmos

Luiz Tenório Oliveira Lima mantém, em sua mesinha de cabeceira, um tomo de (ou sobre) Sigmund Freud, o pai da psicanálise, outro do francês Marcel Proust e um terceiro do poeta inglês W. H. Auden – porque, para ele, “razão e emoção não são incompatíveis”. Nestes tempos de isolamento social forçado pelo coronavírus, ambas precisam se equilibrar. Psicanalista, médico psiquiatra, escritor, professor e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Tenório também pode ser visto na Casa do Saber – não neste momento de quarentena. Lá, ele já ministrou cursos a respeito de a razão e a emoção andarem juntas, para que as pessoas possam enfrentar o presente distópico, o futuro freudiano e… a melancolia, a doença da bile negra, segundo Hipócrates. O remédio para a sensação de vazio e de estar em busca de um tempo perdido? Manter uma rotina de cuidados com a mente (“Tom Jobim aguçava a imaginação lavando a louça”) e disciplina – “a mesma que muita gente tem quando faz exercícios por conta própria”, afirma.

Tenório defende que aqueles que estão em análise continuem por vias digitais, como o WhatsApp, por exemplo, com o qual vem atendendo seus pacientes. A histeria, em muitos casos, parece investir sobre pessoas menos conectadas às suas emoções. “Essa falta de conexão leva à sensação de onipotência, e quando uma pessoa assim se vê confrontada com a realidade de estar só, geralmente entra em pânico”.

Auden, o poeta, perguntou certa vez: “O que fará o homem capaz de assobiar na solidão?”. Pois o freudiano Luiz Tenório tem algumas respostas. Aqui vão trechos da entrevista.

Como combater a angústia que surge em momentos como este, forçados a uma quarentena e com medo do novo coronavírus?
Em um momento como este, as angústias são ativadas em todos nós. Angústias antigas, de desamparo, de medo, de medo da morte. Grande parte das pessoas têm algum tipo de convivência, de contato, com essas angústias. Mas muitas outras não têm. São pessoas cujas angústias estão postas de lado, como se fossem negadas, em nome, talvez, de um sentimento de que a pessoa é inexpugnável. Essas pessoas, sem treino com a própria angústia, quando se encontram em situações como atual, assumem uma proporção, às vezes, histérica, excessiva. Excessiva no sentido de que a pessoa não percebe que a fatalidade existe, e que as limitações podem existir de maneira inexorável.

Essas limitações desencadeiam um certo desequilíbrio entre razão e emoção?
A questão que precisa ser posta é que razão e emoção não precisam ser incompatíveis. Se a razão aceita as emoções, se aceita o coração, como se diz, então se estabelece um contato com essas emoções. Quando a razão não aceita a emoção, então, por trás dessa razão, se esconde um sentimento terrível, que é o da onipotência. Quando uma pessoa que se imagina onipotente se vê confrontando a realidade, ela geralmente entra em pânico.

As pessoas estão em pânico por estarem enclausuradas ao mesmo tempo que não conseguem prever o futuro ou não?
Uma explicação possível diz respeito a isso, sim. A pessoa não tem o devido treino com as próprias emoções. O que significa isso? Para usar uma linguagem comum, o treino com a emoção acontece quando a pessoa, todos os dias, entra em contato com essa emoção, com os seus sentimentos – para que a razão, isto é, todo o aspecto racional dessa pessoa, possa acolher esses sentimentos. O que vemos em momentos como este é que um grande número de pessoas não tem esse treino e acaba “perdendo” o sentimento de onipotência, de invulnerabilidade. E isso é muito crítico.

Por quê?
Porque a pessoa acaba ficando alheada de si mesma, que é o pior tipo de alheamento. Você pode ser alheio a tudo, mas não de si mesmo. Caso contrário, esse feixe de emoções que cada um carrega fica sujeito, em determinadas situações, ao pânico. Em uma situação como esta da covid-19, que é muito grave, pelas consequências econômicas e pessoais, desestabiliza as pessoas. Se você não tem dentro de si algo estável, fatalmente vai se desesperar.

Tem mantido seus pacientes com sessões virtuais?
Estou trabalhando com quase todos os meus clientes por WhatsApp, cada um na sua casa. E esse contato faz todo o sentido. As pessoas estão com medo. E, quando estamos com medo, esse contato é fundamental. Estar em contato garante uma espécie de consciência de si próprio.

Como o senhor encara o seu trabalho, quando atende pessoas incapazes de entrar em contato com as próprias emoções?
Infelizmente, isso ocorre com frequência, ou com mais frequência do que se imagina. Muitas pessoas dizem “mas eu sou analisado”, “eu fiz análise tantos anos”. Mas isso não significa que desenvolveram o contato com as emoções. Porque uma terapia pode contribuir para o restabelecimento de uma pessoa em situação de crise pessoal, por exemplo. Mas, dependendo do caso, isso pode até reforçar nela o sentimento de onipotência, a menos que continue na análise. Isso eu posso dizer pela minha experiência, pelo tempo de trabalho. Análise não é coisa fácil, requer disciplina, requer que a pessoa se comprometa a ir às sessões. E nem sempre ela quer ir.

Só funciona quando o cliente/paciente passa a gostar da terapia?
Quando ele percebe que seus esforços estão enriquecendo sua experiência, quando ele se interessa pela análise, passa a se interessar também pela própria mente. Por exemplo: neste momento de confinamento, de isolamento, uma pessoa que tem a capacidade de conviver com a própria mente tem muito mais ferramentas para se proteger.

É como o trabalho do personal trainer para as pessoas que querem entrar em forma?
Essa é uma analogia muito boa. O personal te ajuda, há contato seu com os movimentos e o dinamismo do seu corpo, a flexibilidade e tudo mais. Com a terapia é a mesma coisa. Corpo são é sempre bom, mas a mente precisa de muito mais cuidados do que o corpo.

Como encarar este momento de quarentena?
É tudo questão de disciplina. Funciona para o corpo e funciona para a mente. E ter as ferramentas mentais certas. Por exemplo, em uma das últimas entrevistas do Tom Jobim, na casa dele, um jornalista perguntou como era seu ritual para compor. Ele respondeu: “Olha, uma das coisas de que mais gosto é lavar louça. Quando preciso de ideias, vou para a pia da cozinha. Começo a lavar alguns pratos e a minha imaginação voa”. Ou seja, se a pessoa tem o recurso mental, se valoriza a própria mente, imediatamente ela vai ser criativa, vai ter devaneios, vai usar a imaginação. Isso é possível para qualquer um de nós, contanto que tenhamos essa condição. Lembro-me de que o jornalista ficou um pouco desapontado, porque esperava que o Tom respondesse com poesia. Mas não. Bastavam algumas bolhas de detergente.

O ferramental ajuda, não?
Principalmente para evitar a histeria, o pânico, que são frutos do sentimento de onipotência. Que também é uma sensação de desamparo. Essa palavra é perfeita. Todos somos desamparados quando nascemos, mas recebemos amparo dos nossos pais, da família, das pessoas em torno. Então, nossas angústias encontram acolhimento. Quando crescemos, o desamparo se torna bem maior, porque não tem mais pai, não tem mais mãe. Podem estar vivos, mas não estão mais lá para nos acolher, pois nossas questões se tornaram por demais pessoais, e acabamos nos sentindo sozinhos.

Daí a necessidade do treino da mente e da terapia?
É preciso aprender a aceitar a dor, a amar a dor. Caso contrário, você se torna vítima do desamparo. Porque você não suporta, você tende a achar que a dor lhe é imposta de fora, por uma circunstância, pelo vírus, por exemplo. Não é o vírus que impõe às pessoas a dor mental, essa dor está presente o tempo todo na nossa mente.  O vírus está deixando muita gente sem dormir, com medo do desemprego e da paralisação da economia.

O que é fundamental para o ser humano?
O sono. Aliás, hoje isso é consensual entre os próprios médicos: o sono é a base, porque é a partir do sono que se sonha, e o sonho tem uma função mental importantíssima para estabilizar a pessoa, ou seja, tem uma base química também.

A mídia tem ajudado as pessoas nesse período difícil?
Acho que sim. Tenho visto muitas entrevistas com infectologistas, epidemiologistas, gestores da área de saúde, psicólogos, todas muito boas. Porque há muita necessidade de informação e ela precisa chegar às pessoas com uma linguagem que seja inteligível.

As pessoas hoje, ante as redes sociais, estão mais distantes de si mesmas?
Cada vez mais distantes. E a questão é que todos nós precisamos (ou precisaríamos) estar mais próximos de nós mesmos. Toda tecnologia, com as redes sociais, distancia a pessoa dela mesma. E isso é muito ruim. Não tem a ver com egoísmo, mas com sanidade, proteção. Uma pessoa só se é capaz de enxergar a outra quando consegue enxergar a si mesma.

Foto: Casa do Saber