Mês: março 2020

PSICANÁLISE EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

* Dora Tognolli

  • The storm will pass … and… each one of us?

Torna-se bastante difícil escrever algo no auge da pandemia, no auge da semana em que novas práticas estão nos desafiando. Inexoravelmente, somos “bypassados” pela dinâmica dos fatos externos e de nossas próprias elaborações que não param de nos invadir, pelo bem e pelo mal, mesmo porque muitos pensamentos ativados pela situação traumática não acabam sendo boas companhias…

Nesse momento, tenho o privilégio de estar acompanhada de outros pensamentos, de psicanalistas, jornalistas, escritores, economistas, humoristas, cronistas, familiares, amigos frequentes e atuais, e os que retornaram das nuvens dos tempos em busca de contato. Minha reflexão não é só minha: fruto de uma colagem que está sendo útil, fazendo boa companhia.

  • Isolados…mas não sozinhos!

Curioso o nome que demos a essa temporada forjada pelo Covid-19: isolamento. Cada um no seu pedaço, comprometido em não disseminar a peste, não transmitir e nem ser alvo da transmissão, mas muito conectados, em uso pleno das modernas tecnologias de redes. Alguns de nós reconhecemos que estamos usufruindo bastante, dos dias calmos, da parada da desmesura e do excesso, das paisagens desertas e silentes. Tudo parou: será? Se alguém pudesse capturar o movimento das nuvens e ondas de transmissão, teríamos um espetáculo colorido e pulsante sobre nossas cabeças.

  • Fazer nada … não parece uma boa escolha…

Ficar em casa, sem sair, com todo o tempo para si… pode ser perigoso…Pode convocar o pecado da preguiça no seu sentido mais nefasto: cansaço psíquico, apatia, desinteresse… melancolia…Não estamos em férias, portanto, há trabalho. Não o trabalho na estreita acepção capitalista, atrelado à produtividade, grana, ambição, acúmulo, competição. O sentido freudiano de trabalho cabe bem aqui: trabalho do sonho; trabalho da memória: alude a um processo interno intangível, que põe em movimento o sistema psíquico, em conversa dentro, fora, consciente, inconsciente, presente, passado, fantasia, realidade, o eu e o outro. Momento de uso criativo de ferramentas que estavam adormecidas em nós, muitas vezes, massacradas pela visão estreita de trabalho que nos acompanha. Convite a cozinhar, ler, arrumar a casa, dialogar, contar estórias, exercitar os músculos, tocar piano, aprender um idioma online, atender pacientes etc.

  • Não estamos em tempos normais… estamos em regime de exceção…

Sim: exceção tem parentesco com trauma, com estímulos de magnitude e tempo de existência incomensuráveis. Racionalmente, ok: somos obedientes, marcados por solidariedade e cidadania, mas essa insegurança deixa restos enigmáticos, que não entram na corrente de ideias e se manifestam de formas insidiosas. Angústia, sim: muita angústia. Angústia que busca expressão, vira medo: medo de falir, de deprimir, de não ter comida em casa, de perder nossos pacientes, de contaminar os mais idosos de nossas famílias, do Bolsonaro, dos generais, do Trump, do Posto Ypiranga, do desgoverno, anterior ao vírus…

Desamparo. Ódio. Depressão. Juntos e amalgamados. Com certa dose de esperança e calma, não podemos esquecer…

Nesse momento, parece que a solidão não é uma boa companhia: pode chegar com seus polos de onipotência (Não conto com ninguém! Nem preciso!) ou de impotência, em que o desamparo dá sinal de vida. Em conjunto, em comunhão, parece que unimos nossos conhecimentos dispersos e fragmentados, e que podem propiciar uma organização social, ares civilizatórios diante do caráter implacável da natureza: agora do vírus e de certos representantes do poder que não participam desse possível refúgio civilizatório.

O filme “Melancolia”, de Lars von Trier, é aqui lembrado: curiosamente, o personagem mais racional, mais informado, o geômetra, diante do caos, sucumbe: acaba se suicidando, deixando a fortaleza segura onde vivia com sua família. Nosso lado onírico, mais louco e caótico, pode nos fazer bem, num momento onde os instrumentos tradicionais de controle falham…

  • Esquecer/ neutralizar a ignorância e o obscurantismo

Em se tratando de Brasil, além do vírus, nosso outro inimigo está encalacrado no Governo, na figura do Presidente, que nos apresenta outra classe de vírus, cujos sintomas são o obscurantismo, o ódio, o desrespeito, a irresponsabilidade. Parece que estamos sendo criativos, na medida do possível, e coletivamente, manifestando nas varandas, nos panelaços, nossa desobediência e protesto diante de uma figura que não merece nosso respeito. Vamos continuar nossos levantes, contando que outros representantes políticos ignorem cada vez mais este ser abjeto, derretendo seu lugar e decretando simbolicamente sua inexistência. Onipotente, essa ideia, mas esperançosa: levantes são assim…

  • Ao trabalho

Muitos de nós precisamos trabalhar, queremos trabalhar, em todos os sentidos, e estão pedindo nosso trabalho. Em outros moldes, outro setting, outra dinâmica. E agora, José? Mais uma vez, estamos sendo convidados a nos reinventar e permanecer com nossas ferramentas ativas. Por todas as questões anteriores, nossa profissão tem utilidade pública, nossa conversa acessa os mais recônditos lugares de desamparo e angústia. Muitos colegas já trabalhavam em modo virtual, e sua experiência pode nos ajudar a repensar as práticas. Porém, este momento tem um ar especial, porque não se trata de escolha, mas a única forma de não paralisar o trabalho das análises. Hoje, na cidade de São Paulo, o Estádio do Pacaembu, bem como o Parque Anhembi estão se transformando em “hospitais de campanha”, metáfora interessante, onde as condições ideais não podem estar presentes, mas a iniciativa garante que médicos trabalhem e pacientes sejam atendidos, num espaço de acolhimento, ética e respeito.

As instituições possuem protocolos e normas que pautam os ofícios. No caso da nossa Instituição, é a IPA que rege essas normas, às quais estamos todos submetidos. Mas, por se tratar de um momento de exceção, a manutenção da prática, a meu ver, deverá ser propiciada por uma conversa em tempo real entre profissionais e órgãos reguladores. O analista experiente, numa época de exceção, talvez não seja apenas o mais velho, mais titulado e reconhecido: esse também precisará dialogar com seus pares, na tentativa de manter o atendimento sem prejuízos do ponto de vista da ética e da confiabilidade.

Além do método psicanalítico (livre associação – atenção flutuante, que depende de dois na sala, física ou virtual), ferramenta que aprendemos a cultivar e aperfeiçoar, o momento nos convida a pensar com cuidado nos dispositivos de segurança que precisaremos usar, e também que nossos pacientes utilizarão.

Estas semanas serão um grande laboratório para todos nós, em que definiremos os horários, as plataformas (Skype, WhatsApp – voz apenas, ou imagem e voz, Zoom, Hangouts, telefone celular ou comum) e se há resistências intransponíveis de certos pacientes, e de certos analistas, diante desse novo setting virtual.

  • Tem adulto na sala…

Gostaria de compartilhar algumas experiências bem recentes: quando meu consultório se transformou em virtual, uma vez que encerrei os atendimentos presenciais no dia 18 de março, experimentei um enorme cansaço, após um dia de trabalho virtual, em modalidades variadas: voz, imagem, ambas, troca durante o atendimento por falha na transmissão. Algumas questões surgiram: a necessidade de espaçar mais os horários e flexibilizar opções para pacientes que estão em casa como eu. Alguns, com dificuldades enormes em manter um espaço privado, em função de suas pequenas moradias, e presença da família o tempo todo em conjunto. Eis aí uma questão operacional, nem tão difícil de resolver, que merece tempo e atenção.

A outra questão diz respeito ao momento em si, traumático e assustador para os dois: paciente e analista. Notei que foi um tanto quanto difícil sair do tema da pandemia, e possibilitar o estranhamento necessário ao encontro analítico, acessando os lados mais enigmáticos do paciente. Na pandemia, nos irmanamos, nos solidarizamos, nos familiarizamos com o paciente, e assim, ficamos mais distantes do dispositivo do método. Enredados nas conversas que ambos ouvimos, ficamos duas crianças na sala, desamparadas, em busca de um adulto, não necessariamente o “sujeito suposto saber”, mas aquele que acompanha a longa jornada ao mundo interno, que muitas vezes não tem as respostas nem as certezas, mas propicia a viagem.

Outra experiência significativa foi o apoio em redes de colegas, em reuniões virtuais, onde pudemos falar da experiência recente, numa espécie de supervisão horizontal, colocar nossas angústias num espaço ético e colaborativo.

A conversa continua, a pulsão não sossega, exige trabalho…

Dora Tognolli é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Quando tudo isso passar, vai precisar de um outro carnaval!

Mariangela O. Kamnitzer Bracco

Com essa frase bem humorada Alice se despediu de mim. Durante a sessão havíamos combinado de começar nossa quarentena analítica e prosseguir, se possível, online. Uma experiência nova para nossa dupla antiga. O tom alegre da despedida me animou, e me senti cheia de boas perspectivas; não só para o prosseguimento dessa análise, como também para os dias vindouros, que até então me pareciam totalmente sinistros e sombrios.

A necessidade de recolhimento exigida pelo coronavírus implicou em inúmeras mudanças em um ano que já começava a tomar ritmo. E assim, semana passada, vi-me despedindo também de outros pacientes, de colegas de seminário, de grupos de trabalho, de familiares e amigos. E, last but not least, do meu analista. Ainda que o mundo virtual acenasse promissor, tudo aconteceu de forma rápida e avassaladora. E essa, penso ser a crueldade desse vírus; a velocidade e a forma insidiosa com que se espalha e que não dá tempo. Tempo para que os doentes sejam tratados e não se acumulem nos hospitais. Tempo, essa matéria prima fundamental no trabalho psíquico.

Nessa semana caótica, terminei uma sessão dizendo para meu analista: sem surto e sem surtar. E esse seria o mantra a ser entoado. Outra medida protetiva foi refugiar em meu narcisismo e me acalmar pensando que não pertencia ao grupo de risco. Mas vi em mim, em meus pacientes e em todos ao meu redor, fortes angústias emergirem. Angústias despertadas pelos ameaçadores fatos recentes que, de alguma forma, reavivavam angústias passadas, da história pessoal e coletiva.

Assolada por meus fantasmas persecutórios, recorri aos diários de Helene Lilly, minha avó judia-alemã.  Em 1938, morando em São Luís do Maranhão, ela escreveu com muita precisão e perspicácia sobre a crescente brutalidade dos nazistas, que tanto sofrimento infligiram também a nossa família. Depois dessa leitura, e, inspirada em Helene, desejei uma serenidade lúcida e decretei: não, não se trata de uma terceira guerra mundial – o vírus com todas mazelas sociais que promete acarretar, não vai ser tão devastador. Mas, metáforas de guerra, de hecatombes, de zumbis vagando pelas ruas povoavam o imaginário. Bruno Profeta, nosso colega, desabafou no grupo de WhatsApp da DC: “só rindo pra aguentar esse clima de mistura entre o Ensaio sobre a Cegueira e The Walking Dead…” Sim, o humor poderia ser um precioso aliado.

Minha angústia depressiva se manifestou quando corajosamente decidi sair do meu bunker para resgatar no consultório minhas plantas, alguns livros e o álcool gel que, no movimento de fuga, haviam ficado para trás. O prédio vazio, com apenas dois carros na garagem, me encheu de tristeza, não vi ninguém. Tudo muito unheimlich! Voltando para casa me senti mais aliviada, pois havia vida e uma família reorganizando sua rotina, com novos tempos, novos espaços.

Assim, com a ajuda da análise pessoal, com a confiança de ser neta de Helene, e no compartilhamento com os colegas e amigos, fui acalmando minhas angústias e tecendo uma narrativa para esse acontecimento inédito, chamado por muitos de peste. Outro ponto de apoio fundamental tem sido as supervisões com Sandra Schaffa, onde vemos que não bastam os cuidados sanitários, pois o vírus insidioso também pode vir de dentro. Fortalecida, penso estar trabalhando com muita disposição e desenvoltura no meu novo consultório/casa-online.

Hoje, Alice compareceu a sua segunda sessão nesse novo ambiente. Bastante alegre contou que ontem arriscou fazer um passeio e, na padaria, encontrou um andarilho que já havia visto algumas vezes antes. Ele se vestia de boiadeiro, com chapéu de cowboy e tudo. Ficou intrigada, quis conversar com ele, mas limitou-se a observar. Ele recebeu o pingado e o pão na chapa que pedira ao dono do estabelecimento. É uma figura popular, muito querida. Conversamos sobre a liberdade desse homem de vaguear e viver seu personagem sem constrangimento, numa cidade asfaltada e sem boiadas.  Alice que gosta de escrever e escreve lindamente, pensa deixar o emprego na empresa da família e lançar-se como escritora. Falamos sobre sua liberdade de escrever, de ser como esse andarilho muito bem acolhido pelo seu entorno. Mas, ao contrário dele, verteria suas fantasias em personagens e enredos a serem compartilhados.

Na sequência, Alice falou com apreensão de seus pais que ainda estão nos Estados Unidos, e com dificuldade de retornar ao Brasil. O seguro-saúde deles não cobre pandemias e a volta possível, requer um pernoite em Nova Iorque, hoje, a cidade-epicentro da doença, cujo sistema de saúde ameaça colapsar. A alternativa seria permanecer na cidade onde estão, na casa de uma irmã da igreja – mas aí havia o desconforto de ficar um longo tempo em casa alheia. Bela metáfora, e lhe digo minha percepção do seu impasse, entre ficar abrigada e protegida num lugar que não é seu (a empresa) ou voltar para o território em que se reconhece e se sente confortável: a escrita.  Contudo teria que passar por uma zona de risco, para a qual não havia proteção (cobertura do plano de saúde). Toda essa conversa se deu num contexto de muita soltura e mobilidade, dela e minha, no divã online. Penso que Alice já fez sua escolha. Agora é aguardar.

O que posso afirmar é que eu fiz a minha: sair da zona de conforto, abandonar o terreno dos grandes autores e publicar esse texto muito intimista. Quanto risco !

Antes de encerrar, relato aqui parte da conversa fluida e alegre que ocorreu via WhatsApp por ocasião da interrupção do seminário de Lacan. Havia pedido ao nosso colega e poeta Ricardo Biz, que nos enviasse um poema inspirador para os dias que se seguiriam. E, após algum tempo, ele respondeu: “Aceitei o desafio. Aí vai:”

O Agora é um alambrado

Que aprisiona meu vento,

Um vento nunca rumado,

Sem fim e sem nascimento.

Marilsa Taffarel, nossa querida coordenadora, que habilmente nos conduz por meio dos instigantes labirintos de Lacan, reagiu: “Ricardo, inspiração à prova de coronavírus!” E sem perder o gingado lacaniano acrescentou: “Bons tempos em que corona era uma marca de chuveiro! Lembra?”.  Ymara Victolo, por sua vez, concluiu: “Boa, Ricardo! Não aprisionou a liberdade de criar e pensar!”

Eu termino meu texto, desejando que esse período de recolhimento seja de muita libidinização e vitalidade. As próximas semanas serão muito duras. Precisamos reforçar nossa imunidade com fortes laços coletivos para resistir.  Resistir, não só ao vírus, mas também a toda uma politica ensandecida que não valoriza a vida humana. É hora de convocarmos Eros e realizar um pacto civilizatório, onde prevaleça a justiça e a fraternidade. Agora, juntos, cantemos o refrão: “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte!”

Quero citar as outras colegas que compõem o precioso grupo de Lacan: Alice Paes de Arruda Barros, Ana Maria Rosenzvaig, Fernanda C. S. Colonnese e Maria da Penha Lanzoni. Quero expressar também minha gratidão para a Ana Maria, que foi generosa interlocutora na realização desse texto. Sem seu incentivo, eu não o teria escrito.

 

* Mariangela O. Kamnitzer Bracco é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

 

Caros Membros da SBPSP e Membros Filiados ao Instituto

Estamos vivendo um momento pleno de incertezas e inseguranças em múltiplos aspectos de nossas vidas. As medidas práticas tomadas por governos, estados, autoridades embora importantes e necessárias atendem a uma parte das demandas necessárias para conter a vertiginosa velocidade de contágio da pandemia que nos assola.

Como psicanalistas sabemos que a incerteza, o medo e a insegurança têm ressonância com angústias primárias e o nosso desamparo constitutivo e demandam também outras modalidades de contenção. O melhor e o pior da humanidade emergem nestas horas. Estamos acompanhando de perto o esforço dos colegas analistas e também dos analisandos no Brasil e no mundo, para manter as condições de escuta e de trabalho psicanalítico nas condições que a cada um lhe é possível.

O momento não é de heroísmo onipotente, mas também não de um niilismo catastrófico. Acredito que todos nós estamos cientes da importância de estarmos disponíveis para nossos analisandos, seja de modo presencial quando possível ou pelas ferramentas remotas ao nosso alcance.

Reconhecemos que em momentos como estes surgem dúvidas e inseguranças no modo de conduzir nossa tarefa analítica. Muitos nunca praticaram análises remotas, outros se interrogam sobre a possibilidade e dificuldade do trabalho com crianças nestas condições as perguntas são muitas.

Todos nós temos colegas e amigos analistas com quem podemos compartilhar as experiências, intercambiar ideias, manter um diálogo sincero e exercer um pensamento analítico vivo. O importante é que estejamos unidos como grupo e instituição, embora isolados fisicamente, de modo algum o estamos emocionalmente.

A solidariedade entre todos e para com o conjunto da sociedade são fundamentais para enfrentar o sofrimento psíquico, físico e econômico ao qual estamos todos sujeitos.

Um afetuoso e solidário abraço a todos,

 

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pandemia do coronavírus, epidemia de pânico e a evolução da humanidade

Observatório Psicanalítico – 150/2020  

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*José Martins Canelas Neto

 

A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é de saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição. (Sigmund Freud, O mal-estar na civilização, 1930)

​Vivemos uma epidemia de pânico desencadeada pela grave pandemia do coronavírus. Diante da angústia de morte e das incertezas quanto à doença, o pânico aparece entre as pessoas e as reações são as mais variadas. Uma delas é a negação do problema. Vemos isso em todos os países, nos quais as pessoas minimizam o problema e não tomam os cuidados recomendados pelos especialistas e pelos sistemas de saúde, frequentando lugares com aglomeração de pessoas como bares, restaurantes, cinemas, shows, manifestações públicas, etc. De forma semelhante vemos reações de rebeldia, violência, segregação de pessoas que poderiam estar infectadas.

Já entramos numa crise mundial desencadeada por essa pandemia que apesar disso, paradoxalmente, pode nos ajudar a pensar e, quem sabe, começar a mudar nossa visão sobre esse mundo em que vivemos hoje.

Atravessamos um momento histórico sombrio da humanidade, no qual certas políticas e ideologias discriminatórias estão em ascensão; o conhecimento e a ciência são atacados, mesmo após as importantes lições que outras epidemias, o holocausto e outros genocídios nos deram.

Esse quadro é particularmente grave no Brasil onde observamos uma enorme regressão no que concerne nossa consideração e reconhecimento do outro como nosso semelhante, manifestações violentas, desqualificativas e de descaso e ódio em relação aos mais desfavorecidos e àqueles diferentes de nós.

Agora fica claro o que Freud já mostrou quando, a partir de 1920, no pós-Primeira Guerra Mundial, reformulou sua teoria das pulsões, introduzindo o novo dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. No texto Psicologia das massas e análise do Ego, e em outros textos, nos mostrou o quanto o ser humano tem nele, em seu âmago mais profundo, a possibilidade de destruição de si mesmo e dos seus semelhantes.

Todos nós estamos sendo forçados a aprender que só sobreviveremos enquanto espécie se realmente levarmos em consideração o outro. Não só o outro ser humano, mas os outros seres vivos e nossa mãe Terra. A ganância e o egoísmo, fomentados pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, estão nos levando para a real possibilidade de destruição de nosso planeta e de nossa espécie.

Quando vemos no Brasil e em vários países as pessoas apresentando um comportamento, estimulado pelo pânico da morte, de completa desconsideração pelo ser humano próximo, enchendo os carrinhos nos supermercados de maneira irracional, tentando a todo custo levar vantagem sobre os outros, ficamos tristes e muito preocupados com o nosso futuro enquanto espécie. Mas talvez essa pandemia nos propicie indiretamente a oportunidade de refletir com nosso coração e exercer nossa capacidade de amar a vida e respeitar cada ser vivo.

A ameaça à vida pela pandemia não faz distinções de classe, de cor, de gênero, enfim das singularidades de cada um. Todos estamos ameaçados. Mesmo as classes mais favorecidas, num piscar de olhos, poderão se tornar discriminadas, por exemplo se não houver mais leitos de UTI nos melhores hospitais privados. De nada adianta estocar papel higiênico se o sistema de saúde não conseguir dar conta do atendimento das pessoas que necessitarem, sejam elas ricas ou pobres, homens ou mulheres, qualquer que seja seu gênero, cor ou outra singularidade.

Nossa sociedade baseada no individualismo, no lucro desenfreado, no consumismo sem limites, por vezes de produtos extremamente fúteis, essa sociedade será obrigada a ver que a natureza é mais forte, que um simples ser vivo como um vírus pode acabar com nossas vidas rapidamente. Esse é o momento em que será preciso mais do que nunca desenvolver nosso senso do coletivo, nossa solidariedade e nossa civilidade. Cada vida é um milagre precioso e deveríamos honrá-la e ter responsabilidade e respeito com ela.

No mundo atual, no qual a tecnologia nos permite conseguir tantos progressos, passamos mais tempo nos celulares, mergulhados em nosso universo narcísico individual, do que no cuidado com o outro, com o afeto e o amor pelo ser humano próximo.

Precisamos refletir como dispomos de nosso tempo. Que escolhas fazemos para usufruir de nossa vida. Paradoxalmente agora, com essa pandemia, só poderemos nos relacionar pelos meios virtuais. A necessidade premente do isolamento social vai nos mostrar, assim espero, o quanto o outro humano é importante. Será que conseguiremos aprender a fundamental lição de que o respeito e a responsabilidade pelos outros são essenciais para nosso futuro e o do planeta?

Espero que sim! Mas nada é certo. Estamos em um momento de profunda incerteza e precisamos aprender a lidar com ela. É preciso respirar profundamente e acolher uma nova maneira de pensar e ser criativo diante dessas limitações cotidianas que nos estão sendo impostas, podendo transformar então nossa organização da vida e das relações. O vírus nos mata pela impossibilidade de respirar, mas também pela nossa dificuldade de enxergar o outro em sua semelhança e humanidade, nos tornando irracionais e propagadores da morte. É o momento de nos elevarmos enquanto seres de luz e razão e não sucumbirmos ao que há de mais baixo em nós!

O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece em pé. […] A forma mais baixa do sobreviver é o matar. (Elias Canetti, Massa e poder, 1960)

 

*José Martins Canelas Neto é psicanalista; membro e secretário geral da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.