Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…

Observatório Psicanalítico – 139/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*Raya Angel Zonana

Há momentos vertiginosos na vida. Hoje, eu quase concordei com Olavo de Carvalho! E, mesmo com a palavra quase, este é um fato assustador. Difícil organizar pensamentos diante da barbárie.

Mas devo, também desta vez, discordar dele. Referindo-se a Alvim, após o discurso deste, “cola” de um dos discursos de Goebbels, o astrólogo profetiza: “É cedo para julgar, mas Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça”.

Discordo desta afirmação por dois motivos: não é cedo para perceber o que, infelizmente, se passa nestes tristes trópicos, e não parece que o problema do (ex) secretário especial seja “não estar bem”. Sua doença é mais grave. Ele, e todo o governo do qual até há pouco fazia parte, sofre de ódio. Ódio ao conhecimento, ódio ao pensamento, ódio àquilo que para Freud, e para nós psicanalistas, retira o homem da barbárie: a ciência e a arte.

Surpreende que o discurso de um componente do atual governo seja copiado ao do ministro da propaganda de Hitler? Não. Nem surpreende a presença no cenário da Cruz de Caravaca, trazida ao Brasil pelos Jesuítas, tão empenhados em catequizar os índios. Estes, por não ter alma, encontrariam a salvação ao abraçar a fé cristã – ainda que isto tenha vindo a custar milhares de vidas. Quem serão agora os sem alma “merecedores” de catequese?

O que horroriza, e causa vertigem, é a atitude explicita, sem constrangimento ou tentativa de disfarce. Muito pelo contrário. O claro tom de orgulho e prazer de Alvim, nos leva a pensar, sem medo de errar, que este, ao discursar, estava coberto de puro gozo! Mas, era só mais um ato de ‘siga o chefe’. Ou é difícil perceber o tom exaltado e ufanístico com que, repetidas vezes, o chefe deste governo se refere ao seu ídolo, o torturador General Brilhante Ustra? Homem brilhante em subjugar, torturar o “outro”, fazê-lo objeto de prazer pessoal.

Ou, estávamos distraídos quando ao assumir o governo, o Presidente, após orar, pronunciou: “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.”

Seria coincidência a semelhança com o Deutschland über alles, gritado de punho em riste pelo Führer, seguido por toda uma nação?

Umberto Eco (1995/2018), em O Fascismo Eterno, nos solicita ‘não esquecer’. Que não pensemos ser o fascismo um mal superado, ele ainda está ao nosso redor ao se apresentar com certas características como o ódio ao diferente e à diversidade de pensamento, oposição à crítica, controle da sexualidade, machismo e exaltação de um líder que salve o povo e o represente. Nem haveria necessidade de representações democráticas como o Congresso: o líder saberia do que o povo necessita.

O hipnotismo, sedução, fascínio exercidos pelo líder sobre a massa, dos quais Freud fala em Psicologia das massas e Análise do Ego (1921), ganham forma no discurso do secretário especial da subpasta da Cultura – a denominação especial e subpasta não são aleatórias – quando este explicita o pedido do presidente: “que a cultura não destrua, mas salve a nossa juventude na luta contra o Mal, com uma arte para o povo para o qual é criada”.

Não há aí uma inversão? Não é o povo de um país que constrói sua cultura, sua arte?

Anunciavam-se prêmios para arte não “degenerada”. Arte suavizada como o Presidente sugeriu que fossem os livros escolares, que “têm muita coisa escrita”.

Umberto Eco nos lembra que os textos escolares nazistas e fascistas usavam um léxico pobre, uma sintaxe elementar para assim limitar “os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico”. Simplificar a complexidade da palavra, evitar a capacidade crítica, formas de criar cada vez menos sujeitos, cada vez mais objetos…

Eco ainda nos diz que o fascismo aparece de maneira sutil. Seria fácil identificá-lo, diz o autor, se alguém bradasse livremente coisas óbvias como: “Quero reabrir Auschwitz”.

Absurdo? Mas, não teríamos ouvido algo semelhante na frase: “Melhor filho morto do que filho gay!”? Isto não seria reabrir Auschwitz, onde foram confinados e mortos milhares de homossexuais, ciganos, comunistas, judeus ou quem quer que perturbasse o tom ariano desejado pelo nazismo?

Plagiar Goebbels mostra alguma sutileza? Ou é mais do mesmo, entre os tantos fatos grotescos e abusivos que nos atropelam, diariamente, há cerca de um ano?

Corremos o risco de naturalizar estas situações. Começamos achando graça nas bobagens e impropérios ouvidos, mas o riso há tempos tornou-se esgar de medo e horror. A tranquilidade, a naturalidade com que frases e discursos são exalados sobre nós não impedem que nos cheguem como gás venenoso. Não podemos nos permitir a indiferença, devemos estar atentos à instalação lenta e mortal da banalidade do mal.

Se escrita e o pensamento são os instrumentos que temos para fazer frente à barbárie, se é a possibilidade de reflexão o que temos à mão, cabe-nos fazer uso destas verdadeiras ferramentas do analista: escuta e reflexão. Apesar dos livros queimados, Freud e muitos outros escritores continuaram a escrever.

Não nos enganemos, portanto.

Para nós psicanalistas, atentos aos movimentos do humano, a repetição, em seu caminho pulsional mortífero, não é surpresa.

Cabe-nos, sim, poder recordar. E insistir!

“…A gente vai contra a corrente…”

*Raya Angel Zonana é psiquiatra pela FMUSP, psicanalista, membro da SBPSP, Editora da Revista Calibán, Revista Latino Americana de Psicanálise da FEPAL. Integra a Diretoria de Comunidade e Cultura da SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP.

 

**Uma versão deste texto está publicada no Observatório Psicanalítico no site da FEBRAPSI. Clique aqui.

 

3 comentários

  1. Olá Raya,
    Seu modo de escrever é bastante mobilizador e nos alerta para uma situação que segue agravando-se mais e mais. Temos feito ouvidos moucos ou, como você salienta, usando o riso para afugentar o medo. É rir pra não chorar. Estou com você sobre resgatar nossos melhores instrumentos: a escuta reflexiva e atenta, o diálogo e a escrita, o reconhecimento da arte e da ciência, como contrapontos, como resistência ao avanço do cinismo e da barbárie, também dentro de nós.

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