Nara: a menina invisível dos olhos fugitivos

Prefácio

Mirian Malzyner, autora e ilustradora deste belo livro para crianças, remete-nos à estória de Nara e nos conduz de forma lúdica a entrar na vida real da autora por meio da imaginação.

Nara enfrenta o estrabismo e a timidez, desafios que a fazem sentir-se diferente de outras crianças. Com belíssimas ilustrações e enredo, os conflitos e a imagem de si mesma vão sendo apresentados. Há uma questão física e uma psicológica. O “olhar fugitivo” – forma brincalhona que Mirian usa para ilustrar o estrabismo – torna-se um problema. O olhar da mãe reflete sua preocupação, o que contribui para a timidez da menina. É quando a busca pela invisibilidade surge como forma de proteção. Por meio dos sonhos e de sua capacidade imaginativa, Nara, que só era colorida pelo lápis vermelho em seu rostinho, descobre como usar outras cores e desenvolve o desejo de tornar-se visível.

Os olhos fugitivos de Nara contam a história de Mirian, que passada a experiência da infância, mergulha na profundidade e complexidade do mundo psíquico do ser humano, pois se torna psicanalista. O tempo passou, mas a imaginação ainda potencializa sua capacidade artística. Usando cores, pintando quadros, escrevendo livros… Criando um universo em que lápis de cor e tintas coloridas apontam para sua vitalidade e visibilidade.

Acompanho Mirian há muitos anos e é visível sua dedicação a tudo que se propõe e ama. Sempre interessada em pintar figuras humanas, com estilo próprio, onírico e singular. Como artista plástica e psicanalista faz uma ótima combinação entre razão e imaginação.

Este livro, além de encantador, pode ser útil, pois possibilita diálogos que fortalecem a autoestima de crianças que vivem numa condição que as difere das demais. A criança pode sentir-se inadequada por ser diferente, tende a se apagar e a tornar-se invisível. Talvez, o lápis vermelho da timidez tenha sido amigo de Nara, já que, mesmo de uma forma difícil, mostrava que algo acontecia dentro dela. Vermelho é cor de emoção e é preciso confiança para permitir que outras cores apareçam.

Quando Nara se torna colorida, pode rir e gargalhar pela “simples” alegria de se sentir viva e visível. Penso que só é possível sentir a felicidade quando a vida ganha sentido e quando a criança pode ser e existir, para si e para o outro.

Marlene Rozenberg

Psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

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