João, de Deus?

* Rafael Privatto Tinelli

No dia 25 de julho deste ano, a equipe de sete advogados do famoso médium João de Deus, anunciou que não iria mais trabalhar em sua defesa, abandonando a causa.

João de Deus foi preso, preventivamente, em dezembro de 2018 e desde então, está aguardando julgamento.

A primeira denúncia contra o médium veio de forma midiática por Zahira Mous, em entrevista para um programa de televisão. Na sequência, centenas de mulheres que se sentiram encorajadas por Zahira, vieram a público para também relatar os abusos que sofreram do médium. Foram mais de 300 mulheres que apareceram para compor estas denúncias de abuso sexual e estupro. O Ministério Público de Goiás apresentou 11 denúncias contra ele. Aparentemente, dessas mais de 300 mulheres que se apresentaram, 11 tinham provas suficientemente contundentes para tentarem condenar João de Deus.

Algumas semanas após o escândalo, a jornalista e ativista Sabrina Bittencourt fez acusações por meio de um vídeo na internet, em que diz que João de Deus estava diretamente envolvido com cárcere privado de mulheres que eram forçadas a engravidar para que ele e sua quadrilha vendessem os bebês no mercado internacional. Destas acusações, João só assumiu o porte ilegal de armas, depois que as tais foram encontradas em sua casa, em um armário com fundo falso.

No livro escrito por Heather Cumming e Karen Leffler (2008) sobre a vida de João Teixeira de Faria, o João de Deus, as autoras afirmam que o médium já contribuiu para a cura de mais de oito milhões de pessoas. O currículo apresentado por elas impressiona com um longo histórico de curas para diversos tipos de câncer, paraplegias, cegueiras, dores crônicas e até AIDS.

O livro parece ter várias funções. De início, temos uma pequena biografia do médium e a experiência de dividir algumas refeições com ele durante um dia. Também parece oferecer uma propaganda da Casa, onde são feitos os tratamentos milagrosos em Abadiânia, no Estado de Goiás. Além disso, parece servir como uma espécie de guia de visitação da mesma, trazendo um mapa e algumas dicas importantes sobre os trajes adequados e as condutas esperadas.

De acordo com as autoras, o médium João participou “do começo ao fim” da produção do livro, e “contribuiu com numerosas ideias e detalhes” (p.15). Podemos imaginar quão árdua deve ter sido esta operação para João, que se diz analfabeto a ponto de ser incapaz de preencher um cheque. Sua primeira sugestão, de acordo com as autoras, foi a de incluir um capítulo que narrasse a pobreza na infância e juventude. O caminho do herói.

Aparentemente, a pobre família só dispunha de um pequeno hotelzinho dirigido pela mãe e de uma alfaiataria, que era do pai. Teve que começar a trabalhar cedo. Seus primeiros ganhos como clarividente eram usados para jogar no “salão de sinuca”. Bar? João precisava sustentar sua família e por isto, foi para Brasília oferecer seus serviços de alfaiate para os militares que tinham acabado de tomar o poder. A partir daí, João se tornou o médium dos militares que o acolheram e o promoveram a mestre alfaiate tendo sido “protegido deles por nove anos (p.27).”

Desde então, parece que a vida de João decolou. Apesar de ser incapaz de preencher cheques, João já foi dono de algumas mineradoras de ouro e pedras preciosas, além de ter mais de 600 alqueires de fazendas.

No prefácio do livro, o físico Amit Goswami escreve: João de Deus é mais do que uma pessoa, é um fenômeno científico de suma importância (…) O médium João canaliza a memória quântica de outra pessoa que viveu antes dele e já morreu. Na verdade, enquanto João canaliza, ele transforma abruptamente o seu caráter e passa a irradiar amor incondicional que promove a cura daqueles que precisam dela”

De fato, João de Deus parece compor um fenômeno intrigante. Ele parece nos apresentar com relativa clareza os espectros de Deus e do Diabo na mesma pessoa.

Freud já nos presenteou com a ideia de uma pulsão de vida – Eros – que nos impulsionaria a construção e o desenvolvimento pessoal, e a de uma pulsão de morte – Tânatos – que visaria a desconstrução e a paralisação do crescimento e desenvolvimento (Freud,1920). Neste sentido, poderíamos associar Deus e o Diabo como partes constituintes dos seres humanos. Uma parte construtiva e evolutiva e outra destrutiva e paralisante.

Seria possível que tais pulsões fossem as principais responsáveis por estes comportamentos de João? Da produção de um bem tão grandioso e de um mal igualmente assombroso?

Outra hipótese, talvez se refira mais ao Diabo do que a Deus.

Seria possível que João Teixeira de Faria fosse um psicopata?

Na literatura científica nós temos muitas referências que descrevem tais personalidades com uma grande dificuldade de perceber e conhecer os próprios sentimentos, bem como a incapacidade de sentir empatia e culpa.  Da mesma forma a ausência desses sentimentos seriam compensadas pela tentativa de imitá-los (Hare,1993). Como um ator ruim que imita sentimentos sem de fato senti-los. Talvez, João seja um ótimo ator? Ou mesmo que fosse um ator ruim, seria possível que sua má performance ou características estranhas fossem associadas e percebidas como a manifestação de seus poderes paranormais?

Afinal, o que seria tal mediunidade? O poder de ver o que ninguém mais vê? Ouvir o que ninguém mais ouve? Ter poderes de se comunicar com Deus? Talvez os descrentes pudessem dizer que há semelhanças com uma forma de psicose, não?

E como se explica as milhões de pessoas que acreditaram junto com ele nestes poderes? Mesmo estas centenas que foram abusadas e que levaram anos, por vezes, décadas para se manifestarem? Estariam elas com medo do castigo divino? Castigo que viria de Deus ou do Diabo?

Bem, e se considerássemos que ambos os lados estão sendo verdadeiros?

Ou seja, que João de Deus realmente foi a figura responsável pela cura de milhões de pessoas, e que este mesmo João também tenha sido o estuprador destas outras tantas mulheres.

Ter a si a atribuição de algo que existe dentro do outro…

Ser o bem que o outro precisa que eu seja. Possuir o bem para poder oferecê-lo a quem pedir ou a quem quiser comprar.

Penso que algo parecido com isto é chamado pela psicanálise de Transferência.

Talvez, João de Deus seja Deus para que nós possamos ver Deus. Para que possamos falar com ele e ter com quem reclamar… Será possível que para que nós possamos sentir o amor divino e incondicional, nós criamos João de Deus?

Em nossas clínicas podemos observar o poder das transferências. Doenças que somem em apenas algumas sessões de análise não são incomuns.

Bion traz no termo “preconcepção”, algo que constituiria a mente humana, e utiliza o modelo mãe-bebê para caracterizar a busca do bebê pela mente da mãe, e para que ela então possa conduzi-lo ao seio que o alimentará.

Chuster (2014) descreve: “A preconcepção pode ser definida como uma expectativa vaga de que, no futuro, exista um objeto onipotente e psiquicamente acolhedor capaz de preencher as necessidades e incompletudes humanas” (p.66)

Talvez João de Deus nos ofereça o alívio para esta busca.

Um psicopata, com ótimas habilidades teatrais…

O depositário de uma necessidade de vermos e tocarmos Deus e de assim termos encontrado o paraíso do amor incondicional. O seio que está sempre disponível…

Um homem que faria uso disto para enriquecer e abusar de adolescentes e mulheres…

Um médium com poderes sobrenaturais que canalizaria a energia de espíritos mais evoluídos para curar doenças…

Talvez, João Teixeira de Faria seja tudo isto. Talvez não seja nada disto. De qualquer forma, parece um fenômeno extraordinário e que, possivelmente, fale mais sobre nós como espécie do que de João.

Bibliografia:

Chuster (2014). A Preconcepção, Passagem Pré-humano/Humano: Uma mudança de Paradigma na Psicanálise. In Soares, G. & Trachtenberg, R. W.R. Bion: A Obra Complexa (2014) Porto Alegre. Editora Sulina.

Cumming,H. & Leffler, K. (2008) João de Deus: O Médium de Cura Brasileiro que Transformou a Vida de Milhões. São Paulo. Pensamento.

Freud, S.(1976). Além do Princípio do Prazer. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol18) (pp. 17-88). Rio de Janeiro: Imago. (trabalho original publicado em 1920)

Hare, R.D. (1993). Without Conscience: The Disturbing World of Psychopaths Among Us. The Guilford Press. New York.

*Rafael Privatto Tinelli é psicoterapeuta psicanalista, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

 

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