Bacurau

 O Brasil em potência

* Marielle Kellermann Barbosa

Bacurau, longa metragem, dirigido pelos diretores pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, estreou no fim de agosto de 2019, nos cinemas do Brasil, depois de ter ganho o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e também eleito como o melhor filme do Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, e do 23º Festival de Cinema de Lima, no Peru.

Aos que ainda não assistiram, não se preocupem com spoilers, Bacurau é um filme que mais interessa o “como” do que o “o quê”. Bacurau resistirá a qualquer spoiler.

A palavra que dá nome ao filme é a da cidade na qual a trama se desenrola, situada no interior de Pernambuco, em algum futuro incerto – o fato da história se passar em uma distopia futurista ela se apresenta em sinais delicados ao longo do filme – o nome da cidade é a de um pássaro do sertão, um pássaro forte, que só sai à noite.

Bacurau é pobre, sofre com falta de água, sofre com a ganância comum e conhecida de um político, que distribui comida vencida e livros como se fossem lixo, os moradores não têm a beleza convencional do cinema, peles marcadas pelo sol, chinelos nos pés, insetos voando dentro das casas, suor na testa do professor. Mas Bacurau não é apenas pobre, no começo do longa metragem, uma moça retorna à cidade de origem para o velório de sua avó. Avó negra, morta aos 94 anos, é contada como uma árvore anciã da qual descendem frutos, na voz de seu filho, que conduz o velório, Dona Carmelita teve filhos, netos, netas e bisnetos, médicos, professores, putas, arquitetos, pedreiros. Da avó idosa negra, uma linhagem de filhos negros, netos mestiços que se espalharam pelo Brasil e pelo mundo.

Em Bacurau, há um professor negro, há uma médica lésbica (interpretada por Sônia Braga), as crianças aprendem música, há biblioteca e há museu. A igreja serve de depósito – curiosa escolha a dos roteiristas (que também são os diretores), essa de deixar a igreja fechada.

Lunga, um anti-herói necessário, tido como criminoso e procurado pela justiça, é uma personagem curiosa, espécie de Lampião andrógino, vestido com acessórios dignos de um Mad Max do sertão.

O enredo da trama segue em ritmo diferente do conhecido, até certo ponto adiantado do filme, o telespectador se questiona do que se trata aquela história, porém, mesmo sem entregar às explicações sobre o enredo, o filme se desenrola com uma tensão constante e bem administrada.

Bacurau começa a sofrer ataques, pessoas são mortas. Um casal branco do Sudeste age juntamente a um grupo norte-americano. Em um dos diálogos, digno de clássico Tarantinesco, o casal brasileiro diz ser igual aos americanos: “Nós somos do Sudeste, de uma região rica de colônias alemãs e italianas, somos iguais a vocês”. Iguais? Ri um personagem norte-americano retratado como um red neck (expressão usada para designar caipiras norte-americanos, comumente violentos e pouco instruídos, típicos eleitores de Trump).

O casal de brasileiros brancos chega a Bacurau, os habitantes da cidade são gentis, mas desconfiados, o repentista da cidade nega o dinheiro oferecido pela mulher carioca revelando, por sua música, a arrogância e a prepotência dos brasileiros ricos. Bacurau é sertão pernambucano, é Brasil, mas também é “Game of Thrones”, Idade Média, o repentista – bobo da corte – denuncia, em piada, a suposta superioridade do Sul em relação ao Nordeste. Lunga, o fora da lei, vive em uma “torre”, armado e protegido, os norte-americanos, absolutamente convictos de estarem caçando mais animais do que gente, encarnam a superioridade colonialista opressora em relação às pessoas do terceiro mundo.

E, em meio a esse conjunto de referências, o sertanejo aparece como Euclides da Cunha os nomeou: antes de tudo, um forte.

Os personagens habitantes de Bacurau sorriem, simpáticos, em sua suposta ingenuidade infantil de cidadezinha de mentira. Um morador da cidade, homem negro, conhecedor de ervas e plantas, percebe o ataque eminente e se defende de seus agressores. Da parede do museu da cidade, as armas, da época de lampião, servem como proteção.

A violência, que tem ares de Tarantino, é avaliada pelos próprios personagens. Pacote – personagem central, um anti-herói mais para herói, menos fantasiado que Lunga – pergunta a uma das netas de Dona Carmelita:  Você não acha que Lunga exagerou? Não.

Tampouco sobra, para o espectador, violência sem sentido.

Bacurau é denúncia, é crítica, é suposição. Bacurau é um novo nordestino, potente. É um medo de para onde possamos caminhar. Uma lembrança do que pode voltar a ser.

Em um cortejo no qual o DJ narra nomes de vítimas mortas, os nomes, misturados a outros: Marielle, Marisa Letícia.

Filme oportuno ao momento político presente.

* Marielle Kellermann Barbosa é psicanalista, Membro Filiado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

1 comentário

  1. Assisti Bacurau e ao escutar os nomes de Mariele e Marisa Letícia, que você também destaca em seu texto, citadas dentre os mortos-vítimas de uma violência tenebrosa, mas também casual e corriqueira, um arrepio sinistro me correu a espinha. Retrato preciso de ações homicidas que passam frias diante de nosso olhar acostumado.

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