Mês: outubro 2019

Conversando com Shakespeare e Freud

* Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo

Você conhece Shakespeare? E Freud? Em diferentes instâncias, todos conhecemos um pouco. Em poucas linhas, selecionei apenas alguns aspectos, em função da importância e grandeza desses dois autores. Um é poeta e dramaturgo inglês, o outro, neurologista e psiquiatra austríaco, criador da psicanálise, o pai da psicanálise, como é chamado. Posso assegurar que tão logo qualquer um de nós penetre no universo de suas obras, não sairá mais. Faço aqui um convite e um alerta: somos aos poucos enredados pelo prazer e curiosidade cada vez maior, que ambas as produções vão disparando em nós leitores, estudantes, espectadores.

São fascinantes tanto as peças de Shakespeare, como a teoria psicanalítica que Freud em 40 anos construiu e nos presenteou.

É fácil compreender porque Shakespeare (1564-1616) é tão atual e frequentemente encenado no mundo inteiro. Basta iniciar a leitura. Assim como muitos dos conceitos trazidos por Freud (1856-1939), entraram em nosso vocabulário e definitivamente fazem parte da nossa cultura.

Apenas três peças são originalmente escritas por Shakespeare: Sonho de Uma Noite de Verão (1595), As Alegres Comadres de Windsor (1597-8) e A Tempestade (1611). Todas as outras peças foram retiradas e transformadas a partir de obras já existentes, de diversos autores, onde o Bardo imprime profundidade e dá a elas nova finalização e beleza.

Quando os teatros ingleses foram fechados por dez anos, em função do alastramento da peste negra que dizimou quase um terço da população da Europa, Shakespeare passou a escrever os famosos sonetos. Foram 154 sonetos, em sua maioria, de amor.

Podemos encontrar nossa originalidade nas produções artísticas, assim como podemos encontrar novas formas de expressão e criação, diante do imprevisível, do inusitado. Quero me referir às transformações que sofremos a partir das experiências pelas quais passamos e da nossa própria capacidade exploratória e resiliente.

Freud identificou o processo no qual o homem transforma os estímulos sensoriais em qualidades psíquicas. Shakespeare transformou narrativas ficcionais em arte, por meio de sua imaginação criativa e de seu grande domínio da retórica.

Shakespeare subverte a condição do homem medieval, sujeito às leis e normas da Igreja e reduzido definitivamente a pertencer, ou a ser do bem ou do mal. Ele quebra o maniqueísmo religioso e em suas peças todos os personagens podem ser bons e maus. Surge a possibilidade da reparação e principalmente da interioridade, quando o indivíduo passa a ser constituído por todas as formas e intensidades do sentir, do fantasiar, podendo haver um lugar legítimo para o desejo. Harold Bloom em seu livro Shakespeare: a invenção do humano diz que “as peças nos leem de maneira definitiva”. E vai além, ao afirmar que “os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto recriarem”.

Freud ao assegurar que somos regidos por impulsos inconscientes e não somente por princípios racionais, propõe uma nova ordem para o existir. Ele diz que o “Ego não é rei em sua própria casa”, avisa que somos neuróticos inconformados com nossas limitações e principalmente com a finitude. É muito fácil nos reconhecermos nessas condições, não é? Basta olharmos para nossos medos, desamparos, angústias. O susto frente ao desconhecido.

Humberto Eco, numa visão pancalista do mundo (a visão pancalista entende que tudo no mundo é belo) afirma que “A beleza que é disseminada por Deus é a causa da harmonia e do esplendor de todas as coisas”.

E nós, como ficamos diante dos ideais inatingíveis?

Freud, buscou em Ricardo III, o exemplo da recusa narcísica diante do “feio, imperfeito” para ilustrar seu texto As exceções. Ele certamente, se utilizou da produção shakespeariana para compor sua teoria psicanalítica. Hamlet faz parte da A Interpretação dos sonhos. E em diversos textos se valeu de Otelo, Rei Lear, Macbeth, O mercador de Veneza, entre outras.

Assim como numa experiência analítica, Shakespeare nos coloca diante de nós mesmos, ficamos expostos, através de suas personagens aos mais sublimes e terríveis sentimentos. Aos poucos reconhecemos do que somos feitos. É surpreendente, angustiante, desafiador, apaixonante.

Cada vez mais encurtamos o tempo necessário para vivermos as experiências, senti-las e processá-las. Não há espaço de elaboração, os registros se sobrepõem e quando olhamos para trás, lá se foram as memórias que poderiam ter sido guardadas. Como um balão que escapa da mão, sobe, sobe e desaparece. Não há mais balão. Sentimento de vazio.

A psicanálise oferece, no encontro do analista e analisando, a criação de um campo capaz de favorecer o conhecimento de aspectos reprimidos, obscuros ou ameaçadores, lidar com nossas tragédias internas e tecer uma nova configuração psíquica, onde o indivíduo possa ser mais senhor de seu próprio destino.

Na era medieval, o poder era exercido pelo indivíduo, seguindo uma posição hierárquica e era autorizado político e socialmente, mesmo que ele não tivesse capacidade para esse lugar.

Quando o homem se vê poderoso, outorga-se direitos correspondentes ao cargo que ocupa, sem se dar conta que os cargos podem se esvair e então, o que resta dessa criatura? Despido de todos os símbolos de poder, o ser humano é essencialmente regido por pulsionalidade, amor e ódio, Eros e Tânatos.

Poder, gratidão, inveja, ciúme, ambição, lealdade, traição, amor, ódio, vingança, redenção, fracasso, morte, fazem parte da extraordinária tragédia humana, que Shakespeare nos apresentou entre 1590 e 1613. Quatro séculos se passaram e a história nos é tão familiar e atual.

Somos reféns da nossa natureza que, apesar do imenso avanço científico, tecnológico e filosófico, obedece a primitivos e imperativos desejos de poder e soberania dos desejos individuais. Não aceitamos a incompletude!

O que fazer com nossas insuficiências?

Reparem nesta linda frase, da peça A Tempestade: “Somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

E como somos! Os sonhos que sonhamos dormindo, os sonhos que sonhamos acordados, nossos devaneios, os sonhos que sonhamos a dois, os sonhos sonhados nas sessões de análise pelo analisando e seu analista. O sonho nos constitui.

O universo simbólico e a renúncia ao desejo nos configura como humanos.

Freud afirma que o sonho é a tentativa de elaboração dos conflitos pulsionais, a realização dos desejos infantis. Hoje, vamos além ao entender que o sonho já é a elaboração dos conflitos.

O que seria da humanidade se não houvesse os sonhos? Se não houvesse as artes, o teatro, a literatura, a beleza?

Precisamos de Freud! Precisamos de Shakespeare!

Há 16 anos, faço parte e coordeno o grupo de estudo Conversando com Shakespeare, que se reúne mensalmente na sede da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Dessa experiência nasce o livro Shakespeare: paixões e psicanálise (Editora Blucher, 2019), composto por alguns integrantes do grupo e todos os profissionais que ao longo dos anos, nos apresentaram o Bardo e sua magistral obra.

 

*Heloisa Helena Sitrângulo Ditolvo é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da International Psychoanalytical Association (IPA), da Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) e da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi). É coordenadora do setor de simpósios, cursos e jornadas da Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP (DAC) e do Grupo de Estudos Conversando com Shakespeare, da SBPSP.

 

 

 

 

 

 

 

Humilhação e ressentimento*

Observatório Psicanalítico – 126/2019
Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo

*Bernardo Tanis

A humilhação atenta contra a dignidade, contra a representação de si, constrange, encapsula. O sentimento de humilhação resulta de uma ofensa, de um ataque ao ser, à sua condição de existência como indivíduo ou membro de um grupo. Ocasiona múltiplos efeitos na subjetividade, desde o silêncio constrangedor do humilhado, até revoltas e insurreições coletivas.

Hoje irei focar na Humilhação Social. Reconhecemos nesta modalidade de sofrimento determinações sociopolíticas, raciais, econômicas, narcísicas, ancoradas em mecanismos muitas vezes inconscientes. Trata-se de um sentimento que afeta a identidade social, cultural e individual do sujeito. O humilhado é destituído de sua condição de humanidade e jogado a uma condição inferior. Seu corpo, a cor da sua pele, suas crenças, sua religião, sua origem, sua identidade de gênero, sua situação socioeconômica, são tidos como justificativas para atos de discriminação, violência, tortura e rebaixamento.

Muitas vezes, as formas de dominação e opressão (na família, na escola, nos pequenos grupos, no trabalho, nas instituições) estão amparadas em leis e decretos que as legitimam e, ao longo da história, geram inúmeros efeitos subjetivos: psicológicos, somáticos e morais. A humilhação tem como objetivo a intimidação e gera efeitos de enclausuramento, de desprezo por si e pelo semelhante. Pode se dar social e politicamente, fazer uso das questões raciais, dar-se no limite da tortura, como no caso dos mecanismos coloniais de dominação. Espontânea ou premeditada, pode ser pontual, barulhenta ou oferecida em pequenas doses homeopáticas, que vão minando as capacidades e potencialidades do indivíduo e, assim, reduzindo sua imagem de si, sua autoestima, até que se veja como um ser de mera subsistência, pondo em cheque sua existência. A humilhação provém do Outro, que pode ser compreendido como o outro humano com quem interagimos, mas também como Outro, universo da cultura, no qual vigoram normas, leis e crenças. Outro da cultura e da linguagem nas quais nascemos e que nos antecedem.

Embora conheçamos as formas de humilhação social no passado – durante os períodos da escravidão e servidão, da inquisição, nos campos de concentração e extermínio, nos gulags, nos porões das ditaduras, nas exclusões e confinamentos dos guetos – não podemos ignorar os novos mecanismos que hoje, no mundo pós-moderno e tecnológico, oprimem o indivíduo (tema que irei desenvolver em  um futuro ensaio).

Retomemos então um dos tantos efeitos resultantes da humilhação: o ressentimento. Sentimento amargo que perdura e toma conta da existência do humilhado. O ressentimento pode ser definido como a memória enraizada de um abuso, de um insulto particular, do qual se deseja ser vingado. Seu sinônimo é rancor. Esse sentimento pode se articular como vingança, exercida muitas vezes através de comportamentos sádicos como retorno ativo às feridas concretas e narcísicas, revolta pelos danos externos traumáticos que foram experimentados passivamente.

É através da vingança que a relação é revertida: o sujeito ressentido deixa de ser um objeto anterior humilhado, para ser um sujeito da revolta, movido pelo complexo movimento de desforra, mas também de fazer justiça, de recuperar a honra e a dignidade.

Perante o ressentimento, a dor e a humilhação social em todas suas formas, haveria outros caminhos possíveis, distintos dos da vingança ou da transformação de passivo em ativo pelo exercício sádico do acerto de contas? O que segue são algumas considerações, a partir da psicanálise. Convido-os a debater estas ideias não como verdades, mas como hipóteses a serem pensadas.

Poderíamos convocar a diferença,  como já destacara Kancyper, entre a memória viciante do rancor e a memória da dor. Podemos fazê-lo sem covardia, submissão, ou negação dos crimes cometidos pelo abuso de um poder historicamente construído?

A memória do rancor é entrincheirada e nutrida da esperança pela vingança que está por vir. Já a memória da dor é contínua, seguida pelo tempo da elaboração, e exige como condição para sua superação o reconhecimento dos danos recebido e infringido, não podendo jamais ser confundida com a negação destes danos.

Certamente, a memória da dor (na nossa perspectiva psicanalítica e histórica) não se ancora na subestimação do passado, nem na amnésia do acontecimento, nem na imposição de uma absolvição superficial; mas no reconhecimento e admissão por parte do perpetrador do crime, da falta cometida. Na reparação a partir da admissão da responsabilidade. Apenas nesse contexto será concedida ao humilhado a chance de transformar seu ódio e rancor em tristeza.

O trabalho de elaboração de um luto perante a humilhação social não poderá ser apenas um trabalho do humilhado, exige e demanda, em contrapartida, o reconhecimento da responsabilidade da sociedade que o fomentou, sustentou e dele se beneficiou.

A não elaboração coletiva perpetua a memória de rancor. Esta memória não seria regida pelo princípio de prazer / desprazer, nem pelo princípio da realidade, mas pelo princípio do tormento, pois é da ordem do traumático. A compulsão à repetição é a maneira básica de interceptar o futuro, uma limitação à  capacidade de transformação.

Estando o processo de elaboração da escravidão, do colonialismo, da tortura, do racismo, da exploração do trabalho, da criança, da mulher, dos homossexuais impedido de ser feito de modo coletivo pela sociedade, a dimensão traumática da humilhação social vivida se transmite transgeracionalmente, inunda e contamina o tecido social de modo inconsciente, constrói regiões cada vez maiores de subjetividades silenciadas, recalcadas ou clivadas, incapazes de entrar na cadeia do significado simbólico. Esgarça o laço social. O futuro que se constrói nesses contextos é apenas em função da vingança de um passado. No entanto, imperfeita, sofrida, dolorosa e difícil de atingir, resta-nos a memória da dor que admite o passado como experiência traumática, violenta e de dominação, mas que opera para não esquecer, para não repetir, é um sinal de alarme permanente que protege e impede a repetição do mal e que talvez possa dar lugar a uma nova construção, à esperança.

 

* Uma versão deste texto foi apresentada na jornada “Movimentos na fronteira” da Diretoria de Atendimento à Comunidade – DAC, da SBPSP, em outubro, no Fórum sobre Humilhação e Ressentimento, e também postado no site da FEBRAPSI.

** Bernardo Tanis é psicanalista e presidente da SBPSP. 

 

Uma autobiografia kleiniana

*Alexandre Socha

O ímpeto em narrar a própria história e dar a ela algum sentido é uma das mais fortes necessidades da natureza humana. Ela assume inúmeras formas, das pinturas rupestres ao diário íntimo, passando pela criação artística e pela função dos testemunhos. Existem aqueles que escrevem suas lembranças para torná-las mais vívidas, resgatá-las da penumbra do esquecimento e da poeira do tempo. Já outros o fazem justamente para conseguir esquecer, fiando-se na permanência do papel e sua concretude externa para delas poder se libertar.

Pouco sabemos sobre o que pode ter levado Melanie Klein, às vésperas de completar 78 anos, a debruçar-se sobre suas memórias em um texto autobiográfico. Sabemos, todavia, tratar-se de um de seus últimos registros, contemporâneo, portanto, a “Sobre o sentimento de solidão”, “Algumas reflexões sobre a Oréstia” e outros trabalhos incompletos. Klein vinha redigindo breves notas sobre sua vida e as reuniu em um texto único, de trinta páginas, no final de 1959, meses antes de seu falecimento.

Em uma espécie de “retorno às origens”, recupera nessas notas o ambiente de sua própria infância e os inícios de sua trajetória psicanalítica. Cenas prosaicas do cotidiano doméstico, da vida escolar, de sua relação com o judaísmo e linhagens familiares, desfilam como paisagens na janela de um trem – ou, por que não, como associações livres feitas no divã da folha em branco. Delas emerge um passado idílico e nostálgico, exigindo do leitor um constante esforço para contextualizar tais reminiscências ao momento em que foram escritas. Pois, assim como ocorre no divã psicanalítico, as lembranças – sejam elas encobridoras ou não – trazem sempre a marca do momento atual. Como assegura o velho ditado, “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”.

Diante do valor documental das notas autobiográficas, disponibilizadas recentemente ao grande público pelo Melanie Klein Trust, acaba de ser publicado o livro “Melanie Klein: Autobiografia comentada” (Blucher)[1]. Além da tradução inédita do texto para o português, cuidadosamente realizada por Elsa Vera Kunze Post Susemihl, a edição conta com quatro comentários feitos por colegas que há décadas se dedicam ao estudo de Klein. R. D. Hinshelwood (Londres), Liana Pinto Chaves (São Paulo), Claudia Frank (Stuttgart) e Izelinda Garcia de Barros (São Paulo) amplificam as ressonâncias da Autobiografia e oferecem novos substratos à sua leitura. Foi também incluído nessa edição o relato de James Gammill sobre sua experiência de supervisão com Melanie Klein, ocorrida, coincidentemente, no mesmo período em que se deu a reunião de suas notas autobiográficas.

Entre a vida e a obra

Não foram poucos os analistas que se dedicaram a escrever suas memórias. Guardariam elas algo de suas concepções teóricas e clínicas? Seria o conteúdo autobiográfico semelhante ao biográfico, frequentemente utilizado pelos pesquisadores para iluminar pontos obscuros de uma obra e revelar os contextos de sua construção?

Toda escrita psicanalítica parece carregar, ainda que involuntariamente, alguma marca autobiográfica. Afinal, sua origem remete sempre a uma relação íntima do analista, tanto com seu paciente, instituição ou fenômeno cultural abordado, quanto consigo próprio e com sua experiência vivida na ocasião. Essa “autobiografia” implícita, a que perpassa o conjunto de uma obra, pode, por vezes, não coincidir plenamente com uma autobiografia stricto sensu do mesmo autor, correndo ambas silenciosamente em paralelo. Um olhar mais detido sobre elas, no entanto, permite encontramos complementariedades em aparentes contradições.

O ensaio memorialístico “Um estudo Autobiográfico” (1925), que Sigmund Freud escreve sob encomenda para uma editora alemã, é um caso emblemático e um contraponto interessante ao texto de Klein. Logo aquele que em tantas ocasiões expôs, aberta ou disfarçadamente, elementos de sua vida privada, sonhos, medos e ambições, apresenta-se em suas memórias “oficiais” claramente reservado e cauteloso. Dez anos depois, no pós-escrito de 1935, Freud explicita seu posicionamento: “em alguns de meus escritos (…) fui mais franco e aberto do que costumam ser as pessoas que narram sua vida para os contemporâneos e os pósteros. Não me foi demonstrada muita gratidão por isso; a experiência me leva a desaconselhar que outros o façam.”

Suas reminiscências nesse texto são equivalentes à própria história da psicanálise e de sua invenção. São, em particular, a história pormenorizada das oposições e difamações enfrentadas pela psicanálise, os custos pessoais para o seu desenvolvimento, o alto preço que pagou por ele e as defesas que se tornaram necessárias erigir. Embora apresente-se como relato objetivo de um percurso científico, a narrativa freudiana transpira de modo sutil a reiteração de uma mitologia pessoal: Freud é aquele que sobreviveu aos ataques e provações para que sua verdade prevalecesse. Rompeu a repressão da era vitoriana com uma revolução que, de fato, até hoje não foi totalmente assimilada: a da sexualidade infantil e seus efeitos na vida psíquica. Tal qual o mito do herói, seu autor sai das inúmeras dificuldades transformado, podendo nos contar então sobre as batalhas vencidas e as marcas que lhe deixaram.

Em que pese as circunstâncias bastante distintas em que foi escrita, a narrativa kleiniana não apresenta, em termos manifestos, praticamente nada sobre suas conquistas, adversidades ou mesmo sobre o desenvolvimento do seu pensamento. Antes, há passagens extensas onde pairam uma visão do infantil, o seu próprio, compondo uma descrição conciliatória de objetos que buscam reestabelecer uma relação amorosa entre si. Mesmo sendo um autorretrato bastante comedido, seria difícil não correlacionar tais perspectivas com aquilo que a autora produziu ao longo de quatro décadas como analista de crianças e adultos.

Ao lado de Helene Deutsch e Karen Horney, Melanie Klein propôs uma visão renovada do feminino dentro da teoria psicanalítica e explorou suas múltiplas latitudes na prática clínica. Suas contribuições, contudo, foram mais além do que as de suas contemporâneas e operaram um verdadeiro deslocamento no eixo gravitacional da metapsicologia freudiana, voltando-se das interdições da figura paterna para a questão da maternidade e das particularidades da relação inicial que se estabelece entre o bebê e sua mãe. Nesse caminho, Klein inaugurou uma perspectiva original dentro do campo psicanalítico, cujo desdobramento ultrapassou as fronteiras do kleinismo e se ramificou por diferentes vias, ainda hoje em desenvolvimento.

Do mesmo modo como em Freud e outros autores, há elementos biográficos sabidos, mais ou menos reconhecíveis, em vários dos principais artigos que Klein publicou em vida. Somada a uma notável perspicácia e capacidade de observação clínica, soube como poucos transformar experiências dolorosas (lutos, ambivalências, perseguições, perdas, rivalidades, etc.) em construções teóricas sofisticadas sobre o funcionamento mental. À percepção de que alguns de seus trabalhos brotaram de um sofrimento pessoal e de sua elaboração, vem somar-se agora este “novo” texto que acaba de completar 60 anos: sua Autobiografia.

*Alexandre Socha é psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

[1] O lançamento do livro será realizado no dia 19 de outubro, às 11 horas, na SBPSP, em reunião aberta e entrada franca.

Bacurau

 O Brasil em potência

* Marielle Kellermann Barbosa

Bacurau, longa metragem, dirigido pelos diretores pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, estreou no fim de agosto de 2019, nos cinemas do Brasil, depois de ter ganho o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e também eleito como o melhor filme do Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, e do 23º Festival de Cinema de Lima, no Peru.

Aos que ainda não assistiram, não se preocupem com spoilers, Bacurau é um filme que mais interessa o “como” do que o “o quê”. Bacurau resistirá a qualquer spoiler.

A palavra que dá nome ao filme é a da cidade na qual a trama se desenrola, situada no interior de Pernambuco, em algum futuro incerto – o fato da história se passar em uma distopia futurista ela se apresenta em sinais delicados ao longo do filme – o nome da cidade é a de um pássaro do sertão, um pássaro forte, que só sai à noite.

Bacurau é pobre, sofre com falta de água, sofre com a ganância comum e conhecida de um político, que distribui comida vencida e livros como se fossem lixo, os moradores não têm a beleza convencional do cinema, peles marcadas pelo sol, chinelos nos pés, insetos voando dentro das casas, suor na testa do professor. Mas Bacurau não é apenas pobre, no começo do longa metragem, uma moça retorna à cidade de origem para o velório de sua avó. Avó negra, morta aos 94 anos, é contada como uma árvore anciã da qual descendem frutos, na voz de seu filho, que conduz o velório, Dona Carmelita teve filhos, netos, netas e bisnetos, médicos, professores, putas, arquitetos, pedreiros. Da avó idosa negra, uma linhagem de filhos negros, netos mestiços que se espalharam pelo Brasil e pelo mundo.

Em Bacurau, há um professor negro, há uma médica lésbica (interpretada por Sônia Braga), as crianças aprendem música, há biblioteca e há museu. A igreja serve de depósito – curiosa escolha a dos roteiristas (que também são os diretores), essa de deixar a igreja fechada.

Lunga, um anti-herói necessário, tido como criminoso e procurado pela justiça, é uma personagem curiosa, espécie de Lampião andrógino, vestido com acessórios dignos de um Mad Max do sertão.

O enredo da trama segue em ritmo diferente do conhecido, até certo ponto adiantado do filme, o telespectador se questiona do que se trata aquela história, porém, mesmo sem entregar às explicações sobre o enredo, o filme se desenrola com uma tensão constante e bem administrada.

Bacurau começa a sofrer ataques, pessoas são mortas. Um casal branco do Sudeste age juntamente a um grupo norte-americano. Em um dos diálogos, digno de clássico Tarantinesco, o casal brasileiro diz ser igual aos americanos: “Nós somos do Sudeste, de uma região rica de colônias alemãs e italianas, somos iguais a vocês”. Iguais? Ri um personagem norte-americano retratado como um red neck (expressão usada para designar caipiras norte-americanos, comumente violentos e pouco instruídos, típicos eleitores de Trump).

O casal de brasileiros brancos chega a Bacurau, os habitantes da cidade são gentis, mas desconfiados, o repentista da cidade nega o dinheiro oferecido pela mulher carioca revelando, por sua música, a arrogância e a prepotência dos brasileiros ricos. Bacurau é sertão pernambucano, é Brasil, mas também é “Game of Thrones”, Idade Média, o repentista – bobo da corte – denuncia, em piada, a suposta superioridade do Sul em relação ao Nordeste. Lunga, o fora da lei, vive em uma “torre”, armado e protegido, os norte-americanos, absolutamente convictos de estarem caçando mais animais do que gente, encarnam a superioridade colonialista opressora em relação às pessoas do terceiro mundo.

E, em meio a esse conjunto de referências, o sertanejo aparece como Euclides da Cunha os nomeou: antes de tudo, um forte.

Os personagens habitantes de Bacurau sorriem, simpáticos, em sua suposta ingenuidade infantil de cidadezinha de mentira. Um morador da cidade, homem negro, conhecedor de ervas e plantas, percebe o ataque eminente e se defende de seus agressores. Da parede do museu da cidade, as armas, da época de lampião, servem como proteção.

A violência, que tem ares de Tarantino, é avaliada pelos próprios personagens. Pacote – personagem central, um anti-herói mais para herói, menos fantasiado que Lunga – pergunta a uma das netas de Dona Carmelita:  Você não acha que Lunga exagerou? Não.

Tampouco sobra, para o espectador, violência sem sentido.

Bacurau é denúncia, é crítica, é suposição. Bacurau é um novo nordestino, potente. É um medo de para onde possamos caminhar. Uma lembrança do que pode voltar a ser.

Em um cortejo no qual o DJ narra nomes de vítimas mortas, os nomes, misturados a outros: Marielle, Marisa Letícia.

Filme oportuno ao momento político presente.

* Marielle Kellermann Barbosa é psicanalista, Membro Filiado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.