A Amazônia incendiada e os lacaios da morte

Ricardo Trapé Trinca

Estranho saber que sobrevoa sobre nós um enorme rio de vapor de água, vindo da região amazônica. Mais estranho ainda foi avistá-lo descendo de seu sobrevoo, imensamente pesado e escuro, com a aparência de que despencaria, em uma improvável segunda-feira, à tarde. Vindo de tão longe, parecia nos trazer, incrédulos e despreparados destinatários, os registros de um desastre, como uma carta escura, sem letra alguma, mas que contava desses restos – de árvores, plantas, animais, pássaros, insetos e microorganismos, conhecidos e desconhecidos – carbonizados por gigantescos fornos a céu aberto. Essas partículas sobrevoaram nossa cidade à luz do dia e criaram um obscurecimento radical da luz, como a forma mais apropriada para a revelação desse desastre. Precisávamos do obscurecimento da luminosidade para poder vê-lo. Ainda com espanto percebemos que, em seguida, precipitou-se como uma chuva marrom em alguns pontos da cidade; era uma chuva de mortos.

Nesse dia eu não realizava uma de minhas atividades preferidas: vagar pelas ruas, ver as coisas e, eventualmente, pensar. Não realizava por pura impossibilidade, frequente, a bem da verdade. Essa atividade, bem como realizar ofícios a longo prazo, não costuma ser possível em épocas como a nossa, em que não se pode perder tempo, e é necessário ser pragmático.

Foi como um susto observar o dia obscuro surgir repentinamente, enquanto trabalhava. Parecia uma pintura precisa de nossa época. Posteriormente, um pensamento surgiu: “por quanto tempo conseguiremos pensar em meio aos vestígios dos mortos”?

Nesse mesmo dia, pensei se acaso não exploraríamos a nós mesmos do mesmo modo como exploramos o mundo; e que a atividade predatória e exploratória da vida parece, às vezes, passar de qualquer limite, inclusive da legalidade. Não costumamos reparar, no entanto, como a meta disso é a própria destruição. Digo isso porque se exploramos predatoriamente o mundo e a nós mesmos, agimos como se fôssemos constituídos por objetos nascidos e existentes para esse propósito, o que nos faz trilhar caminhos opostos a qualquer sustentabilidade.

É sempre sofrido observar como podemos nos tratar como um objeto a ser manipulado, de acordo com certa pragmática. Mas não seria essa a lógica da destruição? Enquanto olhava as nuvens negras e o dia absolutamente sem luz, pensava como o pragmatismo destrói a diferença, já que a alteridade e o desconhecido não servem mesmo para ser usados, pois não são manipuláveis. E isso porque não são úteis para se realizar qualquer troca. Eles não podem ser explorados ou vendidos. Penso em uma árvore: sua poética e seu ecossistema não são o mesmo que o carvão. Mas o carvão, por sua vez, é pragmático, bem como a madeira. O carvão e a madeira são objetos, ou melhor, são entificações de um ser e têm a forma de uma qualidade útil. Ao atribuir um predicado a algo desconhecido, aparentemente, eu enriqueço esse ser, mas na verdade tendo a empobrecê-lo, quando o identifico com tal nomeação. Isso porque o ser, na verdade, parece se resguardar em um ainda a mais, nesse espaço de indeterminação, mais do que no nomeado. Poetizar, pensar e psicanalisar é ter esse a mais ao alcance, descobrindo seus aspectos desconhecidos, sem precisar esgotá-lo.

Assim como uma árvore, a vida das pessoas é assim, um mistério. Transformado em objetos a serem manipulados, o mistério desaparece. E é assustador pensar isso com o dia sem luz. Mas como fazer para recuperar a relação com a alteridade e o desconhecido? Lembro-me de uma entrevista com o filósofo Sul-Coreano Byung-Chul Han (2019): “por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, [eu] fazia tudo com as mãos”. Acho muito bonita essa passagem. Ela faz pensar que em nossa época algumas atividades humanas vão se tornando, aos poucos, profundamente desconhecidas para nós, como a participação no processo de produzir um objeto, a contemplação da natureza e o ócio. Essas palavras existem, mas nosso pensar nelas não se adentra. São palavras que vão pouco a pouco se tornando magras e frias (Fenollosa) e talvez tendam a desaparecer.

Uma interessante representação da ideia do progresso está na imagem de Paul Bunyan. Criado pelo jornalista norte-americano James McGillivray e, posteriormente, tornado animação pela Disney (1958), é um personagem baseado no folclore americano de um enorme lenhador, cuja altura atingiria as nuvens. Com seu afiado machado poderia rapidamente derrubar uma floresta inteira e com seus pés afundar o que delas restara para o fundo da terra. Essa força e proeza serviriam para que a agricultura e a pecuária fossem realizadas, para que o homem encontrasse nesse mundo sua próspera morada. Trata-se da imagem de um homem com recursos inimagináveis, com forças sobre-humanas, capacidades quase inesgotáveis de trabalho. Importante notar como a ideia de progresso parece depender de uma imagem assim, absolutamente idealizada do devir humano. Mas é, acima de tudo, uma idealização e que escamoteia a exploração predatória que o homem faz de si mesmo e do mundo.

A racionalidade da relação produtiva não é sustentável, ela parece ser assentada em forças destrutivas, mais do que em forças de vida. Ou como afirma Agnes Heller:

os totalitarismos nos ensinaram que os maus instintos podem matar milhares, dezenas de milhares, mas só a razão pode matar milhões de pessoas, porque a ideologia baseada no pensamento racional estabelece que matar é certo. A maldade pode matar alguns, mas é a persuasão, o apelo à razão, que pode levar a fazer as coisas muito mais terríveis (Altares, 2017).

Podemos dizer, sem titubear, que queimar a floresta é eminentemente uma atividade racional. Mas em que a razão se fundamenta?

A exploração predatória visa à transformação da alteridade como diferença viva e desconhecida para um objeto que tem um objetivo determinado. Queima-se a floresta para fazer um campo aberto. Não se considera a existência viva. Não há o vivo. Quem destrói não sente a existência daquilo que é vivo. E isso é um diferencial simples e fundamental, pois não há como racionalmente convencer alguém que uma árvore é viva. E o que faz com que uma pessoa possa pressentir o vivo? Será que a compreensão e respeito pelo vivo decorre da experiência sobre o que é vivo em si mesmo? Freud (2010/1920) já havia notado como a pulsão de vida era tão somente um lacaio das forças de morte. Mas que consideração realmente temos sobre a verdade e a vida? É preciso saber da morte para compreender a fragilidade da vida e saber do peso nefasto da mentira para apreciar e precisar da verdade.

Nessa imagem de Paul Bunyam, as forças extraordinárias do lenhador mostrariam que não há nenhuma exploração de si mesmo, mas forças dispendiosas, que sobram. Uma potência inesgotável – mas nada mais mentiroso. Mas que lugar de morada seria esse, em que somos compelidos a destruir continuamente para habitar? Não haveria lugar para o homem no mundo que não fosse por meio dessa destruição do mundo? Até que ponto estamos naturalizados com a auto exploração predatória? Segundo Byung-Chul Han: “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. ‘Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo’” (Geli, 2017). Talvez trate-se de mais um capítulo da nossa servidão voluntária (La Boétie), isso porque a destruição da Amazônia e a autoexploração predatória de si mesmo parecem convergir no desprezo pela vida e na objetificação do mundo, segundo o qual o desconhecido é afastado de nosso campo de visão para o uso daquilo que está à mão como fonte de recurso momentâneo. Sim, o desconhecido passa a ser inexistente e o que sobra é braço e a perna para trabalhar, as aldeias para atrapalhar e a madeira para retirar. Enfim, a destruição. A Amazônia queima. Quem a queima? Até quando seremos os lacaios da morte?

Referências

 Geli, C. (2019). Hoje o Indivíduo se explora e acredita que isso é realização [entrevista com Byung-Chul Han]. Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 24 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM

Altares, G. (2017). A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis [entrevista com Agnes Heller] Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 25 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In S. Freud.  obras completas de Sigmund Freud (P.C.Souza, trad., Vol. XIV). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920).

Fenollosa, E. (1977). Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia. In Campos, H. de (org.). Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem. São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em 1936).

 

* Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp).

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