Mês: setembro 2019

Vice: o poder revela

* Julio Hirschhorn Gheller

Farei algumas considerações a respeito do filme Vice, que narra a trajetória daquele que foi o vice-presidente mais poderoso dos Estados Unidos. Podemos acompanhar como alguém destituído de carisma, um estudante medíocre, dado a bebedeiras e que foi expulso da universidade, chega a uma posição de tamanha relevância.

Observamos o papel essencial de sua esposa Lynne, que injeta ambição em Dick para que ele deixe de ser o que parecia ser um perfeito projeto de fracasso pessoal, um loser em potencial. Após receber um ultimato, em que a mulher ameaça deixá-lo, ele se apruma e vai à luta, conseguindo um estágio que o inicia na carreira política.

A partir da experiência como assessor de Donald Rumsfeld, um mestre a lhe ensinar os segredos dos bastidores da Casa Branca e do Congresso, ele vai se transformando em uma raposa, desejosa de experimentar o gosto do poder. O seu olhar brilha ao comentar o aperto de mão com o presidente Nixon.

Percebemos que ele começa a ser tomado por uma espécie de narcisismo grandioso. A pista é dada pelo seu sogro, quando diz que Dick se acha o “fodão”. Sim, provavelmente, ele anseia por dar a volta por cima e triunfar sobre os fracassos do passado. Este será o combustível a impulsioná-lo daí para a frente.

Vai subindo de posto e chega a ser nomeado chefe de gabinete do presidente Ford, que sucedeu a Nixon depois do escândalo de Watergate. Cada vez mais ele se aprofunda no conhecimento da máquina governamental em seus meandros internos.

O papel decisivo de Lynne como propulsora da campanha de Dick para o Congresso – logo após o primeiro de uma série de infartos – confirma sua importância como a força motriz que liga o botão narcísico de Dick, incentivando-o a crescer. O discurso dela, ao assumir a campanha do marido enfermo, é raso: baseia-se em uma reducionista noção do “certo contra errado”. No entanto, a energia e convicção da comunicação cativam um público conservador e de visão curta, conseguindo eleger Dick.

Ao ocupar o cargo de secretário da Defesa de Bush pai, sexto posto na hierarquia do poder, Dick chega a sonhar com a presidência. Logo cai em si e desiste, pois o fato de ter uma filha lésbica seria explorado contra ele por qualquer adversário.

Depois dos anos Clinton, período em que enriquece como CEO de uma grande petrolífera, é chamado para ser vice de Bush filho, por quem nutre evidente desprezo. Aproveita a fragilidade do futuro presidente e impõe a condição de dividir funções com ele. A reivindicação é atendida e ele vai acabar comandando áreas vitais como segurança, orçamento e política externa. Aliás, desde a tumultuada transição do governo Clinton para o de Bush – com a séria suspeita de fraude na apuração de votos na Flórida – ele já vai manobrando para colocar seus homens de confiança em postos-chave. Inclusive, seu antigo mestre, Rumsfeld, será o novo secretário da Defesa.

Logo, o veremos procedendo como o mandatário do país no fatídico 11/09/2001, dia do ataque às Torres Gêmeas, e daí para a frente será o artífice da campanha antiterrorista e, especialmente, da invasão do Iraque, sob o pretexto de que o líder Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, acusação esta que nunca foi comprovada. Os fabricantes de armas e as indústrias de petróleo agradeceram por seu ímpeto bélico.

O ataque ao Iraque produz grandes perdas, que não resultam em nenhum sinal de arrependimento de sua parte. Assim como no emblemático episódio da caçada, em que ele acerta um tiro em um integrante de seu grupo. Quem se desculpa – por mais incrível que possa parecer – é o indivíduo que levou o tiro, lamentando ter estragado o fim de semana de Cheney.

As críticas à invasão do Iraque aumentam, pedindo sua renúncia. Ele, então, manipula o presidente para que demita Rumsfeld, seu antigo mentor. Rummy lhe diz: eu não sabia que você era “such a cold son of a bitch”.

Quando a campanha de eleição da sua filha mais velha para a Câmara dos Representantes ameaça fracassar, ele a autoriza a condenar expressamente o casamento entre pessoas do mesmo sexo, num esforço para conquistar o eleitorado conservador. Aparece aí o trator que não tem escrúpulos.  Assim como havia feito com Rumsfeld, joga a própria filha caçula aos leões.

Não se arrepende de nada. Diz em entrevista: “Não faço questão de parecer bonzinho. Fiz o que precisava ser feito para proteger o país”.

Podemos deduzir que o exercício do poder revela sua faceta autoritária e truculenta. Ele alcança a satisfação narcísica de derrotar quem quer que venha a se interpor no seu caminho. Trata-se da irresistível experiência de fruição de um gozo embriagador. Refiro-me ao prazer obtido à revelia das interdições, embutindo o escárnio e o desafio da lei. “A lei, ora a lei; a lei é para ser interpretada do jeito que me convém”, deve pensar ele.

Estamos diante de alguém que exibe arrogância, onipotência (posso tudo!), onisciência (sei tudo!) e negação da realidade. São traços indicativos do que pode ser entendido como a parte psicótica da personalidade, existente em todos os indivíduos (até os psiquicamente mais saudáveis), emergindo em certas circunstâncias. Cheney não tem a capacidade de reconhecer erros, admitir os danos por ele causados e sentir culpa. Sendo assim, é incapaz de sequer esboçar uma tentativa de reparação dos males que provocou. A condição de reconhecer culpas e reparar danos indica o amadurecimento de quem não permaneceu fixado na perspectiva maniqueísta do tudo ou nada, do completo bom versus o completo mau.

A trama me leva a pensar na destrutividade tal como discutida por Freud em Mal-estar na Cultura. Ao elaborar o conceito de pulsão de morte, expressa o seu ceticismo em relação ao ser humano. Para que a civilização prevaleça é necessário modular e controlar os instintos sexuais e agressivos, aceitando fazer as necessárias renúncias pulsionais. Freud relembra que o homem é o lobo do próprio homem. O ser humano não é gentil por natureza, pois é evidente sua inclinação para a agressão. Se puder explorar a força de trabalho do outro sem recompensá-lo, ele o fará. Se puder aproveitar-se sexualmente do outro sem seu consentimento, ele o fará. Não se importará em humilhá-lo e tripudiar sobre ele. No seminal artigo de 1930, ele enumera diversos exemplos históricos de barbárie, inclusive aquele que era, na época, o mais recente: a primeira Grande Guerra Mundial de 1914-1918. Ele ainda viveria o terror da segunda Grande Guerra, quando, idoso e doente, teve que fugir da perseguição nazista, indo para Londres, onde veio a falecer.

Sabemos que em 1930 ele já havia perdido uma filha e um neto. Desde 1923 lutava contra um câncer no palato e mandíbula. Ao morrer, em 1939, já havia passado por cerca de 30 cirurgias e falava com muita dificuldade. Ainda assim, continuava produtivo e escrevendo. Era um exemplo de que as forças de vida estão relacionadas à capacidade de pensar, discernir e discriminar os elementos da realidade. E, mais do que tudo, estão na base do empenho em buscar as melhores maneiras de lidar com a realidade, por mais sombria que ela seja.

 

 

*Julio Hirschhorn Gheller, é médico pela Faculdade de Medicina da USP; Residência em Psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da SBPSP.

 

Psychoanalysis.Today

* Marina Kon Bilenky

A resistência ao fluxo migratório na Hungria, a explosão de uma bomba numa boate gay em Orlando, a separação de famílias na fronteira dos Estados Unidos, a divisão na Esplanada dos Ministérios nas manifestações pró e contra o impeachment da presidenta Dilma. É o New York Times? É a Folha de S. Paulo? Não! É a Psychoanalysis.Today, revista eletrônica on-line da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), em parceria com a Federação Europeia de Psicanálise (FEP), a Federação Psicanalítica de América Latina (FEPAL), a Associação Psicanalítica Americana (APsaA) e a Confederação Norte-americana de Psicanálise (NAPsaC).

O que Freud teria pensado se lesse os artigos escritos por psicanalistas do mundo todo e que tratam de questões de nossa contemporaneidade? O pai da psicanálise trabalhou incansavelmente para divulgar suas ideias. Passou dias incontáveis viajando de navio pelos oceanos, esperou semanas para, finalmente, ler as tão ansiadas respostas das cartas que trocava com seus interlocutores de outros países. Hoje, no tempo de um clique, podemos nos comunicar com pessoas de qualquer parte do planeta. As reuniões do Psychoanalysis.Today ocorrem via aplicativo on-line, que conecta os editores que residem nas várias latitudes: Índia, Brasil, Argentina, Alemanha, França e Estados Unidos.

Freud lutou muito para ampliar seu círculo de colaboradores. Comemorou intensamente a entrada de Jung, que representava o avanço das ideias psicanalíticas em direção à Europa central. Essa conquista era tão importante para o movimento psicanalítico da época, que o psicólogo suíço foi designado o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional em 1910, data de sua fundação.

Hoje, pouco mais de um século depois, a psicanálise se espalhou pelos cinco continentes e as ideias freudianas foram de tal forma incorporadas ao nosso mundo, que expressões como “Freud explica” e outros termos psicanalíticos fazem parte do vocabulário corrente da população em geral.  Nosso mundo está interconectado e a tecnologia se desenvolve rapidamente, possibilitando maneiras cada vez mais eficientes de vencer os desafios da distância e do tempo de deslocamento. Isso gera consequências: a aceleração, a necessidade de maior agilidade nos processos de decisão, o excesso de informações e o menor tempo para seu processamento.

É neste contexto que surge a ideia da criação de uma revista eletrônica internacional: uma publicação com a finalidade de desenvolver um senso de comunidade psicanalítica internacional e estimular a troca científica e a discussão entre as diferentes regiões ligadas à IPA. Em agosto de 2013, Stefano Bolognini apresentou essa ideia durante o Congresso de Praga. Os representantes das diferentes confederações, em conjunto com o board da IPA, veem aí a possibilidade de finalmente encontrar um espaço para uma representatividade mais democrática, dentro do movimento psicanalítico internacional, e decidem apoiar o projeto. Psychoanalysis.Today seria equanimemente gerido e financiado pelas regiões (Fepal, APsaA/NAPsaC e EPF) e pela IPA.  Os artigos seriam mais curtos, possibilitando sua leitura em intervalos menores de tempo e a publicação on-line facilitaria o acesso aos conteúdos psicanalíticos. A revista eletrônica seria destinada a psicanalistas mais experientes, mas também ao público geral e jovem, interessado em conhecer as ideias psicanalíticas. Seria um veículo para a difusão da psicanálise.

Em meados de 2015, Psychoanalysis.Today publica sua primeira edição (“A primeira vez”). Sua comissão editorial é composta por oito editores, dois de cada região. A revista eletrônica possui traduções em cinco versões: inglês, francês, espanhol, alemão e português. Com o e-journal, o Brasil conquistou um lugar oficial na IPA e está plenamente representado pela versão em português e conta com um editor brasileiro, responsável por divulgar o pensamento psicanalítico de seu país.

Muitos temas já foram desenvolvidos nas diferentes edições, sempre escolhidos para contemplar assuntos contemporâneos, que estão sendo discutidos no mundo e no universo da psicanálise e à época de sua publicação. Cada artigo desenvolve uma perspectiva, que varia de acordo com o olhar específico de seu autor e que reflete sua herança teórica e cultural e as vivências a que está sujeito, a partir de sua inserção na comunidade que o rodeia.

Você quer pensar a respeito do que foi discutido no último congresso em Londres? Quer conhecer o que pensa um psicanalista japonês sobre a sexualidade? Ou se interessa por acompanhar o raciocínio teórico sobre a diversidade de gênero desenvolvido por um psicanalista francês? Em nossa última edição, “Sexualidades e Diversidade”, você encontra essas e outras abordagens sobre esse tema, que foi debatido vigorosamente no Congresso, realizado em Julho de 2019, que contou com 2.500 participantes provenientes dos cinco continentes e incontáveis painéis e mesas de discussão, revelando um pensamento psicanalítico vivo, rico e estimulante.

Para finalizar, convido a todos para visitar a página, comentar e participar. É só um clique: http://www.psychoanalysis.today/pt-PT/Home.aspx

 

*Marina Kon Bilenky, membro associado da SBPSP, é editora brasileira de Psychoanalysis.Today desde 2017.  Foi presidente da Associação dos Membros Filiados (2003- 2004), membro da comissão editorial da Revista Brasileira de Psicanálise (2005-2014), é psicanalista e supervisora do Ambulatório de Transtornos Somáticos do IPq – FMUSP desde 2011 e autora do livro Vergonha, publicado pela Blucher em 2016.

A Amazônia incendiada e os lacaios da morte

Ricardo Trapé Trinca

Estranho saber que sobrevoa sobre nós um enorme rio de vapor de água, vindo da região amazônica. Mais estranho ainda foi avistá-lo descendo de seu sobrevoo, imensamente pesado e escuro, com a aparência de que despencaria, em uma improvável segunda-feira, à tarde. Vindo de tão longe, parecia nos trazer, incrédulos e despreparados destinatários, os registros de um desastre, como uma carta escura, sem letra alguma, mas que contava desses restos – de árvores, plantas, animais, pássaros, insetos e microorganismos, conhecidos e desconhecidos – carbonizados por gigantescos fornos a céu aberto. Essas partículas sobrevoaram nossa cidade à luz do dia e criaram um obscurecimento radical da luz, como a forma mais apropriada para a revelação desse desastre. Precisávamos do obscurecimento da luminosidade para poder vê-lo. Ainda com espanto percebemos que, em seguida, precipitou-se como uma chuva marrom em alguns pontos da cidade; era uma chuva de mortos.

Nesse dia eu não realizava uma de minhas atividades preferidas: vagar pelas ruas, ver as coisas e, eventualmente, pensar. Não realizava por pura impossibilidade, frequente, a bem da verdade. Essa atividade, bem como realizar ofícios a longo prazo, não costuma ser possível em épocas como a nossa, em que não se pode perder tempo, e é necessário ser pragmático.

Foi como um susto observar o dia obscuro surgir repentinamente, enquanto trabalhava. Parecia uma pintura precisa de nossa época. Posteriormente, um pensamento surgiu: “por quanto tempo conseguiremos pensar em meio aos vestígios dos mortos”?

Nesse mesmo dia, pensei se acaso não exploraríamos a nós mesmos do mesmo modo como exploramos o mundo; e que a atividade predatória e exploratória da vida parece, às vezes, passar de qualquer limite, inclusive da legalidade. Não costumamos reparar, no entanto, como a meta disso é a própria destruição. Digo isso porque se exploramos predatoriamente o mundo e a nós mesmos, agimos como se fôssemos constituídos por objetos nascidos e existentes para esse propósito, o que nos faz trilhar caminhos opostos a qualquer sustentabilidade.

É sempre sofrido observar como podemos nos tratar como um objeto a ser manipulado, de acordo com certa pragmática. Mas não seria essa a lógica da destruição? Enquanto olhava as nuvens negras e o dia absolutamente sem luz, pensava como o pragmatismo destrói a diferença, já que a alteridade e o desconhecido não servem mesmo para ser usados, pois não são manipuláveis. E isso porque não são úteis para se realizar qualquer troca. Eles não podem ser explorados ou vendidos. Penso em uma árvore: sua poética e seu ecossistema não são o mesmo que o carvão. Mas o carvão, por sua vez, é pragmático, bem como a madeira. O carvão e a madeira são objetos, ou melhor, são entificações de um ser e têm a forma de uma qualidade útil. Ao atribuir um predicado a algo desconhecido, aparentemente, eu enriqueço esse ser, mas na verdade tendo a empobrecê-lo, quando o identifico com tal nomeação. Isso porque o ser, na verdade, parece se resguardar em um ainda a mais, nesse espaço de indeterminação, mais do que no nomeado. Poetizar, pensar e psicanalisar é ter esse a mais ao alcance, descobrindo seus aspectos desconhecidos, sem precisar esgotá-lo.

Assim como uma árvore, a vida das pessoas é assim, um mistério. Transformado em objetos a serem manipulados, o mistério desaparece. E é assustador pensar isso com o dia sem luz. Mas como fazer para recuperar a relação com a alteridade e o desconhecido? Lembro-me de uma entrevista com o filósofo Sul-Coreano Byung-Chul Han (2019): “por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, [eu] fazia tudo com as mãos”. Acho muito bonita essa passagem. Ela faz pensar que em nossa época algumas atividades humanas vão se tornando, aos poucos, profundamente desconhecidas para nós, como a participação no processo de produzir um objeto, a contemplação da natureza e o ócio. Essas palavras existem, mas nosso pensar nelas não se adentra. São palavras que vão pouco a pouco se tornando magras e frias (Fenollosa) e talvez tendam a desaparecer.

Uma interessante representação da ideia do progresso está na imagem de Paul Bunyan. Criado pelo jornalista norte-americano James McGillivray e, posteriormente, tornado animação pela Disney (1958), é um personagem baseado no folclore americano de um enorme lenhador, cuja altura atingiria as nuvens. Com seu afiado machado poderia rapidamente derrubar uma floresta inteira e com seus pés afundar o que delas restara para o fundo da terra. Essa força e proeza serviriam para que a agricultura e a pecuária fossem realizadas, para que o homem encontrasse nesse mundo sua próspera morada. Trata-se da imagem de um homem com recursos inimagináveis, com forças sobre-humanas, capacidades quase inesgotáveis de trabalho. Importante notar como a ideia de progresso parece depender de uma imagem assim, absolutamente idealizada do devir humano. Mas é, acima de tudo, uma idealização e que escamoteia a exploração predatória que o homem faz de si mesmo e do mundo.

A racionalidade da relação produtiva não é sustentável, ela parece ser assentada em forças destrutivas, mais do que em forças de vida. Ou como afirma Agnes Heller:

os totalitarismos nos ensinaram que os maus instintos podem matar milhares, dezenas de milhares, mas só a razão pode matar milhões de pessoas, porque a ideologia baseada no pensamento racional estabelece que matar é certo. A maldade pode matar alguns, mas é a persuasão, o apelo à razão, que pode levar a fazer as coisas muito mais terríveis (Altares, 2017).

Podemos dizer, sem titubear, que queimar a floresta é eminentemente uma atividade racional. Mas em que a razão se fundamenta?

A exploração predatória visa à transformação da alteridade como diferença viva e desconhecida para um objeto que tem um objetivo determinado. Queima-se a floresta para fazer um campo aberto. Não se considera a existência viva. Não há o vivo. Quem destrói não sente a existência daquilo que é vivo. E isso é um diferencial simples e fundamental, pois não há como racionalmente convencer alguém que uma árvore é viva. E o que faz com que uma pessoa possa pressentir o vivo? Será que a compreensão e respeito pelo vivo decorre da experiência sobre o que é vivo em si mesmo? Freud (2010/1920) já havia notado como a pulsão de vida era tão somente um lacaio das forças de morte. Mas que consideração realmente temos sobre a verdade e a vida? É preciso saber da morte para compreender a fragilidade da vida e saber do peso nefasto da mentira para apreciar e precisar da verdade.

Nessa imagem de Paul Bunyam, as forças extraordinárias do lenhador mostrariam que não há nenhuma exploração de si mesmo, mas forças dispendiosas, que sobram. Uma potência inesgotável – mas nada mais mentiroso. Mas que lugar de morada seria esse, em que somos compelidos a destruir continuamente para habitar? Não haveria lugar para o homem no mundo que não fosse por meio dessa destruição do mundo? Até que ponto estamos naturalizados com a auto exploração predatória? Segundo Byung-Chul Han: “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. ‘Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo’” (Geli, 2017). Talvez trate-se de mais um capítulo da nossa servidão voluntária (La Boétie), isso porque a destruição da Amazônia e a autoexploração predatória de si mesmo parecem convergir no desprezo pela vida e na objetificação do mundo, segundo o qual o desconhecido é afastado de nosso campo de visão para o uso daquilo que está à mão como fonte de recurso momentâneo. Sim, o desconhecido passa a ser inexistente e o que sobra é braço e a perna para trabalhar, as aldeias para atrapalhar e a madeira para retirar. Enfim, a destruição. A Amazônia queima. Quem a queima? Até quando seremos os lacaios da morte?

Referências

 Geli, C. (2019). Hoje o Indivíduo se explora e acredita que isso é realização [entrevista com Byung-Chul Han]. Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 24 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM

Altares, G. (2017). A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis [entrevista com Agnes Heller] Entrevista ao Jornal El País. Recuperado em 25 de agosto. 2019 de: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In S. Freud.  obras completas de Sigmund Freud (P.C.Souza, trad., Vol. XIV). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920).

Fenollosa, E. (1977). Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia. In Campos, H. de (org.). Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem. São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em 1936).

 

* Ricardo Trapé Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp).

Novos diálogos

Livro de Marion Minerbo atualiza reflexões sobre a clínica psicanalítica no mundo contemporâneo

*Matéria publicada na revista Vila Cultural edição 184 (Agosto/2019)

Três anos depois da publicação de Diálogos sobre a clínica psicanalítica, a psicanalista Marion Minerbo apresenta outro título que segue mobilizando uma audiência diversa, entre estudantes de psicologia, analistas e leigos sabidamente interessados em psicanálise. Lançado há pouco, Novos diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher) foi escrito a seis mãos, como diz Marion para fazer referência a AnaLisa, sua interlocutora predileta. Trata-se da persona que ganha voz graças às irmãs Isabel Botter e Luciana Botter, colaboradoras do livro. Juntas, elas participam de conversas instigantes sobre temas significativos para a compreensão, reflexão e vivência da psicanálise neste século 21. “Com a teoria encarnada na clínica”, como escreve Ruggero Levy na contracapa do livro.

Marion e AnaLisa – ou Isabel e Luciana, que são formadas em psicologia e assumem o lugar de “jovens colegas” de profissão – dialogam com fluência capaz de “simplificar” conceitos e raciocínios dos mais complexos. Como pensa um psicanalista?, O supereu cruel, Depressão sem tristeza, com tristeza e melancólica e Ser e sofrer hoje são alguns dos capítulos do livro, que também revela possibilidades de comunicação, empatia e parceria típicas da nossa época, já que Marion conheceu Luciana virtualmente, quando ela editava o blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise. A conversa entre as duas correu tão solta que evoluiu para uma parceria intelectual. Com igual interesse pelos temas em pauta, Isabel agregou-se à dupla e enriqueceu o encontro. “Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas”, diz Marion, que é doutora em psicanálise, em entrevista à Vila Cultural.

Vila Cultural. O que distingue e o que há em comum entre os Novos diálogos e os que foram publicados em 2016?
Marion Minerbo. O primeiro volume, de 2016, nasceu graças a um convite feito pela editora do Jornal de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Marina Massi. Um dia mandei para ela um texto escrito como um diálogo, meio assim, do nada. Uma brincadeira. Ela se entusiasmou com forma e conteúdo, disse que era um “achado” e sugeriu que eu escrevesse uma série para ser publicada no Jornal. Então, os capítulos do Diálogos já nasceram sob forma de diálogos. E os temas eram os mais básicos. Este volume de 2019 teve outra origem. Quando pensei numa coletânea com minhas publicações mais importantes, era evidente que eu deveria continuar explorando a forma diálogo – que tinha dado tão certo no primeiro volume. Mas eu não tinha tempo nem forças para pegar esses textos e transformá-los em diálogos. Para começar, tenho horror a reler meus textos antigos. Conheci Luciana Botter quando ela cuidava do blog da Sociedade de Psicanálise. Na época, reconhecera o talento dela como leitora, crítica e editora. Foi por isso que, em meados de 2017, convidei-a para criar comigo o blog Loucuras Cotidianas. Tive, então, a brilhante ideia de convidá-la, e à sua irmã Isabel, para verterem minhas publicações da forma corrida para a forma diálogo. As duas tinham estudado psicologia. Isabel tinha também um trânsito pela psicanálise. Conhecendo o talento de ambas, eu apostava que elas conseguiriam fazer isso. Além disso, elas eram o próprio jovem colega! Quem melhor do que elas/ele para dialogar de verdade com as ideias do texto, para formular dúvidas, para fazer observações? Outra vantagem: eu conseguiria ler meus textos contanto que tivessem sido lidos amorosamente por elas. Se conseguissem transformá-los em diálogo é porque sua leitura teria sido, pelo menos, generosa. Fizemos um teste. Precisávamos saber se elas se sentiriam com autonomia suficiente para criar outro texto, e se eu conseguiria me reconhecer no trabalho delas. A questão era em parte técnica, mas sobretudo emocional: eu teria que dar a elas autoria suficiente para que tivessem prazer em trabalhar, e elas precisariam me conceder a possibilidade de reescrever o texto delas como eu achasse melhor. Deu certo porque para todas nós o mais importante era a qualidade do texto. O trabalho a seis mãos foi muito prazeroso. No meio do caminho surgiu a ideia de transformar o “jovem colega” genérico em AnaLisa – anagrama de análise –, minha interlocutora no blog. Por um lado, hoje em dia a proporção de psis mulheres é imensamente maior do que a de homens. Por outro, dava uma cara mais pessoal e verossímil aos diálogos. AnaLisa se tornou tão verdadeira para nós que foi natural convidá-la para escrever o prefácio. Afinal, quem melhor do que Bel e Lu para apresentar o livro? Uma palavra sobre os temas: se os dos Diálogos são 1.0, os dos Novos Diálogos 2.0.

VC. Guardadas as proporções, como você diz, por que AnaLisa, a voz das irmãs Botter, foi para você, na interlocução do livro, o que Fliess foi para Freud?
MM. Freud e Wilhelm Fliess se encontraram pouco durante os muitos anos de correspondência em que o fundador da psicanálise produziu intensamente. Também eu me correspondi por e-mail e WhatsApp sem conhecê-las pessoalmente. Só conhecia as fotos no Zap, com um gorro enfiado até o nariz. Eu me lembrei daquele filme Nunca te vi, sempre te amei. Mas o ponto em comum (com Freud e Fliess) mais importante foi a amizade amorosa que se estabeleceu entre nós. Para além das ideias e do texto, as duas sustentavam afetivamente meu esforço e investimento na escrita. E reciprocamente eu sentia que valia a pena me esforçar e produzir para essas leitoras perspicazes e generosas. Quando comentavam os textos eram, ao mesmo tempo, estrangeiras, com um olhar diferente do meu, e íntimas, capazes de compartilhar minha maneira de pensar. Na amizade amorosa, cada um se esforça para dar o melhor de si e para fazer brotar o melhor do outro. Ambos crescem, ambos saem transformados.

VC. O que é necessário para manter a disposição e a disponibilidade para o diálogo em uma época e uma sociedade que parecem tão pouco interessadas em dialogar?
MM. Dialogar de verdade implica em reconhecer no interlocutor alguém diferente de você, mas tão digno de valor como você. Um semelhante-diferente. Quando nos sentimos ameaçados, nos defendemos da ameaça com duas estratégias mentais: negamos ao outro o direito de ser diferente e negamos ao outro a condição de semelhante. Hoje, vivemos todos ameaçados, e isso em vários fronts ao mesmo tempo. Em tais condições de “salve-se quem puder” a disposição para o diálogo fica prejudicada.

VC. Quando você diz/escreve, entre outras coisas, que o inconsciente foi banalizado inclusive pelos analistas, como reflete sobre o futuro e os rumos da psicanálise?
MM. Se não me engano, escrevi que o inconsciente corre o risco de ser banalizado pelos próprios analistas. O inconsciente é um conceito complexo. Ele não tem existência concreta, material, mas produz efeitos concretos, muitas vezes absolutamente trágicos, na vida das pessoas. O psicanalista lê as relações entre pessoas e os fenômenos humanos com base neste pressuposto. Só que é uma leitura que subverte o senso comum. Por exemplo, um marido não bate na esposa porque é mais forte, mas porque se sente mais fraco. Essa leitura muda a abordagem do problema. Ora, o senso comum é poderoso, ele se impõe também sobre os psicanalistas. Nesse sentido, a escuta analítica é um instrumento que pode facilmente perder o gume. É preciso cuidar para mantê-lo afiado.

VC. O que lhe parece mais fundamental para a prática da psicanálise hoje?
MM. Hoje falamos em práticas da psicanálise, pois ela tem sido praticada em enquadres muito diversos, bem além do consultório. Acho que é preciso ter criatividade clínica. E quais são as condições para isso? De um lado, o psicanalista precisa ter internalizado muito bem o método da psicanálise, que tem como pressupostos inconsciente e transferência. De outro, ter um repertório teórico amplo. Precisa conhecer vários autores. Não é o paciente que tem que se encaixar na “linha” do analista. É ele que tem que conseguir ir até onde o paciente está.

VC. Que critérios usou para selecionar as dez crônicas do Loucuras cotidianas?
MM. Eliminei as crônicas que falavam de temas que apareciam nos outros capítulos do livro: Depressões, É muita areia para meu caminhãozinho, Não fui com a sua cara. Dei preferência a temas que mostrassem como a psicanálise interpreta certos fenômenos sociais que poderiam ser vistos como banais: gostar de cozinhar, a gourmetização da vida, vegetarianismo, o sucesso do funk Que tiro foi esse. Na mesma linha, mas abordando temas mais sérios, escolhi o fanatismo, o neoconservadorismo, a polarização. Aqui, meu interesse foi mostrar que, por mais que os detestemos, não adianta xingar o fenômeno social. Se ele está aí, é por algum motivo. É preciso interpretá-lo como sintoma social. Quando interpretado, revela qual é o sofrimento psíquico que está em sua origem. Por fim, escolhi temas de “utilidade pública”, como Você sabe colocar limites?, Brincar para se tratar e Você está podendo? (sobre empoderamento e autoestima). Teria colocado outras, gosto de todas, mas o livro ia ficar muito grosso e muito caro [risos].

Foto: A psicanalista Marion Minerbo entre as irmãs Luciana e Isabel Botter. Crédito: Michele Minerbo / Divulgação