Mês: agosto 2019

Queimam as Florestas

Leopold Nosek

Nosso ambiente está em questão, a ecologia se tornou nosso tema.

Os anos após a 1ª guerra mundial gestaram monstros. Em 1940, pouco antes de morrer, Walter Benjamim escreveu as suas famosas teses sobre a História. Lembra num trecho que assolados pelo obscurantismo até os mortos estão em perigo. Alerta também para os perigos do tratamento equivocado dos que se opõem à barbárie, mas se deixam levar por uma temporalidade linear e da visão de um progresso inevitável no horizonte.

Nunca havia pensado que me defrontaria com o risco que os mortos correm e que vi essa cena explicitada na homenagem pública que um torturador mereceu, em ambiente de nossas mais importantes instituições até então democráticas. A aceitação da tortura não apenas é uma violência que se abate sobre sua vítima, sua presença implica na aceitação do projeto de destruir o humano e o pensamento em toda a ecologia social onde esse fato ocorre. Tal projeto foi explicitamente reafirmado no ataque feito a um desaparecido no contexto de um debate com a OAB. Esses fatos que podem ser considerados detalhes são de fato sintomas de algo muito mais amplo e, afinal, nós analistas temos a “mania” de pensar o geral a partir de singularidades.

Enquanto se gestava o Ovo da Serpente, Freud, em meio à sua prosaica vida de médico, em Viena, desenvolvia uma ampliação revolucionária de seu pensamento. Não estava mais como eixo de sua prática a interpretação dos sonhos, mas sim a sua construção. A psicanálise passa, então, a se debruçar sobre a origem e o desenvolvimento do pensamento. Isso se radicaliza nos anos 70 e vemos isso, por exemplo, na obra de Laplanche, nos exemplos da Grade de Bion, também no trajeto de pulsão em suas diferentes camadas de representação explicitados por Green.  A psicanálise se aproxima da literatura e da arte. Contemporânea a esta transformação, Freud se aproxima cada vez mais de temas que, ao mesmo tempo que metaforizam a sua teorização, se refletem em preocupações acerca da sociedade. Em sua vida pessoal, comete um engano trágico como se vê nas suas hesitações em publicar Moisés e o Monoteísmo, quando, explicitamente, afirma confiar nas forças conservadoras e religiosas de que estas se oporiam à barbárie que estava no horizonte. Lembremos como esse texto radicaliza a percepção da violência que entranha as origens da civilização. Freud, no entanto, assiste à entrada triunfal das forças nazistas em Viena, onde são recebidas em delírio pela população local e apenas sobrevive graças aos esforços de Marie Bonaparte. No entanto, suas irmãs têm destino final nos campos de concentração. Temos no nosso passado a diáspora analítica da “mitteleurope” e, recentemente, num plano menor a diáspora argentina no regime militar.

A história não se repetirá, as reminiscências vão requerer um trabalho reflexivo nas novas circunstâncias. Assistimos a transformações assombrosas com o fim das utopias do século XX, a concentração enorme do capital que, muitas vezes, é maior que o recurso de nações e põe em xeque os estados nacionais, a revolução tecnológica e a informação, a mudança de formas de trabalho e tantas outras, que seria impossível desenvolver nesse espaço. Com isso, as formas tradicionais do agir e do pensar se transformam, também se transformam as formas do sofrimento do espírito. A localização social da classe média se desloca e as profissões da saúde ganham novas práticas. Volta à cena o conceito de Durkheim de anomia. Com a ausência de acervo reflexivo, as certezas e as religiões se tornam majoritárias e fruto de frustrações a violência toma espaço. No espaço das transições crescem os monstros. Como analistas, somos também afetados e minha geração é testemunha dessas mudanças e também das incertezas que estão no horizonte do tempo.

Antes de queimar as florestas há que se queimar o pensamento e o desastre ecológico também se abaterá sobre o pensamento. Nós, psicanalistas, somos herdeiros do iluminismo e como nosso objeto são os sonhos. Gosto de pensar que habitamos um reino onde o obscuro e o assombro imperam e nossa ecologia será a de um iluminismo noturno. Dependemos de uma ecologia do livre pensamento, da busca permanente da verdade, somos companheiros da ciência e das artes, nos alimentamos de experiências e de literatura. Isso nos coloca imediatamente dependentes da liberdade e da democracia. Qualquer ferimento desta nos atinge e não temos alternativa de sermos políticos, no mais íntimo de nossa prática. O incêndio da floresta tem no seu horizonte a destruição do pensamento e essa é uma questão psicanalítica, afinal, supostamente estamos preparados para permanecer pensando em meio à fumaça.

*Leopold Nosek

Psicanalista. Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP. Foi Presidente da SBPSP (1993/1994 e 1995/1996), da FEBRAPSI (1991/1993) e da FEPAL (2010/2012). Também integrou o board da International Psychanalitical Association (IPA) e foi chair do Comitê de Psicanálise e Cultura da instituição. Recebeu o prêmio Mary Sigourney Award 2014.

AURORA

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS –

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. 

Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

 Luís Filipe Parrado

 

AURORA

Helena Cunha Di Ciero Mourão

Outro dia mesmo era eu sentada no chão do aeroporto jogando truco, pensei, quando encontrei um bando de adolescentes sentados numa típica viagem escolar, nem aí para a hora do Brasil, na calçada com seus telefones celulares tocando música sertaneja. Sorrindo com leveza, zombando uns dos outros, coloridos pelo viço, pelas tatuagens. “Ei, espere, já fui uma de vocês” – tive vontade de dizer para aquela plateia nada interessada naquela mãe de duas crianças que faziam birra na calçada, exaustas pelas horas de voo. Essa sou eu, constatei.

Foi assim, de repente, que cresci e virei gente grande. Ali no espelho, eu olhei e deixei de ver a adolescente que um dia eu fui. Na verdade, hoje até estranho essa moça que eu vejo nas fotos tão cheia de sonhos, que achava que a vida com ela seria mais doce, menos dura, mais generosa. Tinha algo em mim que achava que a adolescente em mim duraria para sempre, tal qual metal precioso. E tentei mumificar esse ser que um dia eu fui por um tempo, confesso com certo embaraço. Até que, num dado momento, foi preciso fazer uma despedida e assumir que a adulta agora me possuía mais do que nunca. Não foi de propósito; a aurora da minha vida passou e foi embora sem se despedir. Com o final dessa primavera começou a vida de adulto, sem pedir permissão.

É assim que se dá o crescimento; a gente se adapta finalmente a uma situação e ela acaba. E as rugas mapeiam esse anúncio sem dó nem piedade. O tempo se impõe, simplesmente.

Fácil verbalizar isso após os trinta, com quilômetros rodados. Mas há uma tristeza nesse discurso, um luto, uma dor e uma perda. Pois bem, para um adolescente, a mesma sensação se presentifica. O momento é outro, mas é também marcado por uma transformação. Contudo, falta repertório, palavras, sobram angústias e sensações.

A adolescência é a passagem do mundo infantil para o adulto, uma ponte, uma travessia. Tudo isso envolve uma adaptação, e toda adaptação é precedida por uma crise. Aquele corpo de criança se vê invadido por pelos, espinhas, partes que crescem desgovernadamente, uma voz que desafina, hormônios que não existiam. Esses novos habitantes daquele espaço tão gracioso do corpo infantil não chegam de forma harmônica.

Esse processo é marcado por uma sensação de estranhamento, de não pertencimento. Já diziam os Titãs: “Eu não caibo mais na roupa que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria, mas quando me olhei achei tão estranho, a minha barba estava desse tamanho.”

Há ao mesmo tempo uma excitação com a conquista de mais autonomia e também tristeza pelas cobranças do mundo da maturidade. Além da dor da perda do lugar privilegiado da criança.

Os pais, que antes eram um lugar de proteção, tornam-se figuras persecutórias por tentarem colocar limites nas realizações de desejos do jovem. O que traz a estrofe de outra canção: “Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer “.

Nesse período da vida há um luto das figuras parentais idealizadas. Logo, o lugar de herói fica desocupado e por isso, há uma busca por ídolos e novos modelos de identificação. O jovem está desesperado em busca de formar essa nova identidade.

David Leviski (1998) destaca que embora fisicamente o adolescente esteja apto a exercer suas funções, ainda encontra-se diante de forças da cultura e da sociedade e do risco que existem ante os desejos de plena liberação e desenvolvimento dessas funções.

Calligaris,C. (2000) adiciona que apesar da maturação dos corpos a autonomia reverenciada, idealizada por todos como valor supremo, é reprimida, deixada para mais tarde.

É como se tornassem estrangeiros num mundo que sempre lhe foi familiar. Por isso as amizades nessa fase são tão importantes, constroem um muro para proteger aquele Ego frágil em transformação.

Costumo dizer que são como Ferraris com motor de Brasília amarela. Lataria linda, mas o interior precisa de cuidados. O corpo de adulto e a mente infantil são parte de um mesmo indivíduo. E essa mente não é capaz de conter aquele novo corpo em desenvolvimento, numa ardência pulsional. Na crise da adolescência, há uma sexualidade aflorando descontroladamente e torna-se difícil lidar com seus impulsos.

De acordo com o psicanalista Marcelo Viñar (2005) a juventude não pode ser definida como realidade cronológica, e sim como um tempo de mutação que marca um antes e um depois. Isso pois a essência da adolescência é o ímpeto, o movimento. Como se captura o vento ou o fogo quando sua marca é a instabilidade?

Atendo adolescentes há alguns anos no consultório e me sinto bastante privilegiada por receber esses pacientes no momento em que a dança da vida se apresenta para eles. Recebo-os como quem recebe botões de rosa fechados, cheios de esperança, ao mesmo tempo frágeis e cheio de espinhos. E procuro dar-lhes algum contorno. Não é um trabalho fácil, ajudá-los nessa transição. Explicar-lhes que a vida é mesmo contraditória. Que os amores acabam. Falar-lhes sobre leis num país onde elas são constantemente desrespeitadas. Explicar-lhes sobre autoimagem numa cultura de Photoshop. Ajudá-los a compreender que esse corpo que pulsa não pode fazer exatamente aquilo que deseja a despeito de sua intensidade.

Contudo, acredito que um jovem, quando acolhido e compreendido nesse transbordamento emocional, nos sinaliza um futuro mais colorido e cheio de esperança.

Trabalhar com esses pacientes que vêm com a marca da pressa, da urgência, do efêmero do nosso tempo atual pode ser rejuvenescedor. Convidá-los a um momento de pausa e reflexão é quase um ato revolucionário. Pois perceber também o quanto essa geração chegando se alimenta de relações qualitativas, basta haver uma intenção, me faz acreditar num horizonte mais azul. Sim, eles assistem lixo na internet, mas também são capazes de se encantar com um belo poema, um bom filme, quando convidados. Basta estender-lhes a mão nessa passagem.

Devemos ser cuidadosos, como adultos, para continuarmos investindo nos adolescentes, não com um olhar invejoso do jovem que deixamos de ser. É importante dar credibilidade aos sentimentos dos jovens, tentar compreender suas dores e angústias. Oferecer um amparo nesse momento de tempestade. Essa é a aposta esperançosa.

O aumento dos suicídios na adolescência nos denuncia um vazio. Que vazio é esse? Seria o vazio do nosso olhar? Como adultos? Será que estamos preocupados com o legado que estamos deixando para os jovens, em acolher esses seres em transformação?

Ou será que estamos tão preocupados em perpetuar nossa juventude que nos esquecemos de cuidar de nossos jovens? Será que, ao nos conformarmos com nosso lugar de envelhecimento, não podemos lhes oferecer a proteção que necessitam?

Pensa na força dessa corrente.

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão percebeu, no fim da escrita, que fez uma escolha quase sem querer de canções para ilustrar o texto. Renato Russo e Titãs não vieram aleatoriamente, vieram lembrar minha adolescência.

 

Calligaris, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000

Levisky, David Léo Adolescência : reflexões psicanalíticas / David Léo Levisky. – 4. ed. – São Paulo : Zagodoni, 2013.

Vinar . M  (2005)La Juventud en el Mundo de Hoy. Ser Sujeto Adolescente en el tercer milenio. Abril 2005. Soc. Brasilera de Psicología de Sao Paulo.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, especialista em Psicologia Psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP).