À flor da pele

Andreza Miranda

Em 24 de junho, assisti a um evento na Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP) intitulado “Diálogo e Humanidades: o autoritarismo e a História do Brasil”. Eventos como esse são verdadeiras provas de resistência para mim: uma mulher negra de origem humilde e que, por um conjunto de fatores e de circunstâncias, surpreendentemente, encontra-se agora neste auditório, na Vila Olímpia.

Há um incômodo que me transporta ao “deslugar“, me sinto “morena”, da mesma forma que ocorria em situações sociais não muito remotas, nas quais pessoas próximas e queridas tentavam suavizar meu tom de pele, gravemente escuro. E assim me angustio: estar aqui seria uma traição aos meus irmãos e ancestrais?

Sinto asco da “coisa preta” que, desde sempre, é branca. E da mulata que pegou um cabo de vassoura e dançou com ou para Juscelino, pouco importam os detalhes do fato, diante da “mulata”, biologicamente estéril, mas sensualíssima. Há muito por dizer, mas sofro repentinamente de uma mudez; a mudez de uma intrusa bem-vinda e que empalidece como uma “camaleoa”

Sofrendo da escuridão à flor da pele, revivendo o trauma ancestral nas palavras do estereotipado narrador, que historicamente oprime, que renarrando herculeamente tenta remover maquiagens branqueadoras – atenuantes – ainda que de forma atabalhoada num ideal antirracista.

Minha sensação é espantosamente a mesma da qual me contam meus parentes sobre lugares que outrora não podiam entrar. Me lembro que sempre protestei com o argumento questionador: “Onde isto estava escrito?”. Agora, entendo que não precisa estar escrito, basta estar sentido.

Eu tropeço em mim mesma quando faço o teste do pescoço e penso em mim construída neste projeto de embranquecimento sumário e genocida. O teste do pescoço é o desolador giro da cabeça para o lado esquerdo e para o direito, no qual você pode comprovar em tempo real a solidão e o desamparo, quando se trata de inclusão racial no Brasil.

Como desconstruir, a partir de tudo o que nos constrói: a pureza do branco, a sujeira escura, o crespo duro e ruim, o liso ideal e bom… discursos constitutivos e resistentes sempre a serviço das pessoas de bem que dominam as belas palavras e que contam a História.

Apesar de me ver no assunto não me sinto totalmente nele. Por instantes sou fragmentos coloridos, disfarces e represento uma falsa ilusão de inclusão. Questiono-me: afinal, de que adianta estar neste lugar de escuta saturada de sentimentos que temem vir à luz?

Mas, ao mesmo tempo, há o alívio de poder divergir, convergindo para o lugar onde sorrateiramente e indulgentemente me conduzem e com o qual não deixo de me identificar, extermínio e enclausuramento.

Somos parte de um mesmo todo, somos capturados pelas mesmas armadilhas da linguagem e das boas maneiras trazidas da mais tenra idade, desde a “lista negra” à “carta branca”, passando pela “mulatice etmologicamente infértil”, até a “alvura virginal”.

E, na vã e inglória tentativa de descobrir de qual lugar devo falar e de que ausência de lugar é essa que parto, sigo e me dou conta de que é preciso respirar e decifrar a estranheza como aquela de quando, pela primeira vez, me descobri e tenho me dito negra.

 

Andreza Miranda é estudante de Psicologia

4 comentários

  1. Andreza, lindas as suas palavras. Estive nesse evento e confesso que me envergonhei com as palavras da colega psicanalista que falava da mulata que saracoteava pelo salão. É muito importante que você esteja dando voz a esse desconforto. Essa é a única maneira que vejo hoje para conseguirmos uma mudança. Parabéns pela coragem e pelas palavras

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