Pensemos grupo

Any Trajber Waisbich

Nada melhor do que começar essa conversa contando minha experiência de ensinar psicanálise de grupo no Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Primeiro, observo um certo desconforto, cada vez menor devo afirmar, por parte de profissionais em referendar este procedimento, mesmo ao verificarem, por meio da prática, que análise de grupo é uma análise profunda e não distorce o método psicanalítico.

Vale a pena salientar, que este seminário iniciado em agosto de 2017, supre uma demanda reprimida pelo estudo de conteúdos ligados à psicanálise de grupo, que organizasse o trabalho desenvolvido por vários colegas da SBPSP, que trabalham com grupos em instituições espalhadas pelo estado de SP. Análise de grupo, até pouco tempo atrás não era considerada como opção de estudo na SBPSP. Havia um ranço histórico e era vista como terapia menor, distante da psicanálise, além de incorrer no perigo de fomentar situações psicóticas no interior do agrupamento.

Profissionais creditavam ser este um método utilizado como um dos tantos recursos destinados a resolver uma alta demanda por atendimento em instituições, ora por dificuldades puramente econômicas de seus pacientes, ora por ser esta uma técnica menor de alívio e espera por atendimento individualizado. A não sistematização do tema e o pouco conhecimento teórico são fatores impactantes neste contexto. Estamos no universo da ideologia que impede pensamento.[i]

Uma das dificuldades em se ensinar e discutir psicanálise de grupo por um lado e implantar o dispositivo, por outro, em consultório, como em instituições, evidencia o conflito de profissionais ao questionar teoria, aliás, fator fundamental numa ciência que se repensa. Torna-se cada vez mais evidente que psicanálise de grupo é uma teoria e uma prática não conflitante com o método psicanalítico.

Não por acaso nos últimos anos, a DAC (Diretoria de Atendimento à Comunidade) da SBPSP promove e elabora projetos voltados a atendimento institucionais. A SBPSP, por meio de parcerias, faz-se presente naquilo que de mais valioso pode contribuir, isto é, intervenções psicanalíticas.

Volto ao tema, a inclusão de conceitos grupais se impôs no momento em que a intersubjetividade e a noção de vínculo são temas recorrentes[1] para uma parcela do pensamento psicanalítico. Trata-se da articulação deste sujeito formado na intersecção dos processos intrapsíquicos, dos intersubjetivos e dos vinculares.

Como psicanalista, onde quer que desempenhe sua expertise a psicanálise se fará presente. Assim sendo, surge um complicador devido às diferentes formas de se observar a prática dos profissionais fora de seus locais de atendimento. Insisto, fato muitas vezes ligado a ideologias escolásticas e que inviabilizam debates para além de uma clínica estabelecida.

Como conceber a abrangência das teorias psicanalíticas para se trabalhar grupo como método e validado por técnicos e usuários?

Na sala de aula, acompanhamos a apreensão das escolhas teóricas dos alunos ao se depararem com sua prática. Apreender de que forma os autores instrumentalizam profissionais a elaborarem prototeorias a respeito de cada atendimento é fundamental.

Concomitantemente, desvendamos os meandros da clínica de cada psicanalista, o que nos conduziu a uma vivência intrigante.

Como sabemos, a descoberta de processos psíquicos inconscientes desafia o psicanalista. Ensinar teoria e prática de grupo utilizando como material o próprio agrupamento é temerário, já que este pode se desestabilizar. Esta escolha, no entanto, foi necessária para a finalidade desta vertente.

Viver a formação de um grupo abriu novas perspectivas de atuação para seus integrantes. Verificar o que seria um grupo leva a questionar seus trabalhos nas organizações em que atuam. Investigar a influência dos psicanalistas e das instituições leva, inexoravelmente, a questionar o que impregna o grupo. Num outro momento, verificar o que cada sujeito imprime de singular, de plural e de compartilhado dentro de cada grupo elucida conflitos e provoca reações inesperadas.  Enfim, matéria prima de uma teoria e de uma prática preocupada com os movimentos no interno do grupo.

Exemplifico com uma vinheta, ou melhor, um relato.

Na sala de aula, um dos membros cogitou que aquele seminário pudesse continuar a estudar grupo de forma mais perene. Proposta aceita por todos. Posto isto, a coordenadora, eu, sugeriu a inclusão de novos integrantes. Manifestações no grupo! Havia aqueles favoráveis e aqueles que verbalizaram seu descontentamento.

Um                              – Não vai estragar o clima?

Outro                          – Seria até bom, já que, alguns entre nós vamos parar.

Outro ainda                – Não é bem assim, eu não queria parar, mas no próximo semestre está tudo encavalado.

Coordenadora            – Agora peço licença, vamos ver o que acaba de se passar, se vocês me permitirem.

Um deles                     – O que está acontecendo?

Coordenadora            – O que vocês acham?

Risada geral.

Um                              – Ah! Entendi, falei direto que ia estragar o grupo.

Outro                          – Acho que poderíamos abrir sim, está sendo tão importante este lugar que é bom partilhar e fazer ficar maior.

Coordenadora             – Pois é! Vimos o que é aceitar ou não um estrangeiro, ao vivo e a cores.

Agora teoria: tivemos aqui exemplos de porta-voz ou porta-palavra ou emergente grupal, depende do ângulo que privilegiarem. Vimos este movimento de acolhimento e de repulsa verbalizado por alguns de vocês.

 Riso geral, muitas falas, sensações, adensando o conhecimento. No final, concordou-se em se abrir mais vagas.

O pensamento psicanalítico nos leva a ultrapassar fronteiras e questionar paradigmas e porquê não, o método em si. A inclusão das questões observadas e sistematizadas numa configuração grupal para o universo dual supera a oposição entre estas duas instâncias. Insere este sujeito como o sujeito da relação e ilumina a concepção da intersubjetividade e do vínculo. Portanto, o outro passa a não ser reduzido a uma construção pessoal de mundo interno e, sim, por meio da relação estabelecida entre sujeitos numa formação inconsciente de vínculos. Deste modo, a apreensão da subjetividade se configura na intersecção deste sujeito do inconsciente que se forma através do outro e que é outro para si mesmo.

[1]Kaes, R. (2011) Um Singular Plural. – O problema epistemológico do grupo na Psicanálise. São Paulo, Edições Loyola Jesuítas.

[i] Kaes Ideologia

 

* Any Trajber Waisbich é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Coordenadora de seminários temáticos sobre Psicanálise de grupo junto ao Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP. 

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