Da somatização, seus genéricos e afins

Abigail Betbedé

Quem alguma vez não passou mal antes de uma ansiada viagem ou uma prova? Sentiu dores inexplicáveis que assim como vieram foram embora ou padeceu de uma dessas doenças terminadas em –ite (gastrite, bronquite, colite e assim por diante) acompanhada do adjetivo “nervosa” ou caracterizada como “de fundo emocional” por um período mais prolongado? Somatizar é comum e muito frequente. Desde a tenra infância, a somatização é a primeira e mais primitiva maneira de expressar nossos mal estares; desde a época em que não sabíamos reconhecer nossas emoções, nem expressar sentimentos através da palavra e nos comunicávamos com corpo. Se bem intuitivamente estamos familiarizados com a ideia da somatização, em termos conceituais acaba por ser um verdadeiro ‘balaio de gato’.

Somatização é um termo vago e genérico utilizado, tanto popularmente quanto na academia, para nomear mecanismos, sintomas e estados mórbidos cuja manifestação é uma queixa orgânica. Traz em si a idéia de ser algo que se expressa através do corpo, mas que não se sabe ao certo o que é, nem qual seria sua ‘verdadeira’ origem. Aqui se abre um grande leque − incluindo as perspectivas de pacientes e profissionais − que vai desde quem acredita na etiologia concretamente orgânica dos sintomas, até quem se permita pensar na participação de outros fatores menos evidentes, passando por aqueles que nem registraram que estavam doentes. Quando existe a possibilidade de estabelecer uma ligação com o mundo emocional, vislumbra-se a existência da ordem psíquica e a necessidade de trabalhar num campo que leve em consideração o conteúdo latente, além do conteúdo presente no manifesto dos sintomas somáticos. Eis o terreno onde a psicanálise tem muito a oferecer.

Desta forma, sendo mais específicos, a somatização nos remete a uma região fronteiriça cuja especificidade é a de enlaçar eventos psíquicos e eventos somáticos. Uma fronteira que resulta ser nada mais, nada menos, o cerne da psicanálise. Caminho inverso, sabemos que a pulsão é o conceito psicanalítico fronteiriço par excellence. O ‘pulo do gato’ freudiano que permitiu imaginar como a excitação puramente somática, necessariamente significada, se transformaria em material psíquico. Esse é o alicerce metapsicológico que sustenta como se dá (ou não) a qualificação do somático em psíquico nos albores do ser, marcando o nascimento do corpo − que é o soma psiquisizado. Tomaremos esse marco referencial para as considerações a seguir, que visam chamar a atenção sobre as queixas somáticas que surgem cotidianamente na clínica.

Como mecanismo de defesa a somatização denuncia uma demanda que não conseguiu ser tramitada psiquicamente, servindo o corpo como meio para estancar e circunscrever a sobrecarga afetiva, outorgando-lhe temporariamente um ‘nome de fantasia’. Assim, será possível falar da ‘dor de cabeça’ ou da ‘contratura nas costas’ sem sofrer a inundação da angústia derivada do conflito subjacente. O corpo entra de gaiato, enquanto o discurso oferece geralmente associações que permitem trazer à tona a mencionada conflitiva, escoar a angústia e atribui-lhe sentido; denotando um bom funcionamento do circuito representacional e uma estrutura egoica, que dará conta do gerenciamento pulsional.

Em um segundo nível encontramos queixas somáticas que caracterizam sintomas, cujo exemplo mítico e fundante da psicanálise é o sintoma conversivo histérico. O corpo entra em cena como coadjuvante de uma sofisticada trama que possibilita o retorno do recalcado através de uma solução de compromisso − resultado do embate entre a censura e o desejo − que cumpre com a satisfação das moções pulsionais, de maneira disfarçada. Graças à dissociação ideo-afetiva das moções, junto com a repressão do componente ideativo e o deslocamento do investimento afetivo em direção ao corpo, se garante o gozo na embalagem da belle indifférence: a gravidade do sintoma não angustia seu portador. Decifra-me ou te devoro, os sintomas carregam a marca dos anseios edipianos que, se são decifrados a tempo, tem chance de virar anedóticas curiosidades da biografia do sujeito. Caso contrário, sua perniciosidade poderá engolir − qual buraco negro − toda sua existência. O amor ao sintoma é proporcional ao amor à sua causa, tornando o desenlace desta tensa novela neurótica imprevisível.

O pai da medicina, Hipócrates, dizia há milênios que antes de tentar curar alguém precisamos saber se ele está disposto a renunciar àquilo que o fez adoecer, prenunciando, quem sabe, o que a psicanálise soube esclarecer: o sintoma tem um sentido. Não podemos simplesmente removê-lo. Esta é a região fronteiriça à qual me referi anteriormente que solicita a intervenção do psicanalista para devolver ao campo psíquico o que lhe pertence. Região onde analisar também é curar. Dentro do consultório nos parece obvio, mas fora dele tanto os pacientes quanto outros profissionais se desgastam em uma busca incessante de respostas, uma peregrinação sem fim que consome recursos de todo tipo, inclusive somas nada insignificantes dos cofres públicos. Dai a importância de não ficarmos desconectados de outras disciplinas e possibilidades de clinicar.

Conforme a psicanálise se desenvolveu, adentrou no campo não neurótico ampliando para o ‘mais além’ as bordas do mapa clássico da nosologia psicanalítica. Deparamo-nos com os vestígios do trauma. Clivagens. Um acervo representacional comprometido, pois as cicatrizes mnêmicas não são plásticas e não comportam a demanda pulsional. Faltam processos terciários e sobra excitação que não sendo comportada psiquicamente transborda, sendo um dos caminhos o curto-circuito somático. O desassossego impera.

O retorno do cindido se encena de maneira diferente. Trata-se daquela queixa desconexa, aquela dor, aquele déficit erguido, surda e solitariamente. Os órgãos, os membros, as partes se destacam: o fígado, a mão, a cabeça são os protagonistas. Escassas associações, precisamos resgatá-las com astúcia e/ou construí-las com imaginação. O soma é o porta-voz da tragédia que precisa ser auxiliado a significar. Parte do nosso trabalho passa pela validação do sofrimento que só poderá acontecer através do seu reconhecimento. Operamos a transformação de uma queixa somática em sofrimento ao atribuir-lhe qualidades psíquicas. O sujeito poderá assim apropriar-se do seu sofrimento, para sua posterior elaboração.

No Ambulatório de Transtornos Somáticos (SOMA)[1] recebemos pacientes ‘fim de linha do balaio do gato’. Sujeitos que depois de percorrerem anos de caminhos carregando no corpo e no soma suas novelas e tragédias, chegam à toca da psicanálise, um lugar improvável do SUS dentro de um marco institucional declaradamente biologista. Um lugar onde a leitura psicanalítica é chave para compreender seu sofrimento e interromper o ciclo de repetição. O SOMA cobra vida toda quarta-feira,  quando a porta da Sala 50 se abre para alojar as atividades de uma equipe multidisciplinar, com cerca de trinta profissionais que ad honorem se reúnem para escutar esses indivíduos e problematizar suas genéricas queixas somáticas, tornando-as matéria prima para o desenvolvimento de atividades académicas, assistenciais e de pesquisa.

Os R1 de psiquiatria realizam atendimentos sob uma cuidadosa supervisão que visa o desenvolvimento integral do médico; introduzir conceitos psicanalíticos que permitam a superação do dualismo corpo-mente, favorecendo a integração psicossomática; assim como contribuir em termos de modelo identificatório com a formação de profissionais capazes de reconhecer no paciente um sujeito único em seu modo de ser, adoecer e sofrer.

Para finalizar, aproveitamos a ambiguidade do terreno transitado, para diluir fronteiras, aproximar saberes e fomentar uma cultura de trabalho no marco do paradigma da complexidade que inclua novamente a psicanálise dentro do debate transdisciplinar da vida.

*Abigail Betbedé é médica psicanalista. Psiquiatra colaboradora do Ambulatório de Transtornos Somáticos – SOMA IPq HCFMUSP. Membro filiado ao Instituto da SBPSP, pós-graduanda em psicanálise pela Universidad del Salvador – Asociación Psicoanalítica Argentina.

 

[1] O SOMA pertence ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IPq HCFMUSP.

3 comentários

  1. Olá! Será que poderíamos usar a recente catástrofe de Brumadinho como metáfora? No correr dos anos, barreiras que não conseguem conter os detritos afetivos e afetos em estado bruto rompem-se alterando o estado natural do corpo e causando devastações. Caberia ao psicanalista sondar e identificar essas fissuras antes do rompimento.

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  2. Excelente, Abigail! Gostei muito da maneira como você fala da somatização, dos limites entre a saúde e a doença e como você introduz o SOMA dentro desse espectro.
    Como profissional da equipe do SOMA, me senti muitíssimo bem representada!

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