Freud na casa de Adélia – uma conversa entre “Luto e melancolia” e o poema “Leitura”

Vanessa Figueiredo Corrêa 

Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado 

 

No livro Literacura – Psicanálise como forma literária, de Fernanda Sofio, a autora sugere que o leitor reproduza o texto literário em sua mente e assim “distorça-o” e o recrie de acordo com a experiência subjetiva. Dessa forma, a leitura de uma obra literária pelo vértice psicanalítico pode ter características de um diálogo e não de uma análise. Aqui, além do exercício teórico, deseja-se sobretudo convidar o leitor a sentir em si o poema, ou seja, percebê-lo por meio dos sentidos.

Os dois textos, “Luto e melancolia”, de Freud, e o poema “Leitura”, de Adélia Prado, dialogam por meio da temática que têm em comum: as perdas e os possíveis caminhos para se lidar com elas.

Já que se trata de uma conversa, vem ao caso o contexto em que os autores produziram esses escritos. Adélia ficou órfã de mãe aos 15 anos, em 1950. Teve uma relação próxima com o pai, que faleceu em 1972, sendo que o poema “Leitura” foi mandado para a editora em 1975, ou seja, três anos depois.

Freud escreveu “Luto e melancolia” em 1915, e publicou em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, num momento em que, contra a sua vontade, dois de seus filhos se apresentaram de forma voluntária para o serviço militar e combateram na linha de frente.

Num exercício imaginativo, pode-se supor que as perdas, ou ameaças reais de perda, na vida desses dois autores foram usadas de maneira criativa e contribuíram para que as duas obras fossem escritas.

Em “Luto e melancolia”, é postulado que a perda de um objeto de amor (que não se restringe à morte de um ente querido) leva a um estado inicial de “desânimo doloroso profundo, falta de interesse no mundo externo, perda da capacidade de amor, inibição de toda atividade” (Freud). A obra, então, explora dois possíveis caminhos que a mente percorre após o dano: o primeiro seria o luto normal – um trabalho psicológico processual que “absorve, enquanto dura, todas as energias do Eu”. Mas, “a cada uma das recordações e expectativas que mostram a libido ligada ao objeto perdido, a realidade traz o veredicto de que o objeto não mais existe, e o Eu (…) é convencido a romper seu vínculo com o objeto perdido” (Freud). Ao final do processo, o indivíduo aceita a morte do objeto e segue o movimento de sua própria vida.

O segundo caminho seria o da melancolia: o indivíduo se torna incapacitado de fazer o trabalho psicológico do luto, pois fica identificado com o objeto perdido, e não consegue aceitar a perda. O melancólico sente que foi abandonado pelo objeto amado e o sentimento de abandono provoca ódio. No entanto, o objeto perdido ainda é o alvo de amor, e o ódio gera culpa, acabando por voltar-se para o próprio Eu daquele que perdeu, o que leva a uma ambivalência paralisante entre amor e ódio. Tal conflito está condensado na famosa frase de Freud:  “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Usando uma expressão poética, dir-se-ia que essa pessoa não pode ficar ensolarada, nem iluminada pelos objetos da realidade, está impedida de sentir alegria de viver. Preso na interação com a sombra (inanimada) do que foi o objeto amado, não há espaço para que o Eu volte a ligar a libido a objetos vivos.

Convém lembrar que em “Luto e melancolia” Freud toca pela primeira vez na noção de objeto interno, o que faz dessa obra um divisor de águas para a psicanálise (Ogden).

Caminhando dentro do poema: luto ou melancolia?

O título do poema de Adélia Prado, “Leitura”, entre outras possibilidades, pode ser pensado como uma preparação do terreno para uma “interpretação”, uma leitura dos fatos que serão apresentados.

O primeiro verso, “Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras”, descreve um ambiente fechado e ensombrado, sugerindo a existência de aspectos melancólicos em que, como discutido, “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Mas em seguida:

As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.

Surgem sinais de que há vida frutífera dentro dos muros. As maçãs são temporãs e, por isso, ainda mais desejadas, criando uma expectativa de prazer, reforçada pela construção “gosto caprichado”.

Ao longo do muro eram talhas de barros

As “talhas”, vasos de barro onde se guarda a água, combinadas com a palavra “vinho”, que está no terceiro verso, remetem à passagem bíblica em que Jesus realiza o milagre da transformação da água das talhas em vinho, nas bodas de Caná. O que faz sentido, levando em consideração a profunda influência de elementos bíblicos na obra de Adélia.

Então o leitor é convidado a experimentar sensações gustativas prazerosas:

“Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Aparece aí a oposição entre “dentro” e “fora”, que remete à existência de “objetos internos”. No poema, a paralisação está fora e não dentro, há um mundo interno povoado de movimento e de objetos vivos. Preparando o terreno para a alegria que surge nos próximos versos:

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido
por isso ria – sentia prazer em estar vivo
os lábios de novo e a cara circulados de sangue
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?”

São versos “circulados” pela alegria simples e cotidiana do pai, “joie de vivre”. Este é descrito como alguém desejante e o eu-lírico, após narrar o encontro com esse pai que lhe “fez festa”, conclui:

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
.”

A palavra “sonho”, por si só, dentro da leitura freudiana, tem múltiplas camadas de sentido e já sugere que foi realizado um trabalho de elaboração. Aqui, abre-se a perspectiva de todo o poema ser lido como um sonho: a realização de um desejo.

Portanto, o poema não segue pelo caminho da melancolia. Nesses quatro versos, está formulado o processo de transformação, da realização verdadeira do trabalho do luto. Do retorno cíclico e da aceitação da natureza: a morte adubando a vida.

Formulação rica para o uso na clínica psicanalítica e na vida.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. FREUD, S., Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 170-94 (Luto e Melancolia – 1917 [1915]).
  2. OGDEN, T. H., “’Luto e Melancolia’” de Freud e as origens da teoria de relações de objeto”. In: ______, Leituras criativas: ensaios sobre obras analíticas seminais. São Paulo: Escuta, 2014, p. 33-60.
  3. PRADO, A., Poesia reunida, 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 22 (Leitura).
  4. SOFIO, F., Psicanálise como forma literária. São Paulo: FAP-Unifesp, 2015.

 

* Vanessa Figueiredo Corrêa, psiquiatra, membro filiado ao Instituto da SBPSP e membro do GEP São José do Rio Preto e Região.

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