Mês: junho 2019

Freud na casa de Adélia – uma conversa entre “Luto e melancolia” e o poema “Leitura”

Vanessa Figueiredo Corrêa 

Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado 

 

No livro Literacura – Psicanálise como forma literária, de Fernanda Sofio, a autora sugere que o leitor reproduza o texto literário em sua mente e assim “distorça-o” e o recrie de acordo com a experiência subjetiva. Dessa forma, a leitura de uma obra literária pelo vértice psicanalítico pode ter características de um diálogo e não de uma análise. Aqui, além do exercício teórico, deseja-se sobretudo convidar o leitor a sentir em si o poema, ou seja, percebê-lo por meio dos sentidos.

Os dois textos, “Luto e melancolia”, de Freud, e o poema “Leitura”, de Adélia Prado, dialogam por meio da temática que têm em comum: as perdas e os possíveis caminhos para se lidar com elas.

Já que se trata de uma conversa, vem ao caso o contexto em que os autores produziram esses escritos. Adélia ficou órfã de mãe aos 15 anos, em 1950. Teve uma relação próxima com o pai, que faleceu em 1972, sendo que o poema “Leitura” foi mandado para a editora em 1975, ou seja, três anos depois.

Freud escreveu “Luto e melancolia” em 1915, e publicou em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, num momento em que, contra a sua vontade, dois de seus filhos se apresentaram de forma voluntária para o serviço militar e combateram na linha de frente.

Num exercício imaginativo, pode-se supor que as perdas, ou ameaças reais de perda, na vida desses dois autores foram usadas de maneira criativa e contribuíram para que as duas obras fossem escritas.

Em “Luto e melancolia”, é postulado que a perda de um objeto de amor (que não se restringe à morte de um ente querido) leva a um estado inicial de “desânimo doloroso profundo, falta de interesse no mundo externo, perda da capacidade de amor, inibição de toda atividade” (Freud). A obra, então, explora dois possíveis caminhos que a mente percorre após o dano: o primeiro seria o luto normal – um trabalho psicológico processual que “absorve, enquanto dura, todas as energias do Eu”. Mas, “a cada uma das recordações e expectativas que mostram a libido ligada ao objeto perdido, a realidade traz o veredicto de que o objeto não mais existe, e o Eu (…) é convencido a romper seu vínculo com o objeto perdido” (Freud). Ao final do processo, o indivíduo aceita a morte do objeto e segue o movimento de sua própria vida.

O segundo caminho seria o da melancolia: o indivíduo se torna incapacitado de fazer o trabalho psicológico do luto, pois fica identificado com o objeto perdido, e não consegue aceitar a perda. O melancólico sente que foi abandonado pelo objeto amado e o sentimento de abandono provoca ódio. No entanto, o objeto perdido ainda é o alvo de amor, e o ódio gera culpa, acabando por voltar-se para o próprio Eu daquele que perdeu, o que leva a uma ambivalência paralisante entre amor e ódio. Tal conflito está condensado na famosa frase de Freud:  “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Usando uma expressão poética, dir-se-ia que essa pessoa não pode ficar ensolarada, nem iluminada pelos objetos da realidade, está impedida de sentir alegria de viver. Preso na interação com a sombra (inanimada) do que foi o objeto amado, não há espaço para que o Eu volte a ligar a libido a objetos vivos.

Convém lembrar que em “Luto e melancolia” Freud toca pela primeira vez na noção de objeto interno, o que faz dessa obra um divisor de águas para a psicanálise (Ogden).

Caminhando dentro do poema: luto ou melancolia?

O título do poema de Adélia Prado, “Leitura”, entre outras possibilidades, pode ser pensado como uma preparação do terreno para uma “interpretação”, uma leitura dos fatos que serão apresentados.

O primeiro verso, “Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras”, descreve um ambiente fechado e ensombrado, sugerindo a existência de aspectos melancólicos em que, como discutido, “a sombra do objeto recai sobre o Eu”. Mas em seguida:

As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.

Surgem sinais de que há vida frutífera dentro dos muros. As maçãs são temporãs e, por isso, ainda mais desejadas, criando uma expectativa de prazer, reforçada pela construção “gosto caprichado”.

Ao longo do muro eram talhas de barros

As “talhas”, vasos de barro onde se guarda a água, combinadas com a palavra “vinho”, que está no terceiro verso, remetem à passagem bíblica em que Jesus realiza o milagre da transformação da água das talhas em vinho, nas bodas de Caná. O que faz sentido, levando em consideração a profunda influência de elementos bíblicos na obra de Adélia.

Então o leitor é convidado a experimentar sensações gustativas prazerosas:

“Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Aparece aí a oposição entre “dentro” e “fora”, que remete à existência de “objetos internos”. No poema, a paralisação está fora e não dentro, há um mundo interno povoado de movimento e de objetos vivos. Preparando o terreno para a alegria que surge nos próximos versos:

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido
por isso ria – sentia prazer em estar vivo
os lábios de novo e a cara circulados de sangue
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?”

São versos “circulados” pela alegria simples e cotidiana do pai, “joie de vivre”. Este é descrito como alguém desejante e o eu-lírico, após narrar o encontro com esse pai que lhe “fez festa”, conclui:

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera
.”

A palavra “sonho”, por si só, dentro da leitura freudiana, tem múltiplas camadas de sentido e já sugere que foi realizado um trabalho de elaboração. Aqui, abre-se a perspectiva de todo o poema ser lido como um sonho: a realização de um desejo.

Portanto, o poema não segue pelo caminho da melancolia. Nesses quatro versos, está formulado o processo de transformação, da realização verdadeira do trabalho do luto. Do retorno cíclico e da aceitação da natureza: a morte adubando a vida.

Formulação rica para o uso na clínica psicanalítica e na vida.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. FREUD, S., Obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 170-94 (Luto e Melancolia – 1917 [1915]).
  2. OGDEN, T. H., “’Luto e Melancolia’” de Freud e as origens da teoria de relações de objeto”. In: ______, Leituras criativas: ensaios sobre obras analíticas seminais. São Paulo: Escuta, 2014, p. 33-60.
  3. PRADO, A., Poesia reunida, 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016, p. 22 (Leitura).
  4. SOFIO, F., Psicanálise como forma literária. São Paulo: FAP-Unifesp, 2015.

 

* Vanessa Figueiredo Corrêa, psiquiatra, membro filiado ao Instituto da SBPSP e membro do GEP São José do Rio Preto e Região.

O Estranho, inconfidências

Daniel Delouya

O XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá entre os dias 19 e 22 deste mês homenageia, em seu tema, o centenário da publicação do texto de Freud Unheimliche, e o associa, de outro, com a inconfidência mineira, história marcante da região onde o congresso se realiza este ano. Curioso, porém, o elo entre uma dimensão estética do mundo psíquico e o universo político. Seria um acaso? As circunstâncias da redação deste ensaio são eminentemente políticas: ocorre no final de 1912, com a eclosão da crise com Jung, após Freud desmaiar na sua presença. Um ataque parecido, e no mesmo local, acometeu Freud quando da ruptura definitiva com Fliess, em 1904, na sequência da qual sofreu o distúrbio de despersonalização em Acrópoles, que elaborara durante três décadas antes de publicá-lo em 1936. Já nesse período, em 1913, o estranho surge sob sua pena n’O tema dos três cofrinhos, no Totem e Tabu e no Moisés de Michelangelo. Nesses delineia-se a vivência do estranho pela ameaça narcísica de assassinato e aniquilamento associados ao destronamento do lugar de poder, às inconfidências. O termo Unheimliche significa aquilo que não é de casa, não é familiar e, na trama do rei Lear, essa inconfidência em relação ao pai (do complexo de castração)  é  remontado a posteriori à deposição original da primeira casa, do ventre materno e de sua restauração sucessiva nos cuidados maternos, no leito da mulher que esposamos e no retorno final, à morte, para a terra mãe, pela filha fiel Cordélia. Esse caminho, que o analista acompanha, desde o nascimento e até a inserção no mundo dos homens através das coordenadas propostas pela lei paterna é uma trajetória política penosa de diferenciação, de inconfidência, adquirindo um lugar na pólis do mundo humano. A escuta e o cuidado tanto do sujeito, assim como da cultura que o abriga, se faz pelo analista e pela psicanálise dentro de uma dimensão estética do sentir dessa dialética entre o familiar e não familiar, entre a confidência e a inconfidência. Heimliche-Unhemliche é o norteador, bússola da escuta psicanalítica, desde as nuances mais suteis do discurso do que destoa e desponta do recalcado, passando por aqueles inquietantes que nos desnorteiam e até os abalos das manifestações lúgubres francamente estranhos, de susto e despersonalização que acometem a dupla, o analista e o sujeito em relação a si, ao seu entorno e à cultura que habita. Essas espécies de vivências demarcam as agitações do conflito do eu com o seu recalcado, e os narcísicos entre o eu e o seu entorno. Em uma das últimas menções do estranho, Freud nos permite iluminar as turbulências do cenário atual, nacional e internacional. O fanatismo como o retorno da salvaguarda primária diante de nosso desamparo ao cair na vida, fora do recinto materno. Trata-se deste poder hipnótico responsável pela criação da massa primordial, do sujeito com o outro, o grande. Esse poder carrega, afirma Freud, o efeito estético enigmático, misterioso, unheimlich, nos remetendo, forçosamente, ao recalcado, o mais familiar do primeiro laço humano, do duplo constitutivo da horda primitiva (Freud, 1921). Tal fuga da pólis, da diferenciação e do convívio democrático em direção ao fanatismo, tem reincidindo no cenário ocidental com o colapso, o terceiro desde 1850, da promessa ilusória do neoliberalismo de independência econômica e de soberania da razão e da moral. O unheimliche da psicanálise o desmente!

Daniel Delouya é membro com funções didáticas da SBPSP e autor de vários livros, entre os quais Torções na razão freudiana (2 ed. pela Blucher, 2019)

A vida como ela é: Ser psicanalista hoje

Talya S. Candi

Por que perseverar no nosso impossível ofício de psicanalista?   E mais ainda, o que significa ser psicanalista hoje, no final da segunda década do século XXI?

Somos forçados a aceitar que hoje em dia a denominação de psicanalista não parece mais significar grande coisa. Esta denominação recobre um grupo de professionais profundamente variado e diferente tanto nos critérios de seleção e de habilitação, quanto na própria atuação e na formação teórica, cujo arcabouço conceitual acabou se transformando ao longo dos anos num corpo heterógeno atravessado por oposição por vezes fundamentais e irreconciliáveis. Consequentemente surge a interrogação: o que é ser psicanalista hoje?

Passada a grande febre do final do século XX, a psicanálise se estende hoje nos mais diversos centros de estudos, universidades e grandes centros hospitalares, permitindo que os estudantes interessados na ciência do inconsciente possam ter uma capacitação.  Esta fragmentação do campo tem sido em parte nefasta, mas também, acredito eu, necessária, pois permitiu uma ampla desidealização do fazer psicanalítico. O psicanalista de hoje é um professional como tanto outros que precisa estar inserido na sociedade de mercado e mostrar que seu saber é de valia tanto no campo do conhecimento científico como da terapêutica. No caso contrário, ficaríamos isolados esperando pacientes ideais, que fariam análises ideais e obteriam resultados ideias para não dizer idealizados.

Inspirada pelo psicanalista André Green, tenho me dedicado a pesquisar e trabalhar com os casos limites, casos que hoje prefiro denominar de não-neuróticos, porque desafiam o enquadre clássico (criado para tratar das neuroses) e se encontram nos limites da possibilidade de analisabilidade.  Trata-se de pacientes que parecem ter uma relação de extrema ambivalência com o psicanalista e a psicanálise. Eles experimentam por um lado, a análise como se ela fosse tão necessária quanto o ar que respiram, mas, por outro lado, acreditam (e insistem em dizer em voz alta)  que a psicanálise não pode fazer nada para aliviar o seu sofrimento. Assim vivem um impasse transferencial provocado por um negativismo feroz pelo qual se recusam tanto a largar quanto a melhorar e que, acreditamos, repete uma vivência de fracasso fundamental.

Um paciente que hoje perdi de vista, me perguntava frequentemente por que queria que ele fizesse análise?    A análise que ele foi fazendo contra a sua vontade o ajudou a recuperar sua vitalidade questionadora e me levou a repensar acerca do meu desejo de ser psicanalista.

Numa conferência já antiga que tive a oportunidade de escutar em Paris, Daniel Widlocher diz que o desejo do psicanalista se concentra em três áreas: o desejo de curar, o desejo de conhecer, e o desejo ligado à apreensão do humano. Os pacientes limites desafiam nosso desejo de curar, mas nos permitem conhecer e talvez compreender a complexidade dos dilemas e dos conflitos que nos tornam humanos.

Eles nos forçam a inserir conflitos lá onde frequentemente existem somente atos impensados que escapam a qualquer coisa que poderíamos chamar de humano.  Conflitos que hoje em dia se mostram cada vez mais ligados a impulsos destrutivos indomáveis, que aniquilam a essência do humano e apontam para lados obscuros e perversos da nossa humanidade que qualificaríamos de inumano. Como inserir humanidade lá onde vemos somente arrogância, destrutividade, violência e negação da alteridade? Em 2005, André Green[1]  escreve  um curto texto intitulado ‘’A humanidade do inumano‘’ à guisa de prefácio para o livro de Claude Balier: “A violência em abismo: ensaio de psico-criminologia”.  Uma das facetas do inumano, diz André Green, consiste na capacidade de anular qualquer questionamento e curiosidade, exterminando o sentido da vida,  transformando  qualquer  outro e o próprio Eu, em  “nada”  em “ninguém”,  como se qualquer tentativa de dar nome e significado  ao mundo no qual vivemos fosse violentamente exterminado.” O mal, o inumano é sem porque, diz ele, ele escapa a qualquer compreensão ao não ser se erguer enquanto mal, ele é uma força bruta que visa na sua essência a destruir o sentido e os porquês, os quando e os quem.”  (Green 1988, pg 370).

Acredito que o psicanalista de hoje deve poder estar preparado para ser confrontado com os aspectos mais obscuros e inumanos de nossa humanidade, que visam a aniquilar o sentido e o interesse da própria vida.

Como explicar a proliferação das patologias limites?  Existem vários modelos para explicar a origem das patologias não-neuróticas. A  grosso modo, podemos destacar dois modelos: O modelo do “conflito psíquico”  que remonta à teorização de Melanie Klein e de Kernberg, que vai enfatizar o papel da agressividade, da inveja inata e do conflito psíquico (entre a parte da personalidade  dominada pela posição esquizo-paranóide  que não suporta reconhecer a alteridade do outro e a posição depressiva que aceita a alteridade) e o modelo do déficit  que, a partir de Ferenczi e de Winnciott, destaca  a falta de sintonia do ambiente às necessidades primarias do bebê.

Este último modelo, enfatiza as dificuldades do self de se autorregular e atingir um nível de coesão de organização interna estável quando o ambiente externo não proporciona um suporte suficientemente bom, confiável e continente. Ao longo do tempo estes modelos têm levados a pontos de vista divergentes na ação terapêutica.  O modelo do conflito, coloca a ênfase na estabilidade do setting (que assegura que a análise possa sobreviver à ambivalência e agressividade do paciente) e na interpretação do conflito psíquico, possibilitando assim confrontar o paciente com a sua própria destrutividade.

O modelo do déficit, por sua vez, ressalta a necessidade de proporcionar continência e holding para possibilitar que as áreas que permaneceram indisponíveis para representação possam ser consolidadas. Esta parte do trabalho consiste em criar a tessitura de uma tela branca psíquica   que sirva de pano de fundo para que a história do paciente possa ser desenhada e inscrita.

Entre as múltiplas dificuldades que o analista deve enfrentar para levar a cabo este trabalho, destacamos a intensa quota de destrutividade que os pacientes não-neuróticos trazem e ativam na relação com o analista. Seja ela determinada por uma questão constitucional ou por uma falha dos objetos primários, a continência da agressividade constitui um nó técnico inevitável e um teste difícil.

Bion, Melanie Klein, Winnicott, Searles, Green, Pontalis  entre  muitos outros parecem ter percebido o tamanho do problema que significava para  um analista  engajar-se na análise de tais pacientes: O analista precisa num primeiro momento se implicar, ser utilizado pelas suas carências, se deixar vampirizar pelo paciente, sobreviver,  imaginar as coisas mais improváveis, as mais loucas e irracionais, aceitar errar e sentir-se completamente impotente, ser pisoteado no seu narcisismo e, finalmente, se precisar, saber desistir e aceitar recuar e…. mesmo assim continuar firme com a psicanálise.

Baita de uma tarefa!!

Para se engajar num tal desafio, o analista de hoje precisa mais do nunca estar profundamente familiarizado com seus próprias conflitos e dores, enfim, com sua vida psíquica e “sua loucura pessoal “(Green). Estes pacientes que nos desafiam com um funcionamento psíquico à beira da loucura, exigem que tenhamos  como instrumento  uma imaginação clínica para  intuir e apreender os conflitos  e não nos deixar levar pela manipulações, uma agilidade mental para não  enlouquecer com o sofrimento e,  uma firmeza  e serenidade  interna para  não desistir.

O método analítico, a associação livre e o enquadre são nosso porto seguro nesta árdua tarefa… Claro que eles serão inevitavelmente perdidos no decorrer do caminho, mas eles devem sempre nortear nossa caminhada. Cabe aqui alertar os analistas contra manipulações transferenciais que poderiam levar a situação perigosas de atuação e desfechos catastróficos.

Compreendemos que face a estas situações limites paradoxais (Roussillon) que questionam os limites da própria razão de ser da psicanálise, cabe recorrer à “loucura pessoal”(Green)  do analista que ao entrar  em ressonância com a  vida emocional do paciente, responde com flexibilidade e  rigor, a partir do espirito analítico,  inserindo sentido.

Diremos finalmente que a história da psicanálise nos ensinou que o único que garante a situação analítica é o próprio analista, a sua pessoa e a sua ética.  Neste sentido, não temos como não insistir na necessidade de uma formação sólida e de uma análise pessoal longa que formaram os pilares do ser psicanalista no passado e que permanecem, todavia mais indispensável hoje e   provavelmente amanhã.

Ser psicanalista hoje exige uma formação dupla.  Por um lado, estar atento, como no passado, a sutis manifestações do inconsciente e quando as circunstâncias o exigem, com pacientes não-neuróticos, poder acolher modos de pensamento paradoxais ou, por vezes, modos de pensamentos inexistentes   e inventar respostas apropriadas que possam abrir caminhos nunca antes imaginados.

[1] André Green, « Préface. L’humanité de l’inhumain », in Claude Balier, La violence en Abyme, Presses Universitaires de France « Le fil rouge », 2005 (), p. XI-XVII.

Talya S. Candi, Membro associado da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic association, doutora pela PUC-SP, autora de varios artigos em revistas cientificas e do livro; O duplo Limite: o aparelho psiquico de André Green, ed Escuta e organizadora de “Dialogos psicanaliticos contemporaneos” publicado  tambem pela ed. Escuta. Talyasc@uol.com.br