Notas sobre Religião, Psicanálise e Vulnerabilidade

Cássia Barreto Bruno

Fala-se, hoje em dia, sobre o retorno das religiões. A Jihad, os escândalos da Igreja de Roma e a prisão de lider religioso no Brasil trazem à tona o debate sobre qual é o lugar da fé laica e da religião no século XXI. Ao levar em conta a complexidade do tema, a psicanálise pode dar alguma contribuição em sintonia com   antropólogos, teólogos e filósofos que trabalham nessa área. (Levi-Strauss, Viveiros, Derrida, para falar de autores recentes).

Na psicanálise, nós poderíamos pensar, por exemplo, em qual lugar da mente se situa esse fascínio pelo sagrado e pelo desconhecido? Podemos dizer que estaria no inconsciente profundo, segundo o modelo freudiano? Podemos ter acesso aos riscos que corremos quando falamos de áreas inconscientes e indizíveis? Serão mesmo inacessíveis? Qual seria o caminho de acessibilidade?

Lancemos alguma luz sobre essa questão. O fato de o inconsciente ser de difícil acesso e o fato de ser o reservatórios das paixões e dos sentimentos que nos assolam e sobre os quais não temos controle, nos deixa intrigados, assustados, mas, acima de tudo, vulneráveis à manipulação.

Nessa área profunda da mente, aquém da palavra, somos frágeis e vulneráveis, tanto no aspecto mais amplo da vida social, expostos à vida Politica, no sentido amplo da palavra, caso das religiões e do Estado, quanto na intimidade da família e do casal.

Após os avanços da teoria psicanalítica, sabemos hoje que, em relação às fantasias e afetos inconscientes, podemos desenvolver uma sensibilidade para esse campo de sentimentos desconhecidos. É possível apurar nossa intuição e ter acesso consciente sobre muitos dos sentimentos que não notamos no corre-corre do cotidiano. Ao se tornarem conscientes, podemos administrá-los de um modo mais racional e proveitoso, digamos assim.

Como desenvolver essa sensibilidade para o desconhecido? Após os estudos de Francis Tustin com autistas, sabemos da importância dos órgãos dos sentidos para a acessibilidade à mente mais primeva.

Se dirigirmos nossa atenção para os indícios que se nos apresentam diariamente e que ficam perdidos no corre-corre do cotidiano, qual seja um gesto, um olhar, um cheiro, uma sensação, podemos dar crédito às nossa intuições. Intuições baseadas em dados de realidade, em observação de nuances e detalhes, tal como Sherlock Holmes fazia ao ter fé e acreditar no que observava.

Nossos órgãos dos sentidos, sob império do olhar, estão subutilizados. Não sabemos qual é o cheiro da raiva, qual é a temperatura do amor, qual o significado desse retorcer de boca, dessa gargalhada fora de hora, desse leve toque de braço.

Assim, urge que fiquemos atentos para estas área da mente e tentemos sentí-las, intuí-las, percebê-las.

Precisamos estar alertas para nos defender de situações que, por estarem em áreas profundas da mente, que é o território do sagrado, do mito, da arte, do inconsciente, do não dito, das sombras, essas áreas, tanto podem abrigar nossas maiores felicidades, quanto nossos maiores sofrimentos.

No mundo atual, a Jihad, o poder das religiões e o abuso dentro das famílias é a violência mais terrível porque é praticada contra a fé e a crença, contra a situação de entrega do mais profundo do ser humano. Justamente quando o ser humano se assume como demasiadamente humano, com suas mais profundas maravilhas e fraquezas, dores e felicidades, justamente nesse momento a pessoa é roubada do que lhe é mais caro, que é sua verdade e seu compromisso consigo própria.

Ou fugimos dessa área profunda do sagrado e nos tornamos racionais qual robô, ou nos deixamos envolver por esses sentimentos brutos, primitivos, maravilhosos, sagrados e aprendemos a administrá-los. Ou fugimos ou corajosamente enfrentamos nosso humano. O que será do mundo sem a poesia, sem a arte, sem o sagrado, sem o amor? Sem o mistério?

Convido-os a ouvir a Quarta Sinfonia de Mahler.

Cássia A.N.Barreto Bruno é psicanalista. Membro Efetivo da SBPSP, Analista Didata,Training Analist da International Psycholoanalytic Association, Docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP.

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