Kolossós de Maio: Presente!

Raya Angel Zonana

O olhar humano necessita da concretude de um vestígio, um resto, um corpo, para poder admitir a morte, esta idéia da qual não se tem representação mental.

O desejo e a fantasia da infinitude ilusória que preenche cada um de nós, estremece diante da percepção de nossa própria finitude e a dos nossos entes queridos, da transitoriedade da vida.

Enterrarmos nossos mortos é parte do legado cultural que desde a antiguidade nos mantém humanos. Na Grécia Antiga, os mortos para os quais não se prestassem as honras fúnebres, estariam condenados a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao Hades, mundo dos mortos, sem poder fazer a travessia do Lethes, o rio do esquecimento. A morte passa pelo esquecimento. Quando não se tinha o corpo do morto, erguia-se uma pedra, o kolossós, que enterrada no solo permitia estabelecer contato entre os vivos, luz do dia e sons, e o morto, escuridão e silêncio. Assim o invisível se manifestava por meio de uma presença insólita e ambígua, que era também o sinal de sua ausência. Um símbolo, e assim, preservado na memória dos vivos, o morto vive. Kolossós é também um duplo, o que resta do que já existiu.

As primeiras cidades foram construídas em torno dos cemitérios para que os vivos pudessem cultuar seus mortos, e pelos seus mortos cultivar sua própria memória. É o que nós humanos somos: memória e símbolo. Traçamos nossa história a partir de lembranças, a matéria que mantem a vida.

Os sonhos, como um caldeirão em fogo lento no qual, noite após noite, apuramos nossa história, são uma forma de travestir em simples restos diurnos, nossas delicadas lembranças. São uma forma de kolossós, que presentifica em imagens o que já lá não está visível. Sonhamos para lembrar e para poder esquecer. Nos textos que toda noite escrevemos em sonhos, nas imagens que desenhamos, guardamos com cuidado a memória do que somos. É deste texto que os escritores retiram palavras, imagens, com as quais formam a memória da humanidade. É também esta a matéria das narrativas daqueles que buscam a escuta do psicanalista.

Em Freud, lemos que se adoece por reminiscências. Lembranças que constroem a subjetividade que nos singulariza. É esta a riqueza do humano.

Puxo este fio e lembro-me do texto freudiano Nota sobre o bloco mágico (1925). Neste antigo brinquedo infantil, uma fina película cobre uma superfície porosa. Escreve-se sobre a película, que depois, ao ser puxada, apaga o que ali estava inscrito. Na parte porosa do bloco, no entanto, restam marcas da escritura. Neste brinquedo, Freud imagina o aparelho psíquico, onde uma vez inscrito um texto, ainda que este seja totalmente apagado (da película consciente), e necessariamente “esquecido”, restará sempre o vestígio da escritura no inconsciente atemporal, poroso.

Somos todos parte de um imenso bloco mágico onde as escrituras humanas são preservadas e passadas de geração a geração, por narrativas e histórias que contamos aos nossos filhos, por textos escritos em livros, em espaços virtuais, nuvens que guardam nossas memórias, minúsculos chips. A herança do homem preserva-se gravada em cada ser humano, na sutileza e intensidade de seus traços de memória. Por viver em um tempo finito é que o homem necessita de marcas que percorrem a humanidade, de símbolos para lembrar de momentos inesquecíveis, mas já esquecidos. Somos somente guardiões temporários e artesãos da teia que é a humanidade e que permanece através dos séculos.  O homem se constrói pelas marcas que faz, ao desenhar o que observa, inventar palavras, nomear o que vê e o que vive, talvez em busca de que algo seu, além do biológico das espécies, permaneça eterno. O kolossós, os rituais que se executam para “ninar” os mortos, buscam manter um fio que tece a passagem de cada um de nós e nos torna legado da humanidade.

Se na Grécia o kolossós era uma pesada pedra, com o passar das épocas, outros símbolos se apresentaram. Algo mais leve, muito sutil, mas encarnado é hoje usado como kolossós: cobrindo as cabeças das mães e avós, uma fralda branca, símbolo dos filhos e netos desaparecidos durante o período da ditadura argentina é o kolossós usado pelas Mães da Plaza de Mayo, contra o esquecimento.

No Brasil, no Chile, no Uruguai, na América Latina de tantas dores, ditaduras do final do século passado criaram a categoria de desaparecidos. Pessoas que, na memória de seus familiares e amigos, vagam sem sepultura, sem que deles se tenha rastros, matéria de memória.

Neste mês de maio, em Montevidéu, no dia 20, realiza-se a Marcha do Silêncio., “contra o esquecimento, pela verdade, justiça e memória”. Nesta marcha, que acontece há décadas, após o fim da ditadura no Uruguai. uma multidão reúne-se, e em silêncio marcha por duas horas em direção à Plaza de La Libertad, centro da cidade; ali se detém e nomeia um a um os que ainda estão desaparecidos. A cada nome a multidão responde com um forte e sonoro “Presente”. Este Presente, é a palavra que se faz kolossós. Alguns parentes de desaparecidos, já bastante idosos, levam cartazes com suas fotos, estas que eternizam algo que já foi e que nunca mais será.

Façamos eco a cada um dos gritos de presente que a multidão reunida em Montevidéu neste 20 de maio deixar escapar junto à dor pela perda de seus desaparecidos. De nossos desaparecidos, já que a perda não é de cada um, é da humanidade diante da barbárie que retorna em meio a lampejos de civilidade.

No Brasil, durante os trabalhos da Comissão da verdade, o documento Infância roubada conta a história de crianças presas com seus pais, exiladas, banidas ou, que foram tiradas de seus pais e entregues a pessoas ligadas aos órgãos da repressão, como relata o jornalista Eduardo Reina (Cativeiro sem fim, Ed. Alameda) sobre os “bebês malditos”e “filhos de subversivos”, como eram nomeados.

No entanto, se temos recebido ordens de mudar nossa memória, se como em Blade Runner (Ridley Scott, 1982), tivermos que conviver com uma memória implantada imposta pelo poder, temos também o conhecimento, como psicanalistas, de que a desmentida é mortífera.

O poeta, melhor do que ninguém o expressa, como o fazem Chico Buarque e Gilberto Gil em Cálice:

            Como beber dessa bebida amarga

            Tragar a dor, engolir a labuta

            Mesmo calada a boca, resta o peito

            Silêncio na cidade não se escuta.

Cabe a nós neste momento, como psicanalistas e como cidadãos, não fazer silêncio, não deixar de recordar a pequena história diária com que construímos a vida, nossa e daqueles que ouvimos em nosso trabalho. Poder honrar nosso legado é usar da escuta e da palavra, nossos instrumentos de trabalho, para atravessar o perigoso cristal do esquecimento e da mentira, e manter a possibilidade da narrativa de cada um que nos procura em busca de alguma esperança, da construção de um espaço que permita evocar novos sentidos, novas histórias.

Raya Angel Zonana é psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, editora de Calibán, Revista Latino Americana de Psicanálise da Federação de Psicanálise da America Latina (FEPAL). Integra a Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP.

2 comentários

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s