Mês: maio 2019

Kolossós de Maio: Presente!

Raya Angel Zonana

O olhar humano necessita da concretude de um vestígio, um resto, um corpo, para poder admitir a morte, esta idéia da qual não se tem representação mental.

O desejo e a fantasia da infinitude ilusória que preenche cada um de nós, estremece diante da percepção de nossa própria finitude e a dos nossos entes queridos, da transitoriedade da vida.

Enterrarmos nossos mortos é parte do legado cultural que desde a antiguidade nos mantém humanos. Na Grécia Antiga, os mortos para os quais não se prestassem as honras fúnebres, estariam condenados a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao Hades, mundo dos mortos, sem poder fazer a travessia do Lethes, o rio do esquecimento. A morte passa pelo esquecimento. Quando não se tinha o corpo do morto, erguia-se uma pedra, o kolossós, que enterrada no solo permitia estabelecer contato entre os vivos, luz do dia e sons, e o morto, escuridão e silêncio. Assim o invisível se manifestava por meio de uma presença insólita e ambígua, que era também o sinal de sua ausência. Um símbolo, e assim, preservado na memória dos vivos, o morto vive. Kolossós é também um duplo, o que resta do que já existiu.

As primeiras cidades foram construídas em torno dos cemitérios para que os vivos pudessem cultuar seus mortos, e pelos seus mortos cultivar sua própria memória. É o que nós humanos somos: memória e símbolo. Traçamos nossa história a partir de lembranças, a matéria que mantem a vida.

Os sonhos, como um caldeirão em fogo lento no qual, noite após noite, apuramos nossa história, são uma forma de travestir em simples restos diurnos, nossas delicadas lembranças. São uma forma de kolossós, que presentifica em imagens o que já lá não está visível. Sonhamos para lembrar e para poder esquecer. Nos textos que toda noite escrevemos em sonhos, nas imagens que desenhamos, guardamos com cuidado a memória do que somos. É deste texto que os escritores retiram palavras, imagens, com as quais formam a memória da humanidade. É também esta a matéria das narrativas daqueles que buscam a escuta do psicanalista.

Em Freud, lemos que se adoece por reminiscências. Lembranças que constroem a subjetividade que nos singulariza. É esta a riqueza do humano.

Puxo este fio e lembro-me do texto freudiano Nota sobre o bloco mágico (1925). Neste antigo brinquedo infantil, uma fina película cobre uma superfície porosa. Escreve-se sobre a película, que depois, ao ser puxada, apaga o que ali estava inscrito. Na parte porosa do bloco, no entanto, restam marcas da escritura. Neste brinquedo, Freud imagina o aparelho psíquico, onde uma vez inscrito um texto, ainda que este seja totalmente apagado (da película consciente), e necessariamente “esquecido”, restará sempre o vestígio da escritura no inconsciente atemporal, poroso.

Somos todos parte de um imenso bloco mágico onde as escrituras humanas são preservadas e passadas de geração a geração, por narrativas e histórias que contamos aos nossos filhos, por textos escritos em livros, em espaços virtuais, nuvens que guardam nossas memórias, minúsculos chips. A herança do homem preserva-se gravada em cada ser humano, na sutileza e intensidade de seus traços de memória. Por viver em um tempo finito é que o homem necessita de marcas que percorrem a humanidade, de símbolos para lembrar de momentos inesquecíveis, mas já esquecidos. Somos somente guardiões temporários e artesãos da teia que é a humanidade e que permanece através dos séculos.  O homem se constrói pelas marcas que faz, ao desenhar o que observa, inventar palavras, nomear o que vê e o que vive, talvez em busca de que algo seu, além do biológico das espécies, permaneça eterno. O kolossós, os rituais que se executam para “ninar” os mortos, buscam manter um fio que tece a passagem de cada um de nós e nos torna legado da humanidade.

Se na Grécia o kolossós era uma pesada pedra, com o passar das épocas, outros símbolos se apresentaram. Algo mais leve, muito sutil, mas encarnado é hoje usado como kolossós: cobrindo as cabeças das mães e avós, uma fralda branca, símbolo dos filhos e netos desaparecidos durante o período da ditadura argentina é o kolossós usado pelas Mães da Plaza de Mayo, contra o esquecimento.

No Brasil, no Chile, no Uruguai, na América Latina de tantas dores, ditaduras do final do século passado criaram a categoria de desaparecidos. Pessoas que, na memória de seus familiares e amigos, vagam sem sepultura, sem que deles se tenha rastros, matéria de memória.

Neste mês de maio, em Montevidéu, no dia 20, realiza-se a Marcha do Silêncio., “contra o esquecimento, pela verdade, justiça e memória”. Nesta marcha, que acontece há décadas, após o fim da ditadura no Uruguai. uma multidão reúne-se, e em silêncio marcha por duas horas em direção à Plaza de La Libertad, centro da cidade; ali se detém e nomeia um a um os que ainda estão desaparecidos. A cada nome a multidão responde com um forte e sonoro “Presente”. Este Presente, é a palavra que se faz kolossós. Alguns parentes de desaparecidos, já bastante idosos, levam cartazes com suas fotos, estas que eternizam algo que já foi e que nunca mais será.

Façamos eco a cada um dos gritos de presente que a multidão reunida em Montevidéu neste 20 de maio deixar escapar junto à dor pela perda de seus desaparecidos. De nossos desaparecidos, já que a perda não é de cada um, é da humanidade diante da barbárie que retorna em meio a lampejos de civilidade.

No Brasil, durante os trabalhos da Comissão da verdade, o documento Infância roubada conta a história de crianças presas com seus pais, exiladas, banidas ou, que foram tiradas de seus pais e entregues a pessoas ligadas aos órgãos da repressão, como relata o jornalista Eduardo Reina (Cativeiro sem fim, Ed. Alameda) sobre os “bebês malditos”e “filhos de subversivos”, como eram nomeados.

No entanto, se temos recebido ordens de mudar nossa memória, se como em Blade Runner (Ridley Scott, 1982), tivermos que conviver com uma memória implantada imposta pelo poder, temos também o conhecimento, como psicanalistas, de que a desmentida é mortífera.

O poeta, melhor do que ninguém o expressa, como o fazem Chico Buarque e Gilberto Gil em Cálice:

            Como beber dessa bebida amarga

            Tragar a dor, engolir a labuta

            Mesmo calada a boca, resta o peito

            Silêncio na cidade não se escuta.

Cabe a nós neste momento, como psicanalistas e como cidadãos, não fazer silêncio, não deixar de recordar a pequena história diária com que construímos a vida, nossa e daqueles que ouvimos em nosso trabalho. Poder honrar nosso legado é usar da escuta e da palavra, nossos instrumentos de trabalho, para atravessar o perigoso cristal do esquecimento e da mentira, e manter a possibilidade da narrativa de cada um que nos procura em busca de alguma esperança, da construção de um espaço que permita evocar novos sentidos, novas histórias.

Raya Angel Zonana é psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, editora de Calibán, Revista Latino Americana de Psicanálise da Federação de Psicanálise da America Latina (FEPAL). Integra a Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP e a Diretoria de Atendimento à Comunidade da SBPSP.

SOFRIMENTO NA ADOLESCÊNCIA: RECONHECENDO SINAIS DE RISCO

Denise de Sousa Feliciano

Recentemente fomos impactados pela notícia de que uma escola de segundo grau em Suzano, um município próximo à capital paulista, havia sido palco de uma inimaginável tragédia: dois ex-alunos adolescentes entraram tranquilamente pelo portão e vitimaram colegas e professores a tiros e machadadas antes de cometerem suicídio. Comoção nacional e a pergunta latejante sobre o que teria levado dois jovens sem histórico de delinquência a cometerem um crime de tal crueldade.

Investigações mostraram indícios de que o crime havia sido premeditado e inspirado em outros similares acontecidos nos Estados Unidos, com destaque para o de Columbine, ocorrido há 20 anos, muito similar ao que se passou em Suzano e também em 2011 em uma escola no bairro de Realengo-RJ.

Tanto a polícia quanto o público buscam compreender as motivações que estão na base desses crimes como uma forma de dar sentido para talvez amenizar o terror sem nome que esses episódios suscitam. Entretanto as explicações e motivos encontrados na maioria das vezes são insuficientes para a intensidade da ação.

O que está em questão é exatamente a falta de sentido, o vazio e outras nuances de uma vida mental de extrema pobreza e sofrimento que escapa à compreensão de uma lógica consciente.

Lionel Shriver reproduziu no livro Precisamos falar sobre Kevin, que em 2011 foi produzido para o cinema na direção de Lynne Ramsay, uma ficção que tenta reconstruir a genealogia de um assassino similar a tantas dessas tragédias ocorridas em escolas americanas. Kevin é tanto o bebê que não se acalma, a criança que não olha nem se vincula com a mãe, quanto o adolescente que aos 15 anos vitima seus colegas, professores, pai e irmã. Resta uma mãe amargurada e sem respostas.

O ódio que esses crimes despertam talvez seja a única forma encontrada inconscientemente por esses jovens de nos comunicar seu próprio ódio por si mesmos e pelo outro. Um sentimento muitas vezes sem contornos para o qual eles constroem uma história intrapsíquica ficcional, mas que se torna sua realidade. É a realidade psíquica que está na base de quem de fato somos.

Dostoiévski em Crime e Castigo, narrativa primorosa, nos oferece a incursão no conflito de uma mente perturbada pela aflição e o desamparo, mediados pela culpa. Nele, o ex-estudante Ródion Ramanovich Raskolnikov assassina uma velha senhora e sua irmã com machadadas a sangue frio, ancorado pelo delírio de representar uma atitude grandiosa para a humanidade. A personagem vive uma vida de miséria. Mas a falta de recursos econômicos é apenas a concretização de sua miséria psíquica que, paradoxalmente parece encontrar sentido no tormento moral que o invade após o crime.

Em termos psíquicos, o que está em pauta é a percepção do mundo e das relações atravessadas por uma mente que não tem instrumentos para processar as dores humanas, imposta a todos nós. Frustrações, decepções ou perdas são congeladas num universo imaginário paralelo no qual o sofrimento é distorcido e representado como resultado de um mundo cruel e perseguidor do qual precisam se defender.

E quais terão sido os delírios dos jovens protagonistas das nossas tragédias? Nunca saberemos. Eles mesmos se incumbiram de suas próprias penas e ao mesmo tempo da libertação de uma provável vida de dor sem fim.

Mais do que buscar o motivo disparador para um crime hediondo entre adolescentes, é reconhecer sinais que possam indicar riscos e ajudá-los. Reconhecer ao nosso lado uma miséria semelhante torna-se cada vez mais urgente. E para nos oferecermos para enxergá-los e resgatá-los da solidão de uma existência vazia é preciso estar disposto a observar e agir. Para isso, é preciso estar perto para ver os sinais de alerta nas sutilezas da convivência e, sobretudo, enfrentar a proximidade com estados mentais sombrios.

Apesar das aparências, o adolescente ainda não se consolidou num funcionamento adulto. É uma identidade em construção. Muitas vezes os pais, acreditando que seus filhos já são capazes de cuidar de si, os deixam à própria sorte, liberando de uma hora para outra tudo o que até então não lhes era permitido: álcool, noitadas sem fim, viagens sem notícias, etc. Entretanto, eles não estão preparados para não terem a tutela dos pais. Ainda não têm estofo para a responsabilidade de cuidarem de si.  Ante a sensação de onipotência que se ergue para compensar a impotência de suas fragilidades colocam-se à mercê do perigo, para si e o outro.

A outra face desse desamparo são os, cada vez mais frequentes suicídios entre adolescentes. A pobreza individual pode se camuflar quer seja no silêncio da reclusão em telas de computador ou smartphones, ou na falsa aparência do jovem descolado e poderoso, amado por todos e sempre feliz. O excesso, seja de tristeza ou alegria, de comer demais ou não comer, de estudar demais ou só dormir, é um dos indícios importantes de sofrimento.

Os jovens de Suzano costumavam passar horas em lan house, perdidos num mundo incógnito de uma internet obscura chamada deep web, na qual “conversavam” com interlocutores anônimos. Sem rosto. Sem nome. Sem voz. Sem existência como possivelmente se sentiam.

Frequentemente após as tragédias, as testemunhas de suas vidas cotidianas reconhecem os tais sinais que sempre estiveram lá, mas não puderam ser vistos. É o que tenta mostrar o filme de Kevin nos incômodos que acompanharam sua existência desde o berço, mas que seus pais não puderam levar a sério para cuidar.

A adolescência traz de volta e reabre muitas dores e vivências de sofrimentos vividos na infância, muitos deles na mais tenra idade. Nessas etapas de vida, as experiências e seus afetos não podem nem mesmo ser nomeadas pela falta de linguagem e permanecem represadas num registro primitivo da mente. É necessário um trabalho psíquico que seja capaz de acessar essas esferas mentais para uma nova reformulação e processos mentais que permitam que haja elaboração e consequente fortalecimento do eu.

Enfim sempre há esperança quando é possível ver e socorrer.

Denise de Sousa Feliciano é psicanalista, Membro Associado na SBPSP, filiada à International Psychoanalytic Association. Mestre e doutora pelo IPUSP, docente no Departamento de Psicanálise com Crianças do Sedes. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade de Pediatria de São Paulo. 
denisefeliciano@uol.com.br