Notas Sobre o Tédio

Vera Lamanno-Adamo*                         

No texto Luto e Melancolia, Freud (1915) introduz o termo melancolia como uma forma patológica do luto. Para ele, no trabalho de luto, o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido. Na melancolia, ao contrário, o sujeito se supõe culpado pela morte acontecida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. O eu se identifica com o objeto perdido, a ponto dele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.

A identificação do eu com o objeto perdido acaba gerando apatia, torpor e ausência de sentido à existência, assim como ocorre com um eu dominado pelo tédio. No entanto, no tédio não encontramos lamentos, incriminalização e culpabilização.

O tédio diz respeito à perda do significado pessoal diante da vida, do mundo e da realidade: resulta desta perda sentimentos de vazio, desânimo, falta de vontade de realizar atividades rotineiras e desinteresse pela realidade vivida.

Sob o domínio do tédio, o eu se vê esvaziado de significado pessoal à existência. O tédio revela o tempo que nos arrasta para um mundo desprovido de significação e esvaziado de sentido.  

Vou me valer do segundo episódio da primeira temporada do seriado Black Mirror, intitulado Fifteen Million Merits, para ilustrar a vida e relações de indivíduos sob a égide do tédio.

Quinze Milhões de Méritos

Ambientado em um futuro high-tech, o episódio traz como protagonista o jovem Bing (Daniel Kaluuya), apenas mais um entre milhões de indivíduos autômatos que habitam uma colônia onde nada fazem além de pedalar em bicicletas geradoras de energia.

Energia consumida pela sociedade e pelos próprios “pedaladores”.

A única maneira de se distrair é assistindo a infindáveis programas de TV ou adquirindo novos aplicativos para serem utilizados em seus avatares.

Quanto mais pedalam mais merits conseguem em troca. Todos brigam para ter mais merits, para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento em seus quartos.

O contato interpessoal é praticamente nulo.

Um dia, chega ao local a bela Abi (Jessica Brown Findlay) que, de imediato, chama a atenção de Bing. Ele se sente atraído por ela, mas não chega a conversar, até o dia em que ele a ouve cantar e fica impressionado com sua voz. Então, cria coragem e vai ao seu encontro.

Bing estimula Abi a participar do show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para comprar sua participação. Ele oferece os seus a ela, dando-lhe de presente quinze mil merits.

Ser bem-sucedido em um reality show é a única maneira de sair da colônia, ou seja, parar de pedalar para gerar energia e morar em um quarto maior e mais bem equipado com black mirrors.

Abi consegue ir ao show de talentos, o programa de calouros Hot Shots, que faz lembrar os realities American Idol ou The Voice. Após uma brilhante apresentação, os jurados dizem sarcasticamente que, embora seja muito bonita e capaz de gerar pensamentos maliciosos, sua voz é mediana.

Propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta para reduzir seus gastos e também conseguir ir ao show de calouros. Faz inicialmente uma apresentação de dança e então, aos berros, saca um pedaço de vidro que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto, após um ataque de raiva. Frente ao jurado e à plateia, Bing ameaça se cortar caso não o escutem.

Após discursar de forma incisiva e forte sobre a falta de intimidade, privacidade e a vida controlada da colônia, os jurados oferecem um programa só para ele em um canal da colônia.

Bing se torna uma espécie de herói que expõe críticas sobre o sistema, sempre com o pedaço de vidro nas mãos. Mas o seu discurso, programa após programa, a sua fala estridente e violenta torna-se uma performance.  Não promove reflexão e pensamento. Uma espécie de válvula de escape para a colônia.

Está assim instituído um campo fértil para a proliferação do tédio e de ferramentas poderosas para se livrar dele: extremismo e excitabilidade.

Numa cultura determinada por pura funcionalidade e eficiência, o tédio dominará porque a qualidade do mundo desaparece na visibilidade extrema que tudo engloba. Numa cultura assim, experimentos com sexo e drogas – ou fugas para o nevoeiro de uma nova religião – parecerão tentadores, porque parecem oferecer uma maneira de escapar de uma vida cotidiana penosamente entediante e de descobrir novos horizontes bem mais excitantes. O triste é que esses excessos nunca conseguem satisfazer o anseio de que se originaram (Svendsen, 1999, p.96).

Quinze milhões de Méritos evidencia uma ética contrária à reflexão em um mundo povoado por “pedaladores”. Resulta daí, relações estáticas e estereotipadas que não promovem experiências significativas, gerando cada vez mais esgotamento dos sentidos e indiferença perante a vida.

No entanto, o tédio não é em si um sinal de psicopatologia.

O tédio é um fenômeno tipicamente humano que carrega em seu bojo a noção de subjetividade enquanto manifestação da consciência de si, demandando sentido à vida e significado pessoal à existência.  

Frente à sensação de vacuidade, o tédio estimula a busca de sentido e significado à existência.

Reconhecer o tédio como uma presença não necessariamente insuportável possibilita que o transformemos em fonte de sentido para a vida. Ao tentar anulá-lo a qualquer custo, corre-se o risco de uma existência insignificante, povoada por extremismo e excitabilidade.

Gradativa e penosamente, o tédio pode ser suportado e em função disso ocorrer um reinvestimento no seu par antitético: a curiosidade.

Curiosidade que nos move em busca de conhecer o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos, para dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

 

Referência

Freud, S. (1915) Luto e Melancolia. Standard Edition XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lamanno-Adamo, V. L. C. (2017) Tédio, luto e melancolia. Rev. Bras. Psicanal. vol.51, n. 3 (p.79-90).

Svendsen, L. (1999) Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

Vera Lamanno-Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do GEPCampinas e da SBPSP.

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