Mês: abril 2019

Notas Sobre o Tédio

Vera Lamanno-Adamo*                         

No texto Luto e Melancolia, Freud (1915) introduz o termo melancolia como uma forma patológica do luto. Para ele, no trabalho de luto, o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido. Na melancolia, ao contrário, o sujeito se supõe culpado pela morte acontecida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. O eu se identifica com o objeto perdido, a ponto dele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.

A identificação do eu com o objeto perdido acaba gerando apatia, torpor e ausência de sentido à existência, assim como ocorre com um eu dominado pelo tédio. No entanto, no tédio não encontramos lamentos, incriminalização e culpabilização.

O tédio diz respeito à perda do significado pessoal diante da vida, do mundo e da realidade: resulta desta perda sentimentos de vazio, desânimo, falta de vontade de realizar atividades rotineiras e desinteresse pela realidade vivida.

Sob o domínio do tédio, o eu se vê esvaziado de significado pessoal à existência. O tédio revela o tempo que nos arrasta para um mundo desprovido de significação e esvaziado de sentido.  

Vou me valer do segundo episódio da primeira temporada do seriado Black Mirror, intitulado Fifteen Million Merits, para ilustrar a vida e relações de indivíduos sob a égide do tédio.

Quinze Milhões de Méritos

Ambientado em um futuro high-tech, o episódio traz como protagonista o jovem Bing (Daniel Kaluuya), apenas mais um entre milhões de indivíduos autômatos que habitam uma colônia onde nada fazem além de pedalar em bicicletas geradoras de energia.

Energia consumida pela sociedade e pelos próprios “pedaladores”.

A única maneira de se distrair é assistindo a infindáveis programas de TV ou adquirindo novos aplicativos para serem utilizados em seus avatares.

Quanto mais pedalam mais merits conseguem em troca. Todos brigam para ter mais merits, para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento em seus quartos.

O contato interpessoal é praticamente nulo.

Um dia, chega ao local a bela Abi (Jessica Brown Findlay) que, de imediato, chama a atenção de Bing. Ele se sente atraído por ela, mas não chega a conversar, até o dia em que ele a ouve cantar e fica impressionado com sua voz. Então, cria coragem e vai ao seu encontro.

Bing estimula Abi a participar do show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para comprar sua participação. Ele oferece os seus a ela, dando-lhe de presente quinze mil merits.

Ser bem-sucedido em um reality show é a única maneira de sair da colônia, ou seja, parar de pedalar para gerar energia e morar em um quarto maior e mais bem equipado com black mirrors.

Abi consegue ir ao show de talentos, o programa de calouros Hot Shots, que faz lembrar os realities American Idol ou The Voice. Após uma brilhante apresentação, os jurados dizem sarcasticamente que, embora seja muito bonita e capaz de gerar pensamentos maliciosos, sua voz é mediana.

Propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta para reduzir seus gastos e também conseguir ir ao show de calouros. Faz inicialmente uma apresentação de dança e então, aos berros, saca um pedaço de vidro que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto, após um ataque de raiva. Frente ao jurado e à plateia, Bing ameaça se cortar caso não o escutem.

Após discursar de forma incisiva e forte sobre a falta de intimidade, privacidade e a vida controlada da colônia, os jurados oferecem um programa só para ele em um canal da colônia.

Bing se torna uma espécie de herói que expõe críticas sobre o sistema, sempre com o pedaço de vidro nas mãos. Mas o seu discurso, programa após programa, a sua fala estridente e violenta torna-se uma performance.  Não promove reflexão e pensamento. Uma espécie de válvula de escape para a colônia.

Está assim instituído um campo fértil para a proliferação do tédio e de ferramentas poderosas para se livrar dele: extremismo e excitabilidade.

Numa cultura determinada por pura funcionalidade e eficiência, o tédio dominará porque a qualidade do mundo desaparece na visibilidade extrema que tudo engloba. Numa cultura assim, experimentos com sexo e drogas – ou fugas para o nevoeiro de uma nova religião – parecerão tentadores, porque parecem oferecer uma maneira de escapar de uma vida cotidiana penosamente entediante e de descobrir novos horizontes bem mais excitantes. O triste é que esses excessos nunca conseguem satisfazer o anseio de que se originaram (Svendsen, 1999, p.96).

Quinze milhões de Méritos evidencia uma ética contrária à reflexão em um mundo povoado por “pedaladores”. Resulta daí, relações estáticas e estereotipadas que não promovem experiências significativas, gerando cada vez mais esgotamento dos sentidos e indiferença perante a vida.

No entanto, o tédio não é em si um sinal de psicopatologia.

O tédio é um fenômeno tipicamente humano que carrega em seu bojo a noção de subjetividade enquanto manifestação da consciência de si, demandando sentido à vida e significado pessoal à existência.  

Frente à sensação de vacuidade, o tédio estimula a busca de sentido e significado à existência.

Reconhecer o tédio como uma presença não necessariamente insuportável possibilita que o transformemos em fonte de sentido para a vida. Ao tentar anulá-lo a qualquer custo, corre-se o risco de uma existência insignificante, povoada por extremismo e excitabilidade.

Gradativa e penosamente, o tédio pode ser suportado e em função disso ocorrer um reinvestimento no seu par antitético: a curiosidade.

Curiosidade que nos move em busca de conhecer o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos, para dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

 

Referência

Freud, S. (1915) Luto e Melancolia. Standard Edition XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lamanno-Adamo, V. L. C. (2017) Tédio, luto e melancolia. Rev. Bras. Psicanal. vol.51, n. 3 (p.79-90).

Svendsen, L. (1999) Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

Vera Lamanno-Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do GEPCampinas e da SBPSP.

Memórias coloniais

*Olívia Falavina

O livro “Caderno de Memórias Coloniais” da moçambicana Isabela Figueiredo discorre sobre lembranças e acontecimentos ocorridos na Maputo de 1960, durante o processo de descolonização. Filha de pais portugueses que migraram para a África, a autora disseca, em formato de um diário autoficcional, as relações racistas entre europeus e africanos, sob o olhar perturbador e investigativo da criança que era na época. Descrevendo essas tensas e intensas vivências, a garota permanece na cidade até os doze anos, quando é enviada sozinha e repentinamente para Lisboa durante a turbulenta independência de Moçambique. A violência normatizada da convivência cotidiana transparece no fato de que nenhum negro poderia jamais encostar em um branco ou olhá-lo diretamente nos olhos, ou ainda, de que deveria sempre manter uma postura curvada diante de um colonizador. Crianças brancas e negras do mesmo modo não se misturavam – as primeiras têm calçados, brincam trancafiadas em casa e vestem rendas alvas lusitanas, já as segundas vagam soltas, esfarrapadas, à procura de comida e pequenos serviços gerais. Universos intransponíveis, exceto pelas grades que os separam.

“Eu e eles não falávamos a mesma língua. Apenas umas palavras soltas. Olhava-os muito, e eles a mim. Por exemplo, neste momento estou a olhá-los através do tempo, e há uma perplexidade nos seus olhos, um vazio, uma fome, e nos meus uma impotência, uma incompreensão que nenhuma razão poderá explicar.”(Figueiredo, p. 167, 2018)

O ambiente infantil da autora-criança é moldado pelas marcas escravagistas ainda presentes, que ditavam o cenário micropolítico doméstico. Seus registros são um acerto de contas com suas origens, a matriz portuguesa e seu pai, cuja ternura e violência eram imiscuídas na intimidade do lar. O que ouvimos no decorrer do diário é a combinação singular de suas vozes infantil e adulta, provocando uma imersão no leitor em toda a ambiguidade dos afetos humanos. Quem nos escreve é uma menina crescida. Lugar duplo e paradoxal devido também a sua condição de retornada[1], a exilada africana que regressa à pátria sem nunca ter estado lá.

Por meio de memórias sensoriais, conhecemos sua Maputo do solo vermelho e seco, vemos as cores exuberantes e sensuais das roupas femininas, derretemos com o calor escaldante e provamos a inflamante aguardente de cajú. Na geografia da cidade e das pessoas, bem delimitada pela disposição precisa dos corpos negros e brancos nos espaços públicos e privados, a cisão é desde o começo condição e ferramenta fundamental de sobrevivência.

Há uma passagem comovente no diário em que a autora-criança seleciona as mais suculentas mangas de seu quintal e vai para a frente de sua casa vendê-las, atividade reservada exclusivamente às mulheres negras. Essa brincadeira subversiva ganha tons ainda mais interessantes quando descobrimos que o preço das mangas é bastante inferior ao das próprias negras. Ela se coloca, portanto, a ser “explorada”. Em sua brincadeira consegue uma proeza, reunir em si mesma por um momento a culpada colona branca e a aphartada africana negra. A comunhão desses papéis talvez não fosse possível em nenhuma outra circunstância. Ao brincar, torna-se a rapariga de cachos loiros e pele negra. E ri, se diverte e se sente livre por agora estar finalmente na rua, descalça, onde sempre quis estar: do outro lado da grade.

Sua brincadeira pôde, ao menos em fantasia, fazer uma ponte entre mundos antagônicos. Identificações paradoxais, como as de opressor e oprimido, se justapõem e convergem simultaneamente no ato lúdico simbolizante. Em uma tentativa infantil de atravessar abismos vemos em curso uma incipiente elaboração de traumas sociais e íntimos aos quais se encontrava exposta.

Esta contundente obra literária contribui para pensarmos sobre a miséria psíquica daquele que perpetua a violência, pois é também assolado pela cisão que constitui o fenômeno. Este se revela pela incapacidade do indivíduo constituir-se como si mesmo a não ser pela exclusão do outro e de sua fabricação complementar como um inimigo. Se o sofrimento dos colonizadores não é (e não deve ser) comparável ao das vítimas que padecem dos efeitos devastadores do racismo, ele, entretanto, nos aponta novamente como perdemos todos com a barbárie.

Os paralelos com nosso país, e com as outras antigas colônias, são inevitáveis. Moçambique é aqui e agora. Talvez possamos, assim como a autora menina, com suas mangas e cadernos, buscar meios próprios para tratar de nossas cicatrizes. Resta a esperança de que o brincar e a cultura possam continuar sendo meio de expressão e reparação de dores, as da nossa história pessoal e coletiva.

[1]          Como são chamados os filhos de portugueses que regressaram à pátria nos anos 1970.

 

Referências Bibliográficas:

FIGUEIREDO, I. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 1a ed., 2018.

 

Olivia Pala Falavina é psicóloga, psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro filiado do Instituto Durval Marcondes da SBPSP.

 

 

 

Comissão Arns: direitos humanos sempre e sem retrocesso

* Laura Greenhalgh

Celebramos o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948-2018) em meio a muitas incertezas – como equacionar a crise imigratória que afeta tantos países e consome milhares vidas? Como diminuir a desigualdade no planeta? Como imaginar um futuro sustentável para as nossas crianças com a destruição irresponsável do meio-ambiente? São ameaças àquelas mesmas garantias de ¨liberdade e dignidade para todos¨, estabelecidas na Carta da ONU.

No Brasil, doses extras de ceticismo e preocupação. Numa sociedade bastante polarizada, onde a ideia de bem-estar social tem sido erodida pela voracidade do mercado com o beneplácito das classes dirigentes, falar em direitos humanos tornou-se convite para a retaliação. A desqualificação. A destruição do ¨outro¨. A violência. Não são poucos os que conjugam o bordão da intolerância: ¨direitos humanos só para humanos direitos¨.

Foi nesse contexto que um grupo de brasileiros de gerações, biografias e trajetórias distintas, mas cujo elo comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos, organizou-se para constituir a Comissão Arns, instalada oficialmente na manhã de 20 de fevereiro de 2019, em ato na Faculdade de Direito da USP.

Não se trata de uma comissão com filiação político-partidária. Nem antigovernista, por definição. Somos uma comissão suprapartidária que atua em rede com entidades na defesa dos direitos humanos. Olhamos para graves violações cometidas contra mulheres, crianças, adolescentes, negros, a população LGBT, os indígenas e outros grupos discriminados.

Muito há por fazer nessa vasta arena de conflitos. De saída, para que não haja retrocesso em marcos legais e institucionais firmados pelo Brasil quanto à proteção desses direitos. E para denunciar violações graves numa conjuntura de poder que propagandeia excentricidades via redes sociais, ocultando uma agenda de interesses ainda não tão visíveis, talvez inconfessáveis.

É nesse campo de atuação coletiva e cidadã que a Comissão Arns pretende atuar, tomando como inspiração o seu patrono, Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Acreditamos que Dom Paulo deve ser lembrado não só como o líder religioso de visão ecumênica que foi; mas, sobretudo, como o defensor incansável de todos aqueles que se encontram privados de direitos.

Laura Greenhalgh é jornalista e membro da Comissão Arns.

Foto: Anistia Internacional