Mês: abril 2019

“Ora direis- Interpretar”: Revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado

Audrey Setton Lopes de Souza

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,

enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto……

Olavo Bilac       

Algumas experiências clínicas nos confrontam com dificuldades no processo analítico nas quais as palavras se mostram insuficientes – tanto para os pacientes transmitirem o que precisam, quanto para o analista entender e comunicar a eles alguma forma de compreensão dessas experiências. É preciso encontrar outros modos de escuta e de interpretação.

A noção de interpretação, fundada a partir do trabalho com pacientes neuróticos adultos, apoia-se em certa concepção do funcionamento psíquico: devido ao recalcamento, apareceriam sintomas cuja função seria encobrir e disfarçar aquilo que foi perdido e que agora não pode mais ser conhecido, sob a ameaça de invasão pela angústia. Nesse modelo, a função primordial da interpretação seria tornar o sujeito mais capaz de reencontrar-se com o que foi perdido. A clínica atual nos coloca frequentemente diante de pacientes que demandam não um trabalho com o que foi perdido, mas com o que aparentemente nem chegou a existir, o não representado ou o irrepresentável.

Em “Construções em análise” (1937), Freud já chamava a atenção para a existência de experiências de natureza traumática que não podem ser evocadas pela lembrança e que demandam novas formas de intervenção. Diferentemente do trabalho interpretativo com pacientes neuróticos para os quais a análise opera na linha do “per levare”, estes pacientes necessitam de um trabalho de “per puore”. A questão que se coloca é sobre que tipo de inscrição adquirem estas experiências e como acessá-las em análise.

Como destacou Tanis (2018) “se o modelo freudiano inicial focava na pulsão e o desejo como forças motivadoras que animavam a vida psíquica ele se enriqueceu com a inclusão do objeto, seja no reconhecimento dos modelos identificatórios, das vicissitudes da trama edípica, na constituição das instancias ideais e nos processos de luto”. Ele chama a atenção para teorizações pós-freudianas que passam a introduzir o foco no objeto como elemento regulador das emoções mais arcaicas do infant: seja na perspectiva da revêrie do Bion, do holding de Winnicott ou de Lacan quando nos fala da alienação no desejo do outro. O que Tanis realça é que “tudo isso não deixou incólume o lugar do analista no devir de uma análise, passou a convocá-lo de novas maneiras e assim as formulações sobre contratransferência e o desejo do analista ganharam força ao mesmo tempo em que o analista intérprete cedia, mas sem renunciar a ele, espaço às outras formas de intervenção e presença, o que nos convoca a renovar a reflexão em torno da abstinência e da postura ética do analista” .

Autores como Botella e Botella (2002), Green (2003, 2008, 1993/2010), Marucco (2007), Ogden (2006) e Roussillon (1991/2005) chamam a atenção para os efeitos psíquicos dessas experiências traumáticas que não alcançam qualquer representação – e portanto não podem ser evocadas –, propondo reflexões sobre novas formas de intervenção.

Uma vivência será experimentada como traumática no momento em que o sistema de representações não consegue captá-la, dar sentido ou torná-la simbólica. Essa vivência, quando não transformada, torna-se excesso de energia causando uma fratura, um vazio na trama de representações trazendo novos desafios para a atividade psicanalítica.

Para Marucco (2007), o trabalho com esses pacientes nos coloca mais próximos do caldeirão do id e mais longe do inconsciente reprimido, que aparece como repetições irrepresentáveis, marcas que ele denomina trauma psíquico/pré-psíquico e que escapam a qualquer possível significação. Assim, a ideia de não representação e de aspectos cindidos do ego coloca novos objetivos para a psicanálise, pois são aspectos que o paciente não poderá relembrar, e sim viver pela primeira vez – experiências que não puderam ser abarcadas pelas representações e que trazem reflexos para a técnica psicanalítica. A insuficiência de simbolização, que implica o predomínio de manifestações através do corpo ou do ato, frequentemente confronta o enquadre analítico e seus recursos, como a clássica posição de neutralidade, o silêncio e a inatividade do analista, as regras do setting, etc.

A necessidade de o paciente vivenciar pela primeira vez os conteúdos cindidos significa uma participação diferente do analista. Seu funcionamento mental torna-se importante. É preciso ajudar o paciente a encontrar algo novo, um objeto analítico – que não é de um e não é de outro – que promova ligaduras com potencial transformador da realidade psíquica (Marucco, 2002, 2007).

A noção de trabalho do negativo, de André Green (1993/2010), também vai nessa direção: esse conceito implica a existência de algo mais do que a ausência, uma presença não presente, um registro apresentado pelo elemento psíquico inexistente, uma qualidade psíquica que se registra pelo negativo. Tal condição, de perda de sentido da representação interna, será considerada por Green como constituindo a representação interna do negativo; uma presença da ausência do objeto e da ausência de sentido, criando um buraco representacional e produzindo estados de esvaziamento e de falta de sentido.

Azevedo (2009) aponta que Green parte do conceito de negativo em Winnicott, condição considerada normal no desenvolvimento infantil, ligada a uma qualidade do funcionamento psíquico, que pode alcançar a noção de que tudo o que constitui o não eu (aquilo que não é possuído) é o negativo do eu. Essa condição depende da existência de um objeto transicional que perdure como vivo, apesar de ausente. A falha do objeto externo produz um estado de persecutoriedade intolerável e a morte desse frágil objeto interno; como resultado, haveria uma retirada de catexia do objeto que corresponderia ao que Green denomina de função des/objetivante e que atuaria como contrária à vida.

O que Green (2003) aponta é que tal identificação da vida pulsional com um objeto que jamais irá satisfazer o sujeito levaria a uma reivindicação de autonomia cuja meta seria atingir um estado de separação, independência e autossuficiência que se manifestaria na clínica como reações terapêuticas negativas e vivências de branco sem palavras, exigindo do analista uma maior tolerância a certo modo de atividade psíquica para poder desempenhar o papel de receptor de complementaridade e ser capaz de “apreender o que não se soube ou não se pode dizer e que se exprime, então, nas formas extraverbais” (Green, 2003, p. 481). Esses pacientes demonstram grande dificuldade para tolerar o enquadre clássico e exigem do analista certa margem de manobra.

“Nestas condições, o analista deve abster-se de deixar o paciente viver experiências que terminarão por revelarem-se mais esterilizantes que fecundas, com a análise tornando-se cronicamente traumática. É nestes casos em que aquilo que foi muito a propósito denominado de “presença” do analista, adquire pleno significado” (Green, 2008 pg 115.)

Roussillon (1991/2005) também observa que devemos localizar a raiz dessas dificuldades nas falhas das experiências iniciais mãe-bebê, na elaboração dos paradoxos da destrutividade ou do uso do objeto e do objeto transicional. As manifestações clínicas desses pacientes são reações à revivescência de experiências infantis marcadas pela ausência de respostas maternas e por certa desqualificação de suas necessidades. O lugar da “matriz original do fantasma” é então deixado vazio; as pacientes são confrontadas a um branco, representando a ausência de representações, vivido como uma profunda ferida narcísica. A angústia assim mobilizada só pode ser contida na urgência do adormecimento ou numa hiperatividade que mantém e evacua, ao mesmo tempo, a excitação não ligável. (p. 210)

Ele acrescenta que, assim como Winnicott propõe que devemos ensinar os pacientes a brincar, nessa clínica somos levados, nem sempre de forma consciente, a “presentear” (formular, pôr em forma) uma atividade comparada ao que Bion descreve como a capacidade de rêverie materna.

Roussillon (2007) aponta que com estes pacientes o “analista pode avançar apenas lentamente e segundo o afrouxamento progressivo das defesas, sendo obrigado a encontrar modos de presença e modalidades técnicas de intervenção, que asseguram uma presença ou mesmo um acompanhamento suficiente, mas à distância e sem comprometer a análise da configuração transferencial”.

Em suas teorizações, tanto Green quanto Roussillon destacam as contribuições de Bion na área do pensamento e não pensamento e do conhecimento negativo (Bion, 1959/1988a) e o conceito de identificação projetiva proposto por Klein (1946/1991).

Klein, no seu trabalho com crianças, também nos mostra que o analista defronta-se frequentemente com crianças com dificuldades  de simbolização apontando para os efeitos devastadores da identificação projetivas maciças  que geram uma escotomização da vida psíquica. Suas contribuições abriram caminhos para modificações técnicas que consideram a importância do papel do analista na função de acolher e significar estas identificações projetivas.

Ampliando as concepções de Klein, Bick (1991) destaca a importância das primeiras situações. Segundo ela,  anteriores à posição esquizoparanoide, para a possibilidade de construção de um objeto continente capaz de acolher as identificações projetivas. Cito aqui a descrição da Izelinda Barros deste processo “Antes da introjeção deste objeto continente, isto é, antes da constituição de um continente interno, e das possibilidades comunicativas oferecidas pela identificação projetiva, a segurança do bebê está depositada nas qualidades sensoriais do objeto materno e self e objeto são experimentados como superfícies sensíveis e contíguas. Nesta fase a dependência do objeto é absoluta; a separação é experimentada como a perda de partes do próprio corpo.”

Ela destaca que o bebê, no início de sua vida, graças ao uso da identificação projetiva e às qualidades de rêverie da mãe, vive uma ilusão de continuidade com ela e, portanto, não é confrontado com a realidade da separação. Por outro lado, repetidos descompassos afetivos na dupla trazem à luz, precocemente, a realidade de corpos e mentes separadas entre o bebê e sua mãe; provocam perturbações no desenvolvimento da pele psíquica e podem levar à constituição de uma “segunda pele” por meio da qual “ a dependência do objeto é substituída por uma pseudoindependência, pelo uso inapropriado de certas funções mentais, com o propósito de criar um substituto para esta função de pele continente” … Bick (op.cit. p197).

Devemos a Bion a apropriação do conceito de identificação projetiva e sua dimensão comunicativa, enfatizando a função de rêverie (Bion, 1962/1988b), primordial para o trabalho com o que Bion denominou  elementos beta: experiências sensoriais brutas e não processadas e que são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006).  É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

No trabalho com pacientes psicóticos, Bion questiona a função da interpretação introduzindo a ideia das funções alfa e beta, e da função de metabolização dos afetos; enfatiza, assim, a importância do objeto real (do analista real e da mãe real) nesse processo, colocando o analista na função de acolher e significar experiências. Sua concepção de função alfa evoca a função mental de transformar as impressões sensoriais brutas, denominadas elementos beta, em elementos alfa. A ideia de elementos beta também aponta para o irrepresentável, pois essas experiências sensoriais brutas e não processadas são incapazes de vincular-se umas às outras e, portanto, tornam-se impróprias para o pensar, o sonhar, ou mesmo para guardar como lembrança (Ogden, 2006). É a partir da transformação operada pela função alfa que essas experiências podem vincular-se e ser usadas para sonhar e pensar.

A função de rêverie (Bion, 1962/1988b) torna-se primordial para o trabalho com os elementos beta. Esse modelo de interação não verbal, característico da relação mãe-bebê, põe o analista no lugar daquele que exerce a função de acolher e transformar as experiências não digeridas de seus pacientes, num trabalho muitas vezes para além das palavras.

Os autores citados se propuseram a pensar a clínica dos pacientes-limite, o campo dos pacientes psicossomáticos, borderline, da angústia do vazio e das dificuldades de simbolização. Nesses casos, o analista é convocado a trabalhar para preencher o vazio, suprimindo o vazio imaginativo do paciente e a ausência simbólica da elaboração psíquica que este foi incapaz de realizar. Eles ressaltam como o analista é, de alguma forma, levado a desenhar imagens que correspondam à vida mental do paciente, ajustando suas possibilidades simbólicas às do paciente.

Na construção de uma história analítica, buscamos desenvolver, dentro da relação, um aparato psíquico capaz de pensar e transformar as experiências emocionais vividas pelos dois membros do par e o que introduz a consideração da disponibilidade analítica para suportar as rupturas do enquadre clássico, utilizando-se de sua capacidade de sonhar.

É necessário conceber a análise como um campo de construção de um objeto continente, que possibilite oferecer a experiência de reconhecimento e de esperança que não pôde ser encontrada na relação com os objetos iniciais.

Com estes pacientes, é necessário rever o conceito de interpretação para além do tornar consciente o inconsciente, abandonar o lugar ascético do analista decifrador de enigmas e encontrar novas formas de intervenção para poder alcançar a experiência em curso.(Souza,2016) Do ponto de vista da experiência como analista, torna-se evidente que não se trata de observar e interpretar o que se passa; é necessário viver e sobreviver ao intenso campo emocional que se forma, acolhendo-o com nossa capacidade de rêverie e ajudando nesse processo de sonhar os sonhos não sonhados.

Bibliografia

Azevedo, A. M. A. (2009). Por que Green? Psicanálise: Revista da SBPdePA, 11(2), 233-244.

Barros, I.G. (2013) Os primórdios da estruturação psíquica como se apresentam na clínica. Revista de Psicanálise de Ribeirão Preto- Bergasse 19; vol. IV nº 1

Bick, E. (1991). A experiência da pele em relações de objeto arcaicas. In E. B. Spillius (Ed.), Melanie Klein Hoje (B. H. Mandelbaum, Trad., pp. 194-198). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1967)

Bion, W. R. (1988a). Ataques ao elo de ligação. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 87-100). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1959)

Bion, W. R. (1988b). Uma teoria sobre o processo de pensar. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. de M. Dantas, Trad., pp. 101-109). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1962)

Botella, C. & Botella, S. (2002). Irrepresentável: mais além da representação (M. E. Schneider, P. Ramos & V. Dresch, Trads.). Porto Alegre: Criação Humana; Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.

Ferro, A. (1998). Na sala de análise: emoções, relatos e transformações (M. Justum, Trad.). Rio de Janeiro: Imago.

Green, A. (2003). A crise do entendimento psicanalítico. In A. Green (Org.), Psicanálise contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise, número especial, 2001 (A. Cabral et al., Trads., pp. 477-491). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2008). Orientações para uma psicanálise contemporânea (A. M. R. Rivarola et al., Trads.). Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: SBPSP.

Green, A. (2010). O trabalho do negativo (F. Murad, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1993)

Klein, M. (1991). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In M. Klein, Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963) (B. H. Mandelbaum et al., Trads., pp. 17-43). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1946)

Klein, M. (1996). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945) (A. Cardoso, Trad., pp. 385-412). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1940)

Marucco, N. (2002). De ayer a hoy, de nosotros a los pioneros: qué escuchamos y cómo intervenimos. Trabalho apresentado na Associação Psicanalítica Argentina.

Marucco, N. (2007). Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, 41(1), 121-136.

Ogden, T. (2006). Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e choros interrompidos. In Livro Anual de Psicanálise (Vol. 20, pp. 173-189). São Paulo: Escuta.

Roussillon, R. (2005). Paradoxos e situações limites da psicanálise (P. Neves, Trad.). São Leopoldo: Unisinos. (Trabalho original publicado em 1991)

Souza, A.L.S. (2016). Construindo formas de comunicação: revendo o conceito de interpretação na clínica do não representado.  Revista Brasileira de Psicanálise, 50(3), 60-75.

Tanis, B. (2017)- Psicanálise e suas clínicas- Plenária Simpósio Bienal- O mesmo e o outro in http://pdf.blucher.com.br.s3-sa-east-1.amazonaws.com/socialsciencesproceedings/isbsbpsp/28.pdf

 

Audrey Setton Lopes de Souza é psicanalista, Membro efetivo da SBPSP; Professora Doutora do IPUSP- SP e Professora do Departamento de psicanálise da criança DO sedes. asetton@uol.com.br

 

 

Notas Sobre o Tédio

Vera Lamanno-Adamo*                         

No texto Luto e Melancolia, Freud (1915) introduz o termo melancolia como uma forma patológica do luto. Para ele, no trabalho de luto, o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido. Na melancolia, ao contrário, o sujeito se supõe culpado pela morte acontecida, nega-se e se julga possuído pelo morto ou pela doença que acarretou sua morte. O eu se identifica com o objeto perdido, a ponto dele mesmo se perder no desespero infinito de um nada irremediável.

A identificação do eu com o objeto perdido acaba gerando apatia, torpor e ausência de sentido à existência, assim como ocorre com um eu dominado pelo tédio. No entanto, no tédio não encontramos lamentos, incriminalização e culpabilização.

O tédio diz respeito à perda do significado pessoal diante da vida, do mundo e da realidade: resulta desta perda sentimentos de vazio, desânimo, falta de vontade de realizar atividades rotineiras e desinteresse pela realidade vivida.

Sob o domínio do tédio, o eu se vê esvaziado de significado pessoal à existência. O tédio revela o tempo que nos arrasta para um mundo desprovido de significação e esvaziado de sentido.  

Vou me valer do segundo episódio da primeira temporada do seriado Black Mirror, intitulado Fifteen Million Merits, para ilustrar a vida e relações de indivíduos sob a égide do tédio.

Quinze Milhões de Méritos

Ambientado em um futuro high-tech, o episódio traz como protagonista o jovem Bing (Daniel Kaluuya), apenas mais um entre milhões de indivíduos autômatos que habitam uma colônia onde nada fazem além de pedalar em bicicletas geradoras de energia.

Energia consumida pela sociedade e pelos próprios “pedaladores”.

A única maneira de se distrair é assistindo a infindáveis programas de TV ou adquirindo novos aplicativos para serem utilizados em seus avatares.

Quanto mais pedalam mais merits conseguem em troca. Todos brigam para ter mais merits, para assim terem a chance de dar um upgrade em seus avatares, comprar aplicativos diferentes e também para ignorar anúncios que aparecem a qualquer momento em seus quartos.

O contato interpessoal é praticamente nulo.

Um dia, chega ao local a bela Abi (Jessica Brown Findlay) que, de imediato, chama a atenção de Bing. Ele se sente atraído por ela, mas não chega a conversar, até o dia em que ele a ouve cantar e fica impressionado com sua voz. Então, cria coragem e vai ao seu encontro.

Bing estimula Abi a participar do show de calouros para que mostre seu talento, mas ela não tem merits o suficiente para comprar sua participação. Ele oferece os seus a ela, dando-lhe de presente quinze mil merits.

Ser bem-sucedido em um reality show é a única maneira de sair da colônia, ou seja, parar de pedalar para gerar energia e morar em um quarto maior e mais bem equipado com black mirrors.

Abi consegue ir ao show de talentos, o programa de calouros Hot Shots, que faz lembrar os realities American Idol ou The Voice. Após uma brilhante apresentação, os jurados dizem sarcasticamente que, embora seja muito bonita e capaz de gerar pensamentos maliciosos, sua voz é mediana.

Propõem que ela trabalhe no canal erótico ou volte para a colônia. Ela decide aceitar, já que não sabe se terá outra oportunidade de sair de lá um dia.

Bing fica inconformado com o destino de Abi e começa a trabalhar na bicicleta para reduzir seus gastos e também conseguir ir ao show de calouros. Faz inicialmente uma apresentação de dança e então, aos berros, saca um pedaço de vidro que conseguiu quando quebrou uma das telas de LCD de seu quarto, após um ataque de raiva. Frente ao jurado e à plateia, Bing ameaça se cortar caso não o escutem.

Após discursar de forma incisiva e forte sobre a falta de intimidade, privacidade e a vida controlada da colônia, os jurados oferecem um programa só para ele em um canal da colônia.

Bing se torna uma espécie de herói que expõe críticas sobre o sistema, sempre com o pedaço de vidro nas mãos. Mas o seu discurso, programa após programa, a sua fala estridente e violenta torna-se uma performance.  Não promove reflexão e pensamento. Uma espécie de válvula de escape para a colônia.

Está assim instituído um campo fértil para a proliferação do tédio e de ferramentas poderosas para se livrar dele: extremismo e excitabilidade.

Numa cultura determinada por pura funcionalidade e eficiência, o tédio dominará porque a qualidade do mundo desaparece na visibilidade extrema que tudo engloba. Numa cultura assim, experimentos com sexo e drogas – ou fugas para o nevoeiro de uma nova religião – parecerão tentadores, porque parecem oferecer uma maneira de escapar de uma vida cotidiana penosamente entediante e de descobrir novos horizontes bem mais excitantes. O triste é que esses excessos nunca conseguem satisfazer o anseio de que se originaram (Svendsen, 1999, p.96).

Quinze milhões de Méritos evidencia uma ética contrária à reflexão em um mundo povoado por “pedaladores”. Resulta daí, relações estáticas e estereotipadas que não promovem experiências significativas, gerando cada vez mais esgotamento dos sentidos e indiferença perante a vida.

No entanto, o tédio não é em si um sinal de psicopatologia.

O tédio é um fenômeno tipicamente humano que carrega em seu bojo a noção de subjetividade enquanto manifestação da consciência de si, demandando sentido à vida e significado pessoal à existência.  

Frente à sensação de vacuidade, o tédio estimula a busca de sentido e significado à existência.

Reconhecer o tédio como uma presença não necessariamente insuportável possibilita que o transformemos em fonte de sentido para a vida. Ao tentar anulá-lo a qualquer custo, corre-se o risco de uma existência insignificante, povoada por extremismo e excitabilidade.

Gradativa e penosamente, o tédio pode ser suportado e em função disso ocorrer um reinvestimento no seu par antitético: a curiosidade.

Curiosidade que nos move em busca de conhecer o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos, para dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

 

Referência

Freud, S. (1915) Luto e Melancolia. Standard Edition XIV. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lamanno-Adamo, V. L. C. (2017) Tédio, luto e melancolia. Rev. Bras. Psicanal. vol.51, n. 3 (p.79-90).

Svendsen, L. (1999) Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 

Vera Lamanno-Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do GEPCampinas e da SBPSP.

Memórias coloniais

*Olívia Falavina

O livro “Caderno de Memórias Coloniais” da moçambicana Isabela Figueiredo discorre sobre lembranças e acontecimentos ocorridos na Maputo de 1960, durante o processo de descolonização. Filha de pais portugueses que migraram para a África, a autora disseca, em formato de um diário autoficcional, as relações racistas entre europeus e africanos, sob o olhar perturbador e investigativo da criança que era na época. Descrevendo essas tensas e intensas vivências, a garota permanece na cidade até os doze anos, quando é enviada sozinha e repentinamente para Lisboa durante a turbulenta independência de Moçambique. A violência normatizada da convivência cotidiana transparece no fato de que nenhum negro poderia jamais encostar em um branco ou olhá-lo diretamente nos olhos, ou ainda, de que deveria sempre manter uma postura curvada diante de um colonizador. Crianças brancas e negras do mesmo modo não se misturavam – as primeiras têm calçados, brincam trancafiadas em casa e vestem rendas alvas lusitanas, já as segundas vagam soltas, esfarrapadas, à procura de comida e pequenos serviços gerais. Universos intransponíveis, exceto pelas grades que os separam.

“Eu e eles não falávamos a mesma língua. Apenas umas palavras soltas. Olhava-os muito, e eles a mim. Por exemplo, neste momento estou a olhá-los através do tempo, e há uma perplexidade nos seus olhos, um vazio, uma fome, e nos meus uma impotência, uma incompreensão que nenhuma razão poderá explicar.”(Figueiredo, p. 167, 2018)

O ambiente infantil da autora-criança é moldado pelas marcas escravagistas ainda presentes, que ditavam o cenário micropolítico doméstico. Seus registros são um acerto de contas com suas origens, a matriz portuguesa e seu pai, cuja ternura e violência eram imiscuídas na intimidade do lar. O que ouvimos no decorrer do diário é a combinação singular de suas vozes infantil e adulta, provocando uma imersão no leitor em toda a ambiguidade dos afetos humanos. Quem nos escreve é uma menina crescida. Lugar duplo e paradoxal devido também a sua condição de retornada[1], a exilada africana que regressa à pátria sem nunca ter estado lá.

Por meio de memórias sensoriais, conhecemos sua Maputo do solo vermelho e seco, vemos as cores exuberantes e sensuais das roupas femininas, derretemos com o calor escaldante e provamos a inflamante aguardente de cajú. Na geografia da cidade e das pessoas, bem delimitada pela disposição precisa dos corpos negros e brancos nos espaços públicos e privados, a cisão é desde o começo condição e ferramenta fundamental de sobrevivência.

Há uma passagem comovente no diário em que a autora-criança seleciona as mais suculentas mangas de seu quintal e vai para a frente de sua casa vendê-las, atividade reservada exclusivamente às mulheres negras. Essa brincadeira subversiva ganha tons ainda mais interessantes quando descobrimos que o preço das mangas é bastante inferior ao das próprias negras. Ela se coloca, portanto, a ser “explorada”. Em sua brincadeira consegue uma proeza, reunir em si mesma por um momento a culpada colona branca e a aphartada africana negra. A comunhão desses papéis talvez não fosse possível em nenhuma outra circunstância. Ao brincar, torna-se a rapariga de cachos loiros e pele negra. E ri, se diverte e se sente livre por agora estar finalmente na rua, descalça, onde sempre quis estar: do outro lado da grade.

Sua brincadeira pôde, ao menos em fantasia, fazer uma ponte entre mundos antagônicos. Identificações paradoxais, como as de opressor e oprimido, se justapõem e convergem simultaneamente no ato lúdico simbolizante. Em uma tentativa infantil de atravessar abismos vemos em curso uma incipiente elaboração de traumas sociais e íntimos aos quais se encontrava exposta.

Esta contundente obra literária contribui para pensarmos sobre a miséria psíquica daquele que perpetua a violência, pois é também assolado pela cisão que constitui o fenômeno. Este se revela pela incapacidade do indivíduo constituir-se como si mesmo a não ser pela exclusão do outro e de sua fabricação complementar como um inimigo. Se o sofrimento dos colonizadores não é (e não deve ser) comparável ao das vítimas que padecem dos efeitos devastadores do racismo, ele, entretanto, nos aponta novamente como perdemos todos com a barbárie.

Os paralelos com nosso país, e com as outras antigas colônias, são inevitáveis. Moçambique é aqui e agora. Talvez possamos, assim como a autora menina, com suas mangas e cadernos, buscar meios próprios para tratar de nossas cicatrizes. Resta a esperança de que o brincar e a cultura possam continuar sendo meio de expressão e reparação de dores, as da nossa história pessoal e coletiva.

[1]          Como são chamados os filhos de portugueses que regressaram à pátria nos anos 1970.

 

Referências Bibliográficas:

FIGUEIREDO, I. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 1a ed., 2018.

 

Olivia Pala Falavina é psicóloga, psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro filiado do Instituto Durval Marcondes da SBPSP.

 

 

 

Comissão Arns: direitos humanos sempre e sem retrocesso

* Laura Greenhalgh

Celebramos o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948-2018) em meio a muitas incertezas – como equacionar a crise imigratória que afeta tantos países e consome milhares vidas? Como diminuir a desigualdade no planeta? Como imaginar um futuro sustentável para as nossas crianças com a destruição irresponsável do meio-ambiente? São ameaças àquelas mesmas garantias de ¨liberdade e dignidade para todos¨, estabelecidas na Carta da ONU.

No Brasil, doses extras de ceticismo e preocupação. Numa sociedade bastante polarizada, onde a ideia de bem-estar social tem sido erodida pela voracidade do mercado com o beneplácito das classes dirigentes, falar em direitos humanos tornou-se convite para a retaliação. A desqualificação. A destruição do ¨outro¨. A violência. Não são poucos os que conjugam o bordão da intolerância: ¨direitos humanos só para humanos direitos¨.

Foi nesse contexto que um grupo de brasileiros de gerações, biografias e trajetórias distintas, mas cujo elo comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos, organizou-se para constituir a Comissão Arns, instalada oficialmente na manhã de 20 de fevereiro de 2019, em ato na Faculdade de Direito da USP.

Não se trata de uma comissão com filiação político-partidária. Nem antigovernista, por definição. Somos uma comissão suprapartidária que atua em rede com entidades na defesa dos direitos humanos. Olhamos para graves violações cometidas contra mulheres, crianças, adolescentes, negros, a população LGBT, os indígenas e outros grupos discriminados.

Muito há por fazer nessa vasta arena de conflitos. De saída, para que não haja retrocesso em marcos legais e institucionais firmados pelo Brasil quanto à proteção desses direitos. E para denunciar violações graves numa conjuntura de poder que propagandeia excentricidades via redes sociais, ocultando uma agenda de interesses ainda não tão visíveis, talvez inconfessáveis.

É nesse campo de atuação coletiva e cidadã que a Comissão Arns pretende atuar, tomando como inspiração o seu patrono, Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Acreditamos que Dom Paulo deve ser lembrado não só como o líder religioso de visão ecumênica que foi; mas, sobretudo, como o defensor incansável de todos aqueles que se encontram privados de direitos.

Laura Greenhalgh é jornalista e membro da Comissão Arns.

Foto: Anistia Internacional