Uma crônica com veias psicanalíticas. Se não houver lamparina, escuridão. Se houver lamparina, o romance (compreensões sobre a vida subjetiva).

* Carla Oléa

A pequena Ana que completava naquele dia 6 anos chegara da escola.

A mãe à mesa do almoço aguardava os filhos para compartilharem a refeição.

A menina entrou pela porta e avistou a mãe, na mornidão do meio-dia, mergulhando vagarosamente a concha na tigela de feijão fumegante e caseiro.

A pequena trazia o olhar perdido e apressado – aquele que aguarda ser resgatado.

Caminhou por cima de passos firmes até a mãe e, impaciente, entregou-lhe um cartão.

A mãe tomou-o nas mãos e logo reconheceu que se tratava de um presente oferecido pela escola, no qual os colegas haviam escrito mensagens de aniversário à pequena menina.

Ana – entre aflita e envergonhada – tentava adentrar a bruma que se formara e se assegurar no olhar da mãe.

Lívida e aspirada num vácuo, onde não mora pensamento, a mãe deparou-se com uma imagem surpreendente.

A menina havia riscado o cartão à tinta de piche.

Cobriu cada mensagem com a aspereza de quem estava acompanhada pelos ciclopes.

Um detalhe chamou a atenção – o nome de uma das crianças que era o mesmo da mãe, havia sido preservado.

A mãe hesitante perguntou à Ana:

– Por que você fez isso?

A pequena, ainda analfabeta da linguagem íntima e subjetiva, respondeu o que lhe foi possível:

– Porque sim!

– Mas você riscou o cartão na frente dos seus colegas? – questionou a mãe.

– Sim, eu risquei.

A mãe, zelosa timoneira, convicta de sua função em conduzir a nau para um bom destino seguiu apreensiva e se aviou em corrigir a filha.

– Ana, você não pode agir assim. Você precisa ser grata. Precisa aprender a receber.

Fez-se noite.

A mãe repousou a cabeça no travesseiro que, naquela comprida noite, ainda era pedra.

Perguntou-se o que teria ocorrido? O que dera errado? Não estaria conseguindo levar sua pequena menina à construção de uma capacidade para relacionar-se?

Fizeram-se muitas noites.

Ao lado da cama, no criado mudo que herdou da avó, morava uma lamparina.

Havia luz.

À noite, enquanto a mãe dormia entre pedras, a lamparina acendia sua luz tênue, permanecia acesa durante a longa noite e se apagava antes do sol despertar.

A mãe não lhe suspeitava a presença, porém, certo dia, ao abrir os olhos um pensamento a acolheu.

Ela, então, compreendeu algo da pequena Ana.

Ela disse à filha:

– Sabe aquele dia em que era seu aniversário e que você recebeu um lindo cartão das crianças da sua sala e, furiosa, riscou as mensagens e o entregou a mim?

Então, eu lhe expliquei que aquela não era uma maneira afetuosa de retribuir. Disse-lhe que foi uma atitude descuidada. Mas eu entendi algo mais profundo no meu coração e quero dizer-te.

– Você está sentindo uma força aí dentro, uma vontade de fazer amigos, uma vontade de encantar-se com outras pessoas que não só sua mamãe.

– E isso dá medo.

– Isso dá culpa.

– Você teme que isso te separe de mim.

– Teme me fazer mal.

– Mas eu quero te dizer algo.

– Você pode gostar de outras pessoas. E pode querer estar perto delas. Pode querer viver momentos bons e que não sejam comigo.

– E isso é bom. Isso é bonito em você .

– E nós continuaremos assim de mãos dadas.

– No coração da mamãe também vivem muitos amores. Mas há nele um lugar que é só seu.

A pequena menina compreendeu.

Ela se juntou – como acontece ao pequeno pinguim personagem da autora e ilustradora alemã Jutta Bauer no imperdível livro ilustrado “Mamãe zangada”.

Alumiou-se a escuridão.

A escuridão que é grávida de certezas, verdades incontestes, entendimentos lógicos, mas que mantém a vivência órfã de compreensão emocional.

Conheci essa mãe. Ela trazia consigo a lamparina psicanalítica.

Capaz de suportar a escassez de respostas, permanecer envolta em dúvidas, deitar-se sobre pedra e mergulhar na escuridão. Ela era socorrida por essa função dentro da mente capaz de aclarar as profundezas e trazer de lá o que faz sentido.

Se um artista houvesse se sentado à mesa de almoço – e essa cena o incomodasse, o convocasse, o arremessasse para a arte –, ele poderia tê-la registrado em imagens, em música, em poesia, em literatura, em escultura.

Sua lamparina alumbraria a vivência e ele (a) reproduziria na arte: a pequena menina angustiada e afogada pelo conflitivo desejo de querer além da mãe.

Ilustrações do livro “Mamãe zangada”, de Jutta Bauer

Dizia Winnicott sobre as descobertas psicanalíticas:

“Naturalmente, se o que digo tem em si verdade, esta já terá sido tratada pelos poetas do mundo, mas os clarões de insight, que surgem na poesia, não podem absolver-nos de proceder à penosa tarefa de nos afastar passo a passo da ignorância, em direção ao nosso objetivo”. (in o Medo do Colapso – 1963)

O fato substancial é que essa experiência poderia ter se perdido na escuridão da razão. Desafortunadamente, nesse caso, o entendimento estaria a quilômetros daquilo que de fato pulsava no âmago da experiência. Ao invés de ser um ato recepcionado nas searas do acolhimento, teria, entrementes, sido transformado num acontecimento insólito e barulhento. Nada mais.

Ao abeiramento da lamparina, não obstante, constituiu-se o romance.

Carla Oléa é psicóloga e escritora. Gerencia um blog literário que contém coletânea própria de ensaios, crônicas e poemas. É mestre em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp – Campus Assis – SP) e membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Bibliografia:

  1. O medo do colapso in Explorações Psicanalíticas. Donald Winnicott. Artes Médicas.1994
  2. Mamãe zangada. Jutta Bauer. Ed. Cosace Naify. 2008.

Imagens:

  1. La Petite Châtelaine 1892-1896. Camille Claudel. Musée Joseph-Denais.

A escultura é referente a uma fase do trabalho de Claudel em que se evidencia a criança surpreendida pelo desconhecido.

  1. Montagem com ilustrações do livro Mamãe zangada, de Jutta Bauer.

2 comentários

  1. Muito delicado o texto. Permitir a liberdade do amor é um grande passo dentro da mente materna. Reconhecer as angústias das crianças é liberta – las pra vida! Parabéns pelo texto!

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