Mês: março 2019

As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade

Em entrevista ao Nexo Jornal, Bernardo Tanis, psicanalista e presidente da SBPSP, faz uma análise sobre os fenômenos de violência e as tragédias que acometem o Brasil e o mundo, bem como o longo caminho de reconstrução das comunidades após tais acontecimentos.

“O luto deve ser uma ação coletiva: a sociedade precisa digerir o que aconteceu, elaborar alternativas e se reerguer coletivamente […] Isto diz respeito ao Brasil: precisamos reconstruir o mínimo de confiança no coletivo. A ausência desse elo é muitas vezes explorada por extremistas”.

Confira:

As marcas de um massacre. E o sentido de comunidade 

Para Bernardo Tanis, atentados como o de Suzano podem abalar a confiança no coletivo e abrir uma brecha explorada por extremistas, provocando mais atos de violência

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2019/03/15/As-marcas-de-um-massacre.-E-o-sentido-de-comunidade

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

 

 

Revisitando Adão e Eva

* Susana Muszkat

Um dos principais mitos constitutivos da cultura ocidental, repetido sem qualquer constrangimento ou questionamento, é o de Adão e Eva. Adão, idealizado e produzido por ninguém menos do que Deus, é criado à sua imagem e semelhança! Para apaziguar seu tédio solitário, de um pedaço de sua costela – região sem qualquer nobreza especial – é feita Eva, com quem, então, inaugura a espécie humana.

É notável tal versão inaugural da humanidade, na qual uma inversão absolutamente naturalizada retira da mulher sua condição de quem gesta e pare sujeitos, e torna-a um ser gerada do e feita para o homem.

Que consequências subjetivantes terá esse mito fundante exercido em nossa cultura? Ou será que a própria construção do mito é reveladora dos desejos e lugares atribuídos a uns e outros?

À mulher caberia estar a serviço do homem? Seria uma categoria humana secundária à masculina? Ou o mito apontaria, ainda, para outra inversão – esta, podemos dizer, de cunho reparador: a de que o homem fálico e autossuficiente não se sustenta, sendo a introdução da mulher em sua vida não a prova do poder de Deus a serviço do gozo masculino, mas sim a constatação da fragilidade humana e sua dependência de um outro para sobreviver e criar descendentes? Enfim, teria nosso mito civilizatório comprometido gravemente a condição mesma de civilidade, ou seria sua formulação o indicador dessa impossibilidade?

Freud, ainda distante do atual debate de gênero, mas, não neguemos, já trazendo subsídios, refere, no artigo “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna” (1908), um filósofo e psicólogo de nome Von Ehrenfels. Cito-o: “Não é arriscado supor que sob o regime de uma moral sexual civilizada, a saúde e a eficiência dos indivíduos esteja sujeita a danos, e que tais prejuízos causados pelos sacrifícios que lhes são exigidos terminem por atingir um grau tão elevado, que indiretamente ‘cheguem a colocar também em perigo os objetivos culturais’”. E mais adiante, “No entanto, ‘as diferenças naturais entre os sexos’ impõem sanções menos severas às transgressões masculinas, tornando mesmo necessário admitir uma moral ‘dupla’”.

Qual será essa dupla moral sexual em que o desejo de poder (fantasia de antídoto contra o desamparo e impotência) autoriza uns à objetalização e/ou desqualificação de outros, transformando-nos todos em qualquer coisa menos civilizados?

Durante mais de dez anos trabalhando numa ONG cujo objetivo era a reflexão sobre lugares e papéis de gênero, coordenei grupos de discussão de homens envolvidos em algum tipo de violência praticada contra mulheres. Tais atribuições de lugares e papéis têm, como consequência, que muitas das violências praticadas no âmbito familiar se mantenham e/ou justifiquem, sustentadas nessas mesmas atribuições, ganhando caráter normativo. Ou seja, a construção das identidades de gênero, no mais das vezes, está ligada à ideologia predominante vigente num determinado grupo social, e diretamente relacionadas aos preconceitos, definindo como se deve ser naquele grupo particular. Essas ideias, não nos deixemos enganar, são partilhadas e perpetuadas tanto por homens quanto por mulheres, adquirindo força controladora e aprisionadora dos sujeitos.

Podemos pensar que a perpetuação da dupla moral, que é expressa na disputa pela manutenção de lugares de poder, seja a manifestação disfarçada do temor ao desamparo e à impotência. A eterna busca de completude narcísica às custas de um outro, feito de bode expiatório.

Respostas violentas de homens em relação às suas companheiras, assim como contra gays, trans e todas as identidades não-heteronormativas, apontam para valores vigentes em nossa cultura, em que o sentimento de humilhação, para muitos, não pode ser admitido como algo do universo masculino. A resposta violenta visa o resgate imaginado da autoestima por meio de uma demonstração de poder sobre a mulher, condição entendida como essencial e natural para a manutenção da virilidade dentro do sistema de valores predominante em nossa cultura.

Venho afirmando há alguns anos que, inversamente ao que possa parecer, a necessidade de manutenção de dominação e de poderes fixos constituídos não representa uma condição de poder; pelo contrário, revela a falta do mesmo. Em trabalho anterior, cunhei a expressão “desamparo identitário” para definir um tipo de violência que é praticada não como resultado de sentimento de força e poder de um sobre o outro, mas em função de um sentimento muito desnorteador de precariedade pessoal, de fracasso, de perda de identidade. Assim, o ato violento visa, de forma efêmera e enganosa evidentemente, recuperar o sentimento de virilidade, definido por qualificadores como força, poder e superioridade, que, por sua vez, são traduzidos como elementos definidores da masculinidade. Trocando em miúdos, alguém cuja única fonte garantidora de autoestima é sua posição de superioridade em relação a um outro precisa acreditar que esse outro tenha menos, ou nenhum valor. Dentro da cultura predominante de masculinidade hegemônica, essa crença pode ser sustentada sem muito questionamento… até recentemente, pelo menos. Isso vem mudando!

Há um outro tipo de violência, praticada de maneira mais prevalente por homens, que se confunde ao pensar-se “autorizada” pela cultura de masculinidade hegemônica: a violência perversa.

Proponho aqui minha leitura sobre esse fenômeno: o primeiro objeto de amor do bebê é, via de regra, a mãe. Mas o que chamamos de amor nessa fase da vida não é exatamente o tipo de relação amorosa que conhecemos quando nos tornamos adultos. O bebezinho não percebe que sua mãe é outra pessoa, diferente dele. Sente, isto sim, que a mãe é um objeto de sua propriedade, sua extensão, que está onde ele o deseja, como já teorizado pelo psicanalista inglês, de bebês e crianças, Donald Winnicott.

A “mãe suficientemente boa”, expressão cunhada por ele, presta-se a ser esse objeto que atende às demandas do bebê. Trata-se de um estado de ilusão necessária na vida precoce do bebê. À medida que cresce, se tudo se der de maneira satisfatória em seu desenvolvimento, a criança, e depois o adulto, deve ser capaz de entender que aquela pessoa, sua mãe, é um sujeito diferente dele, com desejos e mente próprios. Entendendo isso, ele deverá, então, ser capaz de tolerar a frustração de abdicar da mãe como um objeto que lhe pertence, depois como objeto de amor propriamente dito e, finalmente, escolher outra pessoa, um/a companheiro/a, com quem poderá ter uma relação de trocas e parceria amorosa.

Desse modo, se na infância precoce de todo ser humano é natural e desejável que a mãe se preste a ser objeto do desejo do bebê, na vida adulta a perpetuação desse tipo de comportamento configura perversão. Perversão é o ato de transformar outra pessoa, com singularidade própria, em objeto de uso de prazer pessoal, sem o consentimento dela. Ao fazer isso, a pessoa é destituída de sua condição de sujeito e tratada como objeto. Esse é exatamente o caso de todos os atos onde mulheres, meninas ou qualquer pessoa em desigualdade de poderes são colocados em situação de objeto, a serviço do desejo exclusivo de alguém, sem que sua condição de sujeito de direito e mente própria seja reconhecido.

Ainda, o modelo de sociedade patriarcal, que autoriza o homem a funcionar regido pela pulsão infantil – embora travestido de adulto –, sustenta e mantém esse código perverso de violência endêmica contra mulheres. Ou seja, leva o homem adulto a confundir-se e acreditar que a mulher – representante da mãe arcaica, aquela mãe da primeira infância – lhe pertence.

Ainda, em tempo: vale ressaltar a brutal defasagem dos lugares atribuídos a homens e mulheres no imaginário cultural, que não correspondem às práticas sociais de fato. Estatísticas revelam que metade da força de trabalho do país é composta por mulheres, sendo elas mesmas as responsáveis exclusivas pelo sustento de quase metade das famílias brasileiras.

É imprescindível que revisitemos e debatamos o mito de Adão e Eva!

Susana Muszkat é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

CRÉDITO: Parte do dossiê “Cartografias da masculinidade”, este texto foi publicado na edição 242 da Revista CULT, em Fevereiro de 2019. A edição impressa está disponível para compra na loja online da revista: https://www.cultloja.com.br/produto/masculinidade-cult-242/.

 

Uma crônica com veias psicanalíticas. Se não houver lamparina, escuridão. Se houver lamparina, o romance (compreensões sobre a vida subjetiva).

* Carla Oléa

A pequena Ana que completava naquele dia 6 anos chegara da escola.

A mãe à mesa do almoço aguardava os filhos para compartilharem a refeição.

A menina entrou pela porta e avistou a mãe, na mornidão do meio-dia, mergulhando vagarosamente a concha na tigela de feijão fumegante e caseiro.

A pequena trazia o olhar perdido e apressado – aquele que aguarda ser resgatado.

Caminhou por cima de passos firmes até a mãe e, impaciente, entregou-lhe um cartão.

A mãe tomou-o nas mãos e logo reconheceu que se tratava de um presente oferecido pela escola, no qual os colegas haviam escrito mensagens de aniversário à pequena menina.

Ana – entre aflita e envergonhada – tentava adentrar a bruma que se formara e se assegurar no olhar da mãe.

Lívida e aspirada num vácuo, onde não mora pensamento, a mãe deparou-se com uma imagem surpreendente.

A menina havia riscado o cartão à tinta de piche.

Cobriu cada mensagem com a aspereza de quem estava acompanhada pelos ciclopes.

Um detalhe chamou a atenção – o nome de uma das crianças que era o mesmo da mãe, havia sido preservado.

A mãe hesitante perguntou à Ana:

– Por que você fez isso?

A pequena, ainda analfabeta da linguagem íntima e subjetiva, respondeu o que lhe foi possível:

– Porque sim!

– Mas você riscou o cartão na frente dos seus colegas? – questionou a mãe.

– Sim, eu risquei.

A mãe, zelosa timoneira, convicta de sua função em conduzir a nau para um bom destino seguiu apreensiva e se aviou em corrigir a filha.

– Ana, você não pode agir assim. Você precisa ser grata. Precisa aprender a receber.

Fez-se noite.

A mãe repousou a cabeça no travesseiro que, naquela comprida noite, ainda era pedra.

Perguntou-se o que teria ocorrido? O que dera errado? Não estaria conseguindo levar sua pequena menina à construção de uma capacidade para relacionar-se?

Fizeram-se muitas noites.

Ao lado da cama, no criado mudo que herdou da avó, morava uma lamparina.

Havia luz.

À noite, enquanto a mãe dormia entre pedras, a lamparina acendia sua luz tênue, permanecia acesa durante a longa noite e se apagava antes do sol despertar.

A mãe não lhe suspeitava a presença, porém, certo dia, ao abrir os olhos um pensamento a acolheu.

Ela, então, compreendeu algo da pequena Ana.

Ela disse à filha:

– Sabe aquele dia em que era seu aniversário e que você recebeu um lindo cartão das crianças da sua sala e, furiosa, riscou as mensagens e o entregou a mim?

Então, eu lhe expliquei que aquela não era uma maneira afetuosa de retribuir. Disse-lhe que foi uma atitude descuidada. Mas eu entendi algo mais profundo no meu coração e quero dizer-te.

– Você está sentindo uma força aí dentro, uma vontade de fazer amigos, uma vontade de encantar-se com outras pessoas que não só sua mamãe.

– E isso dá medo.

– Isso dá culpa.

– Você teme que isso te separe de mim.

– Teme me fazer mal.

– Mas eu quero te dizer algo.

– Você pode gostar de outras pessoas. E pode querer estar perto delas. Pode querer viver momentos bons e que não sejam comigo.

– E isso é bom. Isso é bonito em você .

– E nós continuaremos assim de mãos dadas.

– No coração da mamãe também vivem muitos amores. Mas há nele um lugar que é só seu.

A pequena menina compreendeu.

Ela se juntou – como acontece ao pequeno pinguim personagem da autora e ilustradora alemã Jutta Bauer no imperdível livro ilustrado “Mamãe zangada”.

Alumiou-se a escuridão.

A escuridão que é grávida de certezas, verdades incontestes, entendimentos lógicos, mas que mantém a vivência órfã de compreensão emocional.

Conheci essa mãe. Ela trazia consigo a lamparina psicanalítica.

Capaz de suportar a escassez de respostas, permanecer envolta em dúvidas, deitar-se sobre pedra e mergulhar na escuridão. Ela era socorrida por essa função dentro da mente capaz de aclarar as profundezas e trazer de lá o que faz sentido.

Se um artista houvesse se sentado à mesa de almoço – e essa cena o incomodasse, o convocasse, o arremessasse para a arte –, ele poderia tê-la registrado em imagens, em música, em poesia, em literatura, em escultura.

Sua lamparina alumbraria a vivência e ele (a) reproduziria na arte: a pequena menina angustiada e afogada pelo conflitivo desejo de querer além da mãe.

Ilustrações do livro “Mamãe zangada”, de Jutta Bauer

Dizia Winnicott sobre as descobertas psicanalíticas:

“Naturalmente, se o que digo tem em si verdade, esta já terá sido tratada pelos poetas do mundo, mas os clarões de insight, que surgem na poesia, não podem absolver-nos de proceder à penosa tarefa de nos afastar passo a passo da ignorância, em direção ao nosso objetivo”. (in o Medo do Colapso – 1963)

O fato substancial é que essa experiência poderia ter se perdido na escuridão da razão. Desafortunadamente, nesse caso, o entendimento estaria a quilômetros daquilo que de fato pulsava no âmago da experiência. Ao invés de ser um ato recepcionado nas searas do acolhimento, teria, entrementes, sido transformado num acontecimento insólito e barulhento. Nada mais.

Ao abeiramento da lamparina, não obstante, constituiu-se o romance.

Carla Oléa é psicóloga e escritora. Gerencia um blog literário que contém coletânea própria de ensaios, crônicas e poemas. É mestre em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp – Campus Assis – SP) e membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Bibliografia:

  1. O medo do colapso in Explorações Psicanalíticas. Donald Winnicott. Artes Médicas.1994
  2. Mamãe zangada. Jutta Bauer. Ed. Cosace Naify. 2008.

Imagens:

  1. La Petite Châtelaine 1892-1896. Camille Claudel. Musée Joseph-Denais.

A escultura é referente a uma fase do trabalho de Claudel em que se evidencia a criança surpreendida pelo desconhecido.

  1. Montagem com ilustrações do livro Mamãe zangada, de Jutta Bauer.