Mês: fevereiro 2019

O desejo segundo Jacques Lacan

* Marilsa Taffarel

Lacan, em seu seminário proferido em 1964, declara: “Não há meio de me seguir sem passar por meus significantes…” (pg. 206). Para compreender o que é o desejo, precisaremos considerar alguns “significantes” de eleição para o autor: demanda, gozo, Outro, alienação, separação, fantasia fundamental, objeto a… Nem sempre questionamos o emprego da palavra desejo que a psicanálise, Freud e, posteriormente, Lacan, tratou de definir, circunscrever e relacionar com outras formulações conceituais. Ambos consideram o desejo um elemento central, nodal do ser humano.

Tomamos como sinônimo de desejo um querer muito forte – a insistência da criança, pequena ainda, que foi proibida de terminar o desenho de um ursinho na parede da sala e que, pé ante pé, à noite, vai completá-lo. Como poderia deixar o ursinho sem suas orelhinhas?  Ela desejava muito tal coisa. Sem dúvida, um desejo está ali presente porque houve a interdição. Um desejo pode ser suscitado pela proibição.

Em Freud, o desejo, que é inconsciente, é designado pelo vocábulo alemão Wunsch, cuja tradução é anelo, aspiração. O desejo não se mostra claramente e, como sabemos, tudo que é cifrado, ambíguo ou obscuro exige interpretação. E é essa a condição de sua manifestação no sonho, concebido por Freud como realização de desejos, nos lapsos, nos sintomas, na fantasia de cada um.

Para Freud, o desejo é um movimento em direção à marca psíquica deixada pela vivência de satisfação primeira que acalmou uma necessidade, como a fome, no bebê. Através dessa inscrição mnêmica poderá então a criança reeditar a satisfação de forma alucinatória, nessa pouco duradoura autonomia que a alucinação fornece. Seria essa a realização do desejo. Contudo, a tensão da necessidade que persiste conduz à ação de esperneio ou choro. A necessidade se impõe e a criança precisa de um adulto capaz da ação específica de dar leite, de cuidar.

Lacan escolhe outro vocábulo alemão para designar o desejo: Begierde, que, segundo o dicionário alemão-português, significa cobiça, anseio, desejo veemente.  Como costuma ser apontado, essa escolha marca suas influências (Hegel) para além de Freud e marca sua contribuição quanto a esse crucial conceito para o pensamento psicanalítico e para a prática analítica. Não iremos tratar disso nesse momento.

O desejo e a linguagem

Lacan – tendo o propósito de, finalmente, dar fundamentos sólidos, cientificamente, para a psicanalise, propósito de toda sua vida – apoia-se na linguística de F. Saussure.  A linguagem passa a ser fundamental em sua reconstrução do inconsciente, do recalcamento, do desejo.

Lacan irá articular o desejo com a linguagem. O adulto que cuida, que exerce a função materna, fala. Sua importância se destaca sobretudo por ser o transmissor do grande mediador simbólico que é a linguagem, a qual possibilita ao bebê o acesso a nosso mundo simbólico. A criança irá registrar suas primeiras experiências através dos elementos linguísticos – significantes – emitidos pela mãe. Lacan chama atenção para o fato de que, de forma inevitável, a criança irá se alienar nesses significantes. É essa a única maneira de entrar na linguagem.

Lacan irá marcar, desdobrar, esquadrinhar a função do adulto indispensável para a passagem ao mundo intersubjetivo da linguagem. Mundo da incompletude, da falta, do desejo e de sua alienação.

A mãe tanto interpreta os movimentos e expressões da criança quando lhe oferece alimento e irá entender como mensagens as manifestações da satisfação da necessidade. É o desejo da mãe que assim se manifesta. Ela, ao falar com o bebê, irá inserir uma satisfação de espécie diferente da satisfação da necessidade corporal, uma satisfação que prolonga a corporal. Esse acréscimo de satisfação que a criança não demandou, ela a recebeu sem pedir, sem usar a linguagem. Lacan chama essa satisfação de gozo, um gozo primordial.

Contudo, é através da interpretação, da atribuição de sentido às manifestações de apaziguamento corporal da criança que essa vai deixando o âmbito da necessidade e entrando para o mundo da linguagem, o mundo simbólico. O espernear e chorar quando a tensão se reestabelece, que não tinham inicialmente um alvo, passam a se dirigir ao Outro.

A criança demanda ao Outro não só a satisfação da necessidade, ela demanda o plus que recebeu da mãe satisfeita com a satisfação da criança. Aquele primeiro plus que recebeu sem demandar não irá se repetir após a criança aprender a se manifestar, a fazer apelos à mãe através de quaisquer elementos da linguagem.

O desejo deve ser discernido da necessidade e também da demanda. Ele está, para o autor, entre elas e tem uma relação intrínseca com a incompletude, com a falta. Com um apelo, um pedido que esconde e indica uma demanda, faz-se a tentativa de alcançar um preenchimento que, nessa concepção, está sempre além.

Referindo-se ao sonho da filha de Freud, Anna, sonhado quando essa era ainda bem pequena, Lacan diz que nele se manifesta o desejo do impossível. Anna teria comido muito de suas frutas e doces preferidos no dia anterior. Passou mal, vomitou.  Então, só poderia ingerir alimentos leves. À noite tem um sonho, exemplo para Freud de sonho infantil, simples. Diz ela no sonho algo como: framboesas, morangos bem grandes, flan: delicias que adora. Para Lacan, que não considera o sonho simples, esses objetos mencionados já são objetos transcendentes, já entraram na ordem simbólica. São cerejas e flans, mas são, sobretudo, aquilo que não posso ter.

Uma outra interpretação desse sonho, feita por Slavoj Zizek, em seu livro Como ler Lacan, é a de que o desejo da pequena Ana era de satisfazer o desejo de seus pais de ter nela uma menina que se deliciasse com essas guloseimas que eles lhe ofereciam. Dessa maneira, Zizek introduz a questão essencial para Lacan concernente ao desejo: qual é o desejo dos que me cercam para que eu possa ser o objeto desse desejo? Ou para que possa ser o desejo desse desejo?

Lacan expressa esse anseio de se posicionar como objeto do desejo do Outro (na grafia de Lacan a letra maiúscula indica a decalagem de posição, de pertinência ao mundo social de quem desempenha a função materna em relação à criança) em seu seminário sobre os quatro

conceitos fundamentais da psicanalise, dizendo: “O desejo do homem é o desejo do Outro”. (pg.223)

Nessa primeira relação com quem desempenha a função materna, outro elemento é de fundamental importância: o Outro precisa ser desejante, a criança precisa experimentar o Outro como desejante, não completo ou como diz Lacan o Outro precisa estar barrado. O que verdadeiramente a mãe deseja permanecerá enigmático para a criança no processo de instauração de sua posição como sujeito.

O desejo é um fluir metonímico. O que quer dizer isso? Ele estará – dentro dessa concepção – sempre se deslocando em direção ao que aparenta ser o objeto perdido se não estiver, como soe acontecer, aprisionado numa vã tentativa de obturar a falta constitutiva. Essa é uma das maneiras de entendermos porque Lacan diz que a ordem simbólica é intrinsicamente decepcionante.

O objeto do desejo, designado como objeto a, é um objeto perdido. O que o caracteriza e distingue de outras concepções de objeto na psicanalise é exatamente não ter qualquer objetividade, existir independentemente das percepções do sujeito.

O que suscita meu desejo em um objeto do mundo ou uma pessoa? Algo indecifrável. Um brilho, uma textura, um som, um significante. Esses são, para Lacan, faces simbólicas ou imaginarias do objeto a. Aparências. Como diz Lacan de forma brilhante, “(…) o que o sujeito reencontra não é o que anima seu movimento de tornar a achar.” (pg.207).  Além de ser o alvo do desejo, o objeto a é concebido como um concentrado de gozo que causa o desejo.

O desejo e a função do pai        

Em um primeiro tempo de sua existência, a criança tenta se colocar como o objeto do desejo da mãe, como aquele que preenche a mãe, isto é, como o falo. Contudo, o que a mãe, de fato, deseja permanece enigmático para a criança.

A ultrapassagem dessa relação primeira é condição para que a criança deixe de ser objeto do desejo da mãe e passe a ser sujeito do desejo.  É pela intervenção da função do pai através da linguagem que a sinaliza que esse corte se dá. O registro da proibição da relação incestuosa com a mãe, registro da lei que a proíbe, é considerado um evento psíquico estruturante e fundamental para a criança. Em terminologia lacaniana expressa-se como simbolização primordial da Lei (de interdição do incesto). Essa interdição recalca, torna inacessível o significante fálico, cujo sentido enigmático guiará e determinará sua busca infinda.

Na analise, o desejo é o que gera a demanda que se expressa em apelos ao analista, é o que sustenta a transferência. O analisando busca a análise por acreditar que ela o levará ao desejo inconsciente. Tal coisa é, muitas vezes, expressa pela frase que ouvimos direta ou indiretamente de nossos analisandos “quero me encontrar”.

Para Lacan, o princípio que rege uma análise é a liberação do desejo em relação à sua alienação. Talvez esse propósito de uma análise, essa espécie de consigna, tenha transbordado mais rapidamente do que outras para universos psicanalíticos vários e para além do campo psicanalítico. Bem recebida por aqueles que esperavam da psicanalise uma teoria do sujeito como contendo um elemento intrínseco de caráter libertário.  Mal compreendida por muitos que viam nessa espécie de consigna uma licença para o descompromisso com o contrato civilizatório. Portanto, libertar o desejo alienado em formas imaginárias, nas repetições da demanda e contido na fantasia fundamental é o fito de uma análise.

A interrogação que resta é: podemos libertar o desejo também da função paterna, do Édipo? Pergunta que interessa cada vez mais a uma sociedade que põe em questão o patriarcado, que põe em evidência novas formas de investimentos libidinais – investimentos ditos rizomáticos ou horizontais e não verticais e hierarquizantes -, e, como consequência, uma sociedade que se amedronta com tais transformações.

O Édipo, ou seja, a função paterna na produção de um sujeito desejante, para Lacan, é a condição da forma normal do desejo. Contudo, Jacques-Alan-Miller, em uma entrevista para a Opção Lacaniana (ano 4, n.12) fala do desejo ligado à interdição do pai como um desejo “normalizado”. A ênfase na função do pai seria um legado de Freud em relação ao qual Lacan operaria um distanciamento. Não poderia deixar de levar em conta, justamente, o declínio da sociedade patriarcal com seus padrões de investimentos libidinais.

Marilsa Taffarel é membro efetivo e professora da SBPSP, mestre em filosofia da psicanálise pela PUC-SP, doutora pelo núcleo de psicanálise da PUC-SP e coautora do livro “Isaias Melsohn, a psicanálise e a vida”.

A PRESENÇA DA PSICANÁLISE NA TRAGÉDIA DE BRUMADINHO

* Alicia Beatriz Dorado de Lisondo

Denunciar o crime cometido pela irresponsabilidade da empresa Vale com a cumplicidade dos órgãos governamentais, ironicamente encarregados de zelar pela segurança da população e do meio ambiente, também passa a ser nossa responsabilidade enquanto analistas. Também passa a ser importante ação social dos psicanalistas, o cuidado para com a vida psíquica dos sobreviventes de Brumadinho, um dever cívico de todo brasileiro, de todo cidadão deste mundo.

Desse modo, o pensamento psicanalítico pode, fora dos muros do consultório, ajudar a lidar com bebês, crianças e adolescentes (B.A.C.) em profundo sofrimento.

A presença da psicanálise com voz, espaço e um melhor esclarecimento à comunidade sobre sua essência e epistemologia para marcar às diferenças com a psicologia e a psiquiatria, poderão ser um caminho e modelo de atendimento da população atingida.

Segue o formato e as principais considerações  tratamento de Bebês, Crianças e Adolescentes em situações de trauma e tragédia:

-> Pensar em cada B.A.C. como um sujeito e/ou uma pessoa na sua singularidade. O cuidado com a vida emocional com eles é fundamental. O corpo não está separado da alma assim como a consciência não está desligada do inconsciente.

-> A aproximação à verdade dosada, passo a passo, revelada com amor e na medida que o outro a possa assimilar, alimenta a alma humana.

-> As mentiras, os segredos, o não dito, intoxicam a mente. Os B.A.C. sabem mais do que nós, adultos, podemos imaginar. Eles têm radares e antenas parabólicas para captarem as emoções presentes no ambiente. Quando a criança indaga: “Por que você está chorando?” e escuta: “Por nada!!!”, sua percepção é desqualificada. A oportunidade para uma alfabetização emocional foi perdida: “Estou muito triste!!”, “Estou com raiva!!”.

-> Sabemos os efeitos devastadores que um trauma pode provocar na personalidade em formação de B.A.C. dificultando ou paralisando o desenvolvimento emocional. As barreiras protetoras do psiquismo não podem conter a dor, a angústia, o desespero e o ódio. As feridas na alma podem piorar e os buracos no tecido mental podem se ampliar. Por isto importa criar as possibilidades, para o inicio do processo de cicatrização para cerzir com delicadeza o tecido esgarçado. É necessário dar palavras plenas de sentido, expressivas da emoção, ao sofrimento, ao pesadelo, ao tremor do corpo ante a comoção!! “Estou com saudade de X!!”, “Dói, dói demais meu coração. Dói de saudades!!”…

-> Não confundir o ódio, indignação, revolta; com a destrutividade. Seria prudente discriminar e compreender as diferentes manifestações emocionais dos B.A.C.

-> A expressão do ódio é tão necessária quanto a do amor, por isso é importante não a sufocar e permitir que cada criança escolha seu repertório para expressar sua fúria, respeitando os limites colocados pelo adulto de forma clara e consciente.

-> É preciso viabilizar as possibilidades de sua manifestação, acompanhando as vítimas:

  • A armar e permitir que derrubem casas, torres, construções de plástico, massinha, cartões, palitos de sorvete etc;
  • A enterrar embaixo de lama, areia, terra, galhos, fotos plastificadas dos seres perdidos, animais de plástico, bonecos humanos, carros, bicicletas, brinquedos etc;
  • A cortar, picar, rabiscar, pintar, recortes representativos da tragédia;
  • Estimular a escrita de manifestos, músicas, cartas abertas, livros, solicitações.

-> Os bebês, capazes de brincar às escondidas com seis meses de idade, podem vir a compreender que mamãe não está e não voltará, que papai foi embora de carro e não voltará, mas que agora X cuidará dele. O ato de brincar, tantas vezes quanto necessário sobre os “desaparecimentos” ajudará a dar forma e nome ao terror outrora sem nome.

-> Incentivar os familiares, voluntários, educadores, agentes de saúde a oferecer uma atenção qualificada e espontânea aos B.A.C., com disponibilidade para criar vínculos tão estáveis e constantes quanto seja possível. Elas podem tentar compreender, brincar, escutar, conversar, compartilhar a dor com as lembranças dos seres que já não estão corporalmente presentes com os B.A.C., buscar  as fotos, vídeos, gravações dos seres mortos, desenhar, pintar, cantar, contar histórias, dramatizar, montar peças de teatro,  incentivar aos adolescentes nas varias formas de escrita sobre temas relacionados com este crime.

-> A tragédia, no dia 25/01/2019, em Brumadinho, faz parte da vida desses B.A.C. Familiares, pessoas conhecidas, casas, animais de estimação, brinquedos, computadores, celulares, foram abruptamente destruídos, sepultados pela onda de lama. É importante que esse momento entre num processo de historização. As fotos, os recortes de jornal, as notícias, os depoimentos, as entrevistas, a história desta cidade, a legislação existente, podem constar num álbum. Este será um suporte, para dar figurabilidade, forma, palavra, ao horror quase impensável e indizível.

-> Os B.A.C. expressam as dores da alma de várias formas, às vezes, numa linguagem pré-verbal. Dessa forma, os bebês podem apresentar sinais de risco psíquico como: não olhar nos olhos do outro ser humano, não balbuciar, não brincar, inapetência, evitar morder e mastigar alimentos sólidos a partir dos seis meses de idade, ritmo do sono alterado, terrores noturnos, preferência por segurar objetos duros e inanimados, evitação do contato humano, deixar de rir, quietude, passividade, entre outros. Fazem parte desse vocabulário pré-verbal, as doenças psicossomáticas, a incontinência urinária e/ou fecal, problemas escolares, tentativas de suicídio, anorexia, bulimia, vícios em drogas, tédio, condutas antissociais e delinquenciais. Estes berros silenciosos, eloquentes pedidos de socorro, exigem uma escuta e observação, aguda dos adultos.

-> Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas e orientará sobre os caminhos a seguir, para evitar a calcificação dos transtornos e sintomas.

-> A psicanálise tem um poder preventivo! Futuras gerações podem receber as consequências desta tragédia se ela não for elaborada.

-> Quando for necessária uma adoção, ante a orfandade dos B.A.C., será necessária uma intervenção rápida do Poder Judiciário para evitar o trauma da institucionalização destas criaturas em risco psíquico. Legalizar o processo de adoção é importante para que os pais adotantes legitimem este novo lugar com firmeza amorosa e autoridade para exercer as funções parentais.

-> Enterrar simbolicamente os “desaparecidos” – os mortos sem cadáver – com todos os rituais e cerimonias, respeitando a religião, os costumes, a tradição de cada família, permite entrar em contato com a dolorosa realidade da morte e ajuda a elaborar o luto. Sábio legado de Antígona! Quando se perpetua a crença sobre o desaparecimento, a temida realidade da morte do ser querido é negada, como no quadro de Monet. A fantasia de reencontrar o sobrevivente estará presente. Não será possível iniciar o árduo trabalho do luto. A culpa inconsciente é potencializada ante a fantasia de matar – deixar de buscar – um ser que poderia estar vivo.

-> Uma caixa com a foto do ser morto, velado e enterrado, num espaço a criar sobre os escombros, numa praça, museu, pode ser uma oportunidade para realizar a terrível despedida.

-> Um memorial pode vir a ser construído com as com as fotos e os nomes dos mortos, as obras das crianças e adolescentes, com toda a documentação sobre esta hecatombe. Este espaço pode exercer a função de rêverie para esta sofrida comunidade e para todos nós!

Enfim, este espaço pode exercer a função de rêverie para essa sofrida comunidade e para todos nós!

Onde os interessados podem procurar ajuda:

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE (FEBRAPSI)

Congregando as sociedades psicanalíticas brasileiras filiadas à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), organiza e fortalece suas atividades de divulgação, difusão e ensino da psicanálise em nosso território, assim como a participação na Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL).

Contato: (21) 2235-5922; contato@febrapsi.org

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE MINAS GERAIS (SBPMG)

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais é filiada à Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e à Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL), além de componente da International Psychoanalytical Association (IPA), sendo a única instituição em Minas Gerais a oferecer formação psicanalítica nos padrões exigidos pela IPA.

Contato: (31) 3224-5405

GRUPO DE ADOÇÃO E PARENTALIDADE DA SBPSP

Este Grupo Coordenado por Gina Levinzon e Alicia Lisondo se reúne o segundo sábado de cada mês das 11h30 às 13h na SBPSP, Av. Cardoso de Melo, 9° andar – Vila Olímpia/SP. Profissionais podem apresentar experiências, situações relacionadas com os temas do grupo, avaliações e/ou sessões de psicoterapia psicanalítica. É preciso conectar-se previamente com as coordenadoras e enviar por escrito a apresentação para a discussão grupal.

ALICIA BEATRIZ DORADO DE LISONDO

Oferece 1h30 mensal para conversas sobre às inquietações, questões, discussão dos B.A.C. com um grupo entre 6 e 8 integrantes – professores, voluntários, agentes de saúde, familiares, profissionais do Poder Judicial – por SKYPE, na última sexta feira do mês das 10h30 às 12h. Contato: alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é analista didata e docente do GEP Campinas e da SBPSP, filiada à International Psychoanalytic Association, co-fundadora do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas, membro de ALOBB, integrante da Comisión de Niños y Adolescentes de FEPAL, co-coordenadora do Grupo de Adoção e Parentalidade da SBPSP e analista de Crianças, Adolescentes e Adultos.

Acompanhe também o vídeo publicado no canal da SBPSP no YouTube:

 

Imagens:

  1. “Le Balcon”, Edouard Manet (1868-69) e “Perspective II, La balcon de Manet”, René Magritte (1950)
  2. “As Cruzes”, Cândido Portinari

Quebrando a costela de Adão

* Miriam Chnaiderman

 1. Linn da quebrada, a bixa travesty

Eu quebrei a costela de Adão     

Muito prazer, sou a nova Eva

Filha das trevas, obra das trevas

Não comi do fruto do que é bom e do que é mal

Mas dechavei suas folhas e fumei sua erva.”

Essa é a letra de uma canção, entre muitas outras, que a maravilhosa e provocativa Linn da Quebrada nos apresenta no portentoso documentário BixaTravesty, dirigido por Cláudia Priscila e Kiko Goifman. Aliás, é preciso acentuar, o roteiro é assinado pelos dois diretores e por Linn da Quebrada. É sempre o olhar de Linn que está presente e as escolhas são dos três.

Não é docemente que a mulher nasce de Adão. É irrompendo, esfacelando, quebrando. Já um tremendo esforço de visibilidade e de existência. A mulher é obra das trevas. Do demônio?

O devir-mulher se explicita em sua violência desde o início do filme, quando em um programa de rádio que apresenta junto com Jup do Bairro, sua querida Bebete, Linn afirma:

“Nós vamos aprender as suas técnicas e nós vamos melhorá-las, nós vamos aprimorá-las e vamos usar entre nós. Vamos aprender a lutar, vamos pegar em armas, vamos pegar nos nossos corpos como armas e aí o jogo vai virar pra vocês. Eu não queria estar na pele de vocês”.É um discurso raivoso de mulher que luta por seus direitos. É um discurso feminista acentuado.

No programa, Linn se apresenta como Linn do Bairro e apresenta Jup como Jup da Quebrada. “Qual é bixa? Qual é veada?” Afirma Linn:“Porque antes eu era um traveco, agora sou mulher, sim…”.

Ou então: “Eu, quando alguém me aponta o dedo e fica gritando que sou veado, alguém faz alguma piada, eu penso: gente, será que eu tava tentando disfarçar? Será que eles acham que precisam me lembrar disso?(..) Eles acham que nós deveríamos curvar nossas cabeças e então atender essas expectativas. Então, se você quer ser mulher, tenha peito. Se você quer ser mulher, seja magra. Então, se você quer ser mulher, então você tem no mínimo que atender às expectativas do que é ser mulher…Não necessariamente… Pode até ser se você quiser, se eu quiser…Às vezes, eu fico com um pouco de vontade… Vou confessar que, às vezes, eu quero mas aí eu nunca tenho certeza do quanto eu quero, se eu quero ter peito, se eu ter dois… se eu quero tirar o pelos…”.

Em outro momento, Linn brinca: “Eu não tenho lugar de fala porque eu tenho passabilidade trans mas na verdade eu sou uma mulher cis”. Depois, rindo, pede que essa sua brincadeira não vá ao ar…  É marota com o binarismo de gênero… Pode ser qualquer coisa…

Em quase uma defesa da indiscriminação ou do desmanchamento de qualquer lógica aristotélica, Linn é bixa travesty. A lógica identitária não é a de Linn! Em entrevista à revista Cult (Trói ,2017), Linn conta que leu e lê Foucault, Preciado, Butler. Define o queer, conceito de Judith Butler para definir o corpo bizarro, o corpo abjeto, como inominável, como aquilo que não pode ser fixo. Citando Linn na entrevista: “O queer é a dúvida, a incerteza, é uma atitude em relação ao próprio corpo, não identidade”.

Essas reflexões, despertadas pelo documentário, remetem ao meu texto, “É possível ser gender fucker?”(Chnaiderman, 2018), escrito em 2017 e publicado em 2018. Essa interrogação que dá nome ao texto é a fala de Dudu Bertholini ao final do documentário “De gravata e unha vermelha (2014)”, que dirigi.  Reproduzo aqui o início desse meu ensaio:

“Ao final do filme que dirigi “De gravata e unha vermelha” (CHNAIDERMAN, 2014), Dudu Bertholini, um dos personagens do documentário,  em lindas vestes e brincos vistosos,  declara: “Eu sou o que as pessoas classicamente chamam de um gender fucker… então, eu sou a pessoa que não quer o estereótipo do masculino, não quer o estereótipo do feminino… eu quero  muito mais é descobrir uma maneira única e minha de ser”.

A radicalidade dessa frase chama a atenção. Ser um gender fucker explode qualquer lógica identitária e questiona o binarismo de gênero. Ser um gender fucker é não estar nem aí para o gênero, não se adequar ao que o nosso mundo oferece como possibilidades para viver o desejo.

Esse final do documentário ocorre depois de oitenta e quatro minutos onde vamos assistindo aos mais diversos modos de viver a sexualidade – sem qualquer estereótipo, vão emergindo desejos homos, desejos trans, brincadeiras as mais esdrúxulas: trans-mulheres que menstruam, trans-homens que engravidam, Rogérias que continuam Astolfos, Neys que adoram ser homens mas não suportam se restringir a qualquer espaço que limite o desejo, gays que adoram ter pelos e adoram casamentos pomposos com vestidos de princesa…”(p. 10) ( aqui termina a citação do artigo meu que cito… será que não seria bom deixar isso mais claro? Fazendo uma margem mais acentuada a esquerda ou letra menos, não sei…)

Quando fui convidada para participar do Colóquio Internacional Psicanálise, Gêneros e Feminismos, esse texto foi a minha fala na mesa “Transgressões” (24 de outubro de 2018).  Ao final, depois de uma elaboração teórica que passava por Lacan,Pommier e NathalieZaltzmann,  eu concluía que “Somos todos gender fuckers”, pois todo corpo seria bizarro, na medida em que “ninguém vive bem com seu corpo”(NathalieZaltzman) e que o objeto do desejo é sempre fantasioso.

Em conversa com Patrícia Porchat, uma das organizadoras do evento juntamente com Nelson Silva, fui bastante criticada. O argumento era o quanto, nesse momento em que vivemos, é importante manter a questão do gênero como batalha política. Patrícia se referia à necessidade de um movimento feminista que denunciasse a violência e os cânones da submissão que vigoram no mundo contemporâneo.  Como se o conceito de gender fucker abalasse a luta feminista, ou a bandeira da defesa de gênero.

Em conversa pessoal, Patrícia me explicou que sua questão seria com a generalização do conceito de gender fucker. Transcrevo sua mensagem para mim: “A luta feminista, a violência de gênero, a opressão e a subordinação das mulheres fala de pessoas e de um lugar que não explode identidade e que, infelizmente, funciona na lógica do idêntico e do diferente do um”. O conceito de gender fucker inviabilizaria essa questão. Penso que não. Pois o gender fucker toma vários rostos e caminhos. É isso que Linn nos mostra.

Dudu Bertholini, autor da frase no filme, trabalhou com Fernanda Lima no programa da Globo “Amor e Sexo”, onde deram voz a vários trans e onde Fernanda como mulher e, por ser mulher sexuada, foi considerada louca. Viralizou nas redes sociais a fala de Fernanda Lima:

“Chamam de louca a mulher que desafia as regras e não se conforma. Chamam de louca a mulher cheia de erotismo, vida e tesão. Chamam de louca a mulher que resiste. Chamam de louca a mulher que diz sim e que diz não. Não importa o que façamos, nos chamam de loucas. Se levamos a fama, vamos sim deitar na cama, vamos sabotar as engrenagens deste sistema de opressão. Vamos sabotar as engrenagens desse sistema homofóbico, racista, patriarcal, machista e misógino. Vamos jogar na fogueira as camisas de força da submissão, da tirania e da repressão. Vamos libertar todas nós! E todos vocês! Nossa luta está apenas começando, preparem-se porque esta revolução não tem volta. Vamos sabotar tudo isso?”.

Parece que aceitar a possibilidade dos mil sexos, entre eles, o da mulher, é uma posição antes de mais nada, política.Chamou-me a atenção em Linn da Quebrada, que se define bixa travesty, o feminismo exacerbado. Um feminismo lutado em alguém que não fez a cirurgia de redesignação sexual e que não escolheu se hormonizar, vivendo muitas dúvidas em relação a isso. “Esse lugar que eu to, essa invenção, é o lugar que eu chamo de bixa travesty, que é travesty, é feminino, mas também tem o lugar de bixa, que não é uma mulher que eu sou, é esse lugar que é bixa travesty. E as gays, elas gostam de boy, de homens – não é um espaço que eles cultivam pelo feminino…”.

Linn é mulher e é bixa.  Esse lugar que é gay também e gosta de homens. Como homem ou como mulher?  Ou isso não importa? Gender fucker? De qualquer forma, é como bixa travesty que Linn vai delineando um feminismo radical, afirmando que os homens apontam o dedo para as mulheres: “…o dedo do homem que adora apontar prás coisas e dizer

Mulher – lixo – casa. Dar nome, né, adora dar nome, dar sentido a essas coisas. Então eu pensei – porque é que eu não posso fazer isso também. Eu fiz a minha música justamente como arma, pensando que o primeiro alvo era eu…”.

É como travesty que o lugar da mulher ganha um questionamento radical: “Antes era impensável se pensar no corpo da travesti sem que ela estivesse extremamente ligada ao padrão do travesti… Tanto que as manos estavam muito mais sujeitas ao lance do silicone industrial, se sujeitando ao lance do silicone industrial e a hormonização.  Eu acho que hoje a gente consegue pensar na travestilidade ou na feminilidade sem, por exemplo, ter que estar ligada à depilação. Sem ter que estar ligado a trejeitos extremamente femininos…

… eu fico querendo entender como seria meu corpo com um pouco mais de feminilidade…”.

Para Linn, o menosprezo pelo trans é o mesmo que pelo feminino. Como se no trans, o feminino se exacerbasse.  E não porque o trans acentua o que é do binarismo, mas porque ele confunde… E o feminino confunde.  Em entrevista à revista Cult, Linn afirma que no sistema, no cis-tema “…só valoriza os saberes heterossexuais… Foi cultuado um repúdio e aversão às pessoas trans, um menosprezo pelo feminino.” Linn conta que é na música que desconstrói seu desejo.

Assim, Rafael Cossi, no dossiê da Revista Cult “Femininsmos e femininos” ( Cossi, 2018) fala de Luce Irigaray: “Escrever mulher e escrever como mulher, autoafetar-se, lançando mão de um regime de diferença não previsto pela binaridade implícita à mobilidade da linguagem  –  uma diferença que não se sustente na oposição entre dois termos substancializados, um a submeter o outro, tal como o pensamento ocidental se orientaria, a se dar a ver em pares de opostos como natureza/cultura e céu/inferno, e que se expande à relação intrínseca ao dipolo homem/mulher .  Se só A e não A – a mulher como negativo do homem, sua exclusão constitutiva -, Irigaray elucubra outra lógica a ser acionada por uma escrita que deturpe os códigos linguísticos, as regras sintáticas e a gramática da cultura que silencia o feminino.” (p. 34)

É o que Linn quer fazer. Linn canta: Tô vendo de camarote o fim do seu reinado, rindo muito da sua cara… (…) quando tiver que ir embora não esqueça, deixa seu pau encima da mesa… Bixa travesty de um peito só, o cabelo arrastando no chão e no meio sangrando um coração”.

Marie Claire Booms, no ensaio “Da sedução entre os homens e as mulheres: umaabordagem lacaniana” (Booms, M. C. 1987),mostra como nossa cultura vem colocando a mulher fora da possibilidade do simbólico. Afirma: “… pois numa sociedade que se funda sobre a rejeição para fora do simbólico do feminino nãohá significante de mulher. Há apenas o significante fálico e sua função para significar a diferença, dividindo ahumanidade falante em metade masculina e metade feminina,segundo a maneira como cada sujeito seinscreveu em relação à castração que esta função designa.” (Booms, p. 92) A metade masculina tem o acesso ao simbólico bem garantida. Na outra metade, a nomeada como feminina, haveria um gozo que escaparia à castração, sendo então portadora de umsegredo sempre inviolado. Nessa metade, o acesso ao simbólico permanece problemático.

Marie Claire Booms, como feminista, mostra como essa estrutura se dá a partir do falo, sendo o feminino verdadeiramente rejeitado para a esfera do enigma, de um enigma detentor de um gozo ao qual os ditos “masculinos” não têm acesso. Enquanto bixa travesty Linn vive tudo isso radicalmente.

2. Armadilhas psicanalíticas

É tocante a cena onde Linn e sua mãe tomam banho juntas. Com doçura, uma ensaboa a outra. Essa cena acontece depois de Linn, Leniker (com quem mora) e mais uma trans conversarem na cozinha com a mãe de Linn, fazendo um estrogonofe.  Nessa conversa, surge o tema da religião. E Linn é radical. Há um momento em que Linn pega nos seios de Leniker e fala que tem mais carne do que a que está na panela, e que viveram momentos duros, de fome e de pegar pizza na lata de lixo. A mãe afirma que devem agradecer, pois Deus deve ter feito assim para que eles aprendam a valorizar o que têm. Linn ironiza, diz que esse é um jeito conformista de lidar com a realidade. Nessa cena tão caseira, há um momento em que a mãe, falando de Linn, fala do talento “dele”. Linn pergunta: “Dele quem?”.  A mãe embaraçada, tenta se corrigir. Linn afirma que vai tatuar um ELA na testa, para que a mãe nunca mais se confunda. E é o que faz ao final do filme.

A cena do banho é tocante. Linn ensaboa as dobras do corpo envelhecido de sua mãe. Conversam sobre o corpo, conversam sobre nada. Apenas se ensaboam. Linn massageia sua mãe, com imensa gratidão. Linn ensaboa a mãe que ensaboa Linn…Não é uma cena edípica. É uma cena de ternura, como se a dureza da história de Linn guerreira pudesse, naquele momento, viver uma cena de ternura e repouso. E, acarinha sua mãe, que é empregada doméstica e cuida de duas crianças brancas. A vida foi dura. Linn já foi Lino e já foi Lara. A construção daquilo que é se dá minuto a minuto.

Depois, no final do filme, Linn tatua na testa ELA. Para que sua mãe não se distraia e não esqueça de que não é mais um homem.  Porque dói quando sua mãe a trata como um menininho. Mas, o papo na banheira é sobre como lavar o “pintinho” de uma criança.

É uma cena infantil.  Que poderia levar qualquer psicanalista a falar em uma sexualidade não genitalizada, infantilizada. Diferentemente do “La Luna”, de L. Bertolucci, onde a realização edípica entre os personagens é o grande tema do filme.

Sérgio Rizzo(Rizzo, 2016), apresentando o lançamento do DVD de La Luna assim fala:“O cineasta italiano Bernardo Bertolucci conta que uma das imagens mais fortes guardadas por ele da primeira infância, talvez a mais antiga, é a de um passeio de carro. O bebê quedepois dirigiria ‘O Último Tango em Paris’ (1972) estava no colo da mãe, entre ela e o volante, de costas para a estrada. Lá em cima, a Lua. ‘Lembro que o jovem rosto de minha mãe se confundia com o velho rosto da Lua. Interpreto essa lembrança como um sonho’, diz Bertolucci no documentário incluído no material extra da edição especial em DVD de “La Luna” (1979). A cena é recriada no início do filme, com uma bicicleta no lugar do carro (São Paulo, domingo, 19 de março de 2006). Rizzo nos lembra como a mãe lambe o mel que escorre pelo corpo do filho ainda um bebê. Depois, o choro do bebê vendo o prazer da mãe dançando com “outro”.  É diferente do que acontece com Linn.

Linn pergunta desafiadoramente à mãe se ela sente “tesão” por alguém. A mãe demora a entender. Diante da insistência de Linn, responde que sentiu pelo pai de Linn. Linn abraça a mãe rindo e esse abraço dá início à cena do banho.  É como se Linn se indiscriminasse da mãe como um bebezinho. A entrega de Linn e da mãe é de uma ternura tocante. Mas, ninguém precisa satisfazer ninguém, não há qualquer “fissura enlouquecida”. Diferentemente da mãe do La Luna que, segundo Sérgio Rizzo, “chega a satisfazer sexualmente o filho adolescente para aplacar a dor do garoto que busca mais e mais cocaína”.

Mas, ao final do filme, cumprindo a ameaça que fizera à mãe na conversa de cozinha, quando ela se refere à filha como “ele”, Linn tatua ELA na testa.  Esse ELA na testa, mais do que um sinal de ligação materna, é também um tapa na cara do mundo que quer “mulheres sem pinto”e “sem pelo”. Seria bastante fácil falar de uma ligação com a mãe levando à uma identificação primária, a uma bolha da primeira infância onde os corpos de indiscriminariam.

Ou ligar a transexualidade a uma sexualidade infantilizada não genital, que se evidenciaria tanto na cena do banho com a mãe como na cena em que Jup e Linn estão na sauna e falam dos corpos. Aliás, a relação de Linn com Jup acontece sempre ludicamente, dançarinamente. Jup é uma mulher trans, gorda e desajeitada.  As duas falam do esforço que fazem para não serem apenas engraçadas.  Reduzir a sexualidade trans ao pré-genital seria patologizar uma escolha que não obedece à anatomia. Seria fazer o que o DMS fez e faz, ou seja, considerar o transexualismo como doença a ser curada. Como fazem no Iran, onde matam homossexuais e operam transexuais para curá-los.

Em Linn e Jup, nos seus jogos, no humor, nas coreografias, o que vemos é uma sexualidade regida pelo Sexual, termo que Laplanche (Laplanche, 2015) conceitua como sendo aquilo que, para Freud,  é anterior “à diferença dos sexos, para não dizer à diferença de gêneros”(p. 157) . Citando Freud, Laplanche afirma que o Sexual poderia ser definido como “o que é condenado pelo adulto”. (p. 157).  E, a seguir, afirma Laplanche: “… creio que, mesmo nos dias de hoje, a sexualidade infantil propriamente dita, é o que mais repugna para a visão do adulto”(p. 158).

Há um momento do filme em que Linn encontra uma amiga querida,Núbia, que fotografou e filmou momentos íntimos. Vemos Linn ainda homem, vemos Linn urinando em uma praça como uma estátua barroca, vemos seus jogos com o pênis/batom. São jogos onde o corpo vai sendo conhecido através de lindo jogo erótico. Em uma transa no banho, Linn comenta de como viviam se agarrando, Linn e Núbia, e de como “tem coisas que não mudam”. É quando ficamos sabendo que Linn teve um câncer. É mais uma cena tocante: em um espelho de hospital, Linn vai puxando suas madeixas e o cabelo vai caindo, lentamente. Depois, na cama, com os lábios pintados de rosa pink, uma camisolinha azulão com pássaros que voam, Linn conta como aprendeu sobre o corpo a partir do câncer. Disruptora, de salto alto, Núbia filma cenas de autoerotismo no hospital. É com vida que se rebate a morte.

3. Descubram os corpos escondidos em cada um de nós

Em um dos programas de rádio, Jup conta a Linn que tinha resolvido vir de taxi, fazer algo diferente. E o taxista perguntou: “Prá onde o senhor vai?”. Esse é o diálogo de Jup com Linn:

Linn :Fui explicar prá o taxistaque nem toda mulher tem…

Jup: Barba, mas é o meu caso…

Linn: Nem toda mulher tem xuxu, mas eu tenho

Linn: Mas tem mulher que tem…

Jup: Pinto…

Linn: Olha que novidade!!!

Linn: Descubram novos corpos que se escondem entre vocês!

Jup: Vai vasculhando que vai dar.

Linn relaciona seu corpo com a produçãode saberes periféricos. Fala em “produção de saberes marginais”: “Tem essa questão geográfica , mas acho que eu penso meu próprio corpo como esse território geográfico, como esse território a ser explorado, como essas quebradas, ainda pensando o corpo como essa arqueologia, como esse processo de escavação, de descoberta de territórios que modificam as coisas e as transformam, que me fazem outra mesmo.E as possibilidades de encontros e desencontros vão se multiplicando ao infinito, pois “tem bixa que trava por medo de trava(…) e tem trava que trava-línguas e tem trava”.

Linn é de uma lucidez cortante: “Eu acho que eu sou a trava que tem medo do escuro. Eu acho que é disso que eu tenho medo. Tenho medo do escuro, tenho medo de ficar sozinho. Medo de não pertencer. Eu acho que pelo medo de não pertencer eu acabei inventando prá mim, prá que eu pertencesse pelo menos a mim. Já que não tem um lugar que me cabe então que inventasse esse espaço, um espaço que me coubesse. Mas que também é temporário. Não quer dizer que eu vou caber aqui prá sempre. Logo eu acho que eu vou precisar estar indo prá outros lugares”.

Aqui, Linn desconstrói qualquer leitura moralizante de sua sexualidade e jeito de estar no mundo. Afinal, todos temos que nos reinventar para caber naquilo que é o nosso desejo. Bixa Travesty deixa claro o não-lugar que constitui toda e qualquer sexualidade. Assim, Linn é mais feminista do que muitas mulheres, pois vive na pele a humilhação e o preconceito.  Sua luta política é pelo amor: “…eu acho que é político a gente ser amado, é um dever, é um dever meu ser feliz, é um dever meu ter dignidade, estar contente com a nossa vida, nós travestis, mulheres pretas e travestis, mulheres brancas e travetys, bixa sapatão, bixa travesty, é um dever nosso estar bem, ser feliz, ser amada. Prá isso que eu sinto que eu vivo mesmo, é prá ser feliz”.

Linn, como Laplanche, afirma o Sexual, como oposição ao sexo e ao gênero. Por isso incomoda tanto. Desvela o que o mundo adulto não pode ver. Desvela o que a sexualidade adulta recalcou.  Desvela o que, em“Três Ensaios sobre a sexualidade”, Freud mostrou de uma pulsão plástica e sem objeto pré-determinado. O nome que isso venha a ter – polimorficamente perverso, trans, bixa, etc, pouco importa.  Importa, sim, afirmar, com Linn, que amar é um ato político.

Referências Bibliográficas:

BOOMS, M. C. – “Da sedução entre homens e mulheres: uma abordagem lacaniana inHomem Mulher, abordagens sociais e psicanalíticas, org. Carmen Da Poian; R.J., Livraria Taurus Editora, 1987, pp 89-106.

CHNAIDERMAN, M – “É possível ser gender fucker” in Corpo: ficção, saver, verdade, vol.2, Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n.50, vol. 2, janeiro/junho 2018, pp 9-22.

COSSI, Rafael Kalaf – “Lacan não sem o feminismo” in Revista Cult 238, ano 21, setembro 2018, pp 33-35.

LAPLANCHE, J. – “O gênero, o sexo e o Sexual” in Sexual A sexualidade ampliada no sentido freudiano –Porto Alegre, Fondation Jean Laplanche/ Dublinense2000 2006, pp 154-189.

RIZZO, S – Lançamento do dvd La Luna, São Paulo, “Folha Ilustrada“ in Folha de São Paulo, 19 de março de 2006

TRÓI, Marcelo de – “Linn da Quebrada: Ficou insustentável fingir que nós não existimos”, Revista Cult, 8 de agosto de 2017.

Miriam Chnaiderman é psicanalista e cineasta, ensaísta e escritora. Possui vários artigos publicados sobre psicanálise, cinema e teatro, bem como dois livros sobre a relação entre arte e psicanálise: “O hiato convexo: literatura e psicanálise” (Brasiliense, 1989) e “Ensaios de psicanálise e semiótica” (Escuta, 1989).