AMAMENTAÇÃO TEM ALGO A VER COM SEXUALIDADE?¹

* Denise de Sousa Feliciano

Quando uma menina percebe que seus botões mamilares incham, envergonha-se. O pudor se instaura no símbolo que o nascer do seio representa: torna-se aos poucos uma mulher. Em geral, vem acompanhado da menarca e dos demais sinais que transformam o corpo de menina no de uma mulher. E com ele será capaz de gerar um filho. O seio, então, é tanto o prenúncio quanto a própria consolidação de sua vida adulta.

A menina, agora adolescente, sente-se invadir por complexas emoções, sensações e um novo olhar dirigido à ela. Percebe que em sua nova roupagem captura os olhos masculinos de admiração e desejo. Um misto de incômodo e vaidade.

De símbolo, o seio aos poucos passa a fazer parte de sua vida sexual. As sensações no mamilo são fortes aliadas na excitação genital. O mesmo seio no qual o bebê vai mamar.

Amamentar por sua vez está associado à nutrição e também ao aconchego, ao carinho, à ternura e a outros adjetivos que denotam o relacionamento afetivo da mãe com seu bebê. E essa fusão entre as necessidades fisiológicas e emocionais torna essa – e todas as demais – experiências do corpo carregadas de significados e representações mentais que vão marcando a vida psíquica de cada pessoa.

As terminações nervosas do mamilo não mudam nas duas situações. Mas a mulher se vê diante de todo o engendramento mental que vai permitir que ela transforme psiquicamente as sensações de prazer genital de seus seios em uma experiência também prazerosa de ternura e amor. Não é um mecanismo mental simples. A condição de que essa organização flua está relacionada à sua história e à constituição de sua sexualidade. Soma-se à essa bagagem a dinâmica e história com o pai dessa criança e sua concepção. Marcas que ela nem mesmo pode acessar conscientemente, mas que são fatores importantes no modo como o lugar da criança e da amamentação vão se consolidar.

Um processo semelhante acontece com o homem, que precisará ver no mesmo seio erótico que o cativa, a fonte de nutrição e aconchego para seu filho, marca primária do prazer para o bebê, que nessa experiência inaugura a sua própria sexualidade.

Freud (1905)  em um de seus artigos mais importantes – Três ensaios para a teoria da sexualidade infantil –, apresentou-nos a construção da sexualidade humana que se inicia no prazer de mamar para o bebê. A boca, sua primeira zona erógena pela sensibilidade exacerbada nos primeiros meses, favorece que ele tenha grande satisfação ao mamar, garantindo a sua sobrevivência. Zona erógena para a Psicanálise está ligada à energia vital ou libido.

Na compreensão psicanalítica, sexualidade não se restringe à atividade genital e abrange um sistema complexo que envolve o corpo, as relações interpessoais e toda a cadeia de representações que constitui a vida psíquica do ser humano. É vital.

O prazer compartilhado e dual da mãe e do bebê na amamentação é sexualidade. Mas tem diferenças importantes do ponto de vista do bebê e  da mãe.

A sexualidade infantil tem características próprias de um psiquismo em constituição. Não é a mesma dos adultos. De qualquer modo, a finalidade é a mesma: o prazer, que é o motor da vida mental saudável e precisa ser experimentado pelo indivíduo desde o nascimento, mas dentro do caráter próprio de cada fase do desenvolvimento psicoemocional.

Libido, que no senso comum tornou-se sinônimo do desejo sexual da vida adulta, em termos psíquicos é o que garante a ligação das pessoas  com seus interesses e as mantém em movimento vital. Um bebê para ser saudável precisa ser libidinizado por seus pais, sendo para eles o centro de suas atenções e interesses durante a primeira etapa de vida. Isso funda na criança a capacidade de amar e se vincular.

Com base nessas premissas fundamentais, o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott desenvolveu sua Teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo, atribuindo fundamental importância ao psiquismo da mãe e às vivencias psicoemocionais da dupla, com o suporte afetivo do pai, como fatores intrínsecos à saúde global do indivíduo.

Para Winnicott (1968/1994), é uma grande riqueza a amamentação vivida tanto pela mãe quanto pelo bebê de forma plena e prazerosa. Ao entregar uma parte de seu corpo ao contato da mucosa bucal do bebê, a mãe favorece uma experiência de união e intimidade sem igual.

Para a psicanalista inglesa Melanie Klein (1936/1997), no prazer experimentado pelo bebê pela estimulação em sua mucosa bucal no ato de sugar o seio materno estariam as raízes da sexualidade. As sensações de desequilíbrio interno provocadas pela fome ocupariam lugar de primazia nesta primeira fase da infância. O bebê pequeno estabeleceria com a mãe um contato parcial através do seio tomando o seio gratificante – portador do alimento que sacia a fome -, como bom e o que frustra, como mau. Essa ambigüidade de sentimentos dessa relação com o seio-mãe seria responsável pelas diversas fantasias inconscientes que vão consolidando as relações do bebê com seus pais, e que posteriormente servirão de protótipo aos demais relacionamentos.

Apesar das variações no enfoque de cada autor, é unânime a afirmação de que o cerne da constituição do psiquismo estaria fundamentado na vivência de prazer compartilhado na primeira infância. A amamentação como o ícone dessa etapa de vida pode ser a pedra fundamental desse percurso.

O pai tem importante papel na sustentação da dupla mãe-bebê, que vive essa intensa experiência compartilhada. É importante que ele próprio não esteja excessivamente incomodado e impossibilitado de tolerar ser excluído dessa dualidade, para que aos poucos se construa uma nova relação triangular que lhe inclua. Nesse momento, suas próprias vivências infantis serão o esteio no qual ele se apoiará ou não para esse lugar primordial na relação com sua família atual.

É comum os homens sentirem-se enciumados da relação do filho com sua esposa, seja porque se sente excluído do prazer que percebe haver entre eles, seja porque precisa temporariamente abster-se da sexualidade genital do casal, que fica ofuscada ante à temporária substituição do prazer erótico genital da mulher pela plenitude que a ternura ocupa em sua sexualidade. Entretanto, esse período precisa terminar e a mulher afastar-se um pouco dessa espécie de fusão com seu filho e voltar-se também para o casal parental. Esse afastamento gradual que tem seu apogeu no desmame permite ao bebê o espaço de desenvolvimento psíquico necessário, ainda que seja um período de dor e luto para todos. É a vivencia de luto que permite ao bebê se constituir como pessoa.

[1] Título inspirado no artigo de André Green “Sexualidade tem algo a ver com Psicanálise?” (1995) Livro Anual de Psicanálise, 1995; v.11 p.217-29 São Paulo : Escuta, 1997.

REFERÊNCIAS

Freud, S. (1969). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J.Salomão, trad.,Vol. VII). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905)

Klein, M ( 1997). O desmame In Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1936)

Winnicott, DW. (1994). A amamentação como forma de comunicação In Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1968).

Denise de Sousa Feliciano é psicóloga e psicanalista, mestre e doutora pelo IPUSP-SP em pesquisas sobre amamentação e psiquismo, membro associado da SBPSP.

Imagem: Obra “Maternity”, de Pablo Picasso

 

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