Atualidades pedagógicas: o pensamento de vanguarda de Junior Bolsonaro

* Luciana Saddi

Como cantou Vinicius de Morais “hay dias que no sé lo que passa…”, e me pergunto o que teria em mente Bolsonaro Jr. no momento que utilizou redes sociais para ordenar (sic) o final do “ensino” do feminismo nas escolas. Difícil entender. Há nas escolas a disciplina “Feminismo”? Junior é especialista em currículos? É surpreendente! Junior pretendeu propor apenas a supressão do substantivo masculino (ironia) – que significa ampliar e aprimorar o papel e os direitos das mulheres na sociedade – no ambiente escolar?  Ou pretendeu estender os seus domínios para eliminar a palavra, censurar seus sinônimos em dicionários, sites, blogs e redes sociais? É possível censurar a palavra, mas não acredito que seja possível censurar seu significado. Imagino, se é que captei o sentido da ação, que Junior considere feminismo alguma anomalia e causa direta da violência contra as mulheres. Ou Junior não aprecia mulheres?

É público e notório, o feminismo – entre outras contribuições – provoca ou estimula 135 estupros diários e 12 assassinatos por dia *, além de incontáveis agressões, lesões e sofrimento psíquico.  O feminismo está na etiologia destas ocorrências. Basta, portanto, que seja eliminado como palavra e ideia nas escolas para queda natural, e inevitável, destes índices. É só não ensinar nada sobre feminismo que os índices desaparecerão. Junior, nunca suspeitei, encontrou a solução. Gênio das ciências sociais e do comportamento humano, comprometido com o enfrentamento da violência familiar – que assola os brasileiros independente de extrato ou renda – de pronto, sem meias medidas, solucionou um problema tão grave.

Foi muito além dos que desperdiçam tempo nas Universidades do país, nas áreas de saúde e assistência social, consumindo recursos preciosos e finitos. Junior foi ao ponto. A nítida má vontade de Junior e família com a Universidade se deve ao simples fato de que a investigação destes problemas pode ser descartada, sem prejuízo à sociedade. Junior sabe como resolver. Se a palavra desaparecer de todas as bocas, sumir das escolas e das ruas, as mulheres não serão mais agredidas, estupradas, humilhadas e mortas. O responsável direto por tais atrocidades é essa maldita coisa chamada feminismo.

Caríssimas, obedeçam, é mais seguro. Inclinem a cabeça, olhem para o chão, trabalhem fora para pagar as contas da família, cozinhem, limpem, lavem e passem, criem os filhos e os protejam das agressões e violações, e ao cumprir tal tarefa, como prêmio, podem, talvez, escapar do estupro e assassinato. Percebem como é simples? Vocês conseguem!

Comove testemunhar jovem congressista, emblema da renovação, comprometido com tal causa e, mais, propondo soluções. Surpreende que um moço jovem, forte, bonito, bem-nascido tenha se interessado, justamente, pela causa do feminismo. Ele se porta como um herói nacional. Junior nunca testemunhou ou viveu problemas vulgares de ameaça à vida da mulher, por ela querer terminar a relação. Totalmente desinteressado, mas, sentindo a dor dos que sofrem, procurou usar seu enorme poder para melhorar a vida das mulheres brasileiras. Junior é um altruísta!

Ainda me pergunto o que mais Junior pretende ao indicar a eliminação do “ensino” do feminismo? Porque, afinal, ao decretar a extinção do tema no Enem e no vestibular, ele aborda um dos problemas da educação: a diferença entre o exigido em provas e o ensinado em sala de aula, que leva ao desinteresse do aluno e evasão escolar. Mais uma preocupação de Junior que toca o nosso coração. O congressista demonstra interesse nos problemas da educação e aprendizagem do Brasil. Quem diria que um dia teríamos alguém tão importante, de notório saber, dando sua contribuição para solucionar os problemas do país.

Entendo que Junior como representante da população no legislativo não poderia atuar tão incisivamente nas diretrizes do Ministério da Educação, seara do Poder Executivo, mas, quando a causa é nobre – a propósito de seu pronunciamento fundamental e demonstração de responsabilidade para com a saúde física e psíquica das mulheres brasileiras -, vale quebrar as regras da república e embaralhar os três poderes.

É bem possível que Junior, ao enfrentar o espelho, perceba-se príncipe ou futuro regente. O primeiro na linha de sucessão ao trono, nas democracias modernas, muito pode. Vejam o príncipe Charles, príncipe de Gales e Duque da Cornualha, educado na Escócia e em Cambridge, portanto, menos afortunado que Junior, também cultiva o hábito de dar conselhos sobre ensino e temas de exames ao ministro da Educação do Reino Unido. No momento, dedica-se à missão de indicar, à primeira ministra, providências relativas a caça à raposa na primavera e arranjos florais adequados aos rigores do clima nos castelos do Atlântico Norte.

Mas, voltemos às contribuições de Junior ao país, constata-se ausência de manifestações contra o ensino do machismo, que deve, portanto, permanecer prestigiado nos currículos e constante nos exames vestibulares.

Junior, obrigada. Essa é a sociedade justa que desejamos. Agora temos norte!

* dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2017

Luciana Saddi é psicanalista e escritora, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, diretora de cultura e comunidade da SBPSP e autora dos livros “Alcoolismo” (ed. Blucher) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Imagem: Freepik

2 comentários

  1. Texto contundente Luciana. Gostei de ver posicionamento tão claro e direto. Uma satisfação ver uma psicanalista posicionar-se dessa maneira. Parabéns.

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