Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

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