Entre heteros, homos, cis, x e trans…

*Cecília Orsini

Caro leitor, você sabia que esta verdadeira revolução dos costumes na sociedade ocidental, no que diz respeito às opções sexuais, começa em fins do século XIX, com Freud?

Bem, seria um tanto restritivo atribuir somente a Freud o início dessa revolução, já que muitas coisas concorreram para isso. Um pensador recolhe os elementos de época, os articula e os coloca na vanguarda de uma transformação que virá. Portanto, vou me ater a expor como a questão da sexualidade humana é captada, recolhida e transformada radicalmente a partir de Freud.

Como essa história começa? Corria no meio médico de meados do século 19 que a masturbação infantil era uma das fontes privilegiadas da loucura. Foi um século prolífico em tratados sobre os “desvios” sexuais. Em contrapartida, também se dizia à boca pequena que as histéricas (que respondiam pela maior parte dos casos de neurose) adoeciam por falta de relações sexuais normais. Enfim, sexo estava na cabeça dos puritanos da era vitoriana.

A partir da instauração da escuta analítica no tratamento das neuroses, Freud passa a dar importância aos relatos de qualquer natureza, sobretudo aqueles que davam passagem aos conteúdos inconscientes, motores da neurose: sonhos, atos falhos e rememorações da infância. Enfim, o lado avesso da vida de vigília… De um lado Freud tinha essa ferramenta em mão, mais o caldo de cultura referente à preocupação com a sexualidade e sua repressão. Por outro lado, observava-se a exigência de relações sexuais normais para que não se adoecesse. Tudo isso somado concorreu para que Freud escutasse a neurose a partir desse lugar. Assim, surgiam nos relatos os mais diferentes tipos de manisfestação sexual, incluindo a infância, em pacientes insuspeitos de uma conduta sexual “desviante”.

Assim, para dar conta desse fenômeno, Freud vai elaborar uma nova e revolucionária teoria da sexualidade humana. Num golpe de gênio, Freud descola a libido, ou pulsão sexual – concebida como a expressão psíquica da energia sexual – de qualquer objeto de satisfação pré-determinado. Ou seja, não há nada no ser humano que garanta a heterossexualidade e nem a fidelidade a um mesmo parceiro como um padrão biológico da espécie. Aliás, Freud vai demonstrar que não existe um instinto sexual que oriente as opções sexuais.

Para dar conta dessa tese, Freud monta seu argumento de maneira radical e sagaz, na obra seminal “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”. Ele começa por fazer um inventário de variações sexuais, como homossexualidade, pedofilia, zoofilia, fetichismo.  Com isso vai desmontando a exclusividade de um objeto sexual convencionado como o correto, ou seja, o sexo oposto. Radicalizando ao máximo, Freud vai apelar para as mais repulsivas atividades sexuais, a necrofilia ou lamber excrementos, para demonstrar quão longe vai a distância da pulsão sexual em relação à heterossexualidade. A necrofilia seria o argumento decisivo onde se constata que a sexualidade pode abrigar objetos surpreendentes. E mais, ou o mais importante, é que as diferenças em relação à norma são encontráveis em pessoas comuns, em nada diferentes dos demais seres humanos, no que diz respeito a outros aspectos de seu comportamento. Freud convida o leitor a constatar a legitimidade das diferentes práticas sexuais que variam de acordo com a cultura, como a aceitação da homossexualidade na Grécia clássica. Ou da zoofilia no campo. Nos povos tutsis, o recém-nascido é recebido na comunidade numa cerimônia em que se serve uma refeição ritual preparada com as fezes do bebê…

O relativismo cultural, somado à constatação da variedade de escolhas, separa radicalmente libido e objeto de satisfação. Do ponto de vista da psicanálise, toda e qualquer atividade sexual é legítima, ainda que seja vista como imoral e condenável juridicamente, a depender dos valores éticos que cada sociedade estabelece (como a pedofilia ou a homossexualidade que até há pouco era criminalizada juridicamente). Para a psicanálise, dirá Freud, qualquer conduta está sujeita a explicações no interior de uma análise, até mesmo a escolha exclusiva de um parceiro do sexo oposto. A moralidade é uma convenção que se estabelece no contrato social, mas ela não elimina as peculiaridades do desejo humano. A libido é uma força plástica e elástica, capaz até de ser sublimada em atividades valorizadas pela cultura em tela. Colocam o bebezinho para manusear areia ou massinha, substituindo as fezes que costumam ser sua diversão.  E o bebê pode crescer e tornar-se um ceramista ou um escultor.

A questão é que – e esta é a outra face do argumento – o desejo tem uma história singular que começa no nascimento. É o que Freud vai chamar de sexualidade infantil, ou seja, a sexualidade não começa na puberdade. O que encontramos em nível do desejo sexual, são práticas cujo mapa da mina, ou do tesouro que é o prazer, encontram-se marcadas pela experiência da criança no encontro com o desejo daqueles que dela cuidam. O prazer acompanha as atividades de mamar, no primeiro ano de vida, que perduram no beijo e no sexo oral. Depois, no segundo ano de vida, reforça-se o interesse prazenteiro pelos movimentos esfincterianos, que perduram nos rituais de evacuação e no sexo anal. Vem a seguir, a partir de dois ou três anos, a  masturbação dos genitais que perduram no sexo solitário e, na criança, vinculam-se a  fantasias ligadas aos genitores, alvos das paixões da criança, que serão reprimidas pela educação e recalcadas no inconsciente. Essas chamadas fases do desenvolvimento psicossexual não são exatamente passagens de uma fase a outra, onde a anterior é eliminada. Pelo contrário, elas coexistem colorindo a sexualidade. De outro lado – e este aspecto é revolucionário e perturbador: o adulto cuidador traz as marcas de seu próprio desejo e lida com o corpo da criança orientado pelas mesmas. É desse encontro singular que se constrói a sexualidade, em conflito e na estreita dependência daquilo que é aceito socialmente.

Embora até a década de 70 a opção heterossexual fosse a única legítima, a revolução dos costumes foi se impondo.  Esse descolamento entre libido e escolha de objeto foi crucial. Foi revelado, construído como argumento e assim legitimado pela psicanálise. Na sua radicalidade, leva ao ponto em que estamos: pessoas que não querem definir-se nem sexualmente, nem enquanto gênero, instaurando o gênero neutro. Países que não colocam o gênero da criança em seu registro civil, creches em países escandinavos que usam o gênero neutro em suas práticas, como banheiros unissex com portas abertas. Como também se observa o aumento do número de pais que dão nomes unissex aos seus filhos.

No entanto, curiosamente, ou nem tanto, aquele que abriu as comportas dessa revolução, em seu tempo capitulou: afinal, porque na maioria casamos com alguém do sexo oposto e fazemos filhos? Para surpresa do leitor, Freud, nos seus “Três ensaios”, responde: pela necessidade biológica da espécie humana de “crescer e se multiplicar”… Era demais exigir que um único pensador, na alvorada do século 20, sustentasse sozinho uma revolução coletiva, que só viria a acontecer plenamente 120 anos depois…

Cecília Orsini é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de Freud no Instituto de Psicanálise da SBPSP.

(Imagem: Haafiz Shahimi – Confused Sexuality)

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