Mês: janeiro 2019

Memórias de Infância: um nó entre literatura e psicanálise

* Cristiana Tiradentes Boaventura

Nas ciências humanas, há um extenso campo que se debruça sobre os usos da memória e o estudo de como ela se constitui. Na literatura, alguns escritores se dedicaram mais de perto a esse tema e fazem da sua obra um importante espaço para reflexão sobre a memória, o testemunho e a autobiografia, espaço que o campo psicanalítico também ocupa. Escrever, pensar, falar sobre nossas próprias memórias é debruçarmos sobre nós mesmos. E parece claro que alguns autores literários conseguiram chegar perto, de modo rico e profundo, dessas arquiteturas psíquicas.

Graciliano Ramos faz isso muito bem. Costura com rigor o narrador no seu presente, no seu passado. No final do primeiro capítulo de seu livro Infância, por exemplo, em que perseguido pela “impertinência” da lembrança de um conto, que a mãe proseava com insistência, ele tenta lidar com os nós da memória. O teor desse texto nos remete à representação de uma violência destruidora, vingativa, e surge como memória problemática, saturada de dilemas, que o narrador insiste em marcar num jogo entre esquecer e lembrar. Assistimos a um conflito do adulto entre a tentativa de afastamento da lembrança e o esforço de resgatá-la.

O leitor toma conhecimento da temática de sofrimento e violência que se esboça na história oral quando ela é resumida pelo narrador. O enredo é basicamente o seguinte: um menino é adotado por um padre que tinha uma amante. Para não se comprometer e não ter sua história revelada pelo rapaz, o padre lhe ensinou signos linguísticos distintos para designar algumas palavras, de forma que se o pequeno falasse algo ninguém o entenderia. Com o tempo, o padre e a amante começaram a maltratá-lo, certos de que não seriam delatados. Acontece que, um dia, o menino decidiu vingar-se e coloca fogo na casa, escapulindo, gritando versos na linguagem que havia aprendido com o padre. Seguem-se, então, comentários do narrador vinculados aos sentimentos de infância:

Não se mencionou o gênero dos maus tratos, mas calculei que deviam assemelhar-se aos que meus pais me infligiam: bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelhas. Acostumaram-me a isto muito cedo — e em consequência admirei o menino pobre, que, depois de numerosos padecimentos, realizou feito notável. (RAMOS, 2009, p. 19)

É muito interessante observar como os versos da história, aos poucos, adquirem sentido e como o narrador atribuirá a eles um significado para o presente. O necessário é para o agora, que parece passar pela dificuldade em expor sentimentos ambivalentes, visto a insistência em esquecer, em evitar mostrar desejos que o envergonhavam no passado, em falar do tema violência. Mas, paradoxalmente, o narrador fixa-se nesses sentimentos e os expõe, apontando para uma construção narrativa corajosa em que vergonhas e constrangimentos de outros tempos se apresentam. De modo bidirecional, opera com a revisão desse passado:

Esta obra de arte popular até hoje se conservou inédita, creio eu. Foi uma dificuldade lembrar-me dela, porque a façanha do garoto me envergonhava talvez e precisei extingui-la. Ouvindo a modesta epopeia, com certeza desejei exibir energia e ferocidade. Infelizmente não tenho jeito para violência. Encolhido e silencioso, aguentando cascudos, limitei-me a aprovar a coragem do menino vingativo. (RAMOS, 2009, p. 19)

Essa revelação evidencia que o narrador não se propõe à construção de um passado limpo, ligado somente a sentimentos dignos e justos. A lembrança não vem sem sofrimento. E a relutância de lembrar ocorre porque é preciso admitir ali atitudes que para ele são condenáveis, principalmente a confissão de sua admiração pelo menino que age violentamente e do desejo de capacitar-se com a coragem e a ferocidade da personagem.

Esse pequeno exemplar da literatura oral serviu para uma reflexão sobre esse passado e para que agora possa se ver outro – ele não é mais aquele, há um caminho entre o menino e o adulto. Parece funcionar também como uma ferramenta de reterritorialização do presente, por onde o tom às vezes irônico alcançará caminho para lidar com o conceito de masculinidade daquela sociedade patriarcal em que cresceu.

A literatura, a narrativa ficcional, estaria funcionando aqui como mediadora entre a violência e o narrador. Ela interpõe-se entre os dois e serve como instrumento de elaboração. É pela narrativa que se dá a transformação. E ela cria o espaço devido para uma crítica da violência, crítica essa só possível pelo distanciamento do tempo, feita com uma escrita combativa àquela ordem social violenta.

Algumas construções discursivas foram necessárias no processo de reconstrução da história, como a fragmentação, a repetição e a resistência ao narrar, muito identificadas a situações de traumas, de modo que a interpretação do passado se aproxima do próprio processo de funcionamento da memória, com seus vazios e lacunas.

É ao escrever essa história, portanto, que Graciliano constrói para si um sentido entre esse conto e sua experiência, na medida em que criou uma relação interpretativa desse mundo do passado e o seu mundo como narrador-escritor. Esse movimento dialético possibilita a construção de uma “identidade narrativa” (RICOEUER). Afinal, para analisar o “homem psicanalítico” (HERMANN) muitas vezes é preciso acionar recursos da ficção literária. Nesse sentido, literatura e psicanálise se aproximam. E articulam experiências amalgamadas pela memória e pela narrativa.

Referências:

HERMANN, Fabio. A infância de Adão e outras ficções freudianas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

RAMOS, Graciliano. Infância.  44ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009.

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas, SP: Papirus, 1991.

Cristiana Tiradentes Boaventura é psicanalista, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela USP. É membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP e vinculada ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC/USP).

 

AMAMENTAÇÃO TEM ALGO A VER COM SEXUALIDADE?¹

* Denise de Sousa Feliciano

Quando uma menina percebe que seus botões mamilares incham, envergonha-se. O pudor se instaura no símbolo que o nascer do seio representa: torna-se aos poucos uma mulher. Em geral, vem acompanhado da menarca e dos demais sinais que transformam o corpo de menina no de uma mulher. E com ele será capaz de gerar um filho. O seio, então, é tanto o prenúncio quanto a própria consolidação de sua vida adulta.

A menina, agora adolescente, sente-se invadir por complexas emoções, sensações e um novo olhar dirigido à ela. Percebe que em sua nova roupagem captura os olhos masculinos de admiração e desejo. Um misto de incômodo e vaidade.

De símbolo, o seio aos poucos passa a fazer parte de sua vida sexual. As sensações no mamilo são fortes aliadas na excitação genital. O mesmo seio no qual o bebê vai mamar.

Amamentar por sua vez está associado à nutrição e também ao aconchego, ao carinho, à ternura e a outros adjetivos que denotam o relacionamento afetivo da mãe com seu bebê. E essa fusão entre as necessidades fisiológicas e emocionais torna essa – e todas as demais – experiências do corpo carregadas de significados e representações mentais que vão marcando a vida psíquica de cada pessoa.

As terminações nervosas do mamilo não mudam nas duas situações. Mas a mulher se vê diante de todo o engendramento mental que vai permitir que ela transforme psiquicamente as sensações de prazer genital de seus seios em uma experiência também prazerosa de ternura e amor. Não é um mecanismo mental simples. A condição de que essa organização flua está relacionada à sua história e à constituição de sua sexualidade. Soma-se à essa bagagem a dinâmica e história com o pai dessa criança e sua concepção. Marcas que ela nem mesmo pode acessar conscientemente, mas que são fatores importantes no modo como o lugar da criança e da amamentação vão se consolidar.

Um processo semelhante acontece com o homem, que precisará ver no mesmo seio erótico que o cativa, a fonte de nutrição e aconchego para seu filho, marca primária do prazer para o bebê, que nessa experiência inaugura a sua própria sexualidade.

Freud (1905)  em um de seus artigos mais importantes – Três ensaios para a teoria da sexualidade infantil –, apresentou-nos a construção da sexualidade humana que se inicia no prazer de mamar para o bebê. A boca, sua primeira zona erógena pela sensibilidade exacerbada nos primeiros meses, favorece que ele tenha grande satisfação ao mamar, garantindo a sua sobrevivência. Zona erógena para a Psicanálise está ligada à energia vital ou libido.

Na compreensão psicanalítica, sexualidade não se restringe à atividade genital e abrange um sistema complexo que envolve o corpo, as relações interpessoais e toda a cadeia de representações que constitui a vida psíquica do ser humano. É vital.

O prazer compartilhado e dual da mãe e do bebê na amamentação é sexualidade. Mas tem diferenças importantes do ponto de vista do bebê e  da mãe.

A sexualidade infantil tem características próprias de um psiquismo em constituição. Não é a mesma dos adultos. De qualquer modo, a finalidade é a mesma: o prazer, que é o motor da vida mental saudável e precisa ser experimentado pelo indivíduo desde o nascimento, mas dentro do caráter próprio de cada fase do desenvolvimento psicoemocional.

Libido, que no senso comum tornou-se sinônimo do desejo sexual da vida adulta, em termos psíquicos é o que garante a ligação das pessoas  com seus interesses e as mantém em movimento vital. Um bebê para ser saudável precisa ser libidinizado por seus pais, sendo para eles o centro de suas atenções e interesses durante a primeira etapa de vida. Isso funda na criança a capacidade de amar e se vincular.

Com base nessas premissas fundamentais, o pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott desenvolveu sua Teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo, atribuindo fundamental importância ao psiquismo da mãe e às vivencias psicoemocionais da dupla, com o suporte afetivo do pai, como fatores intrínsecos à saúde global do indivíduo.

Para Winnicott (1968/1994), é uma grande riqueza a amamentação vivida tanto pela mãe quanto pelo bebê de forma plena e prazerosa. Ao entregar uma parte de seu corpo ao contato da mucosa bucal do bebê, a mãe favorece uma experiência de união e intimidade sem igual.

Para a psicanalista inglesa Melanie Klein (1936/1997), no prazer experimentado pelo bebê pela estimulação em sua mucosa bucal no ato de sugar o seio materno estariam as raízes da sexualidade. As sensações de desequilíbrio interno provocadas pela fome ocupariam lugar de primazia nesta primeira fase da infância. O bebê pequeno estabeleceria com a mãe um contato parcial através do seio tomando o seio gratificante – portador do alimento que sacia a fome -, como bom e o que frustra, como mau. Essa ambigüidade de sentimentos dessa relação com o seio-mãe seria responsável pelas diversas fantasias inconscientes que vão consolidando as relações do bebê com seus pais, e que posteriormente servirão de protótipo aos demais relacionamentos.

Apesar das variações no enfoque de cada autor, é unânime a afirmação de que o cerne da constituição do psiquismo estaria fundamentado na vivência de prazer compartilhado na primeira infância. A amamentação como o ícone dessa etapa de vida pode ser a pedra fundamental desse percurso.

O pai tem importante papel na sustentação da dupla mãe-bebê, que vive essa intensa experiência compartilhada. É importante que ele próprio não esteja excessivamente incomodado e impossibilitado de tolerar ser excluído dessa dualidade, para que aos poucos se construa uma nova relação triangular que lhe inclua. Nesse momento, suas próprias vivências infantis serão o esteio no qual ele se apoiará ou não para esse lugar primordial na relação com sua família atual.

É comum os homens sentirem-se enciumados da relação do filho com sua esposa, seja porque se sente excluído do prazer que percebe haver entre eles, seja porque precisa temporariamente abster-se da sexualidade genital do casal, que fica ofuscada ante à temporária substituição do prazer erótico genital da mulher pela plenitude que a ternura ocupa em sua sexualidade. Entretanto, esse período precisa terminar e a mulher afastar-se um pouco dessa espécie de fusão com seu filho e voltar-se também para o casal parental. Esse afastamento gradual que tem seu apogeu no desmame permite ao bebê o espaço de desenvolvimento psíquico necessário, ainda que seja um período de dor e luto para todos. É a vivencia de luto que permite ao bebê se constituir como pessoa.

[1] Título inspirado no artigo de André Green “Sexualidade tem algo a ver com Psicanálise?” (1995) Livro Anual de Psicanálise, 1995; v.11 p.217-29 São Paulo : Escuta, 1997.

REFERÊNCIAS

Freud, S. (1969). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J.Salomão, trad.,Vol. VII). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1905)

Klein, M ( 1997). O desmame In Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1936)

Winnicott, DW. (1994). A amamentação como forma de comunicação In Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1968).

Denise de Sousa Feliciano é psicóloga e psicanalista, mestre e doutora pelo IPUSP-SP em pesquisas sobre amamentação e psiquismo, membro associado da SBPSP.

Imagem: Obra “Maternity”, de Pablo Picasso

 

Atualidades pedagógicas: o pensamento de vanguarda de Junior Bolsonaro

* Luciana Saddi

Como cantou Vinicius de Morais “hay dias que no sé lo que passa…”, e me pergunto o que teria em mente Bolsonaro Jr. no momento que utilizou redes sociais para ordenar (sic) o final do “ensino” do feminismo nas escolas. Difícil entender. Há nas escolas a disciplina “Feminismo”? Junior é especialista em currículos? É surpreendente! Junior pretendeu propor apenas a supressão do substantivo masculino (ironia) – que significa ampliar e aprimorar o papel e os direitos das mulheres na sociedade – no ambiente escolar?  Ou pretendeu estender os seus domínios para eliminar a palavra, censurar seus sinônimos em dicionários, sites, blogs e redes sociais? É possível censurar a palavra, mas não acredito que seja possível censurar seu significado. Imagino, se é que captei o sentido da ação, que Junior considere feminismo alguma anomalia e causa direta da violência contra as mulheres. Ou Junior não aprecia mulheres?

É público e notório, o feminismo – entre outras contribuições – provoca ou estimula 135 estupros diários e 12 assassinatos por dia *, além de incontáveis agressões, lesões e sofrimento psíquico.  O feminismo está na etiologia destas ocorrências. Basta, portanto, que seja eliminado como palavra e ideia nas escolas para queda natural, e inevitável, destes índices. É só não ensinar nada sobre feminismo que os índices desaparecerão. Junior, nunca suspeitei, encontrou a solução. Gênio das ciências sociais e do comportamento humano, comprometido com o enfrentamento da violência familiar – que assola os brasileiros independente de extrato ou renda – de pronto, sem meias medidas, solucionou um problema tão grave.

Foi muito além dos que desperdiçam tempo nas Universidades do país, nas áreas de saúde e assistência social, consumindo recursos preciosos e finitos. Junior foi ao ponto. A nítida má vontade de Junior e família com a Universidade se deve ao simples fato de que a investigação destes problemas pode ser descartada, sem prejuízo à sociedade. Junior sabe como resolver. Se a palavra desaparecer de todas as bocas, sumir das escolas e das ruas, as mulheres não serão mais agredidas, estupradas, humilhadas e mortas. O responsável direto por tais atrocidades é essa maldita coisa chamada feminismo.

Caríssimas, obedeçam, é mais seguro. Inclinem a cabeça, olhem para o chão, trabalhem fora para pagar as contas da família, cozinhem, limpem, lavem e passem, criem os filhos e os protejam das agressões e violações, e ao cumprir tal tarefa, como prêmio, podem, talvez, escapar do estupro e assassinato. Percebem como é simples? Vocês conseguem!

Comove testemunhar jovem congressista, emblema da renovação, comprometido com tal causa e, mais, propondo soluções. Surpreende que um moço jovem, forte, bonito, bem-nascido tenha se interessado, justamente, pela causa do feminismo. Ele se porta como um herói nacional. Junior nunca testemunhou ou viveu problemas vulgares de ameaça à vida da mulher, por ela querer terminar a relação. Totalmente desinteressado, mas, sentindo a dor dos que sofrem, procurou usar seu enorme poder para melhorar a vida das mulheres brasileiras. Junior é um altruísta!

Ainda me pergunto o que mais Junior pretende ao indicar a eliminação do “ensino” do feminismo? Porque, afinal, ao decretar a extinção do tema no Enem e no vestibular, ele aborda um dos problemas da educação: a diferença entre o exigido em provas e o ensinado em sala de aula, que leva ao desinteresse do aluno e evasão escolar. Mais uma preocupação de Junior que toca o nosso coração. O congressista demonstra interesse nos problemas da educação e aprendizagem do Brasil. Quem diria que um dia teríamos alguém tão importante, de notório saber, dando sua contribuição para solucionar os problemas do país.

Entendo que Junior como representante da população no legislativo não poderia atuar tão incisivamente nas diretrizes do Ministério da Educação, seara do Poder Executivo, mas, quando a causa é nobre – a propósito de seu pronunciamento fundamental e demonstração de responsabilidade para com a saúde física e psíquica das mulheres brasileiras -, vale quebrar as regras da república e embaralhar os três poderes.

É bem possível que Junior, ao enfrentar o espelho, perceba-se príncipe ou futuro regente. O primeiro na linha de sucessão ao trono, nas democracias modernas, muito pode. Vejam o príncipe Charles, príncipe de Gales e Duque da Cornualha, educado na Escócia e em Cambridge, portanto, menos afortunado que Junior, também cultiva o hábito de dar conselhos sobre ensino e temas de exames ao ministro da Educação do Reino Unido. No momento, dedica-se à missão de indicar, à primeira ministra, providências relativas a caça à raposa na primavera e arranjos florais adequados aos rigores do clima nos castelos do Atlântico Norte.

Mas, voltemos às contribuições de Junior ao país, constata-se ausência de manifestações contra o ensino do machismo, que deve, portanto, permanecer prestigiado nos currículos e constante nos exames vestibulares.

Junior, obrigada. Essa é a sociedade justa que desejamos. Agora temos norte!

* dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2017

Luciana Saddi é psicanalista e escritora, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, diretora de cultura e comunidade da SBPSP e autora dos livros “Alcoolismo” (ed. Blucher) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Imagem: Freepik

Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Entre heteros, homos, cis, x e trans…

*Cecília Orsini

Caro leitor, você sabia que esta verdadeira revolução dos costumes na sociedade ocidental, no que diz respeito às opções sexuais, começa em fins do século XIX, com Freud?

Bem, seria um tanto restritivo atribuir somente a Freud o início dessa revolução, já que muitas coisas concorreram para isso. Um pensador recolhe os elementos de época, os articula e os coloca na vanguarda de uma transformação que virá. Portanto, vou me ater a expor como a questão da sexualidade humana é captada, recolhida e transformada radicalmente a partir de Freud.

Como essa história começa? Corria no meio médico de meados do século 19 que a masturbação infantil era uma das fontes privilegiadas da loucura. Foi um século prolífico em tratados sobre os “desvios” sexuais. Em contrapartida, também se dizia à boca pequena que as histéricas (que respondiam pela maior parte dos casos de neurose) adoeciam por falta de relações sexuais normais. Enfim, sexo estava na cabeça dos puritanos da era vitoriana.

A partir da instauração da escuta analítica no tratamento das neuroses, Freud passa a dar importância aos relatos de qualquer natureza, sobretudo aqueles que davam passagem aos conteúdos inconscientes, motores da neurose: sonhos, atos falhos e rememorações da infância. Enfim, o lado avesso da vida de vigília… De um lado Freud tinha essa ferramenta em mão, mais o caldo de cultura referente à preocupação com a sexualidade e sua repressão. Por outro lado, observava-se a exigência de relações sexuais normais para que não se adoecesse. Tudo isso somado concorreu para que Freud escutasse a neurose a partir desse lugar. Assim, surgiam nos relatos os mais diferentes tipos de manisfestação sexual, incluindo a infância, em pacientes insuspeitos de uma conduta sexual “desviante”.

Assim, para dar conta desse fenômeno, Freud vai elaborar uma nova e revolucionária teoria da sexualidade humana. Num golpe de gênio, Freud descola a libido, ou pulsão sexual – concebida como a expressão psíquica da energia sexual – de qualquer objeto de satisfação pré-determinado. Ou seja, não há nada no ser humano que garanta a heterossexualidade e nem a fidelidade a um mesmo parceiro como um padrão biológico da espécie. Aliás, Freud vai demonstrar que não existe um instinto sexual que oriente as opções sexuais.

Para dar conta dessa tese, Freud monta seu argumento de maneira radical e sagaz, na obra seminal “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”. Ele começa por fazer um inventário de variações sexuais, como homossexualidade, pedofilia, zoofilia, fetichismo.  Com isso vai desmontando a exclusividade de um objeto sexual convencionado como o correto, ou seja, o sexo oposto. Radicalizando ao máximo, Freud vai apelar para as mais repulsivas atividades sexuais, a necrofilia ou lamber excrementos, para demonstrar quão longe vai a distância da pulsão sexual em relação à heterossexualidade. A necrofilia seria o argumento decisivo onde se constata que a sexualidade pode abrigar objetos surpreendentes. E mais, ou o mais importante, é que as diferenças em relação à norma são encontráveis em pessoas comuns, em nada diferentes dos demais seres humanos, no que diz respeito a outros aspectos de seu comportamento. Freud convida o leitor a constatar a legitimidade das diferentes práticas sexuais que variam de acordo com a cultura, como a aceitação da homossexualidade na Grécia clássica. Ou da zoofilia no campo. Nos povos tutsis, o recém-nascido é recebido na comunidade numa cerimônia em que se serve uma refeição ritual preparada com as fezes do bebê…

O relativismo cultural, somado à constatação da variedade de escolhas, separa radicalmente libido e objeto de satisfação. Do ponto de vista da psicanálise, toda e qualquer atividade sexual é legítima, ainda que seja vista como imoral e condenável juridicamente, a depender dos valores éticos que cada sociedade estabelece (como a pedofilia ou a homossexualidade que até há pouco era criminalizada juridicamente). Para a psicanálise, dirá Freud, qualquer conduta está sujeita a explicações no interior de uma análise, até mesmo a escolha exclusiva de um parceiro do sexo oposto. A moralidade é uma convenção que se estabelece no contrato social, mas ela não elimina as peculiaridades do desejo humano. A libido é uma força plástica e elástica, capaz até de ser sublimada em atividades valorizadas pela cultura em tela. Colocam o bebezinho para manusear areia ou massinha, substituindo as fezes que costumam ser sua diversão.  E o bebê pode crescer e tornar-se um ceramista ou um escultor.

A questão é que – e esta é a outra face do argumento – o desejo tem uma história singular que começa no nascimento. É o que Freud vai chamar de sexualidade infantil, ou seja, a sexualidade não começa na puberdade. O que encontramos em nível do desejo sexual, são práticas cujo mapa da mina, ou do tesouro que é o prazer, encontram-se marcadas pela experiência da criança no encontro com o desejo daqueles que dela cuidam. O prazer acompanha as atividades de mamar, no primeiro ano de vida, que perduram no beijo e no sexo oral. Depois, no segundo ano de vida, reforça-se o interesse prazenteiro pelos movimentos esfincterianos, que perduram nos rituais de evacuação e no sexo anal. Vem a seguir, a partir de dois ou três anos, a  masturbação dos genitais que perduram no sexo solitário e, na criança, vinculam-se a  fantasias ligadas aos genitores, alvos das paixões da criança, que serão reprimidas pela educação e recalcadas no inconsciente. Essas chamadas fases do desenvolvimento psicossexual não são exatamente passagens de uma fase a outra, onde a anterior é eliminada. Pelo contrário, elas coexistem colorindo a sexualidade. De outro lado – e este aspecto é revolucionário e perturbador: o adulto cuidador traz as marcas de seu próprio desejo e lida com o corpo da criança orientado pelas mesmas. É desse encontro singular que se constrói a sexualidade, em conflito e na estreita dependência daquilo que é aceito socialmente.

Embora até a década de 70 a opção heterossexual fosse a única legítima, a revolução dos costumes foi se impondo.  Esse descolamento entre libido e escolha de objeto foi crucial. Foi revelado, construído como argumento e assim legitimado pela psicanálise. Na sua radicalidade, leva ao ponto em que estamos: pessoas que não querem definir-se nem sexualmente, nem enquanto gênero, instaurando o gênero neutro. Países que não colocam o gênero da criança em seu registro civil, creches em países escandinavos que usam o gênero neutro em suas práticas, como banheiros unissex com portas abertas. Como também se observa o aumento do número de pais que dão nomes unissex aos seus filhos.

No entanto, curiosamente, ou nem tanto, aquele que abriu as comportas dessa revolução, em seu tempo capitulou: afinal, porque na maioria casamos com alguém do sexo oposto e fazemos filhos? Para surpresa do leitor, Freud, nos seus “Três ensaios”, responde: pela necessidade biológica da espécie humana de “crescer e se multiplicar”… Era demais exigir que um único pensador, na alvorada do século 20, sustentasse sozinho uma revolução coletiva, que só viria a acontecer plenamente 120 anos depois…

Cecília Orsini é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de Freud no Instituto de Psicanálise da SBPSP.

(Imagem: Haafiz Shahimi – Confused Sexuality)