Mês: janeiro 2019

Atualidades pedagógicas: o pensamento de vanguarda de Junior Bolsonaro

* Luciana Saddi

Como cantou Vinicius de Morais “hay dias que no sé lo que passa…”, e me pergunto o que teria em mente Bolsonaro Jr. no momento que utilizou redes sociais para ordenar (sic) o final do “ensino” do feminismo nas escolas. Difícil entender. Há nas escolas a disciplina “Feminismo”? Junior é especialista em currículos? É surpreendente! Junior pretendeu propor apenas a supressão do substantivo masculino (ironia) – que significa ampliar e aprimorar o papel e os direitos das mulheres na sociedade – no ambiente escolar?  Ou pretendeu estender os seus domínios para eliminar a palavra, censurar seus sinônimos em dicionários, sites, blogs e redes sociais? É possível censurar a palavra, mas não acredito que seja possível censurar seu significado. Imagino, se é que captei o sentido da ação, que Junior considere feminismo alguma anomalia e causa direta da violência contra as mulheres. Ou Junior não aprecia mulheres?

É público e notório, o feminismo – entre outras contribuições – provoca ou estimula 135 estupros diários e 12 assassinatos por dia *, além de incontáveis agressões, lesões e sofrimento psíquico.  O feminismo está na etiologia destas ocorrências. Basta, portanto, que seja eliminado como palavra e ideia nas escolas para queda natural, e inevitável, destes índices. É só não ensinar nada sobre feminismo que os índices desaparecerão. Junior, nunca suspeitei, encontrou a solução. Gênio das ciências sociais e do comportamento humano, comprometido com o enfrentamento da violência familiar – que assola os brasileiros independente de extrato ou renda – de pronto, sem meias medidas, solucionou um problema tão grave.

Foi muito além dos que desperdiçam tempo nas Universidades do país, nas áreas de saúde e assistência social, consumindo recursos preciosos e finitos. Junior foi ao ponto. A nítida má vontade de Junior e família com a Universidade se deve ao simples fato de que a investigação destes problemas pode ser descartada, sem prejuízo à sociedade. Junior sabe como resolver. Se a palavra desaparecer de todas as bocas, sumir das escolas e das ruas, as mulheres não serão mais agredidas, estupradas, humilhadas e mortas. O responsável direto por tais atrocidades é essa maldita coisa chamada feminismo.

Caríssimas, obedeçam, é mais seguro. Inclinem a cabeça, olhem para o chão, trabalhem fora para pagar as contas da família, cozinhem, limpem, lavem e passem, criem os filhos e os protejam das agressões e violações, e ao cumprir tal tarefa, como prêmio, podem, talvez, escapar do estupro e assassinato. Percebem como é simples? Vocês conseguem!

Comove testemunhar jovem congressista, emblema da renovação, comprometido com tal causa e, mais, propondo soluções. Surpreende que um moço jovem, forte, bonito, bem-nascido tenha se interessado, justamente, pela causa do feminismo. Ele se porta como um herói nacional. Junior nunca testemunhou ou viveu problemas vulgares de ameaça à vida da mulher, por ela querer terminar a relação. Totalmente desinteressado, mas, sentindo a dor dos que sofrem, procurou usar seu enorme poder para melhorar a vida das mulheres brasileiras. Junior é um altruísta!

Ainda me pergunto o que mais Junior pretende ao indicar a eliminação do “ensino” do feminismo? Porque, afinal, ao decretar a extinção do tema no Enem e no vestibular, ele aborda um dos problemas da educação: a diferença entre o exigido em provas e o ensinado em sala de aula, que leva ao desinteresse do aluno e evasão escolar. Mais uma preocupação de Junior que toca o nosso coração. O congressista demonstra interesse nos problemas da educação e aprendizagem do Brasil. Quem diria que um dia teríamos alguém tão importante, de notório saber, dando sua contribuição para solucionar os problemas do país.

Entendo que Junior como representante da população no legislativo não poderia atuar tão incisivamente nas diretrizes do Ministério da Educação, seara do Poder Executivo, mas, quando a causa é nobre – a propósito de seu pronunciamento fundamental e demonstração de responsabilidade para com a saúde física e psíquica das mulheres brasileiras -, vale quebrar as regras da república e embaralhar os três poderes.

É bem possível que Junior, ao enfrentar o espelho, perceba-se príncipe ou futuro regente. O primeiro na linha de sucessão ao trono, nas democracias modernas, muito pode. Vejam o príncipe Charles, príncipe de Gales e Duque da Cornualha, educado na Escócia e em Cambridge, portanto, menos afortunado que Junior, também cultiva o hábito de dar conselhos sobre ensino e temas de exames ao ministro da Educação do Reino Unido. No momento, dedica-se à missão de indicar, à primeira ministra, providências relativas a caça à raposa na primavera e arranjos florais adequados aos rigores do clima nos castelos do Atlântico Norte.

Mas, voltemos às contribuições de Junior ao país, constata-se ausência de manifestações contra o ensino do machismo, que deve, portanto, permanecer prestigiado nos currículos e constante nos exames vestibulares.

Junior, obrigada. Essa é a sociedade justa que desejamos. Agora temos norte!

* dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2017

Luciana Saddi é psicanalista e escritora, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, diretora de cultura e comunidade da SBPSP e autora dos livros “Alcoolismo” (ed. Blucher) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Imagem: Freepik

Sobre os dias de hoje

* Gizela Turkiewicz

Na política e na vida cotidiana, vivemos tempos de intolerância e de polarizações. Quando alguém vem ao nosso encontro, traz consigo uma parte do seu mundo lá de fora, e nós, analistas, também somos permeados por nossas experiências. A escuta analítica não se restringe à sala de análise, mas pode ser ampliada ao nos atentarmos para os acontecimentos do mundo ao redor, numa espécie de escuta da cultura, da qual todos somos sujeitos. Qualquer ameaça à democracia, ao livre pensamento e aos direitos básicos da humanidade, afeta a todos nós.

Hoje, eu atendi uma menina, uma moça, uma mulher. Ela chorou pela travesti do Arouche, pelo estudante queimado com ferro, pela mulher marcada com a suástica, por alguém morrendo a facadas. Como alguém é capaz de perseguir outro alguém e o matar com facadas? Será que eles não veem?

Chorou de medo e de decepção. Medo de ser atacada, violentada, de ter seus direitos roubados, de perder a liberdade, de não poder decidir. Medo de não mais existir. Não era medo da morte morrida, mas de ser apagada, anulada, desconsiderada, exilada. Exilada sem sair do país, exilada num isolamento onde ninguém a vê ou escuta.

Decepcionada, horrorizada com a liberdade ameaçada, a violência amenizada, com a relativização da barbárie, com o lugar a que já estamos. A que ponto chegamos? Isso já é triste, é muito triste termos chegado até aqui.

No divã, ela chorou lágrimas de decepção, de medo, de indignação; por não acreditar. Lágrimas de preocupação pelo amigo gay, pela mãe ativista, pelo pai professor, pelo namorado ateu, pela turma feminista, pelo colega cotista, por aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Eu gostaria de ter algo a dizer. Eu gostaria de poder fazer uma associação que falasse sobre seu mundo interno, ou sobre algo que lhe fosse muito particular. Mas eu não pude. A única coisa que eu poderia oferecer a ela naquele momento era minha solidariedade.

Essa mulher poderia ser minha filha, minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga ou uma desconhecida. Poderia ser eu ou você. Poderia ser todas e qualquer uma nós. Isso nos diz respeito.

Gizela Turkiewicz é psiquiatra e psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Entre heteros, homos, cis, x e trans…

*Cecília Orsini

Caro leitor, você sabia que esta verdadeira revolução dos costumes na sociedade ocidental, no que diz respeito às opções sexuais, começa em fins do século XIX, com Freud?

Bem, seria um tanto restritivo atribuir somente a Freud o início dessa revolução, já que muitas coisas concorreram para isso. Um pensador recolhe os elementos de época, os articula e os coloca na vanguarda de uma transformação que virá. Portanto, vou me ater a expor como a questão da sexualidade humana é captada, recolhida e transformada radicalmente a partir de Freud.

Como essa história começa? Corria no meio médico de meados do século 19 que a masturbação infantil era uma das fontes privilegiadas da loucura. Foi um século prolífico em tratados sobre os “desvios” sexuais. Em contrapartida, também se dizia à boca pequena que as histéricas (que respondiam pela maior parte dos casos de neurose) adoeciam por falta de relações sexuais normais. Enfim, sexo estava na cabeça dos puritanos da era vitoriana.

A partir da instauração da escuta analítica no tratamento das neuroses, Freud passa a dar importância aos relatos de qualquer natureza, sobretudo aqueles que davam passagem aos conteúdos inconscientes, motores da neurose: sonhos, atos falhos e rememorações da infância. Enfim, o lado avesso da vida de vigília… De um lado Freud tinha essa ferramenta em mão, mais o caldo de cultura referente à preocupação com a sexualidade e sua repressão. Por outro lado, observava-se a exigência de relações sexuais normais para que não se adoecesse. Tudo isso somado concorreu para que Freud escutasse a neurose a partir desse lugar. Assim, surgiam nos relatos os mais diferentes tipos de manisfestação sexual, incluindo a infância, em pacientes insuspeitos de uma conduta sexual “desviante”.

Assim, para dar conta desse fenômeno, Freud vai elaborar uma nova e revolucionária teoria da sexualidade humana. Num golpe de gênio, Freud descola a libido, ou pulsão sexual – concebida como a expressão psíquica da energia sexual – de qualquer objeto de satisfação pré-determinado. Ou seja, não há nada no ser humano que garanta a heterossexualidade e nem a fidelidade a um mesmo parceiro como um padrão biológico da espécie. Aliás, Freud vai demonstrar que não existe um instinto sexual que oriente as opções sexuais.

Para dar conta dessa tese, Freud monta seu argumento de maneira radical e sagaz, na obra seminal “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”. Ele começa por fazer um inventário de variações sexuais, como homossexualidade, pedofilia, zoofilia, fetichismo.  Com isso vai desmontando a exclusividade de um objeto sexual convencionado como o correto, ou seja, o sexo oposto. Radicalizando ao máximo, Freud vai apelar para as mais repulsivas atividades sexuais, a necrofilia ou lamber excrementos, para demonstrar quão longe vai a distância da pulsão sexual em relação à heterossexualidade. A necrofilia seria o argumento decisivo onde se constata que a sexualidade pode abrigar objetos surpreendentes. E mais, ou o mais importante, é que as diferenças em relação à norma são encontráveis em pessoas comuns, em nada diferentes dos demais seres humanos, no que diz respeito a outros aspectos de seu comportamento. Freud convida o leitor a constatar a legitimidade das diferentes práticas sexuais que variam de acordo com a cultura, como a aceitação da homossexualidade na Grécia clássica. Ou da zoofilia no campo. Nos povos tutsis, o recém-nascido é recebido na comunidade numa cerimônia em que se serve uma refeição ritual preparada com as fezes do bebê…

O relativismo cultural, somado à constatação da variedade de escolhas, separa radicalmente libido e objeto de satisfação. Do ponto de vista da psicanálise, toda e qualquer atividade sexual é legítima, ainda que seja vista como imoral e condenável juridicamente, a depender dos valores éticos que cada sociedade estabelece (como a pedofilia ou a homossexualidade que até há pouco era criminalizada juridicamente). Para a psicanálise, dirá Freud, qualquer conduta está sujeita a explicações no interior de uma análise, até mesmo a escolha exclusiva de um parceiro do sexo oposto. A moralidade é uma convenção que se estabelece no contrato social, mas ela não elimina as peculiaridades do desejo humano. A libido é uma força plástica e elástica, capaz até de ser sublimada em atividades valorizadas pela cultura em tela. Colocam o bebezinho para manusear areia ou massinha, substituindo as fezes que costumam ser sua diversão.  E o bebê pode crescer e tornar-se um ceramista ou um escultor.

A questão é que – e esta é a outra face do argumento – o desejo tem uma história singular que começa no nascimento. É o que Freud vai chamar de sexualidade infantil, ou seja, a sexualidade não começa na puberdade. O que encontramos em nível do desejo sexual, são práticas cujo mapa da mina, ou do tesouro que é o prazer, encontram-se marcadas pela experiência da criança no encontro com o desejo daqueles que dela cuidam. O prazer acompanha as atividades de mamar, no primeiro ano de vida, que perduram no beijo e no sexo oral. Depois, no segundo ano de vida, reforça-se o interesse prazenteiro pelos movimentos esfincterianos, que perduram nos rituais de evacuação e no sexo anal. Vem a seguir, a partir de dois ou três anos, a  masturbação dos genitais que perduram no sexo solitário e, na criança, vinculam-se a  fantasias ligadas aos genitores, alvos das paixões da criança, que serão reprimidas pela educação e recalcadas no inconsciente. Essas chamadas fases do desenvolvimento psicossexual não são exatamente passagens de uma fase a outra, onde a anterior é eliminada. Pelo contrário, elas coexistem colorindo a sexualidade. De outro lado – e este aspecto é revolucionário e perturbador: o adulto cuidador traz as marcas de seu próprio desejo e lida com o corpo da criança orientado pelas mesmas. É desse encontro singular que se constrói a sexualidade, em conflito e na estreita dependência daquilo que é aceito socialmente.

Embora até a década de 70 a opção heterossexual fosse a única legítima, a revolução dos costumes foi se impondo.  Esse descolamento entre libido e escolha de objeto foi crucial. Foi revelado, construído como argumento e assim legitimado pela psicanálise. Na sua radicalidade, leva ao ponto em que estamos: pessoas que não querem definir-se nem sexualmente, nem enquanto gênero, instaurando o gênero neutro. Países que não colocam o gênero da criança em seu registro civil, creches em países escandinavos que usam o gênero neutro em suas práticas, como banheiros unissex com portas abertas. Como também se observa o aumento do número de pais que dão nomes unissex aos seus filhos.

No entanto, curiosamente, ou nem tanto, aquele que abriu as comportas dessa revolução, em seu tempo capitulou: afinal, porque na maioria casamos com alguém do sexo oposto e fazemos filhos? Para surpresa do leitor, Freud, nos seus “Três ensaios”, responde: pela necessidade biológica da espécie humana de “crescer e se multiplicar”… Era demais exigir que um único pensador, na alvorada do século 20, sustentasse sozinho uma revolução coletiva, que só viria a acontecer plenamente 120 anos depois…

Cecília Orsini é psicanalista e membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de Freud no Instituto de Psicanálise da SBPSP.

(Imagem: Haafiz Shahimi – Confused Sexuality)