Sobre o Ressentimento

*Nilde J. Parada Franch

Tenho observado nos muitos anos de experiência clínica que o ressentimento é um fator bastante presente nas situações de parada e fixação em certas etapas do desenvolvimento emocional.

Os efeitos devastadores do rancor consequente ao ressentimento já foram assinalados há 25 séculos por Heráclito de Éfeso (540 AC): “Há que mostrar maior rapidez em acalmar um ressentimento do que em apagar um incêndio, pois as consequências do primeiro são infinitamente mais perigosas do que os resultados do último”.

O ressentimento provoca a permanência em um tempo de ruminação indigesta de uma ofensa que não cessa, de um luto que não se consegue elaborar, podendo trazer consigo a sede de vingança. Por outro lado, o ressentimento também pode abrigar uma esperança de o indivíduo lutar para instalar ou reinstalar o sentido da dignidade ferida.

O rancor pode mobilizar fantasias e ideias destrutivas, mas também favorecer o aparecimento de uma rebeldia e de um trabalho psíquico sublimatório que poderiam levar a restaurar as feridas provenientes de situações traumáticas.

Sándor Márai, escritor húngaro, aborda em seus livros temas sobre amor, segredos, ofensas, traições, perdão, vingança, compaixão e também ressentimento. Em “As Brasas”, conta-nos o último encontro de dois homens de mais de 75 anos, amigos inseparáveis na juventude. Depois de um afastamento de 41 anos, em consequência da traição do amigo com sua esposa, encontram-se para uma última conversa. Desde o momento da ruptura, interpuseram-se na linha do tempo as memórias do rancor e da dor, sem que pudessem falar sobre a situação. A traição da amizade, a infelicidade e o desconhecimento em relação à verdade fizeram com que Henrik, o ressentido, o desejante de vingança, aquele que se refugiava no rancor e na dor, permanecesse sequestrado por um ressentimento interminável, habitado por lutos patológicos que detiveram a passagem do tempo e o retiveram numa posição de reclamante litigioso, queixoso e reivindicativo. Não podia olhar para frente; seus olhos estavam como que “em sua nuca”, olhando apenas para a ofensa passada.

A grande amizade que os unira no passado mantinha alguma esperança de entendimento entre eles.

Márai e outros autores, como o filósofo Agamben e o escritor Octavio Paz, destacam a amizade como importantíssimo sentimento que marca a sensação de ser e de existir. ,

Através da memória da traição, do desapontamento, a pessoa permanece atada a situações traumáticas. Os sentimentos permanecem no campo do automatismo de repetição, sem poder reviver os afetos, integrando-os numa nova estrutura. O passado assombra e não há espaço para uma perspectiva diferente, para um futuro a ser construído. A pessoa vive em estado de precariedade, pois falta-lhe o sentimento de pertinência e de confiança. Não consegue estabelecer vínculos confiáveis e estáveis, já que está sempre presente o pavor de um novo trauma. Não consegue viver em paz. “Sinto-me como alguém que foi atirado em uma cela, como vítima, pois não fui consultado, não escolhi isso. Tenho que esperar o tempo de cumprir a pena” – são palavras que revelam o sofrimento e a consciência do tempo que leva à elaboração de tantos sentimentos contraditórios!

A memória da dor não implica a desvalorização do passado, nem a amnésia do traumático, nem mesmo a absolvição superficial do traumatizador, mas sim a aceitação com pena, ódio e dor pela situação imodificável, pela perda sofrida, pela frustração vivida, o que possibilitaria o processamento de um luto normal. Entretanto, a pulsão de vida, pode utilizar o não esquecimento como algo estruturante, como aprendizado para proteger o sujeito e evitar situações que poderiam ser evitadas. O passado pode ser transformado em uma experiência de aprendizado.

Aprender o quê? O mais importante, de meu ponto de vista, é o aprendizado sobre a presença de um outro, diferente e singular – e, portanto, não necessariamente disponível para atender às nossas expectativas, necessidades e desejos. Como se costuma dizer: aprender que “os olmos não dão peras” é necessário, ainda que muito sofrido, desidealizar o outro e aceitar suas limitações… Difícil trabalho diante de tanta dor!

Milan Kundera, em “A Brincadeira”, coloca-nos diante do personagem que, conseguindo perpetrar sua vingança, pergunta-se o que fará agora de sua vida, como preencherá o espaço que durante anos foi ocupado pelo ressentimento e alimentado por ideais de vingança. Passara anos de sua vida imaginando como fazer o outro sofrer o que havia sofrido, e agora?

Na clínica, enfrentamos situações bastante difíceis e dolorosas. O paciente sofre de um ressentimento absolutamente compreensível por expectativas não cumpridas. Como evitar o conluio culpabilizador e propiciador de estagnação na situação vitimizante, sem desqualificar o enorme sofrimento, as vivências de falta, o ódio?

Outra dificuldade frequente é a desconfiança sempre presente, como que à espera onipresente do momento de outra traição, incompreensão ou maus tratos.  Da idealização possível, quando o paciente se sente bem tratado e compreendido, rapidamente um buraco pode abrir-se quando há momentos de incompreensão ou falha do analista. E, nesse processo que vai passo a passo, sessão por sessão, momento a momento, a dupla vai caminhando na esperança de poder encontrar possibilidades de elaboração do luto, de encontrar palavras para dizer o ainda não dito, emoções que possam ser pensadas e que indiquem o caminho a seguir.

Nilde Parada Franch é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, analista de crianças, adolescentes e adultos.

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