Mês: dezembro 2018

Sobre-humanos

*Adriana Rotelli Resende Rapeli

Recebi de meu filho mais novo uma mensagem: ele estava de luto pois Stan Lee, criador de super-heróis da Marvel, havia morrido aos 95 anos. Sei que ele tem gostado mais de Homem -Aranha. Como se fosse o próprio, cruza os prédios da grande cidade nos vertiginosos movimentos que o videogame lhe proporciona. Ele também está na fase de sua vida em que, como Peter Parker, ouve do tio: “Quanto mais poderes, maiores responsabilidades”. Vestir o traje de adulto, lançar suas teias e expandir seus domínios (sair da casa dos pais e da cidade natal, entrar na faculdade, escolher profissão, tirar sua habilitação de motorista, escolher outros amigos, namorar) é mesmo quase sobre-humano.

Os super-heróis de Stan Lee não são mera diversão. São pura diversão, aquela que não nos tira da realidade, mas como boas ficções, nos ligam à nossa realidade interna por outros caminhos. Parábolas para nossos próprias percalços, metáforas de nossa desafiante aventura de viver e de nos apossarmos de nossas capacidades e nossas fraquezas. A aventura de viver e assumir os riscos de existir com sua individualidade, nossa criatividade é a originalidade com que cada um desenvolve o que traz em si potencialmente.

Os heróis humanizados, como qualquer adulto, têm responsabilidades e ações consequentes. Eles são capazes de perder e ganhar, caírem muitas vezes e se levantarem –  talvez por isso, na ideia freudiana de um superego mais integrado, eles são capazes de rir e fazer rir. Eles têm o superpoder do bom humor, de rir de si mesmos, a capacidade de existirem apesar e por causa de suas diferenças: são aranhas, formigas ou panteras, são verdes ou negros, são feitos de pedra ou de ferro, são deste ou de outro planeta, são invisíveis, ou mudam de forma, viram fogo, voam, são estranhos ou são só o Coisa.  A possibilidade de identificação é gigantesca, a inevitável referência com o mundo globalizado que tem em sua sociedade – não só a americana –conflitos e a convivência democrática decorrentes da diversidade social e de raça, gênero e talentos. Ganhos e perdas de uma guerra infinita: o mundo eternamente precisando de salvação.

O dia que Stan Lee morreu foi o dia em que também fui assistir ao “Bohemian Rhapsody”, uma biografia de Freddie Mercury, o músico vocalista da banda de rock Queen. De ascendência paquistanesa – parsis que foram para a Índia – Farrouk Bulsara, nascido na África, estudou em Bombaim, tendo depois fugindo da guerra da Tanzânia e migrado para Inglaterra, para o subúrbio de Londres. Além de talentoso, era gay. São muitas as suas diferenças que Mercury ativamente se coloca e pode viver a excentricidade como talento de falar aos outros, de se mostrar no centro do palco como objeto de identificações.

A voz poderosa, seus gritos e gestos hiperbólicos marcam sua diferença que parece ter sido assumida com a força ativa do querer. Assenhorando-se dela, como majestade, o vôo de Mercury –  como o deus mitológico Hermes/ Mercúrio precisou ser mais rápido que os colegas de sua banda. Estes, também geniais, criativos, mas vindos socialmente de uma maior estabilidade, ingleses que estudavam engenharia, odontologia… Sim, todos eles precisaram pôr os pés na estrada e criaram um mundo em que as diferenças se fertilizam em arte.  É tudo fantasia ou a vida real?

De qualquer modo, fidedigno ou não aos fatos, o que se mostra no filme é que a performance musical da banda não é um escape à realidade. O processo criativo que culmina na música título do filme, por exemplo, é uma aventura que vai da lama criativa à fama. E nos divertimos com a confecção da colcha de retalhos que a música- eclética mistura de rock, ópera e o que mais vier – celebra em sua diversidade rítmica e sonora.  No meio de tudo, um filho que grita o perdão da sua mãe por ter se perdido no início de sua vida, despede-se do passado e encara a verdade.  “Is this real life? Is this just fantasy?”. 

Nosso herói, demasiado humano, sai da epopeia e entra na tragédia. Depois de também, como Peter Parker, ter sua Mary, ser o maior entre os seus, ele vive o drama de perder- se de si mesmo e fazer o penoso caminho de se reencontrar. Então, faz o caminho inverso agora da fama à lama, da adoração ao escárnio, do sucesso planetário à impotência diante de um vírus fatal. Indefeso, sofrendo da falta de imunidade, em sua via crucis, ele morre de seus próprios poderes. Nosso herói, como o nosso Cazuza fez e cantou, morre de overdose do mesmo vigor que lhe fez um rei. Como Freud nos lembra de nossas entidades míticas, Eros e Thânatos nos habitam, aqui e ali travam conflitos mortais.

Quando Queen e Freddie Mercury ficaram conhecidos mundialmente nos anos 1970 e 80, eu própria engatinhava nos passos que hoje meu filho faz e fui embalada pelo maestro da multidão que cantava que éramos todos os campeões. Viver é perigoso, dizia o herói do grande sertão de Guimarães Rosa. Como um homem comum, recuperado em sua humanidade, depois das multidões lhe aclamando, ele só precisa do prêmio de um amigo, de um amor. Afinal,  “é sobre-humano amar, sentir, doer, gozar, sentir, ser feliz”.[1]

[1]  Mais Simples,  canção de José Miguel Wisnick, de 1993, gravação de Zizi Possi, no CD Mais Simples, de 1996.

 

REFERÊNCIAS

  • FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ________ O humor (1927). In: _-. Edição standard das obras psicológicas completas, vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996
  • ROSA, J.G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra e psicanalista.

 

PENSAMENTOS SELVAGENS

*João Carlos Braga

Como muitos conceitos e formulações, a expressão pensamentos selvagens é encontrada tanto sendo utilizada como parte do pensamento psicanalítico quanto em linguagem leiga. Em ambas utilizações, o significado da expressão é convergente, mas há especificidades em seu uso como um referente em Psicanálise. Será este último o enquadre do que se segue.

 A) COLOCANDO EM PERSPECTIVA.

A contribuição de Wilfred R. Bion (1897-1978) à Psicanálise pode ser resumida na proposta de estudar o papel do pensar e dos pensamentos na teoria e na prática psicanalítica. Para isso, delimita a atividade do analista à observação e formulação da experiência que vive com seu (sua) analisando(a) na sessão analítica; ou seja, o campo de formação, captação e operacionalização de pensamentos, assim como os processos do pensar.

Em sua teoria do pensar (1962), Bion propôs uma inversão na forma tradicional de compreendermos os pensamentos e sua gênese: os pensamentos existem antes do pensar e é sua existência que cria a necessidade de desenvolvermos um “aparelho para pensar”. Esta teoria limita-se aos pensamentos formados a partir da experiência do indivíduo, ou seja, os pensamentos de um pensador.

Após fazer expansões em sua visão da mente com a teoria das transformações (1965), Bion propõe um novo parâmetro para os pensamentos, possivelmente apoiando-se em Gotlob Frege (1918): pensamentos existem independentemente dos pensadores. São realidades com existência própria e cabe ao pensador deixar-se acessar por eles. Mais uma vez, uma inversão na perspectiva tradicional.

Refere-se a esta visão de pensamentos sem pensador em poucos trabalhos subsequentes. Dentre estes, em um momento de livre pensar, gravado em fita cassete ao se preparar para os seminários que iria fazer em Roma (1977), faz uma espécie de classificação dos pensamentos sem pensador: pensamentos extraviados, pensamentos com nome e endereço do autor e pensamentos selvagens.

B) PENSAMENTOS SELVAGENS

Em Domesticando pensamentos selvagens [1977 (2016), p.39] descreve os pensamentos selvagens como a nomeação de uma conjunção constante que reúne um grupo de pensamentos com as seguintes características: i) para os quais não há possibilidade  de traçar de imediato qualquer tipo de propriedade (autor) e ii) para os quais não há possibilidade de se tomar conhecimento da genealogia deste pensamento.

Além destas características descritas por Bion, gostaria de acrescentar que são pensamentos que irrompem na mente subvertendo a camada de pensamentos organizados (civilizados, então), advindos de um contato direto com a realidade ou do funcionamento somático-fisiológico do indivíduo (mente primordial), provocando estranhamento, estados de repulsa, de medo ou mesmo de terror.

Em Psicanálise, o pensamento pensamentos selvagens permanece sem uma conceituação suficiente para reivindicar um valor científico. Penso que foi uma tentativa de Bion de abarcar, em um nível de maior abstração, diferentes manifestações diretas de pensamentos sem pensador. Penso também que o curto período em que esta concepção aparece em suas formulações (maio de 1977 a abril de 1978), deixa entrever o pequeno interesse do autor por ela. Por exemplo, não identifiquei registros de que ele a tenha utilizado, explicitamente, em supervisões em 1978, em São Paulo. Pode, porém, deliberadamente, tê-la deixado obscura, evitando conceituá-la para não a engessar, como nos apontou em várias passagens sobre cuidados na apropriação de pensamentos com características não simbólicas; ou que não identificou nela um maior potencial para explorações psicanalíticas. De fato, a aquisição de uma condição científica tornaria esta concepção pouco útil na prática clínica voltada ao tornar-se a realidade, embora seja útil para a comunicação entre psicanalistas – a dimensão do conhecer, pois.

Há três concepções de pensamentos selvagens que podemos deduzir convivendo nesta conjectura de Bion:

  1. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador capturados por um pensador – ou que capturam o pensador – sem história prévia de fazer parte do campo de conhecimento humano. Neste sentido, psicanálise, ao ser concebida e formulada por Freud, seria um exemplo. Situações clínicas em sessões analíticas, próprias a um evento único, seriam outros exemplos.
  2. Pensamentos selvagens são pensamentos sem pensador que se extraviaram na dimensão do conhecer, que ainda não foram domesticados pelo indivíduo que os captura (ou que por eles é capturado), embora já tenham sido anteriormente domesticados e formulados por autores conhecidos pelo pensador. O próprio pensamento pensamento selvagem pode ser um bom exemplo desta compreensão: um pensamento sem pensador extraviado, com proprietário (Bion) e endereço (Domesticando pensamentos selvagens, 1977), mas que é selvagem para o indivíduo que ainda não tomou conhecimento desta formulação.
  3. Pensamentos selvagens são pensamento sem um pensador que se extraviaram e que aparecem no campo do conhecer, sem que nele tenham adquirido um pensador ou que por este ainda não tenham sido adquiridos. Nesta compreensão, pensamentos selvagens seriam equacionados a coisas-em-si, a pensamentos sem pensador em estado originário, fora de nosso alcance e assim também fora de nossas possibilidades de com eles operar.

C) UM EXEMPLO CLÍNICO

Amália entra na sala de sessões, após nos encontrarmos na sala de espera, em um contato em que nada em especial chamara minha atenção. Seguindo-a, vejo-a sentada na beirada do divã fazendo movimentos de arrumar a blusa, ajeitando-a em torno do pescoço, com cuidado, para em seguida deitar-se. Cruza-me um pensamento inesperado: “arruma a gravata”. Fico surpreso e me percebo em um trabalho mental de fazer associações, de buscar significados em minha experiência de análise com ela. Ao tomar consciência deste esforço, busco manter minha mente livre, mas disponível para algum elemento que venha a surgir durante a sessão e que possa se conjugar com este pensamento e dar-lhe algum sentido. Nada digo a Amália sobre meu pensamento estranho.

João Carlos Braga é membro efetivo e analista didata da SBPSP e GPC.