Trauma: um conceito para o pensamento clínico contemporâneo

*Berta Hoffmann Azevedo

Comecemos com um paradoxo: sem assombro não há trabalho de representação, muito embora esse trabalho possa ficar impedido justamente por ele.
Assombro, palavra que tomo emprestado de Leopold Nosek, livre de conotações conceituais já circunscritas, que permite abraçar a exigência de trabalho psíquico que o novo impõe. É a falta que, ao assombrar a continuidade fusional, pode ser capaz de abrir espaço ao processo representativo. Ou o enigma sintomático, que pode colocar em marcha o processo analítico, e a busca por dar sentidos para o que assombra.

Por outro lado, há também um tipo de assombro que emudece, que impede qualquer narrativa, rompendo o tecido representacional e o trabalho de simbolização.
Freud em sua conferência 18 das Conferencias introdutórias (1916-1917) fala dos soldados que, retornando da I Guerra, repetiam em sonhos a situação traumática. Fenômeno próximo ao que nos conta Walter Benjamim sobre o silêncio dos que voltavam do horror.

A alteridade, aquela cuja aproximação pressupõe um desconhecimento irredutível, como outro universo, implica incursões arriscadas e aproximadas. Nossos instrumentos de apreensão sempre um tanto insuficientes.

O trabalho analítico aposta nisso, numa alteridade que está na base mesma do psíquico, cuja constituição passa pelo outro, sendo, portanto, cultural e mantendo em si mesmo o alheio, não apenas em um desconhecido inconsciente que emerge para retraduções, como também naquilo que precisa ser construído para ganhar qualquer sentido pela primeira vez.

A criação de sentido passa necessariamente por uma novidade, passa pelo contato com o outro que pode aportar significação, palavra, forma. Mas não só. Muitas vezes um encontro porta o traumático.

Desde as formulações de 20 em Freud, o trânsito no par representação de coisa- representação de palavra deixa de ser o único desafio do trabalho psicanalítico.

Freud nos lembra que o psiquismo não se organiza de antemão orientado pelo princípio de prazer, há condições prévias a essa configuração: a saber, a necessidade de ligação.

 

As moções pulsionais passam a ser pensadas como tendo destinos possíveis, sendo a elaboração representativa apenas um deles. Os autores da chamada Psicanálise contemporânea, nos termos que propõe André Green, debruçam-se sobre outras saídas para o representante psíquico da pulsão, que pode manifestar-se em ato, pela via alucinatória ou também no corpo, não apenas como conversão histérica, como também em formas mais próximas do que Freud propunha como neurose atual.

O sonho na neurose traumática é o exemplo da repetição incansável sem transformação elaborativa, que não alcança cumprir o papel de realização de desejo, até que a primeira tarefa de ligar possa ser realizada.

Há, portanto, funcionamentos psíquicos que não respondem ao princípio de prazer, seja por que ele é momentaneamente posto fora de ação, seja por que não pôde se instituir como organizador do psiquismo.

São movimentos que deram lugar à segunda tópica freudiana, sem que a primeira tenha por sua vez se tornado obsoleta. A escuta do que está no campo psíquico, do que diz respeito ao desejo e suas representações segue válido. Nem todo sonho é traumático, e nem todo sintoma é pura descarga. Nossa clínica diária dá provas disso.

Mas alguns o são. E a disposição para escutar aquilo que engancha na cicatriz do trauma e põe em xeque o princípio de prazer estende o alcance da Psicanálise para situações clínicas limites.

O traumático, presente em Freud já em seu Projeto para uma Psicologia científica, volta com força em suas teorizações após a experiência com a neurose traumática em seu Além do Princípio de Prazer, com o recorte clínico da compulsão à repetição. Junto dele, o conceito de dor também proposto por Freud, e muito valorizado por Pontalis, nos ajuda a elucidar essas situações limites na clínica.

Freud, em 1895, já falava que a dor causa no psiquismo um efeito tal como o de ser atingido por um raio, de maneira que uma facilitação é criada entre a inclinação à descarga e a imagem-mnêmica do objeto que excita a dor, e se essa imagem é em algum momento reinvestida, despertará como a original, a mesma tendência à fuga.

As vivências de dor e desamparo podem atrair o psiquismo sem, à diferença da fixação de prazer, permitir substituições e deslocamentos. Em algumas situações, o modelo da vivência de satisfação como organizador das repetições de prazer, é substituído pelo da dor.

Estamos num campo de excesso de intensidades que inunda o psíquico e coloca de lado o princípio de prazer. Há um rasgo na malha representativa, um furo, que, se reinvestido, causa dor, como bem argumenta Green para pensar o trabalho do negativo contra o próprio processo de representação.

Há em Freud mais de uma noção de traumático, ambas envolvendo conotações econômicas de excesso. Numa primeira formulação, ele está ligado ao après-coup, a esse golpe que dá origem ao sintoma. Em outra mais tardia, ele sublinha a tarefa urgente de ligação que fica por ser realizada e a compulsão à repetição instaurada como consequência. Tais formulações não refletem apenas tempos teóricos diversos, como respondem a problemas clínicos diferentes, ambos presentes em nosso fazer psicanalítico.

Será que o embaraço sexual histérico de um adolescente deve ser nomeado como traumático? Para o Freud da primeira tópica, certamente sim. Mas seria ele da mesma espessura que aquele de um paciente que nos chega com sentimentos de vazio e branco ou com uma tendência ao ato sem abertura associativa?

Num ou noutro sentido não me parece um evento corriqueiro, cuja radicalidade valha a pena ser perdida.

O traumático atuou como mola propulsora de teorizações importantes de autores como André Green, que ressaltam estar em jogo não apenas a existência do irrepresentado, e do irrepresentável, mas também do desinvestimento do processo representativo como consequência possível do traumático. São áreas que funcionam como disco riscado, áreas destruídas do psíquico sem marcas mnêmicas disponíveis, cujas cicatrizes tendem a irromper nas sessões de maneira desavisada, na forma de acontecimentos atuais. Áreas em que é preciso criar temporalidade psíquica ali onde encontramos tempo morto. Os vividos traumáticos, como sabemos, emergem na sessão, e há um valor de testemunho que a análise pode alcançar, ao afirmar o que se passou, nos termos que forem possíveis de se apresentar. Esses momentos resistem ao efeito de desmentido e podem levar à retomada de um movimento simbolizante.

O reconhecimento da heterogeneidade psíquica me parece imprescindível. Ela nos permite reconhecer a diferença em manejar a prisão de sentidos e o sem sentido. Para esse último é fundamental o analista implicado, no aspecto de contar com suas próprias associações e não apenas acompanhar o deslizamento de sentido que a associação do paciente possa conduzir. Assumir a complexidade oferecida pelas formulações de 1920, sem para isso abandonar a radicalidade das descobertas da chamada primeira tópica. É preciso articulá-las: um desafio ao pensamento clínico contemporâneo.

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. (2001) Proyecto de psicología. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, V.1. (Trabalho original publicado em 1950 [1895])

Freud, S. (2000) Conferencias de introducción al psicoanálisis. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1916-1917)

Freud, S. (2001) Más allá del principio de placer. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1920)

Green, A. (2001) El tiempo fragmentado. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 2000)

Nosek, L. A disposição para o assombro. São Paulo: Perspectiva, 2017.

Pontalis, J-B. (2005) Entre o sonho e a dor. Aparecida: Ideias & Letras (Trabalho original publicado em 1977).

 

Berta Hoffmann Azevedo é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro associado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente nos cursos “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, da SBPSP, e “Introdução à Psicanálise: Teoria e Clínica“, da Santa Casa de São Paulo. Autora do livro “Crise Pseudoepiléptica”, Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

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