Mês: novembro 2018

EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?

*Patricia Vianna Getlinger

Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora?

Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.

Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?

O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?

*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

 

Imagem: “Couple”, de Jarek Puczel.

Big Eyes e a Perversão Narcísica

*Vera Lamanno Adamo

A perversão narcísica diz respeito a um modo de se equilibrar fazendo valer à custa de um outro.

Enquanto, na estrutura perversa, o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica, o indivíduo recusa o valor do outro, para manter-se imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica, o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto, a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia e desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, onde suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane, retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava, em virtual escravidão, para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre, em São Francisco. Mais tarde, à noite, se encontraram.  Casaram-se pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo culpada pela separação, insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem suas produções. Eles estavam em uma espécie de salão, em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “Você também pinta?”. Ela ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela, para si mesmo.

Em casa, ela pediu para desmanchar esta mentira, para que ele revelasse a verdade, e Walter, se justificando, disse: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das “crianças de grandes olhos”, se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”.

Margaret cedeu à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela que não tinha paciência para ensiná-lo.

Margaret sentiu-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar desta impostura, solicitava a Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência.

Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

Nos anos 60, as pinturas, pôsteres e postcards de Margaret ganharam fama internacional e estavam em todos os lugares, como livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nesta casa, ela ficava trancada em seu atelier, onde ninguém podia entrar nem mesmo sua filha. Até mesmo os empregados não sabiam disto e quando Walter saia, ligava, de hora em hora, para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintava em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos casados, oito deles terríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo… você vai me destruir… eu só queria ser um pintor, só isto.”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas vinte ou trinta pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa e que dali em diante só falaria a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa e que, ao longo do tempo, foi ruindo ainda mais a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto, esta dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

O vampiro, figura mitológica, como sugerem as abundantes histórias na literatura, apresenta-se desde uma aparência repugnante, representada nas lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresenta diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa, com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cúmplice.

 

Referências

Martins, A. (2009) – Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica. Cad. Psicanal. – CPRJ. v.31, n.22, 37-56.

Parttrey, A., Nelson, C. (2014)- Citizen Kane: the big lies behind the big eyes. Feral House.

Racamier, P.C. (1992) – On Narcisistic Perversion. Int. Journal. Psychoanal., vol 95, 1, 119-132, 2014.

 

*Vera Adamo é membro efetivo, analista didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Trauma: um conceito para o pensamento clínico contemporâneo

*Berta Hoffmann Azevedo

Comecemos com um paradoxo: sem assombro não há trabalho de representação, muito embora esse trabalho possa ficar impedido justamente por ele.
Assombro, palavra que tomo emprestado de Leopold Nosek, livre de conotações conceituais já circunscritas, que permite abraçar a exigência de trabalho psíquico que o novo impõe. É a falta que, ao assombrar a continuidade fusional, pode ser capaz de abrir espaço ao processo representativo. Ou o enigma sintomático, que pode colocar em marcha o processo analítico, e a busca por dar sentidos para o que assombra.

Por outro lado, há também um tipo de assombro que emudece, que impede qualquer narrativa, rompendo o tecido representacional e o trabalho de simbolização.
Freud em sua conferência 18 das Conferencias introdutórias (1916-1917) fala dos soldados que, retornando da I Guerra, repetiam em sonhos a situação traumática. Fenômeno próximo ao que nos conta Walter Benjamim sobre o silêncio dos que voltavam do horror.

A alteridade, aquela cuja aproximação pressupõe um desconhecimento irredutível, como outro universo, implica incursões arriscadas e aproximadas. Nossos instrumentos de apreensão sempre um tanto insuficientes.

O trabalho analítico aposta nisso, numa alteridade que está na base mesma do psíquico, cuja constituição passa pelo outro, sendo, portanto, cultural e mantendo em si mesmo o alheio, não apenas em um desconhecido inconsciente que emerge para retraduções, como também naquilo que precisa ser construído para ganhar qualquer sentido pela primeira vez.

A criação de sentido passa necessariamente por uma novidade, passa pelo contato com o outro que pode aportar significação, palavra, forma. Mas não só. Muitas vezes um encontro porta o traumático.

Desde as formulações de 20 em Freud, o trânsito no par representação de coisa- representação de palavra deixa de ser o único desafio do trabalho psicanalítico.

Freud nos lembra que o psiquismo não se organiza de antemão orientado pelo princípio de prazer, há condições prévias a essa configuração: a saber, a necessidade de ligação.

 

As moções pulsionais passam a ser pensadas como tendo destinos possíveis, sendo a elaboração representativa apenas um deles. Os autores da chamada Psicanálise contemporânea, nos termos que propõe André Green, debruçam-se sobre outras saídas para o representante psíquico da pulsão, que pode manifestar-se em ato, pela via alucinatória ou também no corpo, não apenas como conversão histérica, como também em formas mais próximas do que Freud propunha como neurose atual.

O sonho na neurose traumática é o exemplo da repetição incansável sem transformação elaborativa, que não alcança cumprir o papel de realização de desejo, até que a primeira tarefa de ligar possa ser realizada.

Há, portanto, funcionamentos psíquicos que não respondem ao princípio de prazer, seja por que ele é momentaneamente posto fora de ação, seja por que não pôde se instituir como organizador do psiquismo.

São movimentos que deram lugar à segunda tópica freudiana, sem que a primeira tenha por sua vez se tornado obsoleta. A escuta do que está no campo psíquico, do que diz respeito ao desejo e suas representações segue válido. Nem todo sonho é traumático, e nem todo sintoma é pura descarga. Nossa clínica diária dá provas disso.

Mas alguns o são. E a disposição para escutar aquilo que engancha na cicatriz do trauma e põe em xeque o princípio de prazer estende o alcance da Psicanálise para situações clínicas limites.

O traumático, presente em Freud já em seu Projeto para uma Psicologia científica, volta com força em suas teorizações após a experiência com a neurose traumática em seu Além do Princípio de Prazer, com o recorte clínico da compulsão à repetição. Junto dele, o conceito de dor também proposto por Freud, e muito valorizado por Pontalis, nos ajuda a elucidar essas situações limites na clínica.

Freud, em 1895, já falava que a dor causa no psiquismo um efeito tal como o de ser atingido por um raio, de maneira que uma facilitação é criada entre a inclinação à descarga e a imagem-mnêmica do objeto que excita a dor, e se essa imagem é em algum momento reinvestida, despertará como a original, a mesma tendência à fuga.

As vivências de dor e desamparo podem atrair o psiquismo sem, à diferença da fixação de prazer, permitir substituições e deslocamentos. Em algumas situações, o modelo da vivência de satisfação como organizador das repetições de prazer, é substituído pelo da dor.

Estamos num campo de excesso de intensidades que inunda o psíquico e coloca de lado o princípio de prazer. Há um rasgo na malha representativa, um furo, que, se reinvestido, causa dor, como bem argumenta Green para pensar o trabalho do negativo contra o próprio processo de representação.

Há em Freud mais de uma noção de traumático, ambas envolvendo conotações econômicas de excesso. Numa primeira formulação, ele está ligado ao après-coup, a esse golpe que dá origem ao sintoma. Em outra mais tardia, ele sublinha a tarefa urgente de ligação que fica por ser realizada e a compulsão à repetição instaurada como consequência. Tais formulações não refletem apenas tempos teóricos diversos, como respondem a problemas clínicos diferentes, ambos presentes em nosso fazer psicanalítico.

Será que o embaraço sexual histérico de um adolescente deve ser nomeado como traumático? Para o Freud da primeira tópica, certamente sim. Mas seria ele da mesma espessura que aquele de um paciente que nos chega com sentimentos de vazio e branco ou com uma tendência ao ato sem abertura associativa?

Num ou noutro sentido não me parece um evento corriqueiro, cuja radicalidade valha a pena ser perdida.

O traumático atuou como mola propulsora de teorizações importantes de autores como André Green, que ressaltam estar em jogo não apenas a existência do irrepresentado, e do irrepresentável, mas também do desinvestimento do processo representativo como consequência possível do traumático. São áreas que funcionam como disco riscado, áreas destruídas do psíquico sem marcas mnêmicas disponíveis, cujas cicatrizes tendem a irromper nas sessões de maneira desavisada, na forma de acontecimentos atuais. Áreas em que é preciso criar temporalidade psíquica ali onde encontramos tempo morto. Os vividos traumáticos, como sabemos, emergem na sessão, e há um valor de testemunho que a análise pode alcançar, ao afirmar o que se passou, nos termos que forem possíveis de se apresentar. Esses momentos resistem ao efeito de desmentido e podem levar à retomada de um movimento simbolizante.

O reconhecimento da heterogeneidade psíquica me parece imprescindível. Ela nos permite reconhecer a diferença em manejar a prisão de sentidos e o sem sentido. Para esse último é fundamental o analista implicado, no aspecto de contar com suas próprias associações e não apenas acompanhar o deslizamento de sentido que a associação do paciente possa conduzir. Assumir a complexidade oferecida pelas formulações de 1920, sem para isso abandonar a radicalidade das descobertas da chamada primeira tópica. É preciso articulá-las: um desafio ao pensamento clínico contemporâneo.

 

REFERÊNCIAS

Freud, S. (2001) Proyecto de psicología. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, V.1. (Trabalho original publicado em 1950 [1895])

Freud, S. (2000) Conferencias de introducción al psicoanálisis. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1916-1917)

Freud, S. (2001) Más allá del principio de placer. In. S. Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1920)

Green, A. (2001) El tiempo fragmentado. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 2000)

Nosek, L. A disposição para o assombro. São Paulo: Perspectiva, 2017.

Pontalis, J-B. (2005) Entre o sonho e a dor. Aparecida: Ideias & Letras (Trabalho original publicado em 1977).

 

Berta Hoffmann Azevedo é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro associado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente nos cursos “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, da SBPSP, e “Introdução à Psicanálise: Teoria e Clínica“, da Santa Casa de São Paulo. Autora do livro “Crise Pseudoepiléptica”, Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.